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Diferentes acidentes, mesmas consequências?

Fernandes, Ana Catarina Azevedo

Abstract

A escassez de estudos comparativos, em Portugal, quanto ao impacto psicológico, tanto entre tipologias de acidentes, como entre sexos, salientou a necessidade de investigação neste domínio. Este estudo teve como objetivo conhecer a prevalência, gravidade e perturbação de diferentes acidentes e comparar, em função do acidente e do sexo das vítimas, sintomas psicopatológicos e fatores protetores. Foram selecionadas, através de um serviço de ortopedia e de um questionário online, 127 vítimas de acidentes (rodoviários e outros) que preencheram: PCL-5, BSI, Brief COPE e Escala de Apoio Social. Os resultados mostraram os acidentes rodoviários como os mais prevalentes, graves e perturbadores. Não foram encontradas diferenças estatísticas, entre as vítimas, para a sintomatologia psicológica e fatores protetores. Nas vítimas de acidentes rodoviários, com exceção da ansiedade, o apoio social total correlacionou-se negativamente com a sintomatologia psicopatológica. O coping de evitamento emocional correlacionou-se positivamente com todas as variáveis psicopatológicas. Não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas quanto ao sexo dos participantes, independentemente do tipo de acidente. Este estudo, para além de ter possibilitado conhecer melhor o impacto de diferentes acidentes, salientou a pertinência de futuras investigações que analisem de forma individualizada outras tipologias de acidentes.

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Universidade do Minho Escola de Psicologia Ana Catarina Azevedo Fernandes Diferentes acidentes, mesmas consequências? junho de 2019 UMinho | 2019 Diferentes acidentes, mesmas consequências? Ana Fernandes Ana Catarina Azevedo Fernandes Diferentes acidentes, mesmas consequências? Dissertação de Mestrado Mestrado Integrado em Psicologia Trabalho realizado sob a orientação da Professora Doutora Ângela Maia e da Doutora Filipa Teixeira Universidade do Minho Escola de Psicologia junho de 2019 i DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição-NãoComercial-SemDerivações CC BY-NC-ND https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/ ii Agradecimentos “Estes anos são viagem…” Chegado este momento percebo que é real, já se passaram cinco anos, e esta fase está prestes a terminar. Contudo, acredito que umas fases terminam para que outras ainda melhores comecem e assim será! Os agradecimentos poderiam ser muitos porque de facto tenho muito a agradecer, trilhar este caminho sozinha não tinha sido certamente tão bonito como foi. Quero começar por agradecer à Professora Doutora Ângela Maia, por todos os ensinamentos e transmissão de profissionalismo. À Doutora Filipa Teixeira por toda a disponibilidade e apoio durante esta caminhada. Ao Grupo de Investigação em Experiências Adversas e Traumáticas pelas enormes partilhas. Ao meu Mingos, sem ele este percurso teria sido sem dúvida mais difícil, mesmo quando fazemos faísca. À minha família por estar sempre do meu lado e suportar aqueles dias em que o feitiozinho era ainda mais insuportável. Às minhas estrelinhas, sei que me iluminaram muitas vezes. Às Ninas, às minhas Ninas, por serem tão especiais e por terem permitido que pudesse fazer parte da vida delas ao longo destes cinco anos. Obrigada por nunca terem desistido de mim! Levo-vos para a vida. Agradecer aos que sei que estarão sempre lá mesmo que os encontros não sejam constantes. Ao movie club! Àqueles que tornaram muitos dos meus dias mais leves e felizes. Bastava o estar perto mesmo que não houvesse troca de palavras. E não faria sentido terminar sem agradecer às pessoas que gentilmente aceitaram participar neste estudo porque sem elas nada disto teria sido possível. Obrigada! iii DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. iv Diferentes acidentes, mesmas consequências? Resumo A escassez de estudos comparativos, em Portugal, quanto ao impacto psicológico, tanto entre tipologias de acidentes, como entre sexos, salientou a necessidade de investigação neste domínio. Este estudo teve como objetivo conhecer a prevalência, gravidade e perturbação de diferentes acidentes e comparar, em função do acidente e do sexo das vítimas, sintomas psicopatológicos e fatores protetores. Foram selecionadas, através de um serviço de ortopedia e de um questionário online, 127 vítimas de acidentes (rodoviários e outros) que preencheram: PCL-5, BSI, Brief COPE e Escala de Apoio Social. Os resultados mostraram os acidentes rodoviários como os mais prevalentes, graves e perturbadores. Não foram encontradas diferenças estatísticas, entre as vítimas, para a sintomatologia psicológica e fatores protetores. Nas vítimas de acidentes rodoviários, com exceção da ansiedade, o apoio social total correlacionou-se negativamente com a sintomatologia psicopatológica. O coping de evitamento emocional correlacionou-se positivamente com todas as variáveis psicopatológicas. Não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas quanto ao sexo dos participantes, independentemente do tipo de acidente. Este estudo, para além de ter possibilitado conhecer melhor o impacto de diferentes acidentes, salientou a pertinência de futuras investigações que analisem de forma individualizada outras tipologias de acidentes. Palavras-chave : acidentes, vítimas, psicopatologia, apoio social, coping v Different accidents, same consequences? Abstract In Portugal, comparative studies regarding the psychological impact of different types of accidents and its vicitms’ sex, are rare which emphasized the need for research in this domain. This study aimed to know the prevalence, severity and impairment of different types of accidents and to compare psychopathologic symptoms and protective factors, according to accident type and victims’ sex. A sample of 127 victims of accidents (road-related and others) was selected from an orthopaedics consult and an online questionnaire. Participants filled out: PCL-5, BSI, Brief COPE and the Social Support Scale. Results showed road accidents as the most prevalent, severe, and disturbing. No significant differences were found between victims regarding psychological symptoms and protective factors. Within victims of road accidents, total social support was negatively correlated with psychopathologic symptomatology, with exception of anxiety. Coping through emotional avoidance was positively correlated with all psychopathological variables. No significant differences were found between male and female participants, regardless accident type. This study not only broadened the existing knowledge about the impact of different types of accidents, but also emphasized the importance of future research analysing separately each type of accidents. Keywords : accidents, victims, psychopathology, social support, coping vi Índice Introdução .......................................................................................................................................... 8 Método ............................................................................................................................................. 13 Participantes ................................................................................................................................ 13 Instrumentos ................................................................................................................................ 13 Procedimento ............................................................................................................................... 16 Análise dos dados ......................................................................................................................... 17 Resultados ....................................................................................................................................... 17 Prevalência de Acidentes, Perceção de Gravidade e Grau de Perturbação ...................................... 17 Acidente perturbador .................................................................................................................... 18 Psicopatologia e fatores protetores ................................................................................................ 18 Associação entre fatores protetores e psicopatologia em função do tipo de acidente ...................... 21 Comparação entre sexos em função do acidente ........................................................................... 21 Discussão......................................................................................................................................... 21 Referências ...................................................................................................................................... 29 Anexo - Parecer da Comissão de Ética da Universidade do Minho ...................................................... 33 Índice de Tabelas Tabela 1. Caracterização sociodemográfica dos participantes ............................................................ 14 Tabela 2. Caracterização dos acidentes quanto à prevalência, perceção de gravidade e grau de perturbação ...................................................................................................................................... 19 Tabela 3. Diferenças entre acidentes relativamente aos sintomas de PSPT e Sintomatologia Psicopatológica ................................................................................................................................ 20 Tabela 4. Diferenças quanto ao Apoio Social e às Estratégias de Coping em função do tipo de acidente ........................................................................................................................................................ 20 Tabela 5. Associação entre os sintomas de Sintomatologia Psicopatológica, Apoio Social e Estratégias de Coping ............................................................................................................................................. 22 Tabela 6. Comparação entre sexos quanto aos sintomas de PSPT, somatização, ansiedade e depressão ........................................................................................................................................................ 23 vii Tabela 7. Comparação entre sexos relativamente ao apoio social e estratégias de coping em função do tipo de acidente ................................................................................................................................ 24 PSICOPATOLOGIA, APOIO SOCIAL E COPING EM DIFERENTES TIPOS DE ACIDENTES 14 Questionário sociodemográfico e de caracterização da experiência ao nível dos diferentes acidentes. O questionário iniciava-se com a recolha de dados sociodemográficos dos participantes, tais como, idade, sexo, habilitações literárias, estado civil e ocupação. Tabela 1 Caracterização sociodemográfica dos participantes (n = 127) Variáveis n (%) Estado Civil Solteiro(a) 72 (56.7) Casado(a)/União de facto 45 (35.4) Divorciado(a) 10 (7.9) Ocupação Estudante 38 (29.9) Empregado(a) 64 (50.4) Desempregado(a) 9 (7.1) Trabalhador-estudante 9 (7.1) De baixa 3 (2.4) Reformado 4 (3.1) Habilitações literárias Igual ou inferior ao 12º ano 32 (25.2) Curso Profissional 9 (7.1) Licenciatura 38 (29.9) Mestrado 28 (22.0) Doutoramento 19 (15.0) Outra: Pós-graduação 1 (.8) Posteriormente, era-lhes questionado se já tinham estado envolvidos em algum acidente. No caso de resposta afirmativa, e de forma a obtermos uma caracterização dos acidentes experienciados pelos indivíduos, pedia-se que indicassem, de entre o grupo de acidentes apresentados (rodoviários, de trabalho, desportivos, domésticos e de lazer) todos aqueles que já tivessem vivenciado. Posto isto, era solicitado que os avaliassem quanto à perceção de gravidade com base numa escala likert de quatro PSICOPATOLOGIA, APOIO SOCIAL E COPING EM DIFERENTES TIPOS DE ACIDENTES 15 pontos (0 = nada grave e 3 = muitíssimo perturbador) e quanto ao grau de perturbação, segundo uma escala likert de cinco pontos (0 = nada perturbador e 4 = muitíssimo perturbador). De seguida, requiria-se que, de todos os acidentes anteriormente identificados, indicassem aquele que consideravam ser o mais perturbador, descrevendo não só o acidente, como também o que tinha sido mais perturbador na experiência. Futuramente, era pedido que respondessem às questões subsequentes sempre em função do acidente indicado. As questões tiveram o objetivo de recolher mais informações acerca do acidente como causas, perceção de perigo e informações clínicas posteriores ao acontecimento. Para cada resposta afirmativa foi avaliado o grau de perturbação com base numa escala de likert de quatro pontos, variando entre zero (nada perturbador) e quatro (muitíssimo perturbador). Posttraumatic Stress Disorder Checklist for DSM-5 (PCL-5; Weathers et al., 2013, versão portuguesa de Ferreira, Ribeiro, Santos, & Maia, 2016). Instrumento de autorrelato, com 20 itens, que pretendeu avaliar a existência de sintomas para o diagnóstico de PSPT, segundo o DSM-5. Os itens encontram-se agrupados em quatro grupos de sintomas (evitamento; intrusivos; alterações na cognição e humor e; alterações na ativação e reatividade). Foi preenchido com base no acidente que a pessoa considerou como o mais perturbador psicologicamente, a partir de uma escala de likert que variava entre zero (“Nada”) e quatro (“Extremamente"). Neste estudo o alfa de Cronbach foi de .95. Brief COPE (Carver, 1997; versão portuguesa Ribeiro & Rodrigues, 2004). Pretendeu avaliar as estratégias empregues pelas pessoas para lidarem com situações stressantes, nomeadamente, o acidente percebido e identificado como o mais perturbador. Este instrumento é constituído por 28 itens, agrupados em 14 dimensões. Este agrupamento foi concetualizado em três formas diferentes de coping: coping ativo emocional (expressão de sentimentos, reinterpretação positiva, humor, aceitação e suporte emocional), coping focado no problema ( coping ativo, planeamento, suporte instrumental e religião) e coping de evitamento emocional (autodistração, negação, desinvestimento comportamental, autoculpabilização e uso de substâncias; Schnider, Elhai, & Gray, 2007). As respostas foram medidas através de uma escala de likert de quatro pontos, variando entre zero (“Nunca fiz isto”) e três (“Fiz isto sempre”). Foram obtidos valores de alfa de Cronbach entre .84 e .87, para as três escalas avaliadas. Brief Symptom Inventory (BSI-Brief Symptom Inventory; Derogatis, 1982; versão portuguesa de Canavarro, 1999). Avalia nove dimensões de psicopatologia e é constituído por 53 itens. Porém, neste estudo foram apenas utilizados 19 itens, correspondentes às dimensões de somatização, ansiedade e depressão. Este instrumento foi preenchido com base na ocorrência, ou não, dos sintomas referenciados, durante a última semana e de acordo com uma escala de likert de cinco pontos, em que zero corresponde PSICOPATOLOGIA, APOIO SOCIAL E COPING EM DIFERENTES TIPOS DE ACIDENTES 16 a nunca e quatro a muitíssimas vezes. Verificou-se uma boa consistência interna nas três escalas examinadas, com valores de alfa de Cronbach a variar entre .87 e .98. Escala de Apoio Social (Matos & Ferreira, 2000). É uma escala de autorresposta que pretendeu perceber como o indivíduo perceciona o seu apoio social, mais especificamente o apoio informativo (conselho e informação que recebe para a resolução de problemas), emocional (sentimento de apoio e segurança) e instrumental (apoio recebido para a resolução de problemas concretos). É formada por 16 itens, avaliados numa escala tipo likert de cinco pontos, em que “um” corresponde a “não concordo”, equivalendo a níveis baixos de apoio social e, “cinco” corresponde a “concordo muitíssimo”, respeitante a níveis altos de apoio social. Excetuam-se os itens 2; 5; 12; 13; 14 e 16 que apresentam cotação inversa. Verificou-se uma boa consistência interna nas três escalas examinadas, com valores de alfa de Cronbach a variar entre .67 e .81. Procedimento Depois de obtido parecer positivo da Comissão de Ética da Universidade do Minho, da Comissão de Ética do hospital contactado e do respetivo diretor do Serviço de Ortopedia, procedemos ao contacto oficial com este último, no sentido de se acordar como seria realizada a abordagem dos participantes. O recurso ao Serviço de Ortopedia surgiu pela maior probabilidade de encontrarmos vítimas de acidentes que, devido às lesões sofridas, careceram de acompanhamento follow up desta especialidade médica, mesmo que não necessitassem de internamento . A abordagem aos participantes efetuou-se nos dias em que estes tinham consulta. Primeiramente, foi efetuado um breve enquadramento do estudo ao sujeito e, caso este concordasse participar, entregava-se uma declaração de consentimento informado na qual, para além de informações referentes à investigação, assegurava-se o anonimato e confidencialidade dos dados fornecidos. Posteriormente, administrava-se o caderno de questionários, reforçando-se a abertura e disponibilidade para o esclarecimento de questões a qualquer momento. O questionário online foi elaborado com o auxílio do software esurvey creator, sendo similar ao questionário administrado presencialmente. Tal como já foi referido, este teve o objetivo principal de alcançar vítimas de acidentes que não necessitaram de qualquer tipo de acompanhamento médico após o sucedido. Todavia, sujeitos que necessitaram deste acompanhamento poderiam, igualmente, responder ao questionário. A partilha do mesmo ocorreu através de diversas plataformas online e contactos próximos. PSICOPATOLOGIA, APOIO SOCIAL E COPING EM DIFERENTES TIPOS DE ACIDENTES 17 Análise dos dados Os dados foram analisados com recurso ao software SPSS versão 25.0. Primeiramente, realizamos análises descritivas para caracterizar a amostra e as diferentes variáveis em estudo, identificando-se as medidas de tendência central e de dispersão. Posteriormente, efetuamos uma análise exploratória dos dados para avaliar a distribuição das variáveis e verificar se estariam cumpridos os pressupostos para a utilização de testes paramétricos. Verificado que a nossa amostra não cumpria esses pressupostos, recorremos ao teste de Mann-Whitney (não paramétrico) para testar as diferenças entre o tipo de acidente sofrido e entre sexos quanto ao desenvolvimento de sintomas de PSPT, somatização, ansiedade e depressão assim como, relativamente aos fatores protetores (apoio social e estratégias de coping ). Para explorar a associação entre o desenvolvimento de sintomas de PSPT, somatização, ansiedade, depressão e os fatores de proteção para cada um dos tipos de acidentes usamos a correlação de Spearman . Foram utilizados como valores de significância, p < .01 e p < .05. Resultados Prevalência de Acidentes, Perceção de Gravidade e Grau de Perturbação Na tabela 2 encontram-se os dados relativos à prevalência dos acidentes e à perceção de gravidade e de perturbação atribuída pelos participantes. Relativamente à prevalência dos acidentes sofridos, a maioria das pessoas identificou ter vivenciado pelo menos quatro dos cinco acidentes apresentados. Os acidentes rodoviários foram os relatados com mais frequência (92.2%), seguindo-se os acidentes domésticos (88.1%), os de lazer (66.9%), os desportivos (64.6%) e, por último, os acidentes de trabalho (44.1%). Quanto à perceção de gravidade, todos os acidentes foram maioritariamente avaliados como sendo mais ou menos graves , sendo a percentagem mais elevada para as vítimas de acidentes domésticos (56.7%), seguindo-se as de acidentes rodoviários (52.0%), acidentes desportivos (41.8%), acidentes de lazer (35.4%) e, por fim, as de acidentes de trabalho (29.1%). A segunda opção mais selecionada foi a nada grave para todos os acidentes , excetuando-se os rodoviários em que o segundo grupo mais frequente foi muito grave a muitíssimo grave (agrupados = 24.4%). Relativamente ao grau de perturbação, a maioria das tipologias de acidentes foi considerada nada perturbadora, com 33.9% para os domésticos, 31.5% para os de lazer, 29.1% para os acidentes desportivos, 20.5% para os de trabalho e 11.8% para os rodoviários . Nesta avaliação, salientam-se, contudo, os acidentes rodoviários: não só foram os que apresentaram menor percentagem para a opção nada perturbador , como foram os mais frequentemente avaliados como perturbadores em todas as PSICOPATOLOGIA, APOIO SOCIAL E COPING EM DIFERENTES TIPOS DE ACIDENTES 18 opções de perturbação apresentadas (29.1% para um pouco perturbador; 26.8% para mais ou menos perturbador ; 16.5% para muito perturbador e; 9.4% para muitíssimo perturbador ). Destacam-se também os acidentes domésticos e os desportivos que, a seguir aos rodoviários, foram os que apresentaram maior percentagem para a opção um pouco perturbador , com 26.8% e 22.8% respetivamente. Acidente perturbador Dos 127 participantes, seis identificaram mais do que um acidente como perturbador e quatro indicaram que nada tinha sido perturbador no acidente sofrido (ausência do critério A para o diagnóstico de PSPT). Dado não preencherem os critérios necessários para prosseguir na análise, foram excluídos, sendo a amostra constituída, a partir deste momento, por 117 participantes. Destes, 85 (72.6%) identificaram e descreveram acidentes rodoviários como os mais perturbadores, 11 (9.4%) acidentes de lazer, 10 (8.5%) acidentes domésticos, 5 (4.3%) acidentes desportivos e acidentes de trabalho e 1 (.9) não permitiu identificar com clareza o tipo de acidente sofrido. Devido à diferença numérica verificada entre as diferentes categorias de acidentes, inviabilizando comparações adequadas, optamos por organizar os acidentes considerados perturbadores em dois grupos, nomeadamente, o grupo dos acidentes rodoviários (AR; n = 85) e o grupo dos outros acidentes, constituído pelos acidentes de trabalho, desportivos, domésticos e de lazer ( n = 32). As análises subsequentes foram efetuadas com base nestes dois grupos. O acidente omisso foi englobado no grupo das vítimas de outros acidentes, por ser certo não se tratar de um acidente rodoviário, correspondendo por isso a qualquer um dos outros acidentes. Psicopatologia e fatores protetores No que toca ao total de sintomas de PSPT, o grupo das vítimas de AR apresentou uma média de 8.21, sendo que 5.9% preenchiam os critérios para o diagnóstico provisório de PSPT. Por oposição, o grupo das vítimas dos outros acidentes exibiu uma média de 7.97 ( DP =12.93), e apenas 1% preenchia os critérios para o diagnóstico provisório de PSPT. Não se verificaram, contudo, diferenças estatisticamente significativas ao nível da sintomatologia psicopatológica entre o grupo dos AR e o grupo dos outros acidentes (Tabela 3). No que concerne aos fatores protetores, também não se verificaram diferenças estatisticamente significativas entre ambos os grupos (Tabela 4). PSICOPATOLOGIA, APOIO SOCIAL E COPING EM DIFERENTES TIPOS DE ACIDENTES 19 Tabela 2 Caracterização dos acidentes quanto à prevalência, perceção de gravidade e grau de perturbação (n = 127) Acidentes rodoviários n (%) Acidentes de trabalho n (%) Acidentes desportivos n (%) Acidentes domésticos n (%) Acidentes de lazer n (%) Prevalência Acidentes 117 (92.2) 56 (44.1) 82 (64.6) 112 (88.1) 85 (66.9) Perceção gravidade Nada grave 21 (16.5) 17 (13.4) 16 (12.6) 30 (23.6) 25 (19.7) Mais ou menos grave 66 (52.0) 37 (29.1) 53 (41.8) 72 (56.7) 45 (35.4) Muito grave 20 (15.7) 11 (8.7) 12 (9.4) 8 (6.3) 14 (11.0) Muitíssimo grave 11 (8.7) 1 (.8) 4 (3.1) 1 (.8) 2 (1.6) Grau de perturbação Nada perturbador 15 (11.8) 26 (20.5) 37 (29.1) 43 (33.9) 40 (31.5) Um pouco perturbador 37 (29.1) 17 (13.4) 29 (22.8) 34 (26.8) 19 (15.0) Mais ou menos perturbador 34 (26.8) 17 (13.4) 10 (7.9) 19 (15.0) 16 (12.6) Muito perturbador 21 (16.5) 9 (7.1) 10 (7.9) 13 (10.2) 6 (4.7) Muitíssimo perturbador 12 (9.4) 2 (1.6) 1 (.8) 2 (1.6) 4 (3.1) PSICOPATOLOGIA, APOIO SOCIAL E COPING EM DIFERENTES TIPOS DE ACIDENTES 20 Tabela 3 Diferenças entre acidentes relativamente aos sintomas de PSPT e Sintomatologia Psicopatológica Acidentes Rodoviários ( n = 85) Outros Acidentes ( n = 32) M (DP) M (DP) U p PSPT TOTAL 8.21 (12.38) 7.97 (12.93) 1280.0 .689 Somatização .26 (.49) .40 (.72) 1231.5 .363 Ansiedade .43 (.62) .54 (.73) 1238.5 .613 Depressão .45 (.76) .61 (.94) 1310.0 .748 Nota . PSPT TOTAL = Total de sintomas de Perturbação de Stress Pós-Traumático Tabela 4 Diferenças quanto ao Apoio Social e às Estratégias de Coping em função do tipo de acidente Acidentes Rodoviários ( n = 85) Outros Acidentes ( n = 32) M (DP) M (DP) U p Apoio informativo 3.85 (.82) 3.91 (.74) 1347.5 .939 Apoio emocional 4.20 (.78) 4.40 (.52) 1180.5 .268 Apoio instrumental 4.25 (.79) 4.25 (.68) 1291.5 .671 AS Total 12.51 (1.38) 12.27 (2.15) 1357.0 .985 Coping focado no problema .58 (.56) .58 (.50) 1294.5 .758 Coping evitamento emocional .27 (.38) .19 (.28) 1173.5 .403 Coping ativo emocional .76 (.57) .71 (.62) 1299.0 .856 Nota . AS Total = Total de Apoio Social PSICOPATOLOGIA, APOIO SOCIAL E COPING EM DIFERENTES TIPOS DE ACIDENTES 21 Associação entre fatores protetores e psicopatologia em função do tipo de acidente Os resultados das correlações podem ser consultados em maior detalhe na Tabela 5. Para os participantes do grupo dos AR, uma maior perceção de apoio social estava associada a menos sintomas de PSPT, de somatização e de depressão, sendo o apoio emocional aquele que apresentou as correlações mais fortes a este nível. Não foram encontradas associações estatisticamente significativas entre o apoio social e os sintomas de ansiedade. Quanto às estratégias de coping , foram encontradas para o coping focado no problema e para o coping de evitamento emocional correlações positivas e estatisticamente significativas com todas as variáveis psicopatológicas. O coping ativo emocional apenas não se correlacionou com os sintomas somáticos. No grupo dos outros acidentes, não foram encontradas correlações significativas entre o total de apoio social e nenhuma das variáveis psicopatológicas. Ao nível das estratégias de coping , o coping de evitamento emocional correlacionou-se positivamente com todos os sintomas psicopatológicos, enquanto que o coping focado no problema e o coping ativo emocional apenas se correlacionaram com o total de sintomas de PSPT. Não foram encontradas correlações estatisticamente significativas tanto para o coping focado no problema, como para o coping ativo emocional quanto aos sintomas de somatização, ansiedade e depressão. Comparação entre sexos em função do acidente Relativamente aos sintomas de PSPT, somatização, ansiedade e depressão, não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas entre sexos quanto às variáveis em estudo, tanto no grupo dos AR, como no grupo dos outros acidentes (Tabela 6). Em relação aos fatores protetores, também não se verificaram diferenças entre sexos, para ambos os grupos de acidentes (Tabela 7). Discussão A presente investigação procurou estudar o relato de vítimas de diferentes tipos de acidentes quanto à prevalência, gravidade e grau de perturbação dos mesmos. Para além disso, pretendeu-se comparar os acidentes, não só entre si, mas também em função do sexo das vítimas, psicopatologia (sintomas de PSPT, somatização, ansiedade e depressão), estratégias de coping e apoio social. Relativamente à prevalência de acidentes, verificamos que os acidentes rodoviários foram os mais reportados, apoiando a nossa hipótese, ao contrário do que é relatado pelo GEP (2019) que aponta os acidentes de trabalho como os mais frequentes. Uma possível explicação para esta divergência pode dever-se à nossa amostra, apesar de constituída maioritariamente PSICOPATOLOGIA, APOIO SOCIAL E COPING EM DIFERENTES TIPOS DE ACIDENTES 22 Tabela 5 Associação entre os sintomas de Sintomatologia Psicopatológica, Apoio Social e Estratégias de Coping AI AE AINS AS Total CFP CEE CAE PSPT TOTAL SOM ANS DEP AI - .645** .155 .756** -.008 -.133 .038 -.097 .122 .191 -.087 AE .632** - .198 .734** .105 -.087 .076 -.105 -.207 -.169 -.423* AINS .558** .630** - .664** .117 -.048 .217 .056 -.275 -.215 -.150 AS Total .841** .862** .844** - -.066 -.316** -.110 .005 -.171 -.093 -.259 CFP -.004 -.078 -.101 .139 - .758** .831** .732** .260 .266 .224 CEE -.214 -.342 -.321** -.040 .591** - .582** .624** .447* .360* .434* CAE -.033 -.138 -.083 .202 .797** .598** - .679** .091 .174 .160 PSPT TOTAL -.222* -.373** -.214 -.288** .532** .615** .555** - .272 .269 .291 SOM -.191 -.294** -.236* -.234* .249* .369** .181 .241* - .824** .640** ANS -.157 -.213 -.212 -.189 .401* .414** .276* .309** .675** - .842** DEP -.244* -.320** -.289** -.269* .331** .454** .225* .335** .717** .732** - Nota. ( n = 117). Intercorrelações para as vítimas de acidentes rodoviários ( n = 85) são representadas abaixo da diagonal e as intercorrelações para as vítimas de outros acidentes (n = 32) são apresentadas acima da diagonal. As intercorrelações das variáveis em estudo são aquelas exibidas a negrito. AI = Apoio Informativo; AE = Apoio Emocional; AINS = Apoio Instrumental; AS Total = Total de Apoio Social; CFP = Coping focado no problema; CEE = Coping evitamento emocional; CAE = Coping ativo emocional; PSPT TOTAL = Total de sintomas de Perturbação de Stress Pós-Traumático; DEP = Depressão; ANS = Ansiedade; SOM = Somatização. *p < .05; **p < .01 PSICOPATOLOGIA, APOIO SOCIAL E COPING EM DIFERENTES TIPOS DE ACIDENTES 23 Tabela 6 Comparação entre sexos quanto aos sintomas de PSPT, somatização, ansiedade e depressão Acidentes Rodoviários Outros Acidentes Feminino ( n = 54) Masculino ( n = 31) Feminino ( n = 20) Masculino ( n = 12) M (DP) M (DP) U p M (DP) M (DP) U p PSPT TOTAL 8.58 (11.58) 7.58 (13.82) 798.0 .825 10.10 (15.23) 4.42 (6.96) 111.0 .722 Somatização .30 (.50) .20 (.47) 753.0 .364 .48 (.84) .26 (.47) 110.5 .683 Ansiedade .47 (.61) .35 (.63) 677.5 .135 .61 (.81) .43 (.60) 111.5 .917 Depressão .46 (.74) .44 (.80) 815.0 .833 .73 (1.05) .43 (.73) 110.5 .698 Nota. PSPT TOTAL = Total de sintomas de Perturbação de Stress Pós-Traumático 30 Direção Geral de Saúde. (2019). Programa Nacional de Prevenção de Acidentes . Disponível em https://www.dgs.pt/paginas-de-sistema/saude-de-a-a-z/programa-nacional-de-prevencao-deacidentes.aspx Folkman, S., & Lazarus, R. S. (1985). If it changes it must be a process: A study of emotion and coping during three stages of a college examination. Journal of Personality and Social Psychology , 48, 150-170. Freedman, S. A., Gluck, N., Tuval-Mashiach, R., Brandes, D., Peri, T., & Shalev, A. Y. (2002). Gender differences in responses to traumatic events: A prospective study. Journal of Traumatic Stress , 15 (5), 407–413. https://doi.org/10.1023/A:1020189425935 Fullerton, C., Ursano, R., Epstein, R., Crowley, B., Vance, K., Kao, T., … Baum, A. (2001). Gender differences in posttraumatic stress disorder after motor vehicle accidents. The American Journal of Psychiatry , 158, 1486-1491. Gabinete de Estratégia e Planeamento. 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