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Universidade do Minho Instituto de Ciências Sociais Débora Jardim Jardim “VOCÊ É MINHA PESSOA FAVORITA”: UM OLHAR SOBRE A SÉRIE HEARTSTOPPER E A REPRESENTAÇÃO DO AMOR ENTRE PERSONAGENS LGBTQIAPN+ EM SÉRIES E FILMES DA CULTURA POP janeiro 2025 UMinho | 2025 Débora Jardim Jardim “VOCÊ É MINHA PESSOA FAVORITA”: UM OLHAR SOBRE A SÉRIE HEARTSTOPPER E A REPRESENTAÇÃO DO AMOR LGBTQIAPN+ EM SÉRIES E FILMESDACULTURAPOP
Débora Jardim Jardim “VOCÊ É MINHA PESSOA FAVORITA”: UM OLHAR SOBRE A SÉRIE HEARTSTOPPER E A REPRESENTAÇÃO DO AMOR ENTRE PERSONAGENS LGBTQIAPN+ EM SÉRIES E FILMES DA CULTURA POP Dissertação de Mestrado Mestradol em Comunicação, Arte e Cultura Trabalho efetuado sob a orientação do(a) Professor(a) Doutor(a) Ece Canlı Professor(a) Doutor(a) Silvana Ferreira da Silva Mota Ribeiro Universidade do Minho Instituto de Ciências Sociais janeiro de 2025
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2 DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar a autora, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Atribuição-NãoComercial CC BY-NC https://creativecommons.org/licenses/by-nc/4.0/
3 AGRADECIMENTOS A minha filha Ariel e ao meu filho Tristan, por terem a paciência de me ensinar todos os dias, de me compreender e de estar junto, mesmo longe. Em qualquer lugar do mundo eu reconheceria vocês como parte de mim. A melhor e mais bonita. Vocês são nosso orgulho. Essa pesquisa é uma homenagem singela, mas, já aviso, que nada do que eu fizer será suficiente para expressar o que sinto. Vocês trouxeram cor e ressignificaram a minha existência. Ao Rafaelle, por sempre tornar tudo possível e por ter me proporcionado as melhores pessoinhas da minha vida. Essa conquista é nossa. À minha nora Isabela e ao meu genro Wes, por partilharem a vida com minha filha e meu filho e por me fazerem feliz. A mulher da minha vida, Janaína, por me mostrar que o amor tem diversas formas. A minha família, por me apoiar; aos amigos e amigas que me incentivaram, vocês foram parte importante de todo esse processo. A todas, todos e todes que conheci quando tive a honra de fazer parte do Centro de Informação e Documentação do Grupo de Apoio à Prevenção da AIDS – GAPA/RS e que conheceram meu filho ainda na barriga. Aos professores e professoras pelos ensinamentos no decorrer do curso, a Profa. Dra. Susana Noronha por me inspirar a pesquisar sobre algo me emocionasse e me mostrar o que é a Semiótica. Aos funcionários e funcionárias da UMinho que, de uma forma ou outra, me atenderam. As minhas orientadoras: a maravilhosa Profa. Dra. Ece Canli, por perceber e instigar minha forma de “criação”; a querida Profa. Dra. Silvana Mota-Ribeiro pelos ensinamentos e a Profa. Dra. Rita Maria Gonçalves Ribeiro pelo constante cuidado e apoio. Aos pesquisadores e pesquisadoras, mesmo os(as) que já nos fazem falta, por me proporcionarem textos que muito me emocionaram e desafiaram, gostaria de ter mais palavras para expressar o quanto suas pesquisas foram e são essenciais. Aos youtubers e aos participantes dos comentários que contribuíram na construção dessa pesquisa, por partilharem suas experiências e vivências. E a todas as pessoas que lutaram e resistiram e que, mesmo sem saber, fizeram parte dessa caminhada. Meu muito obrigada!
4 DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho.
5 Flutua (part. Liniker) Johnny Hooker O que vão dizer de nós? Seus pais, Deus e coisas tais Quando ouvirem rumores, do nosso amor Baby, eu já cansei de me esconder Entre olhares, sussurros com você Somos dois homens e nada mais Eles não vão vencer Baby, nada há de ser, em vão Antes dessa noite acabar Dance comigo, a nossa canção E flutua, flutua Ninguém vai poder, querer nos dizer como amar E flutua, flutua Ninguém vai poder, querer nos dizer como amar Entre conversas soltas pelo chão Teu corpo teso, duro, são E o teu cheiro que ainda ficou na minha mão Um novo tempo há de vencer Pra que a gente possa florescer E, baby, amar, amar, sem temer Eles não vão vencer Baby, nada há de ser, em vão Antes dessa noite acabar Baby, escute, é a nossa canção E flutua, flutua Ninguém vai poder, querer nos dizer como amar E flutua, flutua Ninguém vai poder, querer nos dizer como amar
6 “VOCÊ É MINHA PESSOA FAVORITA”: UM OLHAR SOBRE A SÉRIE HEARTSTOPPER E A REPRESENTAÇÃO DO AMOR ENTRE PERSONAGENS LGBTQIAPN+ EM SÉRIES E FILMES DA CULTURA POP RESUMO A presente dissertação tem por objetivo principal, analisar a representação do amor entre personagens LGBTQIAPN+ em séries e filmes da cultura pop, sobretudo na primeira temporada da série Heartstopper (Netflix, 2022-2023). O tema central justifica-se pela relevância do audiovisual e da mídia na representação dessas identidades. Como objeto de estudo dessa pesquisa, foram selecionadas também as séries The 100 (The CW, 2014-2020) e Warrior Nun (Netflix, 2020-2022), buscando-se mostrar a diferença existente entre elas na abordagem das representações românticas. As três séries foram escolhidas por terem causado uma grande movimentação do público nas redes sociais. No decorrer do desenvolvimento da pesquisa, procurou-se contextualizar como o amor entre personagens LGBTQIAPN+ foi representado durante o passar do tempo em produções audiovisuais, bem como sua influência na construção e mesmo desenvolvimento de identidades, principalmente entre jovens LGBTQIAPN+. Fundamentada nesse histórico, foram abordadas duas situações específicas: as que corroboram o termo Bury Your Gays (BYG) e as que se utilizam de queerbaiting . Discorreu-se também sobre como a comunidade LGBTQIAPN+ é tratada em diversos países, principalmente no Brasil. A estrutura metodológica escolhida para esse estudo se dá através de uma abordagem qualitativa, a partir de uma pesquisa documental. Embasada na observação desses documentos, no conhecimento situado dos participantes da pesquisa e no referencial teórico que abrange a representação de personagens LGBTQIAPN+ em produções audiovisuais, bem como a análise semiótica e a linguagem cinematográfica; foi realizada uma análise mais aprofundada da temporada 1 da série Heartstopper e de algumas cenas e episódios específicos das séries The 100 e Warrior Nun. Para verificar-se o tipo de representação das personagens LGBTQIAPN+ nas referidas séries serão utilizados os critérios elaborados a partir do “Teste Vito Russo” e do “Teste de Bechdel” e que, somados ao “Teste de Representatividade” de Souza, espelham os questionamentos da pesquisadora. Para perceber a recepção de uma parte do público à série Heartstopper , serão analisados os comentários postados em seis canais do Youtube a partir de críticas feitas à série: quatro canais de cultura pop apresentados por pessoas declaradamente LGBTQIAPN+ e dois canais que abordam cinema e cultura em geral. As interpretações e observações sobre os comentários serão feitas com base na metodologia de análise de conteúdo e da análise de discurso, bem como a técnica de amostragem intencional ou por julgamento e a não probabilística intencional. Nas considerações finais constatou-se, respaldada na análise dos objetos que compõem o corpus dessa pesquisa, a importância de representações positivas de personagens LGBTQIAPN+ e que séries como Heartstopper trazem discussões que possibilitam essas representações em uma construção na qual a participação do público, para garantia e manutenção das conquistas, é fundamental. PALAVRAS-CHAVE: Amor LGBTQIAPN+; Bury Your Gays; Produção Audiovisual; Queerbaiting; Representação LGBTQIAPN+.
13 Figura 73: Nick em conversa com Charlie; e Nick pesquisando sobre sexualidade ........................... 110 Figuras 74 e 75: Nick imagina a reação Charlie, e não consegue ajudá-lo durante o jogo ................. 111 Figura 76: A reação de Charlie na conversa com Ben sobre namoro .............................................. 112 Figuras 77 e 78: Nick começa a perceber seus sentimentos por Charlie.......................................... 113 Figuras 79 e 80: A necessidade do toque entre os meninos ............................................................ 113 Figuras 81 e 82: Os mindinhos de Charlie e Nick se encontram ...................................................... 114 Figuras 83 e 84: Os mindinhos de Charlie e Nick na festa e no cinema .......................................... 114 Figuras 85 e 86: Os mindinhos de Wilhelm e Simon (esquerda), e Connor e Jude (direita) ............... 115 Figuras 87, 88 e 89: Os mindinhos de Luisita e Amelia ................................................................... 115 Figuras 90 e 91: As mãos de Nick e Charlie sob a mesa; e os dois na frente de todos ..................... 116 Figuras 92 e 93: Com as mãos dadas, o que estava em segredo é revelado .................................... 116 Figuras 94 e 95: Os abraços de Nick e Charlie ................................................................................ 117 Figuras 96 e 97: Os olhares entre Charlie e Nick ........................................................................... 118 Figuras 98 e 99: O olhar de procura; e o olhar que não abandona e quer compreender .................. 118 Figuras 100 e 101: O olhar de encantamento e de ser cuidado ....................................................... 119 Figuras 102 e 103: O olhar depois do beijo ..................................................................................... 119 Figura 104: O olhar de Nick para Charlie no episódio final .............................................................. 120 Figuras 105 e 106: Nick observa os colegas no cinema .................................................................. 120 Figuras 107, e 108: O olhar dos colegas em Nick; e Nick tenso com Imogen .................................. 121 Figura 109: Banner do Canal “Isabela Boscov” ............................................................................... 149 Figura 110: Banner do Canal “Lorelay Fox” .................................................................................... 150 Figura 111: Banner do Canal “Jessica Ballut” ................................................................................. 151 Figura 112: Banner do Canal “Gay Nerd” ....................................................................................... 152 Figura 113: Banner do Canal “Carol Moreira” ................................................................................. 153 Figura 114: Banner do Canal “PH Santos” ..................................................................................... 154
14 1. INTRODUÇÃO A representação de personagens LGBTQIAPN+ em produções no decorrer da história do audiovisual, passou de nula, por meio de seu silenciamento, para uma sequência de histórias onde as personagens serviam como alívio cômico ou acabavam tragicamente (Bridges, 2018). Ou seja, histórias que passaram de uma não existência para uma existência estereotipada ou fadada a punição. Com o passar do tempo, principalmente após o Código Hays - um conjunto de regras de censura para filmes de Hollywood -, criado em 1930 (Santos, 2022), poucas produções mostraram representações positivas de personagens LGBTQIAPN+. Em uma sociedade estruturada de maneira heterocisnormativa faltavam referências sobre o amor com final feliz para adolescentes e jovens adultos dessa comunidade. Nesse cenário de conquistas lentas em matéria de histórias de romance LGBTQIAPN+ teen em produções mainstream 1 , pudemos assistir a filmes como Com amor, Simon (EUA, 2018) e séries como Heartstopper 2 (Netflix, 2022-2024). A contar desse contexto, a pesquisa tem por objetivo principal compreender a representação do amor entre personagens LGBTQIAPN+ na primeira temporada da série Heartstopper , bem como os signos que essa série utiliza para se conectar com o público e as discussões que eles suscitam. Para compreendermos a recepção desse público (Borges, 2023) em relação à série Heartstopper e o possível alcance dos signos escolhidos para representar a história, analizou-se, também, os comentários em seis canais de youtubers brasileiros, resultantes de vídeos com críticas à série. Foram selecionadas, como foco de investigação complementar, as séries The 100 3 (The CW, 2014-2020) e Warrior Nun 4 (Netflix, 2020-2022). O propósito dessa escolha se deve ao fato de que essas três séries, por motivos distintos que serão discutidos no desenrolar da pesquisa, movimentaram a opinião do público, principlamente LGBTQIAPN+, nas redes sociais, veículo de comunicação muito utilizado pela comunidade LGBTQIAPN+ (Woods & Hardman, 2021). O tema central justifica-se na relevância do audiovisual e da mídia na representação dessas identidades. A pesquisa é ampla no que se refere ao contexto histórico, ao embasamento teórico e a quantidade de conexões trazidas, e aborda, a partir da análise dessas séries, a importância de representações positivas de personagens LGBTQIAPN+ que contemplem esse público tão diverso, em toda sua complexidade, referências e gostos. 1 “[...] abriga escolhas de confecção do produto reconhecidamente eficientes, dialogando com elementos de obras consagradas e com sucesso relativamente garantido. Ele também implica uma circulação associada à outros meios de comunicação de massa, como a TV (através de videoclipes), o cinema (as trilhas sonoras) ou mesmo a Internet (recursos de imagem, plug ins e wallpapers)” (Cardoso Filho; Janotti Júnior, 2006, p. 8). 2 Retirado de https://www.netflix.com/title/81059939 3 Retirado de https://www.netflix.com/pt/title/70283264 4 Retirado de https://www.netflix.com/pt/title/70283264
15 A partir de uma abordagem qualitativa e comparativa, foram utilizados conceitos semióticos para a análise das séries selecionadas. A seguir, utilizando-se o referencial teórico juntamente com o “Teste Vito Russo” e o “Teste de Bechdel”, criados pela GLAAD - Gay & Lesbian Alliance Against Defamation (Brandino, 2022), somados ao “Teste de Representatividade” criado por Olívia Souza (Souza, 2021), procurou-se elaborar critérios para analisar o tipo de representação dessas personagens nas três séries escolhidas. As cenas que contam com as personagens Clarke e Lexa, na temporada 2 e 3 da série The 100, bem como as que trazem as personagens Ava e Beatrice nas duas temporadas da série Warrior Nun , foram analisadas com o propósito de verificar a existência de signos que corroborem a identificação de boa parte dos fãs dessas produções de situações de Bury Your Gays e queerbaiting (Bridges, 2018). Os dados obtidos por meio dessa observação foram aplicados na verificação dos critérios de representação de cada série, bem como das personagens e seus relacionamentos e, posteriormente, na análise comparativa das três referidas séries. O aporte teórico que baliza essa pesquisa, cujo corpus de pessoas autoras será ampliado no decorrer do trabalho, se fundamenta em estudos referentes a representação de personagens LGBTQIAPN+ historicamente marginalizados nas mídias audiovisuais, desde os tempos mais antigos com as Sissys (Santos, 2022) até os dias atuais; observando-se a importância para o público na forma como essas personagens são representadas. Falaremos sobre o tropo Bury Your Gays (BYG) também conhecido como Dead Lesbian Syndrome (Bridges, 2018; Hulan, 2017), uma espécie de punição dada aos LGBTQIAPN+ por suas “escolhas” e que ocorre em maior número com personagens femininas. Discorreremos, do mesmo modo, sobre a utilização do queerbaiting - termo que se refere à personagens LGBTQIAPN+ vivendo um amor sugerido, mas que nunca se efetiva realmente – que acaba por fidelizar esse público, ao mesmo tempo em que a trama não perde o público heterocis (Woods & Hardman, 2021). O referencial teórico utilizado embasou a percepção de como essas ações são utilizadas dentro de produções audiovisuais, com principal interesse em histórias de amor entre personagens LGBTQIAPN+. Referente aos efeitos da representação negativa na comunidade LGBTQIAPN+ nos meios de comunicação (Pereira & Leal, 2004) serão estudados os que corroboram ou se alinham aos três vetores 5 agrupados por Lock e Steiner (Lock & Steiner, 1999) e que influenciam na autoidentificação 5 Os três vetores de Lock e Steiner (Lock & Steiner, 1999), se referem a: 1. Adolescentes que se identificarem como LGBTQIAPN+ terão aumento de problemas de saúde, especialmente saúde mental, diferentemente daqueles que não o fazem; 2. Os jovens que relatam não ter certeza da sua orientação sexual também correm grande risco de problemas de saúde, especialmente problemas de saúde mental, em comparação com aqueles que se identificam como heterossexuais. No entanto. porque eles não estão se identificando ativamente com um grupo social minoritário e desvalorizado, estes problemas serão menores no geral; 3. Jovens que se identificam como LGBTQIAPN+ ficarão menos confortáveis com a sua orientação sexual do que aqueles que se autoidentificam como heterossexuais ou que não têm certeza da sua orientação sexual devido à homofobia internalizada.
16 dessas pessoas com opiniões e atitudes negativas a respeito de sua orientação. Essa autoidentificação é capaz de induzi-los, em suas relações sociais, a certos comportamentos que geram stress, isolamento, entre outros fatores. As cobranças por um comportamento heterocisnormativo podem levar a um outro lado dessa representação, como é demonstrado no filme estaduniense Brokeback Mountain (Focus Features, 2005), de Ang Lee: aquele que gera camuflagem, faz de conta e “vida dupla”, o que pode ser alterado, em parte, a partir do reconhecimento de seus “iguais” (Carneiro & Menezes, 2004) e do contato com uma percepção mais otimista de sua realidade. A importância de imagens mais realistas e positivas que representem a comunidade são retratadas por Linné (Linné, 2007). A partir dessa conjuntura, para analisar-se melhor a obra principal, a série Heartstopper , e os signos utilizados em sua produção, foi trazido o referencial na área de semiótica da arte (signos plásticos, linguagem corporal e verbal, metáfora, música etc.), aporte esse que se dará através de Mukarovsky (Mukarovsky, 1981), Joly (Joly, 1994; 2005) e Nöth e Santaella (Nöth & Santaella, 2017). Ao abordarmos as cores e seu significado, o embasamento se deu a partir de Heller (Heller, 2022), bem como de Silveira (Silveira, 2015) e, dentro dessa perspectiva, no que se refere a influência das cores no audiovisual e como elas afetam a emoção e a razão, incluiu-se também os estudos de Stamato; Staffa e Von Zeidler (Stamato; Staffa & Von Zeidler, 2013). Sobre a linguagem cinematográfica procurou-se focar em alguns pontos abordados pelos cineastas Eugène Green (Green, 2019) e Jacques Aumont (Aumont, 1995). Para as imagens e maiores informações sobre as séries Heartstopper, The 100 e Warrior Nun foram utilizados os materiais de cunho acadêmico e científico existentes, bem como o que se encontra disponível em plataformas virtuais e redes sociais. 1.1. OBJETIVOS DA PESQUISA Respondendo aos problemas de investigação destacados a pesquisa tem, por objetivo principal, analisar a representação do amor entre personagens LGBTQIAPN+ em séries e filmes da cultura pop, bem como perceber de que maneira ela é realizada na série Heartstopper . Como objetivos específicos busca: 1. Compreender a representação do fragmento de realidade que a série Heartstopper retrata, a partir do contexto em que os signos aparecem na história;
17 2. Explorar a representação do amor entre personagens LGBTQIAPN+ apresentada nas séries The 100 e Warrior Nun, bem como na série Heartstopper, e como ela se difere das outras duas em conteúdo e consequente reverberação; 3. Discutir quais as possíveis situações que se caracterizam como queerbating, bem como aquelas que corroboram o tropo Bury Your Gays em The 100 e Warrior Nun ; 4. Traçar um panorama da recepção do público à série Heartstopper e seus desdobramentos; 5. Promover a representação positiva de personagens LGBTQIAPN+ na cultura pop, tanto para o público adulto quanto para o adolescente. No decorrer do próximo capítulo os objetos da pesquisa serão contextualizados, bem como a escolha do recorte geográfico do público selecionado.
18 1.2. OS USOS DE LGBTQIAPN+, QUEER E OUTROS: “É PRECISO ESTAR ATENTO E FORTE, NÃO TEMOS TEMPO DE TEMER A MORTE” 6 “Um nome não é só um nome, ele constrói representações” (Letícia Gianella) 7 No decorrer da pesquisa será utilizado o termo LGBTQIAPN+ (usado, mais comumente, em países como o Brasil) com a intenção de representar, ao máximo, as identidades existentes na comunidade. Todavia, existem outras siglas e abreviaturas que podem ser vistas no referencial teórico empregado na pesquisa e que também estão corretas. Será empregado, ademais, o termo comunidade que, mesmo em constante reinterpretação e ressignificação, pode ser compreendida como “[...] tecida em conjunto a partir do compartilhamento e do cuidado mútuo; uma comunidade de interesse e responsabilidade em relação aos direitos iguais de sermos humanos e igual capacidade de agirmos em defesa desses direitos” (Bauman, 2003, p. 134). A sigla LGBTQIAPN+ marca para a comunidade um reconhecido posicionamento de luta pelos seus direitos, resistência aos reveses impostos por um sistema heterocisnormativo 8 e orgulho por sua história e conquistas. A diversidade existente nessas letras/iniciais que compõem a sigla pode se referir a diversos aspectos: características sexuais 9 , identidade de gênero 10 , expressão de gênero 11 e orientação sexual 12 . Buscamos descrever a representação de cada letra da sigla a partir da definição feita por Moreira (Moreira, 2022): L (lésbicas - mulheres que se relacionam com mulheres), G (gays – homens que se relacionam com homens), B (bissexuais – pessoas que se relacionam com homens e mulheres), T (transexuais e travestis), Q (queer/questionando), I (intersexo – pessoas que nascem com características sexuais que não vão ao encontro das normas para os corpos femininos ou masculinos), A (assexuais – pessoas que não sentem atração sexual por outras, arromânticas – pessoas com pouca ou nenhuma atração romântica, agênero – sem identidade de gênero), P (pansexuais, polissexuais – pessoas cujos relacionamentos não se definem por gênero), N (não-binárias – pessoas que não se identificam com a 6 Refrão da música “Divino Maravilhoso”, de Gilberto Gil e Caetano Veloso (1968). 7 Letícia Gianella é pesquisadora do IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. 8 Se refere a normatividade atrelada tão somente a heterossexualidade (orientação sexual) e a cisgeneridade (identidade de gênero) que predominam sobre as outras (Nota da Autora). 9 Atribuídas “aos indivíduos no nascimento, com base na genitália externa, na genitália interna e nos cromossomos” (Universidade, 2023, p. 9), caso de pessoas intersexo. 10 Percepção que uma pessoa tem de si como sendo de determinado gênero ou mesmo da combinação deles (Alves, 2019). A categoria se refere tanto as identidades trans em geral quanto a identidade cis. Basicamente as pessoas que se identificam com o sexo biológico com as quais foram designadas são chamadas de cisgênero e as que não se identificam são chamadas de transgêneros ou pessoas trans, dentro de toda a variabilidade existente nessa categoria: mulher trans, homem trans, pessoas não binárias, transmasculinos, transfemininos etc. (Martins, 2023). 11 Como a pessoa se manifesta publicamente, por meio do seu nome, de sua estética, do comportamento, de características corporais e da forma como interage com as demais pessoas (GLAAD, 2016). 12 Se refere a “um envolvimento no plano emocional, amoroso e/ou da atração sexual por homens, mulheres, por ambos os sexos/gêneros ou por nenhum dos sexos/gêneros” (Saleiro, 2022, p. 12). A orientação sexual difere da identidade sexual, no sentido de que essa última se refere ao “reconhecimento, aceitação e autoidentificação da pessoa relativamente à sua própria orientação sexual” (Saleiro, 2022, p. 12).
19 binaridade de género homem/mulher) e o símbolo aditivo + (outros grupos e variações de sexualidade e demais categorias identitárias não normativas). Essas identidades “têm um caráter multidimensional, resultam de um processo desenvolvimental e, embora sejam estáveis, não são imutáveis (isto é, podem mudar ao longo do tempo). Para além disso cruzam-se com outras categorias identitárias estigmatizadas, dando origem a discriminação interseccional” (Saleiro, 2022, p. 44). Essa diversidade se refere também a particularidades concernentes as características que envolvem questões geográficas, políticas, sociais e culturais e que são representativas de cada pessoa que se identifica com a comunidade, em uma constante busca e luta por representação e por poder cultural (Britzman, 1996). E é esse reconhecimento de uma cultura queer, com toda a complexidade que ela traz, que fortalece o sentimento de pertença e a identidade dos participantes dessa comunidade. É uma escolha teórica baseada nas referências da autora da pesquisa, mas se poderia, ao invés do termo LGBTQIAPN+, usar o termo queer que, segundo Louro, é “estranho, raro, esquisito. Queer é, também, o sujeito da sexualidade desviante – homossexuais, bissexuais, transexuais, travestis, drags. É o excêntrico que não deseja ser ‘integrado’ e muito menos ‘tolerado’” (Louro, 2004, p. 7); ou, ainda, é um termo que pode ser visto como um guarda-chuva que abarca todas essas variações, muitas vezes utilizado por pessoas que acreditam que a categorização dessas identidades é percebida como rótulo que restringe as possibilidades e toda a complexidade que as envolve (Reis, 2018). Há também uma crescente redefinição, por parte de grupos vistos como minoritários, do uso de certas palavras e termos que durante anos foram aplicados socialmente de maneira pejorativa (Boenavides, 2019). Essas pessoas se apropriam e se empoderam a partir desse uso, o que se aplica tanto a palavras como “viado” e “sapatão”, quanto ao termo queer que, por volta dos anos 80, ganhou força “para se pensar a subversão e o caráter diluído das sexualidades e gêneros” (Jagose, 1996, p. 76) e que desvirtua “uma lógica embrenhada nas relações de poder para manter estáveis estruturas como gênero e sexualidade” (Silva, 2018, p. 17). A contar do momento em que há um sexo biológico (a partir de características biológicas observáveis ou não), com o qual somos designados e designadas e que nos identificam com um determinado gênero reconhecido pela sociedade (Saleiro, 2022), é de certa forma “sacramentado” os padrões que deveremos seguir para sermos aceitos socialmente dentro da comunidade em que estamos inseridos. Contrariando essa perspectiva podemos dizer que o gênero se refere ao reconhecimento do homem e da mulher enquanto produtos de uma realidade e de uma construção social e não somente a designação pela anatomia de seus corpos (Gênero, 2009). Com base nessas expectativas podemos observar uma linha tênue que separa a colocação da sexualidade como inata e que por isso pode ser
20 entendida como algo “natural” e a questão da patologização das sexualidades ditas não-convencionais (Leal, 2004), o que se contrapõe a questão da sexualidade como construção social, bem como dispositivo de poder e teoria queer (Aboim, 2010). Há, ainda, aspectos referentes a cada pessoa, relacionados ao contexto geográfico, social, cultural, religioso, entre outros, e que, majoritariamente, norteiam um comportamento esperado vinculado a padrões de masculinidade e feminilidade. Caso esse comportamento não seja seguido pode gerar situações de preconceito, de discriminação e de violência (OPP, 2020). Circunstâncias de maior opressão ou de privilégios na comunidade se configuram também conforme aspectos intrínsecos à própria sociedade, tais como: etnia/raça, nível de instrução, status socioeconômico, condição migratória, profissão, existência de deficiência, soropositividade, pertencimento a religiões que estigmatizam a comunidade LGBTQIAPN+, a vivência em uma área rural, em cidades pequenas ou em situação de rua, bem como fatores que se interpõem e influenciam questões no âmbito de saúde mental, como stress, depressão e ideação suicida (Baére & Zanello, 2020); e que contribuem para o seu “silenciamento”: Assim, é importante notar que grande parte da investigação sobre as pessoas de minorias sexuais e de género reflete ainda as experiências daquelas que detêm mais privilégios, ao passo que aquelas que vivenciam múltiplas formas de opressão são geralmente menos acessíveis e estudadas. (Saleiro, 2022, p. 13) O preconceito e a discriminação, então, se apresentam em diversas camadas que, conforme as variantes apresentadas e a letra/inicial a qual o indivíduo pertence dentro da comunidade LGBTQIAPN+, trazem uma possibilidade maior de violência verbal e, por vezes, física, cujo grau pode diferir, mas que permanece, dolorosamente, sempre à espreita. Dentro desse contexto, o estigma sexual também pode atingir as pessoas heterossexuais que performam (por expressão ou características físicas) de forma diferente do que foi estabelecido para o seu gênero, o que faz com que também estejam vulneráveis a violência (Portal Folha de Pernambuco, 2023). As situações provenientes dessa estigmatização variam conforme a categoria a qual o indivíduo pertence “as pessoas trans e as pessoas intersexo são as maiores vítimas dessas situações, já as mais discriminadas quanto a questão da orientação sexual são as pessoas bissexuais e pansexuais” (Saleiro, 2022, p. 44). Estudos realizados pela Associação Acção Pela Identidade (API), de Portugal, com pessoas trans, não-binárias e intersexo revelou que “a maioria das pessoas intersexo, trans e não-binárias que vive em Lisboa tem dificuldades económicas, não recebe acompanhamento clínico ou fá-lo no privado e acha que a cidade exclui as pessoas com estas características” (Lusa, 2018, §1). Uma pessoa trans, principalmente se não possuir uma maior
21 passabilidade 13 , corre grande risco de não conseguir emprego, não ser aceita em ambientes sociais e, consequentemente, está mais propensa a sofrer todo tipo de violência. Essa opressão sistemática é uma das consequências da heterocisnormatividade: a manutenção da norma cis e heterossexual para pensar o comportamento de todos os indivíduos em diversos aspectos; sejam eles institucionais, sociais, culturais, e que impacta as ditas minorias sociais durante toda a vida. Situações que podem interferir na maneira como indivíduos são influenciados e na forma como acabam por reproduzir discursos que estão presentes em vários “equipamentos” utilizados como instrumentos de poder e controle, caso da tríade família, escola e religião. Instituições que, na maioria das vezes, atuam para fiscalizar e calar atitudes não concernentes a todo esse conceito de heterocisnormatividade vigente e ao que ele significa. A heterossexualidade, denominação que se refere a homens e mulheres que se relacionam com o gênero oposto (Moreira, 2022) é o comportamento considerado socialmente como padrão, que deve ser “exaltado” e “perpetuado”, pois que possibilita a continuidade de estruturas como a “família tradicional”. Uma das formas de solidificá-lo é divulgando-o repetidamente e mostrando que tudo o que é contrário a ele é inadequado e inaceitável, muitas vezes utilizando-se de um viés religioso e moral, o que pode ser feito tanto de uma maneira agressiva quanto subliminar, nas entrelinhas. Esses e outros dispositivos de controle e poder são responsáveis por situações abordadas no decorrer do trabalho e afetam também a forma de representação dessas pessoas em produções audiovisuais, o que acabou por motivar as escolhas feitas e o caminho traçado nessa pesquisa. 1.3. A BASE DA PESQUISA E MOTIVAÇÕES: “CONSIDERAMOS JUSTA TODA FORMA DE AMOR” 14 O amor é para todas, todos, todes? Em grande parte das vezes a possibilidade de viver o amor de forma plena parece ser possível somente para quem é heterocis (Linné, 2007). Em muitos casos, a pessoa LGBTQIAPN+ só pode expressar o seu amor em lugares que não são públicos, longe de sua família e dos ambientes sociais frequentados por pessoas diferentes dela, em um silenciamento contínuo de seu corpo e de sua existência (Bridges, 2018). Isso ocorre mesmo que a realidade de pessoas LGBTQIAPN+ venha gradativamente mudando em alguns países. Mesmo que, atualmente, possamos ter uma maior representatividade cultural, social e política de pessoas da comunidade, ainda há outros países 13 Se refere, nesse caso específico, a passar por uma pessoa cisgênero, o que ocorre quando a pessoa trans é percebida mais facilmente dentro do que é reconhecido como sendo característico do gênero com o qual ela se identifica (Nota da Autora). 14 Trecho do refrão da música “Toda forma de amor”, de Lulu Santos.
22 atualmente em retrocesso dos direitos de pessoas LGBTQIAPN+, situação que ocorre, por exemplo, em Uganda, Hungria e mesmo no Brasil (Padinger, 2022) e que será abordada posteriormente nessa pesquisa. O que torna ainda atuais as palavras de Louro: A visibilidade que todos esses novos grupos adquiriram pode ser, eventualmente, interpretada como um atestado de sua progressiva aceitação. Contudo, nem mesmo a exuberância das paradas da diversidade sexual, das feiras mix, dos festivais de filmes alternativos. permite ignorar a longa história de marginalização e de repressão que esses grupos enfrentaram e ainda enfrentam. Não podemos tomar de modo ingênuo essa visibilidade. (Louro, 2008, p. 21) Essa colocação serve como um alerta tanto para as pessoas LGBTQIAPN+ como para qualquer outro grupo em luta por seus direitos. O silenciamento que está presente ainda nos dias de hoje, através de propostas extremistas que se espalham por diversas partes do mundo, também pode ser encontrado, no decorrer da história, em produções audiovisuais com uma representação negativa de personagens LGBTQIAPN+ (Bridges, 2018). Um tipo de representação que pode ter contribuído com a forma como as pessoas LGBTQIAPN+ se viam e eram vistas, acarretando consequências sobretudo entre adolescentes (Guimarães & Fernandes, 2022) que nesta fase, salvo exceções, estão começando a perceber e a viver suas relações amorosas. Histórias sobre o amor entre personagens LGBTQIAPN+ foram contadas no decorrer dos anos, mas estas, na grande maioria das vezes, abordavam relacionamentos extremamente sexualizados e mostravam personagens envolvidos com drogas e com comportamento promíscuo, em uma espécie de “demonização” dessa comunidade que acabou enveredando para outras esferas (Benshoff & Griffin, 2005). Na maioria dos casos, as histórias de amor representadas em filmes e séries para esse público terminavam de maneira infeliz, seja por separação ou mesmo morte de uma das pessoas apaixonadas, o que acabou por gerar o tropo Bury Your Gays . Além disso, começou-se a discutir também o uso de um possível queerbaiting em algumas produções audiovisuais . Os dois termos e, consequentemente, a forma como são usados nesses veículos são extremamente importantes para essa pesquisa, pois mostram os subterfúgios utilizados para parecer que uma determinada história atende a pessoas LGBTQIAPN+, pois quem não tem nada se contenta com pouco (Bridges, 2018). Um tropo e ações que motivaram a autora dessa pesquisa, a partir da sua vivência como mãe de um filho e uma filha que fazem parte da comunidade LGBTQIAPN+ - embasada, dessa forma, em um “conhecimento situado”, como afirma a pesquisadora feminista Donna Haraway (Haraway, 1995) – e que não pôde esquecer uma frase dita por sua filha adolescente “a gente se contenta com migalhas, com histórias mal escritas, mal-acabadas, porque não temos praticamente nada", frase essa fruto do
29 LGBTQIAPN+ tiverem basicamente referências negativas de personagens que os representam, o que isso pode acarretar?: Até os números estarem em igual proporção com mortes de personagens heterossexuais por um período prolongado, e até que os leads LGBTQ se tornem comuns e banais, os criadores têm a responsabilidade ética de considerar profundamente o impacto de seu trabalho nas audiências. (Bridges, 2018, p. 122) Apesar das mudanças que vem ocorrendo nos ambientes familiares, em muitas famílias a ideia de suas crianças como príncipes e princesas ainda floresce e reforça o padrão repassado por inúmeras animações e filmes que abordam esse universo. E é neles que perduram os papeis que a sociedade reconhece como certos: o menino como um príncipe salvador e a menina como uma princesa à espera desse príncipe. Discursos que fortalecem as representações de gênero e o olhar sobre o que é a masculinidade e a feminilidade (Xavier Filha, 2011). Durante muitos anos a possibilidade de pré-adolescentes e adolescentes LGBTQIAPN+ verem séries e filmes com relações amorosas vividas por pessoas como eles e que tivessem um final feliz, lhes foi negada (Bridges, 2018). Esse público, na maioria das vezes, não se via em nenhuma das histórias românticas das quais se lembrava e nem das que começava a conhecer, seja em leituras, seja em momentos em frente à TV ou mesmo nas telas de cinema. Se o cinema é “um produto da realidade” (Deleuze, 1996, p. 76) e nele a maioria das personagens LGBTQIAPN+ morrem ou “desaparecem”, qual a realidade que está sendo mostrada para esse público? Um tipo de representação que acabava por expor uma “fórmula” de comportamentos e atitudes pensadas para um determinado público e que reproduziam e colaboravam para a posterior reprodução dessa ideia de que histórias de amor não eram para pessoas LGBTQIAPN+ (Linné, 2007). Para esses jovens, todas as suas vivências, descobertas e aprendizagens, em um período tão importante como a adolescência, e que trazem muito de erros e acertos, podem ser comprometidas por fatos assim. As descobertas dessa fase tão importante são feitas, muitas vezes, de forma solitária, sem a orientação ou diálogo com um adulto e sem o contato ou interação de outras pessoas como essa ou esse jovem (Saleiro, 2022). Ainda hoje, em pleno século XXI, adolescentes LGBTQIAPN+, além de não poderem contar com representações positivas no audiovisual e na mídia da mesma forma que jovens heterocis (Bridges, 2018), estão sujeitos a serem expulsos de casa por revelarem sua sexualidade ou por terem ela descoberta. Em alguns casos, essa parte do que são, se torna invisível entre os meios que circulam. Uma invisibilidade que deve ser combatida e que pode contar com a disponibilização cada vez maior de produções que contemplem esse público.
30 Em alguns países, essa possibilidade pode significar um “respiro” no meio do caos. Para uma maior compreensão do significado dessa frase, no próximo capítulo, será abordado a questão do recorte geográfico que incorre sobre um dos objetos dessa pesquisa. 2.3. O CASO DO BRASIL E A CENA GLOBAL: “O AMOR NUNCA DEVE SIGNIFICAR TER QUE VIVER COM MEDO” 21 O número de casos de mortes violentas de pessoas LGBTQIAPN+ no Brasil foi de 316 (2021), 273 (2022), 257 (2023) e 291 (2024) (Gastaldi & Benevides, 2024; Grupo Gay da Bahia, 2025). Apesar desses números terem decrescido em 2022 e 2023, o aumento mostrado em 2024 deixa evidente que o Brasil segue sendo o país que mais mata e que possui mais ações de violência contra a população LGBTQIAPN+ - observando-se que esses dados não podem ser obtidos em países em que esses levantamentos não são realizados. Tabela 1: Estatística de número de mortes de pessoas LGBTQIAPN+ por grupo no ano de 2023 e 2024 Fonte: Comissão LGBTQIAPN+ Anamatra, 2024 e Grupo Gay da Bahia, 2025 Percebe-se na Tabela 1 que os números aumentaram e que em 2023 o grupo que mais sofreu violência e foi morto foi o de travestis e mulheres trans, cuja média da expectativa de vida, no Brasil, é de apenas 35 anos (Gastaldi & Benevides, 2024). Em 2024 esse número felizmente baixou, ao contrário dos casos com homens gays que quase dobrou. O recorte geográfico em que se insere o público escolhido, no caso, o brasileiro, para análise dos comentários, se deve ao fato de que o comportamento, as experiências e a identidade LGBTQIAPN+ em um país como o Brasil, são fortemente influenciados pela violência e preconceito com que essa comunidade é tratada, como mostram esses dados. Há que se entender a necessidade desse recorte, pois a realidade de pessoas LGBTQIAPN+ difere muito de um país para outro e no Brasil ainda há muito o que se conquistar. Isso se deve basicamente ao fato do Brasil, de sistema democrático ainda jovem, estar em um crescimento progressivo da extrema direita e, 21 Frase de DaShanne Stokes, sociólogo estadunidense. GRUPOS Nº. DE MORTES 2023 Nº. DE MORTES 2024 Travestis/Mulheres Trans 159 96 Gays 96 165 Homens Trans/Pessoas Transmasculinas 8 6 Mulheres Lésbicas 8 11 Pessoas Bissexuais 1 7
31 por conseguinte, um fortalecimento de sua ideologia sob o tema “Deus, pátria e família” que exclui a comunidade LGBTQIAPN+ de suas ações, para se dizer o mínimo. Situação que ganha força, principalmente, a partir da voz de líderes conservadores, simpatizantes dessas ideologias, apoiados por movimentos e instituições religiosas e que, mesmo com o passar dos anos, se renovam periodicamente, como bem expressa a pesquisadora Guacira Louro: Se, por um lado, alguns setores sociais passam a demonstrar uma crescente aceitação da pluralidade sexual e, até mesmo, passam a consumir alguns de seus produtos culturais, por outro lado, setores tradicionais renovam (e recrudescem) seus ataques, realizando desde campanhas de retomada dos valores tradicionais da família até manifestações de extrema agressão e violência física. (Louro, 2008, p. 21) As redes sociais são canais usados com sucesso por pessoas que refletem esse tipo de comportamento, bem como a TV e seus produtos, que são reconhecidamente muito consumidos pelo público brasileiro. Segundo o Relatório Global Digital 2024, publicado em parceria com a Meltwater “os brasileiros ocupam o segundo lugar em tempo online diário, com os internautas do país gastando em média 9h13min por dia usando a internet” (We Are Social, 2024). Ainda segundo a pesquisa, os brasileiros utilizam as redes sociais em média 3h37min por dia, o que deixa o país em terceiro lugar no ranking mundial. 2.3.1. Marcas da Violência No Brasil, e em tantos outros lugares, há casos, como o divulgado na imprensa, de uma criança trans que teve sua casa apedrejada, sua luz cortada e foi ofendida com palavras de baixo calão por habitantes que se diziam religiosos (Mergulhão, 2022). Uma criança, como tantas outras, vítima de um país em que muitas leis não são cumpridas e que possui um Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), estatuto esse que deveria servir para evitar barbáries como esta. Em situações assim, acaba-se criando uma dinâmica totalmente diferente entre membros de famílias LGBTQIAPN+, em que pais devem ter a atenção redobrada no que é orientado aos seus filhos, filhas e filhes sobre os cuidados para sua segurança e, porque não dizer, sobrevivência, em países como o Brasil (Mães pela Diversidade, 2024). O que acaba por unir mães e pais que passam por situação semelhante, como ocorre com famílias de pessoas negras, cujas mães e pais precisam ensinar seus filhos, filhas e filhes a se proteger devido ao racismo cada vez mais presente no país, como mostram Martins e Ferreira “muitos pais e mães ensinam seus filhos negros e negras a se proteger do racismo dizendo para não usar capuz, não correr, e não ter comportamentos que possam vir a ser vistos como a representação real daquilo que o racista vê: o perigo”
32 (Martins & Ferreira, 2020, p. 6). Se a pessoa LGBTQIAPN+ for negra, ela está duas vezes mais vulnerável e se for também uma travesti ou mulher trans são grandes as chances de sofrer violência no decorrer da vida (Gastaldi & Benevides, 2024). Em situações como essa, toda a família precisa de apoio, algo que grupos como o “Mães pela Diversidade 22 ”, uma ONG formada por mães e pais de pessoas LGBTQIAPN+, oferece. Grupos esses que surgem para, além de acolher e informar, preencher lacunas deixadas por instituições formais, caso das escolas, haja vista que “por vezes, a discriminação contra crianças e adolescentes LGBTQIA+ é naturalizada por gestores e docentes da educação básica, o que insere esses indivíduos em uma condição de vulnerabilidade que dentre problemas psicológicos e sentimentos de exclusão, ocasionam também o abandono escolar” (Guimarães & Fernandes, 2022, p. 1284). Situações desse tipo tendem a ocorrer de forma mais significativa em pequenas localidades, onde as pessoas “valem” pelo nome de família que tem (Sousa, 2020), o que pode levar muitos LGBTQIAPN+ a mudarem para cidades grandes e, assim, poderem viver sua sexualidade e seu amor mais livremente. Muitas vezes, a família sabe da orientação sexual de seu familiar, mas finge que não, dessa forma vários “problemas” podem ser evitados. Quanto mais jovem, pior essa situação se torna, pois não há a independência financeira necessária para se ter a liberdade de ser quem se é, longe da falta de aprovação familiar, conforme consta no levantamento sobre a situação financeira de pessoas LGBTQIAPN+ informado no diagnóstico feito pelo Coletivo Vote LGBT+ “é importante ressaltar que a capacidade de se autossustentar é determinante na possibilidade de viver e comunicar plenamente a sexualidade e as expressões de gênero” (VoteLGBT, 2021). 2.3.2. Alguns Retrocessos e Conquistas Notícias sobre retrocessos em assuntos referentes aos direitos da comunidade LGBTQIAPN+ não deixam de ser veiculadas, sejam no Brasil (Pithon, 2023) ou no resto do mundo (Guimarães, 2023). Mesmo quando se pensava que haviam direitos sendo conquistados gradativamente, começava paralelamente a preocupação com a garantia desses direitos que se dá, infelizmente, conforme a vontade e a ideologia dos representantes de um país. Podemos citar como exemplo, o fato de que, em 2019, no Brasil, conforme decisão publicada no Diário Oficial, o governo do ex-presidente do país (2018-2022) suspendeu edital referente a séries LGBTQIAPN+ para TVs públicas (Niklas, 2019). Atualmente, Projetos de Lei tramitam para retirar direitos e reforçar o preconceito e a violência contra a comunidade. Desde o veto ao reconhecimento do casamento entre pessoas LGBTQIAPN+, com o PL 5.167/2009 (Haje, 22 Informação na bio do instagram da ONG. Retirado de https://www.instagram.com/maespeladiversidade/
33 2023), passando pela proibição de crianças e/ou menores de 18 anos em paradas do orgulho LGBTQIAPN+, ou mesmo eventos voltados à defesa dos direitos e da cidadania de pessoas LGBTQIAPN+, como consta no PL 0325/2023 (Câmara Municipal de São Paulo, 2023); PLO 159/2023 (Band UOL, 2024); PL 103/2024 (Assembleia Legislativa de SC, 2024) até a proibição de orientação e distribuição às escolas públicas, pelo Ministério da Educação e Cultura, de livros que versem sobre diversidade sexual para crianças e adolescentes PL 5487/2016 (Câmara dos Deputados, 2016). Alguns temas são mais visados que outros em projetos anti-LGBTQIAPN+ “um outro levantamento, realizado pela Agência Diadorim, mostra que os quatro principais temas abordados nas propostas anti-LGBTQIA+ são: proibição da linguagem neutra, de banheiros unissex, publicidade que promova a diversidade LGBTQIA+ e a participação de atletas trans em competições esportivas” (Guimarães, 2023, §10). A nível mundial também houve o recuo sobre direitos LGBTQIAPN+ no esboço da Declaração do G7 (JB Internacional, 2024), ao contrário do que ocorreu na reunião do grupo em 2023, realizada em Hiroshima. Assim como avança a extrema direita mundialmente, avançam propostas anti-LGBTQIAPN+. Quanto maior o número de políticos conservadores, maior o número de propostas nesse sentido e elas têm sido apresentadas, e algumas aprovadas, nos parlamentos em todo o mundo. A derrota mais recente e que terá um profundo impacto sobre a comunidade LGBTQIAPN+ está vinculada a decisão da Meta – conglomerado de tecnologia e mídia social que inclui plataformas como Facebook, Instagram, Threads e WhatsApp – que, de acordo com nota publicada pelo presidente executivo Mark Zuckerberg, substituirá a checagem de fatos pois “os moderadores profissionais utilizados até agora são ‘muito tendenciosos politicamente’ e que era ‘hora de voltar às nossas raízes, em torno da liberdade de expressão’ (Braun, 2025), em uma evidente aproximação às ideias defendidas pelo presidente eleito dos EUA, Donald Trump. Os desdobramentos dessa decisão da Meta preocupam ativistas e instituições vinculadas às minorias que sofrem com discursos de ódio nessas plataformas, caso da comunidade LGBTQIAPN+. Trump ataca ferozmente a comunidade LGBTQIAPN+ principalmente as pessoas trans, tendo como uma de suas ações iniciais a revisão de “medidas de diversidade e de identidade de gênero” (Reuters, 2025). Entre tantos retrocessos há vitórias também: no Brasil muitas se dão por interferência do próprio Supremo Tribunal Federal, como a decisão de que escolas devem combater discriminação por gênero ou orientação sexual (Rocha, 2024), bem como o PL 7292/2017 (Câmara dos Deputados, 2017) que torna LGBTcídio crime hediondo ou, ainda, o aumento em cinco vezes do número de pré-candidaturas LGBTQIAPN+ para as eleições municipais de 2024 (Thereso, 2024). No mundo, em matéria de conquistas, podemos citar a Tailândia como o primeiro país do Sudeste Asiático a legalizar o casamento entre pessoas LGBTQIAPN+ (Brasil de Fato, 2024).
34 Neste capítulo, discorreu-se sobre apenas alguns dos desafios e vitórias, o que pode ser entendido como suficiente para se perceber que nós devemos sempre estar atentos, pois a luta é diária e parece não ter fim. E essa luta da comunidade LGBTQIAPN+ se refere desde aos direitos mais básicos e urgentes até a forma como essas pessoas são representadas nos mais diferentes meios de comunicação, inclusive filmes e séries, tópico que será abordado no próximo capítulo.
35 3. REPRESENTAÇÃO DE PERSONAGENS LGBTQIAPN+ NA TELA: ACEITAR QUALQUER REPRESENTAÇÃO É MELHOR DO QUE NÃO TER REPRESENTAÇÃO? O audiovisual e a mídia, muito mais que apenas entretenimento, são ferramentas poderosas de propagação de discursos, conhecimento de outras vivências e disseminação de assuntos em consonância com uma época ou era. Um olhar sobre narrativas e histórias contadas e compartilhadas, colaborando com a apreensão de parte da realidade em um mundo cada vez mais “conectado” (Townsend, 2021). Mesmo concordando que muitas vezes as produções independentes permitem uma maior liberdade de roteiro e promove m um olhar queer, ou seja, um olhar que “questiona o sistema binário heterossexual normativo, e suas imposições nos corpos do mundo real, bem como as regras e discursos reiterados e punitivistas que determinam como devemos nos vestir, nos comportar, nos relacionar, e viver” (Lage, 2022, p. 35) - caso, por exemplo, da película filmada em preto e branco Looking for Langston (British Film Institute, 1989), de Isaac Julien e de Longtime Companion (The Samuel Goldwyn Company, 1989), de Norman René. Reconhece-se que quanto mais produções sobre esse tema forem feitas por grandes estúdios e streamings ou mesmo apenas distribuídas por eles, maior será a oportunidade de alcance de público e, consequentemente, de discussão dessas histórias. Histórias que se reforçam através de fandoms 23 , termo que se refere a “comunidade de membros emocionalmente envolvidos no consumo/fruição regular de uma determinada narrativa da cultura popular” (Anaz, 2018, p. 253), e perfis de pessoas LGBTQIAPN+ que se proliferam nas redes; trazendo também importantes dados e curiosidades que muitas vezes não são abordados pela mídia convencional. Outro ponto importante é que a internet potencializa a dinâmica entre os grupos, bem como entre as pessoas que deles fazem parte, conexão que ultrapassa as fronteiras geográficas e amplia o alcance das discussões. Os fandoms criam e partilham conteúdo nas redes, pesquisam sobre a equipe de uma determinada produção, shippam, 24 romances, seja nas produções ou fora delas, opinam, divulgam e acabam por movimentar todo o contexto de séries e filmes. A escolha do casting , as personagens e, consequentemente, sua representação, podem ser influenciadas pela força desse tipo de público, por isso a importância do tema do próximo capítulo. 23 União de duas palavras do inglês: fan e Kingdom. O principal interesse desses grupos costuma ser o universo artístico, seja ele literário, musical ou audiovisual e inclui também a vida e a obra de atrizes e atores. 24 O neologismo “shipar” veio de “relationship”, em inglês, a partir do ship (torcer). Quando você “shipa” um casal, quer dizer que você (shipper) torce por ele, seja na ficção ou na vida real. O termo é usado principalmente para se referir a “personagens de séries, livros, filmes, mangás, etc. [...] No Brasil, o termo ficou mais conhecido na década de 2000. Devido aos lançamentos de várias séries de livros e filmes. Além disso, graças aos leitores e criadores de fanfics (histórias criadas por fãs), a expressão se popularizou.” Retirado de https://segredosdomundo.r7.com/o-que-e-shippar/
36 3.1. BREVE HISTÓRIA DA REPRESENTAÇÃO LGBTQIAPN+ NA TV E NO CINEMA A representação de certos personagens em produções audiovisuais reflete, muitas vezes, quem detém o poder sobre determinada narrativa. A começar por quem está por detrás dessas produções, fato que pode interferir diretamente sobre o que vai ou não ser mostrado ao público. A forma como um grupo é representado, conforme o que vimos até agora, preponderantemente influencia de maneira direta como ele é visto pelos outros. Filmes com temática LGBTQIAPN+ mais próximos da realidade dessa comunidade, eram realizados, muitas vezes, como produções independentes que chegavam somente em uma parcela do público. Sobre a diferença entre Cinema LGBTQIAPN+ e Cinema Queer pode-se dizer que o primeiro se refere a filmes com personagens gays, lésbicas, trans etc, mas não necessariamente questionadores; já o segundo além de personagens LGBTQIAPN+, propõe um questionamento do status quo (Valle, 2024). Ao procedermos uma busca verificamos também que várias produções mais antigas não são encontradas em nenhum streaming , o que pode se modificar conforme o país em que é feita essa busca, haja vista que a grade de programação se modifica de país para país, principalmente no caso da Netflix (Cossetti, 2023). Durante a história da participação de personagens LGBTQIAPN+ em produções audiovisuais percebemos que toda a complexidade e diversidade que envolve questões como sexualidade e gênero, em sua maioria, não eram retratadas ou o eram de maneira equivocada/estereotipada (e muitos ainda o são). Dessa forma todas as discussões e possibilidades de desdobramentos de suas histórias eram impossibilitadas e, em alguns casos, havia um apagamento literal (Sacramento & Ferreira, 2019), além de representações rasas se comparadas a profundidade das vivências LGBTQIAPN+: A história da representação de lésbicas e gays no cinema mainstream é politicamente indefensável e esteticamente revoltante. Pode haver uma abundância de personagens gays flutuando pelas telas ultimamente, mas plus ça change ... Visibilidade gay nunca foi realmente uma questão nos filmes. Gays sempre foram visíveis. É a forma como eles são mostrados que tem permanecido ofensiva por quase um século. (Russo, 1981, p. 325) Se Russo considera que, apesar da forma como eram mostrados, os personagens gays eram visíveis, o mesmo não se pode dizer de personagens sáficas 25 . Personagens LGBTQIAPN+ eram alegóricas, não observadas sob a sua individualidade e promoviam, na maioria das vezes, a possibilidade de alívio cômico ou vilania - até mesmo em animações da Disney - em um queer coding 26 já consolidado (Giovanelli, 2021). Em outras produções audiovisuais, personagens LGBTQIAPN+, principalmente 25 Será usado também, no decorrer da pesquisa, o termo “público sáfico”, ambos se referem a mulheres que se relacionam com mulheres, dentre as mais diversas orientações sexuais (Nota da Autora). 26 O termo queer coding concerne a “(...) signos indiciais que associam personagens fictícios a características tidas como pertencentes a pessoas LGBTQIA+[...]” (Giovanelli, 2021).
37 masculinos, representavam corpos que serviam apenas para o sexo e não para o amor (Fernandes, 2023). Assim, atravessamos uma longa jornada até que pudéssemos ter representações de histórias de amor dessa comunidade que fossem diversas e que contemplassem gradualmente também a diversidade desse público. Ao estarmos em frente a uma tela do cinema, de TV ou de outros dispositivos, nos conectamos através dos sentidos, das sensações e sentimentos que envolvem a abstração e a imaginação (Costa, 2022). A possibilidade de conhecermos fragmentos de outras vivências ou mesmos de assistirmos aspectos da nossa própria existência, retratados nessa tela, denotam a importância de uma representação positiva. Mas qual a diferença entre representação e representatividade? Souza entende que “a representatividade funciona como um novo aspecto da representação, não a excluindo, mas que apresenta novas características” (Souza, 2021, p. 41). A representação possui várias designações, trazidas durante a história por diferentes teóricos como Platão, Pierce, Pitkin, Lagarde, entre outros, e pode ser considerada “uma parte essencial do processo pelo qual os significados são produzidos e compartilhados entre os membros de uma cultura. Representar envolve o uso da linguagem, de signos e imagens que significam ou representam objetos” (Hall, 2016, p. 31). Ademais, por outro viés, ela também pode se referir a pessoas de um determinado grupo ou características em uma produção, enquanto a representatividade seria sobre a vida e a história dessas personagens possuírem um significado, sobre elas estarem inseridas no mundo e não à margem dele, em um constante diálogo com as outras personagens da trama (Marciano, 2021). A representação pode ou não gerar uma identificação com uma ou mais personagens, “fazendo com que seja possível nos vermos na imagem ou na personagem apresentada na tela (Woodward, 2009, p. 19) - como será mostrado na análise dos comentários nessa pesquisa -, o que faz com que o público acabe por se envolver com sua história, vivenciar suas emoções, perceber o mundo através do seu olhar: A representação inclui as práticas de significação e os sistemas simbólicos por meio dos quais os significados são produzidos, posicionando-nos como sujeito. E por meio dos significados produzidos pelas representações que damos sentido à nossa experiência e àquilo que somos. Podemos inclusive sugerir que esses sistemas simbólicos tomam possível aquilo que somos e aquilo no qual podemos nos tornar. (Woodward, 2009, p. 15) Aspectos como a complexidade, a importância das personagens e o impacto de sua história dentro do enredo estão diretamente ligados a qualidade dessa representação. Há a necessidade de protagonismo ou pelo menos de um espaço maior para as personagens que representam a comunidade,
38 assim como pessoas LGBTQIAPN+ agindo por trás das telas. Em suma: o “estar” ali difere muito de “como” se está ali. O “lugar” é ocupado, mas “qual” lugar é esse? Algumas possibilidades significativas vêm ocorrendo atualmente com uma maior realização de produções com temática LGBTQIAPN+ (Velloso, 2018). O público dessas produções pode agora escolher histórias com múltiplas abordagens, com uma ampla cartela de personagens, proporcionando uma identificação e conexão maior, contemplando, assim, as diferentes expectativas de pessoas da comunidade. Produções audiovisuais com um trabalho cuidadoso de representação das personagens LGBTQIAPN+ podem contribuir com a mudança do imaginário homofóbico e fazer com que pessoas heterossexuais revejam seus conceitos; conforme informado no relatório GLAAD em parceria com a Netflix e exemplificado na figura 1 “para 81% do público entrevistado e que não é LGBTQIAPN+ assistir produções que retratam esses personagens acaba por conectá-los a eles. Já 85% das pessoas LGTQIAPN+ entrevistadas relatam sobre o papel dessas produções na compreensão de seus familiares sobre a temática” (GLAAD, 2023). Figura 1: Histórias que aproximam público heterossexual e LGBTQIAPN+ Fonte: Gay Blog 27 , 2024 27 Retirado de https://gay.blog.br/wp-content/uploads/2020/06/BRA_Pride-Infographic-1.jpg
45 XXI, O segredo de Brokeback Mountain (Focus Features, 2005), de Ang Lee, ambos filmes em que as histórias de amor entre personagens LGBTQIAPN+ terminavam de forma trágica. As abordagens realizadas, para histórias de amor, salvo uma ou outra produção, seguiam geralmente essa linha. O conto “Brokeback Mountain”, da escritora Anne Proulx. do qual a obra foi adaptada “reforça a prática de assassinatos a homossexuais de forma brutal em pequenas cidades estadunidenses ao longo do século XX” (Bezerra Júnior, 2024, p. 155). Mesmo Boys don’t cry sendo baseado em uma história real - ou seja, infelizmente, um retrato do que ocorre na realidade - e Brokeback Mountain ser uma ficção, não há como não observarmos a direção tomada pelas narrativas “que buscam construir, dramaturgicamente, os conflitos culturais da experiência queer, e é a partir desses conflitos que as identidades queer são visíveis” (Britzman, 1996, p. 54). Como que para compensar o peso dessas histórias é lançado, ainda em 2005, a comédia romântica sáfica Imagine eu & você (2005), que termina com um final feliz para as protagonistas. No Brasil, em meados de 2010, houve o premiado curta-metragem Eu não quero voltar sozinho 33 - um sucesso no YouTube com quase 9,5 milhões de visualizações – seguido pelo longa Hoje eu quero voltar sozinho 34 (Lacuna Filmes, 2014), ambos de Daniel Ribeiro. As películas fizeram sucesso com o público brasileiro e abordam o desenvolvimento do primeiro amor entre meninos de forma delicada, tendo como diferencial importante o fato do protagonista ser um garoto com deficiência visual. O filme Carol (2016), de Todd Haynes, baseado na obra “The Price of Salt” (1952), da conhecida autora Patricia Highsmith, sob o pseudônimo Claire Morgan. O livro aborda o desenvolvimento da relação amorosa entre duas mulheres, com possibilidade de um final feliz. Em entrevistas a autora relatava ter recebido cartas de leitoras agradecendo a possibilidade de um final feliz que o livro havia trazido (Souza, 2021). Mas Carol não era um filme para adolescentes, apesar de uma das personagens envolvidas ser uma mulher jovem, chamada Therese, que se apaixona por Carol, uma mulher mais experiente, presa em um casamento infeliz. E eis que chega, em 2018, baseado no livro “ Simon vs. a agenda homo sapiens” (Balzer & Bray, 2015), da escritora americana Becky Albertalli, o filme estaduniense Com amor, Simon 35 (Fox 2000 Pictures, 2018), de Greg Berlanti, um diretor abertamente gay que disse ao Omelete Entrevista 36 “ter a presença de um adolescente gay no centro de uma comédia romântica é algo positivo de um jeito diferente (...). Ele preencheu um vazio que eu nem sabia que estava lá, em me ver, ou uma versão de mim, em uma tela”. O filme deu início a uma nova fase para as relações românticas entre personagens 33 Retirado de https://www.youtube.com/watch?v=1Wav5KjBHbI 34 Retirado de https://www.adorocinema.com/noticias/filmes/noticia-1000080541/ 35 Retirado de https://www.disneyplus.com/pt-pt/movies/com-amor-simon/iOs6PVflB9Ng 36 Retirado de https://www.youtube.com/watch?v=RNA8p3rR3xY
46 LGBTQIAPN+, principalmente jovens, com uma representação mais positiva, mostrando que é possível, sim, viver uma história de amor LGBTQIAPN+ com final feliz, com possibilidades futuras. Seu sucesso acabou por inspirar a série Com amor, Vitor 37 (Hulu, 2020-2022), criada por Isaac Aptaker e Elizabeth Berger. No final do filme, o protagonista Simon, ao escrever no site da escola - o mesmo cujo responsável havia feito um post que acabou por “tirá-lo do armário” contra sua vontade - diz: Eu sou gay. Por muito tempo, fiz de tudo pra esconder o fato. Eu tinha vários motivos. Era injusto que só gays se assumissem. Estava farto de mudanças..., mas era medo. Pensei que fosse coisa de gay. Depois notei que, acima de tudo, anunciar quem você é pro mundo é apavorante. E se o mundo não gostar de você? Então eu fiz de tudo pra manter segredo. [...] Cansei de ter medo. Cansei de viver num mundo onde não sou eu mesmo. Eu mereço viver uma grande história de amor. [...] O cara que eu amo escreveu que se sentia preso numa roda-gigante. No topo do mundo uma hora e no fundo do poço na outra. É como me sinto. Não poderia pedir amigos mais incríveis, nem família mais compreensiva. Mas seria melhor se tivesse com quem compartilhar. (Com amor, Simon, 2018) Sobre séries, citarei Buffy, a caça-vampiros (United Paramount Network, The WB, 1997-2003), de Joss Whedon, também iniciada na década de 90, com o inspirador relacionamento de Willow e Tara. Mais recentemente, a já citada série The 100 , de Jason Rothenberg, que trouxe a relação entre Clarke e Lexa ( Commander of the Grounders ) - essa última, apesar de sua liderança e força, não escapou da morte, na frente de sua amada, assim como Tara. Sob um certo prisma isto nos remete a questão da influência da imagem (Joly, 2005) que, baseada em um viés “torto”, propaga essa ideia de impossibilidade amorosa para a comunidade LGBTQIAPN+. Essa circunstância era, por um lado, reflexo da resistência de parte do público heterocis que fala sobre a influência negativa que a visualização de cenas envolvendo personagens LGBTQIAPN+ poderia ter em “famílias tradicionais”, como se a orientação sexual dos jovens da família pudesse ser modificada pela influência da imagem vista (Joly, 2005). Assim, não há surpresa no fato de que muitas pessoas LGBTQIAPN+ não se identificassem com nenhuma das personagens ou das histórias mostradas nas telas, e que muitos jovens tivessem dificuldade em compreender a sua sexualidade, pois não havia exemplos a serem observados. Surgem alternativas diferentes, entre elas, a série Glee (2009-2015), criada por Ryan Murphy mesmo criador da série Pose) , Brad Falchuk e Ian Brennan, que trouxe uma pluralidade de personagens, apresentando carismáticos personagens LGBTQIAPN+ com suas histórias de amor, tendo como plano de fundo o clube de coral de uma escola. Os personagens principais e o tema central ainda não giravam em torno de uma história de amor LGBTQIAPN+ nos moldes de contos de fadas adolescentes. Havia, 37 Retirado de https://www.disneyplus.com/pt-pt/series/love-victor/3tV91pQuQk2K
47 ademais, várias produções com personagens LGBTQIAPN+ que orbitavam em torno de protagonistas heterocis ou cuja história não tinha como foco principal uma história de amor, um romance entre personagens LGBTQIAPN+, que é o que torna uma série como Heartstopper necessária. Há várias outras séries com personagens e/ou temática LGBTQIAPN+, lançadas a partir dos anos 2000: [...] Queer as Folk (2000 - 2005) e The L Word (2004 - 2009) e a crescente entrada de personagens LGBT, sobretudo em produções voltadas para o público adolescente como The OC (2003 – 2007), Skins (2007 – 2013) e Glee (2009 – 2015). [...] Atualmente, é possível encontrarmos personagens lésbicas, gays, bissexuais e transgêneras em praticamente todas as narrativas televisivas. House of Cards, Game of Thrones, The Walking Dead, The Fosters, Orphan Black, The 100, Pretty Little Liars, American Horror Story, Unbreakable Kimmy Schmidt, Once Upon a Time, Boy Meets Girl, Master of None, Orange Is The New Black, Transparent (...). (Sarmet & Baltar, 2016, p. 52) Além das produções já citadas, há produções mais atuais que trazem, como protagonistas, personagens LGBTQIAPN+ jovens e complexos, com sua história desenvolvida e diversidade de etnia/raça, corpo, identidade etc. No caso de filmes, temos a comédia romântica “leve”, Alex Strangelove (Netflix, 2018), de Craig Johnson; neste ano também foi possível conhecer o comovente Rafiki (Big World Cinema, 2018) de Wanuri Kahiu, inspirado no conto Jambula Tree , escrito pela autora ugandense Monica Arac de Nyeko. Em 2020, é lançado o triste e belo filme taiwanês Seu nome gravado em mim (Film Oxygen, 2020), de Patrick Kuang-Hui Liu. Neste mesmo ano também temos um filme que nos deixou com gosto de quero mais, caso de Você nem imagina (Likely Story, 2020), de Alice Wu. A película Crush (Animal Picture, 2022), de Sammi Cohen, mostra um “triângulo amoroso” sáfico. No próximo ano o filme Bottoms (Orion Pictures, 2023), de Emma Seligman, mostrou uma inversão de papeis em uma comédia escrachada que conta com um romance entre a impagável Josie (Ayo Edebiri) e Isabel (Havana Rose Liu). Há, ainda, Vermelho branco e sangue azul (Amazon Studios, 2023), de Matthew Lopez - inspirado na comédia romântica homônima (2019), de Casey McQuiston - que traz uma possibilidade insólita de romance entre um príncipe e o filho da presidente dos Estados Unidos da América. Em produções seriadas, que têm como protagonistas personagens LGBTQIAPN+ e retratam histórias de amor, tem-se Special (Netflix, 2019-2021), de Ryan O'Connell, baseada no livro de memórias “I'm Special: And Other Lies We Tell Ourselves” (2015) do mesmo autor, série que trata sobre um jovem gay com paralisia cerebral e suas descobertas sexuais e amorosas; no mesmo ano temos Dickinson (Apple TV+, 2019-2021), de Alena Smith, inspirada na vida da escritora Emily Dickinson quando jovem. A espanhola Smiley (Netflix, 2022), de David Martín Porras e Marta Pahissa, baseada na peça de mesmo nome de Guillem Clua e que conta a história de dois homens e um grupo de amigos em sua jornada na
48 busca pelo amor; e, por último, uma série que também é admirada por boa parte dos fãs de Heartstopper : a sueca Young Royals (Netflix, 2022-2024), de Lisa Ambjörn, Sofie Forsman e Tove Forsman, cujo enredo gira em torno da história de amor entre o príncipe da Suécia, Wilhelm (Edvin Ryding), e o plebeu Simon (Omar Rudberg). Além das séries teen já citadas , há personagens LGBTQIAPN+ no núcleo central de várias séries, entre elas, Stranger Things (Netflix, 2016-), dos irmãos Matt e Ross Duffer; Jovens Titãs (Netflix, 20182023), de Akiva Goldsman, Geoff Johns e Greg Berlanti, baseado na equipe dos “Novos Titãs”, da DC Comics; Sex Education (Netflix, 2019-2023), de Laurie Nunn; Umbrella Academy (Netflix, 2019-2024), de Steve Blackman, baseada na série de histórias em quadrinhos de mesmo nome criada por Gerard Way e ilustrada por Gabriel Bá, O filho bastardo do diabo (Netflix, 2022), de Joe Barton, inspirada na trilogia de livros "Half Bad", escrita pela autora inglesa Sally Green e Agatha All Along . (Disney+, 2024-) que explora a estética Camp 38 e tem como co-protagonista Joe Locke, ator abertamente gay, - intérprete de Charlie em Heartstopper – no papel do Wiccano, um personagem gay dos quadrinhos, além do envolvimento da própria bruxa Agatha (Kathryn Hahn) com Rio Vidal (Aubrey Plaza) que interpreta a Morte na trama. Importante salientar que Locke será homenageado com o Prêmio Impacto da Human Rights Campaign (HRC) 39 por “trazer histórias e vozes LGBTQ+ significativas para públicos de todo o mundo” (Pappy, 2025, §1). Sobre a homenagem o ator falou “tem sido uma alegria e um privilégio contar histórias LGBTQ+ e contribuir para um mundo onde todos, independentemente de quem sejam ou de quem amam, possam viver de forma autêntica e sem medo” (Pappy, 2025, §4). Uma das grandes vitórias conseguidas pelo ator foi a revogação da lei que proibia a doação de sangue por homens gays na Ilha de Man, sua terra natal. O anúncio ocorreu após a repercussão da sua fala na Parada do Orgulho do país (Sales, 2022). Para avaliar produções com temática LGBTQIAPN+, a ONG GLAAD - Gay & Lesbian Alliance Against Defamation 40 , criou o “Teste Vito Russo”, baseado no “Teste de Bechdel”, também criado pela instituição, que faz os seguintes questionamentos: “o filme apresenta uma personagem identificável lésbica, gay, bissexual e / ou transgênero (LGBTQIA+)?”, “esse personagem LGBTQIA+ existe para além da sua orientação sexual ou identidade de gênero?”; “caso esse personagem LGBTQIA+ seja retirado da trama, haveria um efeito significativo na história?” (Brandino, 2022). Em 2013, novas recomendações foram sugeridas: 38 Susan Sontag diz que "a essência do camp é seu amor pelo não natural: do artifício e do exagero". Essa estética acabou por se tornar representativa no universo queer (Criscuolo, s.d.). Retirado de https://www.domestika.org/pt/blog/8006-como-camp-se-tornou-a-estetica-essencial-do-universo-queer 39 Reconhecida como a maior organização de direitos civis de lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros e queer (LGBTQ+) dos Estados Unidos da América. 40 GLAAD é reconhecida como a maior organização em defesa da representação na mídia para lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros e queer do mundo (Nota da Autora).
49 Filmes de gênero, como adaptações de quadrinhos e franquias de ação, são muito populares globalmente, e por isso devem se tornar mais diversos e inclusivos, é preciso haver mais papéis principais LGBTQIA + no cinema; deveria haver um maior número de papéis LGBTQIA +, e esses personagens deveriam ser também diversos em relação a gênero, raça e origem; a representação na mídia de pessoas trans tem permanecido décadas atrás da de pessoas gays e lésbicas, e quando essas pessoas aparecem, são de forma marginalizada; insultos anti-gays são menos comuns no cinema agora do que eram há 20 anos, mas, infelizmente eles ainda não estão extintos. (Brandino, 2022, §10) Outro aspecto negativo a ser observado é a fetichização das personagens femininas, sejam elas de qual orientação forem, dentro do aspecto de que a mulher e sua imagem servem a algo, objetificandoa (Mulvey, 1999). Esse tipo de olhar em uma narrativa está imbricado em uma dinâmica de poder, fruto de um male gaze. Em muitos casos é como se uma personagem que vive um relacionamento sáfico só estivesse à espera de um homem chegar para mudar sua vida. Uma das produções com temática LGBTQIAPN+ que traz várias controvérsias em seus bastidores é o premiado filme francês Azul é a cor mais quente (Quat’sous Films, 2013) roteirizado e dirigido por Abdelatif Kechiche, um cineasta heterossexual, cisgênero, tendo como co-roteirista sua esposa, a atriz Ghalia Lacroix (Machado 2017, p. 124). O filme é baseado na graphic novel “Le bleu est une couleur chaude” 41 (2010) escrita por Jul’ Maroh – uma pessoa transgênero e não-binária. Quando uma produção é realizada através de um queer gaze , a possibilidade de representações estereotipadas e fetichizadas, a princípio, é derrubada. As produções audiovisuais refletem o que é pauta no momento e podem acabar por influenciar aspectos negativos que afetam a população LGBTQIAPN+, conforme alguns teóricos “o que prevalece nas sociedades contemporâneas é a franca disseminação, pelos Mass Media, de más representações e estereotipias, com o deslocamento dos locais de fala” (Machado, 2017, p. 120). A realidade muitas vezes é mostrada, mas apenas por um viés, sem uma possibilidade de mudança. Uma representação negativa, pode reforçar discursos distorcidos sobre essa comunidade, abrindo espaço para o preconceito e a discriminação, como veremos a seguir. 3.3. BURY YOUR GAYS E THE DEAD LESBIAN SYNDROME Tropos são representativos de estruturas de poder e podem reforçar discursos e produzir significados. O tropo Bury Your Gays (BYG), atua como símbolo de um método de punição executado durante vários anos e que se perpetua ainda hoje, mesmo com a extinção dos códigos de censura e, não 41 Retirado de https://www.glenat.com/hors-collection-glenat-bd/le-bleu-est-une-couleur-chaude-9782723498760
50 obstante, mesmo com o aumento de produções LGBTQIAPN+. Esse tropo possui várias “ramificações” como o tropo Depraved Homosexual que se refere à quando “personagens explicitamente gays são vinculados à uma ideia de vilania e sua sexualidade é encarada como traço negativo” (Pais, 2020), o que pode levar a um final trágico; os tropos Too Good for This Sinful Earth e ao Homophobic Hate Crime se referem a violência ou morte de personagens LGBTQIAPN+ em decorrência da homofobia, como ocorreu em Brokeback Moutain e But Not Too Gay ou de Bait-and-Switch Lesbians “em que os criadores conseguem dar continuidade ao romance, mas evitam mostrá-lo em detalhes matando um dos personagens” (Pais, 2020). O BYG é conhecido também devido ao grande número de mortes de personagens lésbicas no decorrer das mais variadas tramas, seja em filmes, séries ou novelas, conforme apurado pelo estudo GLAAD 2016, que gerou notícias em diversas agências “(...) CNN, The Washington Post e até a ONU Mulheres relataram a onda de caráter lésbico e bissexual nas mortes que o estudo destacou” (Bridges, 2018, p. 122). Em histórias como a da série Warrior Nun - um dos objetos dessa pesquisa -, em muitos momentos, podemos observar olhares, sorrisos e conversas que demonstram um interesse mútuo e isso até pode ser “aceito”: uma relação que fica no imaginário e que ali pode ou não se desenvolver (temporada 1), mas, a partir do momento que esse relacionamento se torna evidente, mesmo que através de um simples beijo, o resultado pode ser catastrófico para as personagens (temporada 2). Além de vários filmes, há diversas séries com personagens lésbicas que tem um final trágico, de uma forma ou de outra: The Children's Hour (1961) e The Fox (1968) fornecem dois exemplos do Dead Lesbian Trope, uma forma específica de BYG. Essencialmente, uma personagem lésbica se apaixona por outra mulher que é apresentada como bissexual ou hétero, e se elas formam um relacionamento, a lésbica morre logo depois delas experimentam algum tipo de realização ou reconciliação sexual ou romântica, tanto quanto o público de TV viu com Tara e depois Lexa. A mulher bissexual frequentemente acaba com um homem, restaurando assim o status quo da tradicional família nuclear. (Bridges, 2018, p. 126) Além dessas produções, pode ser acrescentado o seriado The Eleventh Hour (1962-1964) cuja personagem Hallie (Kathryn Hays) tem sua possível homossexualidade curada (Tropiano, 2002). Observa-se, ao analisar séries e filmes existentes que, dependendo da categoria a qual a produção faz parte, é bastante provável que haverá alguma morte, salvo exceções, inclusive de personagens heterocis. O problema reside na diferença percentual do número de mortes de personagens heterocis para personagens LGBTQIAPN+ (GLAAD, 2023), o que muitas vezes atua como uma punição direta pela consumação de um amor “proibido”. Há também a maneira como essas mortes acontecem, muitas
51 vezes somente para servir de “degrau” ao enredo de personagens heterocis. Várias mortes ocorrem muitas vezes apenas para separar personagens LGBTQIAPN+ em um relacionamento, o que tem um forte impacto sobre o público também LGBTQIAPN+. A maneira como isso é feito é abordada pela pesquisadora Elizabeth Bridges “mais tarde, à medida que os códigos relaxavam e a homossexualidade se tornava visível na tela, os filmes e a TV passaram de silenciar para punir, com a tendência de matar personagens queer ou apresentá-los como miseráveis e moralmente comprometidos” (Bridges, 2018, p. 115). O relatório anual do GLAAD - que expõe muitas dessas situações que ocorrem com personagens LGBTQIAPN+ - repassado a criadores em 2016, como dito anteriormente, talvez fizesse com que essa representação de mulheres lésbicas e bissexuais mudasse e suas mortes diminuíssem, modificando essa tendência histórica “de matar personagens LGBTQ – muitas vezes apenas para enredo de um personagem hétero e cisgênero - o que envia uma perigosa mensagem para o público. É importante que os criadores não revigorem tropos nocivos, que exploram uma comunidade já marginalizada” (GLAAD, 2016). Uma provocação a produtores e escritores sobre uma possibilidade criativa que fugisse de todas essas décadas de representações negativas e de mortes aviltantes (Bridges, 2018). Será que eles não conseguiriam fazer melhor do que estava sendo feito? Por haver uma maior ocorrência de separação ou morte com personagens sáficas, podemos constatar que esse fator pode ser visto como um dos muitos braços da misoginia, do julgamento ad infinitum imputado às mulheres. Quando há personagens femininas que se distanciam do papel de menininha e princesa que construímos desde a infância pelos mais diferentes canais e meios, há, inexoravelmente, a invisibilidade da sua fala, de seu corpo. Um corpo que pode ser visto e admirado (Wray, 2003), desde que esteja nos padrões e que sirva a algo ou alguém, de preferência um homem. Quando esse corpo inspira e/ou sente desejos e afeto por outro corpo como o seu, ele deve ser de alguma forma “calado” e essa forma deve ser “compreendida” por quem assiste, não deixando dúvidas sobre a impossibilidade de se viver o que está surgindo: As mulheres queer suportaram o peso deste tropo, especialmente na televisão, de tal forma que veio a ser conhecido como o Tropo da Lésbica Morta ou Síndrome da Lésbica Morta. Muitas vezes esses personagens encontram seus destinos infelizes logo após experimentarem a realização romântica, às vezes logo após uma cena póscoito ou de sexo. (Bridges, 2018, p. 122) Dentro dessa perspectiva, é necessário citar duas cenas de séries que definitivamente são exemplos dessas colocações, como já comentado: a morte da personagem Tara Maclay (Amber Benson), no ano de 2002, em Buffy: a caça-vampiros e da personagem Lexa (Alycia Debnam-Carey), de The 100 ,
52 em 2016. Ambas mortas por uma arma disparada por um homem, durante um momento de felicidade e intimidade, depois de fazerem amor. As personagens Willow (Alyson Hannigan), namorada de Tara, e Clarke (Eliza Taylor), a razão do afeto da personagem Lexa, são bissexuais, mesmo a personagem Willow tendo se identificado enquanto lésbica após iniciar seu relacionamento com Tara. O criador da série Buffy , Joss Whedon, em entrevista a Metro UK 42 afirmou que, atualmente, a personagem Willow se identificaria como bissexual, mas que na época os responsáveis acreditavam que se isso fosse exposto, o público acharia que o romance seria uma “fase” da personagem e por conta disso poderiam não reconhecer a força do amor entre as duas. Esse receio ocorre justamente porque há pessoas que acreditam que bissexuais são “confusos” ou promíscuos, percepção fruto de uma binegatividade (Dyar & Feinstein, 2018) infelizmente ainda muito presente na vida de pessoas bissexuais. A morte da personagem Lexa atingiu uma dimensão que não foi possível à outras personagens na mesma situação, fossem elas de filmes, séries ou mesmo novelas. Um movimento que se deve, majoritariamente, aos fandoms e a sua atuação nas redes sociais, sobretudo no X (ex-Twitter) e no Tumblr, bem como à própria “força” da personagem. Uma trend que uniu pessoas LGBTQIAPN+, sobretudo mulheres sáficas, das mais diversas nacionalidades, como a escritora Cassidy Blues “é algo que nos mata: falta de aceitação, falta de compreensão, falta de esperança. (...) A comunidade LGBT+, particularmente os jovens, está constantemente vendo sua representação ser morta na tela. Não podemos nem existir em mundos de mentira ” (Blues, 2019, §23, ênfase da autora). A pesquisadora Bridges, selecionada como referência no tropo BYG, tem uma opinião que se alinha com essa citação: No entanto, apesar do impacto duradouro que a morte de Lexa teve em destacar o problema do BYG, não se conseguiu apagar a mensagem que o tropo manda para o público da comunidade LGBTQ: o amor gay e o sexo são puníveis com a morte, a felicidade é inatingível e vidas LGBTQ não importam. Longe de mera suposição por parte de telespectadores, essa conclusão aparece fundamentada na matriz histórica de discursos e práticas culturais, médicas, jurídicas e religiosas que constituiu definições contemporâneas de sexualidade e normas sociais. (Bridges, 2018, p. 122) Práticas que reforçam uma das tramas existentes mais conhecidas em produções que se utilizam do interesse de uma personagem lésbica por uma personagem bissexual ou mesmo hétero que na maioria dessas histórias acaba ficando com homens ou morrem, situações que ocorrem em várias produções, em diferentes épocas (Bridges, 2018). 42 Retirado de https://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2020/05/21/buffy-willow-seria-bissexual-se-serie-fosse-feita-hoje-em-dia-diz-criador.htm
53 Figura 2 e 3: Questionamento de uma fã sobre a morte Lexa e Outdoor com provocação (The 100) Fonte: Site Thats Normal 43 , 2018. Em alguns casos, a cena mostrada não precisa de muitos conhecimentos semióticos para que sua mensagem seja compreendida, caso do filme The Children's Hour (United Artists, 1961), de William Wyler - baseado na peça homônima de Lillian Hellman - em que a personagem Martha (Shirley MacLaine) se suicida “a última cena do filme é uma sombra assustadora do corpo de Martha depois que ela se enforcou, significativamente, em um armário” (Bridges, 2018, p. 126). Em uma cena, Martha fala para Karen (Audrey Hepburn) “eu te amei do modo como eles disseram”, mas o filme não mostra mais do que isso e não utiliza termos que poderiam comprometer seu lançamento, intento alcançado já que ele foi o primeiro filme a escapar à censura desde a implantação do Código Hays. Personagens sáficas bem resolvidas e com relacionamentos saudáveis eram raras em produções, algo que tem mudado gradativamente. Se os relacionamentos entre mulheres mal iniciam e já acabam, não há como existir uma representação de um relacionamento duradouro. Não podemos também desvincular a invisibilidade, o silenciamento e a violência, imputados as personagens sáficas, de fatores que vêm do próprio papel da mulher na sociedade e de como ela é vista. Neste capítulo foram relatados alguns casos em que o tropo Bury You Gays está presente, agindo como forma de uma punição, nem tão velada, a personagens LGBTQIAPN+, principalmente mulheres. Teóricos como Bridges, vêem a prática do queerbaiting atrelada ao BYG em produções audiovisuais, o 43 Retirado de https://thats-normal.com/2018/03/lexa-still-deserves-better-a-fan-led-movement-carries-on-two-years-later/
54 que tem sido discutido cada vez mais em pesquisas e nas redes sociais, e que será mostrado a partir de agora. 3.4. QUEERBAITING Ao visualizar representações escassas ou caricatas em filmes e séries, parte do público LGBTQIAPN+ se sujeita a mínima possibilidade de representação da comunidade, em histórias com enredo duvidoso e com personagens cuja sexualidade fica apenas no subtexto (Bridges, 2018). Há várias definições para o termo queerbaiting . Após a realização de um estudo foi proposto uma nova taxonomia de queerbaiting cujos exemplos “podem ser encontrados em plataformas e diferentes tipos de mídia, com alguma sobreposição na categorização” (Woods & Hardman, 2021, p. 9). Os três tipos são: Queerbaiting do consumidor – por meio de marketing e produtos; Queerbaiting cultural - através do entretenimento de mídia de massa online e offline; e Queerbaitng social – por meio da interação e da aparência, incluindo a de celebridades e influenciadores. Vale ressaltar que esse é um recurso utilizado visando o consumo de um determinado “produto”, do uso de um relacionamento/personagem que serve comercialmente, sendo impossível desvinculá-lo do próprio sistema que rege nossas relações. O queerbaiting e o Bury your gays (BYG) estão intimamente ligados, podendo, os dois, estarem presentes na mesma produção audiovisual. No caso de produções audiovisuais, o queerbaiting se refere à personagens LGBTQIAPN+ vivendo um amor sugerido, mas que nunca se efetiva realmente, o que mantém fiel o espectador LGBTQIAPN+, ao mesmo tempo em que a trama não perde o espectador heterocis. Bridges retrata a questão do queerbaiting relacionada ao tropo Bury Your Gays além de analisar a ocorrência desses dois temas na série The 100 , seu efeito e as reações no público: Queerbaiting apaga ou marginaliza personagens LGBTQ, limitando sua sexualidade ao nível do subtexto, eliminando-as por completo ou relegando-as a relações de sexo oposto, apesar de qualquer codificação queer anterior. De forma similar, o tropo BYG pune esses personagens apagando-os da narrativa inteiramente se a representação realmente for além do subtexto para incluir identidade queer. Tanto o queerbaiting quanto o BYG também punem o público queer pela sugestão (ou mesmo promessa) de representação LGBTQ de qualidade, apenas para terem suas esperanças frustradas. (Bridges, 2018, p. 116) Conforme essa colocação, o queerbaiting acontece desde o começo das produções, em histórias nas quais personagens LGBTQIAPN+ servem apenas como apoio a personagens héteros, como alívio cômico ou mesmo como um amigo engraçado e participativo que quase toda pessoa, principalmente mulheres, gostaria de ter. Personagens que, na maioria das vezes, não possuem história própria, nem
61 Canal Nº inscritos Título do vídeo Visualizações Total de comentários Data da postagem Isabela Boscov 893 mil “Heartstopper: já fui triste, agora quero ser feliz” 357 mil 2320 10 maio 2022 Lorelay Fox 1,03 mi “ASSISTI HEARTSTOPPER” 161 mil 1898 5 maio 2022 Jessica Ballut 1,03 mi “HEARTSTOPPER APERTA ONDE DÓI – e cura!” 121 mil 819 5 maio 2022 Gay Nerd 129 mil “HEARTSTOPPER e nossa adolescência roubada” 37 mil 528 2 maio 2022 Carol Moreira 939 mil “HEARTSTOPPER | Por que fez tanto sucesso?” 30 mil 416 6 junho 2022 PH Santos 610 mil “HEARTSTOPPER: Assistiria todos os dias…” 15.694 156 3 maio 2022 Tabela 2: Dados dos canais selecionados Fonte: Elaboração da autora, 2024 Para a análise da recepção virtual aplicamos, na escolha do público, a técnica que mais se aproxima da proposta da pesquisa: a de amostragem intencional ou por julgamento que consiste em “selecionar um subgrupo da população, com base nas informações disponíveis, que possa ser considerado representativo de toda a população” (Mineiro, 2020, p. 296). A partir disso, o tipo de amostragem utilizada nos comentários foi a não probabilística intencional que “não apresenta fundamentação matemática ou estatística e depende, unicamente, de critérios do pesquisador” (Pessôa & Ramires, 2013, p. 122) e ocorre segundo os objetivos específicos elencados. A leitura dos comentários relacionados a cada crítica dos youtubers citados, totalizou cerca de 6.172 comentários lidos. Desses, foi extraída uma amostra de 510 com base nos seguintes critérios: a) Assuntos recorrentes; b) Complexidade; c) Contribuição para o debate; d) Possibilidade de correlação com os demais comentários. Os temas abordados em pelos menos três comentários foram planilhados para que participassem da análise. A partir da coleta dos dados, dentro dos critérios estabelecidos, partiu-se para a análise geral, buscando responder aos objetivos que direcionam essa pesquisa.
62 4.2. MÉTODOS DE ANÁLISE DE DADOS A metodologia utilizada para a pesquisa foi fundamentada no aporte teórico e na análise semiótica, bem como na análise de discurso e de conteúdo. Embasada nesses conhecimentos busquei analisar, de maneira sucinta, as séries The 100 e Warrior Nun , para verificação de situações que sejam reconhecidas como queerbaiting ou o tropo Bury You Gays , conforme mostrado pela movimentação dos fãs nas redes sociais. Na sequência, foi retratada a percepção sobre a mensagem sugerida através dos signos utilizados para representar, simbolizar e/ou transmitir a ideia central da série Heartstopper , escolhida como objeto principal dessa pesquisa. As cenas foram analisadas procurando-se pontos em comum nos signos que compõem as imagens. A partir do contexto em que aparecem, buscou-se traçar uma possibilidade de representação do fragmento de realidade que se pretende retratar através das séries. No caso de Heartstopper realizouse uma análise visual a partir das cores, elementos gráficos, mensagem textual, signos, metáfora e expressão corporal, bem como uma áudio-análise abrangendo as músicas e a linguagem verbal. Para verificar-se a qualidade da representação nas séries serão utilizados os critérios organizados na Tabela 3. Destaco novamente que os critérios foram elaborados a partir do “Teste Vito Russo” e do “Teste de Bechdel”, bem como do “Teste de Representatividade” de Souza (Souza, 2021), já citados no decorrer da pesquisa, e espelham os questionamentos da pesquisadora. EIXO PERGUNTAS A representação A série/filme apresenta uma ou mais personagem(ns) LGBTQIAPN+ identificável(is)? Essa(s) personagem(ns) LGBTQIAPN+ existe(m) para além da sua orientação sexual ou identidade de gênero? Essa(s) personagem(ns) é/são diversa(s) em relação a gênero, raça e origem? Há uma rede de apoio para a(s) personagem(ns) LGBTQIAPN+? A importância Essa(s) personagem(ns) faz(em) parte do núcleo central? Caso essa(s) personagem(ns) seja(m) retirada(s) da trama, haveria um efeito significativo na história? A(s) personagem(ns) mulher(es) faz(em) parte do núcleo central? Sua(s) história(s) é/são independentes? Os não-estereótipos Essa(s) personagem(ns) reproduz(em) os estereótipos de alívio cômico, hipersexualização, promiscuidade ou de gênero? O quantitativo Quantos personagens LGBTQIAPN+ há na produção?
63 Quantas dessas personagens fazem parte do núcleo central? Há pessoas LGBTQIAPN+ atrás e na frente das câmeras? Quantas personagens são do gênero masculino e feminino no núcleo central? Há personagens nãobinárias ou agênero? Quantas? Quantas personagens trans existem em relação as personagens cis? Ela(s) faz(em) parte do núcleo central? Tabela 3: Critérios para Verificação da Representação de Personagens LGBTQIAPN+ na Série Fonte: Elaboração da autora, 2024 Utilizando-se dos critérios elaborados sobre a representação somados a análise das séries foi realizada a comparação entre elas também no que se refere especificamente ao relacionamento entre as personagens, através dos pontos elencados na Tabela 4. Tabela 4: Levantamento da Representação do Relacionamento entre as Personagens LBTQIAPN+ Fonte: Elaboração da autora, 2024 As perguntas elencadas são critérios para um maior entendimento da questão da representação e da configuração do próprio relacionamento entre as personagens nas séries escolhidas. Após essa etapa, iniciou-se a análise dos comentários realizada da seguinte forma: cada youtuber selecionado teve sua crítica assistida como base para se compreender os comentários; foram observadas as impressões Perguntas Heartstopper Warrior Nun The 100 Há o protagonismo das personagens envolvidas? De um(a) ou dos(as) dois/duas? As personagens são complexas, aprofundadas? Uma ou as duas? As personagens têm seus próprios núcleos dentro da história? Uma ou as duas? Identifica-se que as personagens são LGBTQIAPN+? Uma ou as duas? As personagens possuem diversidade de etnia/raça, corpo e identidade? Uma ou as duas? O romance entre as personagens é evidente? Qual o tipo de contato/relação entre as personagens? Há algo que identifique a prática de queerbaiting na história ou fora dela? O final da(s) temporada(s) analisada(s) recai no tropo Bury Your Gays (BYG)?
64 de cada youtuber e o que a história representou para eles. Procurou-se apresentar a descrição do vídeo, bem como as perguntas que o(a) youtuber fez a quem assistiu a sua crítica. Os comentários contidos em cada vídeo foram lidos na sua totalidade e, após, realizou-se a seleção desses comentários conforme os critérios anteriormente mostrados. Para efetuar a análise de conteúdo dos comentários selecionados, procurou-se elencar temas e palavras recorrentes. Os comentários negativos, por representarem uma pequena parcela da totalidade dos comentários, foram todos utilizados, o que facilita a sua análise. A análise dos comentários foi escolhida como forma de perceber a recepção à série Heartstopper de maneira mais visceral, pois quem está ali o faz por livre e espontânea vontade, tratando de um assunto de seu interesse e de forma muito fluida/orgânica. A identificação dos usuários, em plataformas como o Youtube, é geralmente autodeclarada e muitos fazem uso de um nickname - limitação que será abordada posteriormente no capítulo 9. Garcia traz esse viés sobre pesquisa ao afirmar que “se no pensamento queer os sujeitos e subjetividades são fluídos, instáveis e se fazem continuamente, como coletar dados utilizando os métodos costumeiros, como entrevistas e questionários?” (Garcia, 2012, p. 242). Os comentários são modos de comunicação importantes para discussão de algum tema ou objeto: [...] comentários, em tese, são modos de comunicação reativos, avaliativos e contextualmente fincados sobre o conteúdo que lhes motiva – vídeos, fotografias, textos, produtos comercializados etc. Comentários podem ser produzidos imediatamente após uma publicação disparadora, mas também depois de horas, dias ou anos, com poder inclusive de reacender – no sentido de tornar novamente visível – uma celeuma já esquecida. (Biar & Paschoal, 2020, p. 1054). A recepção da série Hearstopper , para o público analisado, será mensurada a partir dos seguintes tópicos, relacionados a assuntos concernentes ao objeto principal: EIXO TÓPICOS Heartstopper 1. Opinião/Sentimento/Lembranças Representação 2. Há reconhecimento de representação positiva na série? 3. Há alguma comparação ou sugestão de outras produções a partir de Heartstopper ? Qual(is)? 4. Houve identificação com algum personagem? Qual? Sexualidade 5. Há alguma referência sobre come out ? 6. Há alguma referência sobre relacionamentos? Traumas 7. Há alguma menção sobre bullying ou situações traumáticas? Adolescência 8. É trazida alguma questão referente à adolescência? Tabela 5: Tópicos Relacionados à Recepção da Série Heartstopper Fonte: Elaboração da autora, 2024
65 O material resultante da análise dos comentários será tratado de forma individual na sua análise e de maneira única na sua interpretação. O próximo capítulo, abordará as séries The 100 e Warrior Nun , sua descrição, quais os personagens que compõem a história e como o relacionamento entre as personagens LGBTQIAPN+ é representado.
66 5. ANÁLISE DE DUAS SÉRIES: QUEERBAITING E BURY YOUR GAYS ? Para essa pesquisa trago uma análise sucinta das séries The 100 e Warrior Nun , selecionadas por possuírem um grande número de fãs que agitaram diversas redes sociais, movimentaram comunidades e fandoms , ao trazer discussões sobre representação LGBTQIAPN+, com menções a queerbaiting e Bury Your Gays (Cover & Milne, 2023). Essa movimentação mostra a força do público e aponta para uma possibilidade de modificar de forma mais eficaz essa história de representações negativas e inadequadas, mas que serviam e ainda servem a um propósito. Após a observação das cenas correspondentes, focada principalmente na interação das personagens Clarke e Lexa ( The 100 ) e Ava e Beatrice ( Warrior Nun ), foi realizada, respectivamente, a análise dos momentos considerados significativos para o desenvolvimento do relacionamento e o entendimento das personagens LGBTQIAPN+. Em seguida foi feita a análise geral de cada série, para que se possa perceber o que levou os fãs a reconhecerem aspectos de queerbaiting e o tropo Bury Your Gays (BYG), bem como a aplicação dos Critérios de Representação da série e do próprio relacionamento entre as personagens LGBTQIAPN+. 5.1. THE 100 “Juro-te fidelidade Clarke kom Skaikru. As tuas necessidades serão as minhas e o teu povo será o meu” Declaração de Lexa, ajoelhada em frente à Clarke (T2E15) Figura 4: Banner da série The 100 Fonte: Site This Got My Attention Today 47 , 2024. A série The 100 (The CW, 2014-2020) é uma série de ficção científica criada por Jason Rothenberg, baseada no livro homônimo de Kass Morgan. A síntese existente no site do Prime Vídeo 48 informa “para impedir a extinção da humanidade, um grupo de 100 prisioneiros juvenis é exilado em 47 Retirado de https://thisgotmyattentiontoday.wordpress.com/2016/03/05/art-imitates-life-lessons-from-the-100/ 48 Retirado de https://www.primevideo.com/region/na/detail/0OFL7RJBJ9JPM2PP93VXXMBHIL/ref=atv_dp_season_select_s1
67 segredo a partir da Arca para verificar se a atmosfera é novamente aceitável para seres vivos. Assim, os jovens herdam a Terra”. Esses 100 adolescentes, por terem vindo do espaço são chamados de povo do céu ou Skaikru , enquanto o povo que vive na superfície da terra, formado por 12 clãs; unificados sob a liderança da Commander Lexa – a “Heda” - , são chamados de terrestres ou Grounders . Considero que o núcleo central é formado por 10 personagens, tendo Clarke (Eliza Taylor), como protagonista. 5.1.1. Sinopse da Temporada 2 Os membros dos 100 enfrentam perigos e dilemas morais na reformulação de toda uma sociedade. Os Grounders (Lexa) e os Skaikru (Clarke) se unem e elaboram um plano para salvar seus amigos presos no Monte Weather. A temporada aborda o embate entre povos diferentes em busca da sobrevivência e tentativas de coexistência, bem como o choque de culturas e o papel de liderança. Figuras 5 e 6: Dois momentos de Lexa Fonte: Arquivos do Pinterest 49 , 2024 Clarke e Lexa T2E6 - Névoa de Guerra : a aparição de Lexa foi muito impactante para os fãs. Uma mulher no comando de doze clãs, uma guerreira a qual os maiores guerreiros de seu povo se curvavam. A princípio, o público nada sabia sobre “o ” commander – se não contarmos os spoilers que sempre chegam através das redes sociais. Nesse episódio temos uma amostra do status e da força de Lexa sobre seus comandados. T2E7 - Por muito tempo no abismo : Clarke conhece Lexa ao entrar na tenda da commander , no acampamento montado próximo ao seu. É quando Lexa diz para Clarke "foi você que queimou vivos 300 dos meus guerreiros". A intenção de Clarke é fazer uma proposta que cesse o ataque 49 Retirado de https://br.pinterest.com/pin/146859637838151534/ e https://br.pinterest.com/pin/489344315751375481/
68 iminente. Nas cenas, devido aos diálogos e aos olhares de Lexa para Clarke é possível perceber uma certa admiração por parte da commander pela forma como Clarke conduziu as negociações entre os povos. T2E 8 - Caminhante no Espaço : quando Lexa nega o pedido de Clarke para substituir Finn - que seria morto por ter feito uma chacina em uma aldeia Grounder -, ela vê o choro de Clarke, e é nesse momento que percebemos que isso afeta Lexa. T2E9 - Lembre-se de Mim : elas estão lado a lado observando as cinzas de Finn e Lexa confidencia: “também perdi alguém que era especial para mim”, sua voz parece tremer “chamava-se Costia”. Clarke olha para ela “foi capturada pela Nação do Gelo cuja rainha achava saber os meus segredos”. A câmera foca no seu perfil e ela continua “como ela era minha... eles torturaram-na”, seu peito sobe e desce pesadamente. A câmera está próxima à Clarke agora e Lexa prossegue “mataram-na. Cortaram-lhe a cabeça”, seus olhos ficam rasos de lágrimas. Figura 7: Lexa fala para Clarke sobre Costia Fonte: Site The 100 Wiki Fandom 50 , 2024 T2E10 - Sobrevivência do mais apto : após uma reunião sobre o ataque a Monte Weather, Clarke é agredida por um dos homens de Lexa. A commander o atinge com uma faca e fala: “atacar a ela é atacar a mim”. Em Camp Jaha/Arkadia, local onde vivem os Skaikru , Lexa deixa um de seus homens encarregado de proteger Clarke acima de qualquer coisa. O Ciúme T2E14 - O Guarda-costas de mentiras : Clarke e Lexa estão na tenda dessa última e conversam sobre estratégias para um ataque aos montanheses. Quando Clarke demonstra preocupação com a presença de Bellamy em Monte Weather, vê-se uma mudança no semblante de Lexa que está de costas para ela “gostas dele”, diz. Clarke responde “eu gosto de todos eles”, Lexa se vira e retruca “mas 50 Retirado de https://the-100-brasil.fandom.com/pt-br/wiki/
69 preocupa-te mais com ele”. Percebemos essa fala e as expressões de Lexa como sinal de um possível ciúme, ou, no mínimo, um desconforto com o que Clarke sente por Bellamy. A Briga T2E14: Clarke discute com Lexa “dizes que ter sentimentos me torna fraca, mas tu é que és fraca, por te esconderes deles. Posso ser hipócrita Lexa, mas tu és uma mentirosa. (...) Queres que todos pensem que és superior a isso tudo, mas a mim não enganas”. Enquanto fala, Clarke se aproxima cada vez mais de Lexa, que vai recuando até encostar em uma mesa, desconcertada. Elas ficam muito próximas uma da outra e Lexa fala entredentes “fora daqui”, Clarke insiste lembrando sobre a aldeia da qual as duas fugiram “duzentos e cinquenta pessoas morreram naquela aldeia. Sei que sentiste essa perda, mas deixaste-os arder”. Ao que Lexa responde, emocionada “não todos” “a ti não”. Podemos perceber um momento de tensão sexual, de intensidade entre as duas. Figura 8: Clarke discute com Lexa Fonte: Tumblr 51 , 2024 O Beijo Ainda no T2E14 , Clarke se desconcerta com o olhar e a fala de Lexa. Logo, Lexa manda chamar Clarke e diz-lhe que confia nela “pensas que os nossos costumes são duros. Mas é assim que sobrevivemos”. Clarke retruca “talvez a vida não deva ser apenas sobreviver, não merecemos melhor que isso?”. “Talvez mereçamos”, concorda Lexa pensativa, olhar fixo nos lábios de Clarke. Lexa se aproxima e a beija. Clarke corresponde, mas depois interrompe o beijo e diz “lamento, eu... não estou 51 Retirado de https://acidglue234.tumblr.com/post/142607523632/lexa-loves-clarke-analysis-part-1
70 pronta para estar com alguém”. Diante do olhar de Lexa, Clarke completa “ainda não”. Há um grande significado nessa cena. A frase de Clarke deixa uma possibilidade futura. Figuras 9 e 10: Lexa observa os lábios de Clarke e acontece o beijo entre as duas Fonte: Tumblr 52 , 2024 5.1.2. Sinopse da Temporada 3 Três meses após os acontecimentos no Monte Weather e a traição de Lexa aos Skaikru , Clarke – que se tornou a “Wanheda”, a Comandante da Morte - está sendo caçada por alguns Grounders , pois, segundo a crença local, quem matar a “Wanheda” consegue dominar a morte. O Reencontro T3E2 - “Wanheda”, parte 2 : ao saber que Clarke estava sendo caçada, com o intuito de protegêla, Lexa faz um acordo com Roan (Zach McGowan), príncipe de Azgeda , a Nação do Gelo, para que ele traga Clarke até ela na capital. A coligação está prestes a ser destruída e Lexa quer Clarke ao lado dela, como “Wanheda”, mas quando Lexa se aproxima de Clarke, essa, furiosa, cospe em seu rosto. A Declaração T3E3 – Vós que entrais aqui : após a cerimônia em que Clarke e seu povo se tornam o 13º clã sob o comando de Lexa, essa vai até o quarto de Clarke e se ajoelha aos seus pés "juro-te fidelidade, Clarke kom Skaikru. As tuas necessidades serão as minhas e o teu povo será o meu". Clarke lhe estende a mão e seus olhos se encontram. 52 Retirado de https://acidglue234.tumblr.com/post/142607523632/lexa-loves-clarke-analysis-part-1
77 O queerbaiting mencionado nas mídias ocorreu pois, além do tempo prolongado para que o relacionamento se concretizasse entre as personagens (enquanto outros relacionamentos se formavam rapidamente), a própria equipe, encabeçada pelo criador, alimentava a ilusão dos fãs nas redes, o que pode ser percebido ao reforçarem a presença de Lexa, mesmo com a morte dela já tendo sido gravada, com comentários da equipe e fotos de momentos das filmagens (Coletti, 2017). Possivelmente por terem percebido o impacto e a força da personagem para o público e sua importância na própria narrativa, Lexa foi “trazida” de volta em alguns episódios após sua morte, mas mesmo assim o público não se deixou convencer. Os fãs utilizaram nas redes a #LGBTfansdeservebetter e as frases “CW usou fãs LGBT”, “Minorias não são descartáveis” e “Alycia queria voltar” (Blues, 2018). A morte da personagem Lexa em The 100 pode ser considerada fundamental dentro da movimentação dos fãs, pois deu início a uma onda de mudanças a partir de suas ações, entre elas as campanhas #LexaDeservedBetter 59 , #FansDeservedBetter 60 , bem como a iniciativa de arrecadação de fundos para o The Trevor Project 61 , uma organização sem fins lucrativos que trabalha para prevenir suicídios de pessoas LGBTQIAPN+. Além disso, “como resultado das reações inflamadas de fãs, legitimamente decepcionados, um grupo de mulheres da série canadense ‘Saving Hope’ se uniu para criar o Lexa Pledge, uma promessa escrita para tratar personagens LGBTQ com respeito” (Santos, 2016, §1). Houve também mudanças na utilização de termos e nomenclatura na forma como são empregados atualmente, inspirando ainda outras reivindicações, como mostra o título da matéria no site Variety : “What TV Can Learn From ‘The 100’ Mess” - O que a TV pode aprender com a bagunça de ‘The 100’ (Ryan, 2016). Ao ter-se dado conta do que havia acontecido, Rothenberg elencou fatores que afetam sobretudo adolescentes LGBTQIAPN+ e que mostram a importância da representação positiva no audiovisual. Os mesmos já discorridos no decorrer dessa pesquisa: discriminação, depressão, ideação suicida, falta de oportunidade para pessoas LGBTQIAPN+, sobretudo mulheres, e tantos outros. Apesar desse reconhecimento, Rothenberg esqueceu de um ponto muito forte que se refere à esperança: a negação da possibilidade de viver um amor. Uma impossibilidade na construção de afetos. 59 Retirado de https://thats-normal.com/2018/03/lexa-still-deserves-better-a-fan-led-movement-carries-on-two-years-later/ 60 Retirado de https://variety.com/2016/tv/opinion/the-100-lexa-jason-rothenberg-1201729110/ 61 Retirado de https://variety.com/2016/tv/opinion/the-100-lexa-jason-rothenberg-1201729110/
78 5.1.4. Critérios para Verificação da Representação de Personagens LGBTQIAPN+ na Série The 100 EIXO PERGUNTAS The 100 A representação A série/filme apresenta uma ou mais personagem(ns) LGBTQIAPN+ identificável(is)? Sim. Essa(s) personagem(ns) LGBTQIAPN+ existe(m) para além da sua orientação sexual ou identidade de gênero? Sim. Essa(s) personagem(ns) é/são diversa(s) em relação a gênero, raça e origem? Sim. Há uma rede de apoio para a(s) personagem(ns) LGBTQIAPN+? Sim. A importância Essa(s) personagem(ns) faz(em) parte do núcleo central? Sim. Caso essa(s) personagem(ns) seja(m) retirada(s) da trama, haveria um efeito significativo na história? Sim e não. A(s) personagem(ns) mulher(es) faz(em) parte do núcleo central? Sua(s) história(s) é/são independentes? Sim. Sim. Os nãoestereótipos Essa(s) personagem(ns) reproduz(em) os estereótipos de alívio cômico, hipersexualização, promiscuidade ou de gênero? Não. O quantitativo Quantos personagens LGBTQIAPN+ há na produção? 5. Quantas dessas personagens fazem parte do núcleo central? 1/10. Há pessoas LGBTQIAPN+ atrás e na frente das câmeras? Não sabemos. Quantas personagens são do gênero masculino e feminino no núcleo central? Há personagens não-binárias ou agênero? Quantas? F: 4 e M: 6 NB: 0 e AG: 0 Quantas personagens trans existem em relação as personagens cis? Ela(s) faz(em) parte do núcleo central? 0/10. Tabela 6: Critérios para Verificação da Representação de Personagens LGBTQIAPN+ na Série Fonte: Elaboração da autora, 2024 Perguntas The 100 1. Há o protagonismo das personagens envolvidas? De um(a) ou dos(as) dois/duas? Sim.1. 2. As personagens são complexas, aprofundadas? Uma ou as duas? Sim. 2. 3 As personagens têm seus próprios núcleos dentro da história? Uma ou as duas? Sim. 2. 4. Identifica-se que as personagens são LGBTQIAPN+? Uma ou as duas? Sim. 2. 5. As personagens possuem diversidade de etnia/raça, corpo e identidade? Uma ou as duas? Não. 6. O romance entre as personagens é evidente? Somente no final. 7. Qual o tipo de contato/relação entre as personagens? Envolvimento. 8. Há algo que identifique a prática de queerbaiting na história ou fora dela? Sim. Fora das telas. 9. O final da(s) temporada(s) analisada(s) recai no tropo Bury Your Gays (BYG)? Sim. Tabela 7: Levantamento da Representação do Relacionamento entre as Personagens LBTQIAPN+ Fonte: Elaboração da autora, 2024
79 5.2. WARIOR NUN “Estarei com você em cada passo” Beatrice para Ava (T1E9) Figura 18: Banner da série Warrior Nun Fonte: Site da Netflix 62 , 2024 A série Warrior Nun (2020-2022) é uma série de ação e fantasia criada por Simon Barry - inspirada na graphic novel “Warrior Nun Areala”, de Ben Dunn - cuja síntese existente no site da Netflix 63 informa: “Uma jovem acorda numa morgue e descobre que tem os superpoderes da portadora do Halo, o que faz dela a escolhida numa sociedade secreta de freiras que caçam demônios”. 5.2.1. Sinopse da Temporada 1 Ava (Alba Baptista), era uma jovem tetraplégica que, ao receber o Halo, revive e recupera os movimentos. A jovem é um tanto incrédula seja sobre instituições religiosas ou a própria existência de Deus. Ava só quer se divertir e aproveitar a segunda chance de viver. Ava e Beatrice T1E2 - Provérbios 31:25 - Ava é emoção, enquanto Beatrice (Kristina Tonteri-Young) é razão. Ava e Bea se conhecem . T1E3Efésios 6:11 : no refeitório, Ava se senta ao lado de Bea analisando suas expressões. Momentos depois, elas conversam e Ava observa Bea profundamente, enquanto ela conta que seus pais são diplomatas na Inglaterra, conservadores e preocupados com a aparência “eu não seguia as normas, então me mandaram para um internato católico”. Ava diz que há mais do que ela está contando. Bea em pé ao lado de Ava, baixa os olhos, se aproxima ainda mais e responde “sempre tem mais.” Ava levanta o rosto e seus olhos se encontram. É o primeiro contato mais próximo das 62 Retirado de https://www.netflix.com/title/80242724 63 Retirado de https://www.netflix.com/title/80242724
80 personagens. Aqui é mostrado que Bea traz algo que muitos não sabem o que é. E nos indagamos como ela não seguia as normas se ela aparentava ser a mais disciplinada de todas as warrior nun . Figura 19: A conversa entre Ava e Bea sob os olhos dos fãs Fonte: Plataforma Ytimg 64 , 2024 O Diário T1E8 - Provérbios 14:1 - Ava recupera um diário das warrior nun que Shannon havia escondido. Bea lê a história com atenção. No diário, a Warrion Nun Melanie conta que havia se tornado portadora do Halo quando escapou do campo de concentração de Dachau. Ava pergunta como ela podia ser judia e freira. Bea explica “perseguiam as pessoas por serem diferentes. Não só judeus.” Ela olha rápido para Ava “ela era lésbica.” Bea lê um fato narrado no diário. Ao largar o diário em cima da mesa de centro, ela chora e dá um longo suspiro. Fala para Ava “minha vida inteira, tentaram me fazer ser algo que não sou. Me fazer ser ‘normal’ ou, no mínimo, ‘tolerável’. Eu me versei em tantas coisas só para ainda ter algum valor apesar dos meus defeitos, ou do que me ensinaram que eram defeitos. É óbvio que tentei me adequar..., mas quando se é punida só por ser diferente, começa a se odiar o que se é. E o que ama, o que deveria dar felicidade... só traz dor”. Ava responde “não odeie o que você é. É lindo o que é. Lamento a sua dor”. No episódio 9 - Coríntios 10:4 - quando Ava consegue terminar um teste muito difícil, Bea a abraça e toca seu rosto, olhando-a nos olhos fala “você conseguiu”. “Graças a você” Ava responde. Bea disfarça e pigarreia ao dizer “estarei com você em cada passo”. Importante mencionar que, nas redes sociais, os fãs postam cenas das séries The 100 e Warrior Nun com diálogos muito parecidos entre as protagonistas. 64 Retirado de https://i.ytimg.com/vi/qveGE9Aa4Hk/maxresdefault.jpg
81 Figuras 20 e 21: Bea e Ava no momento do diário e do teste Fonte: Site Guia Mundo Moderno 65 , 2024 Figuras 22 e 23: Ava e Bea na cena do beijo e da dança Fonte: Pinterest 66 , 2024 5.2.2. Sinopse da Temporada 2 As irmãs são traídas e Ava acaba sendo usada para libertar um autodenominado profeta chamado Adriel (William Miller) que quer dominar o mundo. Uma batalha entre as warrior nun e Adriel resulta na morte de Mary (Toya Turner) e na dispersão do grupo. Agora Ava está em um vilarejo na Suíça junto com Beatrice, onde busca esconder sua verdadeira identidade enquanto treina com afinco sob a supervisão de Bea. A Dança T2E1Gálatas 6:4-5 - Ava e Bea estão escondidas na Suíça, trabalhando em um bar. Ava sobe para falar com Bea “não precisa ser sempre perfeita”, brinca e lhe dá um beija no rosto. Quando Ava 65 Retirado de https://www.guiamundomoderno.com.br/entretenimento/series/critica-warrior-nun-de-uma-historia-em-quadrinhos-para-a-tela-de-sua-netflix/ 66 Retirado de https://ar.pinterest.com/pin/1069675348971791705/
82 sai, Bea, sozinha, dá um suspiro trêmulo. À noite, Ava embebeda Bea e elas dançam muito próximas. Ambas se olham e ficam de mãos dadas enquanto dançam. Em um desses momentos da dança a câmera mostra o olhar “encantado” de Ava, com os lábios entreabertos enquanto olha para Bea dançando. Percebe-se que ali, mesmo sob o efeito do álcool, Ava se dá conta de que sente algo mais. Figura 24: Ava observa Bea dançando Fonte: Reddit 67 , 2024 A União T2E2 - Provérbios 31:25 - no bar onde elas trabalham, Bea está sentada em uma das mesas e observa Ava no balcão já há algum tempo. Uma mulher pergunta se Bea está sozinha e se senta a seu lado “estou te vendo olhar para ela [Ava] há 20min. Você deve querer algo dela”. Depois da resposta de Bea, a mulher fala “também tenho uma amiga assim”. Ava, de cara feia, assiste a conversa delas. A mulher se aproxima mais “deixo bem claro para ela que ela não é a única amiga do mundo”. Olha Bea de cima a baixo. Bea responde “E se ela for?”, a mulher aperta suavemente o braço de Bea e a cara de Ava fica ainda pior. A mulher fala como vê Bea “paredes dentro de paredes e, no centro, um fogo queimando para ser livre”, encosta o indicador no peito dela. A mulher vê que Ava as observa e fala algo no ouvido de Bea, sorrindo sugestivamente. A expressão “azeda” de Ava deixa evidente o que ele está sentindo. 67 Retirado de https://preview.redd.it/the-way-ava-looks-at-beatrice-in-this-scene-v0016ga4t2lm1a1.jpg?auto=webp&s=fd7671da0b6db89de6da2c77b113ae0b1e971ce7
83 Em uma cena posterior, quando Ava cai de um prédio, Bea grita e a abraça aos prantos “por favor não me deixe, não quero que morra”. As duas sorriem uma para a outra e se abraçam. Ava responde “não podem nos vencer Bea. Juntas não” Bea acaricia o rosto de Ava “eu sei disso” concorda. Figuras 25 e 26: Ava e Bea na cena da queda Fonte: Site Reddit 68 , 2024 O Beijo T2E8 - Jeremias 29:13 - nos momentos finais do episódio, quando Ava se prepara para lutar, ela diz para Bea “as coisas mudam quando você percebe que não é o foco de tudo. Estou fazendo isso pra você viver. Então viva, ok?”. Bea responde com os olhos cheios de lágrimas “não vou. Não posso”. Elas se beijam. Figuras 27 e 28: Ava e Bea se beijam Fonte: Site Reddit 69 , 2024 68 Retirado de https://preview.redd.it/the-way-ava-looks-at-beatrice-in-this-scene-v0016ga4t2lm1a1.jpg?auto=webp&s=fd7671da0b6db89de6da2c77b113ae0b1e971ce7 69 Retirado de https://preview.redd.it/the-way-ava-looks-at-beatrice-in-this-scene-v0016ga4t2lm1a1.jpg?auto=webp&s=fd7671da0b6db89de6da2c77b113ae0b1e971ce7
84 O Fim T2E8 - Ava está ferida e Bea a leva ao arco (uma passagem para outras dimensões). Ava fala para Bea “me deixe ir.” Bea concorda “Seja livre”. Na cenas pós-créditos, Bea está pensativa próxima à espada que pertencia a Ava enquanto Warrior Nun. A madre fala com ela sobre o treinamento das novatas, mas Bea larga o hábito e sai sorrindo do convento. Onde ela estava a espada de divinium brilha, mostrando a proximidade da Warrior Nun. Figuras 29 e 30: Ava se declara para Bea antes de partir Fonte: Site Reddit 70 , 2024 5.2.3. Análise Geral de Warrior Nun O cenário que se estabeleceu depois da série The 100 ainda hoje em dia serve de exemplo para fãs de outras séries, como ocorreu com Warrior Nun. A série teve uma intensa participação dos fãs nas redes e trouxe várias discussões acerca do queerbaiting e BYG já na temporada 1, através do relacionamento entre as personagens Ava e Beatrice. Após seu cancelamento pela Netflix, depois da temporada 2, a movimentação se intensificou com a campanha #SaveWarriorNun que chegou aos trending topics do antigo Twitter, hoje X. Uma pressão que acabou ocasionando mudanças importantes: Em junho deste ano, o showrunner Simon Barry anunciou que o esforço dos espectadores teve resultado e que a série havia sido salva. [...] um vídeo publicado pelo site Warrior Nun Saved , o produtor [o produtor-executivo Dean English] confirmou que a história da atração terá uma continuação dividida em três longa-metragens. (Charleaux, 2023, n.p., ênfase da autora) A dinâmica da análise sobre essa série comparadamente a The 100 é diferente, principalmente pela sua atualidade. A série teve suas duas temporadas exibidas pela Netflix entre 2020 e 2022, enquanto os acontecimentos entre Lexa e Clarke ocorreram em 2015 e 2016, o que permite bastante tempo para produção de estudos e pesquisas. 70 Retirado de https://preview.redd.it/the-way-ava-looks-at-beatrice-in-this-scene-v0016ga4t2lm1a1.jpg?auto=webp&s=fd7671da0b6db89de6da2c77b113ae0b1e971ce7
85 Figuras 31 e 32: Campanha #SaveWarriorNun Fonte: Plataforma X (antigo Twitter) 71 , 2024 Warrior Nun se passa principalmente na Espanha e têm pessoas que atuam de diferentes etnias e nacionalidades, inclusive portuguesa (Alba Baptista, como Ava, e Joaquim de Almeida, como cardeal Duretti e, depois, como o Papa). Uma série cujas personagens principais são freiras e que critica fortemente a religião, o clero e a Igreja Católica, bem como os fundamentos nos quais ela está “sacramentada” e seus mecanismos de poder. A série mostra como é fácil manobrar, iludir, ludibriar pessoas que querem se salvar a qualquer custo, pois no final, em todos os pontos, acreditamos naquilo que queremos. No decorrer dos episódios, várias personagens são “usadas”, em diferentes momentos e de acordo com suas características, para revelar um lado sombrio das instituições. As críticas não se atêm apenas a religião, mas também ao sistema e a própria humanidade. Warrior Nun também aborda a questão das responsabilidades que nos são impostas mesmo que não queiramos ou que não estejamos preparados para elas. E o quanto, muitas vezes, é difícil nos sentirmos à vontade na nossa própria pele. A personagem Ava nos traz a alegria de viver, de experimentar, de se encontrar em si mesma e Bea nos mostra que nada importa mais do que aquilo que somos. Fugir ou apagar o que somos é uma forma de violência contra nós mesmos que deixa cicatrizes profundas. Assim como em The 100, em Warrior Nun também são mulheres que coordenam as ações. A diferença está em que, como o núcleo central é composto por freiras, obviamente há mais personagens femininas. Durante todo o tempo vemos que elas não estão sós, entre elas há uma irmandade que ultrapassa o convento. Mary, em um momento com Ava, fala que ela não era a única com cicatrizes, que todas as freiras tinham um passado e que se ela se importasse mais, saberia. Durante a história, muitas mulheres iam para conventos e acabavam por virarem freiras por diferentes motivos: fuga de um 71 Retirado de https://x.com/belongsorm/status/1602840657021702145
86 casamento arranjado, repressão dos pais e até mesmo a sua própria sexualidade (Caldeira, 2021). Mesmo a maioria das personagens sendo freiras, há uma espécie de reconhecimento das relações, caso de Mary e Shannon. Mary não fez os votos, mas a narrativa nos leva a crer que ela estava envolvida com alguém que havia feito, no caso, Shannon (Melina Matthews). Na série há vários arquétipos femininos: Deusa – Reya (Andrea Tivadar); Mundana – Ava; Professora/Mentora – Madre (Sylvia De Fanti); Cientista e mãe – Jillian (Thekla Reuten); Guerreira – Mary; Disruptiva – Beatrice, Religiosa – Camila (Olivia Delcán) e Ambiciosa – Lilith (Lorena Andrea). As mulheres estão na liderança, não são casadas, não precisam de homens para fazerem o que querem. As mães são muito citadas, mas em casos de perda: JC (Emilio Sakraya) perdeu a mãe doente; Mary tem a mãe presa; na aldeia em que Mary e Bea param um dos aldeões fala na esposa morta; Kristian (Peter de Jersey) também fala na mãe morta e a própria Ava, por razão do acidente que sofreu, pergunta apenas pela mãe. Jillian representa a separação do mundo real do espiritual. Da iluminação pelo conhecimento de um mundo em busca de descobrir seus limites. Uma cientista que vê a união entre a ciência e a religião e cujas afirmações plantam dúvidas até mesmo entre as freiras. Há várias falas dessa personagem referentes ao controle sobre as mulheres “o inferno... é um conceito criado por homens para subjugar as massas, especificamente as mulheres” (T1E4). A personagem representa também a luta para ser mãe e o que somos capazes de fazer por nossos filhos, filhas e filhes. Na série as mulheres não traem, elas se protegem, mas todas são traídas pelos homens em diferentes aspectos. A única que difere das outras freiras é Lilith - mitologicamente tida como primeira mulher de Adão -, que por vezes age de forma egoísta, muitas vezes manipulada por alguns dos homens da história, o que acaba por apagar a forma como ela é definida por algumas teóricas “[...] como parte do discurso feminino pós-moderno contra o patriarcado” (Silva, 2012, p. 7). A religião é simbolizada por quatro homens: o padre Vicent (Tristán Ulloa), um traidor das freiras que depois se arrepende; o cardeal/papa Duretti, um religioso de ações dúbias; Adriel, o falso profeta e Kristian, um católico que depois se desilude e no decorrer da história torna a ser crédulo. Todos eles têm atitudes duvidosas e que custam a vida de outras pessoas, principalmente mulheres. Na luta contra Adriel, no final da temporada 1, Ava está “recarregando” o Halo e quatro das warrior nun lutam contra ele, o que percebemos ser muito simbólico. Essas mulheres, sem poderes, somente com suas histórias, sem privilégios, mas juntas, lutam contra um homem, superpoderoso, com seus privilégios, que quer fazer valer sua verdade. Em certo sentido, a cena pareceu se referir não somente a um homem em si, mas as características do patriarcado que ele representa, uma estrutura que oprime as mulheres que, juntas, podem destruí-lo.
93 Figura 34: Núcleo central da trama, falta Isaac Fonte: Perfil do Heartstopperfrases 77 no Instagram, 2024 A adaptação do vol. 1: Dois Garotos, Um Encontro e do vol. 2: Minha pessoa favorita das Graphic Novels para essa outra linguagem, teve parte de sua recepção positiva devida aos signos escolhidos e que se tornaram visíveis em seu significado para o público, “o que notámos também é que todos esses signos (icónicos, plásticos, linguísticos) são realmente signos porque não estão lá por si mesmos, mas para produzir sentido, móvel, vivo, sempre deslocado, a par do que eles nos propõem perceber de início” (Joly, 2005, p. 178). Alice Oseman, que escreveu e roteirizou Heartstopper , relata que escreveu “a história que gostaria de ter lido quando adolescente. Todos merecem o tempo, o apoio e o espaço necessários para entender seu sentimento e sua identidade” (Oseman, 2021, p. 318). A autora faz parte da comunidade LGBTQIAPN+., o que explica muito do cuidado com os assuntos tratados na série, em toda a construção psicológica dos personagens, da história e da subjetivação, o que mostra a importância do queer gaze neste caso. As autoras Sarmet e Baltar discorrem sobre a importância desse tipo de olhar que “como se pudesse abrir uma fenda temporal e corporal na história, o olhar queer toca nossas entranhas e nos conecta com sensações do passado e de um futuro que ainda não conhecemos, mas já parece melhor” (Sarmet & Baltar 2016, p. 65). Sensações essas que se mostram nos próprios comentários sobre a série. A bissexualidade, no caso masculina, é abordada fortemente através da personagem Nick, uma questão que ainda suscita muitas dúvidas em pessoas que geralmente pensam que a bissexualidade 77 Retirado de https://www.instagram.com/p/Cc2x2-dOiZY/
94 tem vínculo direto com a promiscuidade, com a confusão de sentimentos ou que é apenas uma fase (Weinberg, Williams & Pryor, 1994). A série, mesmo ao trazer os problemas enfrentados pela comunidade LGBTQIAPN+, durante o desenvolvimento da história o faz de forma leve, sincera e afetuosa, evocando a descoberta de novas possibilidades (Silva, 2022). Muitos sites, colunistas e influenciadores compartilham dessa ideia sobre a série: O que se segue é uma das mais românticas e francas abordagens a um primeiro amor, tão positiva e repleta de luz que é capaz de deixar todos os que veêm – do adolescente para quem o conteúdo foi pensado até aos seus pais – mergulhados em sentimentos de enternecimento puro. Acima de tudo, “Heartstopper” é uma série adolescente com falta de antagonismos, drogas e festas decadentes ou verdadeiras desgraças – e que lufada de ar fresco depois do pesadelo estilizado de “Euphoria“. (Silva, 2022, n.p., ênfase do autor) Apesar de ter cenas que podem ser chamadas de clichês em histórias românticas, devemos observar que esse tipo de abordagem, com esse alcance, ainda não tinha sido oferecida ao público LGBTQIAPN+. Heartstopper mostra que histórias de amor com personagens LGBTQIAPN+ podem ir por caminhos distintos e contempla um outro perfil de público, que pede e se identifica com histórias como essa. Todos, todas e todes devem ter o direito de conhecer histórias com os quais se sintam representados, como reflete a youtuber Lorelay Fox, que terá os comentários sobre sua crítica a Heartstopper analisados posteriormente: Então eu fico pensando que, pras pessoas que tem 15 anos, que são adolescentes hoje em dia, terem uma série como Heartstopper pra se inspirar, pra sonhar e pra verem que ‘Putz, a gente pode ter, assistir filmes bobos, sobre amores platônicos, sem tentar criar uma grande questão em cima de nada disso, onde a maior questão é: será que eu mando uma mensagem ou não? Será que eu seguro a mão dele durante o intervalo ou não?’, sabe? É muito mágico, deve ser muito mágico ser novinho e poder partilhar de uma série dessas. (Canal Lorelay Fox, 2022) Há na série um trabalho entre texto, imagem, música, expressão corporal, entre outros signos, que trazem significado, transmitem a ideia original e dão sentido global à obra. Silva destaca que “Heartstopper – em toda a sua simplicidade de enredo – é belo, positivo, fotografado e filmado com um cuidado intenso para que toda a coesão estética contribua para a criação de um verdadeiro teenage dream queer ” (Silva, 2022, n.p., ênfase do autor). Desta forma, procurei abordar esses aspectos que foram observados na análise e que consistiram em uma significação que possibilita perceber a mensagem que a série quer trazer ao seu público. Seguirei esse parâmetro, pois que todos esses elementos que constituem significado e contextualizam a trama “são portadores de significação, e, portanto, também factores participantes na criação do sentido global da obra [...], todos os elementos
95 componentes da obra, sem distinção. Todas as componentes participam no processo semântico a que demos o nome de contexto, [...]” (Mukarovsky, 1981, p. 141-142). Numa produção audiovisual, diferentemente da vida, na qual as coisas simplesmente “estão”, quase nada está por acaso, o que nos é mostrado em uma cena, na grande maioria das vezes, foi feito e escolhido para estar ali, fruto de trabalho e pensamento e servem para comunicar e expressar algo, com um propósito e uma “visão” em mente. Identifica-se também, que essa diversidade de referências produz sentido sobre o que será analisado e, a partir dessas características escolhidas para a narrativa e possivelmente identificáveis pelo público, dá-se o início a Análise Visual e a Áudio-análise da série Heartstopper . 6.1. ANÁLISE VISUAL “O prazer queer de ver, tocar, sentir tudo que nos é proibido e usurpado, nos reapropriando do mundo e suas coisas para devolvê-las para um uso em comum e devolver-lhes com alegria, com gozo” (Sousa & Brandão, 2020, p. 135) O audiovisual, em sua busca por tornar uma história perceptível a quem assiste, se utiliza de dispositivos próprios que fortalecem o sentido narrativo pretendido. Assim, a imagem transmite uma mensagem que pode ser expressa e proporciona a comunicação pretendida através de signos como cores, expressão corporal, metáfora, entre outros, e que está impregnada de significados: Ademais, mesmo antes de sua reprodução, qualquer objeto já veicula para a sociedade na qual é reconhecível uma gama de valores dos quais é representante e que ele “conta”: qualquer objeto já é um discurso em si. É uma amostra social que, por sua condição, tornase um iniciador de discurso, de ficção, pois tende a recriar em torno dele (mais exatamente, aquele que o vê tende a recriar) o universo social ao qual pertence. (Aumont, 1995, p. 90) Através da webcomic, e das graphic novels , é possível observar que já havia uma “mensagem visual” vinculada aos personagens devido aos quadrinhos. Assim, o casting foi escolhido a partir das informações visuais já apresentadas, em respeito ao grande e fiel público que acompanha a obra. Todo o processo teve o olhar cuidadoso da pessoa autora, Alice Oseman, que também roteirizou e produziu a série.
96 Figura 35: As personagens e seus intérpretes Fonte: Site da Legião dos Heróis 78 , 2024 Podemos assim, observar as diferenças entre a percepção de uma obra literária, seja ela em quadrinhos ou não, e a linguagem cinematográfica, da qual se aproxima o trabalho realizado em uma série. Por não poder trazer a quantidade e complexidade de situações e diálogos que constam em obras literárias, os filmes e séries, frutos de adaptação, são o resultado de escolhas feitas conforme o objetivo proposto para a história. E é aí que reside a importância dos signos utilizados para ampliar a percepção de quem os recebe. Pode-se ter uma ideia disso a partir do que fala o cineasta Eugène Green “ o génio do cinema , é captar fragmentos de realidade (...) e depois ordená-los para constituir uma representação. O espectador que assiste a esta representação percepciona um nível de realidade a que não teria acesso se visse esses fragmentos no seu contexto" (Green, 2019, p. 40). Dentro desse prisma somos detentores de um certo poder porque, estando fora da imagem, podemos observá-la em seu todo. A partir de uma tela, um ecrã, conseguimos ter um “controle” sobre a imagem mostrada, haja vista que podemos parar, utilizar uma velocidade mais baixa, revê-las caso achemos que algo ficou para trás, sem ter que buscar o que queremos apenas na memória. No decorrer dos episódios a autora mostra em muitos momentos da série, a mesma “cena” utilizada nos quadrinhos, com a diferença que, estes, na webcomic , eram em preto e branco, nos livros são em tons pastéis, com predominância do verde. Na série as cores, muitas vezes vibrantes, estão presentes, seja em maior ou menor quantidade durante toda a história, mostrando sua importância na contextualização da trama. 78 Retirado de https://www.legiaodosherois.com.br/lista/heartstopper-netflix-diferencas-hq-serie.html
97 6.1.1. As Cores em Heartstopper “Você transformou minha vida para algo que nem reconheço mais E maravilhou meus olhos Agora eles pintam em aquarela quando choram Eu costumava ver o mundo em preto e branco Agora eu, eu Estou coberta com as suas cores” (Baby Queen, tradução de trecho da música “Colours of You”) Na série (salvo raros momentos) as cores pulsam como que para mostrar um universo de descobertas, superação, amizades, afeto e amor - sentimentos e sensações tão presentes na adolescência - celebrados com a alegria de uma nova realidade possível. A fala de Kandinsky citado por Joly “a cor é apercebida opticamente e vivida fisicamente” (Joly, 2005, p. 178) também reforça esse argumento. As cores transmitem significados que variam conforme o lugar e a forma como são colocadas; mas a base de interpretação na cultura ocidental costuma ter pontos em comum e está associada a diferentes fatores, que podem levar à escolha das cores que serão utilizadas em uma obra e que são importantes para a narrativa “quando determina uma cor como dominante, o diretor está escolhendo minimizar ou amplificar determinados conceitos. Cor dominante é aquela que está sempre acentuando elementos e independe do tamanho da área que ocupa” (Stamato, Staffa & Von Zeidler, 2013, n.p.). As cores azul e amarelo evocam muito da personalidade dos protagonistas da série. Há vários momentos e cenários na trama, em que essas duas cores aparecem juntas ou separadamente, principalmente quando as personagens centrais estão presentes. Percebe-se que o azul está sempre relacionado a Nick e o amarelo a Charlie, e se transferem de um para o outro conforme seu relacionamento evolui. O azul e o amarelo estão presentes em vários momentos e são captados em detalhes pelas câmeras, sejam nos corredores da escola que eles frequentam ou mesmo na escola das meninas, nas salas de aula, nos coletes de treino e na bola de rugby; nos materiais das alunas e alunos ou em detalhes na casa e nos acessórios de Charlie, de Nick e de seus amigos e amigas: Com o desenvolvimento do estudo das cores e de suas reações, as cenas passaram a carregar uma bagagem maior de emoção e sentido. Essa evolução é perceptível tanto nos planos mais gerais da direção artística do conteúdo, como o cenário e na iluminação, quanto no figurino, designado especificadamente a cada personagem. Assim, por atribuírem simbologias, quando bem escolhidas, as cores contribuem para a montagem externa e interna dos elementos da narrativa, tornando-se uma parte indispensável para comunicação. (Stamato, Staffa & Von Zeidler, 2013, n.p.)
98 Figuras 36 e 37: Cartaz de divulgação e as cores nos corredores da escola Fonte: Site Cinema 10 79 e Site Márcia Travessoni 80 , 2022 Na Sala de Música da escola as paredes são repletas de pinturas de coloridos instrumentos musicais, com destaque novamente para o amarelo e azul. Ao fundo da sala está a bateria na cor azul, instrumento tocado por Charlie, que tem a música como uma aliada em momentos de estresse e tristeza. Alunos que são excluídos na escola, por diferentes motivos, geralmente procuram um local no espaço escolar que lhe proporcione segurança. A Sala de Artes é o local seguro escolhido por Charlie para estar durante o ano de bullying que sofreu na escola, após a descoberta de que ele era gay. Nessa sala, no canto direito, pintada sobre a parede e a janela, há uma árvore cujas folhas são feitas com o formato de mãos nas cores azul e amarelo. No decorrer da trama podemos perceber a adição das cores rosa e roxo (representantes da bissexualidade) nos galhos da referida árvore. Charlie possui o costume de se sentar sozinho no que seriam as raízes dessa árvore, mas tudo muda quando ele se envolve com Nick. Esse espaço repleto das cores amarelo e azul é coordenado por um professor que demonstra carinho e cuidado com Charlie, Mr. Ajayi (Fisayo Akinade), e que também é LGBTQIAPN+. Figuras 38 e 39: A Sala de Artes Fonte: Site Cinemação 81 , 2022 e Plataforma do Youtube 82 , 2024 79 Retirado de https://cinema10.com.br/series/heartstopper 80 Retirado de marciatravessoni.com.br/entretenimento/heartstopper-veja-curiosidades-sobre-a-nova-serie-lgbtqia-da-netflix/ 81 Retirado de cinemacao.com/2022/05/06/como-heartstopper-utiliza-as-cores-para-representar-os-protagonistas/ 82 Retirado de https://www.youtube.com/watch?v=TxyyyplryQ0. Acesso 15 mar. 2022
99 Figura 40: Mr. Ajavi conversa com Charlie Fonte: Plataforma do Youtube 83 , 2024 Em uma importante conversa com o professor, Charlie tem ao lado a imagem de uma arte presente na sala: uma enorme borboleta azul sobre um fundo amarelo, abaixo dela, uma borboleta amarela. A borboleta é um símbolo geralmente associado a transformação. A personagem Nick inicia a trama com roupas do uniforme da escola, no qual o azul predomina. Percebemos que ele usa roupas sempre nesse tom, mas, à medida que seu envolvimento com Charlie aumenta, outras cores vão sendo somadas ao seu figurino. No episódio 1 - Meet , há um momento em que a caneta tinteiro de Nick vaza e suas mãos ficam repletas da cor azul, tendo atrás de si o amarelo de um mural. Esse momento marca as primeiras conversas entre Charlie e Nick, para além dos assuntos de aula: Assim, por atribuírem simbologias, quando bem escolhidas, as cores contribuem para a montagem externa e interna dos elementos da narrativa, tornando-se uma parte indispensável para comunicação. Quando ligada a construção do personagem, o uso pensado das cores se dá principalmente a partir do figurino [...]. Ao encontro das simbologias da cor, esse elemento trabalha como um construtor de identidades. (Stamato, Staffa & Von Zeidler, 2013, p. 8) Figura 41: Nick com as mãos sujas de tinta azul Fonte: Cinemação112, 2022 83 Retirado de cinemacao.com/2022/05/06/como-heartstopper-utiliza-as-cores-para-representar-os-protagonistas
100 À medida que a trama vai se desenvolvendo, o azul que se refere à Nick parece abraçar Charlie e vice-versa, como se um fosse gradativamente fazendo parte do outro. É o que ocorre no episódio 2 - Crush , na cena em que eles vão brincar na neve e Nick - que está com moletom azul - alcança outro moletom, também azul, para Charlie. Nesta cena podemos perceber os detalhes gráficos representando a neve e que nos remetem a graphic novel da autora. Figuras 42 e 43: Os protagonistas com as cores de cada um; Charlie, na neve, com a cor de Nick Fonte: Magazine HD 84 , 2022 Há vários significados para a cor azul, sejam eles socioculturais, emocionais e psicológicos, que podem revelar essa escolha para a representação da personagem Nick. A expressão idiomática True Blue 85 significa leal, verdadeiro e fiel. Segundo Heller “na Inglaterra, o azul é ainda muito mais frequentemente citado como a cor da fidelidade e da confiabilidade” (Heller, 2022, p. 60) - a pessoa criadora e produtora da série é inglesa. Sobre essa cor, Heller ainda diz mais “o azul é a cor preferida. É a cor de todas as características boas que se afirmam no decorrer do tempo, de todos os sentimentos bons que não estão no domínio da paixão pura e simples, e sim da compreensão mútua” (Heller, 2022, p. 53). A representatividade de Nick como personagem bissexual é inegável, e as características inspiradas por essa cor, em uma orientação sexual que sofre diversos julgamentos, podem ser um dos motivos para essa escolha. A diferença entre os hobbies de Charlie e Nick, bem como suas cores e outros detalhes pessoais é mostrada em seus quartos, que por sua vez são idênticos aos das graphic novels . 84 Retirado de https://www.magazine-hd.com/apps/wp/heartstopper-primeira-temporada-em-analise/ 85 Retirado de faustomag.com/true-blue-e-os-30-anos-de-busca-pelo-que-e-verdadeiro-leal-e-fiel/
101 Figuras 44 e 45: Os quartos de Nick (esquerda) e de Charlie (direita) Fonte: Site Magazine HD 86 , 2022 e Plataforma Kwai 87 , 2024 Na cozinha de Charlie os utensílios são na cor amarelo, com alguns pontos em azul. Na cozinha de Nick acontece o contrário: o azul predomina com pitadas de amarelo que vão crescendo no decorrer da temporada, onde a xícara que Nick usa, possui a inicial de seu nome (e da Netflix) em amarelo. É nesse momento que sua mãe (com figurino amarelo) lhe diz que Nick parece mais à vontade com Charlie do que com os outros amigos. Figuras 46 e 47: A mãe de Nick, e Nick com sua xícara Fonte: Business Insider 88 , 2024 Assim, como ocorre com a cor azul, há um significado próprio para a cor amarela que transmite a “(...) sensação de alegria dos dias de sol; sensação da energia do calor do sol [...] sensação de auge da vida” (Silveira, 2015, p. 123-124). No Diários de Andy Wharol (Netflix, 2022) - documentário 89 sobre o famoso nome da art pop e também uma pessoa LGBTQIAPN+ - há um momento em que uma foto do seu namorado aparece e nela estava escrito "Jed trouxe o sol", trazer o sol pode se referir a trazer luz, “calor” e vida, justamente o que Nick mostra que Charlie fez com ele. No episódio 4 - Secret , temos a 86 Retirado de https://www.magazine-hd.com/apps/wp/heartstopper-primeira-temporada-em-analise/ 87 Retirado de https://www.kwai.com/discover/filetype:pdf-heartstopper-alice-oseman?lang=pt-BR 88 Retirado de https://www.businessinsider.com/heartstopper-scenes-vs-original-comic-netflix 89 Retirado de https://www.netflix.com/title/81026142
102 esperada (pelos fãs da webcomic e das graphic novels ) cena do beijo na chuva. Nick e Charlie vestem suas cores e o beijo acontece sob um guarda-chuva com as cores que os representam. E, apesar da chuva, o sol brilha no rosto dos dois. Figuras 48 e 49: O beijo e o presente de Nick com as cores dos dois Fonte: Site Plano Crítico 90 , 2022 e Plataforma do Youtube 91 , 2024 O final da temporada, no episódio 8 - Boyfriend , ocorre com os dois acompanhados das cores que os representaram durante todos os episódios, seja na mochila de Nick ou na toalha de cada um. Neste dia Nick não veste mais o habitual azul, mas um amarelo vibrante, quase laranja, como se ele estivesse “impregnado” por Charlie (Cury, 2022). O que nos remete também ao amarelo do sol. Um belo dia de sol, na praia, onde eles podem ser eles mesmos e agir como namorados que são. Figuras 50 e 51: Charlie e Nick, na praia, no final da temporada 1, em duas versões Fonte: Site Magazine HD 92 e Site Plano Crítico 93 , 2022 Nota-se que a camisa que Charlie usa tem as cores azul, rosa e amarelo. Esse episódio é crucial para o relacionamento dos dois, principalmente porque Nick decide se “assumir” para as pessoas que 90 Retirado de www.planocritico.com/lista-top-10-os-melhores-momentos-da-1a-temporada-de-heartstopper/ 91 Retirado de https://www.youtube.com/watch?v=sfftYjKbfm8 92 Retirado de https://www.magazine-hd.com/apps/wp/heartstopper-primeira-temporada-em-analise/ 93 Retirado de www.planocritico.com/lista-top-10-os-melhores-momentos-da-1a-temporada-de-heartstopper/
109 Figura 71: Charlie e Nick, em momento na série e na webcomic Fonte: Site Magazine HD122, 2022 Figura 72: O come out de Nick em dois formatos Fonte: Site Business Insider 106 , 2024 As mensagens de texto, um recurso atual, são trocadas entre todo o núcleo central de personagens, seja no grupo dos amigos de Charlie, seja entre Tao e Elle, Tara e Darcy e, principalmente, entre Nick e Charlie. A grande maioria desses textos é idêntico aos que está escrito nas webcomics e consequentemente nas graphic novels. As mensagens trocadas pelos smartphones entre o casal, em momentos solitários ou mesmo escondidos dos olhares de colegas mais curiosos, refletem a dúvida de escrever ou não, o medo de não obter uma resposta, a preocupação de um com o outro. O smartphone é utilizado por Nick para procurar Charlie nas redes sociais e também quando percebe a diferença da vida que ele mostra aos outros e o que ele realmente sente e vive quando está com Charlie. Há, outrossim, os momentos de pesquisa utilizados por Nick para tentar descobrir sobre sua sexualidade. 106 Retirado de https://www.businessinsider.com/heartstopper-scenes-vs-original-comic-netflix
110 Figura 73: Nick em conversa com Charlie; e Nick pesquisando sobre sexualidade Fonte: Site Business Insider 107 , 2024 6.1.3. Símbolos e Metáfora A partir da informação de que Nick é a estrela do time de rugby - um esporte que simbolicamente atua na significação do conteúdo imagético que temos de uma atividade esportiva vista, de maneira geral, como exemplo de masculinidade bruta envolta em um ambiente heteronormativo (Silva & Almeida, 2020) - percebemos o que significa a escolha desse esporte para uma personagem que começa a duvidar da própria sexualidade e questionar o meio em que está inserido. Dentro desse contexto o esporte reforça a questão dos padrões a serem seguidos e que, no decorrer da história, não servirão mais a personagem. No episódio 1 - Meet , Tao, amigo de Charlie, reproduz esse conceito ao saber que Charlie vai participar do time de rugby da escola a convite de Nick, dizendo “o funeral é seu”. Outro símbolo que traz significado sobre como Nick é visto, mostra-se durante uma cena, ainda no episódio 1 , quando ele, que está treinando com seus colegas de rugby, é comparado a um Golden Retriever por Tao. Podemos perceber que Tao não está se referindo literalmente a aparência física de Nick, mas sim a semelhança de suas características com as do cão, conforme o que Joly relata “quando Juliette Drouet escreve a Victor Hugo: ‘Tu és o meu soberbo e generoso leão’, não é que ele seja efectivamente um leão, mas ela atribui-lhe, por comparação, as qualidades de nobreza e de garbo do leão, rei dos animais” (Joly 1994, p. 22). Um Golden Retriever é um cão conhecido por sua delicadeza e amabilidade, que inspira confiança em quem está próximo. Ao observá-lo percebemos o quanto ele pode ser grande, barulhento e possuir facilidade em se relacionar (Rodrigues, 2018). Aspectos do seu comportamento são facilmente identificáveis em Nick e demonstrados com o passar dos episódios. Nick também está sempre com sua cachorrinha Nellie, o que reforça a sensação de confiança, lealdade e 107 Retirado de https://www.businessinsider.com/heartstopper-scenes-vs-original-comic-netflix
111 cuidado que o personagem evoca. É recorrente usar animais como metáfora para tipos específicos de personalidade (Martin, 2005). A comparação feita entre Nick e um golden retrivier é identificada como sendo uma metáfora plástica, que “(...) originam-se numa semelhança ou analogia de estrutura ou tonalidade psicológica no conteúdo puramente representativo das imagens. Assim, em ‘Stachka’ (‘Greve’), Eisenstein coloca em paralelo os rostos dos informadores da polícia com nomes de animais e a imagem dos animais em questão” (Martin, 2005, p. 119). O recurso da metáfora também é empregado em ocasiões de chuva, presente em momentos significativos, como no episódio 4 – Secret , seja em elementos gráficos existentes na abertura do episódio, seja ao deixar Nick “ensopado” na porta da casa de Charlie ou quando um beijo é trocado entre eles na rua. A chuva cai torrencialmente em um dia de jogo de rugby quando Charlie sofre um tackle mal posicionado, e serve como uma metáfora ao estado de espírito de Nick: confuso com suas emoções e envergonhado por não saber como agir na frente de todos. A chuva, representada novamente por elementos gráficos, está ao redor de Charlie quando Nick imagina como ele se sente com seu pedido de segredo, o que Ben também havia proposto, mas mais como uma exigência e um desdém a Charlie. Figuras 74 e 75: Nick imagina a reação Charlie, e não consegue ajudá-lo durante o jogo Fonte: Arquivo pessoal da autora e Plataforma do Youtube 108 , 2024 Outra metáfora importante utilizada é a do espelho. O mesmo recurso é visto, como já mostrado anteriormente, na abertura do episódio 7 – Bullying e está presente em algumas cenas; seja quando Nick percebe algo de diferente em seus sentimentos enquanto procura por Charlie no Instagram ou quando Charlie se observa e pensamentos negativos sobre ele e suas relações vem à tona. Quando ele, em uma conversa com Ben, fala sobre serem namorados, os elementos gráficos utilizados lembram um vidro se quebrando, justamente onde está o rosto de Charlie, como se algo dentro dele se estilhaçasse e ele também. 108 Retirado de https://www.youtube.com/watch?v=sfftYjKbfm8
112 Figura 76: A reação de Charlie na conversa com Ben sobre namoro Fonte: Plataforma do Youtube 109 , 2024 Esse “corpo despedaçado” nos remete aos estágios do espelho de Lacan em que observamos “as correspondências que unem o Eu à estátua em que o homem se projeta e aos fantasmas que o dominam” (Lacan, 1949, p. 95). E os fantasmas que dominam Charlie são muitos. 6.1.4. Expressão Corporal Em narrativas com personagens LGBTQIAPN+, de acordo com o local, momento ou pessoas que estão presentes, como forma de se manter seguro ou mesmo de evitar uma rejeição, há maneiras de mostrar como a personagem se sente, de forma implícita, sem ser de maneira discursiva. O que não é dito é uma parte significativa da vivência de muitos LGBTQIAPN+ ainda atualmente, e pode ser mostrado através de um determinado olhar captado pela câmera, um toque ou mesmo sentimentos e desejos que se sobressaem através da expressão do corpo, “a hipervalorização do toque é central para a pedagogia dos desejos. São momentos em que há uma corporalização do desejo na tela a partir do uso concomitante de recursos como câmera lenta, trilha sonora, hiperdimensionamento do som da respiração e close-ups” (Baltar & Sarmet, 2016, p. 61). O toque que gera a mudança do olhar de Nick para Charlie se dá, a partir de gestos reconhecidos dentro de um universo heteronormativo. No episódio 1 - Meet , quando Charlie dá um tackle em Nick, observamos, pelo olhar mais demorado que ele lança a Charlie que, naquele momento, Nick percebe um sentimento diferente, em um “discurso interior suscitado por um contacto furtivo com o corpo (mais precisamente a pele) do ser desejado” (Barthes, 1981, p. 56). Nas figuras percebemos também a presença das cores dos dois, tanto no “H” dos trys, quanto na bola e no uniforme. 109 Retirado de https://www.youtube.com/watch?app=desktop&v=CY-MNoDw54o
113 Figuras 77 e 78: Nick começa a perceber seus sentimentos por Charlie Fonte: Plataforma do Youtube 110 , 2024 Depois disso há o momento em que Nick, sozinho, observa Charlie e o salva da violência de Ben. Quando isso acontece e Charlie pede desculpa pelo que aconteceu, a câmera mostra Nick tocando em seu braço, um toque fruto da vontade, mas também que pode ser visto como algo heterossexual, que não compromete o papel que se espera dele. Esse toque é repetido quando eles se encontram na festa de aniversário de Harry e no boliche (Charlie toca no braço de Nick), durante a comemoração do aniversário de Charlie. O mesmo toque acontece na série Young Royals , na cena em que o príncipe Wilhelm (Edvin Ryding) dá algumas dicas para Simon (Omar Rudberg) sobre remo e um colega chega, Wilhelm, então, se despede batendo no braço de Simon. A série também fez sucesso, inclusive entre os fãs de Heartstopper. Figuras 79 e 80: A necessidade do toque entre os meninos Fonte: Plataforma do Youtube 111 e Arquivo pessoal da autora, 2024 Essa vontade do toque se prolonga em outros momentos, como quando Nick convida Charlie para ir à sua casa conhecer Nellie (a cachorrinha de Nick). Charlie aceita parecendo não acreditar. Ao abrir a porta para recebê-lo, Nick percebe o novo corte de cabelo de Charlie e, naturalmente, pega uma “mecha” do seu cabelo. Quando Charlie pergunta se está ruim, Nick o olha de cima a baixo e responde 110 Retirado de https://www.youtube.com/watch?v=sfftYjKbfm8 111 Retirado de https://www.youtube.com/watch?v=sfftYjKbfm8
114 encantado: “Não, você está...” percebemos que ele se engasga: “Ótimo”. Gesto que se repete quando eles brincam na neve e Nick a tira do cabelo de Charlie. Há os momentos do toque nas mãos escondidas, e do pequeno toque, entre os dedos mindinhos, signos usados de forma recorrente em produções audiovisuais que mostram personagens LGBTQIAPN+, como na cena em que Charlie toca o mindinho de Nick para convidá-lo para o seu aniversário, gesto que Nick retribui ao falar sobre o presente que quer lhe dar. Toques que reforçam a importância da linguagem corporal quando não podemos expressar de forma livre o que sentimos: O toque é um elemento catalisador em praticamente toda a historiografia do cinema queer, posto que é uma imagem partilhada por todos os indivíduos que já viveram a experiência de burlar as armadilhas da vigilância dos corpos e desejos dissidentes. O carinho furtivo na sala de aula; as mãos que roçam uma na outra no cinema; os corpos que se esbarram em uma festa. (Sarmet & Baltar, 2016, p. 59) Figuras 81 e 82: Os mindinhos de Charlie e Nick se encontram Fonte: Plataforma do Youtube 112 , 2024 Figuras 83 e 84: Os mindinhos de Charlie e Nick na festa e no cinema Fonte: Plataforma do Youtube 113 , 2024 Várias produções trazem essa questão e a câmera enfatiza aquilo que não pode ser revelado. Ainda em Young Royals , a história de Simon e Wilhelm tomou um outro rumo, depois de Simon entrelaçar o seu mindinho com o de Wilhelm durante a exibição de um filme entre os alunos da escola. Na série 112 Retirado de https://www.youtube.com/watch?v=sfftYjKbfm8 113 Retirado de https://www.youtube.com/watch?v=sfftYjKbfm8.
115 The Fosters (ABC Family, 2013-2018), Connor (Gavin MacIntosh) e Jude (Hayden Byerly), fizeram o mesmo gesto. Figuras 85 e 86: Os mindinhos de Wilhelm e Simon (esquerda), e Connor e Jude (direita) Fonte: Plataforma Tumblr 114 e Site Good Trouble & The Fosters 115 , 2024 A telenovela espanhola Amar es Para Siempre (Antena 3, 2013-2024) também teve cenas com esse gesto entre as personagens Luisita (Paula Usero) e Amelia (Carol Rovira) que, posteriormente, tiveram um spin-off chamado #Luimelia em um universo alternativo 81, devido ao seu grande sucesso junto ao público. Esse gesto é tão simbólico para o casal que aparece no material promocional da série. Figuras 87, 88 e 89: Os mindinhos de Luisita e Amelia Fonte: Site Zedge 116 , 2024 Na maioria das vezes, salvo em alguns momentos e na configuração de certos relacionamentos, estar ou andar de mãos dadas com alguém significa assumir essa pessoa, ter um relacionamento com ela. As mãos que antes se escondiam, estão expostas, como nos é mostrado nas imagens abaixo, quando Nick “assume” Charlie na frente de todos, em um evento esportivo da escola. Consideramos importante 114 Retirado de https://www.tumblr.com/tagged/Jude%20and%20connor 115 Retirado de https://goodtrouble.fandom.com/wiki/Jude_and_Connor 116 Retirado de https://www.zedge.net/wallpaper/3e93fb2c-63ff-4d85-a9e6-22075b6813bf
116 a observação de que, em várias cenas, quando Nick descobre algum novo aspecto em seu sentimento/relacionamento com Charlie, ele está sempre abaixo de Charlie. Do ponto de vista de Nick, Charlie está sempre acima dele, como mostram as figuras 78, 91 e 102. Figuras 90 e 91: As mãos de Nick e Charlie sob a mesa; e os dois na frente de todos Fonte: Plataforma do Youtube 117 , 2024 Figuras 92 e 93: Com as mãos dadas, o que estava em segredo é revelado Fonte: Plataforma do Youtube 118 , 2024 O abraço, por outro lado, é uma forma de cumprimento bastante comum em algumas culturas, caso da brasileira, por exemplo. O abraço é aquele que conforta, protege, mas mais que isso “o gesto do abraço amoroso parece realizar por um momento, para o sujeito, o sonho de união total com o ser amado” (Barthes, 1981, p. 12). E Nick abraça Charlie em todos os sentidos, de todas as formas e nos mais diferentes lugares. Um abraço que acolhe no momento de maior vulnerabilidade, um abraço de saudade, de alegria e de afeto. Há também o impulso e a alegria de abraço quase dado na frente dos outros. 117 Retirado de https://www.youtube.com/watch?v=sfftYjKbfm8 118 Retirado de https://www.youtube.com/watch?v=sfftYjKbfm8
117 Figuras 94 e 95: Os abraços de Nick e Charlie Fonte: Plataforma do Youtube 119 , 2024 O olhar também é uma “presença” forte em boa parte das cenas entre os protagonistas. A câmera se demora ao mostrar o olhar de um para o outro. Sabemos que em muitos lugares as pessoas LGBTQIAPN+ não podem expressar a sua maneira de ser, o seu amor de forma livre. Nesses momentos o olhar e a subjetividade que o acompanha é a única forma de manifestar esses sentimentos: Mas o olhar ensina a distância. O olhar ensina a cautela. O olhar ensina que o objeto adorado pode devolver o olhar. E nessa devolução há sempre a ameaça de ser flagrada olhando além da conta. Mais vergonha. Para a pessoa queer o olhar é sempre um risco. Tá olhando o quê? (Sousa & Brandão, 2020, p. 132) Na série há uma conexão muito forte entre o casal, demonstrada desde o primeiro momento através do olhar, principalmente o olhar da personagem Nick. Através dele vemos a dúvida, a descoberta assustada dos sentimentos que vão surgindo, a admiração, o cuidado, o carinho e o querer bem que crescem durante o decorrer da narrativa em relação a Charlie “são as mãos que quase se tocam, os olhares desviados e os sorrisos tímidos que dizem muito mais do que diálogos expositivos, e Heartstopper sabe muito bem como usar isso a seu favor” (Sousa, 2023, n.p.). O olhar interessado de Charlie para Nick se revela no episódio 1 - Meet , quando o professor diz que ele terá que se sentar ao lado de Nick Nelson, do time de rugby, informação dada de maneira irônica. Charlie se mostra contrariado, a câmera se aproxima e vemos que tudo muda quando ele olha em direção a classe e vê Nick que escreve em um caderno. Por outro lado, quando Charlie se aproxima, Nick o olha de cima a baixo e sorri, algo que Charlie não esperava de alguém como ele. 119 Retirado de https://www.youtube.com/watch?v=sfftYjKbfm8
118 Figuras 96 e 97: Os olhares entre Charlie e Nick Fonte: Plataforma do Youtube 120 , 2024 Há o olhar daquele que está tentando entender seus sentimentos e que observa todos os passos da razão do seu possível afeto, seja ao procurá-lo em uma festa ou quando os colegas de time o parabenizam após uma try no rugby. Um olhar que não é de um hétero para seu amigo. O olhar de quem ao perceber que algo não estava bem, salva seu afeto da violência e do abuso. Figuras 98 e 99: O olhar de procura; e o olhar que não abandona e quer compreender Fonte: Plataforma do Youtube 121 , 2024 Há o olhar encantado de quem recebe o carinho e o cuidado depois de uma relação em que isso lhe era negado, em que o único toque possível eram os beijos escondidos do olhar dos outros e na qual o olhar recebido era de indiferença. 120 Retirado de https://www.youtube.com/watch?v=sfftYjKbfm8 121 https://www.youtube.com/watch?v=6q_NRdDCmT8
125 se sente, quem ele realmente é. A frase “porque nós somos assim?” também é representativa dos dois em vários momentos no decorrer da relação e se estende pelas próximas temporadas da série. Música Tradução Last night I smoked a cigarette Ontem à noite eu fumei um cigarro My dad would have been so upset Meu pai ficaria tão chateado Then we got tattoos by the coast Então nós fizemos tatuagens na costa And I just stood there like a ghost E eu apenas fiquei lá como um fantasma Maybe I'm an old soul trapped Talvez eu seja uma alma velha presa in a young body em um corpo jovem Maybe you don’t really want me Talvez você realmente não me queira there at your birthday party lá na sua festa de aniversário I'll be there in the corner, Eu estarei lá no canto thinking right over pensando bem Every single word of the conversation Cada palavra da conversa we just had que acabamos de ter So why am I like this? Então, por que eu sou assim? Why am I like this? (2x) Por que eu sou assim? (Refrão) Why am I? Porque eu sou? Oh, It’s like I’m looking down Oh, é como se eu estivesse olhando para baixo from the ceiling above do teto acima Never in the moment, Nunca no momento, never giving enough nunca dando o suficiente Let's go out and shout Vamos sair e gritar the words we never said as palavras que nunca dissemos I got my mistakes on loop Eu tenho meus erros em loop inside my head (2x) dentro da minha cabeça Nick abre sua galeria de fotos, a observa, clica em uma foto onde estão ele, Charlie e Nellie (sua cachorrinha), amplia a imagem de Charlie e sorri ao vê-lo. Ao se dar conta disso, pega seu notebook, se senta em um canto e no escuro do quarto digita “I am gay?”. A cena se encerra com a última pergunta da música, parte do refrão “Why am I?”. Esse é um dos momentos mais importantes e que emocionou diversas pessoas que assistiram à série: o da busca pela autodescoberta por Nick e que representa o que muitos LGBTQIAPN+ passam. Um momento solitário e difícil, como relata a youtuber Jessica Ballut e que mostraremos no capítulo 7 dessa pesquisa. Na primeira linha da música, se percebe a questão sobre se estar fazendo algo escondido que decepcionaria seu pai (ou mãe, ou os dois), representada pelo cigarro e, também, algo diferente, uma quebra de padrões típicos, atitude que geralmente está associada a tatuagem, algo que fica gravado em nossa pele. Sobre a alma velha em um corpo jovem, é como se o que está dentro de você fosse diferente do que você aparenta. E a pergunta deixa óbvia a tentativa de entender o que está acontecendo com ele:
126 Ao trazermos metáforas à música, essas se destinam à comunicação mais ampla e de conexões com outras ideias em que há uma projeção de dois domínios conceituais: um cognitivo, de natureza concreta e experiencial; e o outro sensorial, de caráter mais abstrato, em que ambos permitem compreender o domínio-alvo, o alcance da ideia musical, não necessariamente aquilo que é real como também o imaginado (...). (Medeiros & Lopes, 2021, p. 301). Essas representações e interpretações vinculadas a músicas são retratadas e é interessante observar que nenhuma palavra é dita nesses momentos de autodescoberta, nem na casa de Charlie, nem na de Nick, o que demonstra a importância da mensagem visual e das músicas nesses momentos. Iniciando o episódio 3 - Kiss , aparecem os resultados da busca de Nick, que trazem notícias negativas (cura gay, violência por homofobia, preconceito contra casamentos queer ) e um dito teste para descobrir se você é gay. O resultado do teste é de 62% Homossexual. Durante todo esse momento a música que toca é “My Own Person” 134 – Smoothboi Ezra. Música Tradução Been rotating the sametwo outfits Fazendo as mesmas duas roupas for three years now há três anos Waiting for some kind of inspiration Esperando por algum tipo de inspiração To make me feel like Para me fazer sentir como I'm my own person se eu fosse minha própria pessoa But buying new clothes Mas comprar roupas novas just make me feel down só me faz sentir mal Having new style would cause me Ter um novo estilo me chamaria more attention mais atenção And I don't feel like E eu não me sinto como I'm my own person se fosse minha própria pessoa I just feel like some other version of me Eu só me sinto como uma outra versão de mim Been talking about the same problems Falando sobre os mesmos problemas for years now há anos But nothing I do seems to make Mas nada do que faço parece fazer things happen as coisas acontecerem No matter what I do it's bad Não importa o que eu faça, é ruim It's hurting and I don't feel like Está doendo e não me sinto como I'm my own person se fosse minha própria pessoa I just feel like some other version of me Eu só me sinto como uma outra versão de mim Ela fala sobre sermos uma outra versão de nós mesmos e a dor que isso está causando. A partir de agora você não é aquilo que achava que era, e pode até querer voltar a ser como antes, mas tudo mudou. Depois dessa descoberta vemos um Nick introspectivo, solitário, mesmo com os colegas à sua volta. É nesse momento que ele é convidado para uma festa de aniversário em que pode levar uma 134 Retirado de www.letras.mus.br/smoothboi-ezra/my-own-person/
127 pessoa. Nick convida Charlie, que aceita depois da sua insistência, pois um ambiente hétero e com os rapazes do rugby, não é o melhor lugar para uma pessoa como Charlie. Quando Charlie é deixado na festa pelo pai (que mostra a aflição típica de parte de pais de pessoas LGBTQIAPN+, por medo do que possa acontecer com os filhos em ambientes sociais com grande maioria heterossexual (AMPLOS, 2021), a música que toca é “Telephone” 135 - Waterparks. Nick socializa com os amigos, enquanto procura por Charlie e Charlie por ele. Música Tradução I talk a lot, but we could Eu falo muito, mas poderíamos fill your frames preencher seus quadros With pictures of our faces Com fotos de nossos rostos 'til we share a name até compartilharmos um nome I'm living on a target and Estou vivendo em um alvo e you shot it with an arrow você atirou com uma flecha Now I lost my self-control, Agora eu perdi meu autocontrole, I can't stop thinking não consigo parar de pensar Where you go, I'll follow Onde você for, eu seguirei I know we only just met Eu sei que acabamos de nos conhecer I can be your best yet Eu posso ser o seu melhor ainda Future favorite regret Arrependimento favorito futuro Do you feel it too? (2x) Você também sente? I've gotta let you know Eu tenho que deixar você saber That I think that I love you so Que eu acho que te amo tanto You could be my only one Você poderia ser meu único A música fala sobre quadros com seus rostos até compartilharem um nome, uma alusão a uma vida juntos, a perda do autocontrole que se relaciona as mudanças que estão ocorrendo. Na letra é reforçada a questão da dúvida sobre a reciprocidade do sentimento. A frase “Onde você for, eu seguirei” lembra as palavras ditas por Lexa para Clarke, conforme mostrado na análise da série apresentada no capítulo 5. A cena se encerra com um indo ao encontro do outro, enquanto falam ao mesmo tempo “eu estava procurando por você”. Essa festa é muito importante para a história, porque é nela que Nick começa a perceber que há outras pessoas como ele e Charlie, o que acaba o encorajando a dar um passo a mais no relacionamento entre eles. Ali, também, ele demonstra o choque, a tristeza e a raiva ao perceber um momento de homofobia revestido de brincadeira. A música “Clearest Blue” 136 – CHVRCHES, toca em uma das cenas mais significativas no processo de autodescoberta da personagem. Nick está aflito à procura de Charlie na festa e é quando vê Tara e Darcy (que namoram, mas ainda não “oficialmente”). Elas dançam e se divertem e um beijo 135 Retirado de www.letras.mus.br/waterparks/telephone/ 136 Retirado de www.letras.mus.br/chvrches/clearest-blue/
128 acontece na frente de todos. Nick, que está descobrindo sua sexualidade ao sentir um interesse crescente por Charlie, observa a cena, encantado. A música faz um pedido para que a pessoa diga que o encontra, que o guarda em si mesma e indica que a pessoa tome uma decisão. Sobre o azul, que é mencionado na letra, ele é usado na série como a cor representativa de Nick, que acaba por levar seu significado para a vida de Charlie. Nesse momento é como se tudo ficasse “nítido” para Nick. Música Tradução Tell me, tell me you'll meet me Dizer, dizer que me encontra Tell me, tell me you'll keep me Dizer, dizer que me guarda consigo Tell me, tell me you'll meet me Dizer, dizer que me encontra Shaped by, clearest blue (2x) Nos contornos do mais nítido azul A música “Alaska (Toby Green Remix)” 137 – Maggie Rogers, toca enquanto Nick e Charlie vão para um lugar mais tranquilo, longe de todos, e onde acaba acontecendo o primeiro beijo. A letra traz o momento de sair de um velho eu, como um sonho, que faz com que Nick, junto à Charlie possa finalmente “respirar” e ser o seu verdadeiro eu, o que complementa a música “My Own Person”, mostrada anteriormente. Música Tradução And I walked off you E eu saí de você And I walked off an old me E eu saí de um velho eu Oh me, oh my, I thought it was a dream Oh eu, oh meu, eu pensei que era um sonho So it seemed Assim parecia And now, breathe deep E agora, respire fundo I'm inhaling Estou inalando You and I, there's air in between Você e eu, há ar no meio Leave me be Deixe-me ser I'm exhaling Estou exalando You and I, there's air in between Você e eu, há ar no meio No episódio 4 - Secret , temos a música “What’s It Gonna Be?” 138 – Shura, que toca na manhã após o primeiro beijo, a partir da saída de Nick da casa de Charlie, que corre em direção a ele, resultando na tão esperada, pelos fãs, cena do beijo embaixo do guarda-chuva azul e amarelo (cores dos dois). Música Tradução Do I tell you I love or not? Devo dizer que te amo ou não? Cause I can’t really Porque eu realmente não posso guess what you want adivinhar o que você quer If you let me down, let me down slow (2x) Se você for me decepcionar, que seja lentamente If you got feelings for me Se você sente algo por mim 137 Retirado de www.letras.mus.br/maggie-rogers/alaska-toby-green-remix/ 138 Retirado de www.letras.mus.br/shura/whats-it-gonna-be/
129 You just gotta speak honestly Apenas fale honestamente If you let me down, let me down slow (2x) Se você for me decepcionar, que seja lentamente I don’t wanna give you up Eu não quero desistir de você I don’t wanna let you love Eu não quero deixar você amar somebody else but me ninguém além de mim So what’s it gonna be? (2x) Então o que vai ser? Percebemos que a letra se refere a Charlie e sua insegurança habitual, sobre não ter certeza do que o outro quer, à espera de uma possível decepção, mas, também, sobre a impossibilidade de desistência e a vontade de ser amado, ficando no ar o que vai acontecer. No episódio 6 – Girls , temos a música “Knock Me Off My Feet” 139 – SOAK, que toca quando Nick conta a Charlie ter revelado a Tara e Darcy que eles estavam juntos. Uma iniciativa que faz com que Charlie o abrace, encantado. Na letra observamos que não importa o que aconteça, essa atitude é o começo do caminho para o come out de Nick. Música Tradução You can, you can knock me off my feet Você pode, você pode me derrubar But I won't stop now, you can take a seat Mas não vou parar agora, você pode se sentar (2x) (2x) O episódio 7 - Bullying , traz a música “Tired” 140 – beabadoobee que toca depois de Charlie, que estava no cinema com Nick e seus amigos, ser vítima de bullying (novamente sobre o prisma da brincadeira), o que leva Nick a entrar em uma briga quando uma palavra muito ofensiva (f*g) é dita, enquanto Charlie, que já tinha saído, é interpelado por Ben (o “boy lixo”), dois fatos desestabilizadores para ele. Música Tradução You haven't been good for long Faz tempo que você não anda se sentido bem Is it the sound of your own thoughts É o som dos seus próprios pensamentos That always keeps you up at night? Que sempre te mantém acordado à noite? Maybe it's time to say goodbye Talvez seja hora de se despedir 'Cause I'm getting pretty fucking tired Pois estou ficando cansada pra caralho Charlie está cansado, Nick está cansado e machucado emocional e fisicamente e eles tem uma conversa, pois Charlie teima em dizer que já está acostumado com pessoas falando dele. A resposta de Nick acaba por impulsionar Charlie a outras atitudes no futuro. A música reflete a culpa que Charlie sente por achar que está interferindo negativamente na vida de Nick, por ele estar se metendo em brigas e se afastando de seus amigos. 139 Retirado de www.letras.mus.br/soak/knock-me-off-my-feet/ 140 Retirado de www.letras.mus.br/beabadoobee/tired/
130 A música “Any other way” 141 – Tomberlin, toca quando Charlie se encaminha para a Sala de Artes, o lugar para onde vai quando está sofrendo e quer se isolar. Ali, ele se senta no chão, nas raízes da grande árvore cujas folhas antes eram feitas de mãos pintadas com as cores amarelo e azul e que agora também contam com as cores rosa e roxo – cores que juntas com o azul, nos remetem as cores da bandeira Bissexual. Charlie começa a pensar no que está causando à vida de Nick e as coisas começam a se encaminhar para um rompimento por parte de Charlie. A música reforça a questão da vergonha, da culpa e de não saber outra maneira de agir. Música Tradução Hopped on a plane for the first time today Embarcou em um avião pela primeira vez hoje I can't look back Eu não posso olhar para trá Out of guilt and out of shame Por culpa e por vergonha But did we know any other way Mas nós sabíamos de outra maneira I didn't know any other way Eu não sabia de outra maneira No episódio 8 - Boyfriend , tudo se encaminha para o término. A bela e triste música “Our Window” 142 – Noah and The Whale, mostra perfeitamente isso, mas ao mesmo tempo com uma possibilidade de promessa. Música Tradução Well it's four in the morning Bem, são quatro da manhã Things are getting heavy As coisas estão ficando pesadas And we both know that it's over, E nós dois sabemos que está acabado but we both are not ready mas nós dois não estamos prontos Spring can be the cruelest of months A primavera pode ser o mais cruel dos meses But bringing in your life Mas trazendo em sua vida Yeah we're promising so much É, estamos prometendo tanto Essa música toca quando Nick procura Charlie na DM do Instagram, implorando por uma conversa e é ignorado. Os acordes ao fundo se parecem com o tique-taque de um relógio contando a passagem do tempo. Charlie evita Nick na escola e durante o dia do maior evento esportivo letivo. É então que Nick, durante a partida de rugby, após fazer um try e se preparar para a conversão, sai do jogo e pega na mão de Charlie, na frente de todos. Enquanto ele se declara e pede para que não se separem, dizendo que respeitaria a decisão de Charlie, mas que ele era a sua pessoa favorita no mundo, a música “Moment In The Sun” 143 – Sunflower Bean, começa a tocar e segue até o momento em que Nick faz uma surpresa para Charlie e o leva à praia. 141 Retirado de www.letras.mus.br/tomberlin/any-other-way/ 142 Retirado de www.letras.mus.br/noah-and-the-whale/1537582/ 143 Retirado de www.letras.mus.br/sunflower-bean/moment-in-the-sun/
131 Música Tradução Winter, spring, summer, fall Inverno, primavera, verão, outono A moment is fine, Um momento é bom, but I wanna feel them all mas eu quero sentir todos eles I wanna feel them all Eu quero sentir todos eles I don't need money, Eu não preciso de dinheiro, I don't need to be cool não preciso ser descolada I'd trade it for a moment Eu trocaria isso por um momento in the Sun with you ao Sol com você With you, with you, with you com você, com você, com você Everything I've dreamed about is coming on Tudo o que eu sonhei está chegando Trade it for a moment in the Sun Troco por um momento ao Sol All that other noise is just a waste of time Todo esse outro barulho é só uma perda de tempo You're the only music on my mind Você é a única música em minha mente Essa música deixa claro o sentimento de Nick por Charlie, ao mesmo tempo que nos remete ao passar do tempo, o amarelo do sol e da cor que representa Charlie na série. Quando Nick chega em casa, a mãe, Sarah, comenta sobre sua alegria. Nick acaba por revelar que Charlie é seu namorado e assume sua bissexualidade para ela. É um belo e singelo momento, em que pensamos o quão bom seria se todo pai e toda a mãe reagisse como ela. Sarah pergunta quando o filho soube, ao que ele responde que ele e Charlie estavam juntos há alguns meses, mas que havia começado a gostar de Charlie muito antes. As cenas do que eles viveram aparecem, junto com a música final “I Belong In Your Arms (Photek Remix)” 144 – Chairlift e podemos perceber que Nick passou a sentir algo por Charlie no momento em que o viu pela primeira vez. Música Tradução Feelings are good Sentimentos são bons Nothing to say Nada a dizer Because the world goes on without us Porque o mundo continua sem nós It doesn't matter what we do Não importa o que façamos All silhouettes with no regrets Todas as silhuetas sem arrependimentos When I'm melting into you Quando estou derretendo em você I belong in your Arms (2x) Eu pertenço aos seus braços (2x) A música continua enquanto a cena volta para a praia, onde vemos um Nick descontraído, sorrindo de olhos fechados, abraçado a Charlie. Charlie pergunta se eles vão contar para os outros, ao que Nick sorri e responde “Sim.” E a temporada encerra com esta cena e com a música. Uma música que evoca que a vida segue independente do que aconteça, como se tudo se resolvesse com o tempo, sem arrependimentos e que os braços e abraços que significam proteção, cuidado e afeto são o lugar 144 Retirado de www.letras.mus.br/chairlift/i-belong-in-your-arms/
132 um do outro. O abraço que se tornou, no decorrer da narrativa, parte importante na construção desse afeto. 6.2.2. Mensagem Verbal As palavras atuam como uma construção de sentido do Eu para com o mundo, do Eu com o outro e consigo mesmo, em descobertas e histórias elaboradas dentro de si e que emergem, às vezes doloridamente, quando o corpo já está repleto. O cineasta Eugène Green nos traz, de uma forma mais complexa e profunda, a percepção de que “a palavra compele à visão do mundo como floresta de signos e à percepção do filme como revelador dos sinais que se escondem sob a superfície de todas as coisas” (Green, 2019, p. 37). Ao partir do pressuposto de que toda a fala é política e por isso carregada de sentido, opto - para um melhor entendimento do sentido desses discursos contidos nas palavras trocadas e que perpassam o relacionamento e a vida de Charlie e Nick - separá-los por temas para uma melhor visualização da importância e do impacto do que é dito. Relacionamentos O “Oi” utilizado repetidamente entre os protagonistas, desde o início de sua amizade, poderia ter apenas uma função fática, mas tudo muda ao entendermos o contexto em que ele está inserido. Green já enfatizava a importância de poucas palavras ao afirmar que os atores devem “concentrar um máximo de emoções fortes num mínimo de palavras” (Green, 2019, p. 37). Este simples cumprimento era negado a Charlie por Ben, o garoto com quem ele “ficava” anteriormente, o que torna o seu significado, quando dito por Nick, de uma força e emoção que ultrapassa o seu sentido básico. Algo que fica evidente quando Nick e Charlie estão conversando pelos corredores da escola e encontram Ben: Charlie: Oi (diz sorrindo). Ben: O quê? Charlie: Só “oi” (fala, sem jeito). Ben: Por que falou comigo? Nem sei quem você é (Charlie baixa os olhos, envergonhado). Ben: Beleza, cara? (fala para Nick). Nick: Beleza (olha, confuso, de Charlie para Ben). (T1E1. 02:19) O “oi” entre Nick e Charlie é reforçado em diversos momentos no decorrer dos episódios e funciona como uma “marca” dos dois. Outra palavra muito utilizada por Charlie é “desculpa”, algo que ele fala pelos mais diferentes motivos, como se a pedisse por simplesmente existir. Nos momentos finais
133 do episódio 1 - Meet , Nick observa Charlie se dirigir a uma sala vazia da escola. Ben havia pedido que Charlie o encontrasse lá para conversarem. Charlie e Ben discutem e Charlie diz que Ben nunca havia se importado com ele ou com seus sentimentos e que eles só ficavam juntos quando Ben queria beijar um garoto. A resposta recebida é cruel: “até parece que mais alguém vai querer sair com você”, Ben diz ao avançar sobre Charlie e lhe beijar à força, mesmo com os pedidos para que parasse. É quando Nick chega e afasta Ben. Charlie, mesmo depois do que aconteceu, ainda pede desculpas a Nick: Charlie: Desculpa. Nick: Não tem do que se desculpar. Charlie: Desculpa. Nick: (Baixa os olhos) Você só se desculpa. Não diga. Charlie: Eu quero. Nick: Não (fala sorrindo). (T1E1. 21:16) Essas atitudes fazem com que Nick converse com Charlie na tentativa de que ele mude seu comportamento quanto a isso. Mais tarde, por mensagem, Nick diz que estava com raiva de Ben, que não queria mais ser seu amigo e pede para que Charlie não fale mais com ele. O desprezo e o abuso mostrado anteriormente se repetiram em outras cenas em que o público se defrontou com aspectos de um relacionamento tóxico, mesmo depois do término, realidade vivida por muitas pessoas, sejam elas LGBTQIAPN+ ou não: Charlie: Então, eu ia perguntar se você quer ir lá em casa. Ficar de bobeira. Ben: A gente faz isso na escola. Charlie: É, mas... Eu pensei... já que somos namorados... Ben: O quê? Não somos namorados. Por que pensaria isso? (fala agressivamente) (T1E7. 01:32) Durante toda história, através de ações e diálogos entre Charlie e Nick, é apresentado ao público a diferença entre o tipo de relacionamento de Charlie e Ben e um relacionamento saudável. A relação que Charlie teve com Ben acaba por refletir no seu desejo de encontrar alguém com características que deveriam ser inerentes a qualquer relacionamento: Tori: Hipoteticamente, com que tipo de garoto você quer sair? Charlie: Um que não se importe de ser visto comigo, de preferência. Tori: Alguém que seja nerd ou algo meio “os opostos se atraem”? Charlie: Não posso me dar ao luxo de ser tão específico. Tori: Hipoteticamente. O cara dos sonhos? [...] Charlie: Não sei... Alguém com quem eu possa rir. E que seja legal. E gentil. E goste de ficar comigo (o autocarro para em frente à escola e ele vê Nick com os colegas). (T1E1. 15:17)
134 Na cena percebemos que Charlie não tem tantas opções para escolher, por isso acredita que deve se contentar com o mínimo. Tori, irmã de Charlie, é muito querida pelos fãs e, apesar de falar pouco, suas palavras são certeiras, como ocorre quando Charlie diz que terminou com seu “namorado”: Tori: Ele era idiota? Charlie: Era. Tori: Que bom, então (olha Charlie atentamente enquanto bebe algo de canudinho). (T1E1. 15:27) As conversas entre Nick e Charlie e sua consequente evolução, por conseguinte ao desenvolvimento da relação entre os dois, são mostradas no decorrer dos episódios: as descobertas, as dúvidas, a sinceridade e o cuidado são uma constante em cada fala e em cada gesto. A palavra carinhosa está presente, mesmo quando não se sabe bem o que se sente: Charlie: Queria que pudesse ficar. Nick: Eu também. Você fica muito fofinho assim (fala, olhando Charlie que está envolvido em um cobertor). Charlie: Fico? Nick: Sim (olha Charlie intensamente e o abraça apertado). Te vejo na segunda (abre a porta e sai apressado sem olhar para trás). Tori: Acho que ele não é hétero (Charlie olha para ela, surpreso com o que acabara de acontecer). (T1E2. 07:14) A cada diálogo entre os protagonistas percebemos que Nick “vê” Charlie como ele realmente é, aquilo que o deixa feliz e o que é importante para ele. Ao contrário de Ben que desprezava Charlie e fazia com que ele sofresse, Nick percebe e exalta desde as pequenas coisas que fazem parte da vida de Charlie e, assim, o ajuda a compreender que ele não deve aceitar ou se acostumar com que o menosprezem: Nick: Não, você é bom em tudo. Charlie: Não sou. Nick: É sim, é um nerd popular. Charlie: Não sou. Nick: Olha, você é bom em videogames. Em todas as matérias, mas principalmente matemática. Em tocar bateria. Em fazer amizades com cães e em esportes. Você corre muito... (T1E2. 19:22) Nick: Quando você foi embora, e eu voltei pro grupo, ele... Ele começou a falar... coisas sobre você. Eu surtei. Dei um soco nele e... foi isso. [Sobre a briga com Harry]. Charlie: Nick. Não precisava fazer isso. Juro que estou acostumado com gente falando de mim.
141 A frase dita pelo prof. é um reflexo do que constata Giancarlo Cornejo ao falar sobre si mesmo “o que a cultura exigia de mim era que eu aceitasse minha própria supressão” (Cornejo, 2011, p. 87). Muitas vezes jovens LGBTQIAPN+ se sentem como únicos nesse lugar, pois não há ou eles não têm conhecimento de outros como eles. Algo que pessoas heterossexuais muitas vezes nem chegam a se dar conta, por não vivenciarem situações assim. Nem sempre conseguimos sentir uma dor que não dói dentro da gente. O preconceito em suas várias formas As palavras pronunciadas ecoam dentro de nós por um longo tempo e tendem a reforçar aspectos da realidade que muitas vezes gostaríamos de esquecer “a linguagem é investida do poder de criar ‘o socialmente real’ por meio dos atos de locução dos sujeitos falantes” (Butler, 1990, p. 200). A linguagem também fere quando traz à tona discursos preconceituosos. As pessoas performam de diferentes maneiras e muitos ainda estão descobrindo sua sexualidade, mesmo assim, os estereótipos existem e estão enraizados, estruturalmente, no desconhecimento, na heterocisnormatividade ou até mesmo nas referências que possuímos. Este tipo de preconceito está inserido e é expresso nos mais diferentes lugares e até mesmo por amigos, como fizeram Tao e Elle em relação a Nick: Tao: Como seu amigo hétero, devo lembrar que, às vezes, as pessoas são heterossexuais. É um fato triste da vida. Isaac: Mas não sabemos se ela gosta do Nick [sobre Tara]. Tao: Isaac, já avisei sobre encorajar os crushes do Charlie por héteros (olha firmemente para Isaac). Isaac: Mas eu quero acreditar no amor (diz sorrindo). [...] Elle: Nick Nelson? É melhor desistir agora. Ele é o cara mais hétero que já vi. (T1E2. 13:10) No diálogo, é possível observar também algo relatado nos comentários que serão apresentados no capítulo 7 dessa pesquisa: o interesse amoroso de pessoas LGBTQIAPN+ em pessoas heterossexuais, principalmente as consideradas “padrão”. Ainda nesse episódio há o momento em que Tao vê que Charlie está trocando mensagens com Nick: Tao: Ele é hétero, Charlie. Dá pra ver que ele é hétero só de olhar para ele. Isaac, me ajuda aqui. Isaac: Extremamente hétero. Tao: Exatamente. Charlie: Caras viris podem ser gays. E bissexuais existem (fala para Isaac que revira os olhos). (T1E2. 24:48)
142 Os diálogos dos garotos do rugby, no vestiário, quando Charlie não está, também revelam o preconceito ocasionado pela verbalização de certos estereótipos: Menino 1: Charlie Spring? Menino 2: Ele não é do 8º ano? Menino 1: Não, é do 1º ano. [...]. Menino 3: Ele gosta de esportes? Todos sabem que ele é gay. (T1E1. 12:19) Há palavras que são ditas, mesmo quando não queremos, somente para satisfazer o outro, para continuarmos dentro do papel que nos é imposto. Palavras e situações que geram vários desdobramentos e são consequências da pressão para que continuemos a agir como antes ou como o grupo quer que sejamos. Em casos assim o sujeito não é visto em sua individualidade, mas sim como uma extensão das expectativas do grupo ao qual pertence. Nick: O quê? (fala, tenso). Menino 1: Nada. Estamos falando de Tara Jones. Ela vai a festa do Harry. Nick: O que tem ela? (ele está ao lado de Charlie no vestiário). Harry: Achei que pudesse se interessar. Menino 2: Não teve um lance com ela na infância? Nick: Não temos nenhum lance. Só nos beijamos em uma festa (responde agitado). Menino 1: É, três anos atrás. Menino 3: Nick tem um lance com a Imogen? Nick: Não. Não, não tenho (parece impaciente e desconfortável). Menino 2: Duas gatas querem ficar com ele, e ele não está nem aí. Harry: Se não quer Imogen, sábado é sua chance com Tara. Só estou dizendo. Nick: É, talvez. Charlie olha fixamente para Nick, que desvia o olhar, constrangido. (T1E3. 02:16) Na festa de aniversário de Harry, Nick e Charlie estão sentados, em um lugar mais reservado, conversando animadamente. Harry chega com os meninos do rugby e faz uma pergunta a Nick, praticamente ignorando a presença de Charlie. No seguimento da conversa, senta-se ao lado de Nick e coloca o braço sobre seu ombro, deixando Nick extremamente desconfortável com tudo: Harry: Nicholas! Nick: Tudo bem, cara? Harry: Por que está aqui? Não está meio chato? (Os meninos riem). Nick: Porque sim (fala pouco à vontade e olha para Charlie). Harry senta ao lado de Nick. Harry: Tenho grandes novidades. Nick: É? O quê? (responde sem interesse genuíno)
143 Harry: Tara Jones está aqui. Meninos: Eahhhh! Nick: E daí? Harry: É a sua segunda chance, cara. Vamos fazer acontecer. Nick fecha os olhos, muito incomodado e tenso. Harry: Eles se beijaram com 13 anos. Muito romântico. Ele devia tentar, né? (fala para Charlie). Vamos lá, cara! Nick protesta ao ser levado para onde está Tara. (T1E3. 07:42) Situação que se repete em várias cenas, por exemplo, quando Nick, para satisfazer sua turma de rugby, aceita o convite de Imogen para um encontro, como já referido anteriormente. Quatro diálogos importantes surgem dessa situação: o primeiro reflete essa pressão; o segundo, de Nick com a mãe, inspira o repensar; o outro ocorre com Charlie quando Nick expõe a situação para ele e tudo se resolve com uma conversa sincera; e o fechamento se dá quando Nick encontra Imogen para explicar o que estava sentindo: Nick: Imogen, eu... Você é uma pessoa muito legal, mas... não gosto de você assim. Não tem nada a ver com você. Só acho que a gente não se encaixa. Não sei se eu... me encaixo com você ou... outras pessoas do nosso grupo. Imogen: Mas... somos amigos há tanto tempo, nos vemos todos os dias. Nick: Você já sentiu que faz as coisas só porque os outros fazem? E tem medo de mudar? Ou fazer algo que pode confundir ou surpreender as pessoas? Sua personalidade real está... enterrada dentro de você há muito tempo? Acho que é como eu tenho me sentido. Foi mal, não deve fazer sentido. Imogen: Não. Acho que entendo. Obrigada (olha para Nick). Por ser sincero. Nick suspira. (T1E5. 20:53) Nick, por fazer parte de um esporte visto como uma representação de masculinidade e por ser popular, é visto como heterossexual e pressionado constantemente. Mesmo que não possa se abrir com seus amigos eles ainda são o grupo que ele conhece desde a infância e Nick, ao mesmo tempo que compreende que tudo o que viveu pode mudar quando se assumir - uma mudança que ele ainda não se sente preparado para enfrentar - sente muita vergonha por ter pedido a Charlie o mesmo que Ben pedira, fato que, com o passar dos meses, se mostra insustentável: Nick: No colégio, podemos, tipo... (fala, embaraçado). Charlie: Guardar segredo? Nick: Isso. Eu só não sei se consigo... Você sabe. Me assumir como algo. Charlie: Sim. Tudo bem. (Nick parece embaraçado). (T1E4. 04:15)
144 Muitas vezes devido a essa pressão, não é incomum que pessoas LGBTQIAPN+ de várias idades, pelos mais diferentes motivos - ambiente, família, aceitação, não reconhecimento de sua sexualidade -, tenham que viver seu amor “pelos cantos” ou tratar a razão do seu afeto como se fosse apenas um amigo ou amiga. É importante observar o quanto disso pode ser resultado de uma relação tóxica ou se é mesmo algo passageiro, que depende somente de ajustes do tempo necessário para “absorver” e expor essa nova situação: Darcy: Charlie! Meu cara. Não vou mentir. Eu vim mais para conhecer os gays locais, mas, quer saber, você e Nick Nelson parecem até um casal. Tara: Meus Deus! Ignore-a (fala envergonhada). Charlie: Somos amigos. Ele é meu amigo. Darcy: Amigos mesmo ou, sabe, “amigos”? Elle: Darcy! Charlie: Por quê? Há boatos? (olha, sem jeito, para Nick que está próximo, se “aquecendo”). Darcy: Não. Nada além da minha intuição gay. Charlie: Eu juro. Somos só bons amigos platônicos. Nick observa a tudo, ainda constrangido. (T1E4. 16:33) Ao nos depararmos com esses momentos de expressão de estereótipos e de constrangimentos, não causa espanto que o bullying se torne o caminho errado e natural que será tomado. No episódio 2 - Crush , enquanto Nick vê o Instagram de Charlie, há uma post “Odeio esse lugar” se referindo a um corredor da escola. Nick então relembra as palavras que ouviu sobre Charlie, quando descobriram que ele era gay. Na cena, os alunos não aparecem, apenas escutamos as vozes e elementos gráficos são utilizados ao redor de Charlie: Menino 1: Está sabendo que tem um gay no 9º ano? (Todos riem). Menino 2: Não é bullying... ele pediu por isso. É um colégio só de garotos. O que ele esperava? Menino 3: Ele é muito nojento. Aposto que nos olhou no vestiário. Menino 4: Prefiro morrer a ser gay. Menino 5: Está olhando pra gente. Que esquisitão. Menino 6: Ele é um otário. (T1E2. 31:44) A escola, geralmente é um dos primeiros lugares, mas não o único, em que o preconceito é percebido de forma mais evidente e é externado de maneira violenta ou mesmo disfarçado de brincadeira. Na série ele está presente desde a transfobia perpetrada por um dos professores que não
145 chama Elle pelo seu verdadeiro nome 145 ; até nos lugares de lazer, gerando stress, angústia e ansiedade em momentos que deveriam ser de diversão e alegria. Na festa de aniversário de Harry, quando Nick diz que está procurando Charlie, a homofobia se mostra: Harry: O quê? O nerdzinho do 1º ano? Por que você anda com ele? Nick: Ele é meu amigo. Harry: Por quê? Tem pena dele por ele ser gay? (Os outros meninos riem). Nick: O quê? (Olha para Harry, incrédulo). Harry: Meu Deus! Não, espera. Ele tem um crush em você? Meu Deus, que triste! Nick: (Parecendo muito exasperado) Isso é homofóbico, Harry! Harry: (Olha para seus amigos. As risadas cessam) Qual é, cara. Nick: E eu realmente não gosto de você. Feliz aniversário (diz virando as costas para todos). (T1E3. 09:41) O bullying está sempre à espreita, é realizado mais comumente em grupo (Catini, 2004) e suas consequências são cruéis, sobretudo quando ampliadas pela solidão. Mesmo no cinema em que Nick e Charlie vão juntos, a homofobia é uma sombra permanente, que pode levar à reação diversas. Charlie acaba indo embora, Nick sai para falar com ele e pedir desculpas, mas Charlie se afasta dizendo que já estava acostumado com isso. Nick então retorna e confronta Harry: Nick: Qual é o seu problema com Charlie? Harry: Ele não tem nada a ver com a gente, né? Não joga rugby e tem o amigo estranho que não me deixa em paz [se refere a Tao]. Não pode trazer um gay pro grupo e esperar que todo mundo o ame (alguns meninos riem, outros não). Nick: Então o problema é ele ser gay? Harry: Qual é, ninguém está sendo homofóbico. Nick: Cala a boca, Harry! Ele ficou desconfortável com suas perguntas. Harry: Você tem que levar piadas numa boa. Nick: Mas não era piada, né? Só aproveitou a chance pra desprezar e humilhar alguém, como sempre. Harry: Ele aguenta já deve estar acostumado (empurra Nick). Você está todo bravo (empurra Nick novamente). Precisa protegê-lo, né? Porque ele é um veadinho patético [utiliza a palavra f*g que é extremamente ofensiva]. Nick lhe dá um soco e eles brigam. (T1E7. 08:24) A palavra escrita ou falada é um importante elemento constitutivo da nossa própria identidade, do nosso vínculo com o outro e por isso permeia as mais diferentes interações e é proferida com as mais diversas intenções, “a palavra dita, expressa, enunciada, constitui-se como produto ideológico, resultado 145 Ao invés de nome social utilizamos o termo “nome verdadeiro” por considerarmos o que melhor expressa o nome que a pessoa trans escolhe para si e não o que lhe foi designado ao nascer (Nota da Autora).
146 de um processo de interação na realidade viva” (Stella, 2005, p.178). Nessa realidade, cada vez mais, quem domina a “palavra” detém poder em quase todos as situações, nos mais diferentes meios. E as palavras que estão contidas nesses meios podem destruir ou criar, apoiar ou discriminar e até mesmo eleger. Encerro esse capítulo em que foram abordados diversos signos percebidos na série. O significado contido surge conforme as vivências e referências de cada um, dessa forma, compreende-se que nem todos perceberão esses signos ou concordarão com a interpretação realizada. Considera-se que uma obra se completa a partir do significado alcançado junto ao seu público e que muda conforme suas particularidades e, mesmo, com o passar do tempo. 6.3. CRITÉRIOS PARA VERIFICAÇÃO DA REPRESENTAÇÃO EM HEARTSTOPPER EIXO PERGUNTAS Heartstopper A representação A série/filme apresenta uma ou mais personagens LGBTQIAPN+ identificável(is)? Sim. Essa(s) personagem(ns) LGBTQIAPN+ existe(m) para além da sua orientação sexual ou identidade de gênero? Sim. Essa(s) personagem(ns) é/são diversa(s) em relação a gênero, raça e origem? Sim. Há uma rede de apoio para a(s) personagem(ns) LGBTQIAPN+? Sim. A importância Essa(s) personagem(ns) faz(em) parte do núcleo central? Sim. Caso essa(s) personagem(ns) LGBTQIAPN+ seja(m) retirada(s) da trama, haveria um efeito significativo na história? Sim. A(s) personagem(ns) mulher(es) faz(em) parte do núcleo central? Suas histórias são independentes? Sim. Os nãoestereótipos Essa(s) personagem(ns) reproduz(em) os estereótipos de alívio cômico, hipersexualização, promiscuidade ou de gênero? Não. O quantitativo Quantos personagens LGBTQIAPN+ há na produção? 6. Quantas dessas personagens fazem parte do núcleo central? 5/7. Há pessoas LGBTQIAPN+ atrás e na frente das câmeras? Sim. Quantas personagens são do gênero masculino e feminino no núcleo central? Há personagens não-binárias ou agênero? Quantas? F: 3 e M: 4. NB: 0 e Ag: 0. Quantas personagens trans existem em relação as personagens cis? Ela(s) faz(em) parte do núcleo central? 1/7. Sim. Tabela 10: Critérios para Verificação da Representação de Personagens LGBTQIAPN+ na Série Fonte: Elaboração da autora, 2024
147 Perguntas Heartstopper 1. Há o protagonismo das personagens envolvidas? De um(a) ou dos(as) dois/duas? Sim.2. 2. As personagens são complexas, aprofundadas? Uma ou as duas? Sim. 2. 3. As personagens têm seus próprios núcleos dentro da história? Uma ou as duas? Sim. 2. 4. Identifica-se que as personagens são LGBTQIAPN+? Uma ou as duas? Sim. 2. 5. As personagens possuem diversidade de etnia/raça, corpo e identidade? Uma ou as duas? Sim. Corpo não padrão. 1. 6. O romance entre as personagens é evidente? Sim. 7. Qual o tipo de contato/relação entre elas? Namoro. 8. Há algo que identifique a prática de queerbaiting na história ou fora dela? Não. 9. O final da(s) temporada(s) analisada(s) recai no tropo Bury Your Gays (BYG)? Não. Tabela 11: Levantamento da Representação do Relacionamento entre as Personagens LGBTQIAPN+ Fonte: Elaboração da autora, 2024
148 7. RECEPÇÃO VIRTUAL DE HEARTSTOPPER EM SEIS CANAIS DO YOUTUBE “A obra se torna o que é quando olhamos para ela" Marcel Duchamp A Teoria ou Estética da Recepção acabou por se atualizar para a o meio virtual, “por Estética da Recepção Virtual ou Teoria da Recepção Virtual, compreende-se as discussões em torno das atividades realizadas pelos receptores e fãs de uma produção artística no meio virtual, tais como comentários” (Borges & Araújo, 2022, p. 408). Nos últimos tempos, a participação do público é majoritariamente realizada a partir das redes sociais que podem impulsionar o sucesso e mesmo a discussão dos mais diversos fatores vinculados a uma obra, seja ela livro, filme ou série. Essa recepção é construída de forma bastante subjetiva, a contar com um público que possui inúmeras características, referências e formas de acesso a essas produções, inclusive criando conteúdo sobre elas. A recepção da série Hearstopper, pelo público analisado, será mensurada a partir dos critérios relacionados anteriormente. A análise de comentários em canais do Youtube foi escolhida, pois considera-se que os participantes deixam sua opinião de livre e espontânea vontade e trazem temas importantes para si, temas esses que foram resgatados a partir da série. Os comentários também possibilitam uma dinâmica interativa, seja motivada pela fala do(a) youtuber ou de outros participantes, em que cada comentário pode gerar uma resposta ou mesmo um novo comentário: Os ‘comentários da internet’ são constituintes dos processos de socialização e de letramento das esferas de comunicação digital contemporâneas, nas quais qualquer pessoa munida de um celular ou um computador pode produzir conteúdo amplamente visível, replicável e independente de atravessamentos institucionais. (Biar & Paschoal 2020, p, 1054). O Youtube possui a facilidade de publicação e distribuição de qualquer tipo de conteúdo e seus canais proporcionam uma interação com pessoas que possuem interesses afins, pois, a princípio, o perfil do(a) youtuber reflete em certo grau o perfil do seu público. Uma plataforma em que reações/ reacts e críticas sobre os mais variados vídeos, assuntos e produtos se tornou comum. Uma proposta relativamente simples e que trabalha com a opinião pessoal, fundamentada ou não, de quem representa o canal. Plataformas e redes sociais, a partir da criação de conteúdo e da participação do público proporcionam que quem participa saia de um comportamento passivo para uma participação ativa, em que seus comentários são importantes até mesmo para o andamento dos canais. O usuário é chamado a seguir, a compartilhar e, sobretudo, a opinar, o que acaba por gerar mais engajamento.
149 7.1. CANAIS DO YOUTUBE Os seis canais selecionados na plataforma de vídeos online Youtube, segundo os critérios discorridos anteriormente, são reconhecidos pela comunidade e trazem vivências diferentes devido ao perfil de seus responsáveis. Dentre esses seis canais pudemos perceber que três trazem vários conteúdos voltados ao público LGBTQIAPN+ e três são voltados ao público em geral: “Lorelay Fox” cuja drag queen de mesmo nome, conhecida por ter colaborado com o programa “Amor & Sexo” 146 (Rede Globo, 2009-2018), traz assuntos da cultura pop e fala diretamente ao público LGBTQIAPN+; “Jessica Ballut” tem no comando uma jovem lésbica que faz vídeos reagindo a conteúdos da cultura pop; “Gay Nerd” é comandado por um homem gay que traz questões sobre cultura pop e mundo gay; “Carol Moreira” além da responsável se identificar com a comunidade LGBTQIAPN+, o conteúdo do seu canal versa sobre produções audiovisuais. A youtuber também se destacou por trazer no seu vídeo a questão do queerbaiting e do Bury Your Gays para o debate; “Isabela Boscov”, uma das mais queridas e reconhecidas jornalista e crítica de cinema do Brasil, Isabela é percebida publicamente como uma pessoa heterocis, de cerca de mais de 50 anos, o que mostra o alcance que uma série como Heartstopper pode ter; e “PH Santos” (não temos conhecimento se ele pertence ou não à comunidade), é um comunicador e crítico de cinema, especialista em séries e filmes. 7.1.1. Dados Gerais dos Canais Isabela Boscov Figura 109: Banner do Canal “Isabela Boscov” Fonte: Canal Isabela Boscov 147 , 2024 Título do vídeo: “Heartstopper: já fui triste, agora quero ser feliz” Descrição do vídeo: Crítica da série "Heartstopper", da Netflix, criada por Alice Oseman, com Joe Locke, Kit Connor, Yasmin Finney, William Gao, Sebastian Croft, Cormac Hyde-Corrin, Rhea Norwood, Olivia Colman, Tobie Donovan. 146 Retirado de https://gshow.globo.com/programas/amor-e-sexo/ 147 Retirado de https://www.youtube.com/@IsabelaBoscov
150 O vídeo teve o total de 2320 comentários, dos quais selecionamos 128 comentários para análise. Os comentários selecionados, conforme abordado na Metodologia, tiveram seus autores categorizados da seguinte forma (L: Lésbica; G: Gay; B: Bissexual; F: Feminino; M: Masculino; PF: Pronome Feminino; PM: Pronome Masculino – os dois últimos se referem a não confirmação do gênero, mas a utilização desses pronomes): 128 comentários Sim Jovem adulto Não Não podemos afirmar Adolescente 00 02 33 93 LGBTQIAPN+ 75 -------------- ---------- 53 Orientação sexual L: 2; G: 6; B: 5 -------------- ---------- 115 Identidade de gênero F: 2; M: 5 PF: 3; PM: 4 -------------- ---------- 114 Tabela 12: Categorias de Participantes do Canal Isabela Boscov Fonte: Elaboração da autora, 2024 Lorelay Fox Figura 110: Banner do Canal “Lorelay Fox” Fonte: Canal Lorelay Fox 148 , 2024 Título do vídeo: “ASSISTI HEARTSTOPPER” Descrição do vídeo: Hoje vou comentar todos os meu [sic] sentimentos sobre a série da Netflix Heartstopper! A trajetória do Nick e do Charlie e sobre os livros também! Observação feita pela youtuber após a crítica. - Você já assistiu Heartstopper?; Escreve aqui o que você sentiu assistindo essa série. O vídeo teve o total de 1898 comentários, dos quais selecionamos 132 comentários para análise. Os comentários selecionados conforme abordado na Metodologia, tiveram seus autores categorizados 148 Retirado de https://www.youtube.com/@lorelayfox