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9 Imagens e discursos nos protestos feministas. Introdução Zara Pinto-Coelho1, ana Maria Brandão2 & Silvana Mota-riBeiro1 [email protected]; [email protected]; [email protected] 1 Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade, Instituto de Ciências Sociais, Universidade do Minho, Portugal | 2 Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais, Instituto de Ciências Sociais, Universidade do Minho, Portugal Nas últimas duas décadas, têm-se multiplicado as ações feministas de protesto nas ruas das cidades, em praticamente todos os continentes. As muitas mulheres que foram para a rua na Primavera Árabe de 2011, as várias “marchas das vadias”, no Brasil, no mesmo ano, as mobilizações do #niunomenos, na Argentina, e do #MiPrimerAcoso, no Chile, em 2015, as várias marchas das mulheres #nãoSejasTrump, nos EUA, instigadas pelo #MeToo, em 2017, o ciclo de protestos, iniciado no Brasil sob o lema “Mexeu com uma, mexeu com todas”, a greve feminista em Espanha, em 2017, o ciclo de protestos espanhóis “La manada somos nosotras”, os protestos #Elenão no Brasil, ambos no decorrer do ano de 2018 e o protesto chileno, em 2019, “Um violador en tu caminho”, são alguns exemplos da mais recente mobilização política das mulheres em protestos de rua (Kaplan, 2004; Reiss, 2016). Começando por ser iniciativas locais, muitas destas ações estenderam-se por todo o mundo, emprestando nova vida ao slogan “a solidariedade é a nossa arma” (Arruzza et al., 2019, p. 7). Motivadas por questões que integram a agenda histórica dos feminismos e do movimento das mulheres (Bereni & Revillard, 2012; Tavares, 2008; West & Blumberg, 1990), mas que atestam também as recomposições e mudanças do feminismo contemporâneo – no sentido, por exemplo, da interseccionalidade, transnacionalidade, popularização, descentralização e individualização (e.g. Alvarez, 2014; Dean & Aune, 2015) –, estas ações coletivas de protesto de rua, com formas variadas – manifestações, marchas,
10 Imagens e discursos nos protestos feministas. Introdução Zara Pinto-Coelho, Ana Maria Brandão & Silvana Mota-Ribeiro passeatas –, têm envolvido o recurso às redes sociais e às tecnologias móveis (Bertrand, 2018; Matos, 2018), à semelhança do que acontece noutras arenas contemporâneas de conflito político (Cammaerts et al., 2013). Um dos traços típicos da cultura contemporânea de protesto é, precisamente, o fluxo e a interação constantes entre comunicação na rua e comunicação na internet. Esta concatenação, como nos mostra a vasta literatura sobre o assunto, desempenha um papel crucial na organização (Bennett & Segerberg, 2012), planeamento, orquestração e mobilização da ação coletiva num dado espaço e tempo (Gerbaudo, 2012), na articulação e realização de solidariedades transnacionais (Przybylo et al., 2018), assim como na amplificação do impacto dos protestos: permite alargar a divulgação, quer local, quer globalmente, ampliando, assim, a visibilidade dessas ações, e possibilita também a crítica, o diálogo e o debate continuado com os mais diversos setores da sociedade sobre os temas e preocupações que lhes subjazem. A face dupla de Janus dos protestos de rua, que possibilita também a formação de novos públicos políticos (Andén-Papadopoulos, 2014), abre caminho para outras influências e objetivos menos controláveis por parte de quem protesta, como é sabido (e.g. Gregory, 2012; Lilja & Johansson, 2018). Nesta relação de forças, a performance (Fuentes, 2015) do protesto pode fazer a diferença. O protesto, ao acontecer, ao materializar um coletivo que desafia o status quo pelo simples facto de estar unido, rompe e assinala aberturas nas relações de poder que podem levar adiante as lutas transformadoras e criar novas possibilidades (Butler, 2015, pp. 66-98). Para além de envolverem críticas e reivindicações particulares, enquadradas por determinados regimes de significação e ideologias, de se desenrolarem num tempo e espaço públicos delimitados, geralmente com cargas simbólicas e afetivas particulares (Endres & Senda-Cook, 2011; Goodwin et al., 2001, pp. 1-25), e incluírem dinâmicas e mobilidades específicas, nomeadamente, as geradas pelo jogo das interações comunicativas online e offline, estas formas de agir coletivamente e de tomar posição “não falam por si” – têm de ser postas em prática, em movimento (Eyerman, 2005). Por outras palavras, têm de ser experienciadas e corporalmente vividas ou encarnadas, seja por quem protesta ou luta, seja pelos diversos públicos, tanto locais e visíveis, como distantes e invisíveis que acompanham o momento de protesto e pelas forças policiais que as ouvem, veem, registam, vigiam ou controlam. Neste sentido, as ações de protesto não servem apenas para expressar e alimentar críticas e desejos de mudança (Della Porta & Diani, 2006, p. 165). Ao serem levadas a cabo em público, individual e coletivamente,
11 Imagens e discursos nos protestos feministas. Introdução Zara Pinto-Coelho, Ana Maria Brandão & Silvana Mota-Ribeiro num tempo e espaço concretos, de formas mais ou menos coreografada (Foellmer, 2016; Foster, 2003), ganham uma dimensão sensorial e sensual peculiar, geradora de emoções, energias e afetos (Ahmed, 2004; Pedwell, 2017), que são essenciais para a construção de um sentido de unidade e de cooperação, ou seja, para a perceção de um coletivo solidário (Casquete, 2003) ou de um corpo social que se move em conjunto, partilha um futuro imaginado, um passado significativo e um presente “efervescente” (Jasper, 1997, p. 221). Um coletivo que, ao marcar presença, se apropria do direito de olhar ou do direito a aparecer, persistir e resistir (Mirzoeff, 2020). Como refere John Berger (1968, p. 12) a propósito das manifestações de rua, as que não têm este elemento de ensaio da consciência revolucionária, serão mais bem descritas como espetáculos públicos oficialmente encorajados. Fundamental quer na dimensão instrumental, quer na dimensão sensível ou expressiva dos protestos e na sua interação, são os processos de dar a ver ou de mostrar e de ver e ser visto porque é através deles que os mundos, as formas de vida e as coletividades alternativas imaginadas ganham substância e formas visíveis em confronto, mais ou menos explícito, com a ordem política dominante, quer aos olhos dos participantes, quer das audiências. A consolidação dessas formas ou imagens é inseparável, portanto, dos afetos, da situação, do próprio olhar que as engendra, nunca isento dos regimes de visualidade (Crary, 1990), modos de ver (Berger, 1972/1980) e de não ver que chegam e passam. Nesta medida, as imagens, como os textos, não falam por si. Só em diálogo podem significar e operar como agentes transformadores do social. É essa a sua força e o seu limite. A articulação da mediação visual in situ, quer dizer, em ato e em contexto, da parte de quem protesta, acontece através de uma combinação complexa e multifacetada de recursos semióticos (linguísticos, visuais, iconográficos, sonoros, tipográficos, cinésicos, espaciais), artefactos (cartazes, faixas, vestuário, posters, bandeiras, panfletos, insufláveis, instalações), meios de comunicação (fotografia, vídeo, corpo), suportes e aparatus tecnológicos (telemóveis, câmaras, portáteis) disponibilizados pelos “reportórios de comunicação” (Mattoni, 2013) que integram as práticas de protesto contemporâneo e afetam a experiência dos participantes. Compreender estes processos discursivos, caracterizados por um jogo complexo de interações, significa ver todos esses instrumentos como meios em movimento, parte de uma cadeia de produção, distribuição e uso, e também parte dos eventos e lugares de protesto. Tal quer dizer que a análise dessa articulação visual deve ser sempre contextualizada quer ao nível do evento em si, quer dos contextos mais vastos.
12 Imagens e discursos nos protestos feministas. Introdução Zara Pinto-Coelho, Ana Maria Brandão & Silvana Mota-Ribeiro As escolhas dos instrumentos de comunicação e da forma como são postos em ação dependem tanto das contingências e circunstâncias, quanto dos perímetros delimitados pelas “culturas de protesto”, quer dizer, das tradições, costumes, rituais, estilos, jargões, imagéticas, preocupações, problemas, críticas, ideologias (Rutch, 2016) e discursos (Taylor & Whittier, 1995) dos grupos envolvidos, assim como de particularidades contextuais (culturais, políticas, societais, históricas) mais vastas e do ambiente tecnológico em que os protestos emergem. É sabido, porém, que, na paisagem semiótica contemporânea, onde o modo visual de expressão ganhou um valor social e cultural particular com o uso massivo da internet, das tecnologias visuais digitais, das plataformas de redes sociais, vídeos/sites e aplicativos de partilha de imagens, os eventos de protesto, bem como as suas diferentes mediações, são cada vez mais tornados visuais através de imagens (fixas ou móveis) multimodais, conhecendo uma difusão global sem precedentes que lhes confere toda uma nova dinâmica e abertura, fruto de remediações e ressemiotizações sucessivas nas redes sociais quer durante, quer após as ações de protesto (Lou & Jaworski 2016; Martín Rojo, 2014; Pinto-Coelho, 2020). Poderemos imaginar as mais recentes ações de protesto do movimento “Black Lives Matter”, iniciado e liderado por mulheres (Crossley & Nelson, 2018, p. 557) sem os cartazes que mostram a frase “I can’t breathe”? E a Marcha de Mulheres realizada em Washington, em 2017, sem as imagens dos pussy hats, que transformaram as avenidas que ligam o Capitólio à Casa Branca, que Donald Trump não conseguiu encher no dia da sua posse como 45.º Presidente dosEstados Unidos da América, num rio de gorros de lã cor de rosa com orelhas? Poderemos imaginar os movimentos feministas sem as imagens da queima de soutiens – que, na verdade, nunca chegou a acontecer (Thornham, 1998) – no protesto, em 1968, contra a Miss América ou sem as imagens de mulheres desnudas que percorreram o mundo em 2011? Tal como diz Dezé (2013, p. 4), as imagens visuais fazem de tal forma parte das dinâmicas dos protestos e dos movimentos sociais que, à força de tanto as vermos, já não as vemos. A presença e a relevância de imagens visuais nas ações de protesto não são novidade, nem é escassa a atenção que lhes tem sido dada na muita extensa investigação sobre movimentos sociais, ativismos e fenómenos de protesto (e.g. Werbner et al., 2014). Porém, como também refere essa mesma investigação (Doerr et al., 2013; Safaian, 2019), são muito menos os estudos que têm como objeto de estudo e como instrumento de análise as imagens visuais de protesto, sejam as produzidas ou utilizadas por quem protesta (antes, durante e após os eventos), sejam aquelas que outros,
13 Imagens e discursos nos protestos feministas. Introdução Zara Pinto-Coelho, Ana Maria Brandão & Silvana Mota-Ribeiro socialmente significativos, selecionam, produzem e distribuem. E são ainda menos os que integram esse interesse no quadro de problemáticas sociopolíticas e culturais mais vastas (Doerr & Milman, 2014; Doerr & Teune, 2012). Nesta obra, reunimos um conjunto de trabalhos que podem dar pistas para prosseguir e aprofundar a investigação nesse sentido, já que a nossa motivação inicial foi a de compreender de que forma as imagens de protesto que integram as táticas de rua usadas nos “reportórios de confronto” (Tilly, 2008) feministas estão imbricadas nos conflitos de género das sociedades contemporâneas. Neste ensejo, estão pressupostas três ideias: por um lado, a de que a natureza feminista (Pelak et al., 2006; Rupp & Taylor, 1999) destas ações não deve ser dada como certa, nem como essencial ou unificada, mas antes como um dado empírico e histórico a ser explorado, mesmo em protestos que não são conduzidos por fins explicitamente feministas; por outro, a de que todos os protestos que envolvam a participação de mulheres, mesmo aqueles em que elas não sejam mobilizadas enquanto tais, numa sociedade genderizada, tem potenciais feministas; por último, a ideia de que este tipo de imagens, que frequentemente integram ou remetem para participantes humanos, indexam, de forma mais ou menos subtil, signos ou marcadores de género. Este livro cobre um conjunto de contextos socioculturais, momentos históricos e geografias distintas em que as dinâmicas de poder, motivações, causas, reivindicações, objetivos, táticas e meios usados para comunicar visualmente os protestos, variam. Mas os estudos de casos apresentados partilham interesses comuns. Os que os motivam são interrogações sobre a forma como quem protesta se apodera do direito de olhar, de dar a ver ou, simplesmente, de aparecer para construir subjetividades, narrar experiências, expressar emoções, mostrar a afiliação social, ensaiar mundos alternativos separados e, ao fazê-lo, criar ligações ou pontes propiciadoras de diálogos internos, consciencialização, partilha de memórias e mobilizações militantes. Em causa estão as práticas visuais dos coletivos de protesto, as suas dimensões estéticas, sensíveis e simbólicas e o seu valor político como agregadoras de solidariedades internas e enquanto símbolos de contestação e resistência (Van Dyke & Taylor, 2018; Whittier, 2017). De formas diferentes, os estudos apresentados exploram os significados genderizados (Einwohner et al., 2000; Reger, 2018) destas práticas e as suas relações com o feminismo (Dean & Aune, 2015), situando-as, portanto, no terreno de disputa por espaços de significação e de auto e hétero representação através da imagem. Fazem-no a partir de imagens visuais, mediadas de diferentes formas, produzidas ou associadas aos atores de
14 Imagens e discursos nos protestos feministas. Introdução Zara Pinto-Coelho, Ana Maria Brandão & Silvana Mota-Ribeiro protesto, que mostram ou registam, de modo mais ou menos explícito, momentos de dissidência no quadro de eventos de protesto circunscritos no tempo e no espaço. Estes eventos são entendidos como instâncias de campanhas de longa duração, motivadas por assuntos e metas de natureza variada, não necessariamente, nem apenas ligadas a assuntos feministas, mas que têm integrado, ao longo da história, a agenda dos movimentos de mulheres. Na exploração das imagens, o interesse está em evidenciar a criatividade expressa na agência atribuída aos participantes mostrados nas mesmas, ora por os mostrarem envolvidos numa determinada ação, ora por via da sua aparência visual, o que equivale a converter formas de subordinação numa afirmação e, assim, abrir caminho para a disrupção e a mudança. Embora oriundos de diferentes campos disciplinares (Artes Visuais e Literatura, Comunicação e Cultura, Estética e Educação), os autores destacam que os diálogos assim encetados pelas imagens com discursos, imaginários, memórias coletivas ou regimes de visualidade são fundamentais para a compreensão dos diferentes sentidos que a imagética de protesto adquire em contextos particulares e para a significância que esta tem para os coletivos de protesto. Esta abertura das formas visuais exige, da parte dos investigadores, uma consciência crítica e reflexiva apurada sobre o papel que, inevitavelmente, desempenham nos processos de produção de significados. É que, como lembra Terrenoire (1985, p. 514), a imagem também funciona como “matriz de uma relação social” onde “emissor, mensagem e recetor estão co-presentes”. Também aqui a coleção de artigos reunidos aponta para possibilidades diversas, com autores a adotarem posturas balizadas por quadros científicos convencionais (fenomenológicos, da etnografia sensorial) e outros a fazê-lo de uma forma autoral/ensaística e assumidamente comprometida, mas nem por isso menos fundamentada. teMaS e CaPítuloS Quando o referente são as imagens de protesto, tendemos a pensar em momentos espetaculares de resistência, retratados em imagens visuais de multidões nas ruas, confrontos com a polícia e militares ou, em oposição, imagens de vigílias silenciosas. Mas há outras formas de ação individual e coletiva de conflito político e de resistência à dominação e à opressão, mais subtis ou encobertas, que funcionam na sombra e que tendem a escapar ao radar dos estudiosos interessados nas imagens dos protestos.
15 Imagens e discursos nos protestos feministas. Introdução Zara Pinto-Coelho, Ana Maria Brandão & Silvana Mota-Ribeiro O caso trazido por Maria Rita Barbosa Piancó Pavão e Mário de Faria Carvalho – o das imagens das arpilleras1 feitas por mulheres chilenas durante o regime de Pinochet –, constitui um desses exemplos. Uma arpillera é uma peça têxtil, tridimensional, composta por pedaços de pano coloridos, geralmente em segunda mão, cosidos em pano de estopa ou serapilheira, completa com uma moldura bordada e que serve para pendurar na parede. As arpilleras, feitas por grupos comunitários em áreas economicamente carentes de Santiago do Chile com o apoio do Vicariato de Solidariedade, uma organização ligada à igreja católica (Adams, 2002), retratavam a vida desses grupos sob o regime. Os autores propõem-se abordar as arpilleras como manifestação artística e cultural. O protesto visual como expressão artística tende a ser associado àquilo que Chaffee (1993) chamou street art, ou arte de rua, materializada sobretudo em murais, posters, placards, faixas ou outros meios. Pensamos, então, numa arte que é pública, espontânea e frequentemente temporal2. Ao abordar as arpilleras, os autores salientam o papel de um meio social de protesto pouco estudado – o têxtil – e tornam visível uma forma de expressão ainda desvalorizada na literatura sobre arte e protesto, ou arte e política, por causa da sua associação ao trabalho doméstico das mulheres e à decoração. Trata-se, além disso, de uma forma de “ativismo” criativo que diz respeito a geografias frequentemente marginalizadas na literatura ocidental. O cruzamento do que tradicionalmente se chama artesanato com o ativismo chamado craftism por Betty Greer (2014) não é novidade. Bordar, costurar ou tricotar e outras formas de trabalho manual têm sido usadas, frequentemente por mulheres, para “falar” das suas experiências quotidianas, criar solidariedades e como forma de ativismo (Parker, 1984). Como refere Sayraphim Lothian (2018), as sufragistas que lutaram em vários países democráticos do mundo, entre o fim do século XIX e o início do século XX, pelo direito das mulheres ao voto, recorreram a essa tática. Fizeram faixas de protesto e faixas costuradas, coseram slogans nas suas roupas e guarda-chuvas, criaram louças com lemas e imagens e outros artefactos para vender e arrecadar dinheiro para a sua causa. Um exemplo recente é o do 1 Para mais informações sobre as arpilleras e outros formas de arte têxtil enquanto expressão política, ver https://cain.ulster.ac.uk/conflicttextiles/textiles/. 2 Alguns destes objetos, graças aos trabalhos de curadoria, de arquivismo histórico, e ao interesse de ativistas e outros atores sociais são alvo de recontextualizações diversas, o que lhes empresta novos significados, inclusive subversivos (Pinto-Coelho, 2020). Em contrapartida, a exposição destes artefactos visuais, depois do protesto, em contextos diversos (Flood & Grindon, 2014), pode funcionar como marcador nostálgico de um passado, de um lugar e de uma comunidade de solidariedade e contribuir para sedimentar imagéticas e discursos de protesto (Nelson, 2003).
16 Imagens e discursos nos protestos feministas. Introdução Zara Pinto-Coelho, Ana Maria Brandão & Silvana Mota-Ribeiro “Projeto Pussyhat”, relacionado com a Marcha das Mulheres, em Washington, em 2017, iniciado por Krista Su e Jayna Zweiman e partilhado via redes sociais, com um apelo para se tricotar ou fazer gorros rosa com orelhas de gato em croché (pussy hats), que se tornaram num símbolo dessa marcha. No caso das arpilleras, defende Jaqueline Adams (2002, p. 46), uma socióloga com trabalho pioneiro sobre o assunto, a razão pela qual estas mulheres optaram por esta forma de expressão não teve apenas a ver com o seu género, nem sequer com o potencial persuasivo e mobilizador das imagens nelas mostradas face aos meios escritos, mas com fatores ligados ao contexto político e ao estatuto económico e educativo das comunidades envolvidas. Adotando uma postura fenomenológica, Maria Rita Barbosa Piancó Pavão e Mário de Faria Carvalho propõem-se, pois, compreender as experiências vivenciadas pelas arpilleristas e a sua relação com o mundo a partir dos elementos simbólicos presentes nas imagens das arpilleras enquanto representações do seu imaginário sociocultural. Neste quadro, as arpilleras surgem, simultaneamente, como instrumentos de memória, de resistência e de género. Recorrendo à teoria do imaginário de Gilberd Durand para identificar os elementos simbólicos recorrentemente usados nas imagens presentes nas tapeçarias, os autores mostram como as narrativas assim produzidas, onde as mulheres compartilham perdas, dores e as marcas da repressão política, além de atos de protesto e estratégias quotidianas de sobrevivência, funcionaram como formas encobertas de denúncia e de resistência (Wright, 2016) no contexto político e social em que foram produzidas. A agência das arpilleristas está presente na mobilização da linguagem e dos meios culturais a que tinham acesso no contexto da ditadura para expor e combater o poder instituído a partir do seu interior, enquanto mães que sofriam pelos seus filhos e maridos. Esta politização dos papéis de género, conforme nos mostra a história contemporânea dos dois lados do Atlântico, foi uma realidade particularmente relevante na chamada primeira vaga de mobilização das mulheres (e.g. Kaplan, 1997). Ao destacar a eficácia política do trabalho simbólico presente nas arpilleras, os autores pretendem contribuir para uma historiografia feminista e sublinhar aspetos de alguma forma secundarizados nas histórias oficiais das democracias latino-americanas. No capítulo seguinte, a discussão sobre o papel das emoções e dos sentimentos na mobilização política feminista continua com Maria Cândida Ferreira de Almeida, que trata a alegria como componente essencial das disposições e sensibilidades profundas que organizam e definem o paradigma existencial da militância feminista contemporânea. As ações de
17 Imagens e discursos nos protestos feministas. Introdução Zara Pinto-Coelho, Ana Maria Brandão & Silvana Mota-Ribeiro protesto discutidas neste capítulo são comummente referidas como estando entre as ações mais notáveis de mobilização transnacional no século XXI das mulheres para contestar hierarquias de género e papéis, por via das redes sociais na internet, que deram origem a identidades coletivas transnacionais. A proposta da autora assenta na análise de três casos de feminismos europeus que têm gerado discussão, debate e desacordo (e.g. Aizman, 2019; Ferreira, 2013; Mendes, 2015; Reger, 2015) um pouco por todo o mundo, nos média, nas redes sociais e na academia: os movimentos “Femen”, “Marcha das Vadias” e “Pussy Riot”. Incidindo nas ações de rua levadas a cabo por estes coletivos, em tudo semelhantes às situações que DeLuca (1999) classifica como “imagens evento”, a autora defende que há um denominador comum a todas elas e que as distingue de outras lutas de rua feministas: a alegria encenada com humor. Esta perspetiva, que encara o gozo, a alegria e o humor como formas de expressão central do feminismo contemporâneo, traz consigo acesos confrontos entre diferentes visões sobre o valor político e moral da alegria versus ira na mobilização feminista (Ahmed, 2010; Kay & Banet-Weiser, 2019). Esses debates mostram que as emoções são socialmente situadas, mudam no tempo e espaço e são parte integrante de códigos sociais e morais que delimitam quem pode/deve, quando e como expressar-se dessa forma (Walker & Kavedžija, 2015). Será possível conciliar a figura da militante feminista “desmancha-prazeres” (feminist killjoys) (Ahmed, 2010, pp. 50-87) com o gozo, a alegria e o humor como estratégias de reivindicação? Talvez a ancoragem nesses elementos seja um signo mais forte do que possa parecer (Zarranz, 2016). Como qualquer outro instrumento semiótico, também o humor, nas ações de protesto, é uma arma com valor político ambivalente, já que, dependendo do contexto, tanto lhe pode ser emprestado um poder emancipatório, como pode ser lido como mera diversão, até mesmo contraproducente, estando, portanto, na base de controvérsias. Não obstante, o humor tem desempenhado, ao longo dos tempos, um papel crucial nas lutas feministas, em especial através de jogos de inversão e do uso da sátira3 (Bing, 2004; Hennefeld, 2018; Ringrose & Lawrence, 2018), não obstante o arquétipo da feminista desmancha-prazeres. Maria Cândida Ferreira de Almeida chama a atenção, precisamente, para a dimensão transgressiva, paródica e festiva do humor usado pelos três coletivos que analisa no seu capítulo. 3 Na língua inglesa, o termo frivolidade tática é comummente usado para referir estas formas de protesto político que incluem o uso de um humor carnavalesco e não confrontativo (Hind, 2015; Kingsmith, 2016).
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