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Perceções sobre a institucionalização em Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas

Portela, Tatiana Melissa Pereira

Abstract

Vivemos num mundo cada vez mais envelhecido, onde o número de idosos aumenta de forma exponencial, introduzindo alterações na estrutura etária de vários países. Portugal, tal como muitos outros países, também assiste a um aumento da sua população idosa. Perante este aumento do número de idosos e face à disponibilidade cada vez mais reduzida e falta de preparação dos seus familiares para prestarem cuidados aos mesmos, acaba por existir uma procura de instituições aptas para cuidarem dos idosos. Neste sentido, optámos por abordar a institucionalização dos idosos nas Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas (ERPI) em Portugal, de forma a tentarmos perceber mais acerca deste tema que, por vezes, é sensível e acaba por ser controverso. Do ponto de vista metodológico, recorremos ao método quantitativo usando como instrumento o inquérito por questionário, divulgado na rede social Facebook, de forma a percebermos as perceções das pessoas acerca do processo de institucionalização, com particular destaque para a ERPI. Através deste trabalho pretende-se, essencialmente, contribuir para o aumento do conhecimento sobre o processo de institucionalização na ERPI, através da exploração das perceções das pessoas sobre esse processo e explorar a opinião das pessoas acerca da atuação das instituições destinadas a idosos durante a pandemia, de forma a possibilitar ao mesmo tempo a melhoria da atuação das mesmas. Em síntese, o estudo desenvolvido permitiu verificar que a institucionalização dos idosos, sobretudo na ERPI, nem sempre é a primeira opção para os idosos e seus familiares, mas acaba por se tornar a única alternativa devido à indisponibilidade para a prestação de cuidados por parte dos seus familiares em virtude da sua inserção no mercado de trabalho, sendo posteriormente destacado que a institucionalização acabou por ser algo positivo. Constatamos igualmente uma boa abertura das pessoas para alternativas inovadoras à institucionalização na ERPI, o que para nós representa algo bastante positivo.

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Tatiana Melissa Pereira Portela Perceções sobre a institucionalização em Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas Junho de 2022 UMinho | 2022 Tatiana Melissa Pereira Portela Perceções sobre a institucionalização em Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas Instituto de Ciências Sociais Instituto de Ciências Sociais Tatiana Melissa Pereira Portela Perceções sobre a institucionalização em Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas Dissertação de Mestrado Crime, Diferença e Desigualdade Trabalho efetuado sob a orientação do Professor Doutor José Cunha Machado Junho de 2022 DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição CC BY https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/ iii AGRADECIMENTOS Em primeiro lugar agradeço ao meu orientador, Professor Doutor José Cunha Machado por todo o apoio prestado, tempo despendido e conhecimentos transmitidos durante este período. Quero também agradecer à minha família, sobretudo aos meus pais e avós que sempre me apoiaram e deram força neste processo. Por fim, agradecer aos meus amigos pela paciência que tiveram comigo. A todos os que me apoiaram, muito obrigada. iv DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. v Perceções sobre a institucionalização em Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas RESUMO Vivemos num mundo cada vez mais envelhecido, onde o número de idosos aumenta de forma exponencial, introduzindo alterações na estrutura etária de vários países. Portugal, tal como muitos outros países, também assiste a um aumento da sua população idosa. Perante este aumento do número de idosos e face à disponibilidade cada vez mais reduzida e falta de preparação dos seus familiares para prestarem cuidados aos mesmos, acaba por existir uma procura de instituições aptas para cuidarem dos idosos. Neste sentido, optámos por abordar a institucionalização dos idosos nas Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas (ERPI) em Portugal, de forma a tentarmos perceber mais acerca deste tema que, por vezes, é sensível e acaba por ser controverso. Do ponto de vista metodológico, recorremos ao método quantitativo usando como instrumento o inquérito por questionário, divulgado na rede social Facebook, de forma a percebermos as perceções das pessoas acerca do processo de institucionalização, com particular destaque para a ERPI. Através deste trabalho pretende-se, essencialmente, contribuir para o aumento do conhecimento sobre o processo de institucionalização na ERPI, através da exploração das perceções das pessoas sobre esse processo e explorar a opinião das pessoas acerca da atuação das instituições destinadas a idosos durante a pandemia, de forma a possibilitar ao mesmo tempo a melhoria da atuação das mesmas. Em síntese, o estudo desenvolvido permitiu verificar que a institucionalização dos idosos, sobretudo na ERPI, nem sempre é a primeira opção para os idosos e seus familiares, mas acaba por se tornar a única alternativa devido à indisponibilidade para a prestação de cuidados por parte dos seus familiares em virtude da sua inserção no mercado de trabalho, sendo posteriormente destacado que a institucionalização acabou por ser algo positivo. Constatamos igualmente uma boa abertura das pessoas para alternativas inovadoras à institucionalização na ERPI, o que para nós representa algo bastante positivo. Palavras-Chave: Envelhecimento; Estrutura Residencial para Pessoas Idosas (ERPI); Institucionalização; Respostas Sociais. vi Perceptions about institutionalization in Residencial Structures for Elderly People ABSTRACT We live in an increasingly aging world, where the number of elderly people increases exponentially, introducing changes in the age structure of several countries. Portugal, like many other countries, is also witnessing an increase in its elderly population. Faced with this increase in the number of elderly people and given the lower availability and lack of preparation of their families to provide care for them, there is a demand for institutions capable of taking care of the elderly. In this sense, we chose to address the institutionalization of the elderly in Residential Structures for Elderly People (ERPI) in Portugal, in order to try to understand more about this topic that is sometimes sensitive and ends up being controversial. From a methodological point of view, we used the quantitative method using the questionnaire survey as an instrument, published on the social network Facebook, in order to understand people's perceptions about the institutionalization process, with particular emphasis on ERPI. Through this work, it is essentially intended to contribute to an increase of knowledge about the institutionalization process in ERPI, by exploring people's perceptions about this process and exploring people's opinion about the performance of institutions for the elderly during the pandemic, in order to enable, at the same time, the improvement of their performance. In summary, the study developed allowed us to verify that the institutionalization of the elderly, especially in ERPI, is not always the first option for seniors and their families, but ends up becoming the only alternative due to the unavailability for the provision of care by the relatives, due to their insertion in the labor market. Subsequently, is highlighted that institutionalization turns out to be something positive. We also verified a good openness of people to innovative alternatives to institutionalization in ERPI, which for us represents something very positive. Keywords: Aging; Residential Structure for the Elderly (ERPI); Institutionalization; Social Responses. vii Índice Introdução ....................................................................................................................... 11 1. Enquadramento teórico ............................................................................................... 15 1.1. A velhice e o envelhecimento ............................................................................... 15 1.1.1. O conceito de envelhecimento ........................................................................ 15 1.1.2. Alterações provocadas pelo envelhecimento .................................................. 17 1.1.3. A realidade do envelhecimento demográfico no mundo e em Portugal ......... 19 1.1.4. Velhice e seus estereótipos ............................................................................. 21 1.2. Respostas sociais para idosos ............................................................................... 22 1.2.1. O Centro de Dia (CD) ..................................................................................... 26 1.2.2. O Serviço de Apoio Domiciliário (SAD) ....................................................... 28 1.2.3. Estrutura Residencial para Pessoas Idosas (ERPI) ......................................... 30 1.3. A institucionalização dos idosos: o caso particular das ERPI .............................. 33 1.3.1. Diferentes visões do processo de institucionalização na ERPI ....................... 33 1.3.2. Motivos que levam à institucionalização do idoso na ERPI ........................... 37 1.3.3. Implicações da institucionalização e aspetos positivos e negativos ............... 38 1.4. Alternativas inovadoras à institucionalização dos idosos em ERPI ..................... 42 2. Metodologia ................................................................................................................ 52 2.1. Objetivos ............................................................................................................... 52 2.2. Instrumento ........................................................................................................... 53 2.3. Aplicação e recolha ............................................................................................... 54 2.4. Análise de dados ................................................................................................... 55 3. Análise e discussão dos resultados ............................................................................. 57 3.1. Caracterização dos participantes ........................................................................... 57 3.2. Perceções dos familiares sobre a institucionalização ........................................... 59 3.2.1. ERPI como opção mais adequada para os seus familiares idosos .................. 59 3.2.2. O processo de institucionalização na ERPI .................................................... 61 3.2.3. Reações dos idosos e motivos da sua institucionalização ............................... 65 3.2.4. Consequências e sentimentos da institucionalização na ERPI ....................... 67 3.3. Perceções dos participantes sem idosos institucionalizados sobre esse processo 70 3.3.1. Outras Respostas Sociais frequentadas pelos idosos ...................................... 70 3.3.2. Perceções sobre a institucionalização na ERPI ............................................... 71 3.3.3. Visão sobre as possíveis alternativas à institucionalização na ERPI .............. 76 3.4. A institucionalização dos idosos nas ERPI e suas alternativas ............................. 80 viii 3.4.1. Possibilidade de institucionalização na ERPI ................................................. 80 3.4.2. Impactos da institucionalização e soluções para a evitar e/ou retardar .......... 83 3.4.3. Possibilidade de institucionalização e posição às alternativas à ERPI ........... 86 3.5. Papel desempenhado pelas instituições durante a pandemia ................................ 88 3.5.1. Atuação das instituições de apoio aos idosos em período de Pandemia ......... 88 3.5.2. Sugestões de melhorias das instituições face à pandemia .............................. 92 Conclusão ....................................................................................................................... 94 Bibliografia ..................................................................................................................... 99 Legislação consultada ................................................................................................ 107 Artigos de jornais ....................................................................................................... 107 Manuais, relatórios e guias consultados .................................................................... 108 Documentos referentes a dados estatísticos ............................................................... 109 Outra webgrafia consultada ....................................................................................... 110 Anexos .......................................................................................................................... 111 Anexo I. Questionário ................................................................................................ 111 15 1. Enquadramento teórico 1.1. A velhice e o envelhecimento 1.1.1. O conceito de envelhecimento Sempre houve reflexão acerca do envelhecimento (Paúl, 2005), porém, é no decurso do século XIX que a velhice começa a fazer parte dos discursos especializados (Marques, 2001). A preocupação pelo processo de envelhecimento e pela velhice, consequência natural do envelhecimento, surgiu logo no início da civilização e por isso é algo tão antigo como a história da humanidade (Netto, 2013) e não algo recente (Fechine & Trompieri, 2012; Netto, 2013; Pocinho, Santos, Rodrigues, Pais & Santos, 2013). Apesar de os cientistas definirem o envelhecimento de forma distinta, de uma forma geral, este é definido como um processo de avanço da idade que acontece a todas as pessoas e tem um caráter biopsicossocial (Pocinho, Gaspar, Belo & Leandro, 2016). O processo de envelhecimento é algo natural, ou seja, biológico, é complexo e dinâmico, uma vez que depende dos hábitos e estilos de vida de cada pessoa, comportando alterações morfológicas e funcionais que também são diferentes de pessoa para pessoa, dependendo também da forma como a pessoa e a sociedade em que se insere encaram o envelhecimento (Dardengo & Mafra, 2018). No mesmo sentido Cancela (2008), afirma que é recorrente ouvirmos discursos que encaram o envelhecimento como um estado, classificando-o de terceira idade ou quarta idade, porém, o envelhecimento é um processo, sendo marcado por uma degradação progressiva ao nível físico e cognitivo e diferente de pessoa para pessoa, afetando todos os seres vivos e culminando na morte dos mesmos, o que faz com que seja encarado como a terceira e última fase da vida das pessoas sendo igualmente de salientar que não é possível dizer quando esse processo começa, o que se deve ao facto de estar presente em vários níveis, tais como o biológico, psicológico e sociológico e do facto de a sua velocidade e grau de gravidade serem diferentes de pessoa para pessoa. Também para Netto (2013), o envelhecimento é encarado como um processo, sendo comum a todos os seres vivos, a velhice é vista como uma fase de vida, mais especificamente encarada como a última fase da vida e o idoso é o produto final, estando estes três conceitos relacionados. 16 O processo de envelhecimento depende e provoca alterações em três grandes fatores: biológicos, psicológicos e sociais, que irão marcar a velhice (Sequeira & Silva, 2002; Cancela, 2008; Marques & Pachane, 2010; Silva, Martins, Porto, Scherer & Areosa, 2011; Neto & Corte-Real, 2013; Pocinho, Gaspar, Belo & Leandro, 2016), podendo acelerar ou retardar o surgimento de doenças e sintomas normais da idade avançada (Cancela, 2008) e por isso, referir apenas a vertente biológica do envelhecimento, não tendo em conta outros aspetos que também influenciam esse processo, é um erro que não permite definir corretamente o conceito de envelhecimento e consequentemente de velhice, tendo apenas em conta uma parte de um processo complexo (Jardim, Medeiros & Brito, 2009; Netto, 2013). Nesse sentido, vários autores defendem que o processo de envelhecimento é influenciado por vários fatores, provocando mudanças em vários níveis (Sequeira & Silva, 2002; Soares, Matos, Laus & Suzuki, 2003; ISS, I.P., 2007; Souza, Skubs & Brêtas, 2007; Santos, Andrade & Bueno, 2009; Carvalho & Dias, 2011; Nogueira & Meneses, 2020), onde podemos destacar Souza, Skubs e Brêtas (2007), que afirmam que este processo é influenciado por fatores de caráter biológico, económico, psicológico, sociocultural, entre outros fatores e Nogueira e Menezes (2020), que afirmam que existem vários fatores, tais como a alimentação, higiene, atividade física e fatores sociais, políticos e psicológicos que afetam esse processo. Os idosos são um grupo bastante heterogéneo (Sequeira & Silva, 2002; Pocinho, Santos, Rodrigues, Pais & Santos, 2013; Moreira, 2020), o que consequentemente torna o processo de envelhecimento distinto consoante a pessoa, pois além de depender de fatores relacionados com o contexto, tais como o ambiente que o rodeia, o seu percurso, modos de vida e contexto social em que se insere, também depende das características específicas do idoso (Moreira, 2020), o que faz com que existam diferentes formas de envelhecer (Fechine & Trompieri, 2012). O processo de envelhecimento é individual, pois cada pessoa envelhece de forma distinta, dependendo do seu percurso individual, opções, acidentes, doenças e de fatores sociais (Rodrigues & Soares, 2006). Assim, é possível verificar que outros autores concordam que o processo de envelhecimento varia de pessoa para pessoa (Sequeira & Silva, 2002; Souza, Skubs & Brêtas, 2007; Jardim, Medeiros & Brito, 2009; Medeiros, 2012; Rosa, 2012; Pocinho, Santos, Rodrigues, Pais & Santos, 2013; Pocinho & Santos, 2014; Pocinho, Gaspar, Belo 17 & Leandro, 2016; Teixeira, Marinho, Vasconcelos & Martins, 2016; André, 2020; Nogueira & Meneses, 2020). O facto de cada pessoa ter as suas próprias histórias de vida, genética e a sua herança psicossocial, faz com que todas as pessoas sejam diferentes e consequentemente envelheçam de forma diferente (Pocinho & Santos, 2014). Por fim, segundo Rosa (2012), não se sabe quando começam a surgir as marcas mais significativas do envelhecimento biopsicológico, pois varia de pessoa para pessoa, estando por isso ligado à “sua vivência passada, hábitos, estilos de vida, género, condicionantes genéticas e da própria sociedade em que se vive” (p. 20). 1.1.2. Alterações provocadas pelo envelhecimento O processo de envelhecimento é algo natural e provoca alterações no organismo (Macena, Hermano & Costa, 2018), verificando-se que quanto maior é a idade dos idosos, maior é a probabilidade de estes desenvolverem deficiências, incapacidades e sobretudo doenças crónicas (Andrade, Araújo & Campos, 2011; Cabral & Ferreira, 2014), assistindo-se desse modo a um aumento dos problemas de saúde dos idosos (Nogueira & Meneses, 2020). Envelhecer faz parte da vida de todos sendo algo a que ninguém pode fugir e apesar de sofrer influências das escolhas de cada um, a verdade é que existem alterações inerentes ao processo de envelhecimento que irão afetar o quotidiano das pessoas, por isso, o envelhecimento provoca mudanças biopsicossociais a que não se pode fugir (Medeiros, 2012), o que faz com que o processo de envelhecimento tenha impacto nos vários sistemas do organismo (Soares, Matos, Laus e Suzuki, 2003; Macena, Hermano & Costa, 2018). No que diz respeito à dimensão fisiológica do envelhecimento, existem várias alterações nas funções orgânicas que são fruto da idade avançada das pessoas sobre o seu organismo (Pocinho, Santos, Rodrigues, Pais & Santos, 2013; Pocinho, Gaspar, Belo & Leandro, 2016; Nogueira & Meneses, 2020), tais como como a diminuição da capacidade auditiva e visual e limitações físicas, que por vezes se agravam fruto das doenças (Moniz, 2008; Rosa, 2012; Pocinho, Santos, Rodrigues, Pais & Santos, 2013). Segundo a Organização Mundial da SaúdeOMS (2015), o envelhecimento é caracterizado e influenciado por mudanças complexas e nesse sentido, no que diz respeito ao nível biológico, o envelhecimento caracteriza-se pela acumulação de vários danos a nível molecular e nas células, que por sua vez, com o passar do tempo irão dar origem a 18 uma perda das reservas fisiológicas, a uma maior probabilidade de serem contraídas várias doenças e a uma diminuição global da capacidade individual de cada pessoa e como última consequência provoca a morte, no entanto, “[…] essas mudanças não são lineares” (p. 12). A par da diminuição das capacidades a nível físico, o processo de envelhecimento também implica para os idosos a redução de capacidades a nível mental (Vieira, 2014; Nogueira & Menezes, 2020), nomeadamente na sua memória e redução do nível de atenção e concentração, que são vistas como o início da sua decadência psíquica e que contribui para uma imagem negativa de si mesmo (Vieira, 2014). O envelhecimento aumenta igualmente o risco de as pessoas sofrerem de solidão e isolamento social, pois verifica-se uma redução da sua participação social e redes pessoais e sociais (Rosa, 2012; Pocinho, Santos, Rodrigues, Pais & Santos, 2013; Cabral & Ferreira, 2014), onde além da redução das relações (OMS, 2015; Nogueira & Menezes, 2020), se verifica uma alteração dos papéis e posições que as pessoas ocupam na sociedade (OMS, 2015), aumenta o grau de dependência física, mental e económica, o que aumenta a necessidade de receberem apoio de familiares e da sociedade, e aumenta a estigmatização dos idosos (Cabral & Ferreira, 2014). No mesmo sentido, a restrição das redes sociais, ou seja, do número de pessoas com quem o idoso tem uma relação significativa, limitando-se muitas vezes essas relações à sua família é outra mudança provocada pelo envelhecimento (Sousa, Figueiredo & Cerqueira, 2004; Pocinho, Santos, Rodrigues, Pais & Santos, 2013; Cabral & Ferreira, 2014). Também a reforma é encarada como uma das grandes mudanças provocadas pelo processo de envelhecimento (Pocinho, Pais, Santos, Nunes & Santos, 2013; Cabral & Ferreira, 2014), sendo a porta de abertura para a velhice (Sousa, Figueiredo & Cerqueira, 2004). Outro aspeto importante está relacionado com a viuvez que é considerado como sendo talvez o acontecimento que mais marca a velhice e que é quase impossível que não aconteça (Sousa, Figueiredo & Cerqueira, 2004), apresentando-se como o principal motivo para o facto de as pessoas viverem sós, afetando sobretudo mulheres (Cabral & Ferreira, 2014; Moreira, 2020), o que se deve à sua maior esperança média de vida (Sousa, Figueiredo & Cerqueira, 2004; Andrade, Araújo & Campos, 2011; Cabral & Ferreira, 2014; INE, 2015; Moreira, 2020). 19 1.1.3. A realidade do envelhecimento demográfico no mundo e em Portugal Atualmente, assistimos em todo o mundo a um envelhecimento populacional (Centro Regional de Informação das Nações Unidas [UNRIC], n.d.; Bastiani & Santos, 2000; Instituto da Segurança Social, ISS, I.P., 2007; Souza, Skubs & Brêtas, 2007; Bessa & Silva, 2008; Daniel, 2009; Jardim, Medeiros & Brito, 2009; Freitas & Scheicher, 2010; Marques & Pachane, 2010; Andrade, Araújo & Campos, 2011; Silva, Martins, Porto, Scherer & Areosa, 2011; Domingues, 2012; Medeiros, 2012; Rosa, 2012; Netto, 2013; Cabral & Ferreira, 2014; Santos & Júnior, 2014; INE, 2015; Nóbrega, Luna, Andrade & Farias, 2016; Dardengo & Mafra, 2018; Nogueira & Meneses, 2020), que consequentemente dá origem a uma nova forma de distribuição da população (Marques & Pachane, 2010; INE, 2015; Nóbrega, Luna, Andrade & Farias, 2016; Dardengo & Mafra, 2018) criando dessa forma um olhar diferente sobre o envelhecimento e velhice (Dardengo & Mafra, 2018). O aumento da população idosa a nível mundial, aumentou a preocupação sobre este processo, originando a necessidade de se desenvolver e pesquisar mais sobre o processo de envelhecimento (Moniz, 2008; Netto, 2013; Pocinho, Santos, Rodrigues, Pais & Santos, 2013; Pocinho & Santos, 2014). A par do aumento exponencial do fenómeno de envelhecimento demográfico que se verifica em todo o mundo (Daniel, 2009; Freitas & Scheicher, 2010; Marques & Pachane, 2010; Silva, Martins, Porto, Scherer & Areosa, 2011; Rosa, 2012; Pocinho & Santos, 2014; INE, 2020), também Portugal se depara com esta realidade de aumento da sua população idosa (Sousa, Figueiredo & Cerqueira, 2004; Cancela, 2008; Carneiro, Chau, Soares, Fialho & Sacadura, 2012; Jacob, 2012; Rosa, 2012; INE, 2015, 2020; Moreira, 2020), realidade essa que Rosa (2012), reforça ao afirmar que Portugal é um dos países mais envelhecidos da Europa e do mundo. De destacar igualmente o fenómeno de aumento do número de idosos que vivem até idades mais avançadas, fenómeno esse que também se verifica atualmente e que surge a par do envelhecimento demográfico (Sousa, Figueiredo & Cerqueira, 2004; Carneiro, Chau, Soares, Fialho & Sacadura, 2012; Domingues, 2012; Rosa, 2012; INE, 2015; Macena, Hermano & Costa, 2018; Moreira, 2020), sendo que para Domingues (2012) e Pocinho, Pais, Santos, Nunes e Santos (2013), esses idosos com idades mais avançadas são representados por idosos com 80 anos ou mais, indo de encontro ao que Carneiro, Chau, Soares, Fialho e Sacadura (2012), Rosa (2012) e Pocinho, Pais, Santos, Nunes e 20 Santos (2013), defendem ao afirmar que o número de idosos com 80 anos ou mais aumentou em Portugal. Através da consulta dos dados mais recentes disponibilizados, verificamos que comparando os valores de 2014 e 2019, verificou-se em Portugal no ano de 2019 um aumento de 175.257 idosos, sendo o total da população portuguesa constituída em 2019 por 22,1% de idosos, destacando-se o Alentejo como a zona com maior percentagem de idosos, com 25,6% (INE, 2020). Várias projeções apontam para a continuação da tendência de aumento do envelhecimento da população em todo o mundo (Soares, Matos, Laus & Suzuki, 2003; Souza, Skubs & Brêtas, 2007; Cabral & Ferreira, 2014; INE, 2020; Nogueira & Meneses, 2020), considerando-se idosas todas as pessoas com 65 anos ou mais (Pordata, n.d.; Marques & Pachane, 2010; Gomes & Mata, 2012; Rosa, 2012; Netto, 2013; Cabral & Ferreira, 2014; INE, 2015, 2016 e 2020; André, 2020), destacando-se que para Marques e Pachane (2010) e para Netto (2013), esta classificação de idoso a partir dos 65 anos, inclusive, é apenas válida para os países desenvolvidos e que, segundo Netto (2013), já não se aplica aos países em desenvolvimento, onde considera idosas as pessoas a partir dos 60 anos, inclusive. Prevê-se que o número de idosos continue a aumentar em Portugal nos próximos 50 anos, onde estimativas apontam para cerca de três idosos para um jovem, estimando-se que em 2050 os idosos irão representar 32% do total de população em Portugal (Pocinho, Pais, Santos, Nunes & Santos, 2013). Estimativas do INE (2020), demonstram que o índice de envelhecimento, índice que compara o número de idosos com o número de jovens, pode quase duplicar entre 2019 e 2080, passando de 163,2 idosos por cada 100 jovens para o valor de 300,3 idosos por cada 100 jovens, estimativas essas que ao se tornarem reais poderão fazer com que a população idosa passe de 2,3 milhões para 3,0 milhões entre 2019 e 2080, sendo que o número de idosos irá registar o seu valor mais elevado no início da década de 50, registando depois uma diminuição. Apesar de a previsão ser que a população portuguesa irá continuar a envelhecer, o seu envelhecimento pode ser mais lento (Rosa, 2012). Por fim, projeções futuras para o mundo inteiro estimam que até 2050 a quantidade de idosos com 60 ou mais anos duplique e triplique até 2100, passando de 962 milhões de idosos no ano de 2017 para 2,1 mil milhões em 2050 e 3,1 mil milhões em 2100, sendo 21 de destacar que nos dias de hoje a Europa é o continente com mais idosos com 60 ou mais anos (UNRIC, n.d.). 1.1.4. Velhice e seus estereótipos Relacionado com o envelhecimento individual está o conceito de velhice, que é algo difuso e que varia de pessoa para pessoa, não se sabendo ao certo quando tem o seu início e é visto pela sociedade como algo a enaltecer ou a repudiar, sentimento esse que varia de pessoa para pessoa e de sociedade para sociedade (Rosa, 2012). Para Jacob e colaboradores (2013, como citados em Pocinho, Gaspar, Belo & Leandro, 2016), envelhecimento e velhice são conceitos distintos, sendo que o envelhecimento começa no momento de conceção da pessoa e a velhice tem início com o declínio evidente das capacidades, quer físicas quer mentais. A velhice é um conceito complexo e difícil de definir, envolvendo a dimensão biológica, psicológica, sociológica, económica, cultural, entre outras, sendo encarada como um momento específico do envelhecimento, marcada pela diminuição do funcionamento de várias funções dos órgãos (Dardengo & Mafra, 2018), provocando limitações e transformações (Simões, 2010). Marques (2001), reforça igualmente essa ideia afirmando que o termo velhice é uma construção da sociedade e é influenciado pelos fatores sociais, culturais e históricos. Outra definição de velhice encara-a como um fenómeno inevitável que faz parte da vida de todos os seres humanos, sendo vista como a fase final do desenvolvimento e de diferenciação da pessoa (Sousa, Figueiredo & Cerqueira, 2004). Apesar de o envelhecimento populacional ser uma realidade atual que necessita de ser alvo de atenção e debatida, sendo um processo contínuo, a verdade é que a maioria das pessoas não parece estar preparada para lidar com a velhice, pois as pessoas tendem a relacionar o envelhecimento com situações de dependência que podem conduzir ao abandono e em último caso, à institucionalização (Medeiros, 2012). A velhice e o envelhecimento são vistos de forma paradoxal e continuam a ser vistos mediante mitos e estereótipos negativos que desvalorizam os idosos (Sousa, Figueiredo & Cerqueira, 2004; Pimentel & Maurício, 2015), sendo encarados como uma patologia, uma doença (Martins, 2006). A acompanhar a palavra velhice surgem conceitos como a “inquietude, fragilidade, angústia”, o que faz com que esta seja encarada de uma forma negativa e esteja envolta em crenças, mitos e falsas conceções (Dardengo & Mafra, 2018, p.10). 22 Para a sociedade o processo de envelhecimento é visto como a última fase da vida, sendo associada ao sofrimento, solidão, doença, dependência e morte, o que contribui para uma visão negativa sobre esse processo e faz com que essas pessoas encarem a velhice como um problema social, visão essa que necessita de ser desconstruída (Jardim, Medeiros & Brito, 2009). Outro exemplo, dado por Magalhães (2012), permite-nos verificar que apesar de muitas pessoas demonstrarem o desejo de chegar à velhice, que é encarada como a última fase da vida das pessoas, esse desejo é acompanhado por um sentimento de receio fruto das várias imagens negativas e estereotipadas que circulam sobre os idosos, encarados “[…] como pessoas doentes, dependentes, improdutivas, conservadoras, assexuadas, entre outros.” (p.91). São visíveis os vários mitos e estereótipos que existem em torno dos conceitos de envelhecimento, velhice e idoso (Bastiani & Santos, 2000; Rodrigues & Soares, 2006; Carvalho, 2009; Jardim, Medeiros & Brito, 2009; Marques & Pachane, 2010; Andrade, Araújo & Campos, 2011; Medeiros, 2012; Pocinho, Pais, Santos, Nunes & Santos, 2013; Cabral & Ferreira, 2014; Teixeira, Marinho, Vasconcelos & Martins, 2016; Nogueira & Meneses, 2020). É necessário desconstruir estes mitos e estereótipos, encarando estes fenómenos como algo positivo (Bastiani & Santos, 2000; Rodrigues & Soares, 2006; Moniz, 2008; Jardim, Medeiros & Brito, 2009; Pocinho, Pais, Santos, Nunes & Santos, 2013; OMS, 2015; Teixeira, Marinho, Vasconcelos & Martins, 2016; Moreira, 2020; Nogueira & Meneses, 2020). 1.2. Respostas sociais para idosos A par do envelhecimento da população, assiste-se ao aumento da procura por instituições de apoio aos idosos (Freitas & Scheicher, 2010). O envelhecimento demográfico tem aumentado de forma exponencial, o que cria novos desafios e exige a necessidade de criação de novas respostas sociais que tenham em conta a heterogeneidade e complexidade dos idosos, a sua situação e respetivas necessidades, porém, as respostas sociais atuais destinadas aos idosos deparam-se com grandes problemas ao nível da sua estrutura e conceção, isto porque as medidas que existem para os idosos não são suficientes nem em quantidade nem em variedade, o que provoca grandes listas de espera e um processo pouco claro na seleção das pessoas que irão frequentar essas respostas sociais (Daniel, 2009). 23 Também Jacob (2012), partilha a mesma visão afirmando que face ao envelhecimento da população, surge a necessidade de se criarem mais respostas sociais e com maior qualidade e nesse sentido, algumas projeções apontam que no futuro irão surgir novas respostas sociais destinadas aos idosos e as já existentes irão evoluir e ser melhoradas, evolução essa que depende de aspetos relacionados com a economia, política e sociedade. Existem vários apoios do Estado que se destinam à população idosa, sendo que esses apoios se dividem essencialmente em Prestações Sociais e Respostas Sociais, existindo ao nível das Respostas Sociais: o CD; SAD; a ERPI; o Centro de Convívio; o Centro de Noite; o Acolhimento Familiar; e o Centro de Férias e Lazer (ISS, I.P., 2021). Jacob (2012), reforça igualmente esta ideia afirmando que o apoio aos idosos pode ser dividido em dois grupos distintos: apoio financeiro dado pelo Estado, tais como as reformas, pensões e ajudas no pagamento de certos medicamentos, entre outros; e apoios fornecidos através de infraestruturas e serviços, que podem ser divididos em infraestruturas de saúde e infraestruturas sociais, sendo que nestas últimas é onde encontramos as respostas sociais ERPI, SAD e CD, consideradas as principais respostas sociais, entre outras. Segundo o Relatório de 2019 da Carta SocialRede de Serviços e Equipamentos, elaborado pelo Gabinete de Estratégia e Planeamento (MTSSS, 2021), as respostas sociais são um conjunto de atividades e/ou serviços que funcionam em equipamentos ou a partir deles, dirigindo-se quer às pessoas quer à sua família. Nesse sentido, o Centro de Convívio apoia os idosos de uma certa comunidade na realização das atividades sociorrecreativas e culturais (Martins, 2006; ISS, I.P., 2021), que são preparadas e dinamizadas com a sua participação ativa e tem como objetivos: evitar casos de solidão e isolamento; incentivar os idosos a participarem na vida social local; incentivar as relações interpessoais e intergeracionais dos idosos; retardar ou evitar ao máximo a sua institucionalização (ISS, I.P., 2021), resposta esta que segundo Jacob (2012), irá registar uma diminuição, pois já não vai de encontro às expectativas dos idosos, tendo atividades de animação esporádicas. O Centro de Noite é desenvolvido em equipamento e destina-se a acolher durante a noite os idosos que necessitam de ser acompanhados nesse período, pois apesar de serem pessoas com autonomia e que por isso durante o dia estão em sua casa, precisam deste acompanhamento durante a noite devido à solidão, isolamento e insegurança e além do 24 acolhimento durante a noite, outros dos seus objetivos são: garantir que os seus utentes estão bem e seguros e mantê-los no seu domicílio (ISS, I.P., 2021). O Acolhimento Familiar consiste na integração temporária ou permanente dos idosos em famílias que lhes possam dar um ambiente estável e seguro (Despacho conjunto n.º 407/98; Martins, 2006; ISS, I.P., 2021) e os seus objetivos são: acolher idosos dependentes ou que estão a perder a sua autonomia, que vivem isolados e que não tenham apoio social e familiar e/ou que estejam em situações inseguras; assegurar ao idoso um ambiente social, familiar e afetivo que seja bom para satisfazer as suas necessidades e que respeite a sua identidade, personalidade e privacidade; evitar a institucionalização ou fazer com que esse processo ocorra o mais tarde possível (ISS, I.P., 2021). Por fim, o Centro de Férias e Lazer serve para satisfazer necessidades de lazer e para quebrar a rotina, sendo importante para as pessoas se equilibrarem física, psicológica e socialmente (Martins, 2006; ISS, I.P., 2021) e tem como objetivos: fazer estadias que saiam da sua rotina; contactar com diferentes comunidades e locais; conviver com grupos, de forma a promover a integração social; promover a interajuda; desenvolver a capacidade de criação e o espírito de iniciativa (ISS, I.P., 2021). Ao nível das respostas sociais ERPI, SAD e CD, que irão ser desenvolvidas mais à frente, segundo Marques (2011), é possível verificar que tem existido um investimento por parte do Estado nas respostas sociais para os idosos e que se manifestam através da criação de ERPI e a criação de serviços, tais como os CD e o SAD, cujo principal objetivo é manter os idosos o máximo de tempo possível nas suas casas. É na Região Centro que estão localizadas mais de 1/3 das respostas sociais destinadas aos idosos e/ou pessoas com dependência, com um valor de 36,8% (MTSSS, 2021). Cerca de 70% das respostas sociais que iniciaram a sua atividade em 2019 desenvolveram-se em entidades não lucrativas e dessas respostas sociais, 55% dirigiamse aos idosos, através das ERPI, SAD e CD (MTSSS, 2021). As respostas sociais para idosos que têm maior representatividade em Portugal são as ERPI, CD e o SAD, tendo como funções satisfazer as Atividades Básicas da Vida Diária (ABVD) e as Atividades Instrumentais da Vida Diária (AIVD) dos idosos, promover, incluir e levar os idosos a participarem na vida social, independentemente da sua autonomia ou dependência e de residir numa instituição ou no seu domicílio (MTSSS, 2021). É possível verificar que entre 2000 e 2019 as respostas sociais destinadas aos idosos aumentaram 52%, representando mais de 2700 respostas sociais novas, destacando-se as 31 adequados e de caráter permanente tendo em conta a dimensão biopsicossocial dos idosos; satisfazer as necessidades básicas dos idosos; ajudar a estabilizar ou a retardar o envelhecimento dos idosos; possibilitar a manutenção e incentivo das relações dos idosos com as suas famílias (ISS, I.P., 2007; Jacob, 2012) e promover estratégias que permitam aumentar a autoestima, valorização e autonomia a nível pessoal e social dos idosos, através da criação de condições estáveis que permitam que os idosos aumentem a sua autonomia para organizarem as suas atividades básicas do quotidiano (ISS, I.P., 2007). Na perspetiva de Jacob (2012), para que tudo isto seja possível é necessário que esta resposta social disponha de serviços de “[…] alojamento permanente, alimentação; tratamento de roupa; higiene pessoal; cuidados de saúde; apoio psicossocial; atividades de animação.” (p.136). No que diz respeito à sua legislação, atualmente destaca-se a Portaria n.º 67/2012 1 , de 21 de março; Circular nº 4, de 16 de dezembro de 2014, que consiste no regulamento das comparticipações que os familiares devem pagar pelo uso dos serviços e equipamentos sociais das Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS), onde se inclui a resposta social ERPI (Direção-Geral da Segurança Social, 2014); e o Guia Prático-Licenciamento da Atividade dos Estabelecimento de Apoio Social, do ISS, I.P., de 19 de maio de 2017, onde estão presentes várias respostas sociais na área dos idosos, incluindo a ERPI (ISS, IP., 2017). No que diz respeito à Portaria n.º 67/2012, de 21 de março 2 , esta “[…] define as condições de organização, funcionamento e instalação das estruturas residenciais para pessoas idosas” (p. 1324), afirmando no seu artigo 5.º, que esta resposta social se destina a pessoas com 65 anos ou mais, que devido a motivos familiares, dependência, isolamento, solidão ou insegurança, não podem ficar no seu domicílio, mas pode igualmente acolher pessoas com menos de 65 anos em casos com justificação e também pode acolher pessoas como forma de alojamento em situações pontuais devido à falta, incapacidade ou necessidade do cuidador descansar. 1 Disponível em https://dre.pt/web/guest/pesquisa/- /search/553657/details/normal?q=Portaria+n%C2%BA%2067%2F2012%2C%20de+21+de+ma r%C3%A7o+ 2 Ibidem. 32 Segundo o artigo 6.º da Portaria n.º 67/2012 3 referente à capacidade da ERPI, esta tem uma capacidade máxima de 120 utentes e mínima de 4 utentes e segundo o seu artigo 8.º presta serviços como: […] a) alimentação adequada às necessidades dos residentes, respeitando as prescrições médicas; b) Cuidados de higiene pessoal; c) Tratamento de roupa; d) Higiene dos espaços; e) Atividades de animação sociocultural, lúdicorecreativas e ocupacionais que visem contribuir para um clima de relacionamento saudável entre os residentes e para a estimulação e manutenção das suas capacidades físicas e psíquicas; f) Apoio no desempenho das atividades da vida diária; g) Cuidados de enfermagem, bem como o acesso a cuidados de saúde; h) Administração de fármacos, quando prescritos […] (p. 1325). O mesmo artigo da Portaria n.º 67/2012 4 diz que esta resposta social, além do referido anteriormente, também pode permitir a convivência dos seus utentes com os seus familiares, amigos e comunidade e a participação dos familiares ou do representante legal do utente na prestação de apoio e também pode disponibilizar serviços que melhorem a qualidade de vida dos seus utentes, tais como fisioterapia, cuidados de imagem, transporte e assistência religiosa. Dados mais recentes disponibilizados pela Carta Social (MTSSS, 2015), mostram que em 2014 existiam em Portugal Continental 2.313 ERPI em funcionamento em todos as zonas do país, sendo a sua capacidade em 2015 superior a 89.660 lugares e eram frequentadas por 82.011 utentes, o que significava uma taxa de utilização de 91,05%. No que diz respeito aos utentes que frequentavam esta resposta social em 2014, estes eram sobretudo mulheres (69,5%), com idades avançadas, pois 65,8% destes utentes tinham 85 anos ou mais e tinham uma elevada dependência, com um valor de 79,5% (MTSSS, 2015). Outros dados mostram que até ao dia 18 de abril de 2020, existiam em Portugal um total de 2.418 ERPI, sendo que desse total, 780 estavam localizadas em Distritos da Região Centro, sendo que 126 ficavam em Aveiro, 98 em Castelo Branco, 134 em Coimbra, 135 na Guarda, 153 em Leiria e 134 em Viseu, o que significa que a região 3 Ibidem. 4 Ibidem. 33 Centro tem 32% das ERPI, tendo também 32% da capacidade de acolhimento dos idosos (Branco, 2020). De destacar que a existência de atividades de ocupação dos idosos nas instituições, tendo em conta as especificidades, diferenças e opiniões de cada idoso, assume uma grande relevância e por isso, as instituições não se podem limitar à satisfação das necessidades básicas e cuidados médicos dos seus utentes (Pocinho, Pais, Santos, Nunes & Santos, 2013) São vários os benefícios que o idoso obtém ao participar nestas atividades, tais como: […] a estimulação motora e sensorial; a prevenção do declínio das capacidades físicas e locomotoras; o aumento da atividade cerebral e, consequentemente, seu menor declínio; a prevenção e o adiamento dos efeitos da perda de memória; a prevenção do surgimento de doenças degenerativas […] (Pocinho, Pais, Santos, Nunes & Santos, 2013, p. 59). Porém, verifica-se que em algumas instituições, as atividades do dia a dia são regulares e rotineiras o que faz com que não haja criatividade e novas aprendizagens, e os fins-de-semana são ainda mais solitários, pois durante a semana o dia é planificado tendo por base a realização de atividades pontuais, que apenas chamam a atenção dos idosos por serem novas, por isso, é preciso criar várias atividades que promovam as potencialidades dos utentes e que os podem levar à sua participação e não à inatividade (Guedes, 2008). 1.3. A institucionalização dos idosos: o caso particular das ERPI 1.3.1. Diferentes visões do processo de institucionalização na ERPI Uma das grandes questões que surge com o envelhecimento passa por perceber se os idosos devem ir para instituições, sendo dessa forma institucionalizados, ou se pelo contrário devem ser criadas condições para que estes possam envelhecer nas suas casas, porém, há vários fatores que temos que ter em conta, tais como o grau de capacidade funcional do idoso, se o seu domicílio está adequado e possui qualidade para o idoso lá permanecer e a forma como se sente, destacando-se o seu estado de saúde que é um dos fatores que faz com que o meio onde este se insere se torne um facilitador ou pelo contrário, uma barreira à sua vida (Paúl, 1991). 34 À medida que as pessoas envelhecem, várias atividades quotidianas banais e fáceis de realizar, vão-se tornando cada vez mais difíceis de executar, fazendo com que os idosos, por vezes sem se aperceberem, dependam de outras pessoas para os ajudarem a realizar essas tarefas (Araújo & Ceolim, 2007). O facto de os idosos estarem mais vulneráveis e sofrerem de patologias podem dar origem à redução da sua capacidade funcional, o que poderá ter como consequência a necessidade de receberem cuidados diferenciados, aparecendo aqui a família como sendo fundamental na prestação de cuidados aos idosos, o que se verifica cada vez mais com o aumento do número de idosos (Souza, Skubs & Brêtas, 2007). No que diz respeito à prestação de cuidados aos idosos verificam-se essencialmente duas posições distintas: uma que considera que é a família que deve cuidar do idoso, sobretudo os seus filhos, através da manutenção do mesmo no seu domicílio ou na impossibilidade de tal acontecer, de o levar para a casa de família e uma outra posição olha para o Estado como tendo a responsabilidade de cuidar dos seus idosos criando para o efeito instituições destinadas ao apoio a idosos (Paúl, 1991), surgindo em contraposição a visão de Carvalho (2009), que afirma que o ato de cuidar dos idosos apresenta-se como uma responsabilidade que deve ser partilhada entre os cuidadores formais e informais. Na prestação de cuidados aos idosos podemos então verificar a existência de dois tipos de redes de cuidadores: redes de cuidadores informais, que são compostas pela família, amigos, vizinhos e outras pessoas voluntárias e redes de cuidadores formais, que são compostas por instituições, sejam elas lucrativas, não lucrativas ou públicas (Caldas, 2002; Carvalho, 2009; Domingues, 2012; Jacob, 2012; Pereira, 2012). Pode igualmente existir uma parceria entre ambas, isto porque estas formas de apoio dependem uma da outra, o que se explica pelo facto de o processo de institucionalização resultar da necessidade de substituir a rede informal de apoio, sobretudo quando essa rede desaparece em virtude da inexistência de pessoas para cuidarem dos idosos e/ou por o idoso necessitar de cuidados especializados que apenas podem ser prestados por pessoas qualificadas para tal (Pereira, 2012). Para colmatar a inexistência de serviços que prestem apoio aos idosos, as famílias assumem o papel de cuidar dos seus idosos, apresentando-se como cuidadora informal, que consiste no familiar ou amigo do idoso que assume a responsabilidade de cuidar do mesmo, sendo que este papel é desempenhado a maioria das vezes por algum familiar (Gomes & Mata, 2012). 35 A família surge como o maior suporte dos idosos (Bazo, 1991; Rodrigues, 2000; Rodrigues & Soares, 2006; Perlini, Leite & Furini, 2007; Carneiro, Chau, Soares, Fialho & Sacadura, 2012; Medeiros, 2012; Pereira, 2012; Moreira, 2020) ajudando-os a adaptarem-se à sua nova realidade marcada por alterações biológicas e sociais, contribuindo dessa forma para o aumento da qualidade de vida dos seus idosos, porém, é visível a limitação das famílias no desempenho deste apoio aos seus idosos (Rodrigues & Soares, 2006). As mudanças ocorridas na estrutura e composição familiar, a par da diminuição da sua dimensão, em grande parte devido à diminuição da natalidade e inserção das mulheres na vida laboral, contribuem para a diminuição do número de familiares disponíveis para cuidar dos seus idosos, sobretudo de mulheres que eram vistas como as principais cuidadoras dos idosos e que atualmente continuam a apoiá-los, tendo idades compreendidas entre os 55 e os 64 anos (Moreira, 2020). Assim, dentro da família, são os filhos e cônjuges os principais cuidadores dos idosos, o que se verifica com maior intensidade no caso dos idosos com 80 anos ou mais, o que demonstra que a família continua a desempenhar um papel muito importante na saúde e bem-estar dos idosos (Moreira, 2020), assistindo-se a cuidadores informais em idade avançada a cuidar de idosos, ou seja, assistimos a idosos a cuidar de idosos (Pereira, 2012), destacando-se as mulheres, entre os membros da família, como as principais prestadoras de cuidados aos idosos (Caldas, 2002). A opção da institucionalização surge para muitos idosos como uma solução para alguns dos seus problemas, tais como o isolamento, aumento do seu grau de incapacidade, diminuição da sua rede de apoio informal, que se poderá dever ao facto de os seus familiares estarem longe e/ou os seus vizinhos se encontrarem nas mesmas condições que as suas (Moreira, 2020). Porém, mesmo nos casos em que a institucionalização é uma decisão dos próprios idosos, ela é influenciada pela incerteza face ao futuro, sendo marcada pelo receio do declínio a nível físico e mental, perda do seu papel na sociedade e família e de modo a alterar essa visão, a opção pela institucionalização num Lar de idosos (agora designado por ERPI), deverá ser encarada como uma oportunidade dos idosos para usufruírem de uma vida com mais qualidade e não como uma solução para os idosos sem redes de apoio informal, olhando para as ERPI como locais onde é possível promover os direitos dos seus utentes e a sua dignidade, ao invés de serem encaradas como a última alternativa (Daniel, 2009). 36 Em sentido oposto, é frequente verificarmos que para muitos idosos a opção de institucionalização, independentemente da resposta social, é uma decisão tomada por outras pessoas e não pelo próprio idoso que acaba por assumir um papel passivo nessa decisão, existindo mesmo casos em que não é consultado acerca do assunto (Reed, Cook, Sullivan & Burridge, 2003). Carvalho e Dias (2011), defendem que a decisão de institucionalização dos idosos surge muitas vezes como um problema social e familiar, uma vez que é uma decisão difícil de gerir pois com a institucionalização surgem conflitos familiares, sentimentos de culpa por parte das famílias, abandono, isolamento e dificuldades dos idosos em se adaptarem à instituição. Acresce o facto de as instituições destinadas ao acolhimento dos idosos, (antigamente designadas por Lares de Idosos e agora designadas de ERPI), serem inicialmente criadas com o objetivo de acolher pessoas com doença mental, marginais e idosos, tendo mais tarde passado a destinar-se aos idosos com dificuldades económicas, fez com que atualmente algumas pessoas continuem a associar estas instituições a asilos, criando dessa forma uma imagem negativa (Daniel, 2009; Jacob, 2012; Daniel, Brites, Monteiro & Vicente, 2019), que faz com que se encare a institucionalização dos idosos nesta resposta social como a última opção, mesmo nas situações em que a qualidade de algumas dessas instituições é bastante boa (Jacob, 2012). Segundo Pimentel (2009), apesar das instituições destinadas a idosos terem sido alvo de uma evolução qualitativa, a verdade é que a institucionalização vai ser “sempre um processo complexo e ambivalente, que resulta de escolhas difíceis e que, com alguma frequência, compromete as relações sociais e os sentimentos de pertença” (p. 246). No caso particular das ERPI, a institucionalização dos idosos pode surgir como a única alternativa para as famílias que não têm disponibilidade para dar ao idoso suporte a nível familiar, financeiro e psicológico, sendo que nestas instituições o idoso vive o dia inteiro nas mesmas (Carvalho & Dias, 2011), pois nem todas as famílias conseguem dar apoio aos seus idosos, o que faz com que estes necessitem de recorrer a certas respostas sociais, destacando-se a ERPI (ISS, I.P., 2007). A institucionalização também surge como uma opção devido a fatores como o facto de os idosos, sobretudo em idades mais avançadas viverem sós e o aumento da probabilidade de existir alguma dependência (Moreira, 2020). O facto de as políticas sociais na Europa na área da gerontologia estarem ligadas sobretudo às instituições e ao apoio ao domicílio, fazem com que a família dos idosos 37 fique esquecida e tenha um número bastante reduzido de ajudas que se destinam aos familiares que cuidam dos idosos, sendo esse um dos principais motivos que leva os familiares a recorrerem a instituições que apoiam os idosos (Jacob, 2002). 1.3.2. Motivos que levam à institucionalização do idoso na ERPI De uma forma geral os motivos relacionados com a situação familiar dos idosos contribuem fortemente para a institucionalização dos idosos, destacando-se fatores como: diminuição da rede de suporte familiar (Carneiro, Chau, Soares, Fialho & Sacadura, 2012; Pereira, 2012; Neto & Corte-Real, 2013; Moreia, 2020; Crispim, 2021), fruto do aumento do número de mulheres no mercado de trabalho e da falta de disponibilidade da família para cuidar dos seus idosos (Neto & Corte-Real, 2013; Daniel, Brites, Monteiro & Vicente, 2019), assim, verifica-se que hoje em dia os familiares têm cada vez menos tempo para cuidarem e prestarem cuidados aos idosos e que os cuidadores mais comuns, que são os filhos e cônjuges, quando têm de cuidar dos idosos, também já têm uma certa idade (Sousa, Figueiredo & Cerqueira, 2004). A par desses fatores, existem outros fatores que também influenciam a institucionalização, tais como: a ausência de família e falta de alternativas para os familiares conseguirem manter os idosos nos seus domicílios, sobretudo quando estes são dependentes, uma vez que isso significa a prestação de cuidados difíceis e desgastantes a nível físico e psicológico (Crispim, 2021), existindo por isso dificuldades na tarefa de cuidar dos idosos (Caldas, 2002; Freitas & Scheicher, 2010; Gomes & Mata, 2012; Pereira, 2012; Crispim, 2021), e por isso, a tarefa de cuidar dos idosos, sobretudo dependentes provoca uma sobrecarga nos cuidadores (Souza, Skubs & Brêtas, 2007; Gomes & Mata, 2012; Pocinho, Veloso, Sousa & Santos, 2012; Crispim, 2021). Ao nível do grau de dependência, segundo o Inquérito Nacional de Saúde 2014 elaborado pelo INE e divulgado em 2016 (INE, 2016), em 2014 existiam 2,1 milhões de idosos em Portugal e de entre essa população com 65 anos ou mais, mais ou menos 458 mil idosos tinham pelo menos uma dificuldade em realizar os seus cuidados pessoais e 1,6 milhões de idosos não apresentavam qualquer dificuldade a esse nível, além disso, 122 mil idosos mencionaram não necessitar de qualquer ajuda, com um valor de 26,7% e pelo contrário, 162 mil idosos mencionaram necessitar de ajuda ou mais ajuda do que a que tinham no momento, com um valor de 35,3%, surgindo as mulheres com maiores dificuldades. 38 O grande grau de dependência dos idosos e a fragilidade dos cuidadores informais faz com que a institucionalização dos idosos na ERPI surja como a principal solução para aliviar a pressão e o stress que recai sobre os cuidadores e para que os idosos recebam os cuidados de que necessitam por parte de profissionais qualificados para tal (Crispim, 2021). A opção pela institucionalização também se deve: à viuvez (Paúl, 1991; Rodrigues, 2000), frequentemente encarada como sinónimo de solidão (Paúl, 1991) ou o facto de nunca se terem casado; a inexistência de filhos (Rodrigues, 2000; Moreira, 2020); distância geográfica face à família (Rodrigues, 2000; Moreira, 2020); problemas familiares; o facto de outros familiares dos idosos, dos quais se excetuam os filhos, não se considerarem como tendo obrigação de cuidar dos idosos, aos quais podemos ainda juntar fatores como dificuldades a nível económico, habitacional e existência de doenças (Rodrigues, 2000); e as condições sociais, económicas e culturais que os idosos vivem atualmente, que fazem com que o seu ingresso em instituições seja algo inevitável para si e para a sua família (Pimentel, 2009). Por fim, outros fatores apresentados como principais motivos para a institucionalização dos idosos são: a falta de preparação da família para cuidar do idoso quando este apresenta um certo nível de vulnerabilidade (Carneiro, Chau, Soares, Fialho & Sacadura, 2012; Medeiros, 2012), isto porque nos casos em que os idosos possuem um maior grau de dependência, a institucionalização surge como a alternativa e solução para que este possa receber os cuidados necessários (Pereira, 2012); dificuldades para realizar certas tarefas básicas; viverem sós; solidão; terem alguma doença; opção da sua família, que poderá considerar que o seu idoso irá receber um apoio maior numa instituição, o que se poderá dever à sua dificuldade em cuidar dele (Moreira, 2020); a existência de algum tipo de comprometimento a nível cognitivo (Costa, Patto, Afonso & Gama, 2019; Crispim, 2021); e se encontrarem numa situação de maior risco de perda da sua independência ou para os idosos que já não têm essa independência (Daniel, Brites, Monteiro & Vicente, 2019), dificultando a capacidade de gestão das suas necessidades quotidianas (Carneiro, Chau, Soares, Fialho & Sacadura, 2012). 1.3.3. Implicações da institucionalização e aspetos positivos e negativos Por institucionalização do idoso, entende-se que o idoso está o dia inteiro ou apenas uma parte do dia sob cuidados de uma instituição, existindo ainda o conceito de idoso 39 institucionalizado residente que se refere a todos os idosos que vivem o dia inteiro na instituição (Jacob, 2012). A institucionalização é encarada pelos idosos como a saída do seu contexto de vida, podendo originar ruturas dramáticas (Martins, 2006; Pimentel, 2009; Pocinho, Pais, Santos, Nunes & Santos, 2013; ISS, I.P., 2014), isto porque em muitos casos este tem de se afastar do meio a que está habituado, o que o obriga a ter de se adaptar a um ambiente novo para si e por isso, a institucionalização provoca grandes impactos emocionais no idoso, pois grande parte das vezes, esta é sinónimo de rutura com a sua antiga vida e hábitos (ISS, I.P., 2014), podendo ainda se juntar as rígidas rotinas que algumas instituições apresentam, comportamentos rotineiros que encaram todos os idosos como sendo iguais, e pautadas pela falta de estimulação (Pocinho, Pais, Santos, Nunes & Santos, 2013), o que faz com que no domínio afetivo predomine o medo e a incerteza face ao desconhecido, o que dá origem à tensão (Martins, 2006). O processo de institucionalização implica uma grande ressocialização para os idosos, sendo por isso necessário ter cuidados na preparação dos idosos para esta nova realidade, para que a sua vida na instituição seja de qualidade (Pereira, 2012). No mesmo sentido, também Carvalho e Dias (2011), afirmam que o processo de institucionalização dos idosos implica a sua adaptação a essa nova realidade, adaptação essa que nem sempre é fácil uma vez que a capacidade de adaptação reduz com o avanço da idade e por isso a probabilidade de existirem desajustes é bastante elevada. Devido às grandes mudanças que a institucionalização acarreta para o idoso, é necessário que esta se faça apenas se o idoso o quiser fazer e desde que esteja informado sobre o assunto, sendo que essa decisão tem de ser sempre sua e não da sua família (ISS, I.P., 2014). Como tudo, também a institucionalização tem aspetos positivos e negativos (Freitas & Scheicher, 2010), sendo que nos aspetos positivos, destaca-se o facto de esta opção se apresentar como resposta para muitos problemas dos idosos e também das suas famílias, pois é na institucionalização que alguns idosos: conseguem ter conforto e desfrutar dele; ter cuidados que não teriam se ficassem em casa; estão seguros e têm esse sentimento, pois têm um acompanhamento especializado e constante (Pimentel, 2009). Ainda nos aspetos positivos da institucionalização, por vezes, é nas instituições, independentemente das respostas sociais frequentadas, que alguns idosos conseguem combater ou pelo menos aliviar os seus anseios e solidão, além disso, em algumas 40 instituições os idosos e a própria instituição tentam estimular as suas capacidades cognitivas e físicas, de modo a adiar a perda das mesmas (André, 2020). Porém, esta também desperta sentimentos negativos, pois os idosos sentem que lhes foi tirada a sua vida e que foram obrigados a aceitar o seu novo destino que não foi por eles escolhido, mas é a sua única alternativa (Pimentel, 2009). Assim, ao nível das consequências negativas da institucionalização para os idosos, estas verificam-se, pois, o idoso ao sair do meio de vida a que está habituado corre o risco de sofrer a deterioração das suas capacidades de forma mais rápida e de ficar sujeito a uma maior incapacidade física e mental, verificando-se que as perturbações psiquiátricas ocorrem com mais frequência nos idosos que estão em instituições (Borges, 2000, como citado em Martins, 2006), verificando-se também como aspetos negativos a perda de objetos pessoais (Daniel, 2009; Pocinho, Pais, Santos, Nunes & Santos, 2013) e a sua saída de casa (Daniel, 2009). Outro fator a ter em conta é que na ERPI, tendem a diminuir os contactos dos utentes com a família, vizinhos e amigos e por isso, é necessário evitar que esses laços se percam, nomeadamente com a família (Guedes, 2008), isto porque no estudo que realizou, Rodrigues (2000), defende que o facto de o idoso ser institucionalizado faz com que este se afaste do seu domicílio e dessa forma se torne mais difícil manter um suporte frequente e próximo por parte da família do idoso. A manutenção do suporte familiar aos idosos, sobretudo institucionalizados, surge neste sentido como algo de grande importância (Rodrigues, 2000; Carvalho & Dias, 2011; Pereira, 2012), pois permite que a separação dos idosos em relação ao seu ambiente social e familiar seja menos dolorosa e por isso, a manutenção dos contactos com a sua família, seja através de chamadas, cartas, visitas presenciais, ou por outras vias, possibilita a manutenção da ligação dos idosos ao meio social onde viveram quase toda a vida inteira e do qual se vêem agora afastados devido à sua institucionalização num lar, onde irão viver o resto dos seus dias, sendo também de destacar que a manutenção dessas relações passa frequentemente por curtas estadias na casa dos seus familiares (Rodrigues, 2000). De destacar igualmente que segundo Pereira (2012), as famílias dos idosos institucionalizados deverão manter os laços afetivos que tinham com os idosos antes de estes serem institucionalizados, pois o processo de institucionalização provoca ruturas afetivas para os idosos, obrigando-os a criarem novos afetos, o que será facilitado se essas ruturas se processarem de uma forma menos abruta e irreversível. 47 ao nível das idas ao exterior, possuindo ainda um ambiente de convívio e autogestão do espaço, mas repartindo tarefas entre si. Para António Tavares em entrevista ao Idealista News (Paulo, 2019), provedor da Santa Casa da Misericórdia do Porto, o cohousing surge como a melhor solução para a institucionalização dos idosos, pois combate a solidão e promove mecanismos de interajuda, apresentando-se dessa forma como a solução mais adequada para a qualidade de vida dos idosos. Além disso, António Tavares em entrevista ao Idealista News (Paulo, 2019), defende igualmente que o cohousing ou habitação colaborativa promove a inclusão social das pessoas por um maior período de tempo e é uma alternativa melhor em termos financeiros, pois além de facilitar o convívio devido aos espaços partilhados, também se apresenta como uma forma de habitação mais barata, tudo isto num momento em que as exigências profissionais e as dificuldades financeiras das famílias podem não possibilitar um acompanhamento regular dos idosos. Por fim, Oliveira (2019, p. 8) afirma que em Portugal, em 2019, existiam já dois exemplos de […] residências assistidas, uma espécie de cohousing institucional.”. O primeiro exemplo é o Centro Social e Paroquial de S. Miguel de Acha, que construiu em 2012 no concelho de Idanha-a-Nova quatro residências pequenas junto da instituição, residindo nessas residências cinco idosos autónomos e ativos que contam com o apoio dos serviços fornecidos pela IPSS (Oliveira, 2019). O segundo exemplo consiste nas “Casinhas do Pinhal”, localizadas em Águeda, tendo sido criadas pelos “PioneirosAssociação de Pais de Mourisca do Vouga”, que contava com 12 residentes idosos, nesse sentido, José Carlos Arede, presidente da Associação, em entrevista ao Jornal “Solidariedade”, afirma que esses idosos moram nas suas próprias casas, mas recebem apoio da instituição (Oliveira, 2019). As “Casinhas do Pinhal” consistem em oito habitações localizadas junto do edifíciosede da instituição, constituindo-se como projeto que não é comparticipado pela Segurança Social, embora se fale cada vez mais em retardar a institucionalização dos idosos (Oliveira, 2019). Aldeia Social “Casinhas Autónomas” e Aldeia de São José de Alcalar Outro exemplo de alternativa à institucionalização dos idosos nos lares tradicionais é a espécie de aldeia social localizada em Águeda, Aveiro, onde vivem 19 idosos com um certo grau de autonomia e que não querem ser institucionalizados num lar, alternativa 48 essa que se tem mostrado um sucesso (Idealista News, 2020; Lusa, 2020; Litoral Magazine, 2021), sobretudo no período de pandemia (Litoral Magazine, 2021). Assim, esta ideia nasceu após a Associação “Os Pioneiros” (citada em Lusa, 2020; Litoral Magazine, 2021), ter concluído que era necessário a criação de uma resposta social anterior aos lares e que permitisse que os idosos continuassem a ser independentes e a ter a sua vida normal. Segundo José Carlos Arede, em entrevista ao Jornal 7MARGENS (Carvalho, 2021), presidente da Associação “Os Pioneiros”, esta aldeia social surgiu como necessidade de responder às necessidades dos idosos autónomos, diferenciando-se e surgindo como uma alternativa aos lares, onde diz que grande parte dos idosos têm um elevado grau de dependência e são frágeis, funcionando como espécies de unidades de cuidados continuados, não sendo locais adequados para idosos saudáveis. Segundo José Carlos Arede em entrevista à Lusa (2020) e à revista Litoral Magazine (2021), presidente da Direção da Associação “Os Pioneiros”, esta espécie de aldeia social tem a designação de “Casinhas Autónomas” e funciona como uma aldeia em que todos os seus residentes se conhecem e convivem. Assim, as “Casinhas Autónomas” foram construídas num terreno da Associação “Os Pioneiros”, localizado em Mourisca do Vouga e são compostas por 10 casas de madeira, separadas entre si e rodeadas por um grande jardim e pelo pinhal, residindo em cada casa um casal ou duas pessoas do mesmo género (Lusa, 2020; Carvalho, 2021; Litoral Magazine, 2021) e segundo José Carlos Arede em entrevista à Lusa (2020), já existe uma lista de espera. Para José Carlos Arede em entrevista à Lusa (2020; Carvalho, 2021), esta aldeia social apresentou-se como algo bastante positivo para conseguirem gerir a pandemia, uma vez que as pessoas não estão todas juntas, estando cada pessoa na sua própria casa e possuem ao mesmo tempo acesso aos serviços médicos, às refeições e à lavandaria. Nesta aldeia, os idosos têm liberdade, vivendo a sua vida autonomamente, mas caso seja necessário, têm o apoio da IPSS que se situa mesmo ao lado desta aldeia, podendo recorrer aos seus serviços e profissionais, sendo também de destacar o facto de estes idosos terem sempre alguém com quem conversar (Idealista News, 2020). À revista Litoral Magazine (2021), José Carlos Arede defende que as pessoas gostam bastante deste projeto, pois este permite a manutenção da sua autonomia e faz com que os seus residentes se sintam em casa, afirmando ainda que esta aldeia teve um papel bastante positivo durante a pandemia, pois as pessoas estão separadas, estando cada uma 49 na sua casa, usufruindo de serviços como refeições, lavandaria e serviços médicos, destacando ainda que esta resposta social não tem enquadramento legislativo. Assim, esta aldeia social ainda não é encarada como uma resposta social em Portugal e por isso não recebe comparticipação por parte da Segurança Social, o que faz com que os idosos tenham de pagar a renda dessas casas (Idealista News, 2020), o que leva à necessidade das casas serem arrendadas por um preço que varia consoante os rendimentos dos seus residentes (Lusa, 2020). Outro exemplo de aldeia social em Portugal é a de São José de Alcalar, em Portimão, que foi construída pelo padre jesuíta Domingos Costa em 1990, sendo que estas casas geminadas surgiram como uma alternativa para os idosos que recebiam apoio (Lusa, 2020). Esta aldeia social possui 115 habitantes e tem no total 52 apartamentos que podem ser T1, T2 e T3 (Lusa, 2020). Segundo o padre jesuíta Domingos Costa (2020, citado em Lusa, 2020), esta aldeia é composta por casas e jardins, havendo liberdade e ausência de restrições de horário quanto às visitas dos seus residentes, defendendo que esta aldeia é distinta dos lares tradicionais uma vez que: cada residente tem a sua própria liberdade quanto aos seus movimentos; e o critério de admissão usado para a aldeia é dar prioridade às pessoas que mais necessitem e não a ordem de inscrição. Neste sentido, segundo a responsável de Alcalar à data de 17 de outubro de 2010, Sara Duarte (2010, citada em Revez, 2010), a vida nesta aldeia é distinta da vida nos lares, tendo os utentes os seus próprios quartos individuais e salas coletivas, porém, estas vivendas não possuem cozinhas individuais, mas sim uma zona de apoio composta por uma kitchenette e as refeições são preparadas e servidas no refeitório, sendo que os alimentos usados são cultivados e produzidos naquela aldeia e defende ainda que esta aldeia tem como objetivo criar e dar aos seus residentes um ambiente em que possam ter a sua intimidade, se sintam autónomos, mas que estejam ao mesmo tempo acompanhados. Repúblicas Seniores em Portugal Em Portugal em 2019, estavam a funcionar nove repúblicas, e cada uma tinha um máximo de quatro residentes por casa, sendo que dessas nove, apenas duas são femininas (André, 2020). Uma alternativa às respostas sociais já existentes é a criação de repúblicas seniores que têm como população alvo idosos ativos e funcionais, tendo esta ideia surgido em 2007 através de Pedro Cardoso, diretor do Centro Social e Paroquial de São Jorge de 50 Arroios, que se apercebeu que existiam muitos idosos da freguesia que moravam em quartos alugados, sujeitos a violência e por isso estas repúblicas surgiram como uma resposta social que visava a autonomia dos idosos através da criação de um espaço que fosse dos idosos e que atrasasse ao máximo a sua institucionalização e que lhes permitisse ter acesso a habitação a custos baixos (André, 2020). Foi inaugurada em 2016 a sexta república sénior em Portugal, neste caso específico para mulheres, resposta social criada pelo Centro Social Paroquial de S. Jorge de Arroios, localizado em Lisboa e que procura respostas sociais distintas das convencionais para o apoio dos idosos (Roque, 2016). Assim, o Centro Social Paroquial de S. Jorge de Arroios, localizado num dos locais mais envelhecidos de Lisboa, nos últimos anos tem desenvolvido vários projetos pioneiros que visam apoiar os idosos e evitar a institucionalização dos mesmos em lares (Roque, 2016). O Centro fornece a vários utentes serviços de apoio domiciliário 24 horas por dia e acompanha o quotidiano de outros utentes através de uma linha telefónica solidária (Roque, 2016). Segundo Pedro Raúl Cardoso em entrevista à Rádio Renascença (Roque, 2016), diretor do Centro, a ideia da criação das repúblicas seniores visava acabar a solidão dos idosos que viviam sós e em quartos que muitas vezes não tinham condições. Segundo Roque (2016), apesar de o Centro ter tentado melhorar as condições dos idosos que viviam nesses quartos, a verdade é que não conseguiu ter sucesso, pelo que o Centro decidiu pensar numa solução distinta e por isso, segundo Pedro Raúl Cardoso em entrevista à Rádio Renascença (Roque, 2016), pensaram numa resposta que permitisse que as pessoas vivessem a sua velhice livremente e de forma autónoma, sem dependerem de ninguém, tendo dessa forma pensado nas repúblicas como essa resposta, tendo este projeto como inspiração as repúblicas de estudantes, sobretudo as de Coimbra. Ainda segundo Pedro Raúl Cardoso em entrevista à Rádio Renascença (Roque, 2016), o objetivo deste projeto da república sénior era criar uma comunidade em que os idosos fossem uma espécie de família, tendo por isso surgido antes desta nova república uma outra, a sua primeira república, designada de república de S. Jorge, onde três idosos moravam no mesmo apartamento, partilhavam despesas e viviam com regras comuns criadas pelos próprios residentes, sendo por isso idosos que viviam num mesmo espaço, em que tinham um espaço privado, o seu quarto, mas também tinham espaços comuns. 51 No espaço de um ano, este Centro abriu seis repúblicas, das quais uma se destinava a pessoas sem-abrigo e a capacidade de cada república é de três idosos, verificando-se que as idades variam e são os residentes que organizam o espaço e dividem as despesas, sendo que a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, parceira deste projeto, suporta a renda e o Centro Paroquial apoia nas restantes áreas (Roque, 2016). Por fim, a república sénior de Santa Marta, a primeira feminina em Portugal, tem três mulheres residentes (Roque, 2016). 52 2. Metodologia 2.1. Objetivos Em Portugal, vivemos numa sociedade cada vez mais envelhecida (Sousa, Figueiredo & Cerqueira, 2004; Cancela, 2007; Carneiro, Chau, Soares, Fialho & Sacadura, 2012; Jacob, 2012; Rosa, 2012; INE, 2015, 2020; Moreira, 2020), marcada igualmente pelo aumento do número de mulheres no mercado de trabalho e falta de disponibilidade da família para cuidar dos seus idosos, o que faz com que a sua família recorra com frequência à institucionalização do idoso (Neto & Corte-Real, 2013; Daniel, Brites, Monteiro & Vicente, 2019), razão pela qual este estudo tem como objetivos gerais:  Aprofundar e conhecer melhor quais as perceções relativamente à opção pela institucionalização dos idosos na ERPI;  Apresentar novas alternativas à institucionalização dos idosos nas respostas sociais CD, SAD e ERPI; e  Perceber qual o nível de conhecimento sobre a institucionalização, em particular na ERPI. Como objetivos mais específicos, o presente estudo visa:  Analisar as características que aproximam e distinguem as respostas sociais CD, SAD e ERPI;  Avaliar o que determina a opção de institucionalização, sobretudo na ERPI, bem como as consequências positivas e negativas, para o idoso, da institucionalização na ERPI;  Perceber qual o grau de influência dos familiares na tomada de decisão da institucionalização dos seus idosos;  Avaliar a recetividade das pessoas em relação às novas alternativas à institucionalização dos idosos em respostas sociais mais convencionais;  Analisar a perceção que os inquiridos têm sobre o papel desempenhado por estas instituições durante a pandemia;  Perceber se o facto de as pessoas terem (ou não terem) familiares idosos institucionalizados influencia a sua perceção em relação à institucionalização dos mesmos; e 53  Contribuir para a criação de um sentimento de reflexão nas pessoas sobre a institucionalização dos idosos e suas consequências para a vida dos mesmos, de modo a desmistificar algumas ideias de senso comum. 2.2. Instrumento Uma vez que se pretende conhecer a perceção da sociedade acerca da institucionalização dos idosos na ERPI, optámos pela utilização de método quantitativo usando como instrumento de aplicação o inquérito por questionário, de forma a conseguirmos alcançar um maior número de participantes. Desse modo, procedeu-se à elaboração do inquérito por questionário, em que numa primeira fase os participantes tinham de dar o seu consentimento para participarem no estudo e para os seus dados poderem ser usados para fins académicos, sendo garantido o seu anonimato e confidencialidade ao longo de todo o estudo. Depois de darem o seu consentimento, os participantes eram encaminhados para o questionário, com a duração aproximada de dez minutos, organizado em cinco partes. A primeira parte é composta pela caracterização sociodemográfica, onde se pretende conhecer o perfil dos participantes, através da sua caracterização ao nível do género, idade, grau de escolaridade, distrito de residência, nacionalidade, para além de determinar se têm ou não familiares idosos institucionalizados na ERPI. Esta última questão é fundamental para o posterior preenchimento do questionário, pois irá permitir dividir os participantes em dois grupos de forma a proceder-se ao estudo de cada um deles: os participantes com familiares a frequentar a ERPI e participantes sem familiares a frequentar a ERPI. A segunda parte pretende analisar a perceção dos participantes com familiares idosos institucionalizados na ERPI acerca da institucionalização. Assim, foram colocadas questões que visam: conhecer as suas opiniões acerca da ERPI para os seus familiares; o seu grau de influência no processo de institucionalização; os principais motivos da institucionalização na ERPI; e, por fim, os sentimentos e as reações dos idosos e respetivas consequências da institucionalização. A terceira parte pretende analisar a perceção dos participantes sem familiares idosos institucionalizados na ERPI acerca da institucionalização. Desse modo, são colocadas questões que pretendem: perceber se têm familiares idosos a frequentar outra resposta social que não a ERPI; saber quais os motivos que pensam que leva à opção pela institucionalização dos idosos na ERPI e se essa opção se pode apresentar como algo 54 positivo para os idosos; e, por fim, analisar se outras respostas sociais, tais como o SAD e CD, podem ser mais favoráveis para os idosos do que a ERPI, e opinião sobre qual a resposta social que consideram ser a melhor opção para os idosos independentes ou com baixa dependência. A quarta parte pretende levar à reflexão sobre a institucionalização dos idosos nas ERPI e respetivas alternativas. Assim, são colocadas questões que visam: perceber e compreender qual a posição das pessoas face à possibilidade da institucionalização dos seus familiares na ERPI, bem como a sua possível institucionalização numa ERPI; perceber se consideram que a institucionalização na ERPI provoca alterações na vida dos idosos e o que poderia ser feito para evitar e/ou retardar a institucionalização nessa resposta social; e, por fim, compreender qual a sua posição acerca das alternativas inovadoras à ERPI. Por fim, atendendo ao momento de pandemia em que nos encontramos, achámos pertinente inquirir as pessoas sobre o papel desempenhado pelas instituições de apoio aos idosos durante a pandemia COVID-19 e, por isso, a quinta parte do inquérito por questionário é composta por questões que têm como objetivos analisar a opinião das pessoas acerca das medidas levadas a cabo por essas instituições e o que pensam que poderia ter sido feito ou que ainda poderá ser feito para melhorar a ação dessas instituições. 2.3. Aplicação e recolha Inicialmente tínhamos pensado aplicar o inquérito por questionário apenas a pessoas residentes no Distrito de Leiria, porém, devido ao reduzido número de respostas obtidas numa primeira aplicação (134 respostas), sentiu-se necessidade de se alargar o inquérito por questionário a todas as pessoas residentes em Portugal, de forma a ser possível realizar-se um estudo mais completo, mas mantendo-se o objetivo de se conseguir alcançar uma amostra composta maioritariamente por pessoas residentes no Distrito de Leiria. O inquérito por questionário foi desenvolvido e aplicado a partir da plataforma digital LimeSurvey e divulgado através da rede social Facebook, sendo acompanhado por um breve texto com a explicação sobre o estudo e apelando à participação. Assim, divulgámos o inquérito por questionário em apenas quatro grupos do Facebook, sendo que três desses grupos estavam ligados ao Distrito de Leiria, os grupos “Marinha Grande”, “Leiria-Distrito de Leiria” e “Leiria”, e o outro grupo escolhido foi o “Espaço do 55 Assistente Social”, para dessa forma se obter também uma visão de alguns profissionais ou pessoas que estivessem de alguma forma ligadas à área social. Assim, numa primeira fase, face à dificuldade em se obterem respostas por parte de pessoas residentes no Distrito de Leiria procurou-se alargar a divulgação do inquérito por questionário a um maior número de grupos da rede social Facebook, tendo sido também solicitada a sua divulgação a instituições ligadas à área social, com especial enfoque para instituições da área da gerontologia. Porém, estes pedidos de divulgação a instituições não obteve qualquer tipo de resposta, tendo-se por isso verificado um aumento muito pequeno do número de respostas. Num segundo momento, pensámos criar dois grupos distintos de forma a procedermos à sua comparação: um primeiro grupo seria composto pela visão da população de uma forma geral, possível através da junção das respostas dos grupos “Marinha Grande”, “Leiria-Distrito de Leiria” e “Leiria” e um segundo grupo seria composto pela visão das pessoas de certa forma ligadas à área social, como por exemplo profissionais do setor social ou estudantes das ciências sociais, o que iria corresponder às respostas obtidas no grupo “Espaço do Assistente Social”. Mesmo após a junção destes dois grupos, o número de respostas continuava reduzido e por isso procedeu-se à elaboração de uma nova versão do inquérito por questionário que pudesse ser aplicada a todas as pessoas residentes em Portugal. Assim, optámos por alargar a divulgação do inquérito por questionário por outros grupos, tendo sido por isso divulgado em mais seis grupos que incluíam pessoas residentes em Portugal, independentemente do Distrito e de ser Portugal Continental ou as ilhas, tendo sido dessa forma possível alcançar um número de 222 participantes. 2.4. Análise de dados Após a aplicação do inquérito por questionário, foi possível analisar as respostas de 222 participantes, tendo-se excluído da análise 23 participantes, devido a não terem completado o respetivo preenchimento, o que nos impossibilitou validar as suas respostas, uma vez que a ausência de resposta a certas perguntas era fundamental para a compreensão da sua perceção acerca da institucionalização na ERPI. Após a recolha dos dados obtidos pela aplicação do inquérito por questionário, procedeu-se ao processamento e organização dos mesmos, em tabelas (de elaboração própria e que se apresentam ao longo do capítulo seguinte), utilizando o IBM SPSS Statistics. 56 Assim, para a apresentação dos resultados deste estudo procede-se à respetiva organização em tabelas descritivas e análise dos resultados obtidos, a qual é acompanhada pela correspondente discussão, sustentada nas teorias e visões de diferentes autores que foram sendo explorados no enquadramento teórico. 63 Tabela 4. Influência no processo de institucionalização na ERPI e motivos dessa opção N % Teve alguma influência no processo de institucionalização do seu familiar na Estrutura Residencial para Pessoas Idosas? Não, foi uma decisão exclusiva do meu familiar. 14 41,2 Sim, pois aconselhei o meu familiar a ir para a Estrutura Residencial para Pessoas Idosas. 7 20,6 Sim, fui eu que tive a iniciativa de o inscrever na instituição que frequenta atualmente. 4 11,8 Sim, pois ajudei o meu familiar a escolher a instituição para onde ia. 1 2,9 Outro 9 26,5 Indique os motivos pelos quais o seu familiar acabou por frequentar a Estrutura Residencial para Pessoas Idosas e não outro serviço. O meu trabalho não me permitia cuidar do meu familiar e por isso tivemos de optar pela Estrutura Residencial para Pessoas Idosas. 3 37,5 Apesar de não achar a Estrutura Residencial para Pessoas Idosas a opção mais adequada, o meu familiar demonstrou desejo em ser institucionalizado numa. 1 12,5 Outro 4 50,0 Quais foram os principais motivos que levaram à institucionalização na Estrutura Residencial para Pessoas Idosas? Elevado nível de dependência do meu familiar, o que faz com que necessite de ajuda constante e especializada para realizar as suas tarefas diárias. 18 52,9 Vivia sozinho. 7 20,6 Os meus horários de trabalho não me permitem cuidar do meu familiar. 6 17,6 A pessoa que cuidava dele já tinha uma idade avançada, não tendo mais condições para continuar a ajudar o meu familiar. 6 17,6 Vivia numa zona isolada e de difícil acesso que não lhe permitia ter os cuidados necessários. 2 5,9 Outro 3 8.8 No que diz respeito aos motivos que levaram os idosos a frequentar a ERPI ao invés de outra resposta social, questão essa que apenas se destina às pessoas que além de terem familiares idosos institucionalizados na ERPI, também tenham respondido que não achavam a ERPI a opção mais adequada para o mesmo, verifica-se que o principal motivo (3 participantes) está relacionado com motivos profissionais para a tomada de tal decisão, pois, tal como Sousa, Figueiredo e Cerqueira (2004) defendem, as famílias atualmente têm uma disponibilidade mais reduzida para a prestação de cuidados aos idosos, havendo mesmo autores como Neto e Corte-Real (2013) e Daniel, Brites, Monteiro e Vicente 64 (2019), que vão mais longe e afirmam que as famílias não têm disponibilidade para cuidar dos seus idosos. As restantes respostas dadas pelos participantes demonstram que apesar de não considerarem a ERPI a melhor opção para o seu familiar, por vários motivos, esta acabou por ser a mais viável, como se pode comprovar através da seguinte resposta: “Inexistência de resposta adequada na zona de residência”. Quando questionados sobre os principais motivos que levaram à institucionalização na ERPI, verifica-se que mais de metade dos participantes apontam o elevado grau de dependência do seu familiar, o que exige uma ajuda constante e especializada para a execução das suas tarefas diárias, o que vai de encontro aos dados disponibilizados pelo Relatório de 2019 da Carta Social referente à Rede de Serviços e Equipamentos (MTSSS, 2021), segundo o qual é na resposta social ERPI que se encontram utentes com um elevado nível de dependência, sendo que segundo Pimentel (2009), as ERPI permitem proporcionar aos idosos um acompanhamento especializado e constante, proporcionando dessa forma, segundo Pereira (2012a), cuidados especializados por pessoas qualificadas para tal. Outro motivo apresentado pelos participantes prende-se com o facto de o idoso viver só (7 respostas), indo de encontro ao que Moreira (2020) defende ao afirmar que o facto de os idosos viverem sós e a solidão são dos principais fatores que contribuem para a institucionalização dos idosos. Neste caso específico, o facto de os idosos viverem sós poderá significar a redução do apoio familiar para cuidar do seu idoso (Carneiro, Chau, Soares, Fialho & Sacadura, 2012; Pereira, 2012a; Neto & Corte-Real, 2013; Moreia, 2020; Crispim, 2021), pelo que a sua institucionalização surge como uma forma de combater e reduzir o seu sentimento de solidão (André, 2020), que aqui surge como um dos principais motivos para a institucionalização dos idosos. Com menor representatividade, mas igualmente importantes, estão motivos relacionados com: o horário de trabalho, pois segundo Neto e Corte-Real (2013), a inserção no mercado de trabalho, sobretudo das mulheres, contribui para a institucionalização dos idosos, ideia igualmente defendida por Daniel, Brites, Monteiro e Vicente (2019), que referem a inserção no mercado de trabalho como uma das principais causas para a institucionalização; a idade avançada da pessoa que cuidava do idoso, pois segundo Sousa, Figueiredo e Cerqueira (2004), os principais cuidadores dos idosos são os seus filhos e companheiros, que muitas vezes, na altura em que têm de cuidar do idoso, também eles têm uma idade avançada, sendo essa ideia reforçada por Pereira (2012a), 65 que afirma que se assiste a cuidadores informais em idade avançada a cuidar de idosos, ou seja, assistimos a idosos a cuidar de idosos; e o isolamento, que vai de encontro ao defendido por Moreira (2012) que aponta o isolamento como um dos fatores que provocam a institucionalização dos idosos. Por fim, outras respostas dadas pelos participantes apontam como principais motivos a demência psicológica e dificuldades físicas dos idosos, aos quais acresce a inserção dos familiares no mercado de trabalho e a possibilidade de serem criados laços com outras pessoas, tal como este participante revela ao afirmar que “As dinâmicas de relações, animação sempre foram do agrado do meu familiar”. 3.2.3. Reações dos idosos e motivos da sua institucionalização Ao questionarmos os participantes com familiares idosos institucionalizados na ERPI sobre a reação do idoso perante a decisão da sua institucionalização, verificamos que segundo os participantes, a grande maioria dos idosos reagiu de forma positiva a essa decisão (25 respostas), sendo de destacar que dessas 25 respostas referentes às reações positivas dos idosos, 15 participantes afirmam que os seus familiares não aceitaram de imediato essa decisão, mas acabaram por se aperceber de que essa era a sua melhor opção face à situação em que estavam. Apenas 6 participantes afirmam que os seus familiares reagiram de forma negativa, o que se deveu em alguns casos ao facto de a decisão não ter sido tomada pelos idosos e ir contra a sua vontade e noutros casos deveu-se às mudanças que esta decisão acarreta para os idosos, tais como o abandono da sua casa, amigos e estilo de vida, isto porque tal como o Grupo de Coordenação do Plano de Auditoria Social e CID (2005), Martins (2006); Pimentel (2009) e Pocinho, Pais, Santos, Nunes e Santos (2013) defendem, os idosos encaram a institucionalização como a saída do seu contexto de vida, o que em alguns casos poderá dar origem a ruturas dramáticas. Através da análise das outras respostas dos participantes, verificamos que a perceção dos idosos está afetada devido a problemas/demências psíquicas, o que se verifica através das seguintes respostas: “Já não se encontrava orientado, pelo que teve uma perceção distorcida da integração na ERPI.”; “Não teve/tem noção onde está”; “Tem uma demência e não tem noção do local onde está”. 66 Tabela 5. Reações e motivos da institucionalização em ERPI N % Como foi a reação do seu familiar perante a decisão da sua institucionalização na Estrutura Residencial para Pessoas Idosas? Reagiu bem, pois apesar de inicialmente não querer ir para uma Estrutura Residencial para Pessoas Idosas, acabou por perceber que era o melhor para ele, dado a sua situação. 15 44,1 Reagiu bem, pois foi ele que tomou essa decisão. 10 29,4 Reagiu mal, pois a escolha não foi dele, tendo sido institucionalizado na Estrutura Residencial para Pessoas Idosas contra a sua vontade. 4 11,8 Reagiu mal, uma vez que não queria deixar a sua casa, amigos e estilo de vida. 2 5,9 Outro 3 8,8 SE Reagiu mal, pois a escolha não foi dele, tendo sido institucionalizado na Estrutura Residencial para Pessoas Idosas contra a sua vontade: Indique os motivos pelos quais não foi o seu familiar idoso a tomar essa decisão. Não tem uma noção real da sua situação, não tendo em conta o seu nível de dependência física e ajuda que necessita para realizar as suas atividades diárias. 2 50,0 Queria envelhecer em casa, porém a sua situação não lhe permite e por isso tivemos de optar pela sua institucionalização. 1 25,0 Outro 1 25,0 De seguida, surge a questão que procura conhecer quais os motivos que fizeram com que não fossem os idosos a tomar a decisão da sua institucionalização, questão essa exclusiva para os participantes que afirmaram que o seu familiar reagiu mal, uma vez que a decisão de ser institucionalizado não foi dele, contrariando dessa forma a sua vontade e que nos permite constatar que metade dos participantes (2) afirmam que os seus familiares idosos não têm uma noção real da sua situação e que por isso não conseguem reconhecer que necessitam da ajuda disponibilizada pela ERPI, o que poderá demonstrar uma resistência dos idosos em serem institucionalizados, apesar de estarem na posse das suas faculdades psíquicas ou, por outro lado, pode significar uma perda das mesmas, o que leva a que terceiros tenham de decidir por si. Neste sentido, os idosos com grande grau de dependência necessitam de receber cuidados de profissionais especializados, cuidados esses que a sua família não consegue prestar (Crispim, 2021), que se deve em grande parte à falta de preparação da família para cuidar dos idosos quando estes têm um determinado nível de vulnerabilidade (Carneiro, Chau, Soares, Fialho & Sacadura, 2012; Medeiros, 2012). 67 De referir também o motivo relacionado com a situação dos idosos, que não lhes permite envelhecer no seu domicílio e, por isso, a sua família tem de optar pela sua institucionalização, o que se pode referir à sua condição física ou psíquica e que pode ir de encontro ao defendido por Crispim (2021) ao afirmar que cuidar dos idosos, sobretudo dependentes é uma tarefa bastante complicada e desgastante para a sua família, conduzindo segundo Souza, Skubs e Brêtas (2007), Gomes e Mata (2012), Pocinho, Veloso, Sousa e Santos (2012) e Crispim (2021), à sobrecarga da família, destacando-se também, segundo Costa, Patto, Afonso e Gama (2019) e Crispim (2021), a presença de algum comprometimento a nível cognitivo como motivo para a institucionalização dos idosos Noutra perspetiva, também podemos encarar esta resposta da situação dos idosos como motivo para a sua institucionalização, olhando não para as dificuldades da família no ato de cuidar destes idosos, mas sim para os idosos que face ao seu grau de dependência necessitam de apoio especializado, o que vai de encontro ao referido por Crispim (2021), que fala da necessidade dos idosos dependentes serem acompanhados por profissionais aptos para cuidarem de si e que Daniel (2009), reforça ao afirmar que esses cuidados especializados só poderão ser proporcionados através da sua institucionalização. 3.2.4. Consequências e sentimentos da institucionalização na ERPI Por fim, no que diz respeito às consequências e sentimentos provocados pela institucionalização na ERPI, quando questionados se consideravam que a institucionalização do seu familiar tinha sido algo positivo ou negativo, mais de metade dos participantes com idosos institucionalizados na ERPI respondeu que tinha sido positivo, o que pode significar que os idosos necessitavam de facto dos cuidados que apenas podiam ser prestados por uma ERPI, ou que apesar de poderem existir outras respostas sociais que conseguissem satisfazer as necessidades de alguns desses idosos, a sua institucionalização foi ponderada e chegaram à conclusão que as consequências positivas se sobrepunham a outros aspetos. Nesse sentido, os participantes que responderam na questão anterior que a institucionalização do seu familiar tinha sido algo positivo, quando questionados sobre as consequências ou sentimentos positivos que a institucionalização teve no seu familiar idoso, verificamos que quase metade dos participantes (14 respostas) menciona o sentimento de segurança possível devido ao acompanhamento de 24h por dia por parte de uma equipa de profissionais apta para cuidar dos idosos, pois segundo Pimentel (2009), 68 um dos pontos positivos da institucionalização é a segurança, uma vez que o idoso é acompanhado de forma permanente por pessoas aptas para cuidarem dele. Tabela 6. Consequências e sentimentos provocados pela institucionalização na ERPI N % Considera que a institucionalização do seu familiar foi algo positivo ou negativo para o mesmo? Positivo 29 85,3 Negativo 5 14,7 SE positivo: Quais foram as consequências positivas ou sentimentos positivos que a institucionalização provocou no seu familiar idoso? Sente-se mais seguro, pois está acompanhado 24h por dia por uma equipa de profissionais aptos para cuidarem de si. 14 48,3 Tranquilidade 11 37,9 Aumentou o desenvolvimento e a sua participação em atividades socioculturais, o que evita que se torne sedentário. 9 31,0 Não se sente só, uma vez que está em contacto com outras pessoas da sua idade, podendo dessa forma aumentar a sua convivência com os outros. 9 31,0 Conforto 8 27,6 Ficou feliz. 3 10,3 Outro 2 6,9 SE negativo: Quais foram as consequências negativas ou sentimentos negativos que a institucionalização provocou no seu familiar? Tristeza 4 80,0 Recusa-se a ficar na instituição, pedindo constantemente para se vir embora. 3 60,0 Desconforto 2 40,0 Não interage com os restantes utentes e membros da equipa da instituição. 2 40,0 Não quer participar nas atividades desenvolvidas pela instituição. 2 40,0 Solidão 2 40,0 Isolamento 1 20,0 Frustração 1 20,0 Sedentarismo 1 20,0 Com valores mais reduzidos, mas mesmo assim importantes, surge: o sentimento de tranquilidade (11 respostas); o aumento da participação dos idosos nas atividades socioculturais, o que diminui o sedentarismo (9 respostas), indo de encontro ao que Pocinho, Pais, Santos, Nunes e Santos (2013) defendem ao afirmar que as atividades de 69 animação, que respeitem as especificidades, diferenças e opiniões dos idosos são bastante importantes para os mesmos, tendo vários benefícios, entre os quais se destaca a estimulação do idoso a nível motor, contribuindo ao mesmo tempo para prevenir a redução das suas capacidades a nível físico e locomotor. De referir também como sentimentos positivos apontados pelos participantes: a ausência de solidão devido aos contactos, sobretudo com os pares, possibilitados pela sua institucionalização (9 respostas), pois é nas respostas sociais para idosos que alguns conseguem combater ou pelo menos aliviar a solidão, o que constitui um dos aspetos positivos da institucionalização (André, 2020); o conforto (8 respostas), pois segundo Pimentel (2009), a institucionalização permite que o idoso tenha conforto e o aproveite; e, por fim, com o valor mais baixo surge a felicidade (3 respostas). Ainda na mesma questão, através da análise de outras respostas dadas pelos participantes, verifica-se que outro sentimento ou consequência positiva da institucionalização está relacionada com a satisfação das necessidades dos idosos, tal como o participante refere ao afirmar que “As necessidades básicas são asseguradas”, o que poderá significar que essa família não tinha a disponibilidade e/ou a capacidade necessária para cuidar do seu idoso. Em sentido oposto, os participantes que responderam que a institucionalização do seu familiar tinha sido algo negativo, apresentam como consequências ou sentimentos negativos: a tristeza, que surge em primeiro lugar (4 respostas); a recusa do idoso em permanecer na instituição (3 respostas), o que demonstra a recusa, por parte dos idosos, em aceitarem a sua institucionalização, estando nessa situação contra a sua vontade; os sentimentos de desconforto, solidão, isolamento do idoso face aos seus colegas e membros da instituição e a sua não participação nas atividades propostas pela instituição (cada um deles com 2 respostas), o que no nosso ponto de vista acaba por demonstrar precisamente o oposto do pretendido em alguns casos, que é o combate à solidão e que segundo André (2020) é um aspeto positivo da institucionalização. Por fim, com uma representatividade bastante baixa surgem os sentimentos de isolamento, frustração e sedentarismo. 70 3.3. Perceções dos participantes sem idosos institucionalizados sobre esse processo Passando, agora, à análise da perceção sobre a institucionalização dos idosos numa ERPI, nos 188 participantes sem familiares idosos institucionalizados, ao contrário dos participantes com familiares idosos institucionalizados, podemos assumir uma maior robustez na generalidade dos resultados obtidos. 3.3.1. Outras Respostas Sociais frequentadas pelos idosos Quando questionados se, embora não tendo nenhum familiar idoso a frequentar uma ERPI, tinham algum familiar idoso a frequentar outra resposta social, foi possível constatar que a grande maioria dos participantes, 81,9%, responderam de forma negativa, o que poderá significar que esses idosos ainda têm a sua autonomia ou apesar de poderem estar a perder essa autonomia ou de já a terem perdido e por isso necessitarem de apoio, as suas famílias conseguem responder às suas necessidades. Tabela 7. Outras Respostas Sociais frequentadas pelos familiares dos inquiridos N % Apesar de não ter nenhum familiar idoso próximo que frequente uma Estrutura Residencial para Pessoas Idosas, tem algum familiar idoso próximo a frequentar outro serviço (por exemplo, Serviço de Apoio Domiciliário ou Centro de Dia)? Não 154 81,9 Sim 34 18,1 SE sim: Qual o serviço que o seu familiar frequenta? Serviço de Apoio Domiciliário 21 61,8 Centro de Dia 11 32,4 Centro de Noite 1 2,9 Centro de Convívio 1 2,9 Porém, também é possível verificar a importância que os serviços destinados aos idosos têm no auxílio às famílias com idosos a seu encargo, sobretudo quando estes têm algum grau de dependência, pois, tal como já verificámos mais atrás, segundo Freitas e Scheicher (2010), Caldas (2011), Gomes e Mata (2012), Pereira (2012a) e Crispim (2021), a tarefa de cuidar dos idosos é difícil para os seus familiares, tarefa essa que na perspetiva de Souza, Skubs e Brêtas (2007), Gomes e Mata (2012), Pocinho, Veloso, 71 Sousa e Santos (2012) e Crispim (2021), acaba por sobrecarregar os cuidadores, o que aumenta de probabilidade de acontecer no caso de famílias com idosos dependentes a seu encargo. De destacar ao mesmo tempo, os 18,1% de participantes com familiares a frequentar outro serviço, que pode significar que estamos perante uma situação em que os familiares querem promover a permanência dos idosos na sua casa ou, pelo contrário, têm de recorrer a estes serviços devido à ausência de vagas noutros serviços que achem mais adequados às necessidades dos idosos, tais como as ERPI. Os participantes que afirmaram na questão anterior possuir familiares a frequentar outro serviço que não fosse a ERPI, quando questionados sobre o serviço que os mesmos frequentavam, mais de metade afirma que esse serviço é o SAD (61,8%), seguindo-se depois o CD (32,4%). Assim, estes valores poderão demonstrar a prioridade que é dada à permanência dos idosos no seu domicílio, mas recorrendo a instituições para lhes prestem os cuidados necessários, cuidados esses que a família não consegue prestar, o que vai de encontro ao que Marques (2011) defende ao afirmar que serviços como o CD e SAD têm como grande objetivo manter os idosos no seu domicílio. No caso particular do CD, esta ideia de prestação de cuidados e permanência no domicílio é bastante visível na sua própria definição, pois segundo Bonfim e Saraiva (1996), os Ministérios da Saúde e do Trabalho e da Solidariedade (1998), Martins (2006), ISS, I.P. (2010a, 2021), Jacob (2012) e Teixeira, Soares e Teixeira (2019), esta resposta social presta vários serviços que permitem que o idoso permaneça no seu meio sociofamiliar. Também é possível verificar essa prestação de cuidados na casa dos utentes na definição do SAD que segundo Bonfim e Veiga (1996), Ministérios da Saúde e do Trabalho e da Solidariedade (1998) e Martins (2006), consiste numa resposta social que visa prestar cuidados individualizados e personalizados na casa das pessoas e famílias. 3.3.2. Perceções sobre a institucionalização na ERPI Ao questionarmos os participantes sem familiares idosos institucionalizados na ERPI sobre quais achavam ser os principais motivos que podiam levar à opção pela institucionalização dos idosos, a maior parte dos participantes (71,8%) mencionam o elevado grau de dependência do idoso, que cria uma necessidade de acompanhamento e apoio constante para a satisfação das suas atividades diárias, o que vai de encontro ao que Crispim (2021) defende ao afirmar que o elevado grau de dependência dos idosos é uma 72 das principais causas para a sua institucionalização na ERPI. Também outros autores como Daniel (2009), Pereira (2012a), Daniel, Brites, Monteiro e Vicente (2019) e Moreira (2020), apontam a dependência dos idosos como um dos principais motivos que contribuem para a institucionalização dos idosos. Outros motivos apontados pelos participantes são: falta de tempo por parte dos familiares para cuidarem do seu idoso provocada pela sua inserção no mercado de trabalho (64,9%), o que vai de encontro ao que Neto e Corte-Real (2013) e Daniel, Brites, Monteiro e Vicente (2019), defendem ao afirmar que se assiste a uma redução do apoio e disponibilidade da família por motivos laborais; o isolamento e solidão do idoso (39,4%); o facto de os idosos viverem sós (35,6%), sendo que Moreira (2020), também aponta a solidão e o facto de os idosos viverem sós como principais causas da institucionalização, juntando-se ainda a visão de André (2020), que defende que por vezes é nas instituições, seja qual for a resposta social frequentada, que os idosos conseguem combater ou aliviar o sentimento de solidão. 79 não apenas em determinados momentos do dia ou durante a noite e que por sua vez a família também não consiga colmatar essas necessidades. Ao nível das outras respostas apresentadas pelos participantes, a principal justificação é o facto de esses serviços não terem um acompanhamento constante, ao contrário do que se verifica na ERPI, tal como um dos participantes defende ao afirmar que “Não são serviços de 24 horas e não têm as instalações necessárias”. Também verificámos que um dos participantes não conseguiu fazer uma correta distinção entre as respostas sociais ERPI, SAD e CD, pois apesar de todas elas se destinarem a idosos e os apoiarem através da prestação de cuidados, existem várias diferenças entre todas elas, começando logo pelo facto da institucionalização na ERPI significar uma grande mudança na vida dos idosos (Grupo de Coordenação do Plano de Auditoria Social & CID, 2005; Carvalho & Dias, 2011; Pereira, 2012b; Pocinho, Pais, Santos, Nunes & Santos, 2013), podendo originar grandes ruturas (Grupo de Coordenação do Plano de Auditoria Social & CID, 2005; Martins, 2006; Pimentel, 2009; Pocinho, Pais, Santos, Nunes & Santos, 2013), pois este tem de deixar a sua casa, objetos e tudo aquilo a que estava habituado para ir morar para um espaço que já não é seu e em que perde privacidade (Pocinho, Pais, Santos, Nunes & Santos, 2013), sendo que outra grande diferença é que nas ERPI se verifica a existência de serviços constantes e adequados para responder às necessidades biopsicossociais dos idosos (ISS, I.P., 2021). Por fim, quisemos saber qual o serviço que os participantes achavam a melhor opção caso o grau de dependência do idoso fosse reduzido e cujas respostas podemos dividir em dois grupos: o primeiro grupo refere-se aos participantes que são a favor das respostas sociais mais convencionais/conhecidas, como o CD e SAD, ambas com 35,8% dos participantes; por outro lado, o segundo grupo, com uma representatividade muito menor, é composto pelos participantes que são a favor de alternativas inovadoras às respostas sociais mais convencionais, tais como o Cohousing e a República Sénior, serviços esses apontados como a melhor opção para os idosos com um baixo grau de dependência. Assim, estes resultados podem levar-nos a concluir que ainda existe pouco conhecimento sobre outro tipo de serviços destinados aos idosos, o que também se reflete no facto dos mesmos ainda existirem em número bastante reduzido em Portugal e também poderá significar uma certa resistência das pessoas face ao desconhecido, sendo por isso importante dar a conhecer estes novos serviços destinados aos idosos que, embora sejam independentes ou tenham um nível de dependência muito reduzido, tiverem que sair das 80 suas casas, pois tal como o CENIE (2019) defende, existem muitas opções de residência para os idosos que precisam de deixar a sua casa. No que diz respeito às outras respostas dadas pelos participantes, importa apenas destacar que as respostas sociais mais convencionais continuam a ser as mais escolhidas, o que se verifica através da seguinte resposta: “Não é possível escolher uma pois os idosos são muito diferentes entre si, de cabeça e autonomia. Acho que a própria palavra institucionalização de alguém tem uma conotação forte e negativa o que dificulta a integração num lar e piora o quadro do idoso, mas às vezes quando o nível de dependência é alto é a melhor solução, mas quando o grau de dependência é baixo o apoio domiciliário trás muita qualidade de vida sem o intacto negativo de tudo o que implica a institucionalização”. 3.4. A institucionalização dos idosos nas ERPI e suas alternativas 3.4.1. Possibilidade de institucionalização na ERPI Com o intuito de percebermos qual a posição da totalidade dos participantes face à institucionalização, questionámos se iriam ponderar a institucionalização numa ERPI de um familiar seu idoso que têm ou tivessem a seu encargo, tendo a maioria (60,8%) respondido afirmativamente. Assim, para tentarmos perceber melhor as posições adotadas pelos participantes na questão anterior, questionámos sobre qual a justificação para a sua resposta, sendo que no caso dos participantes que responderam que iriam ponderar a institucionalização do seu familiar idoso numa ERPI, a maioria, 65,2%, admite essa hipótese apenas como último recurso caso o seu familiar tenha um elevado grau de dependência, o que poderá demonstrar mais uma vez as grandes dificuldades que significa cuidar de idosos, sobretudo dependentes (Freitas & Scheicher, 2010; Caldas, 2011; Gomes & Mata, 2012; Pereira, 2012a; Crispim, 2021) e a institucionalização como último recurso. São ainda de salientar justificações como: indisponibilidade para cuidar do idoso devido à sua inserção no mercado de trabalho (43,7%), pois tal como Neto e Corte-Real (2013) e Daniel, Brites, Monteiro e Vicente (2019) afirmam, assiste-se à diminuição da disponibilidade da família para apoiar os seus idosos, o que conduz à sua institucionalização; respeito pela vontade do idoso em ser institucionalizado (33,3%), o que mostra o respeito pela vontade individual dos idosos na tomada de decisão; e o isolamento e solidão (27,4%), o que mostra mais uma vez a importância e o recurso à 81 ERPI como forma de combater ou tentar reduzir a solidão e isolamento dos idosos, pois esse também é um dos aspetos positivos da institucionalização dos idosos (Pimentel, 2009; André, 2020). Tabela 10. Reflexões sobre a institucionalização na ERPI N % Se tem ou tivesse um familiar idoso a seu encargo, iria ponderar a sua institucionalização numa Estrutura Residencial para Pessoas Idosas? Sim 135 60,8 Não 42 18,9 Nunca pensei no assunto. 45 20,3 SE sim: Justifique a sua resposta. Sim, mas como último recurso se o seu grau de dependência fosse elevado. 88 65,2 Sim, se o meu trabalho não me permitisse cuidar dele. 59 43,7 Sim, caso esse fosse o seu desejo. 45 33,3 Sim, caso ele vivesse sozinho e isolado. 37 27,4 Outro 4 3,0 SE não: Justifique a sua resposta. Não, pois mesmo não tendo disponibilidade e conhecimentos suficientes para cuidar dele, iria tentar arranjar uma solução para que ele pudesse permanecer junto de mim. 26 61,9 Não, pois ele sempre disse que queria envelhecer em casa. 12 28,6 Não, pois penso que é a família que deve cuidar do idoso, independentemente das circunstâncias. 6 14,3 Não, iria ponderar colocar o meu familiar noutro serviço. 5 11,9 Outro 4 9,5 SE selecionou na questão anterior a opção “Não, iria ponderar colocar o meu familiar noutro serviço”: Qual seria esse serviço? Serviço de Apoio Domiciliário 4 80,0 Centro de Dia 1 20,0 Através da análise de outras respostas dadas pelos participantes, verificamos que algumas das justificações apresentadas pelos participantes para ponderarem a institucionalização na ERPI de familiares idosos que tenham ou venham a ter a seu encargo, além de estarem relacionadas com o respeito pela vontade dos idosos, também é ponderada a sua possível indisponibilidade para cuidarem do seu familiar, seja por motivos de saúde ou profissionais, o que se agrava quando esses cuidadores informais são mulheres: “Sim, se fosse o seu desejo e ponderando sempre o grau de dependência vs 82 a minha disponibilidade profissional e familiar”; “A minha saúde não permitir que eu cuide da pessoa idosa”; “Não é possível cuidar de filhos e de um parente direto acamado se se estiver a trabalhar fora de casa. Sobretudo quando estes são obesos, as cuidadoras são mulheres e nem sequer conseguem ajudar a virar na cama pelo peso, por exemplo”, sendo que esta última justificação demonstra mais uma vez que a inserção no mercado de trabalho, sobretudo das mulheres, é um fator que acaba por ser decisivo na opção da institucionalização, ideia essa defendida por Neto e Corte-Real (2013) e Daniel, Brites, Monteiro e Vicente (2019). Em contrapartida, os participantes que responderam que não iriam ponderar a institucionalização de um familiar seu idoso numa ERPI que têm ou tivessem a seu encargo, apresentam como principal justificação (61,9%) a necessidade de o manterem junto de si, apesar de não terem disponibilidade e/ou conhecimentos suficientes para a prestação dos seus cuidados, o que poderá significar o desejo e/ou o sentimento de obrigação de ser a família a cuidar dos seus idosos e a preocupação em conseguirem satisfazer as necessidades dos mesmos. Com menor representatividade, surgem justificações relacionadas com o facto de o idoso ter manifestado sempre o seu desejo de envelhecer em casa (28,6%), o que demonstra o respeito pela vontade dos idosos; o sentimento de que é a família que deve cuidar dos seus idosos, independentemente das circunstâncias (14,3%), o que demonstra novamente o papel da família na prestação de cuidados aos idosos; e por fim, a solução passaria por colocar o idoso noutra resposta social (11,9%), o que poderá significar uma rejeição da retirada dos idosos do seu contexto e a tentativa de prestação de cuidados na casa dos mesmos ou na casa de algum familiar. Analisando outras respostas dos participantes verificamos que todos concordam que a ERPI não é solução e por isso, iriam tentar arranjar outras alternativas: “Iria contratar uma cuidadora”; “Penso que não têm os cuidados necessários, na maioria das vezes tratados de forma desumana”; “Tentaria arranjar apoio permanente em casa deles”. Por fim, questionámos os participantes que responderem que iriam ponderar colocar o seu familiar noutro serviço distinto da ERPI, de qual seria esse serviço e chegámos à conclusão de que a maioria desses participantes escolheu o SAD (4 respostas), o que mais uma vez demonstra que os serviços mais procurados pelos participantes continuam a ser aqueles que são mais conhecidos. 83 3.4.2. Impactos da institucionalização e soluções para a evitar e/ou retardar No que diz respeito à reflexão dos participantes sobre os impactos da institucionalização na ERPI e suas alternativas, quando questionados se achavam que a institucionalização provocava mudanças na vida dos idosos, constatamos que as opções que mencionam que de facto existem mudanças representam a larga maioria das respostas obtidas. Tabela 11. Reflexão sobre os impactos da institucionalização na ERPI e suas alternativas N % Na sua opinião a institucionalização do idoso na Estrutura Residencial para Pessoas Idosas provoca alterações na vida do mesmo? Sim, pois este tem de alterar a sua rotina e hábitos. 148 66,7 Sim, pois tem de viver com pessoas que não conhece e adaptar-se a uma nova realidade. 133 59,9 Sim, pois tem de deixar tudo o que era seu e ir para um sítio onde pode levar poucas coisas suas. 94 42,3 Não, não provoca nenhuma alteração na vida do idoso. 4 1,8 Outro 6 2,7 O que pensa que poderia ser feito para evitar e/ou retardar a institucionalização dos idosos nas Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas? Criar novos serviços que promovam a permanência dos idosos nas suas casas. 143 64,4 Criar legislação que proteja os idosos e os seus cuidadores. 113 50,9 Optar por alternativas inovadoras à institucionalização, tais como o "Cohousing" ou Repúblicas Seniores. 90 40,5 Contratar alguém para cuidar do idoso no seu domicílio. 66 29,7 Reforçar os serviços já existentes, fazendo algumas alterações. 63 28,4 Os empregadores diminuírem ou flexibilizarem o horário de trabalho dos funcionários que tenham idosos a seu encargo. 60 27,0 Sensibilizar e aumentar os conhecimentos dos familiares sobre o processo de institucionalização e as suas implicações. 47 21,2 Outro 7 3,2 Nesse sentido, a principal resposta dos participantes que defendem que a institucionalização na ERPI implica mudanças na vida dos idosos está relacionada com a alteração dos seus hábitos e rotinas (66,7%), o que vai de encontro ao que o Grupo de Coordenação do Plano de Auditoria Social e CID (2005) defende ao afirmar que a institucionalização na ERPI provoca muitas alterações na vida dos idosos, afastando-os 84 do seu meio e obrigando-os a adaptarem-se a um novo ambiente, representando por isso uma rutura com os seus hábitos e com a sua vida antiga. Com menor representatividade, mais ainda assim importantes, surgem respostas que defendem que a institucionalização na ERPI provoca mudanças na vida dos idosos, pois estes têm de se adaptar a uma realidade diferente daquela a que estavam habituados e viver com pessoas que não conhecem (59,9%), uma vez que os idosos têm de morar num local que não é a sua casa, perdendo dessa forma alguma da sua privacidade (Pocinho, Pais, Santos, Nunes & Santos, 2013) e, por outro lado, os idosos têm de deixar tudo aquilo a que estavam habituados, apenas levando uma pequena quantidade de pertences pessoais (42,3%), pois no ato de institucionalização os idosos perdem o direito a possuir alguns objetos pessoais (Daniel, 2009; Pocinho, Pais, Santos, Nunes & Santos, 2013). Salientar que é quase inexistente o número de participantes que afirmam que a institucionalização na ERPI não provoca qualquer alteração na vida dos idosos, o que no nosso ponto de vista, apesar de ser um valor muito baixo, poderá ser preocupante, pois a institucionalização dos idosos provoca sempre mudanças nas suas vidas (Grupo de Coordenação do Plano de Auditoria Social & CID, 2005; Martins, 2006; Pimentel, 2009; Carvalho & Dias, 2011; Pereira, 2012b; Pocinho, Pais, Santos, Nunes & Santos, 2013). Por fim, outras respostas dos participantes mostram que concordam que a institucionalização na ERPI provoca mudanças, sendo que muitos destes participantes destacam mudanças negativas na vida dos idosos, tais como: “Exige uma adaptação a uma nova realidade […]”; “Provoca alterações nos seus hábitos de vida, mas depois adapta se e pode ter uma vida normal, sempre com o apoio da família”; “Sim. Porque muitas vezes este entende que passou a ser um estorvo. O facto de as institucionalizações em estruturas residenciais ser ainda tão mal visto na sociedade, (visto como se se tratasse de um abandono em asilo) deixa o idoso muito inseguro quanto a tudo […]”. Porém, também é de destacar uma resposta que aponta a institucionalização como uma mudança positiva na vida dos idosos: “Sim, aumenta a quantidade de relações interpessoais”. De seguida foram questionados sobre o que pensam que poderia ser feito para evitar e/ou retardar a institucionalização dos idosos nas ERPI, sendo que a opção mais indicada (64,4%) se refere à criação de novos serviços que permitam os idosos permanecer nas suas casas, o que no nosso ponto de vista poderá significar uma tendência de maior abertura das pessoas face a novas formas e serviços de prestação de cuidados aos idosos nas suas casas. 85 Outras das soluções/alternativas apontadas com maior representatividade foram: criação de legislação para proteger os idosos e seus cuidadores (50,9%), pois, tal como Jacob (2002) afirma, na Europa as políticas sociais na área dos idosos focam-se sobretudo nas instituições e no SAD, o que faz com que a família que cuida dos idosos tenha muito poucas ajudas, o que leva consequentemente à institucionalização do idoso; e escolher alternativas inovadoras, como o Cohousing ou Repúblicas Seniores (40,5%), o que nos parece muito positivo e representa um avanço nas perceções das pessoas acerca da realidade da institucionalização dos idosos, mostrando ao mesmo tempo que existem outros serviços, que não os convencionais, que podem satisfazer igualmente as necessidades dos idosos, sobretudo daqueles cujo nível de dependência é baixo. Com uma representatividade mais reduzida importa referir: contratação de uma pessoa para prestar cuidados aos idosos nas suas casas (29,7%), o que apesar de ser muito positivo, é algo que estará restrito à capacidade económica de poucos idosos, pois os idosos ou a sua família teriam de pagar a alguém por esse trabalho, não recebendo apoios financeiros de nenhuma entidade; reorganizar e reforçar os serviços que já existem (28,4%), o que poderá representar uma certa resistência em relação a novas formas de prestação de apoio aos idosos; alterações nos horários de trabalho de funcionários que tenham idosos ao seu encargo (27,0%), pois como já nos foi possível constatar, a inserção dos familiares dos idosos no mercado de trabalho, principalmente das mulheres, reduz a sua disponibilidade para estes cuidarem dos idosos (Neto & Corte-Real, 2013; Daniel, Brites, Monteiro & Vicente, 2019); e, sensibilizar e aumentar os conhecimentos das famílias sobre a institucionalização e o que ela implica (21,2%), o que poderá significar realizar campanhas de sensibilização e formações/palestras sobre este tema ou ainda uma pesquisa individual das pessoas, procurando desse modo terem um maior conhecimento sobre o mesmo antes de tomarem alguma decisão e desse modo alterar as visões das pessoas. Por fim, outras respostas dadas pelos participantes demonstram que estes mencionam como solução a criação de apoios aos cuidadores informais para que esses possam cuidar de forma correta dos seus idosos, sem serem prejudicados: “A segurança social subsidiar o cuidador, se este não tiver possibilidades, para poder contratar uma empregada […]”, “Apoio a cuidadores informais a todos os níveis, de forma que fosse possível cuidar do familiar em casa” e “Criar uma rede de apoio ao cuidador/familiar para que pudessem cuidar do seu idoso”. 86 Importa ainda destacar que outra solução apresentada consiste em melhorar os serviços já existentes, tornando-os mais personalizados, tendo em conta as necessidades de cada idoso, o que consequentemente iria aumentar a sua qualidade e eliminar a visão negativa da institucionalização na ERPI: “É necessário existirem serviços humanizados e de qualidade […] é necessário mudar toda uma visão de uma sociedade que antigamente vivia com os idosos em casa […] e as institucionalizações eram vistas como os locais para os malucos e os moribundos”, o que vai de encontro ao defendido por Daniel (2009), Jacob (2012) e Daniel, Brites, Monteiro e Vicente (2019), ao afirmarem que existe uma representação negativa das ERPI criada pela sociedade que, consequentemente, segundo Daniel, Brites, Monteiro e Vicente (2019), provoca receios nos idosos no momento da sua institucionalização. No mesmo sentido surgem respostas como: “Promover mais serviços de estimulação cognitiva e fisioterapia para retardar o declínio cognitivo e físico do idoso, com ou sem patologias associadas”, resposta esta que é de salientar pela importância que o participante dá à necessidade de estimulação cognitiva e física do idoso, fundamental para evitar certas demências, pois existe uma grande relação entre a institucionalização e o processo degenerativo inerente ao processo de envelhecer (Pocinho, Pais, Santos, Nunes & Santos, 2013). 3.4.3. Possibilidade de institucionalização e posição às alternativas à ERPI De forma a percebermos a posição destes participantes quanto à sua possível institucionalização no futuro, questionámos se estes equacionavam a sua institucionalização numa ERPI, ao que a maioria dos participantes (65,8%) respondeu que sim, sendo que deste grupo, 52,7% afirmam que só o irão fazer se tiverem um elevado grau de dependência, fazendo com que necessitem de ajuda para a realização de tarefas diárias e apenas 13,1% apresentam como justificação a solidão e isolamento para a tomada de decisão. De referir ainda a reduzida quantidade de participantes, 8,1%, que demonstram desejo em não serem institucionalizados e dessa forma envelhecer em casa. Outras respostas dadas pelos participantes demonstram o seu desejo em ser institucionalizados na ERPI ou noutra resposta social e outra parte diz que irá depender da situação em que se encontrem: “Em SAD permanente ou cohousing”; “Sim não me importava de um dia ser institucionalizada, mas acho que o maior problema e grave é as mensalidades que exigem que são […] aos rendimentos das famílias […]”, “Sim. Não quero dar trabalho à minha família. Prefiro que o tempo que tenham livre para mim seja 87 de qualidade”, resposta esta que poderá revelar que esta participante se vê como um “fardo” para a família quando for idosa e que por isso não lhe quer dar trabalho, optando assim pela sua institucionalização, mas ao mesmo tempo deseja que, apesar da pouca disponibilidade que a sua família possa ter para si quando for idosa, consiga ter momentos de bastante qualidade com eles; “Depende sempre da situação financeira...”. Tentámos igualmente perceber qual era a alternativa que os participantes consideravam melhor para os idosos independentes, mas que necessitavam de mudar de habitação e que não queriam ir para uma ERPI, sendo que, neste caso, a opção mais escolhida foi a Aldeia Social (42,8%), seguindo-se depois com uma diferença grande o Cohousing (24,8%). Tabela 12. Possibilidade de institucionalização e posição às alternativas à ERPI N % Equaciona a sua institucionalização numa Estrutura Residencial para Pessoas Idosas? Sim, mas apenas se o meu grau de dependência for elevado e necessitar de ajuda para realizar tarefas diárias. 117 52,7 Ainda não pensei nisso. 52 23,4 Sim, caso esteja sozinho/a e/ou isolado/a. 29 13,1 Não, pois quero envelhecer em casa. 18 8,1 Outro 6 2,7 Qual considera ser a melhor alternativa para os idosos que sejam independentes, mas que necessitem de mudar de habitação e não queiram ir para uma Estrutura Residencial para Pessoas Idosas? Aldeia Social 95 42,8 “Cohousing” 55 24,8 Repúblicas Seniores 39 17,6 Apartamentos para idosos 29 13,1 Outro(a) 4 1,8 Acha que as alternativas mencionadas na questão anterior, bem como novas que possam surgir, são melhores soluções para os idosos do que a sua institucionalização nos serviços mais convencionais, tais como Centros de Dia e Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas? Sim 201 90,5 Não 21 9,5 Através da análise de outras respostas dos participantes verificamos que esses participantes são a favor da permanência dos idosos nas suas habitações ou nas habitações das suas famílias: “A família ter condições para cuidar do idoso, caso o queira ter em 88 casa.”; “Permanecerem em casa com "cohelp" diário.”; “Se for independente, é questão de arranjar outra casa... idealmente perto da família”; “Não acho que tenha de haver uma alternativa. Acho que só deve sair da sua habitação caso tenha que ir para uma Estrutura Residencial para pessoas idosas. […] Acho mesmo que devemos inserir as pessoas nas comunidades, a ideia não deveria ser juntar os idosos todos num sítio, deveria ser mantêlos na comunidade, fornecendo o máximo de soluções para as dificuldades que vão surgindo, como fazemos com todas as outras pessoas, crianças, adultos com mais ou menos problemas de saúde e de vida”, resposta esta que demonstra a posição de manter os idosos na comunidade, onde podem conviver com várias pessoas, sobretudo de diferentes faixas etárias, não juntando todos os idosos no mesmo sítio, defendendo ao mesmo tempo que para isso ser possível é necessária a existência de soluções para eventuais problemas que possam existir, mas sempre promovendo a inserção dos idosos na comunidade. Por fim, quando questionados se achavam que as alternativas mencionadas na questão anterior e outras que pudessem surgir eram melhores soluções para os idosos do que a sua institucionalização nos serviços mais convencionais, como Centros de Dia e ERPI, a grande maioria dos participantes, 90,5%, respondeu afirmativamente, o que poderá significar uma alteração de mentalidades e da forma como as pessoas encaram a institucionalização dos idosos. 3.5. Papel desempenhado pelas instituições durante a pandemia 3.5.1. Atuação das instituições de apoio aos idosos em período de Pandemia Por fim, devido ao período de pandemia atual e suas grandes implicações na vida dos idosos institucionalizados quisemos tentar perceber qual a opinião de todos os participantes sobre a atuação das instituições de apoio aos idosos durante a pandemia COVID-19. Assim, começámos por tentar perceber se consideram que o papel das instituições de apoio a idosos foi ou continua a ser positivo durante a pandemia COVID-19, sendo que a grande maioria, 77%, concorda que as instituições atuaram ou estão a atuar bem. De forma a tentarmos perceber as justificações que os levaram a adotar tal posição, pedimos aos participantes que tinham achado positivo o papel desempenhado por essas instituições, que nos indicassem o que para cada um se tinha destacado mais, pela positiva, nas ações levadas a cabo por essas instituições durante este período de pandemia, 95 os cuidados que os idosos necessitam de forma correta. Por fim, salientar que a principal diferença que separa o CD e SAD da ERPI se prende com aquilo que o Despacho conjunto n.º 407/98, Martins (2006), ISS, I.P. (2007) e MTSSS (2015) falam, ao afirmarem que a ERPI se destina a alojar os idosos. Ao procedermos à avaliação dos aspetos que determinam a opção de institucionalização dos idosos, sobretudo na ERPI, bem como as suas consequências positivas e negativas para o idoso, verificamos que os participantes com familiares idosos institucionalizados na ERPI que afirmaram não achar essa resposta social a mais adequada para o seu familiar, defendem que o motivo que os levou posteriormente a optar pela ERPI se prende, sobretudo, com obstáculos criados pela sua inserção no mercado de trabalho, o que lhes reduz a sua disponibilidade para cuidarem do idoso. Ao questionarmos os restantes participantes com familiares idosos institucionalizados numa ERPI sobre os motivos que os levaram a optar por essa resposta, verificamos que o principal motivo se prende com o grande grau de dependência dos seus familiares, que faz com que estes necessitem de apoio contante e especializado para realizar certas tarefas básicas. Para os participantes sem familiares idosos institucionalizados na ERPI, o principal motivo que acreditam contribuir para a institucionalização dos idosos nessa resposta social é o grande grau de dependência do idoso, que faz com que a tarefa de cuidar dos mesmos fosse mais complicada, exigindo apoio e acompanhamento constante. No mesmo sentido, concluímos que mais de metade dos participantes com familiares idosos institucionalizados na ERPI afirmam que a institucionalização do seu familiar na ERPI tinha sido algo positivo, destacando o sentimento de segurança proporcionado pela institucionalização, pois o idoso está acompanhado por profissionais 24h por dia e a tranquilidade. No que diz respeito às consequências positivas e/ou negativas do processo de institucionalização na ERPI, a maior parte dos participantes sem familiares idosos institucionalizados numa ERPI considera que a institucionalização na ERPI pode ser algo positivo para o idoso, destacando-se o facto de a ERPI ter uma equipa de profissionais aptos para cuidarem dos idosos, seguindo-se o reconhecimento da importância das interações promovidas por esse ambiente. Apesar do nosso esforço, não foi possível percebermos qual o nível de influência dos familiares dos idosos na tomada de decisão da sua institucionalização, visto que a questão colocada sobre o grau de influência dos familiares na institucionalização dos seus idosos 96 na ERPI apenas incidiu sobre os 34 participantes com familiares institucionalizados na ERPI, o que apenas nos permite uma análise muito simplista e não representativa. Apesar disso, foi possível verificar através das respostas obtidas que a maioria dos participantes não teve qualquer influência nesse processo. Noutro sentido, a avaliação da recetividade das pessoas em relação às novas alternativas à institucionalização dos idosos em respostas sociais como os CD, SAD e ERPI, permitiu-nos constatar que a melhor alternativa para os idosos independentes que por algum motivo necessitavam de mudar de habitação, mas que não queriam ir para uma ERPI, era a aldeia social, seguida do cohousing. Também foram mencionadas as repúblicas seniores e os apartamentos para idosos, o que nos permitiu concluir que apesar de os participantes terem a possibilidade de mencionar outras respostas sociais, tais como os CD e SAD, estes optaram por alternativas mais inovadoras que não implicam uma institucionalização dos idosos, o que demonstra a sua boa recetividade a essas alternativas. De modo a reforçar a ideia anterior, a maior parte dos participantes afirma que essas alternativas inovadoras, que se afastam das respostas sociais mais convencionais, tais como o SAD, ERPI e CD, são melhores soluções para os idosos do que a sua institucionalização nas respostas sociais mencionadas anteriormente, o que nos permite mais uma vez constatar a grande recetividade dos participantes. Ao desenvolvermos o presente trabalho num contexto pandémico, achámos pertinente proceder à análise da perceção que os inquiridos têm sobre o papel desempenhado pelas instituições destinadas a idosos durante a pandemia. Nesse sentido, verificamos que a maioria dos participantes afirma que as instituições de apoio aos idosos desempenharam um papel positivo durante a pandemia COVID-19. Como principal motivo apontado para esse papel positivo das instituições, surgem as medidas de segurança levadas a cabo pelas instituições nas suas diversas valências, surgindo de seguida o motivo relacionado com a prioridade de vacinação dos colaboradores e utentes das instituições. Com menor relevância, surgem motivos tais como: proibição de visitas presenciais aos idosos; testagem nas instituições; e o encerramento de certas valências. Também foi possível concluir que a principal melhoria apontada pelos participantes, de forma a tornar o papel das instituições destinadas a idosos mais positivo, foi a diversificação das formas de contacto entre os utentes e familiares, de forma a contornar a proibição das visitas presenciais, destacando-se também a sugestão de aumento e 97 diversificação das atividades de animação desenvolvidas pelas instituições, de forma a ocuparem os utentes com atividades que fossem ao encontro dos seus gostos e necessidades. Apesar de termos proposto perceber se o facto de as pessoas terem algum familiar idoso institucionalizado influenciava de alguma forma a sua visão sobre a institucionalização, não nos foi possível chegar a qualquer conclusão devido à insuficiência de respostas, sobretudo no grupo dos participantes com familiares idosos institucionalizados, onde apenas obtivemos 34 respostas, o que não nos permitiu comparar as perspetivas dos participantes com e sem familiares idosos institucionalizados na ERPI. Ao analisarmos as perceções das pessoas relativamente à opção pela institucionalização dos idosos na ERPI, constatamos que a larga maioria dos inquiridos que possuem familiares idosos institucionalizados em ERPI afirmam que a ERPI é a resposta social mais adequada para o seu familiar, apresentando como principal justificação o facto de essa resposta oferecer um acompanhamento constante por parte de uma equipa multidisciplinar que presta os cuidados necessários aos idosos. Constatamos igualmente que mais de metade dos participantes ponderam institucionalizar um familiar seu numa ERPI, apresentando como principal justificação a opção por essa resposta apenas como último recurso caso o grau de dependência do seu familiar fosse elevado, o que nos leva a concluir que embora mais de metade dos participantes assumam a possibilidade de institucionalização dos seus familiares idosos numa ERPI, essa opção não é encarada como a primeira alternativa, mas sim como uma opção que acaba por ser melhor tendo em conta o estado do idoso. No que diz respeito ao grau de conhecimento das pessoas sobre a institucionalização, sobretudo na ERPI, apesar da reduzida quantidade de respostas obtidas no inquérito por questionário, conseguimos verificar que no que diz respeito à resposta social ERPI, mais de metade dos participantes sem familiares idosos institucionalizados nessa resposta social, demonstraram saber a importância da ERPI na prestação de cuidados aos idosos, através da existência constante de uma equipa de profissionais aptos para cuidarem dos idosos, o que para esses participantes consiste num aspeto positivo da ERPI. Verificamos igualmente que a grande maioria desses participantes acham que o SAD e CD são melhores opções, apresentando como principal justificação o facto de esses serviços permitirem a permanência dos idosos nas suas casas, recebendo ao mesmo tempo cuidados por parte de uma equipa de profissionais, o que nos permite constatar que estes 98 participantes entendem que a institucionalização na ERPI afasta o idoso no seu contexto e pelo contrário, estas respostas conseguem prestar cuidados aos idosos sem estes saírem do seu contexto. Através da análise da opinião dos participantes quanto à existência de alterações na vida dos idosos, fruto da sua institucionalização na ERPI, constatamos que a maioria dos participantes reconhece que existem alterações, destacando: a alteração de rotinas e hábitos; o facto de os idosos terem de viver num lugar onde não conhecem as pessoas, o que implica a sua adaptação a um novo contexto e realidade; e o facto de a institucionalização representar um abandono de bens materiais. Esta ideia é reforçada quando apenas uma pequena percentagem de participantes defende que uma coisa que poderia ser feita para evitar e/ou retardar a institucionalização dos idosos nas ERPI é reforçar serviços que já existem, através da implementação de algumas alterações, em oposição à maioria dos participantes, que afirmam que a principal solução passa pela criação de novos serviços que permitam que os idosos permaneçam nas suas casas. Como perspetiva de trabalhos futuros, achamos que seria pertinente explorar e desenvolver estudos que nos permitam perceber se o facto de as pessoas terem ou não terem familiares idosos institucionalizados numa ERPI influencia a sua perspetiva sobre a institucionalização. De forma a ser possível desenvolver um estudo como esse, pensamos que o ideal seria recolher informações com os próprios familiares dos idosos, através da deslocação presencial a instituições de idosos de forma a ser solicitada a sua colaboração para dessa forma ser possível estabelecer contacto com os familiares dos idosos. Por fim, esperamos que o presente trabalho contribua de alguma forma para o desenvolvimento de um sentimento de reflexão nas pessoas acerca da institucionalização dos idosos e respetivas consequências para os mesmos, desmistificando certas ideias do senso comum e tenha permitido o conhecimento de alternativas inovadoras à institucionalização na ERPI. 99 Bibliografia Andrade, W. 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