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A cidade r(v)endida ao turismo: uma análise aos processos de turistificação do Porto

Silva, Márcia Patrícia Barbosa

Abstract

A presente tese tem como principal objetivo contribuir para a identificação e compreensão dos impactes do turismo na cidade do Porto, particularmente em relação aos processos de turistificação. As cidades têm vindo a ser alvo de inúmeras transformações sociais, económicas, ambientais e territoriais em virtude do rápido crescimento do turismo. A tendência geral é para um progressivo capitalismo do espaço, associado a uma melhoria da imagem da cidade, por meio da construção de centros que privilegiam a função comercial, turística e de entretenimento. Tal acontece não só porque o capitalismo assenta na construção especulativa e não propriamente na melhoria das condições reais do território, mas também porque as cidades se tornaram locais idealizados com fascínio social e político. Esta tese analisa a relação entre a cidade e o turismo e incide particularmente sobre o estudo das perceções dos residentes em relação aos impactes da indústria do turismo na cidade do Porto. O estudo empírico envolve o cruzamento de diversas técnicas de pesquisa de foro qualitativo (observação, entrevista) e quantitativo (inquérito por questionário), procurando que os residentes se pronunciassem em relação aos impactes do turismo, à presença dos turistas e ao futuro do turismo na cidade. A informação recolhida e tratada no processo investigativo permite estabelecer três conclusões centrais: (i) os residentes expressam perceções heterogéneas em relação aos impactes do turismo; (ii) os residentes cuja situação socioeconómica é mais vulnerável, as mulheres, os mais jovens e idosos, sentem-se mais expostos aos impactes negativos do turismo; (iii) os residentes mostram-se preocupados em relação ao futuro da cidade sustentado na atividade turística.

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Universidade do Minho Instituto de Ciências Sociais Márcia Patrícia Barbosa da Silva junho de 2022 A cidade r(v)endida ao turismo: uma análise aos processos de turistificação do Porto Márcia Patrícia Barbosa da Silva A cidade r(v)endida ao turismo: uma análise aos processos de turistificação do Porto UMinho|2022 Márcia Patrícia Barbosa da Silva junho de 2022 A cidade r(v)endida ao turismo: uma análise aos processos de turistificação do Porto Universidade do Minho Instituto de Ciências Sociais Trabalho efetuado sob a orientação da Professora Rita Maria Gonçalves Ribeiro e da Professora Paula Cristina Almeida Cadima Remoaldo Tese de Doutoramento Doutoramento em Sociologia ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição CC BY https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/ iii Agradecimentos Quero começar por agradecer, em primeiro lugar, à Professora Doutora Rita Ribeiro e à Professora Paula Remoaldo pela orientação cuidada, por toda a motivação, compreensão e ensinamentos. Agradecer também aos docentes do curso de doutoramento, em particular à Professora Doutora Emília Araújo, por todo o apoio e troca de experiências. Agradeço aos residentes da cidade do Porto que participaram no estudo, sem a vossa disponibilidade e participação este estudo não seria possível. Também gostaria de agradecer aos meus colegas e amigos de doutoramento, do Núcleo de Estudantes de Doutoramento em Sociologia, em especial à Maria João e à Maria José pelo apoio e motivação. Ao João Monteiro, ao José Rocha, à Joana Garrido, à Cristina Monteiro e ao Carlos Torres, amigos de GP, muito obrigada por todas as nossas conversas, gargalhadas, apoio e motivação. Um agradecimento ao “treinador” e amigo Vítor Rodrigues por todas as conversas, conselhos e treinos intensos que contribuíram para o meu equilíbrio mental, fundamental neste percurso que é o doutoramento. Um agradecimento muito especial à minha família, em especial aos meus pais, irmão e namorado por todo o apoio e compreensão, particularmente em relação à minha pouca disponibilidade de tempo. Por último, mas a mais importante, à avó Teresa, que faleceu ao longo deste percurso, por todos os seus ensinamentos, valores e educação assentes em persistência, resiliência e partilha, imprescindíveis ao longo destes quatro anos. Tenho a certeza que estarias na primeira fila da sala a assistir orgulhosamente a mais uma conquista, tal como sempre estiveste. iv DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. v A cidade r(v)endida ao turismo: uma análise aos processos de turistificação do Porto Resumo A presente tese tem como principal objetivo contribuir para a identificação e compreensão dos impactes do turismo na cidade do Porto, particularmente em relação aos processos de turistificação. As cidades têm vindo a ser alvo de inúmeras transformações sociais, económicas, ambientais e territoriais em virtude do rápido crescimento do turismo. A tendência geral é para um progressivo capitalismo do espaço, associado a uma melhoria da imagem da cidade, por meio da construção de centros que privilegiam a função comercial, turística e de entretenimento. Tal acontece não só porque o capitalismo assenta na construção especulativa e não propriamente na melhoria das condições reais do território, mas também porque as cidades se tornaram locais idealizados com fascínio social e político. Esta tese analisa a relação entre a cidade e o turismo e incide particularmente sobre o estudo das perceções dos residentes em relação aos impactes da indústria do turismo na cidade do Porto. O estudo empírico envolve o cruzamento de diversas técnicas de pesquisa de foro qualitativo (observação, entrevista) e quantitativo (inquérito por questionário), procurando que os residentes se pronunciassem em relação aos impactes do turismo, à presença dos turistas e ao futuro do turismo na cidade. A informação recolhida e tratada no processo investigativo permite estabelecer três conclusões centrais: (i) os residentes expressam perceções heterogéneas em relação aos impactes do turismo; (ii) os residentes cuja situação socioeconómica é mais vulnerável, as mulheres, os mais jovens e idosos, sentem-se mais expostos aos impactes negativos do turismo; (iii) os residentes mostram-se preocupados em relação ao futuro da cidade sustentado na atividade turística. Palavras-chave: espaço, impactes, Porto, residentes, turismo. vi The city (re)sold to tourism: an analysis of Porto's touristification processes Abstract The main objective of this thesis is to contribute to the identification and understanding of the impacts of tourism in the city of Porto, particularly in relation to the process of tourism. Cities have been the target of numerous social, economic, environmental and territorial transformations due to the rapid growth of tourism. The general trend is towards a progressive capitalism of space, associated with an improvement of the image of the city, through the construction of centres that privilege the commercial, tourist and entertainment function. This happens not only because capitalism is based on speculative construction and not on improving the real conditions of the territory, but also because cities have become idealized places with social and political fascination. This thesis analyses the relationship between the city and tourism and focuses particularly on the study of residents' perceptions regarding the impacts of the tourism industry in the city of Porto. The empirical study involved several research techniques both qualitative (observation, interview) and quantitative (survey by questionnaire), looking for residents to comment on the impacts of tourism, the presence of tourists and the future of tourism in the city. The information collected and treated in the investigative process allows to establish three main conclusions: (i) residents express heterogeneous perceptions about the impacts of tourism; (ii) residents whose socioeconomic situation is more vulnerable, women, the youngest and the elderly, feel more exposed to the negative impacts of tourism; (iii) residents are concerned with the city's future sustained by tourism. Keywords: impacts, Porto, residents, space, tourism. vii Índice Geral Agradecimentos ...................................................................................................... iii Resumo .................................................................................................................... v Abstract .................................................................................................................. vi Abreviaturas e siglas ............................................................................................. xiii Introdução ............................................................................................................... 1 Enquadramento ..................................................................................................................... 1 Objetivos e metodologia de investigação ................................................................................. 6 Estrutura da Tese .................................................................................................................. 8 Capítulo I. Fundamentação teórica: a problemática da cidade, do turismo e dos residentes .............................................................................................................. 10 1.1. Nota introdutória .......................................................................................................... 11 1.2. A cidade, o capital e o turismo ...................................................................................... 11 1.3. O lugar, a memória e a identidade na cidade falsa ........................................................ 16 1.4. O potencial da cultura e do turismo na renovação das cidades ...................................... 20 1.5. O turismo no espaço urbano ......................................................................................... 22 1.6. Os impactes do turismo na cidade ................................................................................ 26 1.6.1. Os principais impactes ........................................................................................... 26 1.6.2. Os impactes económicos ....................................................................................... 32 1.6.3. Os impactes territoriais .......................................................................................... 34 1.6.4. Os impactes residenciais ....................................................................................... 36 1.6.5. Os impactes socioculturais ..................................................................................... 36 1.6.6. Os impactes ambientais ......................................................................................... 38 1.7. Breve reflexão em torno do impacte da pandemia no turismo ........................................ 39 1.8. A cidade, o turismo e os residentes ............................................................................... 41 1.8.1. A perceção dos residentes ao desenvolvimento do turismo ..................................... 41 xiv À memória da avó Teresa e do avô Tiago. 1 Introdução Enquadramento O turismo é uma atividade que, de uma ou de outra forma, tem despertado ao longo do tempo interesse em ser estudado por diversas áreas científicas, tais como a geografia, a antropologia, a sociologia, a economia, a psicologia e a história (Cavaco, 2016; Cohen, 1984; Eusébio & Carneiro, 2012; Fortuna, 1997a, 1997b, 1999a; Henriques, 2003a, 2003b; Krippendorf, 1986, 1989; Remoaldo & Cadima Ribeiro, 2017; Urry, 1994a, 2002a, 2002c, 2011). Em relação ao turismo urbano, têm vindo a ser desenvolvidos diversos estudos nos mais variados subtemas, entre os quais, o transporte e as infraestruturas, a sustentabilidade, os impactes, a perceção e a satisfação do turista, as tipologias dos turistas urbanos, a regeneração urbana, a gestão e o planeamento, o marketing e o imaginário de lugares (Ashworth & Page, 2011). Na sociologia, o estudo tem incidindo sobre temas muito diversificados que acompanham a preocupação da sociologia com o espaço, o crescimento das cidades e as desigualdades sociais nos territórios. No estudo da sociologia destacamos primeiramente a obra de Cohen (1984) com foco sobre a definição do turismo e as suas principais tipologias e a de Smith (1995 [1977]) Hosts and Guests – The Antropology of Tourism, que clarificou os conceitos em torno das viagens e do turismo, os seus impactes, limites e os efeitos das interações no encontro entre turistas e residentes. Mais tarde, os estudos do turismo em sociologia voltaram-se para o turista. Neste sentido, devemos salientar o contributo de John Urry (2002a [1994]), em Tourist Gaze , e de Dean McCannell (1999), em The Tourist – A new theory of the leisure class , que se debruçaram sobre o estudo do turista, da procura da autenticidade e das atrações turísticas. As perceções e as atitudes dos turistas e residentes são o foco mais recente de estudo, particularmente na perspetiva dos residentes, tendo-se dado principal enfoque às mudanças que ocorrem nas sociedades de acolhimento. Inserem-se neste âmbito múltiplos estudos sobre os impactes socioculturais e os processos de desigualdade concomitantes. A sociologia do turismo entrelaça-se com outras áreas da sociologia, nomeadamente a sociologia urbana (Lefebvre, 2003, 2012; Lopes, 2002; Simmel, 1997[1903]), a sociologia da cultura (Fortuna, 1997b, 1999a, 1999b, 2002; Lopes, 2002; Peixoto, 2003), do consumo e dos estilos de vida (Appadurai, 2004; Bauman, 1995, 2006, 2007, 2008). 2 Mais recentemente, a sociologia e a geografia têm-se interessado pela análise dos processos macroestruturais que atravessam a exploração do espaço e que implicam desafios para os territórios, nomeadamente em relação à transformação das cidades para o turismo. Neste sentido, destacam-se temas como os aspetos evolutivos e espaciais do turismo ( e.g., Abram & Waldren, 1997; Cavaco, 1979, 2016), a cidade e a urbanização ( e.g., Harvey, 2001a, 2001b, 2005, 2008, 2009b, 2013, 2018, 2019; Salgueiro, 1992), a regeneração urbana, a gentrificação e a turistificação ( e.g., Fernandes, 1998, 2000, 2001; Fortuna, 2009; Henriques, 2003a, 2003b; Law, 1992; Martone & Sepa, 2007; Mendes, 2014, 2017a, 2017b; Orueta, 2007), o turismo e cultura urbana ( e.g., Costa, 2005, 2014; Fortuna, 1997a, 1997b, 1999, 2005; Peixoto, 2003). Com o emergir dos planos de desenvolvimento inteligente do território, várias áreas em Portugal foram classificadas com potencial turístico, de tal modo que o turismo começou a ser perspetivado politicamente como um eixo de desenvolvimento económico (Turismo de Portugal, 2017). Por isso, a partir de 2010 o turismo entrou numa rota crescente de industrialização e, como tal, verificouse uma procura mais intensa por infraestruturas e equipamentos de alojamento, restauração, transportes, atividades recreativas e eventos culturais (Costa, 2018), que contribuíram para o aumento do volume de negócios. O ritmo de crescimento da atividade turística foi muito significativo até 2019. Nesse ano, o setor do turismo foi a maior atividade económica exportadora do país, sendo responsável por 52,3% das exportações de serviços e 19,7% das exportações totais, tendo as receitas turísticas registado um contributo de 8,7% no PIB português (Turismo de Portugal, 2019). Como tal, vários projetos foram desenvolvidos por iniciativa local e com recurso ao apoio estatal e europeu para o desenvolvimento do turismo e das áreas turísticas. Através do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER), a Comissão Europeia apoia a competitividade, a sustentabilidade e a qualidade do turismo a nível regional e local. Para a Comissão Europeia 1 , trata-se de preservar e desenvolver o património histórico natural e cultural, mas também de garantir às cidades e regiões capacidade de atração para quem vive, trabalha ou visita a cidade/região. As cidades, particularmente aquelas cujas qualidades “naturais” mais permitiam vislumbrar as vantagens do seu consumo, com os olhos postos na lógica mercantil, acompanharam os movimentos de intervenção e de renovação dos centros históricos outrora degradados e assentes na lógica de políticas neoliberais (Harvey, 2001, 2008). Estas intervenções criaram uma paisagem 1 Informação disponível em https://ec.europa.eu/regional_policy/pt/policy/themes/tourism/ 3 física e uma geografia histórica distintiva e estetizada, por meio da construção especulativa do lugar, apoiando-se na parceria público-privada, altamente especulativa, em que o objetivo principal se resume à melhoria da imagem da cidade, em detrimento da melhoria das condições do território específico (Harvey, 2001, 2003, 2008).Trata-se de um processo de enorme envergadura que atrai investimentos assentes na valorização económica do património material e imaterial. Na prática, estes territórios especializam-se em determinado tipo de turismo, turistificam-se, sobrevalorizandose. Na realidade, estamos perante “uma hiperespecialização da economia de um território no setor do turismo” (Mendes, 2017a, p. 503), que resulta em cidades que são construídas para as “pessoas investirem em vez de viverem" (Harvey, 2019), tendo as cidades históricas sido transformadas em centros de consumo e de entretenimento. Se recorrermos a Ritzer (1996), o autor denomina a atual fase de desenvolvimento como a “Mcdonaldização da sociedade”, aventando que o comportamento individual está dominado pela sociedade de consumo e da instantaneidade. Para as cidades altamente cosmopolitas, a McDonalização é um ícone da globalização e da configuração das cidades homogéneas. Um exemplo é a restauração que difunde, no meio de espaços cuja história e memória em nada se relacionam com os atuais serviços, os conceitos de gourmet e de fast-food , através da sua disposição em espaços comerciais isomórficos e facilmente disseminados pelo franchisning. Diversos autores na sociologia e na geografia (Fernandes, 1998, 2000, 2001; Fortuna, 1997a, 1997b, 2009; Mendes, 2014, 2017a, 2017b) foram dando conta dos desafios e da transformação das cidades pelo turismo. Assim, se, por um lado, o turismo contribuiu para aumentar as preocupações em preservar a aparência visual e estética das cidades (Barretto, 2007; Kreag, 2001; Law, 1992; Shin, 2010), por outro, contribuiu para alterar o uso e as funções da mesma (Minguez et al. , 2019). Em Portugal, a cidade do Porto foi alvo de processos de reconfiguração profundos assentes numa clara aposta no património cultural, mas também no lazer e no entretenimento. Conhecido pelas suas caraterísticas naturais e culturais, a que se juntam as históricas e geografias (proximidade ao aeroporto e a um porto), o Porto tornou-se numa cidade apelativa para a atividade turística e foi promovida nesse sentido, de forma mais acentuada desde 2001. O Porto reconfigurou-se através da captação de megaeventos culturais e desportivos, pela transformação dos lugares para o acolhimento do maior número de pessoas, pelo licenciamento de hotéis e formas alternativas de alojamento, como hostels e alojamento local, entre outros aspetos. 4 Alves (2017) analisou o caso do Porto e observou que a requalificação do espaço para atividades económicas relacionadas com o turismo ( e.g., restaurantes, hostels e alojamento local) resulta de decisões políticas, nomeadamente a liberalização das rendas, cujo resultado foi o despejo dos inquilinos e de atividades económicas pouco lucrativas. Para a autora, estamos precisamente perante a transição de um modelo de Estado Social para um momento de Estado Liberal assente nos interesses económicos do setor privado. Deste modo, conclui que as políticas conduzidas na década de 2010 têm reforçado os processos de especulação imobiliária e, em consequência, o aumento de desigualdades sociais neste espaço urbano. Neste sentido, diversas questões começam a levantar-se em torno dos limites e das ruturas do turismo nas cidades. Os estudos realizados sobre a cidade de Barcelona são um dos exemplos que demonstraram que a atividade turística afetava a vida quotidiana dos seus residentes, de tal forma que despertou protestos e reivindicações em torno da regulamentação da habitação para uso turístico e relativamente ao uso do espaço público (Zaar & Pontes da Fonseca, 2019). Neste ponto, a sociologia e a geografia começam a convergir na análise crítica dos processos políticos que estão por detrás do turismo como atividade industrial liderada por grandes empresas e corporações que atuam no mundo global e sem fronteiras, segundo uma atitude de exploração beneficiada pela economia digital. Na prática, assume-se como uma economia baseada em empregos temporários e flexíveis que, geralmente, se operacionaliza por via de uma plataforma online e que vive de freelancers , que prestam trabalho em regime flexível e adaptável às necessidades dos estilos de vida flexíveis (Investopedia, 2020). Vários estudos acentuam o peso de plataformas como a Airbnb e outras que atuam na sobre-exploração do espaço e instigam a ocorrência de processos de gentrificação e de exclusão social, assim como de descaraterização, aumentando as tensões entre residentes e turistas (Fernandes et al. , 2018; Ioannides et al ., 2019). Efetivamente, a atividade turística sobre-explorada conduz à reconfiguração do espaço e da população, resultando em novas desigualdades sociais e na sobre-exploração das cidades. Neste sentido, tem-se verificado o aumento do número de estudos em torno das relações entre turistas e residentes analisadas à luz da xenofobia e do conceito de turismofobia (Ramos & Mundet, 2020; Seraphin et al., 2019). Nos media tem-se noticiando que o turismo no Porto “não para de crescer” (Porto Canal, 2015, s/p) e que o Porto é “a cidade europeia que mais deve crescer em turismo” (Monteiro, 2017, s/p). Em 2019, concretizaram-se todas as expectativas e o “turismo e energia levam o Porto à 5 liderança do crescimento das regiões” (Bexiga, 2019, s/p). Se, em 2014, o turismo estava a “impulsionar a reabilitação no centro histórico do Porto” (Soares, 2014, s/p), em 2018, “este Porto já não é para todos”. O “processo de gentrificação em curso nas cidades (e periferias) de Lisboa e Porto” resultaram na “subida exponencial do valor das rendas de casas, na crescente pressão turística, a disseminação de estabelecimentos de alojamento local, no encerramento de lojas históricas ou o despejo coercivo de inquilinos” (Sampaio, 2018, s/p). Em 2019, o discurso agravou-se pela comparação da vida nas cidades com a vida selvagem. O jornal Público apontava “o turismo e as cidades, entre a salvação e a vida selvagem”; “(…) os preços dispararam e nunca se ouviu tanto a palavra “despejo”. Porto e Lisboa transformam-se” (Pincha & Pinto, 2019 , s/p). Posto isto, a cidade e o turismo começaram a dar sinais de que nem tudo é harmonioso e sustentável e Ferreira (2018) denomina esta relação como um “amor tóxico”. Neste período, as notícias apontavam que “os turistas estão a destruir o Porto” e que a cidade é um dos “paraísos que os turistas estão a destruir” (Jornal de Notícias, 2018, s/p). Ainda assim, Rui Moreira (Presidente da Câmara Municipal do Porto), confrontado em 2017 com a possibilidade de excesso de turismo, assumiu, em entrevista à Rádio Renascença 2 , que “todos os males fossem esses. O Porto está a crescer no turismo à razão de dois dígitos por ano. Ainda bem que é assim. O turismo tem permitido assegurar a reabilitação e tem permitido aumentar as atividades comerciais – o comércio tradicional vive hoje, em larga medida, do turismo. Tem permitido o crescimento da restauração, é bom negócio para os taxistas, cria emprego não qualificado”. Com efeito, a cidade tem-se transformado bastante por causa do turismo, ou seja, a reabilitação transformou o espaço, capitalizando-o (Harvey, 2005). Fernandes (1998, 2000, 2011a, 2011b) é um dos autores que mais tem vindo a refletir em torno do urbanismo e das transformações sociais e económicas na cidade que resultaram em processos de complexificação territorial, fragmentação e injustiça. Efetivamente, o turismo atua sobre o desaparecimento de um determinado modelo histórico de cidade (Fortuna, 2009) que se vê apropriado por um capitalismo desenfreado, global, numa procura incessante pelo lucro que engendra processos de desigualdade. Pereira (2017), num estudo realizado no Porto, aponta que se, por um lado, aumentaram as ações de reabilitação e de salvaguarda do património, por outro lado, acentuaram-se os casos de descaracterização e 2 Informação disponível em https://rr.sapo.pt/2017/06/28/politica/turismo-em-excesso-no-porto-todos-os-males-fossem-esse-diz-ruimoreira/noticia/87430/ 6 de demolição do edificado com repercussões na perda da identidade do lugar e no interesse patrimonial. Objetivos e metodologia de investigação À luz destas problemáticas e transformações e adotando uma perspetiva cruzada entre o que são as políticas e os condicionamentos estruturais (Harvey, 2001a, 2001b, 2005, 2008, 2013) e o que são as experiências, as atitudes e as expetativas dos sujeitos (Lefebvre, 2003, 2012) esta tese pretende contribuir para a identificação e compreensão dos impactes do turismo na cidade do Porto. Neste sentido, a preocupação é perceber de que forma o turismo, o capital e as políticas urbanas alteraram a experiência de viver e habitar a cidade sob o olhar do residente. Deste modo, definem-se os seguintes objetivos: 1. Analisar criticamente a produção e transformação do espaço urbano; 2. Caracterizar a evolução do turismo na cidade do Porto; 3. Identificar os principais impactes do turismo na cidade do Porto; 4. Diagnosticar as principais perceções dos residentes em relação ao futuro do turismo na cidade. É notório que os estudos do turismo têm usado técnicas de investigação muito diversas. Nos estudos sobre a perceção dos residentes em relação ao turismo tem predominado a opção pela metodologia quantitativa (Eusébio & Carneiro, 2015; Nunkoo et al. , 2013). Porém, para Hadinejad et al. , (2019) permanece a necessidade do uso de métodos alternativos à vertente quantitativa, nomeadamente a qualitativa ou métodos mistos. Os autores salientam a necessidade de estudar sentimentos e emoções na pesquisa acerca dos residentes. Apontam também a necessidade de investigações mais aprofundadas que apenas serão possíveis recorrendo à metodologia qualitativa ou mista. Dado que o objetivo é também analisar como as práticas dos sujeitos resistem, se conformam ou reagem relativamente aos condicionamentos políticos e estruturais, a presente investigação segue uma metodologia triangular, cruzando métodos de tipo qualitativo (observação e entrevistas semiestruturadas) com métodos de tipo quantitativo (inquérito por questionário). Este recurso à triangulação metodológica deve-se, por um lado, à constatação de que os efeitos do turismo incidem para lá do que pode ser quantificado. Está-se perante transformações afetivas, de sociabilidade, de interação e convivência impossíveis de retratar com recurso exclusivamente ao 7 inquérito por questionário. Trata-se de dinâmicas afetivas, de efeitos muito intrusivos no dia-a-dia da população residente, que apelam ao uso de técnicas que retratem esse carácter privado e subjetivo. Por outro lado, a combinação de diversos métodos permite garantir a maior confiabilidade dos dados e reduzir potenciais erros de análise e de interpretação dos resultados (Smith, 2017). Assim, o processo de investigação contemplou três fases. i. A fase de exploração, que incluiu leituras e a aplicação da técnica de observação. A observação participante foi realizada entre maio de 2017 e outubro de 2019, resultando em 1261 fotografias tiradas, privilegiando o registo e observação dos edifícios, dos hábitos e modos de vida da população residente. ii. A segunda fase, de recolha de dados com a realização do inquérito por questionário e de entrevistas semiestruturadas. Foram entrevistados 5 residentes e dois representantes do poder local. Em simultâneo foram recolhidos 380 inquéritos por questionário realizados à população residente. iii. Na terceira fase, procedeu-se à análise e tratamento dos dados realizada com recurso ao software estatístico IBM SPSS Statistics, versão 24. Parte da concretização da presente tese abarcou o período de crise resultante da situação global pandémica (COVID-19). Tendo sido o turismo um dos setores económicos mais afetados, algumas dimensões salientadas pelos residentes em relação à insustentabilidade e à fragilidade da indústria turística foram incluídas na discussão final da tese. Em relação ao nível de inovação desta investigação destaca-se o seu contributo para o aprofundamento do conhecimento acerca de uma temática pouco explorada no domínio dos estudos sociológicos sobre turismo destacando a visão estrutural e experiencial da cidade. Por conseguinte, apesar de já existirem alguns estudos sobre a perceção dos residentes no Porto, nenhum deles fez uso de diário de campo, de cunho etnográfico, que regista este caráter experiencial da cidade e do turismo. Para além disso, apesar de exploratório, pretende incentivar a análise dos impactes do turismo nas cidades à luz dos impactes territoriais e residenciais do turismo sobre o espaço e os seus residentes. 8 Estrutura da Tese A tese encontra-se estruturada em 5 capítulos (Figura 1). O primeiro capítulo, intitulado “Fundamentação teórica: a problemática da cidade, do turismo e dos residentes”, incide sobre as transformações de que a cidade tem sido alvo, resultantes do aproveitamento capitalista do espaço, na redução das cidades a mercadoria, motivada pela lógica do consumo, do lúdico e do excesso. De seguida, apresentam-se as principais teorias utilizadas nas investigações que se debruçam sobre a perceção dos residentes em relação ao turismo. Por fim, procura-se refletir em torno do papel dos residentes na caminhada para um turismo mais sustentável. Após a fundamentação teórica, no capítulo “Contextualização do estudo: o Porto e o turismo”, procede-se a uma contextualização do local de estudo. O capítulo inicia-se com uma caracterização da área de estudo do ponto de vista geográfico, social e demográfico. Para esta análise foram utilizadas as principais bases de dados existentes em Portugal e publicadas pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) e o Pordata. De seguida, é desenvolvido um enquadramento em torno da (r)evolução do turismo na cidade e das motivações turísticas na cidade. O terceiro capítulo, a “Metodologia de investigação”, explica as metodologias e técnicas aplicadas na recolha e tratamento da informação empírica adotadas no desenvolvimento da tese e as considerações éticas. No capítulo 4, que se intitula “Estudo empírico: a cidade r(v)endida ao turismo”, apresentam-se e analisam-se os dados obtidos por via do cruzamento das três técnicas de investigação usadas: o inquérito por questionário, a observação e a entrevista semiestruturada. A análise e apresentação dos resultados cruza no mesmo espaço as diferentes técnicas e organiza-se em 3 pontos: (i) a perceção dos residentes em relação à presença do turismo e dos turistas; (ii) a perceção dos residentes em relação aos impactes do turismo; (iii) a perceção em relação ao futuro do turismo no Porto. No final, apresenta-se a análise de cluster realizada. Por fim, no último capítulo, “Considerações finais”, procura-se dar resposta aos objetivos supracitados, apresentam-se recomendações para o desenvolvimento do turismo, as limitações do estudo e propostas para futuras investigações. Desta forma, espera-se que o presente estudo possa contribuir para a definição de uma estratégia de planeamento turístico no município do Porto. Para além disso, tratando-se de um destino que caminhava rapidamente para uma situação de overtourism, a presente investigação permitirá 9 auxiliar nas decisões políticas, uma vez que reúne um conjunto de elementos a ter em consideração no delinear de novas políticas que se coadunem mais com a situação on-going de COVID-19 e com a situação ex-post COVID-19. A presente investigação será divulgada junto dos órgãos de decisão política do município, dos atores locais com intervenção em matéria de turismo e dos participantes do estudo. Figura 1. Estrutura da tese Fonte: Elaboração própria. 16 (1999), que defende que os turistas procuram experiências únicas e autênticas. Porém, Urry (1994a, 1996), destacou que o turista na pós-modernidade está ciente de que as múltiplas experiências não são únicas nem autênticas e que procuram os espaços por estarem “na moda”. Desde a década de 1990, as cidades regem-se por uma política de entretenimento e de fantasia, de forma a impulsionar e manter os mercados de consumo, em que as áreas centrais das cidades, através da regeneração urbana, consolidaram novos padrões de uso e de consumo do espaço público (Harvey, 1995). Verificou-se uma ascensão da ludificação das áreas mais centrais das cidades, onde cresceu o usufruto da cidade por parte dos jovens, de forma temporária, e a dicotomia noite/dia, mas que não tem implicações na fixação, como residentes, deste grupo etário (Baptista et al ., 2018; Nofre, 2013). Somos de opinião de que estamos perante um esforço de autopromoção de uma imagem positiva das grandes cidades, de um marketing urbano, que não é mais do que a venda do próprio lugar. Na verdade, a cidade, enquanto “local de liberdade” cria as condições, o ritmo, a diversidade, a diferença, a vida económica, profissional e social (Simmel, 1973), tornando-a num local de prazer, de perigo, de ocasião e de ameaça que “alimenta a excitação e o cansaço, oferecendo aperitivos de liberdade numa bandeja” (Bauman, 1995, p. 144). Este ambiente de liberdade e de atratividade das cidades, resultam de um produto coletivo dos seus residentes que moldam e fazem a cidade. A partir daí, o mercado turístico capitaliza tornando esse ambiente numa forma de consumo instantâneo (Harvey, 2013). A cidade pós-moderna adquiriu, assim, diversas designações, desde a designação de cidade de espetáculo e de consumo visual (Urry, 1994b), a cidade hipertextual e hiper-real, baseada numa teatralidade apenas possível pela existência de diversos papéis sociais, em que a distinção entre o real e o simulacro deixa de existir (Lopes, 2002; Marques, 2011). Também a cidade narrada, em que se perde a fronteira entre a cidade e o seu relato, a cidade palco, onde se reflete a simulação de uma explosão de estilos de vida (Lopes, 2002) e a cidade fantasia (Hannigan, 1998). 1.3. O lugar, a memória e a identidade na cidade falsa Neste sentido, importa pensar a cidade como um espaço-tempo carregado de história, memória e projeções do futuro (Silva et al. , 2021). Consideramos, no entanto, que as projeções do futuro da cidade são muitas vezes sujeitas a silêncios, revivalismos e/ou retornos não compatíveis com os processos identitários, as memórias e a história do lugar. Tal verifica-se, entre outros motivos, 17 porque o “lugar”, a “memória” e a “identidade” das cidades têm passado nos últimos anos por profundas reinvenções, resultado dos múltiplos processos de empreendedorismo e de turistificação das cidades, como será aprofundado adiante. Deste modo, assiste-se a formas díspares e manipulatórias da memória, afetando, por sua vez, os lugares e as identidades (Othman et al ., 2013). Enfatiza-se neste ponto a importância de pensar o lugar enquanto construção social (Massey, 1994b) e um espaço de memória (Othman et al .,2013), pois como Halbwachs (1990) mencionava em La memóire collective , todas as ações do grupo podem traduzir-se em termos espaciais. O lugar assume assim uma componente relacional, uma ligação emocional que une pessoas, ambientes e objetos (Dias, 2009; Rambaud, 1983) e é particularmente neste sentido que os lugares e as identidades se tornam um problema crítico na transformação capitalista do espaço. Na prática, cada lugar e cada detalhe tem um sentido particular, uma apropriação própria e qualquer alteração no ambiente material tem consequências diretas sobre os residentes e as suas memórias coletivas. Assim, consideramos que é inevitável que a transformação de uma cidade incomode os residentes, pelo menos uma parte deles. Para estas pessoas a perda de determinado “lugar no recanto de tal rua, à sombra daquele muro, ou daquela igreja, seria perder o apoio de uma tradição que os ampara, isto é, a sua única razão de ser” (Halbwachs, 1990, pp. 137-8). Dito por outras palavras, o espaço garante a manutenção e transmissão da memória do grupo, da mesma forma que o grupo “molda” o espaço, o espaço “molda” o grupo. Acerca das transformações na cidade, no tecido urbano, na morfologia, nas funções e nas relações sociais, Baptista e Pujadas (2000) fazem a distinção entre velhos e novos residentes. Para os novos residentes a cidade ou o bairro é algo oferecido, adquirido, que não tem grande impacte sobre eles. Para os velhos residentes, a regeneração e as mudanças urbanísticas e sociais entram em conflito com a memória da cidade, com a imagem do passado e com as representações das relações sociais, nas quais assenta a sua identidade pessoal e com o lugar. Deste modo, as cidades tornam-se lugares abandonados e desmembrados, ocupados por uma elite global (Bauman, 2006) resultando em espaços fantasma (Schwarzer, 1998), composta por pessoas que não se identificam com o lugar que habitam, nem assumem qualquer ligação emocional e afetiva pela cidade, o que Bauman (2006) define como sendo uma extraterritorialidade. Vários autores ( e.g., Crinson, 2005; Lak & Hakimian, 2019; Legg, 2007; Srinivas, 2001; Till, 2005) têm vindo a desenvolver estudos no âmbito da “memória urbana”, porque são as memórias que 18 nos permitem preservar eventos, experiências, recordações e factos passados (Othman et al ., 2013). Isso só acontece porque a memória implica um “trabalho de construção e reconstrução permanente” (Mendes, 2005, p. 499), que garante que os povos mantenham a sua identidade em continuidade em relação ao passado e construam as condições para a resiliência dos territórios (Barretto, 2007). Do mesmo modo, consideramos relevante pensar o lugar também como um fator distintivo na indústria do turismo (Remoaldo, 2020) e determinante na competitividade de determinado destino turístico (Foroudi, et al ., 2020; Maxim & Chasovschi, 2021). Neste sentido, se por um lado os lugares e as paisagens devem ser considerados importantes atrações ou produtos turísticos (Remoaldo, 2020), por outro lado, a recuperação e a conservação da tradição e do património do lugar assume um papel fundamental. Particularmente, em relação ao lugar, a arquitetura é um elemento histórico que produz significados e contribui para a diferenciação entre cidades (Savage & Warde, 2002). Por isso, a arquitetura histórico-monumental tem um papel preponderante na identidade local, mas também nas próprias identidades das cidades (Fortuna, 1997a). Deste modo, entendemos que preservar o património arquitetónico ajuda a preservar a identidade e a memória da sociedade. Também como refere Maxim e Chasovschi (2021), como a única forma de ajudar a evitar que os destinos patrimoniais percam a sua autenticidade e, portanto, os seus visitantes. Desta forma, será possível contribuir para o combater dos impactes negativos resultantes da uniformização e globalização (Remoaldo, 2020). No entanto, na nossa opinião, as intervenções urbanas são projetadas para produzirem sensações, nomeadamente o encantamento, o espanto e a admiração, com o objetivo de condicionar o vivenciar das tradições e alimentar fantasias. São projetadas e criadas heterotopias, no sentido de Foucault (1984), que as define como espaços ilusórios que se caracterizam pelo contraste ao espaço que vivemos. Assiste-se a um esforço de recriação de um “sentido de lugar”, que já não existe, porque na pós-modernidade o lugar deixou de ser identitário, relacional e histórico e passou a ser local de circulação acelerada de bens e serviços (Featherstone, 1997). Fruto da mobilização e da experiência do espaço global, convertido em “etnopaisagem” , isto é, paisagem de pessoas que se deslocam pela fantasia da deslocação (Appadurai, 2004), a cidade e os seus lugares são brindados com a criação de espaços que se desprendem dos imaginários, das idealizações, das (meias) memórias e das utopias. Esta ideia está bem patente na análise de 19 alguns autores sobre a sociedade pós-moderna, nomeadamente Lipovetsky e Charles (2004) que apontam a tradição como um produto de consumo nostálgico ou folclórico, piscadela de olho ao passado, objeto – moda que regula institucionalmente o todo coletivo, e o seu valor é somente estético, emocional e lúdico. Este tempo instantâneo que caracteriza a pós-modernidade, em que o espaço e o tempo estão cada vez mais dessincronizados, é uma consequência do turismo na cultura pós-moderna, que desencadeia uma relação utilitarista e mercantilista com o passado e a memória (Urry, 1994). Dito de outra forma, as cidades do capital condenam facilmente o seu tempo ao tempo curto do lucro, da mais-valia (Harvey, 2001; Silva et al ., 2021). Perfeitamente alinhados com os princípios da exploração capitalista do espaço e do tempo da cidade, os símbolos representativos da identidade, os seus emblemas, as memórias, as histórias e o património são colocados no mercado através do marketing turístico, que não é mais do que a venda do próprio lugar, garantindo aos visitantes, experiências assentes na identidade da cidade e dos seus modos de vida. Deste modo, a identidade tornou-se um recurso que se submete ao consumo do turista. Os objetos já transfigurados e deteriorados são admirados pelos turistas que avidamente procuram elementos refletindo a identidade do lugar, a vida em comunidade, o espaço público, a arquitetura e a identidade de determinado espaço (Boavida-Portugal & Kastenholz, 2017). É neste sentido que Harvey (2001) reflete sobre as consequências que podem derivar da criação de uma imagem de cidade vocacionada para determinada atividade. No caso de a imagem ser bem-sucedida pode ajudar a criar solidariedade social, orgulho e envolvimento com o lugar, podendo tornar-se numa espécie de “refúgio mental”. Concomitantemente, quando a cidade se abre à exposição e à exibição, pode suscitar um ambiente de espetáculo e de representação. Importa destacar a visão crítica de vários autores ( e.g., Bruner, 1991; Foroudi, et al ., 2020; Jacques, 2003; Peixoto, 2003; Santos, 2007) que salientam que o património e a cultura tornamse, assim, estratégias de definição de uma imagem de marca com elevado valor concorrencial e comunicacional, recorrendo a uma folclorização de práticas e bens culturais, e a uma encenação das práticas sociais e tradições das comunidades, procurando a criação e exibição que os turistas desejam. Um processo que corresponde a uma encenação dos vestígios materiais e imateriais, que são convertidos em espetáculos virtuais (Silva, 2000), resultando em lugares considerados “palcos de sociabilidades espetacularizadas e de encenação da vida quotidiana” (Peixoto, 2003, p. 221), transformando as comunidades numa espécie de parque temático ou numa atração 20 turística (Collins, 2018; Hoffman, 2003). A este respeito, Álvaro Domingues (2009, p. 48) assume estarmos perante uma saturação simbólica, afirmando que “somos todos nós em versão multiplicada e condensada para ser vistos por quem passa”. 1.4. O potencial da cultura e do turismo na renovação das cidades Na sequência destas visões críticas sobre o consumo e o valor simbólico dos espaços das cidades, que se baseiam na tradição e na memória, importa retornar à extensa literatura que assinala o potencial cultural e económico das cidades. Com efeito, a cidade sempre esteve associada à produção de cultura e de conhecimento. E isso desempenhou um papel central no desenho urbano, com os locais destinados à fruição visual e estética, nomeadamente salas de espetáculo, museus, galerias de arte, teatros, a localizarem-se nos centros das cidades (Hall, 2004). Com o desaparecimento das indústrias manufaturadas, as indústrias culturais e criativas tornaramse um negócio nas cidades (Zukin, 1995), tendo o desenvolvimento da economia cultural (Appadurai, 2004) convertido a cultura num “género” de mercadoria (Harvey, 2001). Estamos perante uma comercialização de experiências urbanas distintivas e autênticas capazes de criar valor económico (Collins, 2018). Neste sentido, o turismo foi uma das indústrias atraídas pela cidade que contribuiu para a operacionalização da cultura como recurso económico e político. A partir do momento em que a cultura se tornou um atrativo turístico passou a ser considerada uma atividade económica (Barrera-Fernández et al ., 2019; Batista, 2005; Pereiro & Fernandes, 2018). Na prática, a cultura, como setor económico fundamental (Albuquerque, 2010), tem vindo a desempenhar um papel importante na renovação urbana e nas estratégias de desenvolvimento económico das cidades (Barrera-Fernández et al ., 2019; Collins, 2018; Nofre, 2013; Richards, 2014), contribuindo para atrair investimento público e privado, profissionais, consumidores e turistas (Ferreira, 2010; Mbhiza & Mearns, 2014). Nesta perspetiva, a regeneração conduzida pela cultura consiste na recuperação de um determinado espaço, local ou território assente na preservação e nutrição do capital social, cultural e simbólico (Bourdieu, 1986; Lak & Hakimian, 2019). Em causa está o desenvolvimento de uma economia simbólica da cidade, assente na produção de símbolos e de novos espaços (Zukin, 1995). Tais espaços, ruas, edifícios e espaços públicos não estarão a ser preservados pelo seu valor patrimonial, mas sim pelo seu potencial como “cenário”, geralmente privatizado pela indústria do turismo para fins comerciais e recreativos (Ananian et al ., 2018). Deste modo, são 21 potenciadas novas centralidades, com novas funções (lúdicas e culturais) que resultaram numa configuração física, estética e simbólica da cidade (Fortuna & Silva, 2005) e numa crescente ludificação das áreas centrais da cidade (Baptista et al. , 2018). Lipovetsky e Charles (2004) apresentam com ironia esta paisagem semântica de fusões e confusões que se oferece ao turista. Para os autores a renovação e requalificação das cidades, que se converteram em produtos de consumo cultural e turístico, nomeadamente museus, centros culturais e hotéis, resultaram no aparecimento de cafés, de lojas de lembranças e de espetáculos de animação folclórica, figura do avanço do capitalismo cultural e da mercantilização da cultura (Lipovetsky & Charles, 2004). Vários autores têm vindo a estudar o turismo e a cultura como fatores responsáveis pela regeneração das cidades, entre os quais Mbhiza e Mearns (2014) em Johanesburgo, McCarthy (1998) em Roterdão e Orueta (2007) em Madrid. Nos primeiros dois casos de estudo, a regeneração urbana é perspetivada como positiva, tendo contribuído para estimular o crescimento económico, para atrair um maior número de visitantes, melhorando o ambiente urbano, tornandoo mais seguro, melhorando a imagem da cidade, assim como as condições sociais dos residentes. De facto, em Roterdão, a regeneração contribuiu para a cidade conseguir adaptar-se às novas condições de competição urbana. Pelo contrário, em Madrid, o estudo confirmou que a reestruturação económica e territorial resultou em profundas mudanças sociais, associadas à gentrificação e à segregação da população residente e sublinhou que a cidade está excessivamente orientada para o consumo por parte da classe média e para o turismo. O turismo, à semelhança da cultura, também contribui para a transformação das cidades e das suas economias (Fortuna et al ., 2012; Henriques, 2003a, 2003b), tornando-se um meio para a revitalização e regeneração dos espaços urbanos (Bauman, 1999; Law, 1992). A regeneração urbana tem como finalidade melhorar o ambiente físico, a imagem da cidade, produzir benefícios económicos, criar emprego, melhorar a qualidade de vida dos residentes, atrair investidores público-privados e aumentar a capacidade de atrair novos negócios e indústrias (Mbhiza & Mearns, 2014; McCarthy, 1998; Shin, 2010). Atendendo aos benefícios supracitados, o turismo tem-se apresentado como a estratégia preferida para o desenvolvimento económico de muitas cidades antigas (Hall, 1987). Em contrapartida, para além de ter contribuído para a renovação das cidades tem potenciado de forma significativa a sua requalificação. Tal acontece, na medida em que edifícios históricos que eram habitados dão lugar a novos usos (reabilitação para hotéis, hostels , alojamento local), colocando em causa a sustentabilidade de algumas funções urbanas, 22 nomeadamente, a habitação e o comércio de proximidade (Boavida-Portugal e Kastenholz, 2017). Neste sentido, e particularmente em cidades consideradas Património da Humanidade, estudos apontam que a conservação destes espaços é um problema social com implicações políticas complexas (Hosseini et al ., 2021). Na nossa perspetiva, o turismo e a cidade pressupõem um relacionamento complexo que desafia as decisões no âmbito da cultura. Se, por um lado, assiste-se a forças políticas e empresariais que anseiam cada vez mais por um aumento das receitas, dos negócios e do lucro, insistindo em acolher um maior número de turistas e, assim, se destacarem também no mercado de turismo global, por outro lado, a cidade histórica transforma-se e r(v)ende-se ao acolhimento turístico. Na (não)convergência destas forças, a cultura continua a ser um conceito suficientemente elástico parar servir como passaporte para a “autenticidade” e a “singularidade” (Silva & Ribeiro, 2021). 1.5. O turismo no espaço urbano Vários autores têm trabalhado no conceito de turismo urbano, entre os quais Gilbert e Clark (1997), Bramwell (1998), Pearce (2001) e Edwards et al. (2008). Os primeiros estudos sobre esta temática remontam à década de oitenta do século XX, embora só tenham vindo a ser reconhecidos como um campo autónomo do saber durante a década de 1990 (Ashworth & Page, 2011; Edwards et al ., 2008; Pearce, 2001). O turismo urbano tem suscitado interesse porque produz efeitos sociais e económicos que são centrais para se perceber o desenvolvimento urbano (Zheng et al. , 2020). Edwards et al. (2008) definem turismo urbano como sendo uma entre muitas forças sociais e económicas no ambiente urbano, porque está associado a uma indústria que comercializa produtos e experiências assentes em motivações, preferências e perspetivas culturais, em estreita proximidade com a comunidade anfitriã. Segundo a OMT (2019): O turismo urbano/ citadino é um tipo de atividade turística que se desenvolve no espaço urbano com os seus atributos inerentes, caracterizados por uma economia de base não agrícola, como a administração, a indústria, o comércio e os serviços e por pontos centrais de transporte. Os destinos urbanos/citadinos oferecem uma gama ampla e heterogénea de experiências e produtos culturais, arquitetónicos, tecnológicos, sociais e naturais, para lazer e negócios. 23 Apesar do longo caminho na constituição do campo de estudo, o turismo urbano não é um fenómeno recente. No final do século XVIII, com a decadência das universidades britânicas, começou a institucionalizar-se em Inglaterra que a educação dos jovens nobres só ficaria completa com o Grand Tour , isto é, uma viagem de vários meses pela Europa, na qual os jovens aristocratas procuravam as cidades históricas para adquirir novos conhecimentos e experiências (Cunha, 1997). Desde o século XIX as cidades vocacionaram-se para a atividade turística, começando por atrair turistas que se movimentavam para a cidade para participar em eventos culturais, nomeadamente, concertos, espetáculos e exposições (Jurdana & Sušilović, 2006), tornando-se, assim, importantes polos de atração e emissores de atividade turística. É precisamente nos anos oitenta do século XX que se reconheceu o turismo urbano como um fenómeno com potencial de crescimento e de desenvolvimento (Henriques, 2003a, 2003b) e que teve um papel importante nas estratégias de desenvolvimento económico nas cidades históricas. Nos dias de hoje, o turismo urbano ganhou novos contornos, conquistando outros públicos com caraterísticas sociodemográficas e socio-educacionais diferenciadas e está intimamente dependente e entrosado com um grande desenvolvimento tecnológico, que contribui para novos panoramas em termos de marketing e de disseminação de meios e experiências (Costa & Albuquerque, 2017). É importante destacar que o desenvolvimento da prática turística na cidade expandiu-se, entre outros fatores, devido à fragmentação e aumento do tempo de lazer e das férias, à preferência pelas férias individualizadas, ao incremento das viagens ao fim-de-semana, à melhoria dos acessos aos centros urbanos, ao desenvolvimento da tecnologia, à desregulação do setor aéreo, nomeadamente o low-cost , à mudança dos gostos dos consumidores, à diversidade de destinos existentes e à melhoria das acessibilidades (Fortuna et al ., 2012; Law, 1992; Poon, 1994). Estudos indicam que se tem vindo a observar um aumento do turismo urbano em muitas cidades do mundo e de turistas que procuram espaços antigos, a sua arquitetura e o urbanismo (Fernandes, 2011a). Mas o turista urbano prepara a sua viagem, é seletivo e superficial, não fazendo uso de tudo o que a cidade tem para oferecer (Urry, 2011). Trata-se de um turista que consome os produtos de turismo urbano rapidamente. Isto porque, antes da sua “viagem física ou corpórea”, que Bauman (1995) considera ser um “modo de vida” de muitas pessoas, o turista urbano faz uma “viagem virtual” e até “imaginativa” pelos media, de forma que, quando chega ao 24 seu destino, já sabe o que quer visitar e a história de cada local (Bauman, 1999; Poon, 1994; Urry, 2002a). Desta forma, o turismo urbano é propício à procura de estadias de curta duração e dificilmente os turistas voltam a repetir um destino turístico, porque na prática, importa a este turista colecionar lugares e contabilizar viagens. A prática de colecionar lugares não é uma prática recente, no entanto, face ao contexto de mobilidade e consumo da sociedade contemporânea tem assumido grande importância. Trata-se de um ato social que à semelhança das outras coleções pode ser partilhada, comparada e mostrada (Sarmento & Lopes, 2018). Outros autores ( e.g., Ashworth & Page, 2011; Richards & Raymond, 2000) assinalam que existem diferentes perfis de turistas, nomeadamente, turistas com interesse em aprender sobre a cultura local, o património e a história e que se envolvem no quotidiano dos nativos, experienciando diariamente novos acontecimentos em busca da sua própria identidade face à homogeneização cultural em curso. Uma das formas de turismo associadas ao espaço urbano é o turismo cultural. O turismo cultural desenvolveu-se como produto turístico no final da década de 1970, impulsionado pela motivação das pessoas para viajar e conhecer a cultura, assim como o património de determinado território (Henriques, 2003). O desenvolvimento deste tipo de turismo deve-se, entre outros fatores, ao aumento da produção cultural e ao maior investimento nas políticas culturais (Batista, 2005). Com a intensificação do turismo cultural as cidades passaram a competir para receberem novos visitantes, seduzidos pelo património cultural existente no local de destino (Miles, 2012). Tal como refere Bourdin (2011, p. 49), “façamos cultura, de preferência espetacular; assim atrairemos portadores de inovação e teremos a inovação de que a cidade necessita para criar os círculos virtuosos de riqueza”. O turismo cultural promoveu a mobilidade recreativa, nomeadamente o turismo de curta duração (Fortuna et al ., 2012), denominado por City Break , como já referido. Trata-se de um fenómeno eminentemente europeu que os autores associam ao desenvolvimento das companhias aéreas de baixo custo e às curtas distâncias geográficas entre as grandes cidades europeias. Para se considerar que numa cidade predomina o City Break deverá ter uma boa acessibilidade, bons transportes urbanos, ser segura, apostar na preservação do património, proporcionar variadas atratividades culturais e entretenimento noturno (Brito, 2017). As cidades tornaram-se destinos “alternativos” entre si, dominadas pela exposição do turismo cultural contemporâneo e não propriamente de um turismo cultural histórico (Smith, 2006). Neste sentido, o turismo 25 contemporâneo está intrinsecamente associado à indústria cultural tendo vindo a diversificar-se, apresentando diversos subsetores e subsegmentos, nomeadamente: ▪ património edificado ( e.g., património arquitetónico, arquitetura moderna, monumentos, museus); ▪ locais de artes cénicas ( e.g., teatros, centros culturais, salas de espetáculo); ▪ artes visuais ( e.g., galerias, museus de arte, arquitetura); ▪ festivais e eventos especiais ( e.g., festivais de arte, festivais de música); ▪ património religioso ( e.g., catedrais, templos); ▪ ambiente rural ( e.g., vilas, quintas, paisagens culturais, ecomuseus); ▪ comunidades indígenas e tradições ( e.g., grupos étnicos, culturas minoritárias); ▪ lugares marginais e de risco ( e.g., favelas); ▪ artes e ofícios ( e.g., têxtil, escultura, cerâmica, pintura); ▪ linguagem ( e.g., aprender ou praticar); ▪ gastronomia ( e.g., degustação de vinho, amostra de alimentos, cursos de gastronomia); ▪ cultura popular ( e.g., música pop, moda, design ); ▪ atividades criativas ( e.g., pintura, fotografia, dança). No entender de alguns autores ( e.g., Henriques, 2003a, 2003b; Lopes & Alves, 2012), este turismo pode ser denominado como “novo” turismo urbano, na medida em que depende das construções mediáticas dos espaços, alimenta-se das redes sociais, assim como das potencialidades tecnológicas. Constitui uma tipologia de turismo que não se dirige propriamente ao património, mas às experiências vocacionadas para a arte, as atrações lúdicas, a gastronomia e o espetáculo (Costa & Albuquerque, 2017). Paralelamente, assume-se como um turismo que responde às exigências da instantaneidade do turista e dos seus consumos, que procura acima de tudo experiências novas, marcantes e únicas (Richards & Wilson, 2006; Zheng et al ., 2020). Deste modo, “as obras do passado já não são contempladas em recolhimento e silêncio, mas «deglutidas» em alguns segundos, funcionando como objeto de animação de massas, espetáculos cativantes, maneira de diversificar o lazer e de «matar» o tempo” (Lipovetsky & Charles, 2004, p. 93). Como o sucesso deste tipo de turismo foi muito significativo, assistiu-se a um grande incentivo para que os destinos associassem os seus recursos culturais e patrimoniais a eventos criativos e inovadores, de forma a conseguirem proporcionar experiências memoráveis. Neste sentido, as 32 Tabela 1. Principais impactes positivos e negativos do turismo na cidade (continuação) Impactes ambientais ▪ Melhora o ambiente ▪ Aumenta os espaços ao ar livre ▪ Aumenta a poluição ▪ Maior produção de resíduos sólidos urbanos ▪ Aumento do consumo de energia ▪ Aumento da poluição sonora, visual e atmosférica ▪ Diminuição da qualidade da água ▪ Aumento do tráfego por ar e por terra Impactes territoriais ▪ Contribui para a renovação e revitalização urbana ▪ Melhoria no parque habitacional ▪ Aumenta as preocupações com a preservação do património ▪ Aumenta as preocupações em preservar a aparência visual e estética da cidade ▪ Aumenta os problemas de tráfego e de congestionamento ▪ Transformação da paisagem urbana ▪ Transformação da cidade em parques temáticos ▪ Aumenta a disputa entre o espaço para turistas e residentes ▪ Privatização do espaço público ▪ Alteração do uso e funções do espaço ▪ Turistificação do espaço Impactes residenciais ▪ Renovação das habitações ▪ Competição entre o uso residencial e turístico ▪ Habitações vazias ▪ Regeneração exclusivamente para uso turístico ▪ Diminuição das habitações disponíveis para os residentes ▪ Aumento das ações de despejos ▪ Alteração nas relações de vizinhança Fonte: Elaboração própria com base em Barretto, 2007; Kreag, 2001; Law, 1992; Minguez et al. , 2019; Remoaldo & Cadima Ribeiro, 2017; Shin, 2010. 1.6.2. Os impactes económicos Os impactes económicos positivos são o principal estímulo ao desenvolvimento do turismo. Na verdade, não podemos negar a importância do turismo para o desenvolvimento económico das cidades e como tal, os impactes económicos são percecionados, frequentemente, como mais positivos do que negativos (Eusébio & Carneiro, 2010). O turismo é perspetivado nas cidades como forma de promover o desenvolvimento económico, criar emprego e aumentar os lucros, sendo que, em alguns casos, o turismo é o principal ou único fator de desenvolvimento local (Barrera-Fernández et al ., 2019; Hmood et al. , 2018). Vários estudos têm salientado que o turismo beneficia a economia nacional e local, através do aumento 33 do investimento, do rendimento, do empreendedorismo, da criação de emprego e das receitas fiscais (Andereck et al ., 2005; Andriotis & Vaughan, 2003; Giaoutzi & Nijkamp, 2017; Kreag, 2001; Nunkoo & Ramkissoon, 2010; Wall & Mathieson, 2006). Para além disso, devemos destacar o aumento dos rendimentos e dos ativos imobiliários dos proprietários locais de habitação (Minguez et al. , 2019). Em relação aos impactes negativos prendem-se com o aumento da inflação, que resulta num aumento dos preços e custo de vida, e custos com infraestruturas (água, esgotos, energia, etc.). Também se destaca o aumento da especulação no preço dos solos e no desenvolvimento de uma forte dependência do turismo (Butler, 1974; Kreag, 2001; Wall & Mathieson, 2006). A precariedade e a instabilidade laboral, muitas vezes associadas a um aumento dos empregos com baixas remunerações, são duas caraterísticas negativas dos setores turísticos com impactes na população residente, que fica vulnerável a trabalhar em setores menos bem pagos (Wall & Mathieson, 2006). Particularmente em relação ao aumento do preço da habitação e dos solos trata-se de um desafio com o qual as cidades históricas se deparam. Vários estudos ( e.g., Garza & Ovalle, 2019; Tsui et al ., 2019) comprovam que o aumento da atividade turística implica um aumento do preço das habitações. Assiste-se, deste modo, a um aumento dos valores do uso do solo e o interesse pelo aumento do lucro por parte dos proprietários (Simmel (1997) [1903]). A procura incessante pelo aumento dos lucros e dos rendimentos reduz todos os valores a dinheiro, reduzindo o ser humano apenas àquele que dá e que recebe dinheiro (Simmel, 2009) e, como tal, os residentes perante a impossibilidade de suportar os valores do preço do solo são obrigados a abandonar as suas habitações, que posteriormente serão convertidas para alojamento turístico (Martín et al ., 2018). Deste modo, vários autores ( e.g., Garza & Ovalle, 2019; Gu et al. , 2017) alertam para as desigualdades que envolvem o turismo e o acesso à habitação. No nosso entendimento, estamos perante a institucionalização e normalização de novas formas de desigualdade social. Estudos recentes têm dado particular atenção à análise dos impactes económicos da pandemia COVID-19 no setor do turismo (Benjamin et al ., 2020; Singh et al ., 2021) e na aposta num turismo mais sustentável (Kronenberg & Fuchs, 2021; Yong, 2021). 34 1.6.3. Os impactes territoriais As cidades foram alvo, num curto espaço de tempo, de programas de revitalização que permitiram tornarem-se mais atrativas para viver e visitar. Neste sentido, o turismo contribuiu para aumentar as preocupações em preservar a aparência visual e estética das cidades, os monumentos e edifícios históricos e as instalações e serviços locais (Barretto, 2007; Kreag, 2001; Law, 1992; Shin, 2010). Ao mesmo tempo, trouxe um leque alargado de perversidades que são visíveis na alteração do uso e das funções dos espaços (Minguez et al ., 2019), na adoção de novos estilos de construção, que não se identificam com a imagem da cidade, no encurtamento e perda de espaço público e, genericamente, no aumento dos congestionamentos, na sobrelotação das infraestruturas e equipamentos, na disputa pelo espaço e na alteração da tipologia do edificado (Kreag, 2001). Neste sentido, Patrick Mullins (1991) desenvolveu o conceito de “urbanização turística”, ou seja, uma urbanização apenas utilizada para fins turísticos. São espaços novos criados exclusivamente para satisfazer os indivíduos que se deslocam para um determinado lugar. No fundo, entende-se que, a partir do momento em que predomina no espaço este tipo de urbanização e de equipamentos que se destinam à satisfação turística, o espaço artificializa-se, turistifica-se (Henriques, 2003b). A turistificação a que assistimos em muitas cidades europeias, inclusive nas maiores cidades portuguesas - Lisboa e Porto - produz profundas alterações urbanísticas e, consequentemente, nos modos de habitar o espaço. Trata-se de um processo que resulta das operações de renovação urbana, a que estão ligados negócios especulativos que produzem efeitos na integridade do património e na capacidade de fixar a população aos lugares. Para Barrera-Fernández et al. (2019), a turistificação é “um tipo de gentrificação”. Porém, esta ideia não é partilhada por Ojedaa e Kiefferc (2020), que advertem que se deve evitar utilizar o conceito de turistificação como sinónimo de gentrificação, apesar de assumirem a possibilidade de haver relação entre os conceitos. Na realidade, à semelhança da gentrificação, a turistificação corresponde a processos complexos de transformação territorial provocados pelo turismo num determinado espaço geográfico (Ojedaa & Kiefferc, 2020), que implica a destruição de bairros e a substituição da população residente de grupos económicos mais desfavorecidos por turistas. Assim, bairros anteriormente degradados passam a ser utilizados para turismo ou destinados a equipamentos dedicados a servi-los, como lojas e restaurantes. Deste modo, a turistificação pode ser definida como resultado do 35 desenvolvimento massivo, espontâneo e não planeado do turismo, que leva à transformação do espaço num bem turístico (Renau, 2018). Em alguns casos, como no Bairro de Alfama (em Lisboa), as alterações são visíveis, de tal forma que autores como Sequera e Nofre (2019) apontam a turistificação e o Airbnb como responsáveis pela transformação de todo o bairro num “hotel ao ar livre”. Beneficiando do enorme investimento imobiliário e da construção, os edifícios históricos passaram a ter funções iminentemente ligadas a interesses turísticos, nomeadamente hotelaria e alojamento, restauração e lojas vocacionados para o turista (Boavida-Portugal & Kastenholz, 2017). Os esforços concentram-se em propor respostas às necessidades dos turistas (Law, 1992) implicando que serviços e espaços comerciais outrora destinados à fruição diária dos residentes passem a ser serviços segmentados e “exclusivos” para a atividade turística. Estes espaços, entendidos como “«jazidas» a explorar e a promover” (Lipovetsky & Charles, 2004, p. 92), são esvaziados das suas funções para se oferecerem ao turista, modificando-se profundamente os modos de vida nos bairros, outrora marcados pela densidade e intensidade das interações entre moradores e lojistas (Baptista & Pujadas, 2000). Com efeito, o comércio tradicional de proximidade dá lugar ao comércio homogeneizado e globalizado, altamente padronizado (Ritzer, 1996), criado para satisfazer as necessidades dos turistas, ainda que se revitalizem tradições locais no intuito de tornar comercial algum tipo de autenticidade (Pavel, 2017). O aumento do número de alojamentos turísticos e de atividades económicas ligadas ao turismo é particularmente controverso devido aos conflitos entre residentes e turistas. A mistura de usos do espaço, turístico e residencial, põe em causa a coexistência de pessoas com diferentes modos de vida e motivações (Ananian et al ., 2018). Importa realçar que a disposição e a localização do alojamento têm efeitos significativos na perceção em relação ao excesso de turismo e na sobrelotação dos espaços (Barrera-Fernández et al., 2019). Assumindo que os turistas passam a maior parte do tempo em torno do seu local de estadia (Shoval et al. , 2011), a procura pelos serviços turísticos aumenta nestas áreas (restaurantes, lojas), inflamando a sua concentração. Vários estudos ( e.g., Barrera-Fernández et al. , 2019; Freytag & Bauder, 2018;) têm enfatizado a necessidade de equilibrar e regular a organização espaço-tempo entre residentes, turistas e diferentes atores económicos, de forma a evitar que os centros históricos se transformem a favor dos turistas. Para tal, apontam como fundamental planear e envolver os turistas e os residentes na transformação do espaço urbano, assente numa participação ativa dos cidadãos. 36 1.6.4. Os impactes residenciais Em relação aos impactes residenciais, e apesar de pouco referenciado na literatura como um campo de análise singular, estudos recentes começam a refletir em torno dos impactes da substituição da função residencial pela função turística nas cidades históricas. Atualmente, a crise em relação à habitação é uma das questões urbanas mais prementes (Mikulić et al., 2021). Na prática, estamos a falar em dificuldades associadas ao acesso à habitação, do ponto de vista económico, mas também de intensos fluxos de deslocamento residencial que estão a ocorrer em cidades fortemente turísticas, como Barcelona (Garay et al. , 2020), que acarretam mudanças e desafios colossais para as cidades. Na verdade, o crescimento de alojamentos em formato convencional ou para arrendamento tem suscitado um crescente debate em torno da sua sustentabilidade (García-Hernández et al. , 2017) devido, entre outros motivos, à crescente competição entre o uso residencial e o uso turístico (Minguez et al. , 2019). Deste modo, em alguns casos os residentes são coagidos a abandonar as suas habitações, resultando em ações de despejo que interferem diretamente em alterações de relações de vizinhança e na procura de habitação afastada dos centros. Noutros casos, os próprios residentes optam por arrendar as suas habitações para alojamento turístico e por viver na periferia da cidade (García-Hernández et al. , 2017). A acompanhar estes movimentos de migração forçada ou não para a periferia estão diversos negócios especulativos que têm resultado no aumento dos preços do solo, na reabilitação exclusivamente para uso turístico e em habitações vazias que anseiam que se encham de turistas (Minguez et al. , 2019). Os “velhos” residentes da cidade deparam-se, então, com “novos vizinhos”, ainda que temporários, e que trazem consigo diversos impactes de foro sociocultural. 1.6.5. Os impactes socioculturais Os impactes socioculturais são os mais difíceis de medir e de identificar (Butler, 1974). Se, por um lado, o turismo pode potenciar a preservação da cultura, por outro lado, também pode levar à sua destruição (Besculides et al. , 2002). Em relação aos impactes positivos, diversos autores ( e.g., Andriotis & Vaughan, 2003; Besculides et al. , 2002; Butler, 1974; Kreag, 2001; Nunkoo & Ramkissoon, 2010; Smith, 2006) apontam que o turismo: 37 ▪ Eleva a autoestima das comunidades locais e da sua cultura; ▪ Melhora a qualidade de vida; ▪ Fortalece a identidade cultural; ▪ Preserva e/ou reintroduz tradições; ▪ Desenvolve a oportunidade para o intercâmbio intercultural; ▪ Destaca a singularidade e diversidade cultural; ▪ Incentiva a proteção do património; ▪ Aumenta o orgulho na própria cultura; ▪ Potencia uma maior valorização dos recursos locais; ▪ Proporciona uma maior diversidade na oferta cultural. É certo que nem sempre estes impactes positivos são percecionados pelos residentes, pois nem sempre se identificam com determinadas tradições reintroduzidas exclusivamente para turistas ou, por exemplo, com diversas instalações recreativas que não são acessíveis aos residentes (Butler, 1974). Efetivamente, há vários impactes negativos que importa considerar (Diedrich & García-Buades, 2009; Ferreira, et al ., 2013; Grünewald, 2002; Pires, 2004; Santos, 2007; Smith, 2006; Wall & Mathison, 2006), nomeadamente: ▪ Perda dos costumes e tradições; ▪ Aumento das atividades consideradas indesejáveis (prostituição, crime e consumo de drogas e de álcool); ▪ Crescimento da pobreza; ▪ Aumento da criminalidade; ▪ Sobrelotação de equipamentos (alojamento, serviços e instalações); ▪ Congestionamento do tráfego; ▪ Enfraquecimento dos laços de solidariedade e coesão social; ▪ Aumento da segregação social; ▪ Transformação da memória coletiva e social dos povos; ▪ Erosão gradual da língua resultante do contacto frequente com outras línguas que vai desenvolvendo novas formas de comunicar e se expressar que não retratam a forma de falar característica de determinado local; ▪ Mercantilização das tradições e da cultura; 38 ▪ Produção em massa de bens tradicionais e a mudança cultural proveniente da criação da atividade turística. Em suma, podemos estar perante uma séria ameaça às comunidades locais e à sua cultura, uma alteração nos modos de vida e nas relações sociais, um declínio da identidade cultural, um aumento da agitação na cidade (ruído, movimento), um aumento da pressão exercida sobre os serviços locais (segurança, saúde), uma diluição das tradições e encenação da autenticidade, que pode resultar em conflitos culturais e com efeitos indesejáveis, tais como uma mudança acompanhada de sinais de aculturação, conflito e xenofobia (Besculides et al. , 2002; Kreag, 2001; Nunkoo & Ramkinssoon, 2010; Smith, 2006). Para além dos impactes positivos e negativos anteriormente apresentados, Minguez et al. (2019) apontam a gentrificação como um impacte social negativo. 1.6.6. Os impactes ambientais O turismo afeta intrinsecamente a qualidade ambiental, os recursos naturais, bem como os recursos humanos (Giaoutzi & Nijkamp, 2017). Assim, na categoria ambiental estão incluídos a poluição, os resíduos sólidos urbanos, o esgotamento de recursos, entre outros (Andereck et al ., 2005; Semedo, 2013). Particularmente, em relação aos centros históricos, as cidades não estavam preparadas do ponto de vista das infraestruturas e dos serviços básicos (sistemas de abastecimento de águas, saneamento básico, recolha de resíduos sólidos urbanos) para atender aos intensos fluxos humanos que são, em muito, superiores à população residente. Alguns dos impactes ambientais que mais se acentuam nas cidades são a poluição das águas subterrâneas e superficiais, a contaminação do solo derivada dos despejos irregulares dos resíduos domésticos, bem como a ausência de uma estratégia centrada numa recolha eficaz de resíduos sólidos, resultando na sua acumulação na cidade (Cruz, 2003). Se o turismo pode ser entendido como uma indústria “limpa”, sem chaminés, que pode contribuir para a conservação e melhoria da paisagem, também está associado ao elevado nível de poluição (ar, água, resíduos sólidos, visual), ao aumento do consumo de energia e das emissões, a alterações no uso dos solos, ao desenvolvimento urbano não integrado na paisagem, à produção de resíduos não controlados e à perda de biodiversidade (Hall et al. , 2015; Kreag, 2001). Piation (1997) afirmou na década de 1990 que, ao nível dos microclimas urbanos, a poluição ambiental 39 tem sido responsável pelo aumento das temperaturas e pelo aumento das emissões de gases de efeito de estufa que conduzem a alterações significativas no ambiente das cidades. Em relação aos impactes ambientais, estudos recentes têm dado particular destaque à importância de uma indústria de turismo mais verde. Como tal, têm suscitado o interesse no estudo sobre: eficiência energética (Lu et al., 2021); os impactes das alterações climáticas na atividade turística (Lopes et al. , 2021; Pathak et al. , 2021) e a poluição (Cooper & McCullough, 2021; Hao et al. , 2021; Ruiz-Guerra et al. , 2019; Sun et al. , 2020; Tsai et al. , 2021). Face a um momento de revolução complexo, como é a COVID-19, importa debater algumas questões mais estruturais que emergiram e que marcam a atualidade, nomeadamente associadas aos impactes da pandemia no turismo, mas também nas cidades que assentaram nos últimos anos grande parte dos seus projetos económicos na atividade turística. 1.7. Breve reflexão em torno do impacte da pandemia no turismo O turismo é um dos setores mais vulneráveis do ponto de vista social e económico a desastres naturais e humanos, tais como o terrorismo, as alterações climáticas e as pandemias colocando a indústria sob um risco constante de crise (Gámez et al. , 2012; Pforr & Hosie, 2008). Importa salientar que o turismo depende da mobilidade real de pessoas e da necessidade de segurança, uma vez que o turista procura destinos seguros e protegidos e evita áreas vítimas de desastres (Liu & Pratt, 2017). Neste sentido, territórios com elevada concentração de atividades turísticas e uma dependência económica desta indústria tornam-se mais vulneráveis (União Europeia, 2018), como é o caso das cidades. Neste sentido, Remoaldo (2020) aponta para uma nova crise das cidades. Com efeito, são já vários os estudos desenvolvidos em torno dos impactes da pandemia no turismo ( e.g., Fainstein, 2020; Foo et al. , 2020; Karabulut et al. , 2020; Korinth & Ranasinghe, 2020; Qiu et al. , 2020; Uğur & Akbıyık, 2020). Nestes estudos, as análises têm recaído sobre os efeitos económicos da pandemia, o que colocou em clara evidência a dependência excessiva de certos destinos em relação ao turismo (Benjamin, et al. , 2020). O esvaziamento de turistas nas cidades resultou em graves problemas, entre outros setores de atividade, para as companhias aéreas e hotéis (Foo et al., 2020) e no alojamento de curta duração (Schall, 2020). 40 Um outro tema referenciado nos vários estudos realizados prende-se com as expectativas em relação ao futuro do turismo. Alguns autores ( e.g., Stankov et al. , 2020) consideram a pandemia relacionada com a COVID-19 como um alerta para a indústria do turismo. Para Benjamin et al. (2020) a indústria do turismo já estava “doente”, mesmo antes da pandemia. A presente crise no turismo resulta de crises e tensões que sempre abalaram o setor, nomeadamente, a perda massiva de empregos, a vulnerabilidade do setor, os baixos salários e a precariedade. Assim, este é o momento para a indústria turística reiniciar (Benjamin et al., 2020; Nepal, 2020; Niewiadomski, 2020; Stankov et al. , 2020), uma oportunidade irrepetível para apostar no turismo de acordo com os princípios da sustentabilidade e acabar com os malefícios do crescimento do turismo, como a degradação ambiental, a exploração económica e a sobrelotação dos destinos turísticos (Niewiadomski, 2020). No entanto, independentemente da existência da pandemia relacionada com a COVID-19, consideramos que a transformação da indústria turística já deveria ter ocorrido (Ateljevic, 2020). O futuro da indústria do turismo divide-se entre a dúvida e a esperança. Se por um lado, o período pandémico é entendido como uma oportunidade para repensar o turismo para as próximas décadas, por outro, levanta um conjunto de dúvidas e questionamentos em torno dos impactes reais que a pandemia trará na transformação do setor do turismo e se, de facto, a indústria turística está preparada para a transformação (Brouder, 2020). Há certas dúvidas sobre se a indústria do turismo atenderá ao apelo para mudar o seu curso ou acabará por seguir as más práticas aplicadas pré-COVID-19 (Nepal, 2020). Na prática, a clara desconexão entre o que a Organização Mundial do Turismo prega (sustentabilidade) e o que se pratica (expansão do crescimento) deixa poucas dúvidas que será esta a opção (Nepal, 2020). Por outro lado, outros autores ( e.g., Crossley, 2020; Pernecky, 2020) olham o turismo na era pósCOVID-19 com esperança. A perda momentânea de turismo pode trazer consigo uma valorização e cuidados renovados, corroídos pela mercantilização e consumismo desenfreados (Pernecky, 2020), contribuindo para estimular um número crescente de pessoas, empresas e governos a adotar novas formas de pensar e agir alinhados com os objetivos delineados na Agenda 2030. Para tal, será importante despertar a consciência global e transformar os produtos e as experiências oferecidas (Galvani et al. , 2020). Neste sentido, a indústria pós-pandémica deverá apostar em consumidores mais conscientes dos seus comportamentos, dos seus padrões de consumo e numa maior capacidade de resistir à falsa 41 promessa de felicidade que surge na indústria turística, devendo, assim, apostar na qualidade de experiências em vez da quantidade (Stankov et al., 2020). Esta “reiniciação” pode ser também a oportunidade para as comunidades adquirirem cada vez mais poder em relação ao turismo (Tremblay-Huet, 2020). Paralelamente, pode ser também a oportunidade para muitos consumidores refletirem sobre os seus comportamentos em viagens passadas e futuras e, assim, levar a indústria turística a readaptar-se à nova procura. Deste modo, consideramos que a pandemia colocou a cidade e o turismo em suspenso. No entanto, importa salientar que não consideramos que seja o fim do turismo, mas apenas um intervalo que coloca todos em espera de um retorno à normalidade (Silva et al. , 2020). 1.8. A cidade, o turismo e os residentes Retomando a discussão em torno dos impactes anteriormente apresentados, sabemos que vão resultar em atitudes por parte dos residentes, mais ou menos favoráveis em relação aos turistas, o que pode condicionar a satisfação e o regresso dos turistas a determinado destino (Dias & Gutiérrez, 2010). Assumindo que a sustentabilidade turística depende da perceção dos residentes face aos impactes do turismo e do seu apoio à atividade (Andereck, et al . 2005; Rasoolimanesh et al. , 2017), pretende-se refletir sobre a importância de planear e envolver os residentes nas tomadas de decisão que envolvam o turismo. 1.8.1. A perceção dos residentes ao desenvolvimento do turismo Bauman (2005) define a cidade, independentemente do período histórico e das mudanças mais radicais que possam ocorrer, como um espaço em que os estrangeiros existem e se movem em estreito contacto. Com efeito, a cidade sempre foi e será um local repleto de desconhecidos que vivem com uma determinada proximidade, um ponto de encontro de pessoas cujas motivações quanto ao uso do tempo e do espaço diferem e sobrepõem-se (Bauman, 2006). Para Martinotti (1966, citado por Mela, 1999) são quatro as populações que habitam as cidades: i. Os habitantes - a população residente na cidade que trabalha e procura bens e serviços para o seu consumo; ii. Os pendulares - indivíduos que não habitam na cidade, mas que trabalham nela; iii. Os city users - indivíduos que não habitam nem trabalham na cidade, mas têm com ela uma relação de consumo de bens e serviços disponíveis na cidade; 48 uma atividade crítica na qual certos fenómenos são claramente registados, enquanto outros são retirados para a sombra ou são bloqueados” (Sarmento & Costa, 2011, p. 228). Na Tabela 3 são sistematizados alguns estudos, nacionais e internacionais, sobre a perceção dos residentes em relação ao desenvolvimento do turismo nas cidades. De um modo geral, o turismo surge associado aos efeitos positivos da dinâmica económica, porém, a perceção dos residentes subsume inúmeras contradições e heterogeneidades. Tabela 3. A perceção da comunidade ao desenvolvimento do turismo em espaços urbanos: estudos nacionais e internacionais Autor (ano) Local do estudo Principais conclusões Pizam (1978) Cape Cod, EUA O autor examinou empiricamente os impactes negativos do turismo. Concluiu que a forte concentração de turismo numa determinada área resulta em atitudes menos positivas por parte dos residentes em relação ao turismo, mas também que quanto mais dependentes economicamente do turismo mais positiva a perceção em relação ao mesmo. Thomason et al. , (1979) Costa do Golfo do Texas O estudo concluiu que os residentes têm uma atitude positiva em relação ao turismo, sugerindo ainda que os residentes apoiem as agências de turismo do estado e municipais na promoção do mesmo. Belisle & Hoy (1980) Santa Marta, Colombia Em Santa Marta, os residentes consideraram o turismo como benéfico para a cidade. Neste sentido, pressionaram o governo para a eliminação de quaisquer medidas restritivas, de forma que o turismo pudesse ser desenvolvido. Os autores consideraram que esta posição resulta da fase incipiente em que o turismo se encontra. Bastías-Perez & Var (1995) Darwin, Austrália Os residentes de Darwin demonstraram uma atitude positiva em relação aos impactes sociais e económicos. Akis et al. , (1996) Chipre Os residentes apresentavam uma atitude negativa face ao desenvolvimento do turismo. Assumiam que o turismo destruiu o tecido social no Chipre. Haralambopoulos & Pizam (1996) Samos, Grécia O estudo concluiu que os residentes apoiavam e estimulavam o desenvolvimento do turismo. Porém, apresentaram alguns impactes negativos do turismo, tais como, os preços elevados, a dependência de drogas, vandalismo, conflito, assédio sexual e crimes. Também se concluiu que os residentes economicamente dependentes do turismo têm atitudes mais positivas em relação ao turismo do que os que não têm ligação. 49 Tabela 3. A perceção da comunidade ao desenvolvimento do turismo em espaços urbanos: estudos nacionais e internacionais (continuação) Autor (ano) Local do estudo Principais conclusões Korca (1998) Antalya, Turquia A população residente assumiu uma posição favorável em relação ao turismo. A população com maiores qualificações académicas tinha uma posição mais favorável em relação ao turismo, tal como as pessoas que não viviam nas áreas turísticas e que tinham rendimentos provenientes do turismo. Brunt & Courtney (1999) Dawlish, Reino Unido Neste estudo, o turismo alterou a estrutura da comunidade e, como consequência, a perceção dos residentes face ao turismo. As mudanças de alojamento, ou seja, de hotel para outras formas de alojamento influenciou a perceção do residente. Chen (2000) Virginia, EUA O estudo concluiu que a idade e o género interferem nas atitudes em relação ao turismo. Os inquiridos demonstram uma atitude positiva, mas de preocupação em torno do turismo, devido à renda locativa e ao congestionamento do tráfego. Tatoglu et al. , (2002) Kusadasi, Turquia As perceções mais favoráveis em relação ao turismo foram do foro económico, social e cultural. Os aspetos ambientais foram os menos favoráveis em termos de impactes percebidos relativamente ao turismo. Andriotis (2004) Creta, Grécia Concluíram que as atitudes mais discriminatórias dos residentes eram a educação, a dependência do emprego no turismo e que as dimensões mais importantes para os moradores de Creta foram os benefícios económicos, culturais e ambientais. Andereck et al. , (2005) Arizona, EUA Os residentes reconheciam as consequências positivas e negativas em relação ao turismo. Porém, quem considera o desenvolvimento económico importante é quem beneficia dele. Sugerem a educação e a consciencialização para a compreensão da indústria do turismo. Haley et al. , (2005) Bath, Reino Unido A investigação identificou uma nítida preocupação em torno das tomadas de decisão em turismo. Nikolas et al. , (2009) Santa Lúcia, Caraíbas Os autores concluíram que a ligação com a comunidade influencia os comportamentos de apoio em relação ao turismo. A falta de envolvimento da população residente resultou em implicações críticas para a sustentabilidade. Nunkoo & Ramkisson (2010) Port Louis, Mauritius Embora os impactes positivos fossem reconhecidos pelos residentes, estes também estavam preocupados com os impactes negativos. A amostra demonstrava perceções heterogéneas, mas apoiava o desenvolvimento do turismo. 50 Tabela 3. A perceção da comunidade ao desenvolvimento do turismo em espaços urbanos: estudos nacionais e internacionais (continuação) Autor (ano) Local do estudo Principais conclusões Enemuo & Oduntan (2012) Nigéria, África A investigação permitiu concluir que o desenvolvimento do turismo tem um efeito significativo na vida social e na sustentabilidade da vida social das comunidades anfitriãs. Remoaldo et al. , (2015) Guimarães, Portugal Os residentes reconheceram que a CEC trouxe benefícios para a cidade, mas também impactes negativos. Os impactes percebidos foram classificados como socioculturais, económicos e ambientais, sendo os impactes ambientais os mais pronunciados. Makoni & Tichaawa (2017) Harare, Zimbabwe A perceção dos residentes em relação ao desenvolvimento do turismo foi negativa. O estudo sugere ausência de um turismo sustentável. Yu et al. , (2017) Taiwan, China Os autores concluíram que existe necessidade de melhorar a proteção ambiental e iniciativas que visem o desenvolvimento económico do turismo. Shen et al. , (2019) Huangshan, China Foi estudada a perceção dos residentes sobre a imagem do local em relação ao apego com o lugar e de que forma pode influenciar a perceção em relação ao turismo. Concluíram que a imagem do local afeta indiretamente a atitude dos residentes em relação ao turismo. Tichaawa & Moyo (2019) Bulawayo, Zimbabwe O estudo concluiu que as variáveis sociodemográficas do género, do nível de instrução, do rendimento e do número de anos que reside no espaço têm influência na perceção em relação ao turismo. Concluíram também que apesar de os residentes tenderem a perceber os impactes do turismo de maneira positiva, eles reagiram mais fortemente aos impactes sobre o meio ambiente do que aos impactes económicos e socioculturais. Rua (2020) Girona, Spain O estudo concluiu que a interação e relação entre turistas e residentes beneficia os residentes. Concluíram também que os residentes com maior apego ao lugar tendem a apoiar o desenvolvimento do turismo, o que pode ser explicado pelo orgulho que sentem quando os outros valorizam o que eles consideram ser o seu lar. Fonte: Elaboração própria. Para estudar a perceção dos residentes em relação aos impactes na atividade turística Wall e Mathieson (2006) recomendaram ter em conta três fatores: (i) o tipo de turismo, que envolve perceber o número de turistas, as suas motivações e as atividades que frequentam; (ii) o tempo de permanência, as características da comunidade, designadamente a forma como aceita esses mesmos impactes; (iii) o nível de desenvolvimento, as oportunidades económicas e a natureza das 51 interações, ou seja, a espontaneidade, a interação entre turista e residente, entre outros fatores. Outros autores apontam que os fatores sociais e económicos, nomeadamente o número de anos em que determinada pessoa vive no local e/ou a dependência económica ao setor, influenciam a perceção dos residentes (Besculides et al. , 2002; Faulkner & Tideswell, 1997). Para Faulkner e Tideswell (1997) a perceção dos residentes em relação ao turismo assenta em dimensões intrínsecas e extrínsecas. A dimensão intrínseca refere-se às características socioeconómicas da população residente, o seu envolvimento, número de anos em que vive em determinado local. A dimensão extrínseca incide sobre as características do local, nomeadamente o nível de atividade, o tipo e o número de turistas. Figura 4. Análise aos impactes do turismo Fonte: Faulkner e Tideswell, 1997, p. 6. Neste sentido, vários modelos têm vindo a ser utilizados para o estudo da perceção dos residentes em relação ao desenvolvimento turístico, destacando-se o Modelo Irridex de Doxey (1975), a teoria do Ciclo de Vida de Butler (1980) e a Teoria das Trocas Sociais. 52 1. Modelo Irridex de Doxey (1975) Conforme os destinos turísticos vão crescendo, a população residente vai desenvolvendo diferentes estados de irritação. Doxey (1975) apresenta quatro níveis de irritação em relação ao turismo: de euforia, de apatia, de irritação e de antagonismo (Tabela 4). No nível de euforia, a população residente reage com entusiasmo ao desenvolvimento do turismo e à presença de turistas, estando expectante em relação ao desenvolvimento económico. À medida que aumenta o número de turistas atinge-se o nível de irritação, na qual os residentes apresentam níveis de saturação e dificuldades em lidar com o desenvolvimento e expansão das instalações turísticas. Este conflito aparece a partir do momento em que os destinos turísticos atingem o nível de antagonismo e os turistas começam a ser responsabilizados por todos os problemas que ocorrem na cidade. Tabela 4. Modelo Irridex de Doxey Fase Descrição Euforia Fase inicial do desenvolvimento do turismo. Visitantes e investidores são bemvindos. O turismo é assumido como gerador de emprego e rendimentos. Reduzido número de turistas. Apatia O turismo é reconhecido como atividade que dá lucro. Os visitantes são valorizados e assumidos como garantidos. O contacto entre os turistas e os anfitriões torna-se mais formal. O número de turistas aumenta. Irritação Os residentes começam a questionar os benefícios e a utilidade do turismo para o desenvolvimento local. O número de turistas aumenta drasticamente. O nível de irritação dos anfitriões é elevado. Antagonismo Os visitantes são vistos como causa de todos os problemas. O número de turistas ultrapassou o desejável. Desenvolvem-se sentimentos de hostilidade e de irritação. Fonte: Adaptado de Doxey, 1975. Allen et al. (1988) concluíram que níveis de desenvolvimento moderado do turismo são bastante benéficos para a comunidade. Porém, à medida que o desenvolvimento continua as perceções positivas começam a dar lugar a perceções negativas. Um dos possíveis exemplos reflete-se na cidade de Guimarães em que Vareiro et al . (2013) concluíram que existe uma desvalorização por parte dos residentes quanto aos impactes negativos do desenvolvimento do turismo na cidade justificada possivelmente pela fase inicial em que o turismo se encontrava. No entanto, vários estudos ( e.g., Faulkner & Tideswell, 1997; Zhang et al., 2018) apontaram o carácter simplista de Doxey ao não considerar fatores justificativos importantes na relação entre residentes e turistas. Neste sentido, é apontado que o modelo trata as comunidades locais como entidades homogéneas e que não considera a influência de fatores internos e externos (Zhang et 53 al. , 2018). Por outro lado, Faulkner e Tideswell (1997) concluíram, em relação aos impactes sociais do turismo, que os residentes geralmente toleravam os impactos negativos do turismo e não mostravam hostilidade. 2. Teoria do Ciclo de Vida de Butler (1980) Através do modelo de Doxey (1975), amplamente citado por uns e criticado por outros, estabeleceu-se a base para o estudo da perceção dos turistas (Sharpley, 2014). Neste sentido, Butler (1980) propôs uma teoria alternativa a Doxey. Enquanto Doxey apresentava uma resposta unidirecional e coletiva, o modelo de Butler permite mudanças ao longo do tempo, uma vez que considera as áreas turísticas somo sendo dinâmicas, que vão evoluindo e mudando ao longo do tempo. Esta evolução resulta das mudanças de preferências e necessidades dos turistas, da deterioração de equipamentos e infraestruturas, e de alguns acontecimentos menos favoráveis à captação de turistas, entre outros. Assim, a teoria do Ciclo de Vida proposta por Butler é uma das teorias mais utilizadas no que diz respeito à evolução dos destinos turísticos (Albaladejo et al ., 2020). Trata-se de um esquema baseado no conceito de ciclo de produto que inicia lentamente, mas que cresce de forma muito rápida, levando a uma estabilização e posteriormente ao declínio ou rejuvenescimento. Tal significa que à medida que a capacidade de carga de determinado local é atingida pode ocorrer uma diminuição do número de visitantes (Butler, 1980 - Figura 5). Numa fase inicial (estado de exploração), o destino caracteriza-se por receber um reduzido número de turistas, sendo o turismo pouco importante na vida económica e social dos residentes. Conforme vai aumentando o número de turistas, a população residente procura envolver-se na atividade turística, começando por fornecer instalações para o seu acolhimento. Nesta fase, as cidades começam a ser pressionadas para melhorar as suas infraestruturas, equipamentos e sistema de transportes. Na fase de desenvolvimento, a área está posicionada no mercado turístico. As alterações na paisagem da cidade começam a ser notadas e nem sempre chegam a ser aprovadas pela população residente. Atinge-se a fase de consolidação quando o número de visitantes ultrapassa o número de residentes. Esta fase começa a criar sentimentos de descontentamento na população que vê o seu acesso privado limitado a determinados serviços, atividades e locais. Quando os destinos atingem o número máximo de visitantes terá sido alcançada a fase de estagnação. A área 54 deixa de estar na moda e de ser atrativa para os turistas, entrando numa fase de declínio. O local deixa de conseguir competir com novas atrações vendo-se na necessidade de reformular as atrações turísticas. No entanto, pode verificar-se a ocorrência de rejuvenescimento, mas será necessária uma descoberta de novos recursos turísticos (Butler, 1980). Figura 5. Ciclo de vida de um local e as perceções em relação aos impactes do turismo Fonte: Butler, 1980. A teoria tem sido amplamente utilizada para o estudo da evolução das áreas do turismo, resultando num grande número de trabalhos em que foi implementada, apoiada, criticada e complementada com outros conceitos, métodos e teorias com o objetivo de superar ou melhorar algumas limitações e fraquezas (Albaladejo et al ., 2020). Neste sentido, há vários estudos ( e.g., Perdue et al. , 1990; Vargas-Sánchez et al ., 2015) que cruzam as diferentes teorias. Particularmente em relação a Perdue et al. (1990), confirmaram que há relação entre a perceção dos impactes e o apoio dos residentes, ou seja, o nível de apoio varia conforme o seu benefício auferido pela atividade turística. Neste sentido, verificou-se o cruzamento do Modelo Irridex de Doxey e a Teoria do Ciclo de Vida do destino turístico de Butler. Mais recentemente, vários estudos ( e.g., Albaladejo et al., 2020; Garay et al ., 2020) apontam que os destinos parecem ter passado por diferentes Ciclos de Vida consecutivos ao longo dos diferentes estágios. Neste sentido, Albaladejo et al. (2020) concluiu, em relação à evolução do turismo em Espanha, a existência de dois ciclos de vida na evolução do turismo espanhol. As duas curvas sobrepõem-se no final dos anos de 1970 e início de 1980. No primeiro caso, ilustra o boom turístico na década de 1960, enquanto o segundo ilustra o intenso crescimento desde 2015 a 55 2017 (Figura 6). Estes dados sugerem, particularmente no caso de Espanha, uma tendência de equilíbrio a longo prazo para o turismo. Figura 6. Duplo Ciclo de Vida Fonte: Albaladejo et al., 2020, p. 7. Face ao declínio verificado no turismo, consequência da pandemia COVID-19, estes dados são particularmente otimistas. Neste sentido, espera-se que após a crise do COVID-19, a economia reative e que as pessoas retomem os seus padrões normais de comportamento. Os visitantes voltarão aos destinos turísticos, em pequeno número inicialmente, e, à medida que a taxa de incidência da doença diminuir, o número de visitantes aumentará, iniciando um novo ciclo de vida do turismo (Albaladejo et al., 2020). Em relação à NUT II Norte, apesar dos estudos serem escassos, verificou-se que em 2009, a região posicionava-se na fase de exploração. Em 2012, último ano abordado no estudo, posicionou-se na fase de envolvimento (Pêra et al. , 2017). Face ao aumento acentuado de turistas desde 2012, tal como apresentado no próximo capítulo, sugere-se um avanço significativo no ciclo de vida do Porto e Norte de Portugal até 2019. 56 3. Teoria das Trocas Sociais A Teoria da Troca Social é a teoria mais usada em turismo (Hadinejad et al. , 2019; Nunkoo et al. , 2013; Vargas-Sánchez et al., 2015). Trata-se de uma teoria sociológica preocupada com a compreensão das trocas de recursos entre indivíduos no decorrer da interação. Estes recursos podem ser de natureza material, social e psicológica (Ap, 1992). Os residentes avaliam, regularmente, os benefícios e os custos do turismo e de que forma satisfazem as necessidades para o seu quotidiano e para o lugar. Se os residentes considerarem que o turismo contribui para o bem-estar da comunidade desenvolvem e estimulam a hospitalidade, pois aguardam os benefícios. Caso não considerem que o turismo beneficia a cidade ou a comunidade podem assumir comportamentos hostis em relação ao turismo. Os autores que defendemesta teoria argumentam que sempre que os residentes auferem benefícios diretos do turismo tendem a ter atitudes mais positivas em relação ao seu desenvolvimento (Andereck et al., 2005; Kang & Lee, 2018; Nunkoo & Ramkissoon, 2010). No entanto, apesar da Teoria da Troca Social ser usada para prever e explicar as atitudes dos residentes em relação aos turistas, ela foi criticada por carecer de sustentação teórica (Ward & Berno, 2011). Para fazer face às suas limitações vários estudos ( e.g ., Nunkoo, 2016; Qin et al. , 2021; Ward & Berno, 2011) sugerem a integração de outros conceitos e teorias para explicar a Teoria das Trocas Sociais. Neste sentido, a confiança e o poder aparecem na literatura como dois conceitos importantes no estudo da Teoria das Trocas Sociais, ou seja, a confiança dos residentes nos decisores de turismo influencia positiva ou negativamente as disposições para o turismo (Nunkoo, 2016). Destaca-se também a importância do estudo da avaliação da tolerância dos residentes em relação ao turismo (Qin et al. , 2021). Com base num estudo desenvolvido em Qinyan, na China, concluíram que a tolerância dos residentes em relação ao turismo desempenhou um papel moderador significativo na relação entre os impactes negativos do turismo percebidos e o apoio ao desenvolvimento do turismo. Na prática, os residentes com menor tolerância ao turismo foram mais afetados pelos impactes negativos do turismo e, consequentemente expressaram menor apoio ao desenvolvimento do turismo (Qin et al. , 2021). Outros fatores, nomeadamente os demográficos, a atividade relacionada com a indústria do turismo, os anos de residência são fatores que influenciam positivamente ou negativamente as atitudes em relação ao turismo (Ward & Berno, 2011). Por outro lado, apesar da Teoria das Trocas Sociais concentrar-se no estudo da 57 perceção dos residentes e turistas, recentemente, sugere-se a sua aplicação em relação à perceção dos líderes locais e formuladores de políticas em turismo (Kattiyapornpong et al. , 2021). 1.8.3. O envolvimento e participação dos residentes no futuro sustentável do turismo Até à década de 1970, o turismo era considerado uma atividade com mais benefícios do que malefícios, tendo em conta os seus danos insignificantes à sociedade humana e à natureza (Choi & Sirakaya, 2005). Porém, a partir da década de 1990, intensificaram-se as preocupações em torno da sustentabilidade e o turismo não foi exceção. Para um desenvolvimento sustentável, quer seja do turismo ou de outra atividade, é necessário que satisfaça as necessidades do presente sem comprometer as gerações futuras (Barros, 2004), seguindo as premissas exaradas no Relatório Brundtland de 1987, intitulado “Our Common Future”. Neste sentido, importa pensar que as atrações turísticas apesar de não serem infinitas e intemporais, devem ser vistas e tratadas como recursos finitos e possivelmente não renováveis (Butler, 1980). Como tal, os destinos turísticos têm procurado planear e potenciar os seus atrativos turísticos, melhorar infraestruturas, equipamentos e serviços, com o objetivo de contribuir para aumentar a sua atratividade e extensão do ciclo de vida (Ferreira, 2010). Para a OMT (2005), o turismo sustentável visa contribuir para a utilização de forma racional dos recursos ambientais, contribuindo para a conservação do património natural, para o respeito da autenticidade sociocultural da população dos locais de destino e para a valorização dos valores tradicionais. Assim, para além de preservar o património e as tradições deve garantir o equilíbrio entre as necessidades da sociedade, os recursos disponíveis, os esforços dos executivos e do planeamento da cidade, protegendo o meio ambiente durante o desenvolvimento do investimento turístico (Hmood et al., 2018). Na perspetiva de Cordona (2009), o desenvolvimento sustentável do turismo passa por: (i) saber cuidar e manter o património e as tradições; (ii) promover a cooperação entre a economia local e os agentes ligados ao setor; (iii) informar da importância e fragilidade dos sítios com interesse patrimonial, sensibilizar os responsáveis para a formulação de planos de divulgação e interpretação dos sítios com interesse patrimonial e das suas atividades culturais; 64 Capítulo II. Contextualização do estudo: o Porto e o turismo Fotografia tirada pela autora da presente tese em 2019. Nasci no Porto, a cidade e seus arredores As praias próximas, descendo para sul Permanecem para mim a pátria dentro da pátria, A terra materna, O lugar primordial que me funda... Porque nasci no Porto sei o nome Das flores e das árvores E não escapo a um certo bairrismo. Mas escapei ao provincianismo da capital. Sophia de Mello Breyner Andresen 65 2.1. Nota introdutória Findo o enquadramento teórico, neste capítulo procura-se dar resposta a um dos objetivos que norteiam o presente estudo, que é o de caracterizar a evolução do turismo na cidade do Porto. Para tal, procedeu-se, inicialmente, à elaboração de uma descrição das características sociodemográficas da população residente e, posteriormente, apresenta-se uma breve caracterização do desenvolvimento do turismo em Portugal e no Porto. 2.2. A cidade e os seus residentes A cidade do Porto localiza-se a Norte de Portugal e encontra-se inserida na Área Metropolitana do Porto (Figura 1). Importa recordar que todas as freguesias do município do Porto se identificam com a cidade. Dito de outra forma, são equivalentes, em termos de dimensão territorial, os termos “cidade do Porto” e “município do Porto”. Figura 10. Localização da área de estudo Fonte: Elaboração própria tendo por base a C.A.O.P. 2019. Em 2011, dos 17 municípios que compõem a Área Metropolitana do Porto, o município do Porto era o segundo mais populoso (237.591 habitantes – INE, 2012 - Tabela 5), tendência que se 66 verificou nos resultados preliminares do Recenseamento Geral da População de 2021 (INE, 2021). Em 2021, observa-se uma diminuição da população da região Norte, da Área Metropolitana do Porto e do município do Porto (Tabela 5), em relação ao ano de 2011. Tabela 5. População residente no município do Porto, a Área Metropolitana do Porto e o Norte de Portugal Continental em 2011 e em 2021 Fonte: Elaboração própria, tendo por base o Recenseamento Geral da População de 2011 (INE, 2012, 2021). A população da cidade do Porto aumentou ininterruptamente entre 1864 e 1981. Porém, a partir da década de 1980, acentuou-se o declínio populacional, que vem perdurando até aos dias de hoje. Entre 1981 (327.368 habitantes) e 2011 (237.591 habitantes), ocorreu uma perda de 89.777 habitantes (INE, 2012 - Tabela 10). Entre 2011 e 2021, a perda terá sido de 5.629 habitantes (torna-se necessário aguardar pelos resultados definitivos do Recenseamento Geral da População de 2021), verificando-se um abrandamento na redução do volume populacional na última década. Figura 11. Evolução da população residente no município do Porto de 1864 a 2021 Fonte: Elaboração própria, tendo por base o Recenseamento Geral da População de 2011 (INE, 2012, 2021). 0 50000 100000 150000 200000 250000 300000 350000 1840 1860 1880 1900 1920 1940 1960 1980 2000 2020 2040 Número de habitantes Ano Área geográfica População residente em 2011 População residente em 2021 Norte 3.689.682 3.588.701 Área Metropolitana do Porto 1.759.524 1.737.395 Município do Porto 237.591 231.962 67 Em 2011, o Porto tinha uma densidade populacional que era elevada e que se cifrava em 5.736 habitantes por km2. A cidade era constituída por 237.591 residentes e uma taxa de crescimento natural negativa (-0.36‰) (INE, 2012). A percentagem de população residente estrangeira era pouco significativa (3%) e o mesmo se passava em relação à percentagem de população residente que cinco anos antes de 2011 (em 2007) residia fora do município (9%). Cingindo-nos aos últimos dados publicados e tendo por base o Recenseamento Geral da População, a população da cidade do Porto possuía em 2011 maioritariamente o primeiro ciclo do ensino básico (23%) e o ensino superior (22% - INE, 2012). O grupo etário dos 25-64 anos (129.112 hab.) era o mais representativo da cidade. A maioria da população residente estava empregada (42%) ou reformada, aposentada ou na reserva (30%). Era o setor terciário que mais empregava a população residente (85% -Tabela 6). Tabela 6. Caracterização da população residente em 2011 Caracterização da população residente Dados gerais População residente (n) 237.591 Densidade populacional (em Hab./km2) 5.736 Taxa de crescimento natural (‰) -3% População residente que cinco anos antes residia fora do município (%) 9% População estrangeira residente (%) 3% Grupos etários n 0-14 anos 28.379 15-24 anos 25.017 25-64 anos 129.112 65 e mais anos 55.083 Nível de escolaridade % Não sabe ler nem escrever 14% 1º ciclo do ensino básico 23% 2º ciclo do ensino básico 11% 3º ciclo do ensino básico 15% Ensino Secundário 14% Ensino Pós Secundário 1% Ensino Superior 22% 68 Tabela 6. Caracterização da população residente em 2011 (continuação) Fonte: Elaboração própria, tendo por base o Recenseamento Geral da População de 2011 (INE, 2012). As freguesias com o maior número de residentes eram, em 2011, Paranhos (44.298 hab.) e, a seguir, a U.F. Cedofeita, Santo Ildefonso, Sé, Miragaia, São Nicolau e Vitória (40.440 hab). Em 2021, destacam-se as freguesias de Paranhos (45.871 hab.) e de Ramalde (38.860 - Tabela 7). Em relação às freguesias que perderam um maior número de habitantes, entre 2011 e 2021, destacam-se a União das freguesias de Cedofeita, Santo Ildefonso, Sé, Miragaia, São Nicolau e Vitória (-3.005 hab.) e a freguesia de Campanhã (-2.975 hab.). No nosso entender, estes valores refletem o que poderá ser resultado de uma cidade que apostou e se rendeu ao turismo. Na verdade, a literatura demonstra-nos o caráter repulsivo da atividade turística junto dos residentes. Assim, tal como acontece noutras cidades, à medida que nos aproximamos da área turística, o número de residentes diminui. No caso de Campanhã, apesar de não existir uma proximidade geográfica com o centro histórico, possui um conjunto de infraestruturas (metro, comboios, autocarro) que privilegiam a ligação ao centro histórico. Caracterização da população residente Condição perante o trabalho % Empregados 42% Desempregados 9% Estudantes 8% Domésticos 3% Reformados, aposentados ou na reserva 30% Incapacitados permanentes para o trabalho 2% Outros casos 6% População empregada por ramo de atividade % Setor primário 0,3% Setor secundário 14% Setor terciário 85% 69 Tabela 7. População residente por freguesia entre 2011 e 2021 Freguesias do município do Porto População residente 2011 2021 Bonfim 24,265 22,989 Campanhã 32,659 29,684 Paranhos 44,298 45,871 Ramalde 38,012 38,860 União das freguesias de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde 28,858 29,154 União das freguesias de Cedofeita, Santo Ildefonso, Sé, Miragaia, São Nicolau e Vitória 40,440 37,436 União das freguesias de Lordelo do Ouro e Massarelos 29,059 27,968 Fonte: Elaboração própria, tendo por base o Recenseamento Geral da População de 2011 e 2021 (INE, 2012, 2021). Tendo em consideração os resultados do Recenseamento Geral da População de 2011, foi na União de Freguesias do Centro Histórico (Cedofeita, Santo Ildefonso, Sé, Miragaia, São Nicolau e Vitória), que se destacou o maior número de residentes com 65 ou mais anos (10,854 hab. – Figura 12). Figura 12. População residente por grandes grupos etários na cidade do Porto em 2011 *Centro Histórico - União das Freguesias de Cedofeita, Santo Ildefonso, Sé, Miragaia, São Nicolau e Vitória. Fonte: Elaboração própria, tendo por base o Recenseamento Geral da População de 2011. (INE, 2012). 0 5000 10000 15000 20000 25000 30000 35000 U. F. de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde Bonfim Campanhã Paranhos Ramalde U. F. de Lordelo do Ouro e Massarelos Centro Histórico Número de habitantes Freguesias 0-14 anos 15-64 anos ≥ 65 anos 70 Tal como foi referido ao longo do referencial teórico, um dos impactes associados ao aumento da atividade turística, incide sobre a especulação no preço dos solos. No Porto, não foi diferente. Mesmo em período de época baixa e em situação pandémica os preços dos solos do município têm sido elevados quando se tem em consideração a condição económica da população residente. Se recorrermos aos dados provenientes do INE (2021 6 ) sobre os rendimentos 7 da população residente do Porto verifica-se que, em 2019, o valor médio era de 11.181€, o que corresponde a 798€ mensais (a 14 meses) brutos. Em relação ao valor mediano das vendas por m2, no primeiro trimestre de 2021 (INE, 2021 - Tabela 8) era mais elevado nas freguesias que assistiram a uma maior diminuição no número de residentes (Tabela 8). Tabela 8. Valor mediano das vendas por m2 de alojamentos familiares em apartamentos no primeiro trimestre de 2021 Freguesias do município do Porto Preço m2 Bonfim 2 132 € Campanhã 2 205 € Paranhos 2 158 € Ramalde 1 967 € União das freguesias de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde 2 814 € União das freguesias de Cedofeita, Santo Ildefonso, Sé, Miragaia, São Nicolau e Vitória 2 650 € União das freguesias de Lordelo do Ouro e Massarelos 2 442 € Fonte: INE, 2021 8 . A dissociação frequente e muito nítida na maior parte das cidades europeias (e o Porto não é exceção) entre a realização de interesses do capital e as caraterísticas culturais e sociais das populações residentes está a trazer mudanças colossais na forma como os espaços da cidade são apropriados e expropriados. Os impactes do turismo são cada vez mais salientados pelos decisores políticos como positivos do ponto de vista imediato do aumento de receitas e de negócios. Todavia, apesar destes dados não nos permitirem afirmar com exatidão a sua causalidade com o 6 Informação disponível em: https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_destaques&DESTAQUESdest_boui=473132089&DESTAQUESmodo=2 7 Valores provenientes do valor mediano do rendimento bruto declarado e deduzido do IRS, em 2019. 8 Informação disponível em https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_indicadores&indOcorrCod=0009492&contexto=bd&selTab=tab2&xlang=pt 71 desenvolvimento do turismo, na verdade lançam-nos questionamentos e interrogações em torno da sustentabilidade destes projetos. 2.3. A (r)evolução do turismo na cidade O Porto era reconhecido pelo seu pequeno comércio, pelos artesãos, grossistas e armazenistas, pelos estabelecimentos requintados como era o caso dos cafés e das mercearias (Pacheco, 2003). A cidade ficou também marcada urbanisticamente e socialmente pela indústria. Com o desenvolvimento desta, foram criados complexos habitacionais para agregar a população operária, as chamadas “ilhas” (Pacheco, 2003, 2009). Porém, a partir da década de 1950, o desaparecimento da indústria dos centros das cidades potenciou a degradação das habitações e a perda de população residente, considerada um drama na perspetiva de Pacheco (2003), que teve como consequências a ruína e o abandono das áreas mais centrais da cidade. No entanto, nas últimas duas décadas (2001-2021) o turismo impulsionou a renovação de uma cidade que, no nosso entender, se encontrava abandonada. Entre 2013 e 2019, Portugal atingiu valores históricos em número de turistas e de rendimentos auferidos pela atividade turística (Figura 11). A instabilidade política, nomeadamente na bacia do Mediterrâneo (guerras e terrorismo), levou muitos turistas a optar por Portugal como destino para as suas férias. Em 2019, Portugal acolheu 27 milhões de hóspedes. Porém, em 2020 face à pandemia de COVID-19 o número de hóspedes diminui drasticamente no país (Figura 13 – INE, 2020). Em 2020 registaram-se 10.510 730 hóspedes, o que corresponde a uma diminuição de 61% em relação ao mesmo período de 2019. 72 Figura 13. Número de hóspedes entre 2010 e 2020, em Portugal Fonte: Elaboração própria, tendo por base dados provenientes do INE 9 (2010-2020). No período que mediou entre 2016 e 2019, a Área Metropolitana de Lisboa e o Norte foram as áreas turísticas do país que mais cresceram em número de hóspedes. Porém, em 2020 também foram das áreas mais fustigadas pela diminuição do número de hóspedes. A Área Metropolitana de Lisboa foi a que revelou uma diminuição mais notória (Tabela 9). Face à situação pandémica vivida neste período as cidades são menos consideradas nos planos de viagem, entre outros motivos, devido à elevada concentração de pessoas e, consequentemente aumento do risco de contágio (Remoaldo, 2020). Tabela 9. Número de hóspedes, entre 2016 e 2020, por NUTS II 2016 2017 2018 2019 2020 Norte 4 358 420 4 892 605 5 285 297 5 873 026 2 492 805 Centro 3 227 138 3 805 166 3 895 612 4 118 656 1 901 344 A.M. de Lisboa 6 294 694 7 135 483 7 542 389 8 216 681 2 465 667 Alentejo 1 169 785 1 369 619 1 470 950 1 616 058 894 780 Algarve 4 189 237 4 517 862 4 732 165 5 064 067 1 996 401 Açores 528 275 615 822 718 033 771 688 239 470 Madeira 1 485 676 1 617 208 1 605 458 1 482 240 520 263 Fonte: Elaboração própria, tendo por base dados provenientes do INE 10 (2016-2020). 9 Informação disponível em https://travelbi.turismodeportugal.pt/pt-pt/Paginas/PowerBI/hospedes.aspx 10 Informação disponível em https://travelbi.turismodeportugal.pt/pt-pt/Paginas/PowerBI/hospedes.aspx 0 5000000 10000000 15000000 20000000 25000000 30000000 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 2019 2020 Número de hóspedes Ano 73 Acompanhando o desenvolvimento do turismo no país, o Plano Estratégico Nacional de Turismo (Turismo de Portugal, 2017) aponta que até 2027 Portugal procurará posicionar-se como um dos destinos turísticos mais competitivos e sustentáveis do mundo. Desta forma, assumem como principais metas económicas aumentar a procura em todo o território e o valor das receitas. Ao nível social, perspetiva-se alargar a atividade turística durante todo o ano, aumentar as qualificações da população empregada no setor do turismo e assegurar que o turismo resulta em impactes positivos nos residentes. Ao nível ambiental, a aposta visa garantir a eficiência energética das empresas do turismo, impulsionar uma gestão racional da água e promover uma gestão eficiente dos resíduos provenientes da atividade turística. Em Portugal, nas últimas duas décadas, uma das cidades que mais acolheu turistas foi o Porto. Deste modo, o Turismo Porto e Norte de Portugal (2015) definiu, para o horizonte 2015-2020, que a oferta turística no Porto tinha como principais produtos âncora, a cidade e os shorts breaks , o turismo cultural e paisagístico, o turismo náutico, a gastronomia e vinhos e os negócios. Como produtos complementares destacam-se a saúde e bem-estar, o golfe, o sol e mar, e a natureza. Na verdade, o Porto para além de possuir um vasto património histórico, possui outras variáveis, nomeadamente, espaços urbanos abertos, entretenimento, vida noturna, bares, restaurantes, espetáculos, ambientes cuidados, atividades culturais noturnas e diurnas, emoções e sentido de singularidade (Costa & Albuquerque, 2017). Posto isto, a procura da cidade do Porto por parte dos turistas deve-se também ao património histórico, à arquitetura, à gastronomia, à arte, à música, aos vinhos, ao clima ameno, ao facto de ser uma cidade com múltiplos programas de visitas (Pereira, 2016) e à proximidade ao aeroporto Francisco Sá Carneiro. Neste sentido, o Porto, aproveitou todas estas características e vocacionou-se para o segmento city break , onde “o som dos tróleis das malas empurradas por turistas se tornou uma imagem de marca do presente” (Carvalho, 2016, p. 41). Os atributos da cidade do Porto que mais influenciam a satisfação são a gastronomia, hospedagem, cultura e entretenimento e hospitalidade (Ramirez et al., 2018). Em 2018, num estudo desenvolvido por Ramires et al. (2018) reconheceram que no Porto existem três grupos de turistas: os conventional cultural tourists ; os spontaneous cultural tourists e os absorptive cultural tourists . Deste modo, importa destacar que os conventional cultural tourists valorizam essencialmente a cultura e o lazer. Optam por visitar o património, museus, monumentos e as caves do vinho do Porto. Trata-se de turistas mais velhos, que viajam em família ou com amigos 80 impactes do turismo são identificados, percecionados e integram o quotidiano dos residentes e da cidade (Flick, 2002). Por outro lado, e visto que tínhamos como objetivo medir e avaliar o fenómeno em estudo (Coutinho, 2011), fez-se uso da metodologia quantitativa, com a aplicação de um inquérito por questionário à população residente. Após a análise da informação empírica recolhida retornou-se ao início, à pesquisa documental, ao ponto de partida da viagem. Iniciamos uma nova revisão da literatura em torno dos impactes da pandemia no turismo, nas cidades e nos residentes dos locais turísticos (Figura 15). Figura 15. Recolha e análise de dados entre 2017 e 2021 Fonte: Elaboração própria. 3.2.1. Pesquisa documental A pesquisa documental acompanhou todo o percurso da tese e fez uso de diversas fontes de informação, nomeadamente fontes primárias e secundárias. Numa fase inicial, procedeu-se à recolha contínua de artigos de imprensa (jornais e media) de forma a perceber o interesse do público em relação ao tema e compreender as principais questões levantadas em torno do Objetivos: - Identificar os principais impactes do turismo na cidade do Porto; - Diagnosticar as principais perceções dos residentes em relação ao turismo e ao seu futuro. Inquérito por questionário 2019 Entrevistas semiestruturadas 2018 - 2020 Observação 2017 - 2019 Pesquisa documental 2017 - 2021 Objetivos: - Analisar criticamente a produção e transformação do espaço urbano à luz do capitalismo e do turismo. - Caracterizar a evolução do turismo na cidade do Porto 81 fenómeno (Flick, 2013). Para além disso, permitiu perceber que ao longo dos anos o discurso e as palavras tornaram-se mais “violentas” relativamente ao crescimento do turismo. Concomitantemente, realizou-se uma revisão da literatura teórica (Flick, 2013) na qual se procurou conceitos, definições e teorias, nas mais diversas áreas de estudo ( e.g., Arquitetura, Economia, Geografia, Sociologia), e perceber o que era conhecido em relação ao tema, as principais teorias e conceitos utilizados e as principais controvérsias teóricas e metodológicas em torno do tema (Flick, 2013). Através da pesquisa documental foi possível identificar e localizar os estudos mais relevantes em torno do tema (Coutinho, 2015), determinar as técnicas e métodos mais ajustados e planear as diferentes fases de recolha de dados. Esta recolha incidiu, para além da recolha em livros, nas principais revistas em turismo, tais como Tourism Management , Annals Tourism Research , Current Issues in Tourism e Journal of Hospitality and Tourism Research. Para além disso, recorreu-se a diversas bases de dados estatísticas, designadamente o Instituto Nacional de Estatística e a base Pordata com vista a contextualizar a realidade em estudo e a diversos relatórios do Turismo de Portugal. A pesquisa documental acompanhou todo o desenvolvimento da tese, porque após a recolha e análise dos dados foi relevante voltar a rever diversos referenciais teóricos para entender e interpretar os resultados. Este tempo coincidiu com o período de pandemia da COVID-19 e, como tal, optou-se pela realização de uma breve contextualização dos impactes da pandemia no turismo e a forma como era percecionado o futuro do fenómeno turístico. 3.2.2. Observação participante A observação, considerada por Campenhoudt et al. , (2017) como uma etapa fundamental na investigação em Ciências Sociais, apresenta-se como uma técnica assaz adequada, porque permite ao autor a experimentação e a obtenção de olhares sensoriais do espaço e do tempo (Agar, 1985). Afinal, tal como afirma Pires (2008, p. 761): à paisagem urbana subjazem espaços concretos, dotados de funções específicas, os quais são permanentemente reconfigurados ao sabor das transformações sociais, políticas, económicas e culturais. Perceber a paisagem corresponde, nesta perspetiva, a reconhecer os paradigmas dominantes que a produzem enquanto cenário a ver, isto é, enquanto imagem, forma de dominação simbólica e de mediação do olhar. 82 Através desta técnica de investigação, que supõe o posicionamento do olhar a partir do espaço e do tempo da cidade, foi possível acompanhar e registar os processos de construção e de desconstrução que foram acontecendo ao longo do tempo (Silva et al ., 2021), através do registo em fotografia e em diário de campo. Trata-se de uma metodologia de caráter qualitativo (Flick, 2002) que inclui a experiência intrínseca da cidade vivida, e se deixa registar pela fotografia e por todos os outros sentidos, nomeadamente o olfato, a visão, a audição e o tato (Flick, 2009). De facto, nos últimos anos, tem aumentado o interesse pelo uso de métodos visuais (Heng, 2017) nos estudos sobre o espaço como forma de perceber e registar as mudanças que ocorrem nas cidades (Ferro, 2005). A fotografia como instrumento de investigação social (Torre & Ferro, 2016) pode ser entendida como forma de texto que, em vez de palavras, usa elementos visuais para comunicar e, assim, transmitir informações sobre determinado aspeto da realidade social (Smith, 2017). Assumindo uma postura de abertura (Costa, 2012) procurou-se registar todas as observações, interações e conversas estabelecidas em formato visual (fotografia) e em diário de campo tornando possível contribuir para a construção aproximada da própria realidade e testar conceitos teóricos sobre o fenómeno em estudo (Flick, 2002). Particularmente em relação à informação empírica proveniente de registo visual, esta permitiu contextualizar a informação recolhida com recurso a outras técnicas de investigação (Flick, 2008) e enriquecer o entendimento sobre o objeto de estudo (Gonçalves et al. , 2021). Isto, porque “a imagem informa, elucida, documenta, acrescenta valor e sentido ao fenómeno em si” (Gonçalves et al ., 2021, p. 164). Para além disso, permitiu-nos registar “os tempos de um passado-passado (irreversível), mas também de uma memória (que não faz regressar o que já passou, mas o atualiza), assim como o tempo de um ainda agora passado-presente, os tempos da mudança e da duração (tempo qualitativo)” (Pires, 2014, p. 104). Estamos perante uma observação participante (Flick, 2009) que se desenvolveu em três frases. A fase inicial, a exploração, foi o momento para estabelecer relacionamento com os residentes, para procurar orientação e compreensão dos acontecimentos que ocorrem no local de estudo e para começar a tirar fotografias em locais públicos. Neste estudo, na fase exploratória, foram oportunas algumas idas ao terreno para estabelecer e criar uma ligação com a população e o território e ao mesmo tempo construir um repositório de informação que permitisse documentar e explorar os fenómenos à medida que aconteceram. Deste modo, foi possível acompanhar a construção da própria realidade e ao mesmo tempo ter acesso direto a esses processos (Flick, 2002). Para além 83 disso, além de não ser natural do Porto pouco conhecia da cidade e, como tal, encarnando a personagem de “turista” procurei registar em suporte digital e em diário de campo a cidade, os seus edifícios e o modo como os residentes viviam e lidavam com o turismo. Durante este trabalho de “descoberta” da cidade estabeleci contacto com alguns residentes em cafés, bairros típicos, nas manifestações e encontros promovidos pelos residentes. Deste modo, de forma não intencional rapidamente se desenvolveu a conversa, que começava sempre de forma tímida e até receosa. Porém, rapidamente passava de “a menina”, a “minha filha” e a partir daí tudo se tornou mais fácil. Ao longo deste processo, foram recolhidos testemunhos de episódios que tinham ocorrido com aqueles residentes, familiares e/ou conhecidos deles(as). Todas as informações foram registadas em fotografia, sempre que possível, e em diário de campo. Numa segunda fase, Eberbe (2018) propõe a recolha de evidências visuais que contribuam para responder às questões da investigação. Nesta fase, considerou-se relevante registar as alterações, em diário de campo e fotografia, a que a cidade estava a ser sujeita ao longo dos anos em função do turismo. Assim, entre maio de 2017 e outubro de 2019 foram tiradas 1261 fotografias, tendo sido privilegiado o registo e observação de edifícios, espaço público e modos de vida da população residente. Este registo fotográfico decorreu ao longo de dois anos (2017-2019) e foi orientado por uma perspetiva comparativa, multiplicando os olhares sob os mesmos lugares, nos três anos – 2017, 2018 e 2019. Devemos salientar que, em relação a este estudo, não se procurou estudar, através da observação, componentes representativas, mas uma caracterização da cidade e do fenómeno (Campenhoudt et al. , 2017), servindo também para compreender algumas teorias e avançar com conhecimentos (Marvasti, 2014). Por fim, na última fase procedemos à análise interpretativa e descritiva da informação, tal como será detalhado adiante. 3.2.3. Inquérito por questionário Tal como referido inicialmente, o inquérito por questionário é a técnica de investigação mais utilizada no estudo do turismo. Neste estudo também consideramos relevante a sua realização, uma vez que permite um conhecimento mais abrangente da realidade em estudo (Flick, 2009), a verificação de hipóteses e a análise de correlações entre variáveis, além de descrever e interpretar o fenómeno (Coutinho, 2011). O presente estudo fez uso de duas formas de distribuição do questionário, inicialmente via internet e numa fase posterior aplicado presencialmente, com recurso a papel. O inquérito realizado 84 através da internet é cada vez mais utilizado nas investigações em ciências sociais e nos estudos em turismo, quer pela capacidade de rápida difusão, quer pelo número de atores sociais envolvidos no turismo, permitindo a possibilidade de alcançar um universo bastante diverso a um custo consideravelmente baixo (Campenhoudt et al. , 2019; Smith, 2017). O questionário on-line foi divulgado nas várias páginas da rede social Facebook, nomeadamente “O Porto não se vende”, “Porto. O lado abandonado da cidade”, “Queremos o Porto de volta”, “Porto.” e “Fórum Cidadania Porto”. No caso do questionário em papel, aplicou-se numa fase posterior ao inquérito on-line , uma vez que eram necessárias mais respostas de jovens e de pessoas idosas. O questionário foi realizado entre os meses de novembro e dezembro de 2019 e abrangeu todas as freguesias da cidade do Porto (União das Freguesias de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde, União das Freguesias de Cedofeita, Santo Ildefonso, Sé, Miragaia, São Nicolau e Vitória (Centro Histórico), União das Freguesias de Lordelo do Ouro e Massarelos, Bonfim, Campanhã, Paranhos e Ramalde). Trata-se de um inquérito por questionário criado propositadamente para este estudo baseado noutros estudos sobre as perceções dos residentes em relação aos impactes do turismo (Besculides et al ., 2002; Remoaldo & Cadima Ribeiro, 2017; Scalabrini, 2017; Simão & Môsso, 2013). Assim, é composto por 27 questões, das quais 11 são questões abertas e 16 fechadas, dividido ao longo de 4 grupos (consultar Anexo 1). O primeiro grupo de questões visou identificar a perceção dos residentes em relação à presença do turismo. As questões procuraram aferir a opinião dos residentes em relação ao número de turistas e ao turismo, avaliar a sua interação com os turistas e as suas experiências. No segundo grupo procurámos identificar a perceção dos residentes em relação aos impactes do turismo. É composto por um conjunto de questões sobre impactes económicos, ambientais, territoriais e socioculturais do turismo. No que concerne aos impactes do turismo, fizemos uso da escala de concordância de Likert (de 1 - discordo totalmente ao 5concordo totalmente). Neste grupo de questões, procurámos perceber quais os impactes de âmbito ambiental, sociocultural, residencial, territorial e económico que mais afetam os residentes. No terceiro grupo, assumindo como objetivo conhecer a perceção dos residentes em relação ao futuro do turismo na cidade, recorreu-se a uma escala de concordância de Likert (de 1 - discordo totalmente ao 5concordo totalmente) para avaliamos a predisposição dos residentes em participar nas decisões em matéria de turismo e a opinião em relação a um conjunto de medidas. Com recurso a questões de resposta aberta, procurou-se aceder às suas preocupações em relação 85 ao turismo. Por fim, o último grupo abrangia questões sobre o perfil sociodemográfico dos residentes, com questões relativas ao género, escolaridade, rendimentos, freguesia, idade, profissão e número de pessoas que compõem o agregado familiar. Em resumo, o questionário visou responder a três dimensões: (i) a perceção dos residentes em relação à presença do turismo; (ii) a perceção dos residentes em relação aos impactes do turismo; (iii) a perceção dos residentes em relação ao futuro do turismo na cidade. Importa salientar que antes da realização do inquérito por questionário foi efetuado um pré-teste. Deste modo, foram selecionadas quatro pessoas, das quais um homem e três mulheres, residentes na cidade de Braga. Esta opção visa garantir que os participantes do pré-teste não participariam na realização do questionário final. No final do preenchimento do questionário foram colocadas as seguintes questões: (i) Como avalia a extensão do inquérito por questionário?; (ii) Quanto tempo demoraram a preencher? (iii) Concordam com a estrutura e ordem das questões?; (iv) Quais as principais alterações que sugerem?. Em relação à extensão do questionário, apenas 1 pessoa em 4 inquiridas considerava o questionário longo. Deste modo, apontaram que em média demoraram entre 9 e 12 minutos a responder. Sobre a estrutura e ordem das questões, 2 pessoas das 4 inquiridas consideraram as tabelas relativas aos impactes extensas e uma considerou a questão “existem locais no Porto onde preferia não encontrar turistas?” e a questão “alguma vez deixou de frequentar algum lugar ou espaços no Porto devido ao turismo e/ou turistas?” muito semelhantes. Também em relação à questão “qual é o rendimento total líquido mensal da sua família”, uma pessoa não respondeu e sugeriu a sua eliminação. Face às considerações apresentadas consideramos que não se justificavam alterações no inquérito por questionário. Dado que todas as questões eram de caráter facultativo sempre que o(a) inquirido(a) considerasse que não tinha intenção de responder tal não comprometia a resposta às restantes questões nem colocaria em causa algum tipo de questão ética. Em relação à seleção dos participantes do estudo optou-se pelo processo de amostragem não probabilística por quotas. Esta opção deveu-se à necessidade de garantir a distribuição do universo e as constantes da amostra (Gonçalves, 2004). Apesar do processo de amostragem ser não probabilístico por quotas, o recurso ao inquérito on-line acabou por ser uma forma de amostragem não probabilística acidental. Porém, tal como Gonçalves (2004, p. 55) refere “(…) a amostragem por quotas desdobra-se num manto de amostras acidentais. Para cada quota, os elementos são retidos ’ao acaso’, de forma acidental”. Em relação ao questionário aplicado presencialmente, 86 recorreu-se à amostragem por bola de neve. Neste caso, três voluntários participaram na sua divulgação e preenchimento junto dos seus grupos de amigos, colegas e familiares, que posteriormente divulgaram junto das suas relações sociais e profissionais. Importa frisar que previamente foram devidamente instruídos em relação ao preenchimento e à importância de respostas rigorosas. Posto isto, assumiu-se como variáveis de controlo a freguesia e a idade. Uma vez que as hipóteses de investigação se prendem com a perceção em relação à construção especulativa do lugar procurámos perceber se há variações entre a perceção dos residentes da área turística (centro histórico) e das restantes freguesias. Em relação à idade, estudos realizados demonstram que as populações mais vulneráveis, jovens e idosos, se deparam com desigualdades no acesso ao consumo do espaço. A cidade do Porto tinha, em 2011, 237,591 habitantes (INE, 2011) 15 , no entanto, apenas são considerados no estudo jovens a partir dos 15 anos, ou seja, 209,212 habitantes. A escolha de residentes com mais de 15 anos deve-se ao facto de as capacidades cognitivas estabilizarem por volta dessa idade (Poria et al. , 2003). De forma a garantir a representatividade da amostra e garantindo uma dimensão máxima para um intervalo de confiança de 95%, com margem de erro de 5%, resultou uma amostra ideal de 384 residentes. Estes valores vão de encontro com os valores encontrados noutros estudos sobre a perceção dos residentes noutras cidades ( e.g., em Guimarães – Portugal (n=471), em Girona – Espanha (n=253) e no Zimbabwe (n=384) (Remoaldo & Cadima Ribeiro, 2017; Rua, 2020; Tichaawa & Moyo, 2019). Assumindo uma população total de 209,212 residentes, a população residente com 15-24 anos correspondeu a 12% da população, com 25-64 anos a 62% e de 65 e mais anos a 26% (Tabela 10). 15 https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_indicadores&userLoadSave=Load&userTableOrder=8100&tipoSeleccao=0&contexto=pq& selTab=tab1&submitLoad=true 87 Tabela 10. Distribuição da população por grupos etários Grupos etários % População residente % Resposta 15 - 24 anos 12% 10% 25-64 anos 62% 81% ≥ 65 anos 26% 10% Fonte: Inquérito por questionário realizado entre novembro e dezembro de 2019. Em relação à freguesia 16 , a população inquirida contempla todas as freguesias da cidade do Porto, sendo a União de Freguesias do Centro Histórico (Cedofeita, Santo Ildefonso, Sé, Miragaia, São Nicolau e Vitória) a mais representativa nos questionários (23.2%), o que vai de encontro ao número total de população (Tabela 11). Tabela 11. Distribuição da população por freguesia Fonte: Inquérito por questionário realizado entre novembro e dezembro de 2019. Foram recolhidos 235 questionários de forma virtual, sendo que 5 destas respostas foram consideradas inválidas, e 150 questionários em papel, resultando numa amostra de 380 inquiridos. 51.8% dos inquiridos eram do sexo feminino e 47.1% do sexo masculino. A amostra foi composta maioritariamente por população no grupo etário 37-47 anos (27.1%), seguindo-se do grupo 48-58 anos (20.5%). Relativamente às habilitações literárias, 72.6% da amostra tinha o ensino superior, seguindo-se do ensino secundário (15.3%). Em relação à atividade profissional, 19.9% assumiu estar relacionada com o turismo e entre estas famílias o rendimento incidiu, sobretudo, nos intervalos entre 1001€ e os 2500€ (40.8%) e os 2501€ e os 3000€ (15.3%). 47.1% 16 Em relação à freguesia seguimos o mesmo critério anterior em considerarmos o total de população com 15 ou mais anos. % População % Resposta U. F. Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde 12% 13% Bonfim 10% 14% Campanhã 14% 9% Paranhos 19% 13% Ramalde 16% 14% U. F. de Lordelo do Ouro e Massarelos 12% 13% U. F. do Centro Histórico 18% 24% 88 da amostra sempre residiu na freguesia e 48.9% alterou a freguesia de residência. Esta alteração deve-se aos seguintes motivos: motivos pessoais, pelos valores de arrendamento, por necessidade de habitação maior e por proximidade com o local de estudo/trabalho (Tabela 12). Tabela 12. Perfil da amostra Variáveis sociodemográficas N = 380 % Sexo Feminino 197 51,8 Masculino 179 47,1 Não responde 4 1,1 Idade 15 - 25 anos 44 11,6 26 - 36 anos 82 21,6 37 – 47 anos 103 27,1 48 – 58 anos 78 20,5 59 – 69 anos 46 12,1 ≥ 70 anos 27 7,1 Habilitações académicas Sabe ler e escrever sem ter completado o primeiro ciclo 1 0,3 Primeiro ciclo do ensino básico 3 0,8 Segundo ciclo do ensino básico 5 1,3 Terceiro ciclo do ensino básico 21 5,5 Ensino secundário 58 15,3 Ensino superior 276 72,6 Não respondeu 16 4,2 Atividade relacionada com o turismo Sim 74 19,5 Não 297 78,2 Não respondeu 9 2,4 89 Tabela 12. Perfil da amostra (continuação) Fonte: Inquérito por questionário realizado entre novembro e dezembro de 2019. 3.2.4. Entrevistas semiestruturadas Com o objetivo de obter uma visão mais aprofundada em relação ao tema, referenciar tendências, problemas, atitudes e opiniões sobre o fenómeno em estudo, optámos pela realização de entrevistas a decisores/informadores privilegiados na indústria do turismo e aos residentes do Porto. As entrevistas realizadas à população residente iniciaram-se em 2018, na fase exploratória do estudo, ao mesmo tempo que decorria a pesquisa documental e a observação. De acordo com Variáveis sociodemográficas N = 380 % Rendimento total líquido mensal do agregado familiar Até 600€ 9 2,4 De 601€ até 1000€ 63 16,6 De 1001€ até 2500€ 144 37,9 De 2501€ até 3000€ 54 14,2 De 3001€ até 3500€ 32 8,4 De 3501 até 4000€ 21 5,5 Superior a 4000€ 30 7,9 Não respondeu 27 7,1 Freguesia de residência U. F. Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde 49 12,6 Bonfim 88 13,2 Campanhã 48 8,9 Paranhos 50 12,6 Ramalde 50 13,2 U. F. de Lordelo do Ouro e Massarelos 48 12,9 U. F. do Centro Histórico 34 23,2 Não respondeu 13 3,4 Permanência na residência Sempre residiu na freguesia 179 47,1 Alterou a freguesia de origem 186 48,9 Não respondeu 14 4 96 são criados pelos residentes como forma de partilharem as suas experiências e dúvidas. São frequentemente partilhadas notícias, ilustrações, fotografias que desencadeiam comentários e opiniões. 97 Capítulo IV. Estudo empírico: a cidade r(v)endida ao turismo Fotografia tirada pela autora da presente tese em 2019. E se ao menos essa ilusão da Cidade tornasse feliz a totalidade dos seres que a mantêm... Mas não! Só uma estreita e reluzente casta goza na Cidade os gozos especiais que ela cria. O resto, a escura, imensa plebe, só nela sofre, e com sofrimentos especiais que só nela existem! ( Eça de Queirós, 2019, p. 87). 98 4.1. Nota introdutória Neste capítulo são apresentados os resultados obtidos por via da observação, do inquérito por questionário e das entrevistas semiestruturadas realizadas aos residentes da cidade do Porto. Deste modo, a informação apresenta-se de acordo com as seguintes dimensões: i. A perceção dos residentes em relação à presença do turismo; ii. A perceção dos residentes em relação aos impactes do turismo no Porto; iii. A perceção dos residentes em relação ao futuro do turismo na cidade. Para além disso, o último subcapítulo debruça-se sobre a análise de cluster realizada. Ao longo da análise, a interligação e confrontação constante entre os resultados de foro quantitativo ( e.g ., inquérito por questionário) e qualitativo ( e.g., observação e entrevistas semiestruturadas) sublinha o papel relevante dos elementos mais emocionais e sensoriais da relação dos residentes com a cidade na compreensão de algumas relações encontradas no inquérito por questionário. Deste modo, os excertos provenientes das entrevistas encontram-se identificados com um nome fictício e as restantes afirmações correspondem à informação proveniente das respostas abertas do inquérito por questionário. 4.2. A perceção dos residentes em relação à presença do turismo Neste ponto são apresentados os resultados referentes à perceção dos residentes em relação à presença do turismo na cidade do Porto, dado que uma das questões principais que a literatura levanta prende-se com a densidade dos fluxos de turismo e com a presença do turista no território. Na prática, a elevada densidade de turistas coloca as cidades perante inúmeros desafios, porque se, por um lado, esses turistas e fluxos são particularmente benéficos para a economia da cidade, por outro lado, podem condicionar o quotidiano da cidade. No estudo da perceção dos residentes em relação ao turismo são utilizadas com regularidade diversas variáveis sociodemográficas para interpretar as perceções dos residentes, nomeadamente a idade (Bastias-Perez & Var, 1995; Chen, 2000; Haralambopoulos & Pizam, 1996), as habilitações académicas (Alhasanat & Hyasat, 2011; Andriotis, 2004; Haralambopoulos & Pizam, 1996; Korca, 1998; Tichaawa & Moyo, 2019), o género (Chen, 2000; Tichaawa & Moyo, 2019), a dependência económica - associada a rendimentos provenientes da atividade turística 99 (Alhasanat & Hyasat, 2011; Haralambopoulos & Pizam, 1996; Korca, 1998; Tichaawa & Moyo, 2019), o número de anos em que reside em determinado espaço (Tichaawa & Moyo, 2019), os rendimentos (Andriotis & Vaughan, 2003; Haralambopoulous & Pizam, 1996) e a distância da residência em relação à área turística (Alrwajfah et al ., 2019; Jurowski & Gursoy, 2004). Neste estudo, como refletimos em torno das dimensões capitalistas do espaço utiliza-se como variáveis explicativas da perceção em relação ao turismo o rendimento total líquido mensal do agregado familiar, a dependência económica (algum membro da família trabalha no setor do turismo), o género, a idade e a freguesia de residência. Tendo por base os 380 questionários aplicados aos residentes da cidade do Porto, os resultados atestam que uma maioria expressiva dos inquiridos considerava elevado o número de turistas na cidade. A perceção dos residentes em relação ao número de turistas não variou de forma significativa consoante as diferentes características sociodemográficas (Tabela 14). As mulheres apontavam para uma perceção em relação ao número de turistas mais elevada (média de 4,19). O mesmo acontecia com os jovens, entre os 15 e os 24 anos (média de 4,32) e as pessoas com idade igual ou superior a 65 anos (média de 4,25) quando comparados com os inquiridos entre os 25 e os 64 anos (média de 4,05). Em relação à freguesia de residência, eram os residentes nas freguesias do Bonfim e do Centro Histórico que percecionavam o número de turistas como mais elevado quando comparados com os residentes das diferentes freguesias. Por fim, as pessoas com rendimentos mais baixos percecionavam como sendo mais elevado o número de turistas (média de 4,56). Tabela 14. Perceção dos residentes em relação ao total de turistas Na sua opinião, o número atual de turistas na cidade do Porto é: N % Média (Desvio-padrão) Total 380 100% 4,10 (0,87) Género Feminino 197 52% 4,19 (0,79) Masculino 179 48% 3,99 (0,94) Total 376 100% Idade 15-24 anos 37 10% 4,32 (0,78) 25-64 anos 307 81% 4,05 (0,87) ≥ 65 anos 36 9% 4,25 (0,87) Total 380 100% 100 Tabela 14. Perceção dos residentes em relação ao total de turistas (continuação) Na sua opinião, o número atual de turistas na cidade do Porto é: N % Média (Desvio-padrão) Total 380 100% 4,10 (0,87) Freguesia U. F. Lordelo do Ouro e Massarelos 49 13% 4,10 (0,89) U. F. do Centro Histórico 88 24% 4,19 (0,90) U. F. de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde 48 13% 3,98 (0,93) Bonfim 50 14% 4,30 (0,83) Ramalde 50 14% 4,12 (0,77) Paranhos 48 13% 3,85 (0,89) Campanhã 34 9% 4,00 (0,85) Total 367 100% Rendimento total líquido mensal do agregado familiar Até 600€ 9 2% 4,56 (0,52) De 601€ até 1000€ 63 18% 4,24 (0,91) De 1001€ até 2500€ 144 41% 4,13 (0,85) De 2501€ até 3000€ 54 15% 3,89 (0,83) Mais de 3000€ 83 24% 4,00 (0,89) Total 353 100% Nota: Foi utilizada a escala de Likert de 5 pontos (de 1Muito baixo a 5 – muito alto). Fonte: Inquérito por questionário realizado entre novembro e dezembro de 2019. Apesar de considerarem o número de turistas elevado, 42% dos residentes inquiridos reconheceram como sendo indiferente a sua presença em determinados locais, 38% assumiu que não há locais onde preferiam não encontrar turistas e 19% mencionou que sim (Tabela 15). No caso do Porto, a percentagem de pessoas que preferiam não encontrar turistas em determinados locais era muito elevada quando comparada com estudos realizados noutros destinos, como por exemplo, nas cidades como Joinville (Brasil) ou em Guimarães (Portugal). Em Joinville, Scalabrini (2017) concluiu que apenas 2,5% da amostra de 488 residentes inquiridos destacava que havia locais onde os residentes não gostavam de encontrar turistas e, em Guimarães, numa amostra de 540 inquiridos, apenas 2,4% (Remoaldo et al. , 2012). 101 Tabela 15. Opinião sobre a não presença em determinados locais Existem locais no Porto onde preferia não encontrar turistas? N % Sim 72 19% Não 144 38% É-me indiferente 161 42% Não responde 3 1% Total 380 100% Fonte: Inquérito por questionário realizado entre novembro e dezembro de 2019. Ao analisarmos o cruzamento com as variáveis sociodemográficas (Tabela 16) percebemos que dos 19% que preferiam não encontrar turistas em determinados lugares, 52% são mulheres, encontravam-se na faixa etária entre os 25 e os 64 anos, possuíam rendimentos baixos e médios e viviam nas freguesias do Centro Histórico e Bonfim e em áreas próximas do centro histórico da cidade. Assim, podemos comprovar, à semelhança de Besculides et al. (2002), que dos 19% que responderam positivamente a maioria são residentes em freguesias que possuem uma maior concentração de turistas devido à proximidade ao centro histórico da cidade. Face ao apresentado, concluímos que a presença de turistas em determinados locais não era entendida da mesma forma nas diferentes freguesias. Nas freguesias geograficamente mais afastadas do centro histórico ( e.g., Paranhos) os inquiridos assumiram que a presença de turistas em determinados locais não os afetava. Por outro lado, denotou-se uma elevada percentagem de inquiridos para quem era indiferente a presença dos turistas, particularmente os residentes do Centro Histórico. Tal pode ser justificado pelo fluxo mais intenso de turistas nestas áreas e, ao mesmo tempo, assumindo as áreas centrais como locais em que conflui um maior número de pessoas (quer residentes, quer empresários, quer turistas), pode ter contribuído para uma desvalorização em relação à sua presença, ou seja, os residentes destas áreas podem-se ter habituado à presença de turistas. 102 Tabela 16. Preferiam não encontrar turistas Existem locais no Porto onde preferia não encontrar turistas? Sim Não É-me indiferente Total N % N % N % N % Total 72 19% 144 38% 161 42% 377 99% Não responde 3 1% Género Feminino 37 52% 67 47% 91 57% 195 52% Masculino 34 48% 75 53% 69 43% 178 48% Total 71 100% 142 100% 160 100% 373 100% Idade 15-24 anos 8 11% 8 6% 21 13% 37 10% 25-64 anos 57 79% 129 90% 118 73% 304 81% ≥ 65 anos 7 10% 7 4% 22 14% 36 9% Total 72 100% 144 100% 161 100% 377 100% Freguesia U. F. Lordelo do Ouro e Massarelos 10 14% 15 11% 24 16% 49 14% U. F. do Centro Histórico 19 27% 22 16% 44 29% 85 23% U. F. de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde 10 14% 21 15% 17 11% 48 13% Bonfim 17 24% 17 12% 16 10% 50 14% Ramalde 3 4% 25 18% 22 14% 50 14% Paranhos 8 11% 25 18% 15 10% 48 13% Campanhã 4 6% 14 10% 16 10% 34 9% Total 71 100% 139 100% 154 100% 364 100% Rendimento total líquido mensal do agregado familiar Até 600€ 3 5% 4 3% 2 1% 9 3% De 601€ até 1000€ 18 27% 22 16% 23 16% 63 18% De 1001€ até 2500€ 26 39% 53 39% 62 42% 141 40% De 2501€ até 3000€ 4 6% 24 17% 26 18% 54 15% Mais de 3000€ 15 23% 34 25% 34 23% 83 24% Total 66 100% 137 100% 147 100% 350 100% Fonte: Inquérito por questionário realizado entre novembro e dezembro de 2019. 103 Os inquiridos que indicaram os locais em que preferiam não encontrar turistas, destacaram o centro histórico (n=35) (Aliados, Sé, Baixa, Ribeira), os espaços públicos (n=27) (supermercado, restaurantes, bares, espaços culturais e de culto), as áreas residenciais, de trabalho e nos transportes (n=19) e as áreas periféricas ao centro histórico (Campanhã, Bonfim, Maia, Matosinhos) (n=9) (Tabela 17). Importa referir que estas freguesias são locais de entrada e saída de intensos fluxos de passageiros. No caso de Campanhã, tem estação de caminho-de-ferro, no caso da Maia, por aí se situar o aeroporto e no caso de Matosinhos, devido ao Porto de Leixões e da chegada de navios de cruzeiros. Na verdade, estes dados demonstram, tal como concluiu Scalabrini (2017) em relação a Joinville, que os residentes não gostam de encontrar turistas nos locais que frequentam regularmente, resultando numa competição pelo espaço. Tal é confirmado quando distintos inquiridos explanam certas afirmações em torno da apropriação dos lugares, afirmando, de certo modo, que os turistas “invadem os espaços”, os “meus restaurantes preferidos para jantar”, os “locais destinados à habitação dos residentes”, os “sítios onde se via antes habitantes”, “dentro das antigas habitações dos portuenses” e até “na minha área de residência”. Tabela 17. Locais onde preferiam não encontrar turistas Se sim, onde? N % Centro Histórico 35 39% Áreas periféricas ao centro histórico 9 10% Espaços públicos (supermercado, restaurantes, bares, rua) 27 30% Áreas residenciais, de trabalho e transportes 19 21% Total 90 100% Fonte: Inquérito por questionário realizado entre novembro e dezembro de 2019. Estes dados demonstram uma clara oposição às conclusões dos estudos desenvolvidos na cidade de Guimarães (Remoaldo et al ., 2012) e em Joinville (Scalabrini, 2017), nos quais concluíram que os residentes gostavam de ver turistas em locais de atração turística. Em ambos os estudos os residentes demonstraram interesse em dar a conhecer locais cuidados e sujeitos a uma avaliação positiva. Na cidade do Porto verifica-se o oposto. Tal pode ser justificado pelo intenso fluxo de turistas que estes locais possuem, contrariamente às cidades anteriormente citadas. As dificuldades associadas à partilha do mesmo espaço e de circulação no mesmo tempo que o dos turistas, incluindo nos supermercados, ruas e transportes públicos, é frisado regularmente. 104 Os inquiridos mencionaram ter muita dificuldade de circulação nos passeios, nas ruas, no trânsito e, de forma mais particular, nos transportes públicos. O percurso que faziam habitualmente tornou-se mais demorado porque os turistas “condicionam o trânsito e perturbam o normal funcionamento da cidade e suas gentes” e acaba por “não haver espaço suficiente para andar, demasiados turistas e artistas de rua”, tal como é referido por diferentes inquiridos. Um desses exemplos é a Ribeira que, devido aos preços praticados e à intensa presença dos turistas torna difícil a circulação e usufruto pelos residentes. Na verdade, a elevada concentração de bares e restaurantes e a vista sobre o rio Douro, o seu caráter típico e antigo, os barcos Rabelos e a cidade de Vila Nova de Gaia tornaram este lugar apetecível ao olhar do turista. E se em 2009 (Figura 16) os turistas mal se faziam notar na Ribeira, em 2019 (Figura 17) o intenso fluxo de turistas obrigava a que todas as deslocações se desenrolassem como se de um labirinto se tratasse. Figura 16. A marginal da Ribeira em 2009 Fonte: Google Earth (recolhida em junho de 2020). Figura 17. A Ribeira turistificada Fonte: Fotografia tirada pela autora da presente tese em janeiro de 2019. 105 Do mesmo modo, em relação aos transportes públicos, utilizados frequentemente pelos turistas para se movimentarem dentro da cidade, agrava-se o conflito entre residentes e turistas, que veem o seu conforto nas viagens condicionado. Uma inquirida afirmava que são: demasiados turistas com mochilas e malas de viagem nos transportes públicos, com maus hábitos de convivência, não cedem os lugares reservados aos deficientes e não tiram as mochilas das costas ao circularem dentro do metro ou autocarros. Em grupo, enchem o autocarro, deixando os utentes que têm horários a cumprir nas paragens (Mulher, 70 anos, U. F. de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde). Tal como temos vindo a referir as opiniões dividem-se. Por um lado, há quem aprecie a presença de turistas, referindo que “os turistas são bem-vindos” e que têm “gosto que os turistas venham à minha cidade”, acabando por os considerar “essenciais no fortalecimento da baixa como centro vivo” e, neste sentido, a interação com os turistas é avaliada como positiva (75%). Uma prova disso é o que se vivencia nas ruas em que residentes e turistas contactam, mas onde ainda predominam mais residentes do que turistas, o que é raro na cidade. Enquanto conversava com uma senhora, sentada numa das suas cadeiras à porta da sua casa, avistava-se mais adiante um grupo de 6 mulheres, sentadas à porta de sua casa em cadeiras de plástico. De repente, avistam 4 tuk-tuks no início da rua. E diz a senhora sentada ao meu lado “Aí vem eles. E são 4”. Logo se levantam e batem palmas à sua passagem. Em tom de desabafo dizia-me uma das senhoras “Óh menina, isto é que é bonito, os turistas gostam de nos ver aqui sentados, de nos ouvir a falar. Às vezes até cantamos para eles, as nossas cantigas”, dizia a senhora toda animada [excerto diário de campo, 2018]. Pelo contrário, 20% consideram a interação residente-turista negativa e 5% não sabe o que dizer sobre o assunto. Com vista a perceber melhor a interação entre turistas e residentes colocou-se a seguinte afirmação aos inquiridos “a minha interação com os turistas é positiva” e, com recurso a uma escala de Likert de cinco níveis (de 1 - discordo totalmente a 5 - concordo totalmente) os dados atestam que a interação com os turistas é mais positiva para os homens (média de 4,02), para os inquiridos com idades entre os 25 e os 64 anos (média de 4,03) e para os residentes que vivem mais afastados das freguesias do centro histórico, e.g. , União de Freguesias Lordelo do Ouro e Massarelos (média de 4,06) e União de Freguesias Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde (média de 112 Com o número de turistas a crescer na cidade, alguns locais na cidade tornam-se espaços proibidos “a menos que tenhamos tempo e dinheiro para perder em filas intermináveis e preços inflacionados e paciência para nos espremermos no meio dos turistas todos” (mulher, 33 anos, residente no Centro Histórico), como é o caso da Livraria Lello , que capitaliza o simbolismo de outrora na sua encenação museológica, mostrando-se como atração turística. Agora, os residentes, na imitação dos turistas, têm de comprar um bilhete de entrada e aguardar pela vez para entrar e usufruir o espaço (Figura 21). Figura 21. Livraria Lello Fonte: Fotografia tirada pela autora da presente tese em outubro de 2019. Posto isto, o número de pessoas, os preços praticados, a descaracterização dos lugares e a diminuição da qualidade do serviço (Tabela 20) são os principais motivos proibitivos da presença dos residentes nestes locais. Numa das conversas, refere-se que: Uma pessoa nem consegue andar, é só turistas. Queremos uma cadeira para tomar um café e não há. À noite, íamos tomar um cafezinho depois do jantar. Hoje não posso. É só turistas, todos instalados a beber cervejas, descalços. É o que os turistas fazem [excerto do diário de campo, 2018]. Adicionalmente, alguns relatos de inquiridos apontavam ter deixado de frequentar determinados eventos culturais tradicionais da cidade, nomeadamente, o São João e a Passagem de Ano, afirmando: 113 Não vamos à Baixa ao São João nem na Passagem de Ano. Não gostamos de multidões descontroladas por excesso de álcool e drogas. Estas festividades tradicionais, em que as famílias portuenses de todas as classes sociais participavam, deixaram de ser compatíveis com a segurança das pessoas (mulher, 70 anos, U. F. de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde). Tabela 20. Motivos pelos quais deixaram de frequentar os espaços Se sim, porquê? N % Número de pessoas 75 58% Preços praticados 24 18% Descaracterização dos lugares 18 14% Diminuição da qualidade 13 10% Total 130 100% Fonte: Inquérito por questionário realizado entre novembro e dezembro de 2019. Tanto nas entrevistas como no inquérito por questionário, os participantes relataram comportamentos em que evitam o contacto com os turistas. Tiago (37 anos, residente numa freguesia periférica), na sua entrevista afirmava: “confesso, vou menos à Baixa do Porto porque penso ‘vai estar cheio’. À noite fujo da Baixa porque está cheia de turistas.” Noutro caso, Aurora (38 anos, residente no Centro Histórico) revela que gostaria de “passear mais pela Baixa senão fosse o caos que é”. Os espaços de restauração, comércio e cultura e o espaço público são os mais frequentemente referidos pelos residentes inquiridos, como locais/espaços que deixaram de frequentar ou ter passado a evitar, em alguns casos cafés típicos do Porto, tais como o “Piolho”, o “Majestic” e restaurantes ou bares na Baixa. Destacam-se também alguns espaços culturais como o Museu de Serralves e a Livraria Lello . Os espaços públicos que mais evitam são, por ordem decrescente, a Ribeira (n=19), a Baixa (n=18), a área mais histórica da cidade (n=12), a Rua de Santa Catarina (n=11), a Rua das Flores (n=4), a Avenida dos Aliados (n=3), os transportes públicos (n=2), o Passeio das Virtudes (n=2), os Clérigos (n=2), a Sé (n=1) e as Carmelitas (n=1). Importa realçar que estamos perante locais com elevada concentração de espaços de comércio, restauração ( e.g., restaurantes, bares) e esplanadas, o que origina maior concentração de turistas. No entanto, na sua maioria, os residentes afirmavam que não alteraram os seus hábitos de vida devido à presença dos turistas (54%), enquanto 46% da população residente inquirida assumiu 114 que em algum momento alterou os seus hábitos de vida (para lazer, compras), os seus horários ou os locais onde realizavam essas atividades com a finalidade de evitar turistas. Estes valores são particularmente elevados quando comparados com o estudo desenvolvido em Joinville (Scalabrini, 2017), em que apenas 6% da amostra referia ter alterado os seus hábitos. Porém, importa salientar que a cidade não era massificada em termos de turismo. Tal como podemos observar na Tabela 21, as mulheres, os inquiridos com idades compreendidas entre os 25 e os 64 anos, os residentes na União de Freguesias do Centro Histórico e os inquiridos com rendimentos até 2.500 euros são os mais alteraram os seus hábitos de vida. Tabela 21. Alteração dos hábitos de vida Altera os seus hábitos de vida com a finalidade de evitar turistas? Sim Não Total N % N % N % Total 171 45% 203 53% 374 98% Não responde 6 2% Género Feminino 90 53% 102 51% 192 52% Masculino 79 47% 99 49% 178 48% Total 169 100% 201 100% 370 100% Idade 15-24 anos 16 9% 21 10% 37 9% 25-64 anos 140 82% 161 80% 301 81% ≥ 65 anos 15 9% 21 10% 36 10% Total 171 100% 203 100% 374 100% Freguesia U. F. Lordelo do Ouro e Massarelos 22 13% 25 13% 47 13% U. F. do Centro Histórico 50 30% 37 19% 87 24% U. F. de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde 16 10% 32 16% 48 13% Bonfim 28 17% 22 11% 50 14% Ramalde 20 12% 28 14% 48 13% Paranhos 17 11% 30 16% 47 13% Campanhã 12 7% 22 11% 34 9% Total 157 100% 190 100% 347 100% 115 Tabela 21. Alteração dos hábitos de vida (continuação) Altera os seus hábitos de vida com a finalidade de evitar turistas? Sim Não Total N % N % N % Total 171 45% 203 53% 374 98% Rendimento total líquido mensal do agregado familiar Até 600€ 7 4% 2 1% 9 3% De 601€ até 1000€ 39 25% 23 12% 62 18% De 1001€ até 2500€ 57 36% 85 45% 142 41% De 2501€ até 3000€ 20 13% 32 17% 52 15% Mais de 3000€ 34 22% 48 25% 82 24% Total 157 100% 190 100% 347 100% Fonte: Inquérito por questionário realizado entre novembro e dezembro de 2019. Posto isto, importa reter que o turismo, de alguma forma: (…) mudou a vida dos residentes. Nota-se uma diferença na zona da Baixa, por onde se centra o movimento dos turistas, que há muitas pessoas, muito movimento, mas não há vida. As pessoas passeiam. A forma de se deslocarem não é o impulso de ter que apanhar o autocarro, ir a uma casa comercial, não é esse tipo de frenesim . Mudou muito (Rita, 77 anos, residente numa freguesia periférica). Está-se perante o que Fortuna (2009) denomina como sendo uma “paragem” do ritmo urbano. Cada cidade tem o seu ritmo, a sua cadência que varia ao longo dos dias, dos anos e dos lugares. No entanto, a transformação do espaço urbano “permanente” em espaço urbano “temporário” alterou a velocidade no quotidiano da cidade, tendo-se convertido num local de passagem rápida, numa cidade alucinante. Esta alteração dos ritmos da cidade não só perturba o quotidiano dos residentes, como interfere sobre a experiência turística, comprometendo a experiência do turista. 4.3. A perceção dos residentes em relação aos impactes do turismo: a produção da cidade do capital 4.3.1. Os principais impactes Os vários impactes do turismo nas comunidades recetoras são um emaranhado de consequências que interligam dimensões socioculturais, ambientais, residenciais, económicas e territoriais de modo muito imbrincado, que afeta e é afetado por fatores estruturais da sociedade. 116 Deste modo, no questionário foi usada uma questão (questão 6) composta por 25 afirmações e uma escala de Likert de 5 níveis (do 1 – discordo totalmente ao 5 – completamente de acordo) sendo três alusivas aos impactes territoriais, duas aos impactes residenciais, dez aos impactes socioculturais, três aos impactes ambientais e sete aos impactes económicos. Assim, na Tabela 22 podemos observar que dos 14 itens considerados como impactes positivos, 5 tem médias acima de 4, sobressaindo: “valoriza a imagem do Porto a nível internacional” (4,38), “dinamiza o comércio” (4,33), “traz mais investimento para a cidade” (4,37), “cria emprego” (4,30) e “contribui para a renovação e requalificação urbana” (4,03). Deste modo, concluiu-se que em relação aos impactes positivos, os inquiridos tinham perceções direcionadas para a questão da imagem da cidade, para a vertente económica e para aspetos mais materiais, nomeadamente de renovação e requalificação urbana. Estes dados corroboram o estudo realizado na cidade de Guimarães (Remoaldo & Cadima Ribeiro, 2017) ao referirem que os impactes mais positivos são de foro económico, associados à imagem da cidade e da sua renovação. Pelo contrário, dos 11 itens associados aos impactes negativos, destacam-se, com média superior a 4, o “aumento do preço das habitações” (média de 4,40), o “aumento da pressão imobiliária” (média de 4,34) e o “aumento dos preços dos bens e serviços” (média de 4,40). Estes dados vão de encontro com os resultados alcançados por Scalabrini (2017) em Joinville, em que refere que os primeiros impactes negativos são de cariz económico. Importa ainda destacar que afirmações associadas aos impactes relacionados com a qualidade de vida urbana da população residente ( e.g., aumenta os espaços ao ar livre, melhora a qualidade de vida da população, melhora o ambiente, melhora as condições de habitação da população residente) estão abaixo de 3 (sendo 3 o meio da escala). Estes valores retratam com alguma nitidez a aposta dos autarcas da cidade exclusivamente no turismo e não na salvaguarda da sua função residencial. Surpreendeu-nos, no entanto, que a “redução do comércio tradicional” seja um dos impactes com média de concordância mais baixa face aos constantes processos de requalificação de que esses espaços foram alvo. No entanto, visto que a Câmara Municipal do Porto criou, em 2016, o programa “Porto de Tradição” que visa essencialmente proteger os espaços com interesse patrimonial da cidade em relação à Lei das rendas liberalizadas e que em 117 junho de 2021 estavam reconhecidos 94 estabelecimentos comerciais e 4 entidades 17 , talvez seja esse um dos motivos pelos quais não denotem uma diminuição significativa. Tabela 22. Impactes positivos e negativos do turismo Ranking Afirmação Média Desvio-padrão Impactes positivos 5 Dinamiza o comércio 4,33 0,84 2 Valoriza a imagem do Porto a nível internacional 4,38 0,85 3 Traz mais investimento para a cidade 4,37 0,72 6 Cria emprego 4,30 0,80 7 Contribui para a renovação e requalificação urbana 4,03 0,93 13 Aumenta as preocupações com a preservação do património 3,63 1,11 14 Estimula o fortalecimento da identidade cultural 3,31 1,27 18 Aumenta o sentimento de pertença em relação à cidade 3,13 1,21 16 Promove a preservação e valorização das tradições 3,28 1,26 17 Melhora a segurança no espaço público 3,25 1,13 21 Aumenta os espaços ao ar livre 2,80 1,14 20 Melhora a qualidade de vida da população 2,85 1,35 23 Melhora o ambiente 2,48 1,04 24 Melhora as condições de habitação da população residente 2,42 1,28 Impactes negativos 1 Aumenta os preços das habitações 4,40 0,93 1 Aumenta os preços de bens e serviços 4,40 0,93 4 Aumenta a pressão imobiliária 4,34 0,97 8 Aumenta os problemas de tráfego e estacionamento 3,91 1,11 9 Aumenta a oferta de trabalho precário 3,77 1,11 10 Estimula a gentrificação 3,74 1,35 12 Provoca mudanças na cultura portuense 3,66 1,03 11 Aumenta a poluição 3,68 1,09 15 Perturba a vida quotidiana dos residentes 3,55 1,24 19 Aumenta o número de atividades ilícitas 3,11 1,24 22 Reduz o comércio tradicional 2,68 1,35 Fonte: Inquérito por questionário realizado entre novembro e dezembro de 2019. 17 Informação disponível em https://comercioturismo.cm-porto.pt/comercio/porto-de-tradicao 118 Na verdade, o turismo não afeta os residentes de igual forma. Na resposta à questão “sente que a sua família foi afetada pelo turismo nos últimos 5 anos?”, 56% dos inquiridos não se sentem afetados pelo turismo, mas 44% afirma ter sido afetado. Destes, 23%, sensivelmente metade, disse que foi afetado positivamente e outra metade (21%) foi afetada de forma negativa. Na Tabela 23 podemos observar uma espécie de retrato social do modo desigual como o turismo afetou a população residente e como reproduziu e agudizou situações de desigualdade e de exclusão social. As populações com rendimentos mais baixos, foram as mais afetadas negativamente pelo turismo, tal como os residentes das freguesias do Bonfim e do Centro Histórico. No caso da freguesia do Bonfim, devido à proximidade ao Centro Histórico, começava a dar conta dos primeiros sinais da expansão do turismo para além dos limites da área turística mais central. Compreende-se que seja esta a população que mais sente e vive a exploração capitalista, afirmando ter sido mais afetada negativamente, porque o centro histórico assume-se como um espaço mais vulnerável à exploração do capital, e no qual se assistiu a uma reconstrução significativa dos espaços e ao aumento dos preços onde reside a população com rendimentos mais baixos. Tabela 23. Perceção dos residentes em relação à afetação do turismo na sua família, nos últimos 5 anos Sente que a sua família foi afetada pelo turismo nos últimos 5 anos? Positivamente Negativamente Não afetadas N % N % N % Total 86 23% 79 21% 211 55% Género Feminino 35 42% 39 49% 122 58% Masculino 48 58% 40 51% 88 42% Total 83 100% 79 100% 210 100% Idade 15-24 anos 3 3% 2 3% 32 10% 25-64 anos 78 91% 69 87% 157 81% ≥ 65 anos 5 6% 8 10% 22 9% Total 86 100% 79 100% 211 100% Fonte: Inquérito por questionário realizado entre novembro e dezembro de 2019. 119 Tabela 23. Perceção dos residentes em relação à afetação do turismo na sua família, nos últimos 5 anos (continuação) Sente que a sua família foi afetada pelo turismo nos últimos 5 anos? Positivamente Negativamente Não afetadas N % N % N % Total 86 23% 79 21% 211 55% Freguesia U. F. Lordelo do Ouro e Massarelos 12 15% 7 9% 29 14% U. F. do Centro Histórico 28 35% 22 29% 38 18% U. F. de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde 5 6% 12 15% 31 15% Bonfim 7 9% 19 25% 23 11% Ramalde 8 10% 6 8% 36 18% Paranhos 11 14% 4 5% 32 16% Campanhã 9 11% 7 9% 17 8% Rendimento total líquido mensal do agregado familiar Até 600€ 0 0 3 4% 6 3% De 601€ até 1000€ 13 17% 14 18% 35 18% De 1001€ até 2500€ 32 40% 31 41% 79 41% De 2501€ até 3000€ 12 15% 9 12% 33 17% Mais de 3000€ 22 28% 19 25% 41 21% Total 79 100% 76 100% 194 100% Fonte: Inquérito por questionário realizado entre novembro e dezembro de 2019. Neste sentido, são vários (n=67) os relatos dos que afirmam terem sido afetados de forma positiva devido à criação de emprego, ao aumento dos rendimentos, a uma maior oferta cultural e comercial, às transformações territoriais que contribuíram para a melhoria da imagem da cidade e para tornarem a cidade renovada, segura e dinâmica. Deste modo, a rendição da cidade à atividade turística, resultou numa oportunidade de emprego e ao mesmo tempo numa oportunidade para converter as suas residências em Alojamento Local ou hostels , garantindo assim um aumento nos rendimentos e a renovação da imagem da cidade. Pelo contrário, aqueles que se diziam afetados de forma negativa apontaram (n=75) particularmente os impactes residenciais (especulação imobiliária, perda de habitação, a diminuição das habitações disponíveis para os residentes, os despejos), o aumento do custo de vida (preço de produtos e serviços, rendas), a diminuição da qualidade de vida (ruído, dificuldade de acesso a determinados 120 estabelecimentos comerciais), a dificuldade no acesso a emprego qualificado não sendo associado à atividade turística, e a descaracterização territorial (extinção do comércio de proximidade ou a sua descaracterização). Deste modo, não nos surpreende que a maioria dos inquiridos (77%) considerasse que o turismo afetava maioritariamente a população residente nas freguesias do Centro Histórico, uma vez que este é o espaço mais sujeito à especulação capitalista. Quando confrontados com a afirmação “o turismo traz mais impactes positivos do que negativos”, os inquiridos concordaram (média de 3,90) que o turismo traz impactes essencialmente positivos. Como assinalado anteriormente, as famílias residentes nas freguesias do Bonfim são as que mais afirmam que foram afetadas negativamente pelo turismo (Tabela 24). Importa salientar que é nas freguesias mais periféricas em relação ao centro histórico que essa perceção é mais positiva, nomeadamente, na União de Freguesias Aldoar, na Foz do Douro e em Nevogilde, assim como na freguesia de Paranhos e na freguesia de Campanhã. Quando se considera a variável género, a perceção em relação aos impactes mais positivos ou negativos do turismo não apresenta diferenças. Porém, os inquiridos com rendimentos mais elevados percecionam o turismo de forma mais positiva do que os de rendimentos mais baixos. Talvez porque beneficiam de melhores condições de habitação ( e.g., vidros duplos, insonorização, vivem em locais com menos ruído) e avaliem de forma mais positiva o património recuperado e que podem visitar ( e.g., eventos culturais). Devido ao aumento do custo de vida na cidade, as pessoas com rendimentos mais baixos não conseguem usufruir das oportunidades de vivenciar as transformações que ocorrem na cidade. Tabela 24. Perceção em relação aos impactes positivos e negativos do turismo O turismo traz mais impactes positivos do que negativos N % Média (desvio-padrão) Total 366 96% 3,90 (1,20) Não responde 14 4% Género Feminino 190 48% 3,90 (1,20) Masculino 174 52% 3,89 (1,17) Total 364 100% 121 Tabela 24. Perceção em relação aos impactes positivos e negativos do turismo (continuação) O turismo traz mais impactes positivos do que negativos N % Média (desvio-padrão) Total 366 96% 3,90 (1,20) Idade 15-24 anos 33 8% 3,58 (1,06) 25-64 anos 303 84% 3,94 (1,20) ≥ 65 anos 30 8% 3,80 (1,29) Total 366 100% Freguesia U. F. Lordelo do Ouro e Massarelos 47 13% 3,89 (1,28) U. F. do Centro Histórico 87 24% 3,80 (1,25) U. F. de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde 47 14% 4,11 (1,16) Bonfim 50 14% 3,72 (1,37) Ramalde 48 14% 4,00 (1,16) Paranhos 47 13% 3,94 (1,03) Campanhã 30 8% 3,87 (1,04) Total 356 100% Rendimento total líquido mensal do agregado familiar Até 600€ 8 2% 3,13 (0,99) De 601€ até 1000€ 61 17% 3,77 (1,25) De 1001€ até 2500€ 142 41% 3,83 (1,24) De 2501€ até 3000€ 50 16% 4,18 (0,98) Mais de 3000€ 81 24% 3,99 (1,18) Total 342 100% Fonte: Inquérito por questionário realizado entre novembro e dezembro de 2019. Alguns estudos ( e.g., Alhasanat & Hyasat, 2011; Andereck & Vogt, 2000; Andriotis, 2004; Haralambopoulos & Pizam, 1996; Korca, 1998) concluíram que os residentes economicamente dependentes da atividade turística tinham uma perceção mais positiva em relação ao turismo. Na cidade do Porto, também se confirma esse efeito, através do teste do qui-quadrado para um nível de significância de 0,05 ( f = 12,90; p = 0,024), concluindo que a dependência económica influenciou uma perceção mais positiva em relação ao turismo. 128 perante uma “cidade oca”, “a ser completamente descaraterizada por esta onda turística que arrasta comércio e habitantes para fora da cidade”. As próximas fotografias são mais um exemplo de um espaço turistificado, correspondendo à Casa Oriental, uma antiga mercearia (Figura 26), que deu lugar a uma conserveira, “a conserveira do Porto” (Figura 27). Trata-se de um espaço que se transformou e requalificou e com o qual os residentes não se reconhecem nem identificam. Em 2009, um estendal com um lençol e a placa com a informação “Casa Oriental - chá, café e chocolate”, primeiros produtos vendidos na mercearia em 1910, marcavam a sua fachada. Em 2016 a mercearia encerrou e em 2019 reabriu, mas as suas funções em nada se relacionam com as iniciais tendo o chá, o café, o chocolate e o bacalhau dado lugar a latas de conserva e o lençol de outrora dado lugar a pequenas peças de roupa, ali postas propositadamente, com o fim de criar uma ilusão e até um certo encantamento visual à custa de uma certa tipicidade e genuinidade. Figura 26. A Casa Oriental (2009) Fonte: Google Earth Pro (recolhida em junho de 2020). 129 Figura 27. A Casa Oriental turistificada Fonte: Fotografia tirada pela autora da presente tese em novembro de 2018. Enquanto caminhava pela cidade uma senhora dizia-me, com bastante descontentamento em relação à turistificação comercial de que a cidade vinha sendo alvo: Olhe a Casa Oriental [fez uma pausa enquanto apontava para o edifício]. No dia em que fechou, no último dia (…) era pelo Natal. Fui lá buscar o último bacalhau que tinham. Esta casa tem mais de 100 anos. Fui lá buscar o bacalhau para me recordar como era, para ter uma lembrança [excerto do diário de campo, 2018]. A eliminação das funções residencial e empresarial e a sua substituição por uma função turística, consequência da exploração capitalista do espaço, foi um dos efeitos mais salientados pelos inquiridos, segundo os quais “deixa de haver espaço para os locais viverem a sua vida normalmente”. Neste sentido, um inquirido considera que “está a deixar de haver espaço para os locais viverem a sua vida normalmente. Por experiência própria, na baixa já é praticamente impossível pela escassez de habitação a longo termo e os seus preços altíssimos” (homem, 41 anos, U. F. do Centro Histórico). Deste modo, estava muito presente a ideia de que a renovação da cidade ocorre em função do turismo. Tal como é referido numa das entrevistas “se sairmos dessa área [área turística] vemos a cidade envelhecida, pouco movimento, casas comerciais fechadas (…). Um quarteirão de 130 distância faz uma diferença muito grande entre o percurso dos turistas e de um Porto envelhecido”. A par desta renovação e requalificação dos espaços, os inquiridos assumem a preocupação de que “o Porto esteja a ser completamente descaracterizado por esta onda turística” e que os espaços outrora “genuínos deixem de existir”. A proliferação de “alojamento local e hotéis por todo o lado, bem como lojinhas direcionadas a vender souvenirs ” são apontados como responsáveis pela destruição ou pela descaraterização do património, considerados um eixo da exploração capitalista do espaço. Neste sentido, tanto nas entrevistas como no inquérito por questionário, é destacada a ideia de que no Porto “está-se a estragar o património da cidade para receber turistas”. Isto verifica-se porque a regeneração assenta apenas no interesse em manter somente a fachada, acabando por destruir todo o seu interior, colocando em causa o seu valor patrimonial ao serem consumidos pelo fachadismo 18 . Um dos exemplos emblemáticos de fachadismo da cidade do Porto era o caso do Quarteirão D. João I (Figura 28) cujo interior deu lugar a uma “cratera”, mantendo-se apenas e exclusivamente a sua fachada (Figura 29). Figura 28. O Quarteirão D. João I - anterior à intervenção Fonte: Google Maps (recolhida em junho de 2018). 18 Conceito frequentemente utilizado para demostrar o processo de turistificação dos territórios e que se refere à requalificação urbana que apenas preserva as fachadas dos edifícios, reconstruindo totalmehte o seu interior. 131 Figura 29. O Quarteirão ao longo da intervenção Fonte: Rede social Facebook 19 (recolhida em junho de 2018). De modo semelhante, as próprias fachadas ganharam novas cores, em claro contraste com o resto da cidade. No nosso entendimento, e tal como se observa na seguinte figura (Figura 30), a cidade renasce sob a forma de cidade fantasia, de cidade encantada, marcada por cores, que procura representar uma certa ideia de qualidade de vida. Esta ideia está bem vincada em Peixoto (2003, p. 222) quando se refere às cores das fachadas como “uma espécie de obra de arte que representa uma ideia abstrata de qualidade de vida”. Figura 30. A uniformização do cenário Fonte: Fotografia tirada pela autora da presente tese em dezembro de 2018. 19 Imagem retirada de: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10211443421673288&set=a.1198112365031.2032712.1595183366&type=3&theater 132 Estamos diante de reconfigurações de ordem estrutural a que é sujeito o território e que são tão bem identificadas por Harvey (2001), quando se refere ao predomínio do valor estético diferencial sobre o social e também ao fetichismo , ou seja, a uma preocupação direta com as aparências superficiais que ocultam através do domínio da cultura e do gosto as distinções económicas da cidade. Do mesmo modo, o espaço público também acompanha esta aposta em espaços que proporcionem uma experiência acolhedora, confortável, de ambiente familiar, tentando transparecer e proporcionar ao turista a sensação de estar em casa, mesmo em dias de frio, com a sua manta (Figura 31). Na prática, assiste-se a uma certa apropriação, privatização e exploração do espaço outrora público, denominado frequentemente por “ esplanadização 20 ”. Figura 31. O turista em "casa" Fonte: Fotografia tirada pela autora da presente tese em dezembro de 2018. Deste modo, a rua, enquanto espaço primordial para a ocorrência de sociabilidades e interação urbana, de descanso e convívio dá lugar a um espaço de movimento incessante, exposta para o consumo do turista, recomendável, tal como referiu um inquirido para “quem quer consumi-la [mas não para quem] quer vivê-la”. No entanto é apontado, ao mesmo tempo, por um inquirido que “a este ritmo, ninguém usufrui da cidade em pleno, como é merecido”, nem mesmo os turistas. 20 Conceito associado ao processo de turistificação que remete para a ideia da proliferação de esplanadas por toda a cidade. 133 Pelas ruas da cidade, é evidente uma certa aceleração na privatização do espaço público que coloca em causa o acesso e fruição por todos os agentes sociais. Ao longo das conversas desenvolvidas ao longo da observação, a Ribeira do Porto (Figura 32) era um dos locais mais frequentemente mencionado como tendo sido devorado pelo consumo turístico, de tal modo que se tornou proibitivo ao residente que se mantém como espectador. Assim, numa destas conversas referiu-se que: A Ribeira já não é o que era, agora não presta, é só para turistas. A Ribeira já foi Ribeira, agora é só para turistas. A Ribeira já não é como antigamente, agora está mais bonita, mas não mora lá quase ninguém [Excerto do diário de campo, 2018]. Figura 32. O espaço público como sala de estar Fonte: Fotografia tirada pela autora da presente tese em janeiro de 2019. Na prática, trata-se de um processo essencialmente implícito, mas os próprios inquiridos identificaram a existência de barreiras que os separam e impedem de facto de estar ou entrar em espaços que estão, aparentemente, preparados para receber e dar prioridade aos turistas. Em mais que um restaurante já fui ignorado em detrimento de turistas, no atendimento e/ou receção. Ou seja, entrei num estabelecimento com o meu marido não fomos atendidos, mas os dois casais aparentemente não portugueses entraram depois e foram sentados em mesas. Ao falarmos com os empregados, eles ignoravam ou diziam para esperar (mulher, 34 anos, residente no Centro Histórico). 134 Deste modo, em alguns casos o acesso a estes espaços ocorre única e exclusivamente para “fins turísticos” como é o caso do “Miradouro da Vitória” (Figura 33) que apesar de ser: um espaço totalmente em ruína tornou-se, sem qualquer investimento, num local turístico. Num canto do miradouro, um senhor vendia pequenos azulejos de lembrança para os turistas enquanto estes fotografam a vista sobre o Douro e a Sé [excerto do diário de campo, 2018]. Figura 33. O acesso para turistas Fonte: Fotografia tirada pela autora da presente tese em maio de 2018. Neste miradouro e em tantos outros da cidade procura-se desfrutar da paisagem, mas acima de tudo registar o momento através da fotografia. Um desses exemplos é a ponte Luís I. Tal como tantas outras tem como principal função permitir a movimentação de pessoas de determinados lugares para outros, neste caso entre a cidade do Porto e a cidade de Vila Nova de Gaia. Porém, para além desta função, surge agora uma nova função associada à atividade turística, no que denominamos como “miradouro da Ponte Luís I”. Trata-se de um local de muita afluência de pessoas que procuram dali tirar as melhores fotografias tendo como pano de fundo o rio Douro e o casario, debruçando-se sobre a varanda para apreciar a cidade como se de um miradouro se tratasse (Figura 34). 135 Figura 34. O "miradouro" da ponte Luís I Fonte: Fotografia tirada pela autora da presente tese em dezembro de 2018. É notório o esforço em proporcionar aos turistas uma aproximação a um tempo que passou, marcado pela peculiaridade das suas gentes. Deste modo, por diversas vezes é possível observar no território uma certa “venda” e recriação dos modos de vida dos residentes, que se vêem impossibilitados de se apropriarem e acederem a estes espaços. São criados espaços ilusórios, de encenação, sem vida e, tal como referem os inquiridos, “locais que até há 10 anos eram parte da nossa vida parecem, agora, uma cenografia para experiências efémeras na lógica de parque de diversões” (mulher, 31 anos, U. F. Centro Histórico). Por esta razão, há quem considere que “corremos o risco de nos transformarmos num circo”. Neste sentido, as seguintes imagens são um retrato do parque temático em que a cidade se está a transformar. A primeira imagem (Figura 35) retrata o velho hábito, já referido anteriormente, dos residentes trazerem as suas cadeiras ou bancos para a rua. Atualmente, no lugar do banco de madeira à porta, rompido pelo seu uso, encontram-se renovados bancos, totalmente novos, que nunca saberão qual a sua verdadeira função, numa cidade que não tem quem se aproprie deles, marcada por uma velocidade que não terá mais tempo e ambiente urbano para se sentar. 136 Figura 35. A encenação da esplanada Fonte: Fotografia tirada pela autora da presente tese em janeiro de 2019. De modo semelhante, as varandas outrora marcadas pelos seus estendais foram substituídos por “legendas” que marcam um tempo em que o estendal estava no seu devido lugar. Associado a todos estes processos, observa-se uma “disneylandificação” da cidade, que prima pela fantasia e encenação (Figura 36). Figura 36. Uma cidade de legendas Fonte: Fotografia tirada pela autora da presente tese em junho de 2018. 137 Numa cidade que tem vindo a perder população residente de forma paulatina, existe o risco de estar a criar-se uma cidade sem residentes ou mesmo um parque temático. Recorrendo à teoria de Goffman (1959) sobre a “região de fachada”, podemos interpretar o que tem vindo a acontecer no Porto. Assim, o palco onde se desenrola a ação humana é a cidade e procura-se aí criar o cenário perfeito: uma cidade com edifícios antigos, mas renovados, vistas deslumbrantes, pontos de interesse diversificados, pronta para receber os espectadores. É pedido aos atores uma representação “socializada”, ou seja, que se vão moldando e modificando de forma a ajustar-se à compreensão e às expetativas dos espetadores. Neste palco, minimizam-se os “adereços” negativos e salientam-se os positivos. Cria-se uma “região de fachada” perfeita, de onde ficam ausentes os problemas urbanos - habitação, exclusão social, pobreza, toxicodependência, entre outros. O que é dado a ver é a cidade sustentável e harmoniosa, numa autorrepresentação que tanto mimetiza os traços da cidade global, moderna e turistificada, como encena os topoi da cultura tradicional e autêntica da cidade, que aguarda o olhar aprovador do turista. Há, porém, o outro lado, a “região dos bastidores”, onde se pressupõe que nenhum público penetre e onde os atores podem expressar os seus problemas sem que se ponha em causa o sucesso. O risco evidente é que se deslize para uma representação falsa, feita para impressionar e, por isso, facilmente desmascarável. Seria já o universo do simulacro, onde todos aceitam fingir que a encenação é preferível ao real. Independentemente disto, apesar de o turismo ter contribuído para a renovação e melhoria da imagem da cidade, não beneficia diretamente a população residente, que se vê limitada a certos espaços públicos e/ou a certos serviços e experimenta crescentes dificuldades financeiras em aceder às habitações renovadas. Por outro lado, o restauro e renovação destes edifícios trouxe consigo o fim da harmonia dos seus residentes, porque a ressignificação imposta do espaço “atira”, ainda que de forma implícita, as populações residentes para fora da cidade. É um movimento sub-reptício e gradual de esvaziamento das condições de vida, que incluem “muito barulho nas ruas devido a atividades e eventos destinados ao turismo”, que tornam “o descanso noturno impossível”, ou a “redução do mercado de trabalho em praticamente todas as áreas que não estejam relacionadas com trabalho precário em hotelaria e serviços relacionados”. Por isso, os inquiridos acrescentam ainda terem sido “obrigados a mudar para fora do centro ou para casas muito mais caras e com menos condições”, “processo pelo qual também me estou a preparar para passar”.