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Avaliação do impacto da gaivota-de-patas-amarelas (Larus michahellis) no sucesso reprodutor de cagarra (Calonectris borealis) e roque-de-castro (Hydrobates castro) do Farilhão

Abreu, Patrícia Sofia Carvalhal

Abstract

A predação limita o sucesso reprodutor de muitas aves marinhas coloniais sendo um fator importante no declínio de várias espécies. Algumas das características que tornam as aves marinhas mais vulneráveis a predadores são: crescimento moroso até atingirem a maturidade sexual, reduzidas taxas de produção de ovos e crias com crescimento lento que as leva a permanecerem por longos períodos no ninho. No arquipélago das Berlengas, a colónia de gaivotas-de-patas-amarelas Larus michahellis é uma das maiores da Europa e entre 1983 e 1994 a população quadruplicou devido à natureza adaptável, oportunista e gregária destas bem como as condições favoráveis à nidificação que o local proporciona. A superpopulação originou taxas de predação desproporcionais nos locais onde coexistem com pequenos Procellariiformes e outras aves marinhas. No presente trabalho analisou-se o impacte da gaivota-de-patas-amarelas no sucesso de nidificação de roque-de-castro Hydrobates castro e cagarra Calonectris borealis e o efeito da instalação de ninhos artificiais como medida de diminuição deste impacte no Farilhão Grande, arquipélago das Berlengas. Tendo em conta os dados recolhidos ao longo dos últimos anos pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) foi possível demonstrar uma relação desfavorável entre a predação e o sucesso reprodutor e sobrevivência da população de cagarra. Relativamente ao roque-de-castro não foi detetada influência direta no sucesso reprodutor, embora se tenha verificado predação sobre adultos desta espécie.

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Universidade do Minho Escola de Ciências Patrícia Sofia Carvalhal Abreu julho 2021 Avaliação do impacto da gaivota-de-patas-amarelas (Larus michahellis) no sucesso reprodutor de cagarra (Calonectris borealis) e roque-de-castro (Hydrobates castro) do Farilhão Patrícia Sofia Carvalhal Abreu Avaliação do impacto da gaivota-de-patas-amarelas (Larus michahellis) no sucesso reprodutor de cagarra (Calonectris borealis) e roque-de-castro (Hydrobates castro) do Farilhão UMinho|2021 Universidade do Minho Escola de Ciências Patrícia Sofia Carvalhal Abreu julho 2021 Avaliação do impacto da gaivota-de-patas-amarelas (Larus michahellis) no sucesso reprodutor de cagarra (Calonectris borealis) e roque-de-castro (Hydrobates castro) do Farilhão Trabalho efetuado sob a orientação do Doutor Domingos Leitão e da Professora Doutora Fernanda Cássio Dissertação de Mestrado Mestrado em Ecologia ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Atribuição-Não Comercial-Sem Derivações CC BY-NC-ND https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/ iii AGRADECIMENTOS À Sociedade Portuguesa para o Estudos das Aves (SPEA), pela oportunidade de trabalhar na instituição, por me terem recebido de braços abertos e tratado como se estivesse em casa. Ao Nuno Oliveira, que me ajudou a desbravar caminhos e me forneceu ajuda e suporte em todas as fases do estudo. À Professora Doutora Fernanda Cássio e Doutor Domingos Leitão, orientadores desta dissertação. À Isabel Fagundes, às voluntárias da SPEA, aos vigilantes da Natureza, aos faroleiros e cão Farol, pelos bons e inesquecíveis momentos no arquipélago das Berlengas, durante o trabalho de campo. À mãe, musa, inspiração, força e companheira em todos os momentos da minha vida. À avó Céu pela preocupação e carinho constante. Ao Carlos Fragoso, admirado e estimado por mim, ajudou a transpor os meus pensamentos em palavras. À Mafalda, a minha “little sis” por me ter ouvido e aconselhado quando mais precisei. Ao pai, por ter sempre acreditado no meu potencial e nas minhas capacidades. À Bá, por me ter motivado nos momentos de desistência. A todos os amigos que me ajudaram a ter paz e calma nos momentos de desassossego. Obrigada por terem acreditado em mim. iv DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. v AVALIAÇÃO DO IMPACTO DA GAIVOTA-DE-PATAS-AMARELAS ( LARUS MICHAHELLIS ) NO SUCESSO REPRODUTOR DE CAGARRA ( CALONECTRIS BOREALIS ) E ROQUE-DE-CASTRO ( HYDROBATES CASTRO ) DO FARILHÃO RESUMO A predação limita o sucesso reprodutor de muitas aves marinhas coloniais sendo um fator importante no declínio de várias espécies. Algumas das características que tornam as aves marinhas mais vulneráveis a predadores são: crescimento moroso até atingirem a maturidade sexual, reduzidas taxas de produção de ovos e crias com crescimento lento que as leva a permanecerem por longos períodos no ninho. No arquipélago das Berlengas, a colónia de gaivotas-de-patas-amarelas Larus michahellis é uma das maiores da Europa e entre 1983 e 1994 a população quadruplicou devido à natureza adaptável, oportunista e gregária destas bem como as condições favoráveis à nidificação que o local proporciona. A superpopulação originou taxas de predação desproporcionais nos locais onde coexistem com pequenos Procellariiformes e outras aves marinhas. No presente trabalho analisou-se o impacte da gaivota-de-patas-amarelas no sucesso de nidificação de roque-de-castro Hydrobates castro e cagarra Calonectris borealis e o efeito da instalação de ninhos artificiais como medida de diminuição deste impacte no Farilhão Grande, arquipélago das Berlengas. Tendo em conta os dados recolhidos ao longo dos últimos anos pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) foi possível demonstrar uma relação desfavorável entre a predação e o sucesso reprodutor e sobrevivência da população de cagarra. Relativamente ao roque-de-castro não foi detetada influência direta no sucesso reprodutor, embora se tenha verificado predação sobre adultos desta espécie. PALAVRAS-CHAVE aves marinhas; Berlengas; captura-marcação-recaptura; ninhos artificiais; predação vi EVALUATION OF YELLOW-LEGGED GULL ( LARUS MICHAHELLIS ) IMPACT ON CORY’S SHEARWATER ( CALONECTRIS BOREALIS ) AND BAND-RUMPED STORM-PETREL ( HYDROBATES CASTRO ) BREEDING SUCCESS AT FARILHÃO ABSTRACT Predation limits the breeding success of many colonial seabirds by being an important factor in the decline of several species. Some of the characteristics that make seabirds more vulnerable to predators are slow growth until they reach sexual maturity, reduced egg production rates and slow growing offspring that stays in nest for a long time. In Berlengas archipelago, the colony of yellow-legged gull Larus michahellis is one of the largest in Europe and between 1983 and 1994 the population quadrupled due to the adaptable, opportunistic and gregarious nature as well as the favorable conditions that this place offers for breeding. Overpopulation has led to disproportionate predation rates in places where they coexist with small Procellariiformes and other seabirds. In the present work was analyzed the impact of the yellow-legged gull on breeding success and population survival of band-rumped storm-petrel Hydrobates castro and cory shearwater Calonectris borealis and the effect of artificial nests installation as a measure to reduce this impact in Farilhão Grande, Berlengas archipelago. Considering the data collected over the last few years by Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) it was possible to demonstrate an unfavorable relationship between predation and the breeding success and the survival of the cory’s shearwater population. Regarding band-rumped storm-petrel no direct influence on breeding success was detected, however, predation on adults of this specie was verified. KEYWORDS artificial nests; Berlengas; capture-mark-recapture; predation; seabirds vii ÍNDICE Agradecimentos .................................................................................................................................. iii Resumo............................................................................................................................................... v Abstract.............................................................................................................................................. vi Índice ................................................................................................................................................ vii Índice de Figuras .............................................................................................................................. viii Índice de Tabelas ............................................................................................................................... ix 1 Introdução ..................................................................................................................................... 1 2 Materiais e Métodos ...................................................................................................................... 6 2.1 Local de estudo ........................................................................................................................ 6 2.2 Avaliação das populações de cagarra e roque-de-castro no Farilhão Grande ............................... 8 2.3 Monitorização dos ninhos ....................................................................................................... 10 2.4 Ninhos artificiais e ninhos naturais .......................................................................................... 12 2.4.1 Construção dos ninhos artificiais ..................................................................................... 12 2.4.2 Monitorização e análise de dados .................................................................................... 14 2.5 Ninhos naturais protegidos e ninhos expostos ......................................................................... 15 3 Resultados e Discussão ............................................................................................................... 16 3.1 Evolução populacional e sobrevivência .................................................................................... 16 3.1.1 Caso da cagarra .............................................................................................................. 16 3.1.2 Caso do roque-de-castro .................................................................................................. 17 3.2 Sucesso reprodutor e taxa de predação ................................................................................... 18 3.3 Sucesso reprodutor em ninhos artificiais e ninhos naturais ...................................................... 20 3.4 Sucesso reprodutor da cagarra em ninhos protegidos e expostos............................................. 22 3.5 Ninhos artificiais como medida de conservação? ..................................................................... 23 4 Conclusões .................................................................................................................................. 28 5 Bibliografia .................................................................................................................................. 31 6 Anexos ........................................................................................................................................ 36 Avaliação do impacto da gaivota-de-patas-amarelas ( Larus michahellis ) no sucesso reprodutor de cagarra ( Calonectris borealis ) e roque-de-castro ( Hydrobates castro ) do Farilhão 5 em populações de aves marinhas resultante da mortalidade induzida pelo homem ou de causas naturais poderá retardar a recuperação das colónias, por predação de ovos e crias por parte de aves predadoras (Gilchrist, 1999). Podemos estar perante uma progressiva extinção de pares reprodutores, ou seja, uma tendência negativa, num certo local, o que pode afetar a dispersão de populações. As aves, quando detetam a dispersão da sua colónia, podem entender que há uma perda de qualidade da área de nidificação, podendo abandonar os ovos/crias. Como consequência, as suas possibilidades de reprodução diminuem, levando assim a uma progressiva extinção local (Martínez-Abraín et al., 2003). Uma das ações de conservação desenvolvidas para a recuperação de populações de Procellariiformes em áreas de reprodução inclui a melhoria do habitat de nidificação através da colocação de ninhos artificiais (Carlile et al., 2003; Sanz-Aguilar et al., 2009). Estes oferecem melhores condições para a nidificação do que os ninhos naturais em termos de isolamento térmico e humidade, contra fortes chuvas e proteção contra grandes predadores. Essas estruturas apresentam, também, facilidade de acesso ao interior para fins de manuseio de adultos, ovos e crias, facilitando a implementação de estudos de longo prazo sobre diversos aspetos da biologia, ecologia e comportamento das aves marinhas. Vários estudos usaram essas estruturas nas suas pesquisas, mas o potencial dos ninhos artificiais como medida de conservação permanece incerto (Williams et al., 2012). Na ilha da Berlenga têm sido construídos ninhos artificiais, desde o final dos anos 80, para favorecer a reprodução da cagarra, tendo esta medida mostrado ser bem sucedida na conservação da população desta espécie (Lecoq et al., 2010). Assim, é expectável que a instalação destas estruturas no Farilhão Grande contribua de modo relevante para o aumento do sucesso reprodutor das duas espécies alvo deste estudo e, consequentemente, para o crescimento das suas populações reprodutoras ao nível de todo o arquipélago. Este arquipélago é constituído pela ilha da Berlenga, os ilhéus Farilhões e Estelas. O local de estudo é o Farilhão Grande, sendo o ilhéu principal dos Farilhões, que alberga maior número de aves. Sendo a cagarra e o roque-de-castro as espécies em estudo, é de notar que a reprodução desta última ocorre no inverno. Deste modo, com este trabalho pretende-se i) avaliar o impacte da predação das gaivotas-de-patasamarelas na nidificação da cagarra e do roque-de-castro e ii) avaliar a efetividade da instalação de ninhos artificiais na diminuição da mortalidade de ovos e juvenis no Farilhão Grande. Avaliação do impacto da gaivota-de-patas-amarelas ( Larus michahellis ) no sucesso reprodutor de cagarra ( Calonectris borealis ) e roque-de-castro ( Hydrobates castro ) do Farilhão 6 2 MATERIAIS E MÉTODOS 2.1 Local de estudo O arquipélago das Berlengas (Figura 2) situa-se no Atlântico Nordeste na costa de Portugal, a 8,85 km (c. 5,5 milhas náuticas) do cabo Carvoeiro (concelho de Peniche). Este, cobre aproximadamente 104 hectares, incluindo a ilha da Berlenga (c. 79 hectares) com um planalto central rodeado de falésias, as Estelas (<3 hectares) e os Farilhões, dos quais o Farilhão Grande (perto de 8 hectares) é o maior, cercado por penhascos íngremes e quase sem chão plano com uma altura máxima de 94 metros. A Berlenga e as Estelas são formadas por granito constituído por um feldspato de grandes cristais róseos enquanto os Farilhões são constituídos por gnaisses e xistos. Apenas a ilha da Berlenga é ocupada permanentemente por faroleiros, vigilantes da natureza do ICNF e alguns pescadores profissionais; durante o verão milhares de turistas visitam a ilha, estando limitados a trilhos existentes. Figura 2Mapa geográfico do arquipélago das Berlengas. Avaliação do impacto da gaivota-de-patas-amarelas ( Larus michahellis ) no sucesso reprodutor de cagarra ( Calonectris borealis ) e roque-de-castro ( Hydrobates castro ) do Farilhão 7 Os Farilhões estão localizados a 5 km (c. 3,5 milhas náuticas) a nor-noroeste da Berlenga (39º 29’ N, 09º 33’ O). Estes ilhéus nunca foram habitados e são parte integrante da área de proteção integral da Reserva Natural das Berlengas. A sua visitação está proibida, sendo apenas possível para trabalhos de investigação e monitorização. O Farilhão Grande (Figura 3) é o único local visitado regularmente pelos faroleiros, por breves períodos, para manutenção do farolim automático. O único vertebrado terrestre existente nestes ilhéus é a lagartixa-das-berlengas Podarcis carbonelli berlengensis . Albergam ainda colónias de gaivota-de-patas-amarelas (133-158 pares reprodutores) (Morais et al., 2016), de cagarra (350-425 pares reprodutores estimados) (Oliveira et al., 2016), de galheta Gulosus aristotelis (3 pares reprodutores) (Oliveira et al., 2016) e de roque-de-castro (410-784 pares reprodutores estimados) (Oliveira et al., 2016). Figura 3Fotografia do ilhéu Farilhão Grande (Ivan Ramirez). O arquipélago das Berlengas foi designado como Reserva Natural em 1981 pelo Governo português sob o Decreto-Lei nº 264/81, de 3 de setembro. Em 1997 foi classificado como Sítio da Rede Natura 2000 ao abrigo da Diretiva Habitats e em 1999 foi classificado como Zona de Proteção Especial para as Aves Selvagens sob a Diretiva Aves. No ano de 2011 foi incluído na lista de Reservas Mundiais da Biosfera pela UNESCO. Além destes estatutos, encontra-se ainda notado pelo Conselho da Europa como Reserva Biogenética. Avaliação do impacto da gaivota-de-patas-amarelas ( Larus michahellis ) no sucesso reprodutor de cagarra ( Calonectris borealis ) e roque-de-castro ( Hydrobates castro ) do Farilhão 8 2.2 Avaliação das populações de cagarra e roque-de-castro no Farilhão Grande Ao longo do tempo foram feitas contagens das espécies de aves existentes no Farilhão Grande por vários autores (Lecoq et al., 2010; Teixeira, 1983). No entanto, dado o ilhéu ser de difícil acesso e as avaliações populacionais terem de ser efetuadas durante o inverno, apenas nas últimas duas décadas (desde 2005) foram realizadas contagens mais rigorosas e sistemáticas, abrangendo uma maior parte do local. Para a cagarra foram consideradas as estimativas do número de casais reprodutores em junho de 2005 (Lecoq et al., 2010) e em junho de 2015 (Oliveira et al., 2016). A escolha destes dados deve-se ao facto de ambos os autores terem usado o mesmo método (Lecoq et al., 2011). A avaliação da população do roque-de-castro resultou de campanhas de captura, marcação e recaptura com base no modelo de Cormack-Jolly-Seber, realizadas pela SPEA entre 2011 e 2018. O desenho da amostragem não foi consistente ao longo de todo o período, nomeadamente durante os primeiros três anos, em que as redes foram colocadas aleatoriamente nos locais mais acessíveis. A partir de 2014 a amostragem seguiu as recomendações propostas por Bolton (dados não publicados) e cinco redes foram colocadas a cerca de 60m de distância, cobrindo amplamente toda a área de nidificação. As redes eram abertas duas a três horas após o pôr-do-sol para evitar a captura de cagarras e visitadas em intervalos de 1 hora, de forma a minimizar o tempo de permanência dos animais capturados nas redes e subsequente stress. Foram utilizadas redes verticais de 15 metros de comprimento com 4 bolsos (malha 20x20mm). Os indivíduos capturados foram marcados na tíbia com uma anilha metálica numerada, pesados, foi medido o comprimento da asa e do tarso, anotada a presença de placa de incubação e outras características (ex. deformações morfológicas). Foi ainda registada a hora de captura. As aves recapturadas em anos posteriores foram registadas pelos seus números da anilha. As redes eram fechadas 3 horas antes do nascer do sol para permitir a libertação segura de todos os roque-de-castro. Foi preestabelecido que o ano correspondia a cada época de reprodução, de setembro a março. Cada indivíduo capturado foi associado a um histórico de capturas formando um vetor de 0 e 1 refletindo a informação do estado de captura em cada ocasião. O valor 1 significa captura e o 0 falha de captura. Foi produzida uma matriz com o histórico de capturas de modo a juntar as capturas do mesmo indivíduo no mesmo ano, resultando em apenas um evento de captura por cada sessão. As sessões ocorreram em outubro ou novembro, durante o período de incubação, à exceção do ano de 2016 que, devido às condições climatéricas, foi apenas possível realizar a sessão de captura em janeiro de 2017. Na época Avaliação do impacto da gaivota-de-patas-amarelas ( Larus michahellis ) no sucesso reprodutor de cagarra ( Calonectris borealis ) e roque-de-castro ( Hydrobates castro ) do Farilhão 9 reprodutora de 2017/2018, para além da sessão habitual em outubro, também houve uma sessão extra realizada em novembro, havendo nesse ano uma duplicação do esforço resultante do tempo despendido nas capturas e, por conseguinte, um grande número de aves capturadas nesse ano. A abundância e a sobrevivência anual do roque-de-castro foram estimados usando a função "openp" de Rcapture, um pacote do programa R para o método de captura, marcação e recaptura de uma população aberta, que compreende o modelo de Cormack-Jolly-Seber (Baillargeon & Rivest, 2007). Como o estudo foi realizado num ambiente natural e num período longo, possivelmente durante as sessões e entre as sessões houve natalidades e mortes, assim como pode ter havido migrações para outras populações da mesma espécie, sendo este último evento mais raro. Além das taxas de sobrevivência φ1 a φI – 1, essas funções estimam também o número de indivíduos da população de N1 a NI. O argumento m da função openp foi configurado para “up”, significa que as probabilidades de captura variam entre os períodos, como o número de redes, o número de sessões e, mesmo, as condições meteorológicas. A probabilidade de captura p*1, p*I, a sobrevivência φI – 1 entre o período I-1 e I, N1 e NI não conseguem ser estimadas nestas condições, devido ao facto de não haver um valor comum de probabilidade de captura. Por definição, a função openp assegura que as probabilidades estimadas de sobrevivência pertençam a [0, 1] e que os nascimentos Bi sejam positivos, impondo restrições aos parâmetros loglineares. Os dados recolhidos e obtidos foram utilizados para determinar o crescimento instantâneo (r) e a multiplicação anual (γ), bem como a taxa anual de crescimento. Através do número de indivíduos estimado para ambas as espécies em dois períodos diferentes e utilizando a taxa anual de crescimento, foi avaliado o sentido da evolução populacional para cada espécie. Crescimento instantâneo (r): 𝑟=𝑙𝑛𝑁𝑡− 𝑙𝑛𝑁0 𝑡 • N0: Número de indivíduos inicial • Nt: Número de indivíduos depois de um período t anos • t: tempo em anos Avaliação do impacto da gaivota-de-patas-amarelas ( Larus michahellis ) no sucesso reprodutor de cagarra ( Calonectris borealis ) e roque-de-castro ( Hydrobates castro ) do Farilhão 10 Multiplicação anual (𝛄): γ=er Taxa anual de crescimento: (γ−1)×100 2.3 Monitorização dos ninhos A monitorização de todo o período de reprodução foi efetuada por método direto através de visitas aos ninhos e por método indireto com a instalação de cerca de 12 câmaras fotográficas Trophy Bushnell© para cada espécie, na proximidade dos seus ninhos, no Farilhão Grande. As câmaras usadas estão equipadas com um detetor de movimento passivo e LED de infravermelhos, que permite a gravação de cenas noturnas. As câmaras foram configuradas para gravar uma foto ou um filme de 30 segundos a cada disparo. Um ninho foi considerado ocupado quando se registou a presença de ovo ou cria ou quando houve fortes indícios de reprodução, como a presença de ovos partidos ou desertados. Caso o ninho não fosse ocupado ou a cria não sobrevivesse, a câmara seria transferida para outro ninho ativo. Nas visitas ao local, os adultos e as crias foram anilhados e registado o seu número. No caso de se tratar de uma recaptura era anotado o número da anilha. Os ninhos foram visitados durante três fases da reprodução: na postura do ovo, na eclosão das crias e no período de abandono do ninho pelas crias, tendo as câmaras sido instaladas em frente aos mesmos. Os ninhos de roque-de-castro foram monitorizados de outubro a março de 2015 a 2018, até a última cria partir do seu ninho. Quanto aos ninhos de cagarra, foram visitados em 2017 e 2018, desde o início de junho, correspondente à postura do ovo, até outubro, altura em que as crias saem do ninho. A instalação de câmaras deu-se, apenas, em 2018, pelo que os dados de predação de crias correspondem a esse ano. Avaliação do impacto da gaivota-de-patas-amarelas ( Larus michahellis ) no sucesso reprodutor de cagarra ( Calonectris borealis ) e roque-de-castro ( Hydrobates castro ) do Farilhão 11 As imagens (fotos e vídeos) foram analisadas individualmente e os eventos de predação foram registados. Sempre que observado um potencial predador perto de um ninho ocupado (num vídeo, fotografia ou conjunto de fotografias) foi registada a data, hora, número do ninho, estado do ninho e espécie intrusa. Foi também estimada a distância entre o intruso e a cria ou ovo, de acordo com os seguintes intervalos: <5 cm, 5-20 cm, 20-40 cm e >40 cm. Cada etapa da reprodução, postura e eclosão do ovo e saída da cria do ninho, foi analisada através do sucesso de eclosão, sucesso da cria e sucesso reprodutor. 𝑆𝑢𝑐𝑒𝑠𝑠𝑜 𝑑𝑒 𝑒𝑐𝑙𝑜𝑠ã𝑜= 𝑛º 𝑑𝑒 𝑜𝑣𝑜𝑠 𝑒𝑐𝑙𝑜𝑑𝑖𝑑𝑜𝑠 𝑛º 𝑑𝑒 𝑛𝑖𝑛ℎ𝑜𝑠 𝑜𝑐𝑢𝑝𝑎𝑑𝑜𝑠×100 𝑆𝑢𝑐𝑒𝑠𝑠𝑜 𝑑𝑎 𝑐𝑟𝑖𝑎=𝑛º 𝑑𝑒 𝑐𝑟𝑖𝑎𝑠 𝑠𝑢𝑐𝑒𝑑𝑖𝑑𝑎𝑠 𝑛º 𝑑𝑒 𝑜𝑣𝑜𝑠 𝑒𝑐𝑙𝑜𝑑𝑖𝑑𝑜𝑠×100 𝑆𝑢𝑐𝑒𝑠𝑠𝑜 𝑟𝑒𝑝𝑟𝑜𝑑𝑢𝑡𝑜𝑟= 𝑛º 𝑑𝑒 𝑐𝑟𝑖𝑎𝑠 𝑠𝑢𝑐𝑒𝑑𝑖𝑑𝑎𝑠 𝑛º 𝑑𝑒 𝑛𝑖𝑛ℎ𝑜𝑠 𝑜𝑐𝑢𝑝𝑎𝑑𝑜𝑠×100 Foi também possível determinar a taxa de predação em ninhos de ambas as espécies e a taxa de predação em adultos de roque-de-castro durante a época reprodutiva, através do método indireto, de modo a garantir que a morte do indivíduo se deveu a um ato de predação por parte de gaivotas-de-patasamarelas. 𝑇𝑎𝑥𝑎 𝑑𝑒 𝑝𝑟𝑒𝑑𝑎çã𝑜 𝑛𝑖𝑛ℎ𝑜𝑠=𝑛º 𝑑𝑒 𝑛𝑖𝑛ℎ𝑜𝑠 𝑝𝑟𝑒𝑑𝑎𝑑𝑜𝑠 𝑛º 𝑑𝑒 𝑜𝑣𝑜𝑠 𝑒𝑐𝑙𝑜𝑑𝑖𝑑𝑜𝑠 ×100 𝑇𝑎𝑥𝑎 𝑑𝑒 𝑝𝑟𝑒𝑑𝑎çã𝑜 𝑒𝑚 𝑎𝑑𝑢𝑙𝑡𝑜𝑠= 𝑛º 𝑑𝑒 𝑎𝑑𝑢𝑙𝑡𝑜𝑠 𝑝𝑟𝑒𝑑𝑎𝑑𝑜𝑠 (𝑛º 𝑑𝑒 𝑛𝑖𝑛ℎ𝑜𝑠 𝑜𝑐𝑢𝑝𝑎𝑑𝑜𝑠 × 2) ×100 Avaliação do impacto da gaivota-de-patas-amarelas ( Larus michahellis ) no sucesso reprodutor de cagarra ( Calonectris borealis ) e roque-de-castro ( Hydrobates castro ) do Farilhão 12 Sendo impossível replicar um ambiente idêntico sem a interferência de gaivotas, o sucesso reprodutor e o sucesso da cria sem a predação por gaivotas foram estimados considerando o sucesso das crias predadas da amostra, contando apenas a mortalidade casual das crias. Das espécies em estudo, apenas foram registados eventos de predação em adultos no roque-de-castro, devido ao seu tamanho inferior 1 . Os dados de sucesso reprodutor com e sem predação foram avaliados pelo teste de Wilcoxon (Bridge & Sawilowsky, 1999). 2.4 Ninhos artificiais e ninhos naturais 2.4.1 Construção dos ninhos artificiais A construção de ninhos artificiais para cagarras na ilha da Berlenga já remonta a 1989. Entre 2015 e 2018 foram construídos 102 ninhos artificiais para cagarra em cinco núcleos da ilha: Melreu, Capitão, Flandres, Furado Seco e Quebradas (Oliveira et al., 2018). Atualmente existem 232 ninhos artificiais na ilha da Berlenga. No Farilhão Grande, os primeiros ninhos artificiais foram colocados em 2012 destinados à população de roque-de-castro. Entre 2014 e 2018 foram construídos 48 ninhos de roque-de-castro. A ausência de ninhos artificiais para cagarra no Farilhão Grande levou-nos a considerar os dados relativos ao sucesso reprodutor das cagarras em ninhos naturais e artificiais nas colónias da ilha da Berlenga. Os ninhos artificiais foram feitos com uma entrada muito pequena e uma galeria espaçosa, com dimensões específicas consoante a espécie alvo. Os diferentes tipos de ninhos construídos foram: - Ninhos com caixa de madeira, apenas para cagarras : têm como base uma caixa de madeira com uma entrada. No topo das caixas foi construída uma pequena tampa para facilitar o acesso ao interior do ninho para futura monitorização. Sempre que possível, foi aberto um pequeno buraco no solo, muitas das vezes utilizando as tocas anteriormente ocupadas por coelhos, no local onde se pretendia colocar a caixa. O solo foi nivelado e a caixa colocada num lugar estável, tendo sido coberta com pedras de forma a não permitirem a entrada de luz, e minimizar a entrada de chuva. Sempre que necessário, foi utilizada 1 A cagarra, pesa entre 817g a 956g, de comprimento, mede entre 45cm a 48cm e compreende uma envergadura entre 100cm e 125cm (Hoyo, Elliott, et al., 1992). O roque-de-castro é uma ave de pequeno porte, com 19 a 21cm de comprimento, uma envergadura de 44 a 46 cm, 29g a 56g de peso e apresenta uma plumagem negra com uma faixa branca no uropígio. Avaliação do impacto da gaivota-de-patas-amarelas ( Larus michahellis ) no sucesso reprodutor de cagarra ( Calonectris borealis ) e roque-de-castro ( Hydrobates castro ) do Farilhão 13 uma argamassa de cal hidráulica para colar algumas das pedras, aumentando assim a estabilidade e longevidade do ninho. Figura 4Esquema da caixa usada para os ninhos artificiais de madeira (Oliveira et al., 2018) e fotografia do ninho com cagarra (Nuno Oliveira). - Ninhos com rochas para cagarras e roques-de-castro : uma alternativa mais simples onde foram utilizadas apenas pedras. As próprias pedras, devido ao seu grande tamanho, possibilitaram dar a estrutura e consistência necessária ao ninho. Pedras com dimensões mais reduzidas foram utilizadas para tapar os espaços vazios, de forma a impossibilitar a entrada de luz. Também neste caso, sempre que necessário, foi utilizada uma argamassa de cal hidráulica para colar algumas das pedras, aumentando assim a estabilidade e longevidade do ninho. Figura 5Ninho artificial construído com rochas (foto de Elisabete Silva). Avaliação do impacto da gaivota-de-patas-amarelas ( Larus michahellis ) no sucesso reprodutor de cagarra ( Calonectris borealis ) e roque-de-castro ( Hydrobates castro ) do Farilhão 14 - Ninhos com vaso de barro ou de plástico, apenas para roques-de-castro : a cavidade consiste num vaso de jardinagem com 16 cm de diâmetro por 10 cm de altura. Foi aberto um buraco com 5 cm de diâmetro para a entrada do ninho. O fundo foi forrado com uma camada de pedras e uma camada de solo, para proporcionar estabilidade e facilitar a drenagem de água. A entrada do túnel foi protegida com pequenas pedras de maneira a minimizar a entrada de luz e chuva no interior do ninho. O topo do vaso foi coberto com o prato e sobre este foram colocadas algumas pedras. A tampa foi forrada externamente com tela isoladora e pequenas pedras coladas com espuma de poliuretano. 2.4.2 Monitorização e análise de dados Os ninhos foram monitorizados ao longo da época reprodutora de cada espécie. Foram contabilizados todos os ninhos, quer naturais quer artificiais, tendo-se procedido ao registo da presença de adultos, ovo e/ou cria em cada um. Relativamente ao roque-de-castro, o sucesso reprodutor em ninhos artificiais e em ninhos naturais foi estimado e comparado durante o período de 2015 a 2018. No que diz respeito às cagarras, dada à ausência de ninhos artificiais no Farilhão Grande, recorreu-se aos dados existentes nas colónias da Berlenga. Assim, foram comparados os valores do sucesso reprodutor nos ninhos artificiais da Berlenga com os de sucesso reprodutor nos ninhos naturais da Berlenga e do Farilhão Grande pelo teste de Mann-Whitney (Hollander et al., 2003). Figura 6Esquema do ninho artificial de roque-de-castro (Bolton et al., 2004) e fotografia de um ninho vaso com cria de roque-de-castro (Isabel Fagundes). Avaliação do impacto da gaivota-de-patas-amarelas ( Larus michahellis ) no sucesso reprodutor de cagarra ( Calonectris borealis ) e roque-de-castro ( Hydrobates castro ) do Farilhão 21 Globalmente, o sucesso reprodutor da cagarra em ninhos naturais na ilha da Berlenga - 0,74± 0,12 - é maior do que o da população do Farilhão Grande, 0,41± 0,02. O sucesso reprodutor de ninhos artificiais na Berlenga apresenta ser o dobro do sucesso reprodutor de ninhos naturais no Farilhão (cfr. Tabela 5 e Tabela 7). No entanto, os ninhos artificiais e naturais da Berlenga não apresentam diferenças significativas no seu sucesso reprodutor correspondente (W = 12, p-value = 0.3429). Tabela 7Sucesso reprodutor de cagarra em ninhos artificiais e naturais na ilha da Berlenga. Ano Ninhos artificiais Ninhos naturais 2015 0,85 0,57 2016 0,91 0,92 2017 0,85 0,75 2018 0,83 0,74 O sucesso reprodutor em ninhos artificiais e naturais de roque-de-castro foi constante ao longo dos anos, exceto em ninhos naturais no ano de 2018 (Tabela 8). Nesse ano, não houve ninhos naturais sucedidos (n=5). Os ninhos naturais em que no ano anterior a cria tinha sobrevivido foram novamente ocupados. No entanto, foram encontrados com ovos partidos ou abandonados ou ninhos vazios. Desses ninhos sabe-se que 2 não foram predados. Os restantes não foram monitorizados por câmaras ou não apresentam sinais evidentes da causa de insucesso. Pelo facto de terem ocorrido apenas duas visitas aos ninhos em 2015, supracitado na secção 3.2, apenas temos conhecimento do destino de 3 ninhos artificiais ocupados e de 3 ninhos naturais ocupados. Excecionalmente, em 2016, houve um maior sucesso reprodutor e uma maior ocupação em ninhos naturais do que em artificiais. No ano seguinte, a ocupação em ninhos artificiais foi o dobro da ocupação em ninhos naturais. O sucesso reprodutor foi o mesmo em ambos os tipos de ninhos. Contudo, 7 ninhos naturais ocupados em 12 não foram monitorizados até ao fim e não se sabe se as crias sucederam, podendo influenciar o valor de sucesso reprodutor em ninhos naturais. De notar, que os dois únicos eventos registado de predação em crias se deram apenas em ninhos naturais. Avaliação do impacto da gaivota-de-patas-amarelas ( Larus michahellis ) no sucesso reprodutor de cagarra ( Calonectris borealis ) e roque-de-castro ( Hydrobates castro ) do Farilhão 22 Não foram encontradas diferenças entre o sucesso reprodutor em ninhos artificiais e naturais (W = 7,5, p-value = 1). Tabela 8Sucesso reprodutor e taxa de predação em ninhos artificiais e em ninhos naturais de roque-decastro no Farilhão Grande. Ano Ninhos artificiais Ninhos naturais Sucesso reprodutor Taxa de predação Sucesso reprodutor Taxa de Predação 2015 0,67 0 0,67 0,33 2016 0,5 0 0,79 0,06 2017 0,6 0 0,6 0 2018 0,67 0 0 NA 3.4 Sucesso reprodutor da cagarra em ninhos protegidos e expostos O sucesso reprodutor de cagarra em ninhos expostos (0,131±0,069) aparenta ser inferior ao dos ninhos protegidos (0,625±0,025) (Tabela 9). Como seria de prever, a taxa de predação em ninhos expostos (0,29, n=7) foi maior do que em ninhos protegidos (0,07, n=14). Há 6 ninhos protegidos ocupados e 9 expostos em que as crias não sucederam, mas não se sabe a causa e a predação é uma hipótese a considerar. Tabela 9Sucesso reprodutor de cagarra e taxa de predação em crias em ninhos protegidos e ninhos expostos no Farilhão Grande em 2017 e 2018. Ano Ninhos protegidos Ninhos expostos Sucesso reprodutor Taxa de predação Sucesso reprodutor Taxa de predação 2017 0,6 NA 0,2 NA 2018 0,65 0,07 0,06 0,29 Avaliação do impacto da gaivota-de-patas-amarelas ( Larus michahellis ) no sucesso reprodutor de cagarra ( Calonectris borealis ) e roque-de-castro ( Hydrobates castro ) do Farilhão 23 3.5 Ninhos artificiais como medida de conservação? Em trabalhos como os de Libois et al (2012) foi demonstrado que o fornecimento de ninhos artificiais é uma boa ferramenta de conservação no que toca ao aumento da abundância, do sucesso reprodutor e da sobrevivência em adultos em populações de aves marinhas mais vulneráveis. No caso da cagarra, assumindo que o valor de sucesso reprodutor total (S.R.t.) necessário para manter esta população constante seria de 0,5 (Oliveira et al., 2019) e sabendo o número total de ninhos ocupados (N.O.t), equivalente ao número de pares reprodutores (cfr. Tabela 1), conseguimos calcular o número total de crias sucedidas. Este último equivale à soma das crias que sucederam em ninhos artificiais com as que sucederam em ninhos naturais. O número de crias sucedidas em ninhos artificiais resulta na multiplicação do sucesso reprodutor em ninhos artificiais (S.R.a) (cfr.Tabela 7) pelo número de ninhos artificiais ocupados (N.O.a.). Seguindo a mesma lógica foi determinado o número de crias sucedidas em ninhos naturais. O sucesso reprodutor para cada tipo de ninho foi estimado na secção 3.3. O número de ninhos artificiais ocupados obtém-se ao multiplicar a taxa máxima de ocupação em ninhos artificiais (T.O.a.)) (cfr. Gráfico 1Taxa de ocupação de cagarra em ninhos artificiais construídos antes de 2015 na ilha da Berlenga.Gráfico 1) pelo número de ninhos artificiais disponibilizados (N.D.a.), aquilo que desejamos descobrir, e o número de ninhos naturais ocupados corresponde à subtração dos ninhos artificiais ocupados ao total de ninhos ocupados. 𝑆.𝑅.𝑡.≤ (𝑆.𝑅.𝑎.×𝑇.𝑂.𝑎.×𝑁.𝐷.𝑎.)+(𝑆.𝑅.𝑛×(𝑁.𝑂.𝑡.−𝑁.𝑂.𝑎.)) 𝑁.𝑂.𝑡. A taxa máxima de ocupação em ninhos artificiais ocorre apenas quando a proporção do número de ninhos artificiais ocupados pelo número de ninhos artificiais disponíveis se mantém constante com o passar dos anos. Para o efeito, foram considerados os dados de ocupação da população de cagarra da ilha da Berlenga no período de 2015 a 2018 em ninhos construídos anteriormente. Posto isto em consideração, foi possível formular o seguinte sistema de equações assumindo 𝑥 como número de ninhos artificiais ocupados (N.O.a.) e 𝑦 como número de ninhos artificiais disponibilizados (N.D.a.): {𝑥≤1,678𝑦−72 𝑥=0,8𝑦 Avaliação do impacto da gaivota-de-patas-amarelas ( Larus michahellis ) no sucesso reprodutor de cagarra ( Calonectris borealis ) e roque-de-castro ( Hydrobates castro ) do Farilhão 24 Entre 2015 e 2018, a taxa de ocupação em ninhos artificiais construídos antes de 2015 na Berlenga manteve-se constante para a população de cagarra (c. 0,8), o que significa que a população atingiu o seu valor máximo de ocupação destes ninhos (Gráfico 1). No período de 2015 a 2018, 67% destes foram ocupados os 4 anos consecutivos (Gráfico 2), resultados estes consistentes com o alcance da taxa máxima de ocupação. Ao resolver o sistema descobriu-se que o mínimo número de ninhos necessários a serem construídos para manter a população constante seriam 82. Sabe-se que a taxa de ocupação de cagarra em ninhos novos é bastante alta (c. 36%) tendo em conta que o crescimento desta população é muito lento (Oliveira, Fagundes, et al., 2018). Por isso, espera-se que em 10 anos atinja a taxa máxima de ocupação dos 82 ninhos disponibilizados, ou seja, 65 dos ninhos novos construídos sejam ocupados. Gráfico 1Taxa de ocupação de cagarra em ninhos artificiais construídos antes de 2015 na ilha da Berlenga. . y = 0.0015x + 0.7864 0.5 0.55 0.6 0.65 0.7 0.75 0.8 0.85 0.9 2015 2016 2017 2018 Taxa de ocupação Ocupação de cagarra em ninhos artificiais na ilha da Berlenga Avaliação do impacto da gaivota-de-patas-amarelas ( Larus michahellis ) no sucesso reprodutor de cagarra ( Calonectris borealis ) e roque-de-castro ( Hydrobates castro ) do Farilhão 25 Gráfico 2Gráfico de percentagens relativa à ocupação de ninhos construídos de cagarra antes de 2015 na ilha da Berlenga pelo número de anos no período de 2015 a 2018. A população de roque-de-castro ainda não atingiu a ocupação máxima dos ninhos artificiais no Farilhão (Gráfico 3). A taxa de ocupação destes é de 0,23±0,05. Este valor ainda se encontra em evolução com um crescimento anual de 7,82%, dessa forma, seria despropositado a construção de novos ninhos enquanto não se der a ocupação máxima dos existentes. Gráfico 3 Taxa de ocupação de roque-de-castro em 20 ninhos artificiais construídos em 2011 no Farilhão Grande. 8.2 6.1 7.1 11.2 67.3 0 10 20 30 40 50 60 70 0 1 2 3 4 Percentagem de ninhos ocupados pelo número de anos y = 0.045x + 0.125 0 0.05 0.1 0.15 0.2 0.25 0.3 0.35 0.4 0.45 0.5 2015 2016 2017 2018 Taxa de ocupação Taxa de ocupação de roque-de-castro em ninhos artificiais Avaliação do impacto da gaivota-de-patas-amarelas ( Larus michahellis ) no sucesso reprodutor de cagarra ( Calonectris borealis ) e roque-de-castro ( Hydrobates castro ) do Farilhão 26 Foi desenhado um modelo demográfico simples para a população de roque-de-castro do Farilhão Grande e feita a seguinte matriz de acordo com o modelo matricial de Leslie: 𝐿= (0𝐵2 𝐵3 𝑆1 00 0 𝑆2 𝑆3) em que B2 representa o sucesso reprodutor dos indivíduos que se reproduzem pela primeira vez (reprodutores iniciantes), B3 o sucesso reprodutor dos indivíduos reprodutores experientes (todas as aves depois da primeira época de reprodução), S1 a sobrevivência desde que saem do ninho até atingirem a maturidade, S2 a sobrevivência dos reprodutores iniciantes e S3 a sobrevivência anual dos reprodutores experientes, considerados todos os reprodutores depois da sua primeira reprodução. Foi considerado o mesmo valor de B2 e o B3, estimados na secção 3.2., por não conseguirmos saber com certeza quais as aves que se encontram na sua primeira época reprodutora. Foi estimada a média dos anos, dado foram sempre utilizadas câmaras e a consistência dos resultados permitem-nos ter confiança nos mesmos. A sobrevivência dos imaturos e dos reprodutores iniciantes de roque-de-castro foi retirada de um estudo realizado na população do Farilhão Grande (Macq, 2020) e a sobrevivência anual dos experientes foi estimada pelo método de captura, marcação e recaptura (cfr. 3.1.2). Foi projetado o tamanho da população de 2015 para 2017: 𝑁(𝑡+𝑖)=𝐿𝑖 ×𝑁(𝑡) N(t) representa o vetor de distribuição etária inicial com o número de crias, de reprodutores iniciantes e de reprodutores experientes, sendo apenas contabilizadas as fêmeas. Através do número de casais reprodutores estimados (cfr. 3.1.2) e do sucesso reprodutor estimado (cfr. 3.2) foi possível saber o S3 4 anos Imaturos Reprodutores iniciantes Reprodutores experientes S1 S2 B3 B2 Avaliação do impacto da gaivota-de-patas-amarelas ( Larus michahellis ) no sucesso reprodutor de cagarra ( Calonectris borealis ) e roque-de-castro ( Hydrobates castro ) do Farilhão 27 número de crias (393×0,63/2) e com a taxa de sobrevivência dos imaturos calculou-se o número de reprodutores iniciantes (124×0,13) e, consequentemente, o número de reprodutores experientes (39316). Em 2017, projetou-se um total de 436 indivíduos, valor este, que se encontra dentro da estimativa realizada pelo método de captura, marcação e recaptura (585 ± 170). Caso fosse possível aumentar o sucesso reprodutor (B2 e B3) para 1, a população decresceria entre os dois anos em questão (474 indivíduos), não invertendo a situação atual. Admitindo que a sobrevivência anual é baixa, se conseguíssemos aumentar apenas a sobrevivência anual dos reprodutores experientes para 0,97 (valor da sobrevivência do painho-de-monteiro) a população aumentaria (836 indivíduos). Avaliação do impacto da gaivota-de-patas-amarelas ( Larus michahellis ) no sucesso reprodutor de cagarra ( Calonectris borealis ) e roque-de-castro ( Hydrobates castro ) do Farilhão 28 4 CONCLUSÕES Atualmente, no Farilhão, as espécies de roque-de-castro e cagarra apresentam uma tendência negativa, ou seja, uma diminuição populacional, sendo que o crescimento anual do roque-de-castro é 7 vezes inferior ao da cagarra. Os dados de 2018 sugerem que o sucesso reprodutor da cagarra no Farilhão Grande é muito baixo - 0,39 (n=36) - comparativamente ao da população nidificante na Berlenga - 0,81 (n=165) -, tendo sido a principal causa do seu declínio. Uma possível explicação seria o impacte da predação em crias de cagarra por gaivotas. Nesse ano, foi estimada uma taxa de predação por gaivota-de-patas-amarelas de 14% no Farilhão Grande. Caso não existisse predação, o valor de sucesso reprodutor estimado para essa situação seria de 0,81, valor esse coincidente com o estimado na Berlenga. Porém, parte dos ninhos não sucedidos não foram considerados na amostra devido a problemas metodológicos. Seria, portanto, necessário continuar e aumentar a monitorização através de câmaras. No caso improvável de nenhuma destas crias fosse predada e tivessem sido consideradas na amostra do sucesso reprodutor sem predação, o valor estimado seria de 0,47. Assumindo que o valor mínimo necessário para inverter o decréscimo desta população seria de 0,5 (Oliveira et al., 2019) parece que, se não houvesse predação, seria possível inverter a tendência. Os valores de sucesso reprodutor no Farilhão Grande coincidem com os valores registados antes da construção de ninhos na Berlenga, 0,37 em 1987 (Granadeiro, 1988) e 0,24 em 2002 (Lecoq, 2003). O sucesso reprodutor estimado em ninhos artificiais foi maior do que em ninhos naturais no Farilhão Grande. Na Berlenga não há diferenças significativas entre os valores de sucesso reprodutor estimado em ninhos naturais e artificiais. A ausência de diferenças deve-se à melhoria dos ninhos naturais mais degradados que deixam de ser considerados como naturais e à maior monitorização de ninhos protegidos relativamente aos ninhos expostos, pelo que estes últimos são em menor número. Na sequência do referido, tivemos em atenção os dados do sucesso reprodutor entre ninhos artificiais na Berlenga e naturais no Farilhão Grande na análise dos resultados. Apesar do sucesso reprodutor no Farilhão ser constante em 2017 e 2018, seriam necessários mais anos de estudos de modo a corroborar as diferenças entre os dois tipos de ninhos. Avaliação do impacto da gaivota-de-patas-amarelas ( Larus michahellis ) no sucesso reprodutor de cagarra ( Calonectris borealis ) e roque-de-castro ( Hydrobates castro ) do Farilhão 29 Na Berlenga, de 1981 até 2010, registou-se um crescimento anual da população de cagarra de 10,1% (Lecoq et al., 2010), coincidente com a introdução dos primeiros ninhos artificiais e com o controlo da população reprodutora de gaivotas, através do abate de adultos reprodutores e, posteriormente, destruição anual de posturas. Dada a sua proximidade com o porto de Peniche, reduções desejáveis nas taxas de descarte ou até mesmo a cessão da pesca ou de outras fontes de alimento podem ter um efeito colateral e forçar as gaivotas a predar aves marinhas menores e causar insucesso na reprodução, comprometendo a estrutura da comunidade (Furness, 2003; Votier et al., 2004; Hernández-Matias & Ruiz, 2003; Martínez-Abraín et al., 2003; Oro & Martinez-Vilalta, 1994). Dessa forma, estes métodos de controlo são necessários pela sua eficácia e com benefícios imediatos locais (Bosch et al., 2019; Mouga et al., 2021; Paracuellos & Nevado, 2010). A partir desse último ano, 2010, houve uma diminuição do crescimento populacional de cagarra que poderá estar relacionada com a limitação de ninhos disponíveis, isto é, a população atingiu a ocupação máxima. A taxa de ocupação em ninhos novos artificiais de cagarra na Berlenga é maior do que em estudos já realizados com outras espécies e em outros locais (Libois et al., 2012; Priddel & Carlile, 1995), assim como a taxa máxima de ocupação (Bourgeois et al., 2015). As cagarras são também mais céleres a ocupar os ninhos artificiais do que a população de roque-de-castro. Uma boa aceitação de ninhos introduzidos leva a uma rápida recuperação da espécie, principalmente numa população fragilizada, como é o caso da Berlenga; no passado, sofreu de perseguição humana intensa, tendo sido adultos e ovos caçados de forma implacável pelos pescadores de Peniche (Lockley, 1952). Além deste aspeto, refira-se a existência, até 2018, de ratos e coelhos na ilha que competiam pelo espaço, sendo que os primeiros também predavam os ovos. Deste modo, espera-se uma maior probabilidade de sucesso reprodutor e, consequentemente, de sobrevivência da população de cagarra com a introdução de ninhos, como se observou noutros estudos (Libois et al., 2012; Priddel & Carlile, 1995).Na verdade, é provável que as aves marinhas ocupem os ninhos artificiais, independentemente dos materiais com que foram construídos, quer o substrato quer quaisquer pequenas diferenças nas medidas (Bourgeois et al., 2015; León & Mínguez, 2003), desde que as características de isolamento sejam suficientes para mantê-los protegidos (Fischer et al., 2018). Segundo as nossas estimativas, seria necessário construir pelo menos 82 ninhos para aumentar o sucesso reprodutor para 0,5 em menos de uma década e permitir, assim, estabilizar o número de indivíduos. A sobrevivência anual estimada de roque-de-castro no Farilhão - 0,65±0,12 – é muito baixa comparada com a sobrevivência anual do painho-de-monteiro - 0,97±0,015 (Robert et al., 2012). A taxa de predação Avaliação do impacto da gaivota-de-patas-amarelas ( Larus michahellis ) no sucesso reprodutor de cagarra ( Calonectris borealis ) e roque-de-castro ( Hydrobates castro ) do Farilhão 30 em adultos, apesar de existir, foi estimada em apenas 0,02±0,02. Sendo assim, a baixa sobrevivência anual faz-nos pensar que: ou se deve a outro motivo para além da taxa de predação em adultos que não foi abordado, ou há limitação dos dados e a predação ou a sobrevivência anual foi subestimada. O sucesso reprodutor foi maior nos anos em que existiu predação nos ninhos de roque-de-castro por gaivotas-de-patas-amarelas (2015: 0,71, n=7; 2016: 0,7, n=30) do que nos anos em que não houve predação (2017: 0,65, n=17; 2018: 0,47, n=19). Com a baixa taxa de predação nos ninhos (0,05±0,02) e o grande decréscimo do sucesso reprodutor num ano em que não foi relatada predação nestes, pode afirmar-se que o fenómeno da predação em ninhos não está relacionado com o baixo sucesso reprodutor. Assim, sugere-se estudos que tenham em consideração outros fatores. Segundo os nossos dados, os ninhos artificiais não parecem influenciar o sucesso reprodutor de roque-de-castro comparativamente aos ninhos naturais. Além do mais, não se observa uma boa adesão por parte desta espécie aos ninhos artificiais. De acordo com a projeção, a valorização do sucesso reprodutor do roque-de-castro do Farilhão não influencia o crescimento da população, porém, se a sobrevivência deste igualasse à do painho-demonteiro, a população aumentaria. Desta forma, sugere que a principal causa por detrás do decréscimo desta população é a sobrevivência dos adultos. Com isto, torna-se urgente estudar os fatores que poderão justificar a baixa sobrevivência de modo a aplicar medidas de conservação apropriadas e inverter a atual evolução negativa do crescimento dessa população. Respondendo diretamente à indagação proposta, tudo indica que a predação de gaivota-de-patasamarelas poderá ter influência no sucesso reprodutor e na sobrevivência da cagarra no Farilhão Grande. Porém, seriam necessários mais anos de estudo para confirmar. Contrariamente, a predação parece não apresentar influência no sucesso reprodutor do roque-de-castro, embora não seja possível garantir que não haja efeito na sobrevivência dos adultos, que poderá ser a principal causa de decréscimo da população. Seria necessária mais investigação sobre o que poderá justificar este facto, uma vez que não foi objeto deste estudo. Os ninhos artificiais e naturais apresentam ou não diferenças no sucesso reprodutor conforme as espécies alvo. Na cagarra foi observada diferença no sucesso entre os ninhos; já no roque-de-castro não foi possível afirmar o mesmo.