Retratos sobre a migração na série televisiva brasileira “Portugal pelos Brasileiros”
Abstract
Neste artigo abordamos a relação entre o discurso midiático e as mi- grações a partir da perspectiva das representações sociais. Analisamos o caso do fluxo de imigração brasileira em Portugal que vem aumentando nos últimos anos, conforme retratado na primeira temporada da série televisiva brasileira “Portugal pelos Brasileiros”. Utilizamos a abordagem da Análise Crítica do Discurso para entender como a significação da experiência migratória está incorporada na série por meio das representações sociais. Como resultado, pudemos identificar que os novos imigrantes brasileiros em Portugal são retratados de maneira parcial e excludente, por meio de um discurso midiático ancorado em traços culturais e socioeconômicos específicos.
Full text
ARTIGO COMUN. MÍDIA CONSUMO, SÃO PAULO, V. 17, N. 50, P. 469-488, SET./DEZ. 2020 DOI 10.18568/CMC.V17I50.2277 Retratos sobre a migração na série televisiva brasileira “Portugal pelos Brasileiros” Portraits of migration in the Brazilian television series “Portugal pelos Brasileiros” Patricia Posch1 Rosa Cabecinhas2 Resumo: Neste artigo abordamos a relação entre o discurso midiático e as migrações a partir da perspectiva das representações sociais. Analisamos o caso do fluxo de imigração brasileira em Portugal que vem aumentando nos últimos anos, conforme retratado na primeira temporada da série televisiva brasileira “Portugal pelos Brasileiros”. Utilizamos a abordagem da Análise Crítica do Discurso para entender como a significação da experiência migratória está incorporada na série por meio das representações sociais. Como resultado, pudemos identificar que os novos imigrantes brasileiros em Portugal são retratados de maneira parcial e excludente, por meio de um discurso midiático ancorado em traços culturais e socioeconômicos específicos. Palavras-chave: discurso midiático; migrações; representações sociais; análise crítica do discurso; Portugal pelos Brasileiros. Abstract: In this paper, we focus on the relationship between media discourse and migration from the perspective of social representations. We analyze the case of the Brazilian flow in Portugal that has been increasing in recent years, as portrayed in the first season of the Brazilian television series “Portugal pelos Brasileiros”. We used the Critical Discourse Analysis approach to understand how the meaning of the migratory experience is incorporated into the series through 1 Universidade do Minho (UM). Braga, Portugal. https://orcid.org/0000-0003-1839-3511. E-mail: patric[email protected]. 2 Universidade do Minho (UM). Braga, Portugal. https://orcid.org/0000-0002-1491-3420. E-mail: rosa.cabec[email protected].
ARTIGO 470 retratos sobre a migração na série televisiva brasileira comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 50, p. 469-488, set./dez. 2020 social representations. As a result, we were able to identify that the new Brazilian immigrants in Portugal are portrayed in a partial and exclusive way, through a media discourse anchored in specific cultural and socioeconomic traits. Keywords: media discourse; migrations; social representations; critical discourse analysis; Portugal pelos Brasileiros.
ARTIGO comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 49, p. 469-488, set./dez. 2020 patricia posch | rosa cabecinhas 471 Introdução Migration has always been about navigating new risks, uncertainty, and the contested terrain of mobility (HEGDE, 2016, p. 1). Ao se realizar uma busca na Internet sobre a migração brasileira para Portugal, é possível encontrar uma diversidade de artigos noticiosos sobre o crescente número de brasileiros3 que decidiu emigrar para aquele país nos últimos anos. Em um momento na história em que Portugal “precisa desesperadamente” (Público, 16 ago. 2019) de imigrantes, são milhares estes “milionários e desempregados” (Uol, 14 jul. 2019) que buscam Portugal para se estabelecer. No nível comportamental, as trocas simbólicas que são inerentes aos processos de comunicação influenciam diretamente os processos de decisão de dimensão pessoal e coletiva. Na dimensão midiática, Baudrillard (1991, p. 108) nos diz serem possíveis os casos de uma sintonia exata entre informação e sentido, sendo que a informação neste caso pode ser tanto “destruidora ou neutralizadora do sentido e do significado”. Tal ocorre porque o mundo que as mídias nos apresentam é constituído, por sua vez, por diversas representações sociais que buscam atrelar sentido à vivência humana. É também frequente encontrar, na dimensão midiática, obliterações e distorções das estratificações sociais vigentes (PAZ; LEÃO, 2012). Ao adentrarem o domínio público das comunicações midiáticas, essas representações se tornam também ideológicas (MOSCOVICI, 2009). Sendo assim, se é verdade que vivemos em um “idealismo furioso do sentido”, um “idealismo da comunicação pelo sentido” (BAUDRILLARD, 1991, p. 108), é imperioso questionar qual é o sentido que transparece nas representações sociais que são veiculadas na mídia. Foi com o objetivo de responder a questões como essa que conduzimos o estudo que apresentamos neste artigo. Adotando o ponto de vista 3 O fato de termos optado por utilizar este termo para designarmos todas as pessoas que nasceram no Brasil, visando a uma melhor legibilidade do texto, não deve desviar o leitor do reconhecimento da diversidade de gênero, nem mesmo quando o título da série (“Portugal pelos Brasileiros”) pareça não a considerar.
ARTIGO 472 retratos sobre a migração na série televisiva brasileira comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 50, p. 469-488, set./dez. 2020 da Análise Crítica do Discurso, analisamos os cinco episódios da primeira temporada da série “Portugal pelos Brasileiros”, exibida na Rede Globo de Televisão no início de 2018. Nos norteamos pela intenção de entender de que forma a experiência destes novos imigrantes brasileiros está a ser significada no discurso midiático por meio das representações sociais sobre o fenômeno, o que nos suportaria a vislumbrar de que forma esse retrato da imigração brasileira recente em Portugal reverbera na esfera social. As representações sociais no contexto midiático Uma vez que é impossível escapar dos significados que o mundo vai ganhando por meio das representações que se fazem dele, o foco da análise das questões sociais contemporâneas deve considerar como elas vão sendo construídas e refletidas nos discursos vigentes. Adoptando o discurso em uma perspectiva foucaultiana, onde a preocupação primordial é a de evidenciar as relações que existem entre a língua e as estruturas sociais (FOUCAULT, 2008), ressalta-se o reconhecimento de que a análise desses discursos deve contemplar também a “interpretação e revelação das significações implícitas” (FOUCAULT, 2008, p. 127) e suas “proposições” (FOUCAULT, 2008, p. 127). Quando falamos dos discursos presentes nas sociedades contemporâneas, não podemos relevar que eles estão relacionados a toda uma arquitetura do conhecimento que vai sendo construída nos meandros sociais e possui uma natureza operativa, por influenciar diretamente a manutenção de estruturas de poder e autoridade por meio da gestão dos pontos de vista. É nessa teia constitutiva do conhecimento humano sobre o mundo em que se encontram as representações sociais. Podemos defini-las como as cognições coletivas e os sistemas de pensamento vigentes na esfera dos grupos de indivíduos que dão sentido à vida cotidiana. Elas são construídas socialmente por meio de processos cognitivos específicos, cujo objetivo é sempre o de “tornar familiar algo não familiar” (MOSCOVICI, 2009, p. 54). Tudo o que não puder ser categorizado dentro das ideias preconcebidas do mundo torna-se tanto enigmático quanto
ARTIGO comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 49, p. 469-488, set./dez. 2020 patricia posch | rosa cabecinhas 473 ameaçador para o sujeito, ocasionando um sentimento de incerteza que acaba por provocar distanciamento (MOSCOVICI, 2009). Sendo as representações sociais de caráter dinâmico, o estudo daquelas que ainda não estão totalmente sedimentadas nos grupos sociais se torna particularmente interessante (MOSCOVICI, 2009). Indo além, consideramos imperioso entender também como esses processos exercem influência na mente e orientam a ação dos indivíduos no mundo (VALA; CASTRO, 2017). Como temos podido observar ao longo da história da humanidade, esse sentimento de não reconhecimento da pluralidade inerente ao ser humano tem levado a situações de discriminação social e racismo. Nesse turbilhão de ideias que dota de sentido o mundo em que vivemos, os meios de comunicação assumem um lugar de destaque. É por meio deles que é levada a cabo uma verdadeira “desestruturação do real” (BAUDRILLARD, 1991, p. 106), ficando a percepção do mundo confinada às representações sociais ali expostas. A televisão assume um papel particularmente interessante neste processo. Mesmo diante da proliferação de conteúdos de teor noticioso e documental na contemporaneidade, não podemos negligenciar a natureza da televisão também enquanto meio de comunicação e não só de informação (GIACOMANTONIO, 1981). Para Crespi (1997, p. 200), ela é um potente “agente de socialização” da sociedade, no sentido de que as produções culturais que aí se veiculam têm um grande impacto social. Assim sendo, já não é possível focar a análise de produções televisivas apenas em seu conteúdo; é preciso promover uma mudança de olhar e buscar entender a forma como esse conteúdo é montado e de que forma estes formatos influenciam no seu significado (FISKE; HARTLEY, 2003), sendo da própria natureza da televisão oferecer produções em um contexto de “censura invisível” (BOURDIEU, 1997, p. 6). Esses significados são partes fundamentais de um puzzle simbólico que resulta na construção dos discursos midiáticos. No caso das representações sociais sobre a migração, elas promovem transformações que vão ter impacto direto na vida do sujeito que migra. Sayad (1998, p. 56) já afirmara que “não existe outro discurso sobre o imigrante e a
ARTIGO 474 retratos sobre a migração na série televisiva brasileira comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 50, p. 469-488, set./dez. 2020 imigração que não seja um discurso imposto”, e essa afirmação ganha cada vez mais sentido na contemporaneidade. Não é raro observarmos a presença de discursos que advogam em favor de um status quo do imigrante que posiciona a sua presença na comunidade de destino em um lugar entre o provisório e o permanente (SAYAD, 1998), uma espécie de hiato social. A partir do momento em que se convencionalizou abordar a questão das migrações como um “problema social” (SAYAD, 1998, p. 56), no caso dos imigrantes brasileiros em Portugal, seja nos conteúdos midiáticos ou em conversas corriqueiras dentro de grupos sociais específicos, as relações de poder de ordem discursiva tem sido estabelecidas ao longo do tempo em níveis tangíveis e intangíveis, chegando a provocar, muitas vezes, situações de verdadeiro “encarceramento simbólico” (MACHADO, 2003, p. 181) daqueles sujeitos. Quando não abordados de forma crítica, os discursos midiáticos sobre a migração e seus sujeitos acabam por se solidificar socialmente. Quando ficção e não ficção se mesclam na intenção de se representar o real (FREIRE; SOARES, 2013), esse endurecimento faz com que esses discursos se tornem, muitas vezes, verdadeiros entraves para o reconhecimento e legitimação das diferenças culturais. São percalços como esses que terão influência direta no processo de integração dos imigrantes na comunidade de destino, o que se revolve em um processo custoso em nível mental e emocional. Estudar as representações sociais por meio do discurso Para entendermos de que forma a nova vaga migratória de brasileiros em direção a Portugal está a ser representada na mídia brasileira, analisamos a primeira temporada da série jornalística televisiva “Portugal pelos Brasileiros”.4 Essa temporada possui cinco episódios de, aproximadamente, dez minutos cada, onde um brasileiro ou brasileira que migrou 4 A série foi realizada pela produtora Plano Geral Filmes e tem direção de Rodrigo Ponichi. Foi veiculada como projeto especial dentro do programa Como Será? nos dias 6, 13, 20 e 27 de janeiro e 3 de fevereiro de 2018. O programa é exibido aos sábados na Rede Globo de Televisão em horário matutino e reprisado na manhã do dia seguinte no canal Globo News e à tarde no Canal Futura.
ARTIGO comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 49, p. 469-488, set./dez. 2020 patricia posch | rosa cabecinhas 475 recentemente para Portugal relata a sua experiência em primeira pessoa. Os títulos dos episódios são: História do Eduardo; Como morar e dar aulas em Portugal; Como comprar um imóvel em Portugal e obter um visto de residente; Como validar o diploma em Portugal; e Virar empresário em Portugal pode ser caminho para conseguir visto. Os relatos são complementados por uma locução e a exibição de informações e dicas para os brasileiros que tenham a intenção de emigrar para Portugal. Partindo-se da conclusão de que as relações de poder social são discursivas (MACHIN; MAYR, 2012), e sendo os discursos uma forma de ação social e política (FAIRCLOUGH, 1995; VAN DIJK, 2018), analisamos as representações sociais segundo a perspectiva da Análise Crítica do Discurso. Essa abordagem é orientada de forma a esclarecer como o discurso posiciona os sujeitos na sociedade, a quem interessa que tal seja feito desta forma e, ao servir estes interesses, que outros interesses são negligenciados (JANKS, 1997). Sendo um dos seus principais diferenciais a preocupação em problematizar relações de poder desiguais, em uma clara posição de solidariedade aos grupos sociais dominados social e culturalmente (VAN DIJK, 2018), a referida perspectiva relevou-se adequada para o estudo em questão. Discursos midiáticos sobre os imigrantes brasileiros em Portugal em uma perspectiva histórica Uma das dimensões imprescindíveis para o estudo da imigração brasileira em Portugal é a de compreender como o discurso vigente sobre o fenômeno foi sendo construído ao longo do tempo. Para Fairclough (1995), essa apreciação permite que se tenha uma visão panorâmica do universo de possibilidades no qual os discursos se inscrevem. Nossa análise esteve focada na linearidade do discurso sobre o imigrante brasileiro em Portugal e os seus eventuais pontos de ruptura, seguindo uma perspectiva histórico-diacrônica (CARVALHO, 2015). Essa apreciação temporal permitiu tecermos conexões entre o discurso midiático em voga e aqueles de outros momentos históricos.
ARTIGO 476 retratos sobre a migração na série televisiva brasileira comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 50, p. 469-488, set./dez. 2020 As realidades econômicas distintas entre os dois países podem ser apontadas como a principal justificativa para que, a partir de meados da década de 1980, tivesse início a primeira vaga migratória de brasileiros para Portugal. Em um primeiro momento, este movimento teve o perfil de contracorrente, pois são os emigrantes portugueses que outrora se estabeleceram no Brasil que agora retornavam à sua pátria com a sua família. Quando já se declarava aquela como uma “década perdida” (FAUSTO, 1995, p. 546) no Brasil, o crescimento econômico português e as perspectivas de modernização do país devido à sua entrada na Comunidade Econômica Europeia (CEE) fizeram com que o projeto migratório começasse a ser considerado também em outras parcelas da população brasileira. Sendo assim, para além dos exilados políticos brasileiros, observa-se ainda o deslocamento de pessoas altamente qualificadas para Portugal. Naquele país, a chegada deste primeiro grupo de imigrantes era relatada em tom preconceituoso e pessimista, em consequência do estereótipo do brasileiro “malandro e espertalhão” (IORIO; SOUZA, 2018, p. 319) que vigorava na época, herança das representações sociais sobre os homens presentes nas telenovelas brasileiras que eram exibidas em Portugal até então (MACHADO, 2003). Enquanto isso, no Brasil, as pautas focavam-se em ressignificar Portugal como um país moderno e com perspectivas econômicas promissoras. Foi apenas em um segundo momento, quando o primeiro fluxo migratório se tornou mais consistente, que os imigrantes brasileiros em Portugal começaram a ser representados nas notícias. Encontramos aqui as primeiras tentativas de caracterizar o fenômeno a partir da descrição de quem eram estes brasileiros que se “arriscavam” a melhorar sua qualidade de vida em terras longínquas. Data de 1988 a primeira reportagem sobre o fluxo migratório e que destaca o perfil do emigrante, cuja característica que se sobressai é a profissão, denotando-se assim também o nível de qualificação destas pessoas (PINHO, 2007). São médicos, dentistas e engenheiros, mas também os empresários, esses últimos referenciados como testemunho da viabilidade econômica do projeto migratório (PINHO, 2007). São
ARTIGO comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 49, p. 469-488, set./dez. 2020 patricia posch | rosa cabecinhas 477 também mencionados os jogadores de futebol, publicitários, arquitetos, artistas e engenheiros, caracterizando-se a imigração do tipo profissional (PINHO, 2007) e de gênero masculino. A primeira vaga migratória se estendeu até meados da década de 1990. Com a entrada de Portugal no Espaço Schengen,5 as melhorias da infraestrutura pública e a transição daquele país para uma economia calcada no setor de serviços, a emigração para Portugal passa a ser considerada por muitos brasileiros como uma oportunidade de melhores oportunidades de trabalho. Tem início então a segunda vaga migratória, que se distinguiu da primeira por sua densidade e o perfil do migrante. Os brasileiros que começaram a chegar a Portugal possuíam grau de escolaridade mais baixo e estavam mais orientados para posições menos qualificadas no mercado de trabalho (PADILLA et al., 2015). Outro aspecto singular da segunda vaga é o fato dela ser marcada pela feminização do movimento migratório, o que seguia a tendência de outros fluxos migratórios em nível mundial (PADILLA et al., 2015). Acompanhando estas mudanças estão as transformações nos discursos na mídia brasileira. Talvez pela primeira vez é assinalada a existência de imigrantes brasileiros “ilegais” em Portugal, condição que só é atenuada quando aparece associada aos profissionais mais qualificados (PINHO, 2007). Também se observa o fato de que, assim como na primeira vaga, percebemos diferenças substanciais na forma de representar o fenômeno. Do lado do Brasil, a mídia impressa negligenciava as mudanças essenciais que diferenciavam o perfil do migrante da primeira vaga e da segunda, sobretudo no que se refere ao reconhecimento e à representação das mulheres, das pessoas de classes econômicas menos favorecidas e ao caráter “multirracial” da segunda vaga (ASSIS, 2017). Já em Portugal, essas mudanças, embora reconhecidas e legitimadas, acabam por surgir em discursos pessimistas, a exemplo da associação dos 5 O Espaço Schengen compreende o território geográfico de 26 países que aderiram ao Acordo Schengen. Criado em 1985, este tratado estabelece o fim do controle de fronteiras entre os países signatários, de modo a permitir a livre circulação de pessoas no interior da União Europeia e, simultaneamente, um reforço do controle e vigilância das fronteiras exteriores (CARVALHAIS, 2008).
ARTIGO 484 retratos sobre a migração na série televisiva brasileira comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 50, p. 469-488, set./dez. 2020 brasileiros entrevistados na série interagem com cônjuges, familiares ou parceiros de trabalho. Essa ausência da presença que, em muitos casos, nos diz muito mais que as presenças representa uma segregação bem marcada entre categorias sociais e que, a nosso ver, merece toda a atenção em estudos posteriores. Conclusões A migração de brasileiros para Portugal na contemporaneidade indica estarmos diante de um novo fluxo migratório que tem se intensificado nos últimos anos, constituindo-se como uma terceira vaga migratória. Sendo o discurso midiático uma potente ferramenta de representação do mundo em que vivemos, propomo-nos a entender de que forma as representações sociais presentes na série televisiva “Portugal pelos Brasileiros” significam e moldam a percepção do fenômeno em questão. Ao revisitarmos os discursos que foram tecidos sobre os imigrantes brasileiros de vagas migratórias anteriores, percebemos que eles flutuam de acordo com uma série de variáveis. As representações sociais sobre os imigrantes da primeira vaga migratória estão ligadas a um movimento midiático de enaltecimento de Portugal como um país economicamente em ascensão, sendo a migração retratada como um movimento de pessoas altamente qualificadas e com um certo laço cultural com o país de destino. Já na segunda vaga, é o baixo grau de qualificação e a densidade do fluxo que ganham destaque, juntamente com uma visão pejorativa da feminização do movimento. É comum a ambas as vagas as representações sociais sustentadas por recortes de gênero, raça e classe social bem definidos, o que ajudou a cristalizar as dimensões estruturantes dos estereótipos dos brasileiros no imaginário português. Em nossa análise da série televisiva em questão, identificamos diversos aspectos que se relacionam diretamente a um movimento corrente de ressignificação destas representações sociais na mídia brasileira, bem como as implicações sociais desse processo. A este Portugal que agora aparece caracterizado por sua componente cultural muito mais do que por sua situação econômica, vemos reforçada a ideia de um fluxo
ARTIGO comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 49, p. 469-488, set./dez. 2020 patricia posch | rosa cabecinhas 485 migratório restrito à região de Lisboa e cidades nos arredores com um reconhecido estatuto social elevado, contrariando dados estatísticos que mostram um movimento muito mais pulverizado no qual a região Norte é proeminente. No que tange à caracterização do imigrante, observamos a replicação de categorias sociais convencionalizadas, como o gênero, a raça e a classe social que, contudo, vão sendo retrabalhadas discursivamente. Os novos imigrantes brasileiros são retratados como brancos e pertencentes a classes econômicas mais elevadas, o que denuncia as ainda persistentes posições de desigualdade dos negros na matriz cultural brasileira. Já as mulheres são representadas em posição de maior protagonismo, o que poderá ser um indício para entender o reposicionamento da imigrante brasileira na estrutura social portuguesa. Neste processo, a autonomia das mulheres brasileiras enquanto migrantes e a sua inserção em posições qualificadas no mercado de trabalho são algumas das diferenças observáveis no nível discursivo. Por outro lado, a não menção às relações sociais entre os imigrantes dessa nova vaga e os de vagas migratórias anteriores revelou-se ser uma estratégia discursiva para a criação, por meio das representações sociais, de uma nova categoria social de imigrantes brasileiros em Portugal. Esse cenário permite tanto distingui-los dos estereótipos associados aos imigrantes brasileiros das vagas anteriores, o que terá impacto direto na negociação de sua identidade social e integração na sociedade portuguesa, quanto promover o projeto migratório de brasileiros com o perfil semelhante e que ainda se encontrem no Brasil. Essas observações permitem concluir que, na série televisiva em questão, os novos imigrantes brasileiros em Portugal estão a ser retratados de maneira parcial e excludente, desconsiderando-se a pluralidade condizente à natureza deste fenômeno. O discurso midiático utilizado para o efeito encontra-se ancorado em traços culturais e socioeconômicos específicos, reforçando uma representação social do fenômeno congruente a este perfil, resguardando estes sujeitos daqueles que migraram nas vagas migratórias precedentes, ao mesmo tempo que os posiciona de forma ressignificada na estrutura social portuguesa.
ARTIGO 486 retratos sobre a migração na série televisiva brasileira comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 50, p. 469-488, set./dez. 2020 Referências ASSIS, G. DE O. Trânsitos contemporâneos: o ir e vir de emigrantes brasileiros(as) rumo à Europa. Terceiro Milênio: Revista Crítica de Sociologia e Política, v. 8, n. 1, p. 210-229, jan.-jun. 2017. Disponível em: http://www.revistaterceiromilenio.uenf.br/ index.php/rtm/article/download/10/11/. Acesso em: 14 jan. 2020. BAUDRILLARD, J. Simulacros e Simulação. Lisboa: Relógio d’Água, 1991. BOURDIEU, P. Sobre a Televisão. Tradução de Miguel Serras Pereira. 1. ed. Oeiras: Celta Editora, 1997. CARVALHAIS, I. E. Imigração e interculturalidade na União Europeia. Sombra e luz de uma relação complexa. In: CABECINHAS, R.; CUNHA, L. (Ed.). Comunicação intercultural: Perspectivas, dilemas e desafios. Porto: Campo das Letras, 2008. p. 21-36. CARVALHO, A. Discurso mediático e sociedade: repensar a Análise Crítica do Discurso. EID&A Revista Eletrônica de Estudos Integrados em Discurso e Argumentação, n. 9, p. 175-199, jul.-dez. 2015. Disponível em: http://periodicos.uesc.br/index.php/eidea/ article/view/843. Acesso em: 16 out. 2019. CRESPI, F. Manual de Sociologia da Cultura. Tradução de Teresa Antunes Cardoso. 1. ed. Lisboa: Editorial Estampa, 1997. FAIRCLOUGH, N. Media Discourse. Londres: Hodder Headline Group, 1995. FAUSTO, B. História do Brasil. São Paulo: EdUSP, 1995. FISKE, J.; HARTLEY, J. Reading Television. Londres: Routledge, 2003. FOUCAULT, M. A Arqueologia do Saber. Tradução de Luiz Felipe Baeta Neves. 7. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008. FRANÇA, T.; PADILLA, B. Imigração Brasileira para Portugal: entre o surgimento e a construção mediática de uma nova vaga. Cadernos de Estudos Sociais, v. 33, n. 2, p. 207-237, 2018. FREIRE, M.; SOARES, R. História e narrativas audiovisuais: de fato e de ficção. Comunicação, Mídia e Consumo, v. 10, n. 28, p. 71-86, 2013. GIACOMANTONIO, M. Os Meios Audiovisuais. Lisboa: Edições 70, 1981. HEGDE, R. S. Mediating Migration. Cambridge: Polity Press, 2016. IBGE. Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil. Rio de Janeiro, 2019. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101681_informativo.pdf. Acesso em: 1 jan. 2020. IORIO, J. C.; SOUZA, E. J. A construção midiática do “Eldorado” lusitano a partir dos novos fluxos migratórios de brasileiros para Portugal. Revista de Ciências Sociais, v. 8, n. 1, p. 312-340, 2018. JANKS, H. Critical Discourse Analysis as a Research Tool. Discourse: Studies in the Cultural Politics of Education, v. 18, n. 3, p. 329-342, 1997. KING, R.; WOOD, N. Media and migration: an overview. In: KING, R.; WOOD, N. (Ed.). Media and Migration: constructions of mobility and difference. Londres: Routledge, 2002. p. 1-22. LOPES, M. SEF suspendeu marcações para imigrantes e não sabe quando as retoma. Público, 16 ago. 2019. Disponível em: https://www.publico.pt/2019/08/16/sociedade/
ARTIGO comun. mídia consumo são paulo, v. 17, n. 49, p. 469-488, set./dez. 2020 patricia posch | rosa cabecinhas 487 noticia/sef-suspendeu-marcacoes-imigrantes-nao-sabe-reabre-1883492. Acesso em: 12 jan. 2020. MACHADO, I. J. DE R. Cárcere Público: Processos de exotização entre brasileiros no Porto. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 2003. MACHIN, D.; MAYR, A. How to do Critical Discourse Analysis: a multimodal introduction. Londres: SAGE Publications, 2012. MARTINS, M. DE L. Prefácio. In: CUNHA, L. (Ed.). A nação nas malhas da sua identidade: o Estado Novo e a construção da identidade nacional. Porto: Edições Afrontamento, 2001. p. 10-14. MOSCOVICI, S. O fenômeno das representações sociais. In: DUVEEN, G. (Ed.). Representações sociais: investigações em psicologia social. Tradução de Pedrinho A. Guareschi. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 2009. p. 29-109. OLIVEIRA, E. N. et al. Brazilian women living in Portugal: work and quality of life. Saúde e Sociedade, v. 28, n. 1, p. 182-192, 2019. PADILLA, B. et al. A imigração brasileira em Portugal: Investigação, tendências e perfis. In: GÓIS, P. et al. (Ed.). Vagas Atlânticas: Migrações entre Brasil e Portugal no Início do Século XXI. 1. ed. Lisboa: Editora Mundos Sociais, 2015. p. 9-38. PAZ, A. S. DA; LEÃO, A. L. M. D. S. Práticas Discursivas de uma Publicação de Moda Feminina de Classe Popular: Uma Análise Crítica do Discurso de Informação de Moda. Comunicação, Mídia e Consumo, v. 9, n. 25, p. 221-251, 2012. PESSAR, P. R. The role of Gender, Households, and Social Networks in the Migration Process: A Review and Appraisal. In: HIRSCHMAN, C.; KASINITZ, P.; DEWIND, J. (Ed.). The Handbook of International Migration: The American Experience. Nova Iorque: Russell Sage Foundation, 1999. p. 51-70. PINHO, F. A imprensa na construção do processo migratório: a constituição de Portugal como destino plausível da emigração brasileira. In: MALHEIROS, J. M. (Ed.). Imigração brasileira em Portugal. Lisboa: Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural, I.P., 2007. p. 59-86. RIBEIRO, M. J. et al. Relatório de Imigração, Fronteiras e Asilo 2018. Oeiras: Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, 2019. SAYAD, A. A Imigração ou os Paradoxos da Alteridade. Tradução de Cristina Murachco. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1998. TAJFEL, H. Cognitive Aspects of Prejudice. Journal of Social Issues, v. XXV, n. 4, p. 79-97, 1969. TEIXEIRA, A. F.; DIAS, S. F. Labor market integration, immigration experience, and psychological distress in a multi-ethnic sample of immigrants residing in Portugal. Ethnicity & Health, v. 23, n. 1, p. 81-96, 2019. VALA, J.; CASTRO, P. Pensamento Social e Representações Sociais. In: VALA, J.; MONTEIRO, M. B. (Org.). Psicologia Social. 10. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2017. p. 569-600.
ARTIGO 488 retratos sobre a migração na série televisiva brasileira comun. mídia consumo, são paulo, v. 17, n. 50, p. 469-488, set./dez. 2020 VAN DIJK, T. A. Discourse and Migration. In: ZAPATA-BARRERO, R.; YALAZ, E. (Ed.). Qualitative Research in European Migration Studies. Cham: Springer International Publishing, 2018. p. 227-245. Sobre as autoras Patricia Posch – Doutoranda em Estudos Culturais na Universidade do Minho. No presente artigo, a autora participou da concepção do desenho da pesquisa, do desenvolvimento da discussão teórica, da coleta e interpretação dos dados, da redação do manuscrito e da revisão do texto. Rosa Cabecinhas – Professora no Departamento de Ciências da Comunicação, Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho e investigadora do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade. Atualmente é diretora do Programa Doutoral em Estudos Culturais na mesma universidade. No presente artigo, a autora participou da concepção do desenho da pesquisa, do desenvolvimento da discussão teórica, da interpretação dos dados e da revisão do texto. Data de submissão: 19/02/2020 Data de aceite: 10/07/2020