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Universidade do Minho Escola de Psicologia Marina Moita Hintze O papel da emocionalidade da informação na memória de destino: Um estudo com frases positivas, negativas e neutras junho de 2019 UMinho | 2019 O papel da emocionalidade da informação na memória de destino: Um estudo com frases positivas, negativas e neutras Marina Hintze
Marina Moita Hintze O papel da emocionalidade da informação na memória de destino: Um estudo com frases positivas, negativas e neutras Dissertação de Mestrado Mestrado Integrado em Psicologia Trabalho realizado sob a orientação do Professor Doutor Pedro B. Albuquerque Universidade do Minho Escola de Psicologia junho de 2019
ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição-NãoComercial-SemDerivações CC BY-NC-ND https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/
iii Agradecimentos Aproxima-se o final dos cinco anos mais enriquecedores e desafiantes da minha vida e, por isso, é hora de agradecer a todos/as aqueles/as que contribuíram para que este percurso fosse uma experiência tão positiva e feliz. Em primeiro lugar, quero agradecer à minha família por me ensinar a lutar por aquilo que quero e por nunca me deixar faltar nada, principalmente amor. Nada disto seria possível se não fosse o vosso apoio em todos os momentos e decisões ao longo deste percurso (e de todos os outros). Quero agradecer ao Bruno por ser a pessoa com mais paciência que conheço e por estar ao meu lado em todos os meus (des)ânimos sem nunca hesitar. Obrigada por me levares a conhecer lugares bonitos e por seres o meu lugar bonito preferido. Agradeço à Ângela, por ser a companheira de todas as horas, por estar lá em todos os momentos. “Não importa quão grande é o teu império se não tens com quem partilhá-lo”, e este foi um ano em percebi o quão importante para mim é partilhar todas as minhas conquistas contigo. À Sílvia quero agradecer por estar presente em todos os momentos da minha vida e por ser a prova de que as amizades verdadeiras existem. Às minhas "Ninas" quero agradecer por toda a amizade, por todos os jantares e almoços e por todas as mensagens aleatórias. Obrigada por todos os momentos em que me fizeram muito feliz. Ao Pedro, à Maria Inês e à Joana quero agradecer por todos os abraços quentes e reconfortantes e por me alegrarem em todos os dias chuvosos (até mesmo os que o eram apenas dentro de mim). A todos elementos do Grupo de Investigação em Memória Humana quero agradecer por terem sido tão acolhedores e por terem contribuído tão positivamente para a minha evolução e do meu trabalho. Por fim, quero agradecer ao professor Pedro Albuquerque por toda a ajuda e orientação ao longe desta jornada. “Os alunos passam a apropriar-se do seu trabalho e isso chega a ser comovente”, não me esquecerei destas suas palavras. Sinto que me apropriei verdadeiramente deste trabalho muito devido à oportunidade de ter sido orientada por si porque incentivou que, ao longo desta trajetória, me questionasse, que quisesse mais e que nunca estivesse satisfeita com o mais ou menos. Agradeço-lhe por ter sido um dos melhores professores com quem tive oportunidade de aprender e por me colocar o “bichinho” da memória. Foi, sem dúvida, um privilégio ter sido sua aluna/orientanda.
iv DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. Universidade do Minho, 04/06/2019 Assinatura:________________________________________________________________
v O papel da emocionalidade da informação na memória de destino: Um estudo com frases positivas, negativas e neutras Resumo A memória de destino refere-se à capacidade de recordarmos a quem dissemos algo. As suas falhas devem-se ao facto de, ao transmitirmos uma informação, focarmos a nossa atenção em nós próprios e nos processos de transmissão dessa informação e não na pessoa a quem a destinamos. A emocionalidade do material parece torná-lo mais saliente, aumentando a atenção da pessoa para a informação, diminuindo consequentemente os recursos atencionais disponíveis para a associação facefacto. Este estudo pretendeu analisar o efeito da emocionalidade da informação na memória de destino. Quarenta participantes disseram frases neutras (e.g., “a janela é de madeira”), positivas (e.g., “a noiva está deslumbrante”) e negativas (e.g., “o funeral é amanhã”) a faces de desconhecidos. Posteriormente, realizaram dois testes de reconhecimento: um de memória de itens e outro de memória associativa. Os resultados mostraram melhor memória de destino quando as frases são emocionais em comparação com frases neutras. Quanto à memória de itens, verificamos que não existem diferenças no reconhecimento de frases emocionais (positivas e negativas) e frases neutras. Estes resultados contrariam as explicações da memória de destino que se baseiam no foco da atenção: a emocionalidade da informação favorece a memória de destino, mas não influencia a memória de itens. Palavras-chave: faces de desconhecidos, frases emocionais, memória de destino, reconhecimento
vi The role that emotionality of information plays in destination memory: A study with positive, negative and neutral sentences Abstract Destination memory is the capacity to remember to whom we said something. Failures in this type of memory are due to, while transmitting information, attention being focused in ourselves and in the transmission processes rather than on the person to whom it is destined. Emotionality of the material appears to enhance its salience, increasing the person’s attention to the information, and consequently diminishing available attentional resources to the face-fact association. This study intended to analyse the effect of information emotionality in destination memory. Forty participants stated neutral (e.g., “the window is of wooden”), positive (e.g., “the bride is gorgeous”) and negative (e.g., “the funeral is tomorrow”) sentences to unknown faces. Thereafter, two recognition tests were performed by the participants: an item memory test and an associative memory test. Results showed better destination memory for emotional sentences, comparatively to neutral sentences. Regarding item memory, there were found no significant differences in recognition between emotional sentences (positive and negative) and neutral sentences. Current results contradict explanations of destination memory based on the attention focus: emotionality of the information enhances destination memory, but it does not influence item memory. Keywords: destination memory, emotional sentences, recognition, unknown faces
vii Índice Introdução ........................................................................................................................................... 9 Método ............................................................................................................................................. 13 Participantes ............................................................................................................................... 13 Materiais e instrumentos ............................................................................................................. 13 Inventário de Depressão de Beck II ......................................................................................... 13 Perfil de Estados de Humor .................................................................................................... 14 Estímulos: frases .................................................................................................................... 14 Estímulos: faces ..................................................................................................................... 15 Plano experimental ...................................................................................................................... 15 Procedimento .............................................................................................................................. 16 Resultados ....................................................................................................................................... 18 Memória de destino ..................................................................................................................... 18 Memória de itens ......................................................................................................................... 19 Discussão......................................................................................................................................... 21 Limitações do estudo ................................................................................................................... 22 Referências ...................................................................................................................................... 24 Anexo ............................................................................................................................................... 27 Índice de tabelas Tabela 1 Médias e desvios padrões (entre parêntesis) relativos às variáveis valência, ativação, dominância e identificação emocional das frases com conteúdo positivo, negativo e neutro. .............. 15 Tabela 2 Desempenho da memória de destino em função do tipo de frase. ........................................19 Tabela 3 Desempenho do reconhecimento das frases em função do tipo de frase. ............................ 20
MEMÓRIA DE DESTINO E A EMOCIONALIDADE DA INFORMAÇÃO 14 presença poderia provocar o aumento da atenção dos participantes para as frases emocionais (Baert, De Raedt e Koster, 2010) e, consequentemente, produzir interferência nos resultados. Perfil de Estados de Humor. Este instrumento (Viana e cols., 2001) avalia os estados emocionais e de humor. É composto por 36 itens, distribuídos por seis escalas: tensão, depressão, hostilidade, vigor, fadiga e confusão. Estes itens são respondidos através de uma escala de Likert de 5 pontos que varia entre 0 (nada) e 4 (muitíssimo). Foi administrado antes e após a experiência, como controlo da manutenção do estado de humor dos participantes após a realização do procedimento. Estímulos: frases. Foram usadas neste estudo 48 frases. As frases utilizadas foram extraídas do artigo de Pinheiro, Dias, Pedrosa e Soares (2017). A seleção das frases foi feita em função da valência emocional, ativação, dominância e identificação da emoção implícita na frase. Esta análise teve como principal intuito garantir que as frases apresentavam três valências distintas (positiva, negativa e neutra), e que estas eram bem identificadas pelos participantes. Assim, considerando a valência das frases, avaliada por Pinheiro e cols. (2017) numa escala que variou entre 1 (extremamente negativa) a 9 (extremamente positiva), selecionamos como frases positivas aquelas cuja avaliação da valência se situava acima do valor 7,5 (e.g., “o bolo está divinal”); negativas as situadas abaixo de 2,5 (e.g., “a cidade é assustadora”); e neutras aquelas cujos valores variaram entre 4,25 e 5,75 (e.g., “a senhora comprou farinha”). Assim, das 48 frases escolhidas, 16 tinham valência positiva, 16 valência negativa e 16 valência neutra. Para confirmar que as frases diferiam quanto à valência, efetuamos uma ANOVA unifatorial cujos resultados revelaram diferenças entre as frases consideradas, F (2, 45) = 2269, p < 0,001 , η p 2 = 0,99 (ver Tabela 1). Realizamos também comparações par-a-par entre as valências médias de cada tipo de frase, verificando-se que existem diferenças significativas entre todas elas (todos os p < 0,001). Procuramos também perceber se a identificação da emoção associada a cada frase era mais fácil para algum tipo de frases. Esta análise foi baseada na percentagem de identificação correta da valência emocional das frases (Pinheiro e cols., 2017). A análises efetuadas através de uma ANOVA unifatorial revelam não existirem diferenças significativas entre as condições, F (2, 45) = 0,77, p = 0,47 , η p 2 = 0,03 (ver Tabela 1). Tendo em conta o escasso número de frases disponíveis em cada uma das valências que permitisse manter constantes os valores de ativação e dominância, efetuamos análises para verificar o sentido das diferenças de médias destas duas variáveis para as frases selecionadas para cada valência.
MEMÓRIA DE DESTINO E A EMOCIONALIDADE DA INFORMAÇÃO 15 Quanto à ativação , efetuamos também uma ANOVA unifatorial, a partir da qual verificamos a existência de diferenças significativas entre as condições, F (2, 45) = 111,80, p < 0,001 , η p 2 = 0,83. Foi possível observar diferenças significativas quanto aos níveis médios de ativação entre as frases negativas e positivas e negativas e neutras (ambos os p < 0,001), e entre as positivas e neutras ( p = 0,002). Da mesma forma, foi analisada a dominância verificando-se também a existência de diferenças significativas entre as condições, F (2, 45) = 551,30, p < 0,001 , η p 2 = 0,96. Foi possível observar diferenças significativas de dominância entre todos os tipos de frases (todos os p < 0,001). Tabela 1 Médias e desvios padrões (entre parêntesis) relativos às variáveis valência, ativação, dominância e identificação emocional das frases com conteúdo positivo, negativo e neutro Estímulos: faces. As faces caucasianas utilizadas neste estudo foram retiradas da Chicago Face Database (Ma, Correll e Wittenbrink, 2015). Das 48 faces selecionadas, metade eram masculinas e metade femininas, com idade média de 25 anos. Considerando estudos anteriores que indicam que a presença de características distintivas da face influencia a memória de destino (Barros, 2018), excluímos faces com características distintivas (e.g., cabelo cor-de-rosa). Plano experimental A variável independente deste estudo, manipulada num plano intraparticipante, foi a valência emocional das frases com três condições: frases positivas (e.g., “a massagem foi relaxante”), negativas (e.g., “a carne está podre”) e neutras (e.g., “o prédio está em construção”). Como referido anteriormente, neste estudo foram utilizadas 48 frases e 48 faces. Os estímulos foram divididos em quatro listas (A, B, C e D) com o objetivo de contrabalancear o modo como os estímulos eram apresentados no decurso da experiência (distratores, alvos, pares emparelhados ou pares re-emparelhados). Por exemplo, para o participante 1, a lista A correspondia a estímulos-alvo do Positivas Negativas Neutras Valência 7,75 (0,27) 1,99 (0,30) 5,03 (0,13) Ativação 4,65 (0,82) 6,62 (0,35) 3,97 (0,17) Dominância 6,74 (0,32) 3,09 (0,40) 5,57 (0,20) Identificação 84,05 (3,10) 82,27 (6,86) 82,24 (3,24)
MEMÓRIA DE DESTINO E A EMOCIONALIDADE DA INFORMAÇÃO 16 teste de item, a lista B a distratores do teste de item e as listas C e D a pares face-frase, metade emparelhados e metade re-emparelhados no teste de memória associativa. Para o participante 2, as listas A e B correspondiam a pares face-frase do teste de memória associativa, a lista C a distratores do teste de item e a lista D a estímulos-alvo do teste de item. As variáveis dependentes deste estudo foram o desempenho no teste de memória associativa e o desempenho no teste de memória de itens, traduzidos na proporção de acertos corrigidos, ou seja, na diferença entre a proporção de acertos e falsos alarmes. No teste de memória associativa, usado para mediar a memória de destino, os acertos correspondiam às respostas em que o participante respondeu "antigo" a um par face-frase emparelhado na fase de estudo (resposta correta), enquanto que no teste de memória de itens correspondiam às respostas em que o participante respondeu "antigo" a um item apresentado na fase de estudo (resposta correta). Já os falsos alarmes, no teste de memória associativa, correspondiam às respostas em que o participante respondeu "antigo" a um par face-frase não associado na fase de estudo (resposta incorreta) enquanto que, no teste de memória de itens correspondiam às respostas em que o participante respondeu "antigo" a um item não apresentado na fase de estudo (resposta incorreta). Procedimento Inicialmente, foi administrado a todos os participantes o Inventário de Depressão de Beck II (Campos e Gonçalves, 2011) e o Perfil de Estados de Humor (Viana e cols., 2001). De seguida deu-se início à fase de estudo, tendo os participantes sido instruídos de que teriam de “contar” frases a faces de diferentes pessoas, sem que lhes fosse comunicado que haveria posteriormente um teste de memória. A fase de estudo foi constituída por 36 ensaios e cada ensaio começou com a apresentação de uma cruz de fixação de cor preta exibida contra um fundo branco durante 1000ms. De seguida foi apresentada uma frase, escrita em letras minúsculas pretas de tamanho 14, contra um fundo branco. O participante lia a frase silenciosamente e decorava-a. Quando entendia que sabia a frase de cor, pressionava a barra de espaços, surgindo uma tela em branco durante 250ms, seguida da apresentação de uma face a cores. Nesse momento, o participante tinha de dizer à face exposta, em voz alta, a frase que tinha acabado de decorar. Este procedimento foi repetido até os participantes contarem 36 frases (12 frases negativas, 12 frases positivas e 12 frases neutras) a 36 faces (18 femininas e 18 masculinas). Todo o procedimento foi programado na versão do Superlab 5.0 (Cedrus, 2019). Após a fase de estudo, e como já foi referido, os participantes realizaram de forma contrabalanceada dois testes de reconhecimento, um de memória de itens e outro de memória
MEMÓRIA DE DESTINO E A EMOCIONALIDADE DA INFORMAÇÃO 17 associativa. Para evitar a contaminação entre as tarefas de reconhecimento, os itens testados na prova de memória de itens não foram testados na prova de memória associativa. No teste de memória de itens, 24 frases (8 frases positivas, 8 frases negativas e 8 frases neutras) e 24 faces (12 femininas e 12 masculinas) foram apresentadas individualmente, sem limite de tempo e de forma aleatória. Metade das frases (4 frases positivas, 4 frases negativas e 4 frases neutras) e das faces (6 femininas e 6 masculinas) tinham sido previamente apresentadas na fase de estudo aos participantes e a outra metade eram novas. Para cada item (frase ou face), o participante deveria indicar se este foi apresentado na fase de estudo (pressionando tecla “z”) ou se era novo (pressionando tecla “m”). Após cada resposta, aparecia uma tela em branco durante 250ms e iniciava-se um novo ensaio. No teste de memória associativa foram apresentados 24 pares face-frase. Metade dos pares correspondiam a faces e frases previamente associadas na fase de estudo e a outra metade não. Cada par face-frase foi apresentado simultaneamente, com a frase exposta por baixo da face. Para cada par, o participante tinha de indicar se contou aquela frase àquela pessoa (pressionando tecla “z”) ou não (pressionando tecla “m”). Após cada resposta, uma tela em branco era exposta durante 250ms e iniciava-se um novo ensaio. Na Figura 1 está representado o esquema do procedimento experimental referente à fase de estudo, teste de memória de itens e teste de memória associativa. Figura 1 . Esquema do procedimento experimental correspondente à fase de estudo, teste de memória de itens e teste de memória associativa. Após a realização dos dois testes de memória, e porque o material apresentado apresentava conteúdo emocional negativo, foi apresentado um vídeo de dessensibilização (Sousa, 2014) com a função de neutralizar a possível ativação emocional negativa provocada pela exposição dos participantes
MEMÓRIA DE DESTINO E A EMOCIONALIDADE DA INFORMAÇÃO 18 a este tipo de informação. Após a observação do vídeo, foi novamente administrado o Perfil de Estados de Humor (Viana e cols., 2001). Por último, foram fornecidas informações pós-experimental aos participantes (e.g., objetivos gerais do estudo). O procedimento teve a duração aproximada de 25 minutos. Resultados A análise dos dados foi realizada através do programa estatístico JASP 0.9.1 (JASP Team, 2018). Para todos os testes estatísticos foi aplicado um nível de significância de 0,05. Memória de destino Com o objetivo de perceber qual o efeito da emocionalidade da informação (frases emocionais vs. frases neutras) na memória de destino foi efetuado um Teste-t de Student para amostras emparelhadas, com base na proporção de acertos corrigidos, ou seja, a diferença entre a proporção de acertos e falsos alarmes (El Haj e cols., 2015). A comparação de médias revela diferenças significativas entre as duas condições em estudo, t (39) = 3,25, p = 0,002, d de Cohen = -0,51, IC a 95% [-0,84, - 0,18], evidenciando os participantes uma melhor memória de destino para frases emocionais ( M = 0,25, DP = 0,25) do que para frases neutras ( M = 0,08, DP = 0,28) (ver Figura 2). Figura 2. Proporção de acertos corrigidos relativos ao desempenho da memória de destino para informação neutra ou emocional. As barras de erro representam o desvio-padrão. Seguidamente, e tendo em vista a deteção de alguma especificidade na memória de destino para 0,00 0,10 0,20 0,30 0,40 0,50 0,60 0,70 0,80 0,90 1,00 Frases neutras Frases emocionais Acertos corrigidos
MEMÓRIA DE DESTINO E A EMOCIONALIDADE DA INFORMAÇÃO 19 o material com conteúdo emocional, procuramos perceber se existiam diferenças no desempenho da memória de destino entre as frases positivas, negativas e neutras, com base na proporção de acertos corrigidos. Através de uma ANOVA unifatorial para medidas repetidas, foram verificadas diferenças significativas entre as três condições, F (2, 78) = 4,08, p = 0,02, η p 2 = 0,10. Os testes de comparação de médias mostraram que apenas existiam diferenças significativas no desempenho de memória de destino entre as frases negativas e as frases neutras, t (39) = 3,74, p = 0,002, d de Cohen = 0,59, IC a 95% [0,25, 0,93]. A comparação entre o desempenho de memória de destino para frases negativas e positivas não revelou diferenças significativas, t (39) = 0,74, p = 1,00, d de Cohen = 0,12, IC a 95% [-0,20, 0,43], assim como a comparação entre frases neutras e positivas, t (39) = -1,81, p = 0,24, d de Cohen = -0,27, IC a 95% [-0,60, 0,03]. Na Tabela 2 estão apresentados os valores médios e desvios padrões de acertos, falsos alarmes e acertos corrigidos, relativos ao desempenho da memória de destino, em função do tipo de frase. Tabela 2 Desempenho da memória de destino em função do tipo de frase Nota. Os desvios-padrão estão representados entre parêntesis. Memória de itens A análise da memória de itens teve como objetivo principal perceber se existiam diferenças na capacidade de reconhecimento dos diferentes tipos de frase 2 . Desta forma seria mais fácil clarificar uma possível relação entre a memória para cada tipo de frase e a memória de destino a ele associada. Assim, começamos por analisar a capacidade de reconhecimento das frases em função da emocionalidade comparando o desempenho para frases emocionais e neutras. Através da realização de 2 Neste estudo as características das faces apresentadas não foram objeto de qualquer manipulação (e.g., variação de expressão emocional, presença de elementos distintivos, etc.) com efeito expectável na memória de destino. Neste sentido, e com base nos acertos corrigidos aplicado ao teste de memória de itens, foi apenas comparada a memória para faces ( M = 0,52, DP = 0,22) com a memória para frases ( M = 0,75 , DP = 0,18), sendo possível verificar diferenças significativas entre estes dois tipos de estímulo, t (39) = -5,91, p < 0,001, d de Cohen = -0,94, IC a 95% [-1,30, -0,56]. Acertos Falsos Alarmes Acertos Corrigidos Frases Neutras 0,49 (0,22) 0,41 (0,23) 0,08 (0,28) Frases Positivas 0,59 (0,29) 0,37 (0,28) 0,22 (0,44) Frases Negativas 0,63 (0,24) 0,34 (0,21) 0,28 (0,28)
MEMÓRIA DE DESTINO E A EMOCIONALIDADE DA INFORMAÇÃO 20 um Teste-t de Student para amostras emparelhadas, e com base na proporção de acertos corrigidos, foi possível verificar que não existem diferenças significativas entre as duas condições, t (39) = -0,59, p = 0,59, d de Cohen = -0,10, IC a 95% [-0,40, 0,22] (ver Figura 3). Figura 3. Proporção de acertos corrigidos relativos ao reconhecimento de frases neutras e frases emocionais. As barras de erro representam o desvio-padrão da média. De seguida procedemos a uma análise da capacidade de reconhecimento para os três tipos de frases. Para tal recorremos a uma ANOVA unifatorial para medidas repetidas, com base na proporção de acertos corrigidos. Foi possível verificar que não existem diferenças entre as condições estudadas, F (2, 78) = 2,29, p = 0,11, η p 2 = 0,06. Na Tabela 3 estão apresentados os valores médios e desvios padrões de acertos, falsos alarmes e acertos corrigidos, relativos ao reconhecimento das frases, em função do tipo de frase. Tabela 3 Desempenho do reconhecimento das frases em função do tipo de frase Nota. Os desvios padrões estão representados entre parêntesis. Acertos Falsos Alarmes Acertos Corrigidos Frases Neutras 0,80 (0,24) 0,02 (0,07) 0,78 (0,25) Frases Positivas 0,76 (0,23) 0,06 (0,11) 0,70 (0,25) Frases Negativas 0,84 (0,22) 0,03 (0,13) 0,81 (0,26) 0,00 0,20 0,40 0,60 0,80 1,00 Frases neutras Frases emocionais Acertos corrigidos
MEMÓRIA DE DESTINO E A EMOCIONALIDADE DA INFORMAÇÃO 21 Discussão O presente estudo teve como principal objetivo perceber qual o efeito da emocionalidade da informação na memória de destino. Seguindo um paradigma de investigação semelhante ao utilizado por Gopie e MacLeod (2009), os participantes disseram frases emocionalmente positivas, negativas e neutras a faces de pessoas desconhecidas. Depois de o terem feito, responderam de forma contrabalanceada a dois testes de memória: um teste de memória de itens e um teste de memória associativa. Começando por analisar os resultados obtidos no teste de memória associativa, o presente estudo mostrou melhor memória de destino para frases emocionais em comparação com frases neutras. Foi ainda possível verificar uma melhor memória de destino quando as frases eram negativas em comparação com as neutras, não se verificando diferenças na memória de destino entre as frases positivas e os restantes dois tipos de frases. De acordo com a hipótese do autofoco proposta por Gopie e MacLeod (2009), seria de esperar que os participantes centrassem menos a sua atenção nas frases emocionais, particularmente nas negativas, e em si próprios enquanto transmissores da informação, libertando mais recursos atencionais para a codificação da face da pessoa a quem destinaram a frase e para associação face-frase, resultando assim numa melhor memória de destino. Para explorarmos mais os resultados e partindo do pressuposto de que um melhor desempenho na memória de destino estaria associado a uma pior memória para um determinado tipo de frase, analisamos as taxas de reconhecimento de frases através do teste de memória de itens. Contrariamente ao esperado, verificamos que não existiam diferenças na capacidade de reconhecimento dos participantes entre as frases emocionais e as frases neutras. Constatamos também que não existiam diferenças de reconhecimento entre os diferentes tipos de frase (negativas, positivas e neutras). Estas evidências parecem sugerir que o facto de recordarmos melhor a associação entre as frases negativas e a pessoa a que as dissemos não parece depender de uma melhor memória para as frases. Este dado aponta para a possibilidade da memória associativa envolver processos diferentes e dissociados dos envolvidos na memória de itens (Mather, 2007). Por conseguinte, as evidências deste estudo relativas à melhor memória de destino para frases emocionais parecem relacionar-se com o facto da emocionalidade da frase promover um fortalecimento da ligação ou associação entre a frase transmitida e a face da pessoa a quem a transmitimos e não com a hipótese do autofoco . Este fortalecimento da associação e dos mecanismos que o suportam foi já evidenciado nos estudos de Hadley e MacKay (2006) e MacKay e Ahmetzanov (2005) com palavras-tabu (e.g., palavrões). Estes dois estudos mostraram que a emocionalidade da palavra espoleta uma cadeia de reações emocionais (e.g., ativação emocional) que facilita e prioriza a ligação entre o estímulo
MEMÓRIA DE DESTINO E A EMOCIONALIDADE DA INFORMAÇÃO 22 emocional (e.g., palavrão) e o contexto do episódio (e.g., cor de escrita ou localização da palavra), resultando numa melhor memória para a associação estímulo-contexto. Sendo a memória de destino uma componente da memória episódica, como propõe Gopie e MacLeod (2009), pressupõe-se que este tipo de memória depende da criação de uma associação entre a informação transmitida e o seu contexto (pessoa ou pessoas a quem se destina a informação). Assim, é possível especular que um fenómeno semelhante ao descrito por Hadley e MacKay (2006) e MacKay e Ahmetzanov (2005) possa ter acontecido na associação das frases emocionais (e.g., estímulo emocional) com as faces (e.g., contexto do episódio) na memória de destino. Já o facto de ter sido verificada melhor memória de destino para frases negativas em comparação com neutras parece dever-se ao facto das frases negativas estarem associadas a níveis mais altos de ativação emocional, favorecendo a associação face-frase. Deste modo, a ausência de diferenças na memória de destino entre as frases positivas e os restantes tipos de frases parece sugerir que as diferenças no desempenho de memória de destino apenas se verificam na comparação entre frases em que a diferença do nível de ativação é maior, já que as frases positivas apresentavam um nível de ativação intermédio. Neste sentido, é possível que o benefício na memória de destino para frases negativas possa não ser apenas atribuído à sua valência, mas também à ativação emocional que provocaram no participante (MacKay e Ahmetzanov, 2005; MacKay e cols., 2004). Contudo, o benefício emocional na memória de destino para jovens adultos encontrado no presente estudo diverge do estudo de El Haj e cols. (2015) em que foi manipulada a emoção facial expressa pela pessoa a quem a informação era contada. No seu conjunto estes estudos parecem mostrar que a emoção apenas se apresenta como facilitadora na memória de destino de jovens adultos quando se constitui como característica da informação transmitida e não da face do recetor da informação. Em síntese, o presente estudo mostra que existe um benefício no desempenho da memória de destino para frases emocionais em jovens adultos, especialmente para frases negativas, contribuindo para o conhecimento do impacto que as emoções podem ter na memória de destino e nas nossas vidas. Limitações do estudo O recurso a faces desconhecidas exigiu dos participantes um esforço maior de codificação e atenção para a face. Ao fazê-lo pode ter ocorrido ofuscação ou atenuação dos efeitos das manipulações consideradas neste estudo. Uma forma de colmatar esta limitação seria através da utilização de uma base de faces de famosos (familiares à população portuguesa), semelhante à que tem sido usada noutros estudos (El Haj e cols., 2015; Lima, Albuquerque e Beato, 2019; Pinto e Albuquerque, 2019). Os valores
MEMÓRIA DE DESTINO E A EMOCIONALIDADE DA INFORMAÇÃO 23 reduzidos de acertos que se verificaram na tarefa de memória associativa parecem refletir esta limitação. Também, o facto de não poder ter sido controlado o nível de ativação emocional provocada pelas frases revelou-se uma limitação deste estudo. Assim, sugerimos que de futuro se realize um estudo com recurso apenas a frases de uma valência (e.g., negativa) com diferentes níveis de ativação emocional, com o objetivo de perceber se o benefício da memória de destino se deve ao facto das frases serem de valências emocionais distintas ou à ativação por elas provocada.