1123 DRd – Desenvolvimento Regional em debate (ISSNe 2237-9029) v. 10, p. 1123-1138, 2020. ENTIDADES DE MEDIAÇÃO E CONSTITUIÇÃO DE PARCERIAS INSTITUCIONAIS LOCAIS: UMA REFLEXÃO A PARTIR DO FAMALICÃO MADE IN, PORTUGAL ENTITIES FOR MEDIATION AND CONSTITUION OF INSTITUTIONAL PARTNERSHIPS AT LOCAL LEVEL: A REFLECTION ON THE BASIS OF FAMALICÃO MADE IN, PORTUGAL ENTIDADES DE MEDIACIÓN Y CONSTITUCIÓN DE ASOCIACIONES INSITUCIONALES LOCALES: UNA REFLEXIÓN COM BASE EN FAMALICÃO MADE IN, PORTUGAL Emília Rodrigues Araújo 1 Débora Pereira 2 RESUMO Este texto apresenta o Famalicão Made IN, criado pelo município de Vila Nova de Famalicão, situado no Norte de Portugal, com a finalidade de contribuir para a constituição de uma rede de parcerias institucionais para o desenvolvimento do concelho. Tendo por base discussões teóricas sobre a relevância das parcerias de nível regional, pretende-se descrever a génese da atual estrutura Famalicão Made IN, identificar os seus papeis principais, na perspetiva das empresas do concelho e caraterizar alguns dos seus desafios no futuro próximo, também na perspetiva das empresas. O texto considera informação recolhida através de entrevistas realizadas a 4 promotores e gestores do Famalicão Made IN e a 16 empresas da mesma área geográfica e informação, de caráter etnográfico, recolhida no âmbito do acompanhamento do projeto “Emprego de Proximidade” que foi desenvolvido pelo Famalicão Made IN durante o ano de 2019. Palavras-chave: Made IN. Parceria. Competência. Governança. Território. ABSTRACT This text focuses on the Famalicão Made IN iniciative, created by the municipality of Vila Nova de Famalicão, in northern Portugal, with the purpose of promoting partnerships for the municipality's development. Based on theoretical discussions on the relevance of regional partnerships, it is intended to describe the genesis of the current Famalicão Made IN structure, identify its main roles on the perspective of the county's companies and characterize some of 1 Doutora em Sociologia, professora auxiliar com agregação e investigadora na Universidade do Minho, Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade. Universidade do Minho. Minho. Portugal. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-3600-3310. E-mail:
[email protected] 2 Mestranda em Gestão de Recursos Humanos. Universidade do Minho/estagiária no Made IN (2019). Braga. Portugal. E-mail: debora.[email protected]om. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9365-8319 .
Entidades de mediação e constituição de parcerias institucionais locais: uma reflexão a partir do Famalicão made in, Portugal 1124 DRd – Desenvolvimento Regional em debate (ISSNe 2237-9029) v. 10, p. 1123-1138, 2020. its main challenges in the near future. The text considers information collected through interviews with 4 promoters and managers of Famalicão Made IN and 16 companies in the same geographical area and information, of an ethnographic nature, collected in the context of the project "Employment of Proximity" that was developed by Famalicão Made IN during the year 2019. Keywords: Made IN. Partnership. Competence. Governence. Territory. RESUMEN Este texto analisa el servicio Famalicáo Made IN, creado por el municipio de Vila Nova de Famalicáo, en el norte de Portugal, con el propósito de promover una red de asociaciones institucionales involucradas en lo desarrollo del municipio. Baseado en los debates teóricos sobre la pertinencia de las asociaciones regionales, se pretende describir la génesis de la actual estructura Famalicão Made IN, identificar sus principales papeles desde la perspectiva de las empresas del condado y caracterizar algunos de sus principales desafíos en un futuro próximo. El texto considera información recopilada a través de entrevistas con 4 promotores y gerentes de Famalico Made IN y 16 empresas en la misma zona geográfica y información, de carácter etnográfico, recopilada en el contexto del seguimiento del proyecto "Empleo de Proximidad" que fue desarrollado por Famalico Made IN durante el año 2019. Palavras clave: Made IN. Asociación. Competencia. Gobernanza. Territorio. Como citar este artigo: ARAÚJO, Emília Rodrigues; PEREIRA, Débora. Entidades de mediação e constituição de parcerias institucionais locais: uma reflexão a partir do Famalicão made in, Portugal. DRd - Desenvolvimento Regional em debate, v. 10, p. 1123-1138, 17 set. 2020. DOI: https://doi.org/10.24302/drd.v10i0.2918 Artigo recebido em: 11/06/2020 Artigo aprovado em: 02/09/2020 Artigo publicado em: 17/09/2020
Emília Rodrigues Araújo; Débora Pereira 1125 DRd – Desenvolvimento Regional em debate (ISSNe 2237-9029) v. 10, p. 1123-1138, 2020. 1 INTRODUÇÃO O Famalicão Made IN foi criado pela Camara Municipal de Vila Nova de Famalicão 3 e dedica-se oficialmente a fomentar as parcerias interinstitucionais, nomeadamente entre empresas, escolas e centros de formação, universidades e outras organizações do concelho, articulando-se, na sua ação, com outros níveis de governação territorial, como as Comissões Intermunicipais (CIM). Na sua génese, o Famalicão Made IN apresenta-se à comunidade como um tipo especial de estrutura que faz a mediação entre interesses privados e os objetivos públicos concertados por via da eleição. O Made IN foi oficialmente constituído em 2013 e resultou da Rede Social do concelho que se consolidou a partir dos anos noventa agregando o trabalho colaborativo e interdependente entre várias instituições, entre as quais as IPSS, universidades e centros de formação, escolas vários órgãos da administração central indireta (Centros de Emprego e Instituto de Segurança Social); e órgãos da administração local – para além da câmara Municipal, as juntas de freguesia e as CSIFcomissões sociais interfreguesias que coordenam e representam, por norma, três freguesias. Em termos oficiais, o Famalicão Made IN assume-se hoje como um serviço que tem como grandes objetivos divulgar o concelho, captar investimento e promover o autoemprego na região, através da constituição, manutenção e reforço constante de parcerias interinstitucionais que são formalmente envolvidas em diversas atividades através de um protocolo de cooperação. Entre outras ações desenvolvidas pelo Famalicão Made IN nos últimos dois anos, contam-se iniciativas que visam consolidar ligações com e entre as empresas do concelho através da identificação das necessidades de formação e das estratégias tendentes à sua resolução, principalmente em áreas mais características dos setores de atividade do concelho, entre as quais a têxtil, a metalomecânica e a indústria das carnes. Este texto parte da análise da avaliação que os promotores e os empresários fazem do serviço Famalicão Made IN e intenta explorar o interesse estratégico deste tipo de entidades que, no seio das autarquias locais, se dedicam à promoção de parcerias institucionais em matérias que interessam ao desenvolvimento territorial. Com efeito, a propósito dos desafios à implementação de uma governança efetiva do território e com base em outros estudos, Castro et al. (2008, p. 14) afirma que se uma boa governança pressupõe a obtenção de compromissos (mais do que consensos), para viabilizar soluções coletivas, à administração é exigida “[...] uma capacidade de mediação no sentido de ponderar a diversidade de interesses dos vários sectores da sociedade, à luz de um bem comum”. No seguimento de várias destas orientações de política, as autarquias locais têm criado ao longo dos últimos anos serviços destinados a promover e a reforçar a mediação e a interação interinstitucionais sobre questões de inovação e empreendedorismo. Estas parcerias envolvem várias outras instituições, incluindo as empresas e entidades de educação e formação, foco de análise de diversa literatura que tem destacado o papel das parcerias e das redes na prossecução de projetos de desenvolvimento adequado aos 3 Vila Nova de Famalicão é um concelho situado a Norte de Portugal, com 131.824 habitantes e cujos principais setores de atuação incluem indústrias têxtil, automóvel e componentes, metalurgia, construção civil e agroalimentar. Está situado na região do Vale do Ave, região Norte de Portugal. Esta região, juntamente com Aveiro (centro), concentra os valores mais elevados do índice de industrialização em Portugal (GAMA, 2019). Com 131.824 habitantes, o município, de acordo com a Pordata, tem um peso de 41,7% no volume de negócios de empresas da NUT III.
Entidades de mediação e constituição de parcerias institucionais locais: uma reflexão a partir do Famalicão made in, Portugal 1126 DRd – Desenvolvimento Regional em debate (ISSNe 2237-9029) v. 10, p. 1123-1138, 2020. territórios (COOKE E MORGAN, 1993, COE, 2004, FARINÓS, 2008; CARAYANNIS e CAMPBELL, 2017, CARNEIRO e FREY, 2018, LOPES; FRANCO, 2019). Em face da expansão dos serviços diretamente promovidos pelas autarquias locais com a finalidade de tecer as redes de parceria e conjugar a ação política, com o conhecimento aprofundado do território, importa entender mais detalhadamente, não só a génese desses serviços de mediação, mas também a avaliação que os próprios parceiros e, nomeadamente, as empresas, fazem da ação desses serviços no agenciamento das redes de colaboração e de parceria. Com efeito, se a governação a nível local aparece como sendo cada vez mais importante na definição de estratégias de desenvolvimento condizentes com as necessidades das populações, e tal como preconiza Bilhim (2004, p. 88), [...] o problema que se coloca é o de estudar as ‘condições’ locais dos municípios para essa intervenção, as políticas definidas e as ações encetadas, verificando se assumem um papel ‘passivo’ e ‘dependente do exterior’, ou se pelo contrário, ainda que ‘dependentes do exterior’, assumem um papel ativo no desenvolvimento local. Na senda da tese proposta por este autor, o texto centra-se no caso do Famalicão Made IN, assumindo tratar-se de uma destas ações de caráter interventivo desenvolvido pela autarquia, no sentido de criar sinergias institucionais e, ao mesmo tempo, incrementar a proximidade e gerar mecanismos que facilitam a participação das populações nas tomadas de decisão. Sendo um serviço dedicado ao estabelecimento de colaborações e redes interinstitucionais, incluindo as relações entre empresas e universidades, importa saber que avaliação fazem os promotores da iniciativa e que barreiras identificam na sua prossecução. Importa também identificar de que modo as empresas, enquanto parceiras, avaliam o serviço e a sua própria participação no mesmo. A análise desta informação permitirá estabelecer algumas conclusões acerca dos projetos de mediação interinstitucional de base regional, bem como das barreiras e estratégias potenciais de envolvimento das empresas em redes de colaboração geridas /ou incentivadas pelas autarquias locais. Nesse alinhamento, o artigo identifica e compara as perceções e expetativas dos promotores com as perceções das empresas sobre o Famalicão Made IN, considerando 6 dimensões principais: i) grau de inovação; ii) grau de orientação política; iii) qualidade no fornecimento de informação às empresas; iv) grau de promoção de relações entre empresas e instituições de ensino e formação; v) tipo e forma de apoio no desenvolvimento de I&D e vi) grau de resolução de problemas de formação e competências, tal como experimentados pelas próprias empresas. O texto está dividido em cinco secções. Na primeira, estabelecem-se os grandes alinhamentos teóricos que permitem entender o interesse em analisar e discutir aa relevância das autarquias estarem envolvidas na gestão de parcerias a nível regional, particularmente envolvendo empresas. No segundo ponto, apresentamos a metodologia seguida no estudo empírico sobre o Famalicão Made IN e que envolveu entrevistas a empresários do concelho. Após a apresentação dos resultados realizada mediante as dimensões de análise estabelecidas, apresentamos no ultimo ponto as principais conclusões.
Emília Rodrigues Araújo; Débora Pereira 1127 DRd – Desenvolvimento Regional em debate (ISSNe 2237-9029) v. 10, p. 1123-1138, 2020. 2 REVISÃO DA LITERATURA A dimensão regional e territorial do desenvolvimento tem suscitado atenção crescente por parte de investigadores e agentes no terreno (FARINÓS, 2008; PEREIRA, 2013; 2014; BRANDÃO, 2014). Tem sido fomentada a discussão sobre os territórios, suas qualidades e capacidades de resiliência e sustentação e a importância da governação multinível (PEREIRA, 2014, SANTOS; BERNARDY, 2019) propondo-se que o desenvolvimento contemple as singularidades que os caraterizam e que resulte de uma ação colaborativa entre parceiros públicos e privados. Segundo Bilhim (2004, p.83), cuja linha de argumentação segue reflexões de Giddens (1997), é cada vez mais importante que as ações politicas estejam alinhadas pelo paradigma da territorialidade, “em que a intervenção municipal no desenvolvimento local tem maior importância”. Esta ideia é particularmente importante para o caso dos países com um sistema de administração bastante central, sem regiões ou estados, como Portugal. Neste sentido, sugere-se que o papel ativo das autarquias locais na construção das parcerias é muito importante, uma vez que estas, conhecendo os territórios a diversos níveis de atuação (e inclusivamente a nível micro - o da freguesia), podem desencadear ações, de forma mais direta e rápida nos territórios. Por exemplo, a literatura sobre a governança territorial e o papel da comunicação no estabelecimento de redes de colaboração, considera que as instituições de ensino são decisivas para o desenvolvimento regional de tipo integrado, desde que seja possível contar com os seus outputs, sob a forma de graduados e diplomados, ou sob a forma de I&D e inovação desenvolvida em estrita colaboração com as empresas do território e com potencial (CVECIC et al., 2019), onde se integram as autarquias locais. No entanto, para que as redes se constituam e se mantenham é exigido um trabalho constante de mediação, para o qual as próprias instituições não estão sempre preparadas, exigindo a promoção de iniciativas orientadas para a aproximação interinstitucional a vários níveis. As teorias da triple Helix (ETZKOWITZ, 2002, 2008; MATA, 2008; 2015, PFOTENHAUER et al, 2011, HEITOR, 2015) preconizam a necessidade de articular, em prol do território, os interesses e as ações dos governos, com as empresas e as instituições de ensino. Mas as teorias da quadrupla e quíntupla Helix (CARAYANNIS; CAMPBELL, 2017) vão mais longe e afirmam a necessidade de a governança estar baseada na articulação de 5 vértices principais que implicam múltiplas instituições, além das mencionadas no modelo anterior e orientadas para a promoção da liberdade, igualdade, controlo e desenvolvimento sustentável e na relação entre as quais se subentendem as relações de colaboração e parceria. Os estudos realizados sobre a governação multinível (PEREIRA, 2013, 2014; SANTOS; BERNARDY, 2019) e colaborativa, demonstram as vantagens e também os pontos mais críticos das parcerias locais para o desenvolvimento, por implicarem “[...] trabalho a longo prazo, compromisso coletivo, partilha de recursos e de poder, formas de comunicação e de relacionamento multidirecionais” (PEREIRA, 2014, p. 9). Diversas pesquisas têm apontado no sentido do reforço destas colaborações, por considerarem que oferecem um modelo de governação que permite conjugar os interesses e racionalizar os recursos das diversas instituições envolvidas que, assim, cooperam para a concretização de objetivos comuns, direcionados para o desenvolvimento económico e social (ALVES, 2010; PEREIRA, 2013). Na linha de Pecqueur (2005), entende-se que as metodologias colaborativas sejam produto do que designa a “ação pública” estabelecida em consonância com formas diversas de regulação que ultrapassam a ação do Estado:
Entidades de mediação e constituição de parcerias institucionais locais: uma reflexão a partir do Famalicão made in, Portugal 1128 DRd – Desenvolvimento Regional em debate (ISSNe 2237-9029) v. 10, p. 1123-1138, 2020. A ação pública territorial pode revestir formas muito diversas. Podemos identificá-las com o que os cientistas políticos chamaram de “governança”. Na sua forma de regulação local, poderíamos defini-la como um modelo de coordenação entre atores que visa integrar os mecanismos produtivos e institucionais nas dimensões locais (proximidade geográfica e proximidade organizacional) e na relação ao global (PECQUEUR, 2005, p. 20). A literatura é extensa e diversa no que concerne aos argumentos sobre vantagens, dificuldades e impactos da constituição de redes de colaboração, envolvendo entidades públicas e privadas, incluindo empresas (SEIXAS, 2012; DIAS e SEIXAS, 2017). Todavia, na globalidade, enfatiza os impactos positivos da promoção de redes, tanto a nível local, como internacional e num quadro de atuação que se afigura crescentemente complexo (COOKE; MORGAN, 1993; 1993, COE, 2004, CARAYANNIS; CAMPBELL, 2006, SOTARAUTA, 2010, CARAYANNIS; CAMPBELL, 2017, ARNEIRO; FREY, 2018, LOPES; FRANCO, 2019). Uma das questões que merece destaque e para a qual MacDonald chama atenção prendese não tanto com a necessidade e o interesse das redes de colaboração, mas com os mecanismos que efetivamente as tornam eficazes (MACDONALD, 2016) e com o modo como são percebidas e avaliadas pelos próprios parceiros que as integram. Por isso, o objetivo especifico deste texto consiste em avaliar as perceções dos promotores, bem como das empresas sobre o trabalho que o Famalicão Made IN desenvolve na construção das redes de colaboração e que são instigadas a participar nas iniciativas e a integrarem redes de colaboração formal e informal no concelho, por via do Made IN. 3 METODOLOGIA O texto resulta de um percurso investigativo realizado entre maio de 2019 e junho de 2020 e que implicou a estadia de uma das autoras na sede do serviço Famalicão MadeIN, entre março e junho de 2019. Esta pesquisa foi desenvolvida através de metodologia qualitativa que incluiu o recurso a: i) observação direta, realizada pela investigadora no espaço físico do MadeIn, com recurso a diário de bordo e recolha de informação documental e entrevistas realizadas aos responsáveis e promotores principais do MadeIN; ii) entrevistas a empresários e/ou diretores de recursos humanos de empresas do concelho selecionadas a partir de uma base de dados de grandes e médias empresas seguindo o procedimento de amostragem teórica; e iii) observação dos grupos de discussão promovidos pelo Famalicão MadeIN em parceria com outras entidades que juntaram empresários e entidades de educação e formação, ao longo do ano 2019, em vários lugares do concelho. A pesquisa foi inserta num projeto de investigação mais amplo, orientado para a identificação das estratégias que as entidades de educação e formação e empregadores desenvolvem, no sentido de resolver o problema do desajuste de competências oferecidas e procuradas. A opção pela amostragem teórica foi justificada atendendo à originalidade do tema em estudo e à necessidade de aceder às perceções e avaliações de empresários ou diretores de recursos humanos tanto de grandes, como médias empresas em todos os setores de atividade, localizados em vários locais do concelho. Este método de seleção contém várias limitações, no que respeita à generalização dos resultados. No entanto, possibilita ao investigador pensar e delimitar o objeto empírico, de forma a potenciar o debate da problemática teórica contando
Emília Rodrigues Araújo; Débora Pereira 1129 DRd – Desenvolvimento Regional em debate (ISSNe 2237-9029) v. 10, p. 1123-1138, 2020. com a necessidade de explorar a diversidade de situações e de casos e de considerar a saturação da informação, no que respeita às dimensões em estudo (assinaladas abaixo). As entrevistas aos empresários ou diretores de recursos humanos foram realizadas mediante um guião semiestruturado contemplando um leque alargado de questões sobre: política de recrutamento; avaliação sobre a formação dos graduados; soluções/sugestões para os problemas das competências; ligações com ES; políticas de formação e avaliação do Made IN. No total foram realizadas 16 entrevistas, que depois de transcritas, foram analisadas mediante o procedimento de análise temática de conteúdo, tendo em conta as dimensões enunciadas. Para o propósito deste texto, tivemos em conta apenas a análise de informação relativa à avaliação do Made IN relativamente a: i) grau de inovação da iniciativa; ii) grau de orientação política da iniciativa; iii) qualidade no fornecimento de informação às empresas; iv) promoção de relações entre empresas e instituições de ensino e formação; v) apoio no desenvolvimento de I&D e vi) resolução de problemas de formação e competências, tal como experimentados pelas próprias empresas.A amostra (quadro 1) compreende empresas com características diferentes em termos de dimensão e anos de atividade e que operam nos sectores mais representativos da economia das regiões (nomeadamente têxtil, metalurgia e comércio), o que é como vimos na sua maioria com base na indústria. Todas as empresas têm vindo a recrutar pessoas para cargos de licenciatura e não-graduação nos últimos 3 anos. Tabela 1 – Caraterísticas das empresas entrevistadas Empresa Ano Número de colaboradores Tipo de industria F1 1950 200 Têxtil F2 2003 30 Industria de revestimentos F3 1995 160 Têxtil F4 2008 50 Têxtil F5 1973 656 Industria de componentes eletrónicos F6 1970 140 Têxtil F7 1961 753 Agroalimentar F8 1927 1131 Têxtil F9 1993 2154 Metalurgia F10 1993 63 Metalurgia F11 1981 67 Metalurgia F12 2011 38 Têxtil F13 1999 72 Metalurgia F14 1937 1216 Têxtil F15 1988 2672 Têxtil F16 1942 230 Agroalimentar Fonte: Elaboração própria Adicionalmente, incluímos no texto os resultados provenientes da observação etnográfica que os autores realizaram no decurso do projeto “emprego de proximidade”, tal como implementado pelo Famalicão Made IN, durante o ano de 2019. Este projeto consistiu na
Entidades de mediação e constituição de parcerias institucionais locais: uma reflexão a partir do Famalicão made in, Portugal 1130 DRd – Desenvolvimento Regional em debate (ISSNe 2237-9029) v. 10, p. 1123-1138, 2020. organização de um conjunto de 5 reuniões nas sedes das CSIF, ou seja, comissões sociais inter freguesias, que estabelecem a relação entre um conjunto de 2 a 3 freguesias no concelho e que coordenam e atuam, sobretudo, em matéria relacionada com a ação social junto das populações. Estas reuniões foram organizadas pelo Famalicão Made IN, no sentido de dar a conhecer as iniciativas desenvolvidas pela autarquia no domínio do emprego e da formação e de auscultar os empresários – sobretudo pequenos e médios empresáriossobre as suas principais necessidades, principalmente na área da formação e da promoção do emprego; assim como centros de formação e escolas acerca das suas estratégias de desenvolvimento de competências. Acompanhámos ao longo do ano 2019 estas 5 reuniões e, nesse percurso, registámos toda a informação dos debates e das discussões em caderno diário, usado depois, para classificar a informação e sistematizar os resultados, principalmente no que se refere a uma dimensão central: a avaliação feita pelos empresários e pelos diretores e representantes dos centros de formação acerca do perfil mediador do Famalicão Made IN, considerando as mesmas dimensões usadas na análise das entrevistas: empresas e instituições de ensino e formação; v)apoio no desenvolvimento de I&D e vi) resolução de problemas de formação e competências, tal como experimentados pelas próprias empresas. Além de empresários, estas reuniões contaram também com a presença de diretores de escolas e de centros de formação da localidade respetiva. Tabela 2 – Reuniões realizadas no âmbito do projeto “Emprego de proximidade” (2019) Fonte: Elaboração própria. *CSIF (Comissão Social Inter freguesia) 4 RESULTADOS 4.1 FAMALICÃO MADE IN NA PERPECTIVA DOS PROMOTORES Na perspetiva dos promotores do Made IN entrevistados, esta estrutura é um serviço público de mediação que atua, fundamentalmente, na consolidação da comunicação para a governança territorial. Os promotores referem-se ao Made In como uma entidade inovadora, uma “marca” que serviu o propósito de criar imagens positivas do concelho e da região do Vale do Ave acrescentando que: “hoje, as pessoas, as escolas, as universidades, toda a gente sabe quais são os setores fortes do concelho: têxtil, metalomecânica, agroalimentar e o automóvel” (Entrevista responsável Made IN 4). Março Abril Maio Junho 20/03 21h 23/04 21h 8/05 21h 23/05 21h 3/06 21h CSIF Bairro, Carreira, Bente, Delães Ruivães, Novais CSIF Lousado, Esmeriz e Cabeçudos CSIF Joane, Mogege, Pousada de Saramagos e Vermoim CSIF Cruz, Vale de São Cosme, Telhado, Portela, Vale de São Martinho e Requião CSIF Fradelos, Ribeirão, Vilarinho das Cambas
Emília Rodrigues Araújo; Débora Pereira 1131 DRd – Desenvolvimento Regional em debate (ISSNe 2237-9029) v. 10, p. 1123-1138, 2020. Em geral, os promotores enfatizam a forma como a estrutura do Made In permite à autarquia estar mais ao corrente das especificidades de cada setor de atividade e gerar sinergias entre várias instituições do concelho, nomeadamente, empresas, escolas, universidades, centros tecnológicos, associações empresariais, ao criar: “grupos de empreendedorismo da área tecnológica, um grupo de agricultura e agroalimentar, um grupo para a inovação social e um grupo para a educação e empreendedorismo que é basicamente com as escolas” (Entrevista responsável Made IN 4). Todos estes grupos definem o plano global e, depois, cada um define atividades parcelares. Em termos práticos, o grupo de inovação tecnológica desenvolve missões tecnológicas às empresas, para dar a conhecer novas infraestruturas tecnológicas e as novidades em termos de inovação das empresas. Por exemplo, o grupo de agricultura e agroalimentar envolve-se na promoção de formação profissional e no desenvolvimento de mercados biológicos, que escoam as produções próprias do concelho para “valorizar o produto local, os produtos endógenos” e “trazer para o mercado o produto regional e o produto local… (…). Entre outras, foi recentemente criada a marca bio capital, muito na lógica dos produtos biológicos, valorizar os produtos biológicos, os produtos endógenos conforme disse, e, portanto, é essa a lógica…” (Entrevista responsável Made IN 4). Neste momento, os promotores reconhecem que o Made IN é um projeto político da camara municipal, que se tornou num “ecossistema” que agrega interesses e parceiros diversificados. Os responsáveis pelo Famalicão Made IN entrevistados entendem que o facto de o território ser composto por empresas pequenas e médias, que atuam de forma mais individualizada e que tem mais dificuldade de dispor de meios de acesso a informação relevante requer um grau mais intenso de cooperação, justifica aquela necessidade de constituir entidades essencialmente dedicadas à construção de parcerias – a “essência” do Famalicao Made IN, tal como se encontra clarificado no excerto seguinte em que o entrevistado se refere à promoção de parcerias entre empresas e centros de I&D, nas Universidades: A nossa indústria é constituída na grande maioria por pequenas e médias empresas, portanto, também será utópico pensar que agora as nossas pequenas e médias empresas vão ter todas um departamento de investigação e desenvolvimento. […] Agora, faz algum sentido de facto haver aqui alguma cooperação e não só na área de investigação e desenvolvimento, na área da engenharia, mas também na área do marketing etc. (Entrevista responsável Made IN 4). Os entrevistados declaram que o Famalicão Made IN, enquanto entidade promotora e agregadora de parcerias, tem-se centrado em duas grandes ações relevantes para a definição de ações politicas em matéria de desenvolvimento territorial relacionadas mais especificamente com a formação e o emprego: 1. Facilitar o diagnóstico de necessidades de formação no concelho, através da promoção da colaboração de outras instituições que integram as politicas nacionais para o ensino e a formação, nomeadamente do centro QUALIFICA e que integram níveis de administração autárquica intermédios, como a Comissão Intermunicipal do Ave. 2. Incrementar a formação profissional junto de centros de formação acreditados, colocando em diálogo os centros de emprego, os referidos centros de formação e escolas de formação profissional (tais como CITEVE, CIOR; FORAVE) e as
Entidades de mediação e constituição de parcerias institucionais locais: uma reflexão a partir do Famalicão made in, Portugal 1138 DRd – Desenvolvimento Regional em debate (ISSNe 2237-9029) v. 10, p. 1123-1138, 2020. HEITOR, M. How university global partnerships may facilitate a new era of international affairs and foster political and economic relations. Technological Forecasting and Social Change, n. 95, p. 276–293, 2015. LOPES, J. ; FRANCO, M. Review About Regional Development Networks: an Ecosystem Model Proposal. Journal of the Knowledge Economy, Springer, v. 10, n. 1, p. 275-297, 2019. MACDONALD, A. Multi-stakeholder partnerships for community sustainability planimplementation: understanding structures and outcomes at the partner and partnership levels. 2016. Tese (Doutorado) em Social and Ecological Sustainability - University of Waterloo, Canadá, 2016. PECQUER, E. O desenvolvimento territorial: uma nova abordagem dos processos de desenvolvimento para as economias do sul. Raízes, v. 24, n. 01 e 02, p. 10–22, jan./dez. 2005. PEREIRA, M. Da governança a governança territorial colaborativa: uma agenda para o futuro do Desenvolvimento Regional. DRd - Desenvolvimento Regional em debate, v. 3, n. 2, p. 52-65, 2013. PEREIRA, M. Governança territorial multinível: fratura(s) entre teoria e prática(s). DRd - Desenvolvimento Regional em debate, v. 4, n. 2, p. 4-20, 2014. PFOTENHAUER, S. M.; JACOBS, J.; PERTUZE, J. A. Orienting engineering education towards innovation, entrepreneurism, and industry partnerships the case of the MIT-Portugal Program. ASEE Annual Conference and Exposition, Conference Proceedings, 2011. SANTOS, M. BERNARDY, R. J. A formação de redes interorganizacionais para o desenvolvimento regional. DRd - Desenvolvimento Regional em debate, v. 9, p. 140-159, 2019. SEIXAS, P. Políticas e modelos de desenvolvimento territorial na Europa e em Portugal. Revista Paranaense de Desenvolvimento, n. 122, p. 147-175, Jan-Jul de 2012. Disponível em: http://www.ipardes.pr.gov.br/ojs/index.php/revistaparanaense SOTARAUTA, M. Regional Development and Regional Networks: The Role of Regional Development Officers in Finland. European Urban and Regional Studies, v. 17, n. 4, p. 387–400, 2010.