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Universidade do Minho Escola de Psicologia Diana Sofia Cunha Pereira Maus-tratos na população idosa: o papel da vinculação, suporte social e coping junho de 2019 UMinho | 2019 Diana Pereira Maus-tratos na população idosa: o papel da vinculação, suporte social e coping
Diana Sofia Cunha Pereira Maus-tratos na população idosa: o papel da vinculação, suporte social e coping Dissertação de Mestrado Mestrado Integrado em Psicologia Trabalho realizado sob a orientação do Professor Doutor José Ferreira-Alves Universidade do Minho Escola de Psicologia junho de 2019
ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição-NãoComercial-SemDerivações CC BY-NC-ND https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/
iii Agradecimentos À minha família: aos meus pais, aos meus avós, aos meus padrinhos, à minha madrinha de coração, à Rita, à Maria e ao Gustavo. Agradeço-vos por todo o apoio ao longo destes 5 anos e, em especial, ao longo deste ano. Obrigada por estarem lá para tudo, sempre. Ao meu orientador, professor José Ferreira-Alves, por todo o apoio incondicional que me deu em todos os momentos. Mais do que um orientador, o professor foi para mim um mentor e, muitas vezes, um ombro amigo. Esteve sempre presente para mim e para as minhas colegas nas alturas de “festejo” e nas alturas de “desespero”. O professor esteve lá! Sempre! À distância de um telefonema! E isso é muito mais do que aquilo que eu poderia pedir de um orientador. Obrigada por me relembrar todos os dias que a minha escolha foi a certa! À Mariana e ao João. Obrigada por todas as horas que “perderam” comigo. Graças a vocês, a estatística já não me assusta (tanto). E já que falamos em estatística, obrigada também a si Dra. Célia por toda a ajuda. Aos meus amigos. Àqueles que assistiram a tudo nos bastidores, mas sempre prontos a entrar em ação. Obrigada por todos estes anos incríveis. Vocês foram, sem dúvida alguma, o melhor disto tudo. Para a vida, amigos! Por fim, e obviamente não menos importante, aos meus participantes. Àqueles que realmente permitiram que esta investigação fosse feita. A vocês, o meu gigante obrigado! Obrigada por todas as partilhas, por todos os momentos e, acima de tudo, pela confiança. Nem imaginam o quanto eu aprendi convosco… com cada um de vocês! São memórias que ficarão comigo para sempre. Obrigada! Obrigada a todos!
iv DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. Universidade do Minho, 04 de junho de 2019 Assinatura: __________________________________________________________________
v Maus-tratos na população idosa: o papel da vinculação, suporte social e coping Resumo A centração nos processos de desenvolvimento das pessoas idosas que sofrem maus-tratos (MT) tem sido um foco negligenciado. A literatura relaciona os estilos de vinculação (EV) e os MT com foco no agressor. O objetivo deste estudo foi explorar a relação dos EV da pessoa idosa com os MT e o papel do suporte social percebido (SSP) e estratégias de coping (EC), obtendo características psicométricas da medida Questions to Elicit Elder Abuse (QEEA). Foram aplicados instrumentos avaliativos dessas variáveis a 89 adultos idosos e realizadas análises de correlação, regressão, testes de diferenças e confirmatórias. De forma geral, os dados sugerem que o EV é o preditor com maior impacto nos MT, sendo que o EV inseguro prediz um maior número de indicadores de MT reportados. Pessoas com EV inseguro percecionam um menor SS, utilizam mais a autoculpabilização e negação como EC e reportam mais indicadores de MT. Pessoas com menor SSP reportam um maior número de indicadores de MT. As EC e os indicadores de MT não se mostraram correlacionados. A estrutura unifatorial do QEEA obteve boas características psicométricas. Conclui-se que os EV parecem desempenhar um papel central na compreensão do fenómeno do MT. Palavras-chave : coping, maus-tratos, população idosa, suporte social percebido, vinculação
vi Elder abuse: the role of attachment, social support and coping Abstract The centration in the development processes of elderly people suffering from maltreatment has been a neglected focus. The literature correlates the styles of attachment and elder abuse with a focus on the aggressor attachment. Thus, the purpose of the present study was to explore the relationship between the elderly person’s attachment styles and the maltreatment and the role of perceived social support and coping, obtaining psychometric characteristics of the instrument Questions to Elicit Elder Abuse (QEEA). Evaluative instruments of these variables were applied to 89 elderly participants, and correlation, regression, differences and confirmatory analyses were performed. Overall, the data suggest that styles of attachment is the predictor with the greatest impact on elder abuse and that the insecure style predicts a greater number of reported elder abuse indicators. People with insecure style perceive less social support, use self-blame and denial as coping strategies, and report more indicators of maltreatment. People with lower perceived social support report a greater number of indicators of maltreatment. Coping strategies and indicators of elder abuse were not correlated. The unifactorial structure of QEEA obtained good psychometric characteristics. We conclude that attachment styles seem to play a central role in understanding the phenomenon of elder abuse. Keywords : coping, elder abuse, elderly, perceived social support, attachment
vii Índice Maus-tratos na população idosa: o papel da vinculação, suporte social e coping .................................. 8 Método ........................................................................................................................ ..................... 12 Participantes ................................................................................................................................ 12 Instrumentos ................................................................................................................................ 12 Procedimento ............................................................................................................................... 13 Análise de Dados .......................................................................................................................... 14 Resultados ....................................................................................................................................... 15 Discussão......................................................................................................................................... 21 Descobertas e interpretações ........................................................................................................ 21 Pontos fortes, limitações e recomendações futuras ....................................................................... 25 Referências ...................................................................................................................................... 27 Anexo ............................................................................................................................................... 31 Lista de tabelas Tabela 1 Análise de clusters k-médias: Médias das dimensões da EVA para cada cluster……………...... ..16 Tabela 2 Número de indicadores de maus-tratos por sexo e estilo de vinculação ……………………………..17 Tabela 3 Análise descritiva das variáveis suporte social percebido e estratégias de coping ……………….18 Tabela 4 Diferenças entre pessoas com estilos de vinculação seguro e inseguro ao nível das estratégias de coping e do suporte social percebido …………………………………………………………………………………19 Tabela 5 Correlações entre o suporte social percebido e o número de indicadores de maus-tratos .…….20
MAUS-TRATOS, VINCULAÇÃO, SUPORTE SOCIAL E COPING 14 garantiam as condições necessárias para o contexto da investigação, nomeadamente em centros de dia/convívio, salões paroquiais e habitação dos participantes. As medidas utilizadas foram aplicadas pela ordem seguinte: MMSE, EVA, Brief COPE , MSPSS e QEEA. Todos os itens e respetivas opções de resposta foram lidos em voz alta pela investigadora para que todos pudessem participar mesmo que não soubessem/conseguissem ler e/ou escrever. No final de cada participação, foi dado a cada participante uma lista com contactos de entidades às quais os participantes podem pedir ajuda em caso de maustratos ou de dificuldade similar (e.g. PSP, GNR, APAV). Análise de Dados Com a exceção das análises fatoriais confirmatórias realizadas para comprovar a estrutura dos instrumentos Brief COPE e QEEA, onde foram utilizados, respetivamente, os softwares IBM® SPSS® AMOS 22.0.0 e ambiente computacional R versão 3.5.2, todos os dados recolhidos foram tratados e analisados através da versão 25 do software IBM® SPSS® para Windows®. Foram realizadas análises exploratórias para averiguar se os pressupostos subjacentes à utilização de testes paramétricos estavam cumpridos. Através dessas análises, foi possível concluir que o pressuposto da normalidade das distribuições não fora cumprido. Por outro lado, o pressuposto da homogeneidade das variâncias (quando aplicável) fora cumprido em todas as variáveis, com a exceção do Score Total do QEEA. Em paralelo, foi averiguada a presença ou ausência de outliers que pudessem estar a influenciar os resultados e o cumprimento dos pressupostos acima referidos. Foram identificados outliers fora do intervalo de -3 e +3 desvios padrão. Porém, as análises exploratórias de dados e as análises de estatística inferencial foram realizadas com e sem esses outliers e os resultados obtidos foram idênticos. Como tal, foi possível concluir que os outliers identificados não influenciam os resultados e, por isso, foram incluídos nas análises posteriores, sendo considerados dados reais. Sem mais possibilidades de se fazerem cumprir os pressupostos referidos, foram realizados, tal como recomendado por Fife-Schaw (2006) (como citado em Martins, 2011), testes paramétricos e testes não paramétricos. Nos casos em que ambos os testes concordaram em termos de significância dos resultados, foram relatados os resultados dos testes paramétricos (Coeficiente de Correlação de Pearson ( r ) e Teste T para Amostras Independentes ( t )). Nos casos em que não houve concordância, foram relatados os resultados dos testes não paramétricos (Coeficiente de Correlação de Spearman ( r s ) e Teste de Mann-Whitney ( U )). Além disso, uma vez que a EVA não permite avaliar diretamente os estilos de vinculação, realizouse uma análise de clusters para compreender de que modo as dimensões avaliadas poderiam ser utilizadas para classificar os participantes de acordo com os estilos de vinculação seguro e inseguro (ansioso e evitante). Uma vez que esta análise é considerada uma ferramenta exploratória que pode
MAUS-TRATOS, VINCULAÇÃO, SUPORTE SOCIAL E COPING 15 carecer de parâmetros objetivos para a determinação do número de clusters que melhor se adequa à amostra, optou-se por aplicar vários métodos de análise. Primeiramente, foi aplicado o método de cluster de duas etapas, que consiste num procedimento de clustering sequencial que permite perceber qual o número de clusters que melhor se adequa. De seguida, foi seguido o procedimento de Collins e Read (1990) e de Canavarro e colaboradores (2006). Foi aplicado o método de cluster hierárquico, no qual foi analisada a matriz de aglomeração e a sua representação gráfica, procurando identificar coeficientes substancialmente diferentes. Por fim, com base nestes resultados, foi então determinado o número de clusters que melhor representaria a amostra e foi aplicado o método de k-médias. Neste método final, são observadas as médias dos scores das dimensões da EVA nos clusters , permitindo assim atribuir nomes aos mesmos. Finalmente, para testar a hipótese 1 e porque todos os pressupostos subjacentes a este tipo de análise foram cumpridos, foi realizada uma análise de regressão linear múltipla com método hierárquico para explorar se o estilo de vinculação, o suporte social percebido e/ou o coping se constituíam preditores do número de indicadores de maus-tratos reportados. No primeiro modelo, apenas o estilo de vinculação foi usado como preditor. No segundo, ao estilo de vinculação adicionou-se o suporte social percebido. No terceiro modelo, o coping foi também adicionado e, por isso, as três variáveis foram usadas como preditores. Resultados A estrutura obtida no instrumento Brief COPE é idêntica à do estudo de validação por Pais-Ribeiro e Rodrigues (2004) antes de a forçarem a ter 14 dimensões, com exceção do fator Uso de Substâncias que não se manifestou devido à muito baixa variação de respostas. Um dos itens de Desinvestimento Comportamental (item 16) foi também retirado por não contribuir significativamente para o fator Coping Ativo, (Des)investimento Comportamental e Planear e o outro, tal como em Pais-Ribeiro e Rodrigues (2004), foi invertido de forma a estar congruente com esse mesmo fator. Desta forma, o modelo de 9 fatores resultante obteve um fit aceitável, Chisq = 312.708, df = 240, p = .001, CFI = .902, RMSEA = .059, SRMR = .077 e as consistências internas dos 9 fatores obtidos, avaliadas pelo alfa de Cronbach, oscilaram entre .69 e .84. Em relação ao QEEA, a estrutura original revelou problemas, nomeadamente covariâncias e factor loadings maiores do que 1. Optou-se, então, por um modelo unifatorial ( Score Total do QEEA), o qual não apresentou qualquer problema e revelou boas qualidades psicométricas, Chisq = 154.419, df = 119, p = .016, CFI = .972, RMSEA = .058, SRMR = .123, e um alfa de Cronbach = .96. Neste modelo, o item 8 foi excluído por ausência de respostas e o item 9 foi dividido por 4 das suas 7 opções de resposta
MAUS-TRATOS, VINCULAÇÃO, SUPORTE SOCIAL E COPING 16 (i.e. “Conversações tranquilas” e “Não surgem conflitos” foram retiradas por não se constituírem indicadores de maus-tratos), deixando de ter como pontuação máxima 1 ponto. No que diz respeito às análises realizadas para a determinação dos estilos de vinculação, verificou-se que, com a análise de clusters de duas etapas, a melhor solução seria a aglomeração em dois clusters, com uma adequação “razoável”, muito próxima do “boa”. Quando a análise foi ajustada para três clusters , a adequação manteve-se “razoável”, mas bastante mais distante do “boa”. Por sua vez, no método hierárquico, através da análise dos coeficientes da matriz de aglomeração e da sua representação gráfica, verificou-se um “salto” e uma subida de linha que apontava para uma solução de dois clusters . Neste âmbito, e tendo por base os resultados dos diferentes métodos, optou-se por uma solução de dois clusters . As médias das dimensões da EVA em cada um dos clusters podem ser visualizadas na Tabela 1. Tabela 1 Análise de clusters k-médias: Médias das dimensões da EVA para cada cluster Clusters Dimensões EVA 1 ( n = 52) 2 ( n = 37) F (1, 87) Conforto com a Proximidade 4.35 3.79 24.06*** Confiança nos Outros 3.77 2.69 65.01*** Ansiedade 1.43 2.70 105.15*** *** p < .001 Analisando os resultados, verifica-se que o cluster 1 corresponde a um estilo de vinculação seguro dado apresentar, tal como em Collins e Read (1990) e Canavarro e colaboradores (2006), médias elevadas no conforto com a proximidade e confiança nos outros e uma média baixa na ansiedade, demostrando ser um grupo confortável com a proximidade, confiante nos outros e sem medo de poder vir a ser abandonado. Além disso, verifica-se que o cluster 2 corresponde a um estilo de vinculação mais inseguro, devido a apresentar, tal como nos estudos referidos, uma média mais elevada de ansiedade e médias mais baixas no conforto com a proximidade e confiança nos outros comparativamente ao cluster 1, demonstrando assim ser um grupo menos confortável com a proximidade, menos confiante nos outros e com maior medo de poder vir a ser abandonado. Tal como nos autores já referidos, a dimensão ansiedade apresenta um maior valor discriminativo na determinação dos clusters , F (1, 87) = 105.15, p
MAUS-TRATOS, VINCULAÇÃO, SUPORTE SOCIAL E COPING 17 < .001. Desta feita, 58.4% ( n = 52) dos participantes fora inseridos no cluster relativo ao estilo de vinculação seguro e 41.6% ( n = 37) ao inseguro. Colocando o foco na variável dependente do presente estudo, a Tabela 2 representa uma descrição do número de indicadores de maus-tratos por sexo e estilo de vinculação. É possível verificar que, de forma geral, embora 41 (46.07%) dos 89 participantes não tenha reportado indicadores, 48 (53.93%) relataram sofrer de pelo menos um indicador de maus-tratos (Tabela 2). Em relação ao sexo, verificam-se diferenças significativas entre homens e mulheres ao nível dos maus-tratos em idade avançada, U = 655.00, p = .025 (Tabela 2), sendo que as mulheres relatam um maior número de indicadores de maus-tratos do que os homens. Além disso, existem também diferenças significativas entre pessoas com estilos de vinculação seguro e inseguro ao nível dos maus-tratos, t (39.79) = -3.58, p = .001 (Tabela 2), sendo que as pessoas com estilo de vinculação inseguro relatam um maior número de indicadores de maus-tratos do que as com estilo seguro. Tabela 2 Número de indicadores de maus-tratos por sexo e estilo de vinculação Sexo Estilo de Vinculação Nº Indicadores de MausTratos Reportados N (%) Feminino ( n = 58) Masculino ( n = 31) Seguro ( n = 52) Inseguro ( n = 37) 0 41 (46.07%) 20 (34.48%) 21 (67.74%) 32 (61.54%) 9 (24.32%) 1 24 (26.97%) 22 (37.93%) 2 (6.45%) 13 (25%) 11 (29.73%) 2 12 (13.48%) 7 (12.07%) 5 (16.13%) 5 (9.62%) 7 (18.92%) 3 3 (3.37%) 2 (3.45%) 1 (3.23%) 1 (1.92%) 2 (5.41%) 4 1 (1.12%) 1 (1.72%) 0 (0%) 1 (1.92%) 0 (0%) 5 1 (1.12%) 0 (0%) 1 (3.23%) 0 (0%) 1 (2.70%) 6 4 (4.49%) 3 (5.17%) 1 (3.23%) 0 (0%) 4 (10.81%) 11 1 (1.12%) 1 (1.72%) 0 (0%) 0 (0%) 1 (2.70%) 12 2 (2.25%) 2 (3.45%) 0 (0%) 0 (0%) 2 (5.41%) Média (DP) 1.40 (2.43) 1.71 (2.75) .84 (1.53) .58 (.89) 2.57 (3.30) Assimetria (ES) 2.95 (.26) 2.73 (.31) 2.14 (.42) 1.82 (.33) 1.85 (.39) Statistic U = 655.00* t (39.79) = -3.58** * p < .05, ** p < .01
MAUS-TRATOS, VINCULAÇÃO, SUPORTE SOCIAL E COPING 18 A Tabela 3 apresenta características descritivas das variáveis suporte social percebido e estratégias de coping . É de realçar que, em média, os participantes relataram percecionar maior suporte social de outros significativos e menor suporte social de amigos. Além disso, em média, reportaram utilizar mais a aceitação, a religião e o coping ativo, investimento comportamental e planeamento e menos o humor e a autoculpabilização e negação. Tabela 3 Análise descritiva das variáveis suporte social percebido e estratégias de coping Mínimo - Máximo Média (DP) Assimetria (ES) Suporte Social Percebido Família 1 - 7 5.54 (1.71) -1.42 (.26) Amigos 1 - 7 4.89 (1.75) -.86 (.26) Outros Significativos 1 - 7 5.70 (1.48) -1.45 (.26) Suporte Social Percebido (Total) 1 - 7 5.38 (1.25) -1.14 (.26) Estratégias de Coping Coping Ativo, Investimento Comportamental e Planeamento .40 – 3 2.45 (.63) -1.17 (.26) Suporte Instrumental e Suporte Social Emocional 0 – 3 1.79 (.94) -.39 (.26) Religião 0 – 3 2.46 (.87) -1.51 (.26) Reinterpretação Positiva 0 – 3 1.93 (1.06) -.51 (.26) Autoculpabilização e Negação 0 – 3 1.40 (.91) .13 (.26) Aceitação .50 – 3 2.47 (.75) -1.24 (.26) Expressão de Sentimentos 0 – 3 1.85 (1.09) -.41 (.26) Auto Distração 0 – 3 2.10 (1.00) -.73 (.26) Humor 0 – 3 1.37 (1.12) .23 (.26) Quando são testadas as possíveis diferenças entre pessoas com estilo de vinculação seguro e inseguro ao nível dessas variáveis, verificam-se diferenças significativas ao nível da autoculpabilização e negação, t (87) = -2.77, p = .007 e ao nível do suporte social percebido, t (87) = 2.82, p = .006 (Tabela 4). Assim, quando comparadas com pessoas com estilo seguro, as pessoas com estilo de vinculação
MAUS-TRATOS, VINCULAÇÃO, SUPORTE SOCIAL E COPING 19 inseguro relatam maior uso da autoculpabilização e negação como estratégia de coping e relatam menor suporte social percebido. Tabela 4 Diferenças entre pessoas com estilos de vinculação seguro e inseguro ao nível das estratégias de coping e do suporte social percebido Estilo Vinculação Seguro ( n = 52) Média (DP) Estilo Vinculação Inseguro ( n = 37) Média (DP) t (87) Estratégias de Coping Coping Ativo, Investimento Comportamental e Planear 2.47 (.70) 2.18 (.76) .26 Utilização do Suporte Instrumental e Suporte Social 1.83 (.95) 1.74 (.93) .41 Religião 2.47 (.90) 2.45 (.83) .13 Reinterpretação Positiva 2.00 (1.01) 1.84 (1.14) .71 Autoculpabilização e Negação 1.19 (.83) 1.71 (.94) -2.77** Aceitação 2.55 (.63) 2.36 (.89) 1.08 Expressão de Sentimentos 1.89 (1.05) 1.78 (1.16) .47 Auto Distração 2.10 (1.01) 2.11 (1.00) -.06 Humor 1.44 (1.14) 1.27 (1.10) .71 Suporte Social Percebido Família 5.88 (1.64) 5.07 (1.73) 2.25* Amigos 5.16 (1.68) 4.50 (1.78) 1.79 Outros Significativos 6.00 (1.31) 5.28 (1.61) 2.29* Suporte Social Percebido (Total) 5.68 (1.20) 4.95 (1.21) 2.82** * p < .05, ** p < .01 E como é que essas variáveis se relacionam com o número de indicadores de maus-tratos reportados? Constata-se na Tabela 5 a existência de uma correlação negativa significativa entre a presença de indicadores de maus-tratos e o suporte social percebido, r = -.35, p = .001, sendo que um
MAUS-TRATOS, VINCULAÇÃO, SUPORTE SOCIAL E COPING 20 menor suporte social percebido está associado a uma maior presença de indicadores de maus-tratos. Porém, quando o foco são as estratégias de coping , não há correlação significativa entre a utilização destas e a presença de indicadores de maus-tratos. Existe apenas uma correlação positiva marginalmente significativa entre os maus-tratos e a autoculpabilização e negação, r S = .19, p = .082, sugerindo que pessoas em idade avançada com maior presença de indicadores de maus-tratos possam utilizar mais a autoculpabilização e a negação como estratégia de coping . Tabela 5 Correlações entre o suporte social percebido e o número de indicadores de maus-tratos Família Amigos Outros Significativos Suporte Social Percebido (Total) Indicadores de Maus-Tratos -.36** -.11 -.34** -.35** ** p < .01 Para terminar, como referido anteriormente, foram realizadas análises de predição de forma a perceber qual o modelo mais explicativo de variância do número de indicadores de maus-tratos reportados. O primeiro modelo obtido mostrou-se significativo, R 2 = .166, F (1, 87) = 17.26, p < .001, explicando cerca de 17% da variância. Ou seja, ter um estilo de vinculação inseguro prediz significativamente reportar mais indicadores de maus-tratos em idade avançada, ß = .407, t (87) = 4.16, p < .001. O segundo modelo obtido foi igualmente significativo, R 2 = .223, F (2, 86) = 12.35, p < .001, explicando cerca de 22% da variância. O estilo de vinculação e o suporte social percebido foram significativos na predição do número de indicadores de maus-tratos. Enquanto que ter um estilo de vinculação inseguro (ß = .334, t (86) = 3.37, p = .001) prediz reportar mais indicadores de maus-tratos, reportar maior suporte social percebido (ß = -.251, t (86) = -2.53, p = .013) foi preditor de reportar menos indicadores de maus-tratos. Neste caso, o r square change = .06, p = .013. Ou seja, inserir o suporte social percebido na regressão melhora significativamente o modelo em 6%, mas, ainda assim, o estilo de vinculação teve um maior impacto no modelo do que o suporte social percebido. Por fim, o terceiro modelo também foi significativo, R 2 = .399, F (11, 77) = 4.65, p < .001, explicando cerca de 40% da variância. Neste caso, apenas o estilo de vinculação e as estratégias de coping de reinterpretação positiva e de aceitação se mostraram preditores significativos. Ou seja, com a inserção do coping no modelo, o suporte social percebido deixou de ser um preditor significativo.
MAUS-TRATOS, VINCULAÇÃO, SUPORTE SOCIAL E COPING 21 Concluindo, enquanto que ter um estilo de vinculação inseguro (ß = .314, t (77) = 3.17, p = .002) prediz reportar mais indicadores de maus-tratos, utilizar mais a reinterpretação positiva (ß = -.237, t (77) = - 2.25, p = .027) e a aceitação (ß = -.322, t (77) = -2.86, p = .005) como estratégias de coping foi preditor de reportar menos indicadores de maus-tratos. Neste caso, quando comparado com o segundo modelo, o r square change = .18, p = .014. Ou seja, inserir as estratégias de coping na regressão melhora significativamente o modelo em 18%, mas, ainda assim, de forma geral o estilo de vinculação teve um maior impacto no modelo do que as restantes variáveis. Discussão Descobertas e interpretações Este estudo teve como objetivo maior explorar uma visão desenvolvimental do fenómeno dos maus-tratos, com a qual fosse possível compreender melhor as dinâmicas abusivas que ligam a pessoa idosa ao perpetrador de abuso. Nesse sentido, foram estabelecidos como objetivos específicos compreender a relação entre estilos de vinculação, suporte social percebido e o coping e o número de indicadores de maus-tratos reportados, obtendo também indicadores psicométricos da medida QEEA. Todas as hipóteses estabelecidas inicialmente foram verificadas, com a exceção da hipótese 4 que se verificou apenas parcialmente. O primeiro dado que importa sublinhar é a obtenção de boas características psicométricas para uma estrutura unifatorial do QEEA. Esta medida, na sua versão original, não apresentava estudos relativos à sua estrutura interna, tendo servido apenas propósitos práticos de despiste de maus-tratos em visitas domiciliárias. Além disso, a adaptação realizada para a população portuguesa apenas foi sujeita a análises de fidelidade através do alfa de Cronbach. Como tal, este é o primeiro estudo a realizar uma análise confirmatória desta medida. Como referido anteriormente, a estrutura unifatorial foi a que revelou melhores características psicométricas e, por isso, além das diferenças já relatadas, este instrumento deixa de distinguir os diferentes tipos de maus-tratos existentes, conseguindo apenas obter um score total dos indicadores de maus-tratos reportados. Em segundo lugar, importa sublinhar a constatação de uma melhor adequação das respostas à EVA em torno de dois estilos de vinculação ao invés de três, como foi encontrado por Collins e Read (1990) com amostras maioritariamente de jovens adultos e por Canavarro e colaboradores (2006) com amostras de jovens adultos e adultos. Além disso, na presente amostra de adultos idosos existem mais participantes seguros do que inseguros ao passo que nas amostras dos estudos referidos - apesar do cluster com maior número de participantes ser também o seguro - os estilos inseguros (preocupado e
MAUS-TRATOS, VINCULAÇÃO, SUPORTE SOCIAL E COPING 22 evitante) contêm um número de indivíduos superior. Estes dados parecem revelar diferenças decorrentes das distintas amostras. Em terceiro lugar, a prevalência de indicadores de maus-tratos do atual estudo apresenta uma dimensão importante. Apesar da prevalência obtida ser superior à encontrada por Gil e colaboradores (2015) - que utilizaram uma medida de maus-tratos distinta do presente estudo e por isso torna difícil a comparação de prevalências -, esta é congruente com várias investigações realizadas em Portugal que utilizaram a mesma medida do presente estudo (Santos, Ferreira-Alves, & Penhale, 2011). É possível constatar também que há uma percentagem maior de mulheres do que homens a reportar maus-tratos, o que vai ao encontro igualmente de estudos prévios (e.g. Gil et al., 2015; Santos et al., 2011). Em quarto lugar foram encontrados dados que suportam uma das hipóteses centrais do presente estudo: uma diferença muito significativa no autorrelato de maus-tratos entre os participantes que têm uma vinculação segura e os que têm uma vinculação insegura. A discussão destes dados merece um destaque especial. Quando comparados com os seguros, os participantes com vinculação insegura apresentam diferenças significativas nos três domínios medidos pela EVA. Ou seja, confiam menos nos outros e que estes estejam disponíveis para si quando necessitem, sentem-se mais desconfortáveis com a proximidade e a intimidade e têm maior ansiedade, isto é, e de acordo com a teoria, um maior medo de serem abandonados ou de não serem queridos pelos outros. Por certo que o nível de confiança nos outros e o grau de conforto com a proximidade têm efeitos importantes nas dinâmicas relacionais. Contudo, é na dimensão da ansiedade que os que têm vinculação insegura mais se diferenciam dos que têm vinculação segura. Ora, como referido, alguém com um estilo de vinculação marcado por uma maior ansiedade é caracterizado pelo medo de ser abandonado ou de não ser querido. Estas características certamente se projetarão de alguma forma no outro, influenciando negativamente as dinâmicas relacionais em que os indivíduos estão envolvidos, principalmente se considerarmos que existem situações típicas que facilitam a ocorrência de maus-tratos, nomeadamente quando duas pessoas têm estilos de vinculação diferentes (Shemmings, 2000). Pois bem, uma das possíveis explicações para que essas características possam tornar as pessoas mais vulneráveis aos maus-tratos, será a existência de um ciclo autorreforçado marcado pelo medo do abandono, afastamento consequente por parte dos outros, maior medo de ser abandonado, maior afastamento dos outros e assim sucessivamente. Tal como referido anteriormente, Riggs e Kaminski (2010) parecem suportar parcialmente esta hipótese explicativa, demonstrando numa amostra de jovens adultos que o estilo de vinculação inseguro (mais especificamente, o ansioso) emergiu
MAUS-TRATOS, VINCULAÇÃO, SUPORTE SOCIAL E COPING 23 como preditor de agressão e vitimização psicológica em relações românticas, argumentando que o medo da rejeição e do abandono se constituíram estímulos geradores de violência. Em quinto lugar, tal como no estudo de Carvalho e colaboradores (2011), o suporte social mais percecionado pelos participantes foi o dos outros significativos, seguido do da família e por fim dos amigos. Como esperado, quando comparado o suporte social percebido com os diferentes estilos de vinculação, as pessoas com estilo inseguro reportam um menor suporte social percebido. Este dado vai ao encontro de outros estudos já presentes na literatura com amostras de jovens adultos e adultos (e.g. Priel & Shamai, 1995; Waldron, 1996), demonstrando mais uma vez que a forma como organizamos as informações acerca do nosso self , dos outros e da relação com os outros influencia claramente a nossa perceção de suporte e disponibilidade social em idade avançada e vice-versa. Colocando o foco nas estratégias de coping utilizadas pelos participantes, em média estes parecem utilizar mais a aceitação, a religião e o coping ativo, investimento comportamental e planeamento e menos o humor e a autoculpabilização e negação. Estes dados vão ao encontro dos já presentes na literatura com amostras de pessoas idosas, que consideram essas mesmas estratégias como as mais e menos utilizadas para enfrentar problemas (e.g. Lee & Mason, 2014). Como previsto, comparados com os seguros, as pessoas com estilos de vinculação inseguro tendem a utilizar mais a autoculpabilização e negação como formas de coping , estratégias estas consideradas de evitamento (Shapiro & Levendosky, 1999) e por isso mais desadequadas para o enfrentamento de problemas. Este dado vai também de encontro a alguns estudos já realizados com adolescentes (Shapiro & Levendosky, 1999) e jovens adultos (Ognibene & Collins, 1998), que referem que pessoas com estilos de vinculação inseguros tendem a utilizar estratégias de coping mais desadequadas (Shapiro & Levendosky, 1999), nomeadamente estratégias de evitamento (e.g. Ognibene & Collins, 1998; Shapiro & Levendosky, 1999). Quando essas variáveis são relacionadas com o número de indicadores de maus-tratos reportados, apenas o suporte social percebido obtém correlações significativas. Expectavelmente, pessoas com um menor suporte social percebido reportam mais indicadores de maus-tratos, o que é congruente com a literatura já referida que considera o suporte social percebido um fator de risco para os maus-tratos em idade avançada (e.g. Donder et al., 2016; Dong et al., 2009; Melchiorre et al., 2013). Assim, há a confirmação de que o suporte social percebido desempenha um papel muito importante no fenómeno dos maus-tratos, contribuindo ou não para o isolamento das pessoas idosas e, por sua vez, para uma menor ou maior vulnerabilidade aos maus-tratos. Inesperadamente e por contraste a Donder e colaboradores (2016), quando o foco é colocado nas estratégias de coping e nos indicadores de maus-tratos, não são encontradas correlações
MAUS-TRATOS, VINCULAÇÃO, SUPORTE SOCIAL E COPING 30 support. Dissertation Abstract, 56, 113. White, H. R., & Widom, C. S. (2003). Intimate partner violence among abused and neglected children in young adulthood: The mediating effects of early aggression, antisocial personality, hostility and alcohol problems. Aggressive behavior , 29 (4), 332-345. DOI: 10.1002/ab.10074 World Health Organization [WHO]. (2002). The Toronto declaration on the global prevention of elder abuse . Geneva, Switzerland: WHO. Zimet, G. D., Dahlem, N. W., Zimet, S. G., & Farley, G. K. (1988). The multidimensional scale of perceived social support. Journal of Personality Assessment, 52 (1), 30-41.
MAUS-TRATOS, VINCULAÇÃO, SUPORTE SOCIAL E COPING 31 Anexo Parecer do Conselho de Ética da Universidade do Minho Conselho de Ética - Ciências Sociais e Humanas Identificação do documento: CE.CSH 086/2018 Título do projeto: Estilos de vinculação e maltrato: a ação do suporte social e do coping na população idosa. Investigador(a) Responsável: Diana Sofia Cunha Pereira, Mestrado Integrado em Psicologia, Escola de Psicologia, Universidade do Minho e Professor José Ferreira-Alves, Orientador, Escola de Psicologia, Universidade do Minho PARECER O Conselho de Ética analisou o processo relativo ao projeto de investigação acima identificado, intitulado Estilos de vinculação e maltrato: a ação do suporte social e do coping na população idosa. Os documentos apresentados revelam que o projeto obedece aos requisitos exigidos para as boas práticas na investigação com humanos, em conformidade com as normas nacionais e internacionais que regulam a investigação em Ciências Sociais e Humanas. Face ao exposto, o Conselho de Ética nada tem a opor à realização do projeto, emitindo o seu parecer favorável. Braga, 29 de novembro de 2018. A Presidente do CEUMinho Conselho de Ética