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Outubro 2023 Pedro Miguel Gonçalves Fernandes Corpo e sociedade: prática contemporânea da tatuagem numa pequena cidade portuguesa (Fafe, 2023) Corpo e sociedade: prática contemporânea da tatuagem numa pequena cidade portuguesa (Fafe, 2023) Pedro Fernandes Uminho| 2023
Outubro 2023 Pedro Miguel Gonçalves Fernandes Corpo e sociedade: prática contemporânea da tatuagem numa pequena cidade portuguesa (Fafe, 2023) Dissertação de Mestrado em Sociologia Políticas Sociais Trabalho efetuado sob a orientação do Professor Doutor Jean Yves Dominique Durand
3 Direitos de autor e condições de utilização do trabalho por terceiros Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do Repositório da Universidade do Minho . Direitos de autor e condições de utilização do trabalho por terceiros. Licença concedido aos utilizadores deste trabalho Atribuição CC BY https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/
4 Agradecimentos: Antes de prosseguir com a tese de Dissertação de Mestrado gostaria de agradecer a algumas pessoas que tornaram este caminho possível e me apoiaram em todos os momentos. Primeiramente, aos meus pais que tornaram possível este percurso académico e sempre lutaram para que eu pudesse atingir os meus sonhos. A alguns amigos que estiveram sempre presentes, me aturam, aconselham e servem de inspiração. Um agradecimento especial ao Professor Doutor Jean Yves Dominique Durand, por ter possibilitado a concretização deste tema. Pela disponibilidade, paciência, dedicação, empatia e motivação até ao momento da conclusão. A todos os entrevistados que possibilitaram um pouco do seu tempo, para me ajudarem a concluir este projeto. Por último, agradecer à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade da Beira interior, na Covilhã, onde concretizei a Licenciatura e à Faculdade e ao Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho, em Braga, onde termino o mestrado, e aos docentes das mesmas.
5 DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho.
6 Corpo e sociedade: prática contemporânea da tatuagem numa pequena cidade portuguesa (Fafe, 2023) Resumo Nas últimas décadas temos verificado um maior investimento das pessoas no seu corpo. Exemplo disso são as tatuagens que têm sido alvo de uma maior visibilidade social, nomeadamente na sociedade portuguesa. Este gosto cultivado pela tatuagem em largas extensões no corpo é merecedor de uma maior atenção e interesse analítico por parte da sociologia. Esta tese tem como objetivo genérico identificar os diferentes usos da marcação intensiva do corpo, dar a conhecer a multiplicidade dos seus sentidos e abordar os seus potenciais efeitos sociais. Recorrendo à metodologia qualitativa, com entrevistas semiestruturadas, através do processo de amostragem de bola de neve. a investigação foi realizada em 2022-23 em Fafe, uma cidade mais pequena do que as localidades retratadas por estudos anteriores. Tratou-se de traçar o perfil dos profissionais da tatuagem e dos seus clientes e de tentar verificar se, neste contexto sociocultural provinciano, as práticas de marcação corporais apresentam características específicas e significados diferentes dos que foram identificados pelos estudos dedicados ao tema em Portugal há uns 20 anos, numa fase inicial da banalização da tatuagem. Apesar desta distância temporal, a diferença mais vincada parece apontar somente para a idade cada vez mais baixa em que os jovens ganham autonomia para decidir fazer a sua primeira tatuagem. Palavras-chave: Fafe, Tatuagem, Sociedade, Corpo, Contemporaneidade
7 Body and society: the contemporary practice of tattooing in a small portuguese town (Fafe, 2023) Abstract: Over the last few decades, we've seen more people investing in their bodies. An example of this is tattoos, which have been given greater social visibility, particularly in portuguese society. This taste for tattooing large areas of the body deserves greater attention and analytical interest from sociology. The general aim of this thesis is to identify the different uses of intensive body marking, to make known the multiplicity of its meanings and to address its potential social effects. Using qualitative methodology, with semi-structured interviews, through the snowball sampling process, the research was carried out in 2022-23 in Fafe, a smaller city than the localities portrayed by previous studies. The aim was to draw up a profile of tattoo professionals and their clients and to try to ascertain whether, in this provincial socio-cultural context, body marking practices have specific characteristics and meanings that are different from those identified by studies on the subject in Portugal some 20 years ago, at an early stage of tattoo trivialization. Despite this distance in time, the most marked difference seems to be the increasingly younger age at which young people gain the autonomy to decide to get their first tattoo. Keywords: Fafe,Tattoo, Society, Body, Contemporaneity
8 Índice Agradecimentos: ...................................................................................................................................... 4 Resumo .................................................................................................................................................... 6 Abstract: .................................................................................................................................................. 7 ICorpo e Sociedade ............................................................................................................................. 11 1-Introdução .......................................................................................................................................... 11 1.1 História do corpo / Corpo na sociedade Contemporânea: Arquétipo corporais .......................... 12 1.2 Poderes colonizadores do corpo .................................................................................................. 19 2. Resgate sociológico do corpo ............................................................................................................ 29 2.1 Interesse sociológico do corpo .................................................................................................... 29 2.2 Da incorporação à excorporação: o resgate do poder sobre o corpo ........................................... 35 2.3. O resgate da carnalidade pela Sociologia: .................................................................................. 43 3. O corpo jovem e o jovem no seu corpo ............................................................................................. 48 3.1Idadismo e o valor social de um “corpo jovem” ........................................................................ 48 3.2 Valores, sentidos e vivências da cultura juvenil .......................................................................... 55 3.3 Comportamentos “radicais” entre jovens .................................................................................... 62 II-Tatuagem e Sociedade ....................................................................................................................... 69 1História da tatuagem ......................................................................................................................... 69 2. Regulamentos e legislação Portugal-EU: Uma comparação ............................................................. 79 2.1 Legislação e burocracias face aos estabelecimentos de modificações corporais ......................... 79 2.2 Legislação nos países da UE ....................................................................................................... 87 3. Perfil socio-demográfico das atitudes face às tatuagens: Uma comparação ..................................... 90 3.1 Evolução das tatuagens................................................................................................................ 90 3.2 Atitudes perante as marcações corporais e perfis da clientela ..................................................... 97 3.3 Localização das marcas corporais ............................................................................................. 103 4. Da primeira marca ao “vício”: A criação de um projeto corporal ................................................... 107 4.1 Iniciação das marcas corporais .................................................................................................. 107 4.2 Vivências de tatuar o corpo ....................................................................................................... 110 4.3 O início de um projeto de marcação corporal ............................................................................ 117 5. A manifestação de uma estética que celebra a diferença ................................................................. 121 5.1 O interesse pelas marcas corporais ............................................................................................ 121 5.2 Motivações e valores por de trás dos projetos corporais ........................................................... 124 5.3 Identidade pessoal e relação com o corpo ................................................................................. 129 6. Marcas corporais e a expressão de uma identidade ......................................................................... 134
9 6.1-Marcação corporal enquanto rito de passagem ......................................................................... 134 6.2 Narrativas mitológicas pessoais ................................................................................................ 140 7. “Eu” vs “os outros”: o (re)conhecimento social .............................................................................. 145 7.1Perceções e reações ao/do outro ............................................................................................... 145 7.2 Reações de amigos e familiares ................................................................................................. 148 Conclusão: ........................................................................................................................................... 154 Bibliografia: ........................................................................................................................................ 159 Termos de consentimento informados................................................................................................. 171 Guião de entrevista .............................................................................................................................. 172
16 corporais. Agora ele é “exemplo de um objecto de outro tipo: um objecto que é também sujeito.” (Almeida, 2004: 30). Damos assim conta de um grande investimento no corpo que não encontra precedentes, (Ferreira, 2006) uma enorme diversidade de práticas a que o indivíduo se dispõe, seja pela produção ou predisposição para o consumo, nomeadamente cuidados de beleza, vitalidade, saúde, higiene, etc. A atual crescente devoção pelo corpo deve-se, por um lado, ao enfraquecimento das narrativas religiosas e ao enfraquecimento dos valores que transmitem, como as de orientação hegemónica cristã. Por outro lado, vai igualmente sendo reforçada pela propagação de ideais individualistas: realização pessoal, direitos privados, individualidade e autenticidade, hedonismo. Curiosamente presenciamos um acontecimento algo paradoxal. A carne que se vê secularizada (se liberta das narrativas cristãs que viam o corpo como um objeto menor de constante disciplina e penalização como meio necessário para a busca de algo melhor pósvida) é ao mesmo tempo sacralizadanão na medida em que o corpo serve de sacrifício para atingir o divino, místico e eterno, mas sim, através de uma realidade mais mundana do cuido do corpo (do eu). Sendo o corpo considerado a instância de salvação do homem contemporâneo, torna-se necessário o seu cuido. Assim, e com o imperativo de se sentir bem no seu corpo, há que investir e explorá-lo de modo que o indivíduo se conheça melhor. Os discursos que foram surgindo ao longo dos tempos sobre o corpo e que engarrafam o espaço público funcionam como mandamentos para o sujeito, estabelecendo normas corporais. Os media contribuem para isso, pois apresentam corpos esteticamente inacessíveis para grande parte da população, mediados pelos interesses da indústria de consumo. Imperativos como evitar sal, doces, gorduras, praticar exercício, não beber álcool, não fumar, etc., predominam e se até então o corpo era uma reflexão da alma, agora passa a ocupar o seu lugar (Ferreira, 2006). Se por um lado o corpo é objeto de idealização, por outro é alvo de estigmatização se não corresponder aos padrões sociais que são expressos pela publicidade. Os “…modelos corporais são evidenciados como indicativo de beleza, num jogo de sedução e imagens” (Barbosa et al., 2011: 29), imagens estas que refletem uma tão desejada “boa forma”, “boa aparência”, “bem-estar físico e psicológico”, “etiqueta e saber estar”. Tais designações que pressupõem uma relação do individuo com o seu corpo e onde a preocupação
17 central é a construção de corpos que estejam em conformidade com as normas socialmente construídas daquilo que é ser “belo”, “saudável”, “equilibrado”, “educado”. Paradoxalmente, “o valor social do corpo tem aumentado na exacta medida da sua subutilização” (Ferreira, 2006: 24), devido a estilos de vida mais sedentários causados pelos desenvolvimentos de dispositivos tecnológicos, máquinas, instrumentos, que de uma forma ou de outra acabaram por redimensionar as nossas capacidades morfológicas, fisiológicas, sensórias e cognitivas. São imensos os recursos tecnológicos que na atualidade, resultam na redução da atuação do corpo e que também modificam a forma como o sujeito se vê a si e se relaciona com o mundo, desde próteses facilitadoras, carros, escadas elevatórias, extensivas como telemóvel, computador portátil, controlo remoto, skates, etc., substitutas das suas funções tais como robots, implantes auditivos, pacemakers e tecnologias que de alguma forma o excluem, tornando-o praticamente inexistente, um “vestígio” como é o caso da fertilização in vitro, clonagem e outras manipulações genéticas procurando agir sobre o peso, a cor dos olhos da criança esperada etc. Nos dias de hoje, tanto as “novas” técnicas como as “novas” tecnologias têm vindo a intervir naquilo que se considerava intocávelo património biológico. Se até então o corpo estava preso à sua herança familiar (código genético), com o desenvolvimento de todas estas técnicas o “corpo original” (ou corpo real) tem vindo a sofrer alterações, incorporando componentes que a este são alheios, potenciando o seu desempenho para as mais várias finalidades. O crescimento das indústrias de design e de revitalização corporal, transformação do corpo e manipulação genética, a medicina, informática, engenharia genética, invadem cada vez mais o nosso quotidiano e das mais variadas formas. Assistimos “a um corpo construído numa espécie de simulação, uma aparência sem realidade” (Barbosa et al., 2011: 30), uma experiência semelhante à dos videojogos, onde “customizamos” personagens e lhes colocamos aquilo que bem entendemos, seja a cor dos olhos, o tipo de cabelo, maquilhagem, tatuagens, etc., sendo que neste paradigma o nosso corpo é o local dessas transformações. Técnicas como a cirurgia plástica, tratamentos de beleza, ajudam os indivíduos a esconder determinados traços e realçar outros. Assim, tal como num vídeo jogo, podemos mudar a nossa aparência quando quisermos, e assim é desejável, dado que o conceito de beleza assenta na ideia de criação e constante inovação. As práticas sociais redefinem-se sob o circuito de impulsos eletrónicos possibilitando a formação de redes de interações, redes estas que se expandem e abrem inúmeras
18 possibilidades a todos nelas inseridos. Contudo, fruto desta constante necessidade de inovação, as tecnologias que possibilitam as modificações corporais acabam por se tornar uma adição, dado que o “sentimento de insuficiência que esse conjunto de técnicas e tecnologias promove sobre o corpo, culmina na vontade de ultrapassar os seus limites” (Ferreira, 2006: 35). Ao mesmo tempo que se quebram barreiras vão se encontrando novas, tornando esta busca incessante pela inovação um ciclo vicioso. Posto isto, damos conta que existe todo um discurso técnico e científico que vê o corpo como precário e imperfeito. Alguns adeptos das ciberculturas acreditam, inclusive, que o corpo é frágil, lento, limitado e por isso não está à altura da era da informação. O objetivo para estes amantes das novas tecnologias não é unicamente a “cyborgisação” do corpo, atualmente em curso, ou a antropormofização do corpo como é o caso dos eventos Robotcup “mas a própria desincorporação da vida humana, tentando a sobrevivência e ligação desta com o mundo sob a forma de espécie de espectro informacional, em ruptura com os limites existências do indivíduo, o nascimento e a morte…” (Ferreira, 2006: 35) O corpo ocidental está em metamorfose, não se trata mais de aceitá-lo como ele vem ao mundo, mas de corrigi-lo e reconstruí-lo: “o individuo procura no seu corpo uma verdade sobre si mesmo, que a sociedade não lhe consegue proporcionar” (Barbosa et al., 2011: 31). À medida que mergulhamos num mundo cada vez mais virtual assistimos à apropriação homem-máquina. Objetos como um computador, um tablet, um telemóvel não são apenas um instrumento que ajuda no estudo e na análise dos corpos, eles são ao mesmo tempo um produtor de biomateriais, processos e experiências humanas impossíveis até então, como é o caso dos cyborgs (corpo-máquina), organismos cujas funções fisiológicas são realizadas com a ajuda de máquinas, dos aparelhos de marcar passos, aparelhos de respiração, etc. Segundo Le Breton (2003: 129-130) citado por Oliveira (2006: 181) “A imperfeição do corpo conduz a humanidade clássica ao desuso. Exibe-se a vontade de um domínio de sua constituição genética a fim de remodelar sua forma e seus desempenhos. Um corpo, cada vez mais em desuso devido aos avanços tecnológicos, um corpo obsoleto (Ferreira, 2006). Resumindo, a modernidade ocidental que pratica o culto intensivo do corpo é aquela que “trabalha na mesma medida para o seu degredo” (Ferreira, 2006: 36). Segundo o mesmo, o lugar do corpo na sociedade contemporânea vê-se atravessado por uma forte tensão, que decorre por um lado devido a um movimento de ampla descorporização do social, ou de certas regiões sociais que suscitam desconfiança e desagrado pelo corpo, argumentando que
19 este é frágil, limitado e está condenado à fatalidade do seu envelhecimento. Esta constatação pode ser observada através da multiplicidade de produções que pretendem levar o corpo à sua inutilização e na procura de tecnologias que possam corrigir e superar estas imperfeições, de forma a tornar o corpo desnecessário, um fragmento (resíduo) ou até mesmo levar ao seu apagamento. Paralelamente, por outro lado, damos conta de um movimento de culto do corpo como finalidade em si, na sua aparência, movimento e sensorialidade, traduzida pela enorme preocupação de superação das suas fragilidades, dos limites morfológicos e fisiológicos, traduzido num forte crescimento quer da produção, quer do consumo de bens e serviços relacionados com o corpo, quer ainda, em termos fenomenológicos, das preocupações e cuidados especiais com o prazer, o bem-estar, o bem-parecer, a vitalidade e a tentativa de busca da juventude eterna. A individualização do corpo repousa ainda sobre uma dinâmica coletiva de maior consciencialização e responsabilização de cada indivíduo sobre o seu próprio corpo, estruturando uma nova economia psíquica que tende ao controlo íntimo das emoções, das maneiras e das aparências (Ferreira, 2006). 1.2 Poderes colonizadores do corpo Segundo Anthony Giddens (1991) o corpo tem sido compreendido pelo processo a que o sociólogo chama de socialização da natureza. Esta expressão alude para o facto de determinados fenómenos (como o caso de velhice) tidos como dados da natureza serem socialmente colonizados e utilizados pelas instituições de poder e contrapoder. Segundo o sociólogo “Mesmo aqueles que favorecem a sociologia interpretativa ao invés da sociologia naturalista vêem normalmente a ciência social como a prima pobre das ciências naturais, particularmente dado o peso do desenvolvimento tecnológico como resultado de descobertas científicas” (Giddens, 1991: 41). Estes estudos que rondam o século XVIII debruçavam-se sobre a aparente condição “natural” e tornavam estes fenómenos objetos de discussão, decisão, intervenção humana, sendo sujeitos a constantes revisões. Por conseguinte, desde a época do Iluminismo, o corpo é colonizado pela ciência, medicina e também pela lógica capitalista de produção.
20 Com a ascensão da sociedade burguesa liberta do poder feudal, o corpo começou a desempenhar atividades produtivas capitalistas passando a ser tratado como mercadoria, propriedade pessoal, privada e de valor de troca cinético (Ferreira, 2006), pois o sujeito moderno é sobretudo “um ser humano móvel” (Toucherman, 1999: 61) capitalizado enquanto instrumento de produção e utilizado como ferramenta produtora de força de trabalho. Neste contexto, é de todo o interesse para a instituição que o emprega que este corpo seja vigiado e disciplinado de modo a ter máxima eficácia e ser o mais rentável possível. É no decorrer do século XVII que este modelo de corporeidade é imposto pela burguesia aos dominados, corpos móveis, disciplinados e alienados que trocam a sua força de trabalho por um salário. No seguimento, durante o século XIX, inicia-se uma vaga higienista que dá um novo lugar ao corpo e o vê valorizado nos hábitos de higiene, atividade física, alimentação e com o privilégio de ser tratado pelos avanços medicinais na luta contra doenças (Ferreira, 2006). Além dos demais, este movimento higienista era também relacionado a questões como a natalidade, fecundidade e velhice (sempre no sentido de preservação da vida). A par disto foram criadas práticas de limpeza nas cidades e novas leis de saúde pública (Toucherman, 1999). Inclusive nesta altura já vários regimes e exercícios eram recomendados e casos de obesidade eram condenados. O imperativo era possuir um “corpo limpo e saudável” (Toucherman: 1999: 63) e como tal, o corpo era sujeito a várias restrições, sendo constantemente vigiado e controlado por autoridades educativas, médicas e policiais. Em Portugal, na transição do século XVIII para o século XIX, segundo Jorge Crespo (1990), existiam um conjunto de operações e de valores de controlo político sobre as populações, instituídas através de seus corpos) Ferreira (2006: 39). Portugal pautava-se por um novo projeto nacional onde: O corpo assumia um lugar central enquanto instrumento fundamental na luta contra o desregramento social e o desperdício económico no sentido da “civilidade” e do “progresso”, submetendo-se a normas racionalizadas não só em termos de saúde e higiene, mas também a nível da expressão gestual e imagética, dominadas por uma ética orientada pelo rigor e sobriedade. (Ferreira, 2006: 39) O objetivo estratégico deste novo projeto passava pelo combate à inutilidade e à doença, reclamando comportamentos mais racionalizados de organização e gestão da doença menos
21 dominados pelas ideias de cariz religioso de redenção e punição divina. Além disso, tinham também como objetivo a contenção de gestos desnecessários, pois eram considerados “desperdícios de energia”. Desta forma surgiram políticas de controlo e repressão de excessos corporais que atuavam contra gestos, sensações ou aparências. Estes censuravam a violência, o espetáculo do corpo, gestos apaixonados, tosse, arroto, bocejo, etc., pois iam contra uma ética que valorizava o silencioso e o discreto. Podemos assim verificar que o valor do trabalho, a contenção do corpo, a sobriedade e a discriminação comandavam o quadro simbólico das mentalidades políticas no poder até finais do século XIX. É a partir de meados do século XX que importantes transformações sociais, culturais e económicas surgem nas sociedades ocidentais. Após a II Guerra Mundial, o sistema capitalista continua a colonizar e a valorizar socialmente o corpo humano, não unicamente por ser uma fonte geradora de força de trabalho, mas também como “corpo produzido” (Ferreira, 2006: 41) “… o mais precioso e resplandecente de todos os objetos” de consumo (Baudrillard, 1995: 136). Após vários séculos ditados pela punição divina o corpo tornou-se “objeto de salvação”, pois nesta nova lógica “temos só um corpo e é preciso salvá-lo” (Baudrillard, 1995: 136). Aos poucos, o trabalho braçal é substituído por máquinas mais docilmente controláveis que se adequam aos objetivos do sistema capitalista. Progressivamente, o corpo liberta-se dos constrangimentos físicos do dever laboral, passando a ocupar outras posições fabris: Nesta civilização de abundância industrial, de lazer e consumo, o corpo terá, doravante, nova tarefa: a de ser o suporte material e ideológico da produção. Não mais se queimando como carvão nos fornos das usinas, mas digerindo mercadorias, destruindo-as e aniquilando em escala industrial, para que novas levas produtivas tenham lugar. (Rocha & Rodrigues, 2013: 34) Damos conta de um “novo corpo” permanente “livre” que consome e é consumido, esteticizado, ginasticado, medicalizado, que é destinado ao lazer, ao prazer e à beleza. Um corpo belo e liso, sem calos nem cicatrizes, símbolo de saúde e juventude, de ser energético, atlético, estiloso, empenhado em si próprio, original e autêntico que procura preservar-se a todo o custo. Um corpo próprio de uma sociedade corporeísta, cuja cultura somática deixa de ser pautada pelos ideais higienistas e economicistas da cultura física. A atenção é virada para
22 o “eu corporal”, um lugar de descoberta, aventura, prazer, emoção e por palavras de Vitor Ferreira (2006): onde a mobilização das dimensões corporais é intensamente ostentada na vida quotidiana (em termos vocais, imagéticos, gestuais, sensuais), onde a expressão individual é valorizada, onde é procurado a efervescência do fusionismo, do prazer lúdico, a erotização do movimento, a estética do gesto. (Ferreira, 2006:42) Uma sociedade onde ser feliz passa cada vez mais a estar ligado à aparência, ao status e ao sentir-se bem o tempo todo (Dantas, 2011). Procura-se assim um culto do corpo que segue uma lógica onde “ser belo é aproximar-se de um ideal, sempre determinado de modo universal, distinto do que é cada corpo, enquanto este, por sua vez, é considerado um ente particular e local” (Sant’Anna, 2002: 108). Livre do puritanismo religioso e do ascetismo produtivo ao qual estava sujeito, o corpo vê-se reconciliado com as sensações físicas, com o prazer e até mesmo com a nudez. Sempre coberto por múltiplas malhas, poucas foram as oportunidades que o corpo teve de ser contemplado nu, até mesmo em situações de intimidade (Ferreira, 2006). O século XX viu um corpo a despir-se de roupas e de preconceitos, dando uma maior liberdade ao olhar alheio em locais públicos, como na rua, na praia, etc. Até que nos anos 60 o corpo começa a ser exibido na sua totalidade, devido ao relativo enfraquecimento dos tabus, dos constrangimentos e das normas que durante vários séculos “oprimiam as suas técnicas (movimento higienista no desporto e na saúde), as suas aparências (encobertas), e as suas sensações (sexualidade).” (Ferreira, 2006: 43). O desnudamento progressivo do corpo que se verificou no decorrer do século XX veio demonstrar e enfatizar a importância e atenção social que é dada à sua aparência externa, aos movimentos, posturas e sensações mais íntimas. Progressivamente, o corpo foi-se emancipando da sua suposta “condição natural”, sendo cada vez menos considerado um dado adquirido, objeto de culpabilização e de punição para passar a ser sujeito a atos de vontade (políticos, sociais, pessoais), socialmente (des)conformados com os modelos sociais e culturais vigentes: Alguma vez pensado como lugar da alma, e depois o centro de obscuras necessidades perversas, o corpo está agora plenamente disponível para ser "trabalhado" pelas
23 influências da alta modernidade. Como resultado desses processos, suas fronteiras se alteraram. É como se ele tivesse uma "camada externa" inteiramente permeável através da qual entram rotineiramente o projeto reflexivo do eu e os sistemas abstratos formados externamente. (Giddens, 2002: 201) Cada vez mais as pessoas se submetem a mecanismos que permitem o seu enhancement: A cirurgia estética ou plástica modifica as formas corporais ou o sexo, a ingestão de hormonas e de dietas hiper-proteicas fazem crescer a massa muscular, os regimes alimentares emagrecem a silhueta, os tatuadores e perfuradores dispensam signos identitários na pele, os psicotrópicos regulam o humor, isto é, a tonalidade afectiva da relação do indivíduo com mundo17, o sonho de agir directamente sobre a fórmula genética do sujeito par formatar a forma e até mesmo os comportamentos humanos está cada vez mais próximo de ser realizado. Artifício e natureza deixam de ser categorias opostas18. (Ferreira, 2006: 44) Com o objetivo de atingir um corpo idealizado o sujeito recorre a tecnologias de ponta, regimes alimentares e do cada vez mais frequente uso de fármacos. Até mesmo propriedades em larga medida relacionadas com o “natural”, como o “sexo”, “idade” ou “raça” são passíveis de serem socialmente manipuladas e reconfiguradas, através de processos de reconstrução de órgãos genitais, renovação/esticamento da epiderme, ou até pela reconfiguração da melanina. Segundo Le Breton, “o corpo já não é uma versão irredutível de si mas uma construção pessoal, um objeto transitório e manipulável susceptível de variadas metamorfoses segundo o desejo do indivíduo” (Le Breton, 2004:7) “Já não se trata de se contentar com um corpo que se tem, mas de modificar os seus fundamentos para o completar ou torná-lo conforme a ideia que se faz dele” (Le Breton, 2004: 8) Um corpo que é cada vez mais assumido como um suporte plástico extremamente maleável e instável que, além disso está constantemente sujeito a reconfigurações fruto das exigências sociais modais do momento. Por conseguinte, o corpo torna-se assim um território de atualização contínua, ele é inacabado e contingente e pode ser trabalhado por aqueles que possam aceder material e simbolicamente a estas possibilidades (Ferreira, 2006).
24 Estas novas possibilidades dão ao sujeito uma certa sensação de controlo total sobre o seu corpo, tanto a nível interior como exterior, desde a sua forma mais primitiva, o ADN, até ao momento da sua morte (cada vez mais adiada pelas tecnologias de ponta e fármacos), refutando assim os processos naturais que durante muito tempo o dominavam. Gradativamente, na modernidade mais recente o corpo tem sido colonizado pelo mercado. Este acolhe e distribui bens, serviços e tecnologias que fazem do corpo, ou de partes dele, a mercadoria predileta. Recursos são produzidos e consumidos com o objetivo de sua manutenção, modificação e/ou reprodução. Nesta perspetiva, enquanto o corpo perde o seu valor funcional de uso (força de trabalho) cresce simultaneamente o reconhecimento e o investimento social do seu valor de troca simbólica, enquanto recurso suscetível de ser capitalizado, não unicamente como força de produção, mas também como acessório de expressão e objeto de consumo (Ferreira, 2006). Como observa Lipovetsky: Sem a menor sombra de dúvida, a representação social do corpo sofreu uma mutação cuja profundidade pode ser posta em paralelo com o abalo democrático da representação do outro; o narcisismo resulta do advento desse novo imaginário social do corpo. Do mesmo modo que a apreensão da alteridade do outro desaparece em benefício do regime de identidade entre os seres, o corpo perde seu status de alteridade, de res extensa, de materialidade muda, em proveito da sua identificação com o ser-indivíduo, com a pessoa. O corpo não mais designa uma abjeção ou uma máquina, mas designa nossa identidade profunda da qual não mais se tem motivo para sentir vergonha; podemos exibi-lo nu nas praias ou em espetáculos, em toda a sua verdade natural. (Lipovetsky: 2005, 42) O corpo luta pela sua dignidade, zela pelo seu bom funcionamento e deve lutar contra a sua obsolescência, através da sua contante reciclagem cirúrgica, dietética, desportiva, etc. Numa sociedade de pendor cada vez mais individualista, o corpo funciona no imaginário social contemporâneo como espaço privilegiado de individuação e singularização social, integrando por sua vez um sistema sígnico onde adquire um valor essencial enquanto unidade material individualizada da percepção idiossincrática do “eu” (Ferreira, 2006: 46). Neste contexto, o corpo é o lugar privilegiado na realização e expressão das expectativas e
25 desejos identitários do seu detentor, passando a ser construído e mobilizado no âmbito do processo de produção, dramatização e performatização social do self. Por conseguinte, atuar com e sobre o corpo é equivalente ao agir com fins e efeitos identitários, o que nos dias de hoje se pode considerar um privilégio dado as vastas técnicas, tecnologias e produtos disponíveis que podem ser utilizados na manipulação, manutenção ou modificação corporal. Nestas últimas décadas, o desenvolvimento de uma sociedade de consumidores (Bauman, 2008) levou à revalorização simbólica e económica do corpo enquanto capital mobilizável. Uma sociedade consumista que segundo o autor apresenta características tais como a fugacidade, volatilidade e flexibilidade que se refletem num corpo em constante mudança, sendo todas estas potencializadas pelas várias tecnologias de ponta, engenharias biológicas e de design corporal que têm vindo a ser desenvolvidas. Estas indústrias são cada vez mais escrutinadas pela publicidade e pelos meios de comunicação em geral. Estes operam com discursos e representações que se posicionam como sendo uma pedagogia cultural nas nossas vidas, e deles se aproveitam para incorporar padrões de vida nas pessoas. Através dos média, publicidades e propagandas “o mercado mostra-se obstinado, cuidadoso e perspicaz em educar (e persuadir) para o consumo continuado e, evidentemente, não em educá-los/as para o controle de suas práticas de consumo.” (Beck et al., 2014: 103). Os regimes produzidos por estas indústrias vêem-se socialmente investidos de uma retórica da transformação pessoal de modo a convencer cada sujeito a realizar de forma individual e autónoma, o projeto que tem para o seu corpo enquanto manifestação social da sua identidade pessoal. Segundo Tessier Desbordes (2005), o corpo é uma parte importante da experiência comercial em três áreas: o bem-estar, o bem-parecer e o bem-fazer (Ferreira, 2006). Produtos e serviços relacionados com o bem-estar visam proporcionar prazer e satisfação corporal (tais como massagens, SPAS, próteses farmacológicas, anti-depressivos, ansiolíticos, etc), enquanto os produtos e serviços relacionados com o bem-parecer visam ajustar o corpo a padrões estéticos (tais como produtos cosméticos, dietéticos, cirgurgias estétitcas,etc). Produtos e serviços relacionados com o bem-fazer procuraram melhorar o desempenho corporal, a saúde e a vitalidade (tais como energizantes, próteses químicas ou naturais, para obter um melhor desempenho sexual, etc). Além destes, existe um mercado subterrâneo para produtos e serviços corporais que levantam questões éticas, como o tráfico de órgãos ou pessoas.
32 corporal. Como tal, vários sociólogos começaram a questionar-se sobre a sua utilidade como área autónoma e sua respetiva legitimação, “is there any meaning in a sociology of the body? (Berthelot 1982). Is such a sociology possible? (Druhle 1982)” (Bertherlot, 1986: 155), ambos se questionavam sobre os estatutos epistemológicos, teóricos e metodológicos desta “recente” disciplina, os seus objetivos de estudo, bem como as suas possíveis limitações. Segundo Bertherlot (1986) a partir dos anos 1970, fruto de diversas e intensas pesquisas o termo “corpo” começa a ser usado de forma excessiva levando à sua ambiguidade. Nesta linha de pensamento, mais do que falar do corpo como realidade física, falamos de corporalidade. Assim, o foco de estudo não foi o corpo humano, mas sim a corporalidade (Almeida,1996), corporality ( Bertherlot, 1986) ou corporeidade (Ferreira, 2013) ( muitas vezes utilizados como sinónimos de corpo) como um conjunto de reações simbólicas da existência corporal, sempre localizadas na história e no espaço social (Ferreira, 2013). Bertherlot (1986) citado por Ferreira (2013), diz-nos que: Se entendermos por corporeidade o conjunto de traços concretos do corpo como ser social, diremos que uma dada sociedade define simultaneamente um certo espaço de corporeidade (ou seja, um número de possíveis corporais, formado por regras de conveniência na apresentação e na gestão do corpo) e uma certa corporeidade modal (ou seja, um conjunto determinado de traços valorizados). (Ferreira 2013: 499) Afirmação esta que contrasta com o que Mary Douglas (2003) apelida de “símbolos naturais”, que dizem respeito ao modo de como naturalizamos determinados aspetos do funcionamento corporal, deixando de lado a matriz social que os estruturou. A autora chama à atenção para a complexa relação existente entre aspetos físicos e sociais que o corpo possui. No estudo das propriedades simbólicas do corpo, considera o corpo físico como modelo social: “a experiência física é sempre mediada e modificada através de categorias sociais” (Fernandes & Barbosa, 2016: 72). Quando falamos em corporeidade por aproximação ao corpo, falamos numa “realidade simbólica” socio-historicamente localizada e construída. Ela é mutável consoante o contexto, a época, formação social, nas imagens que o definem, nos ritos, nos desempenhos que lhe são exigidos e lhe cabe cumprir, falamos de valores e representações, mitos, tabus, normas,
33 preconceitos, tradições, fantasias, desejos e convenções disciplinares, discursos que aumentam significativamente a sua carga simbólica (Ferreira, 2013). O tema da corporeidade acaba por se tornar transversal nos discursos sociológicos do corpo dos anos 80 procurando deste modo respostas à problematização crescente que o organismo humano tem na vida social. Desta forma, Shilling (2003) designou de paradigma construtivista (por oposição ao paradigma naturalista) o contexto em que falamos de um corpo que não se resigna a uma identidade biológica natural, universal e pré social, mas sim, de uma realidade socialmente construída, um produto social e simbólico, que é alvo de constante mudança provocadas por forças históricas e pelos discursos. Le Breton atenta para o facto do corpo nunca se apresentar ao mundo de um modo “natural”, mas sim como resultado de uma construção simbólica, visto que, “as representações do corpo e os saberes que o atingem são tributárias de um estado social, de uma visão do mundo, e no interior desta última de uma definição de pessoa” (Le Breton 1982: 233), citado por (Ferreira, 2013: 500), “O corpo não é uma natureza. Nem sequer existe” (Le Breton, 2007: 25), afirma ainda: O significante "corpo" é uma ficção; mas, ficção culturalmente eficiente e viva (se ela não estiver dissociada do ator e assim se este for visto como corporeidade) da mesma forma que a comunidade de sentido e valor que planejou o lugar, os constituintes, os desempenhos, os imaginários, de maneira mutante e contraditória de um lugar e tempo para outro das sociedades humanas. (Le Breton, 2007: 32) Esta visão desencarnada do corpo foi levada ao extremo pela semiologia/semiótica. Nessa área, o corpo não é apenas uma realidade socializada, ele é além disso, uma realidade semantizada e moldada pelo processo de semiosis (Ferreira, 2006). Ela é “uma metáfora produzida, apreendida e reproduzida através de práticas discursivas e convenções linguísticas, enquanto locus de criação de significado” (Ferreira, 2013: 503), retirando o corpo à sua corporeidade de modo a nela arranjar espaço para a representação. Dá-se a desnaturalização do corpo, “desloca-se para uma postura significante, de um sentido que nele se inscreve (…) para fazer dele signo ou sistema de signos» (Babo, 1990:7-8)” citado por (Ferreira, 2006: 93). Nesta linha, a corporeidade apresenta-se na forma de “estrutura textual”, um sistema que comunica a cada momento, seja através de gestos nela impressos, nas emoções que expressa, pelas técnicas que mobilizada ou nas aparências que manifesta:
34 Corpo a corpo, lado a lado ou face a face, alinhados ou afrontados, o mais das vezes somente misturados, tangentes, pouco tendo a ver uns com os outros os corpos que não trocam propriamente nada enviam uns para os outros uma quantidade de sinais, advertências, piscadelas ou gestos signaléticos. Uma pose relaxada ou altiva, uma crispação, uma sedução, um descaimento, um pesadume, um brilhar. (Nancy 2012: 46) Os sinais enviados pelo corpo comunicam, mesmo que por vezes a mensagem por ele emitida não seja propositada, derivada de momentos em que a capacidade de controlo de expressões corporais seja pouca ou até mesmo nula. Embora o sujeito se mantenha em silêncio, cada gesto, emoção, expressão facial, tonalidade, invoca inevitavelmente um conjunto de signos corporais que acabam por estabelecer uma relação de comunicação entre quem os emite e quem os recebe. Isto implica que ambos os interlocutores tenham capacidades e gramáticas de produção e receção de significados, bem como a sua decifração e interpretação, e codificação/ descodificação. O processo semiótico requere muita atenção dado que os seus significados não são universais, sendo por isso polissémicos: O trabalho de tradução intersemiótica que o “vocabulário corporal” convoca8 sempre se vislumbrou, todavia, tarefa árdua e ingrata, senão mesmo obsoleta. Se na sua dimensão anátomo-fisiológica o corpo se apresenta como evidência que va de soi, já a sua simbolização, ou seja, a linguagem corporal de que é investido é sempre enigmática, controversa, escorregadia, ambivalente. (Ferreira, 2013: 503) O processo de semiosis pelo qual o corpo passa não implica que este possa ser reduzido a um signo ou a um sistema de signos, o corpo não é a “linguagem” em si, mas o local predileto para a sua inscrição, estando exposto à multiplicidade de códigos que nele se podem hospedar. O corpo é um espaço suscetível à comunicação e está sempre sujeito à influência de signos/símbolos socais, ele não se limita ao histórico e ao cultural, interagindo assim, de forma diferente dependendo de cada situação específica. É neste raciocínio que Ferreira (2013) afirma:
35 na ausência de codificação tácita e instituída relativamente a alguns sinais corporais, ou consequente descoincidência entre gramáticas de produção e gramáticas de interpretação desses mesmos sinais, podem ocorrer equívocos e transgressões, voluntárias ou involuntárias, em atos tão simples e banais como um olhar, um sorriso, um cumprimento, um adorno ou um gesto que, sendo adequado num contexto ou situação, noutro pode ser tomado por ofensivo, ridículo, estranho. (Ferreira, 2013: 502) Assim, podemos verificar que o corpo não é uma realidade imutável e universal, ele está sempre sujeito a movimentos histórico-sociais, a novas modalidades semiológicas e a novos regimes simbólicos, o que faz com que a cada mudança temporal e/ou espacial a configuração e a valorização (simbólica) também se altere. Em suma, da mesma forma que acontece à linguagem verbal, a linguem corporal também difere e se multiplica culturalmente. Embora determinados códigos sociais apresentem regularidades numa determinada sociedade, sejam eles códigos de emoção, de apresentação, de postura, etc., “o corpo é e será sempre um significante flutuante” Babo, (2001, p. 1), Gil, (1980 p. 10, 1988, p. 124), citado por Ferreira (2013: 504). A cada momento, o corpo analisa e interpreta o contexto e re(age) consoante as orientações simbólicas que outrora incorporou. A forma como ele se manifesta está sempre enquadrada à luz da respetiva cultura que representa, de tal modo que não pode ser avaliado fora do seu respetivo contexto sociocultural. 2.2 Da incorporação à excorporação: o resgate do poder sobre o corpo Não deixando de parte a conceção do corpo como um universo de significações e de valores sociais, algumas propostas foram mais ambiciosas no sentido de localizar os signos de que é investido e as práticas que reproduz num quadro de relações sociais mediadas por estruturas de poder. “O corpo não está resignado à inscrição de texto, num determinado contexto social e ideológico, enquanto pretexto para inumeráveis discursos que visam fechar a sua realidade fugidia.” (Ferreira, 2013: 504). Além dos demais, o corpo também possui textura. Nela podemos encontrar um conjunto inscrições e de traços, da memória, da lei, do poder, das
36 instituições, das pessoas, do quotidiano, em interação corpo a corpo. O corpo está inserido num vasto conjunto de relações e intuições sociais, de forças políticas, históricas e sociais, onde por consequência está sujeito a formas de controlo e disciplina, e é simultaneamente lugar de protesto, resistência e luta social. A partir do momento em que as ciências sociais escolheram o corpo como objeto de estudo, muito do seu foco tem sido no corpo enquanto lugar de exercício de poder. A antropologia, ciência social que começara a estudar o tema de modo mais pormenorizado, já estudava as relações de trocas simbólicas entre o dito “corpo natural” e “corpo social”, ou seja, em que medida a experiência física influência a experiência social. Segundo a antropóloga Mary Douglas (1970) citada por Fernandes & Barbosa (2016) O corpo social condiciona o modo como percebemos o corpo físico. A experiência física do corpo, modificada sempre pelas categorias sociais através das quais conhecemos, mantém uma visão particular da sociedade. Existe uma contínua troca de significados entre os dois tipos de experiência, de forma que cada uma reforça as categorias da outra. (Fernandes & Barbosa, 2016: 73) Segundo a autora (2000 [1970]), citada por Ferreira (2013 :504), o corpo é o meio privilegiado de classificação social, onde as normas relacionadas à autorregulação surgem como um poderoso recurso de controlo social. O corpo físico, devido a sua presença constante e disponibilidade em sociedade é vulnerável ao poder simbólico de doutrinas cosmológicas, religiosas, políticas etc., que criam modelos de classificação. Esse poder é exercido através da incorporação de categorias e regras socialmente construídas baseadas em características fenotípicas, gestos e processos orgânicos do corpo. Posteriormente, essas construções são reproduzidas e vivenciadas pelos indivíduos de forma naturalizada e universalizada. Desta forma o corpo acaba por ser o lugar privilegiado de expressão, reprodução e reforço das normas sociais e das estruturas de poder que lhe estão subjacentes. Norbert Elias, num estudo às sociedades ocidentais europeias apercebeu-se de um símbolo de distância social do corpo que é usado para mostrar “civilidade” (Elias, 1994: 20), distinção e status. Segundo o mesmo, determinada posição social:
37 Sua existência e a manifestação de seu prestígio, o distanciamento em relação aos que ocupavam uma posição inferior, o reconhecimento dessa distância pelos que ocupavam uma posição superior, tudo isso era um objetivo suficiente por si mesmo. Mas era na etiqueta que esse distanciamento como objetivo em si tinha sua expressão mais perfeita. Constituía-se assim um desempenho da sociedade de corte no qual as chances de prestígio estavam alinhadas segundo uma hierarquia. (Elias, 1994: 117) Ou seja, as riquezas de determinada posição social não eram o suficiente para assegurar o seu estatuto, tal que a etiqueta era aspeto chave para o seu reconhecimento social. Desta forma, entendemos etiqueta enquanto um conjunto de comportamentos que seguem determinadas regras e que são reconhecidos na relação com o outro. Sem a confirmação de prestígio através destes padrões de comportamento específicos, o estatuto por si só pouca relevância tinha. Sumariamente, o autor demonstra que ao longo da história, o corpo, foi sendo sujeito a mecanismos de regulação interna e externa cada vez mais fortes no sentido de adaptação aos padrões e normas associados ao que se considerava ser um “corpo civilizado”. Além destes mecanismos de controlo e regulação social associados às sociedades tradicionais, o corpo ocidental continua a estar exposto a fortes mecanismos disciplinares e punitivos de regulação social. Este tipo de mecanismos não se encontra unicamente nos saberes medicinais, na psiquiatria na educação, no direito ou até mesmo no Estado, este exercício está “implícito a todas as relações sociais, forjado um controlo mais eficaz quanto mais naturalizado” (Ferreira, 2013: 506). Perspetiva corroborada por Foucault (1998), que explicava que os corpos se autorregulam e disciplinam uns aos outros através da socialização. Aquando da transição da sociedade ocidental moderna passamos de uma sociedade disciplinar em que o controlo social é exercido através de instituições que regulam os hábitos e práticas dos indivíduos, impondo limites e sanções (como as prisões, fábricas, hospitais, escolas, famílias e religiões), para uma sociedade de controlo onde os mecanismos de regulação são distribuídos e interiorizados pelos indivíduos, tornando-se menos visíveis na vida social. Os mecanismos de regulação social do corpo não são apenas exercidos por instituições e conhecimentos disciplinares externos aos indivíduos, eles também são mediados por imagens e linguagens incorporadas individualmente e reproduzidas socialmente. Essas imagens e linguagens estruturam o simbólico-corporal e as relações com outras corporeidades, tanto em público quanto em privado. (Ferreira, 2006).
38 No seu livro Microfísica do Poder (1998), quando lhe fora perguntado qual a evolução da relação corporal entre as massas e o Estado, Foucault responde, desmistificando: É preciso em primeiro lugar, afastar uma tese muito difundida, segundo a qual o poder nas sociedades burguesas e capitalistas teria negado a realidade do corpo em proveito da alma, da consciência, da idealidade. Na verdade. nada é mais material, nada é mais físico, mais corporal que o exercício do poder. (Foucault, 1998: 147) Foucault concebe a política do corpo como sendo sempre relacional e prática, através da aplicação de fórmulas políticas como a criminologia, o eugenismo, a segregação, ou através de um trabalho diário e praticamente invisível por parte de instituições como a religião, a família ou corporações, sobre a sexualidade, a imagem do corpo e os seus desempenhos. Estas ações visam controlar e formatar os corpos dos indivíduos, inibindo-os em certas atividades e forçando-os a incorporar signos socialmente codificados e instituídos. Nesta perspetiva, o corpo em termos sociais e políticos tem sido estudado de grosso modo enquanto um lugar de contenção. Nele são inscritos códigos e técnicas, implantados por dispositivos e processos sociais, que ele aprende por si mesmo e usa, ou lhe é inscrito exteriormente e ele reproduz, como um “objeto em conformidade” (Ferreira, 2006: 99) que está sujeito a formas de poder disciplinares externas que constantemente o tentam docilizar (Foucault, 1988), controlar ou civilizar (Elias, 1994). É neste sentido que a incorporação (Almeida, 1996) tem um papel crucial neste processo corporal sendo visto como um processo de: interiorização não verbal, inconsciente, mimética, automática, de certas disposições de desigualdade e poder; mas não só como interiorização – também como reprodutor dessas realidades, seu confirmador constante pelo facto simples de estar lá, de aparecer, de ser. É neste nível micro, quase imperceptível, da incorporação dos esquemas de diferença e desigualdade, que se joga uma política de baixa intensidade, uma micropolítica de difícil intervenção por parte da usual macropolítica. É a política do face a face, do encontro casual de rua, da visibilidade confirmadora do que nos rodeia. (Almeida, 2004: 30)
39 Entendemos assim o corpo (em contexto da incorporação) como um lugar de inscrição de sentidos que mais tarde (como vamos ver de seguida) possam ser exteriorizados. Esta exteriorização faz uma reflexão de si próprio na estrutura de relações de poder, seja através da sua posição social, género, orientação social, etc. O social passa assim a ser visto como incorporado, ele deixa de ser visto como algo abstrato, sendo, ao invés disso, o resultado das nossas interações sociais e ações, que são uma expressão do social que está presente em nós. Ou seja, o social é algo que é "implícito" em nós e é revelado através de interações e ações no quotidiano. É nesta visão que Bourdieu (1998: 120), citado por Ferreira (2013), interpreta a incorporação como um processo de duplo movimento de: interiorização da exterioridade (isto é, das condições objetivas de existência do agente incorporado) e de exteriorização da interioridade (sob a forma de perceções, representações, esquemas de classificação da realidade e práticas por parte do agente incorporado), processo biunívoco supostamente gerado por um mesmo princípio orientador, o habitus, frequentemente ignorado pelo agente social, mas reconstruído pelo sociólogo. O habitus surge, assim, entendido como “corpo biológico socializado, ou como social biologicamente individuado pela incorporação num corpo” (Bourdieu, 1998,p. 138), perspetiva que manifesta uma conceção sobressocializada da ação corporal, “investindo na prática princípios organizadores socialmente construídos e adquiridos no decorrer de uma experiência social situada e datada” (Bourdieu, 1998, p. 120). (Ferreira, 2013: 508) Bourdieu chama de habitus à internalização de formas de viver, de agir e de práticas sociais que se dão através da socialização. O corpo torna-se portador do habitus na medida em que as disposições incorporadas pelo sujeito “moldam o corpo a partir das condições materiais e culturais, até torná-lo um corpo social. Este é o processo de socialização, produzindo um ser individual forjado nas e pelas relações sociais, fazendo da própria individualização um produto da socialização” (Medeiros, 2011: 285). Os processos de incorporação são praticados através de ações pedagógicas quotidianas ( “senta-te direito”, “não fales de boca cheia”, “escova os dentes”), ou de ritos impostos pela
40 instituição que exerce emoções, sofrimento psicológico e/ou psicológico, como o ato de mutilar, escarificar ou da própria tatuagem nas sociedades tradicionais. Não se contentando com um corpo que é unicamente lugar de atuação disciplinar, as abordagens sociológicas foram mais além, examinando-o também como um lugar de contestação, resistência e emancipação social. De facto, o corpo não está reduzido a mecanismos de contenção, como é o caso de quando este investe em usos corporais tendo por objetivo desafiar a ordem corporal e social vigente (Ferreira, 2013). Em termos conceptuais, o corpo pode ser visto enquanto um lugar de contra-poder (Foucault, 1998), “na medida em que nele também há lugar para a reação e a enunciação” Hardin (1999: 84-85) citado por Ferreira (2013: 509). É um lugar de reação quando desafia a legitimidade dos padrões de corporeidade dominantes, bem como a autoridade e dispositivos de vigilância e disciplina corporal que produzem e reproduzem as normas e padrões do momento. Quando as ações do corpo são utilizadas como meio de expressão de convicções éticas, sociais e políticas, elas tornam-se lugar de enunciação, ou seja, quando o corpo é usado como um meio para transmitir uma determinada mensagem ou ideia. Por vezes, essas ações podem ter uma aparência eminentemente estética (são interpretadas unicamente como algo estético e artístico) contudo, elas também servem como uma forma de expressão de ideias e opiniões políticas, sociais e éticas. Apesar de Foucault reconhecer um corpo biopolítico (no sentido da luta pela sua emancipação), ele tende “simultaneamente, a negar a possibilidade dos corpos operarem com sucesso como lugares de resistência ao poder” (Ferreira, 2013: 509). Segundo Foucault, o que interessa aos sistemas hegemónicos “não é expulsar os homens da vida social, impedir o exercício de suas atividades, e sim gerir a vida dos homens, controlá-los em suas ações para que seja possível e viável utilizá-los ao máximo” (Foucault, 1998: XVI) Desta forma, estes sistemas procuram limitar as habilidades do uso político do corpo de modo a neutralizar os seus efeitos de contrapoder, levando em última instância à sua docilização. Apesar dos limites da sua eficácia, podemos encontrar no corpo esta dupla capacidade de se revelar não apenas como meio de conformação, mas também de confrontação social, de forças ativas e reativas, de controlo e subversão, de autoridade e transgressão, de disciplina e evasão, de dominação e emancipação. A análise à incorporação dá-nos a conhecer de forma mais detalhada como os mecanismos de docilização e reprodução social atuam através do corpo. Não obstante, Ferreira (2006) atenta
41 para um processo denominado de dinâmicas de excorporação, em outras palavras, as práticas de exibição e ostentação social do corpo que são concretizadas através de manifestações expressivas baseadas em escolhas e decisões conscientes do indivíduo, com o objetivo de usar e investir no corpo de maneira calculada, com significados, objetivos e resultados previstos. Segundo o mesmo a excorporação: refere-se, em grande medida, às propostas teóricas que ambicionam analisar as práticas reflexivas e voluntárias mobilizadas pelo agente social no sentido de (re)construir, manter e dar a ver o corpo, no seu todo ou partes específicas. Trata-se de um conceito que não deve ser tomado como oposto ao de incorporação, na medida em que a capacidade que o corpo tem em se excorporar se faz sempre, inevitavelmente, sobre e a partir do que foi incorporado, considerando que não existe um corpo realmente natural, vazio de incorporações. (Ferreira, 2013: 510) A relevância da abordagem da excorporação está em considerar a agência do indivíduo sobre o seu próprio corpo, colocando para isso a intenção reflexiva como fator determinante na relação entre corpo e ação. Isso permite ver o indivíduo não apenas como sujeito ao seu corpo, no sentido biológico e social, mas também como sujeito do seu corpo. Desta forma, as práticas de excorporação carecem de um duplo movimento, começando por um movimento de desnaturalização do corpo, que passa pelo seu questionamento como um dado adquirido no decorrer da vida; simultaneamente de um movimento de planeamento e execução de estratégias de forma a recriar um outro corpo. Examinar o corpo nesta perspetiva da excorporação, implica tomá-lo como objeto de reflexividade. Como os conceitos de “reflexividade corporal” Giddens (2002) ou o de “reflexive enbodiment” (Crossley, 2005) (que seria traduzido por “reflexividade carnal”) que dão conta deste processo de se tornar cada vez mais consciente de si mesmo e do mundo ao seu redor. Na cultura somática vigente, o corpo já não é contemplado como um realidade pré-concebida e imutável, um corpo resignado ao seu destino herdado que pode unicamente ser conservado e utilizado como meio de reprodução “natural”. Ele é cada vez mais tratado como um material volátil e inacabado, que pode a qualquer momento ser explorado, moldado, projetado e modificado através de diferentes métodos. Para isso contam com um cada vez mais diverso
48 possibilidades e limitações. Elas são influenciadas por representações, valores e normas socialmente criadas e contextualizadas, tais como os ideais (como por exemplo o ideal de beleza que pode afetar como vemos os corpos), tabus (como por exemplo a forma de como falamos sobre determinados aspetos e características do corpo) e expectativas normativas ou transgressivas. 3. O corpo jovem e o jovem no seu corpo 3.1Idadismo e o valor social de um “corpo jovem” Na sociedade contemporânea ocidental existe uma grande ênfase na aparência física, no corpo perfeito, especialmente o corpo jovem, isso reflete-se nas práticas diárias, na procura de exercícios físicos e dietas saudáveis, nas aparências, como a valorização de certos tipos de corpo, na estética e nos discursos que podemos contemplar através da exposição de corpos perfeitos nos media. A valorização do corpo juvenil é traduzida em estratégias de preservação, conservação e/ou modificação do corpo, nomeadamente cirurgias plásticas e tratamentos estéticos, com o objetivo de atingir o “corpo ideal”. Segundo Schneider (2008): Na época contemporânea, florescer do século XXI, ao mesmo tempo em que a sociedade potencializa a longevidade, ela nega aos velhos o seu valor e sua importância social. Vive-se em uma sociedade de consumo na qual apenas o novo pode ser valorizado, caso contrário, não existe produção e acumulação de capital. Nesta dura realidade, o velho passa a ser ultrapassado, descartado, ou já está fora de moda. (Schneider, 2008: 587) Esta relevância, valorização e discussão sobre o corpo é motivo de discussão por parte da Sociologia, Psicologia, etc. onde se discutem os efeitos da pressão social para se atingir a estética ideal e as implicações que esta tem para a saúde mental e física não só dos jovens, mas também dos mais velhos. Porém, com a ajuda crucial da sociologia e da arqueologia social a categoria “juventude” foi desconstruída, na medida em que se começou a distanciar progressivamente e a evitar o seu teor biológico natural e evolucionista legitimado pelos saberes biomédicos.
49 Esta categoria de “adolescência” foi amplamente estudada pela psicologia americana, no início do século XX, momento em que a nomenclatura “jovem” e “juventude” começou progressivamente a ganhar visibilidade social e força política, sendo amplamente interpretado como um “problema social”, o que acabou por suscitar interesse por parte da sociologia, apropriando-se desta como objeto analítico de estudo (Ferreira, 2006). Nesta altura a sociologia estudava a categoria “jovem” no sentido de delinquência, desvio, em termos de sua categorização heterogenia social (através do género, classe social, nível de escolaridade, etc.), pouco se importando, por conseguinte, com a dimensão propriamente corporal desta categoria; do valor simbólico e de uso social que os jovens dão ao seu corpo, às suas vivências subjetivas e às representações que nele têm. Por conseguinte, foi no decorrer dos anos 90, que a sociologia começou a olhar para a “juventude” a partir da sua corporeidade. Apesar de tangencial, este eixo analítico começou a estar de forma gradativa presente no calendário sociológico, a habitualmente chamada de “sociologia da juventude” (Ferreira, 2006). Nela foram discutidas várias teorias e correntes que o conceito de “juventude” pode ter, pois, segundo José Machado Pais “A diferentes juventudes e a diferentes maneiras de olhar essas juventudes corresponderão, pois, necessariamente, diferentes teorias” (Pais, 1990: 151) Neste contexto, eram estudadas práticas juvenis que mobilizavam o corpo sob formas mais percetíveis, como era o caso de atividades espetaculosas ou situações socialmente problemáticas, tais como desportos radicais, festas em massa, distúrbios alimentares, problemas com drogas, etc. Apesar da categoria “juventude” ser relativamente recente, uma realidade construída socialmente e de ter todo um background histórico que a remetia a um conjunto de problemas e tensões (Doutor, 2016), e de não estar resignada exclusivamente à idade biológica (pele começa a enrugar, órgãos a atrofiar, etc.) (Schneider, 2008), podemos verificar que ser “jovem” passa também por um processo de codificação etária de um determinado modelo de corporeidade. Ou seja, o corpo enquanto carnalidade é o lugar predileto para a visualização da idade (Ferreira, 2006). A “juventude” é uma categoria homogénea, pois, encontra-se submetida a um conjunto de fatores, como a cultura, classe, etc., o que deve ser tido em conta quando operamos no sentido de desconstruí-la. Estes atributos que permitem formá-la enquanto categoria social, remetem para um conjunto de situações, contextos e imagens com certas particularidades simbólicas que, segundo Pais (1994), necessitam de um espaço social próprio. É, portanto, a partir destas
50 especificidades que a “idade jovem” começa a ser construída socialmente e identificada nas relações sociais quotidianas, através da perceção e categorização de terminados características (herdadas ou socialmente construídas), observadas na forma de desempenhos e atitudes corporais, para que, mais tarde fossem correlacionadas com atributos de uma certa faixa etária. Neste contexto, não há um parâmetro consensual que delimite esta condição social - para quem as analisa é extremamente difícil precisar o momento em que começa e termina. Anteriormente, a passagem da juventude à vida adulta seguia modelos tradicionais regulados por rituais que estabeleciam normas para as trajetórias juvenis baseadas em critérios de geração, classe social, gênero e etnia. As tradicionais marcas de transição da adolescência para a idade adulta no Ocidente, nomeadamente a entrada no mercado de trabalho, a independência financeira, o casamento e a parentalidade estão hoje cada vez menos claras e padronizadas, sendo substituídas por trajetórias mais fluidas e variadas, com percursos frequentemente instáveis e reversíveis. Para alguns autores, esta fase da vida entre a infância e idade adulta não surge necessariamente em todas as sociedades. Podemos assim verificar que a categoria juvenil é uma fase com limites flutuantes que depende dos seus contextos socioculturais. Segundo Pais (1990), ao analisarmos o curso de vida em sucessivas fases, a etapa juvenil é associada a uma delas e como tal é resultado de um complexo processo de construção social. O autor argumenta que “Determinadas fases de vida apenas são reconhecidas, enquanto tal, em determinados períodos históricos, isto é, em períodos nos quais essas fases de vida são socialmente vistas como geradoras de «problemas» sociais” (Pais, 1990: 147). De acordo com Ferreira (2006), a análise destas fronteiras é em grande medida produto de uma leitura corporal que se baseia nos aspetos ligados ao desenvolvimento e envelhecimento biológico, que posteriormente são codificados socialmente e correlacionados com determinadas fases da vida. Existem um conjunto de atributos corporais que estão relacionados com o início da juvenilidade, nomeadamente o aparecimento dos primeiros sinais pubertários: para os rapazes o surgimento de pilosidade em vários locais do corpo, desenvolvimento de massa muscular, borbulhas, etc., no caso das meninas, a menstruação, desenvolvimento dos seios, entre outros. No seguimento, os primeiros atributos da idade adulta que correspondem a atributos de amadurecimento, como o surgimento de rugas, cabelos brancos entre outras características fenotípicas. Além destas, existe todo um conjunto
51 de imagens (como colares, anéis, roupas…) e desempenhos corporais (gesticulação, postura…) cuja associação provoca uma aproximação ou distanciamento face à categoria juvenil. A respeito da alteração do corpo através de meios biológicos, morfológicos e fisiológicos, existem nos dias de hoje, uma diversa gama de recursos e serviços disponíveis para controlar e supervisionar essas mudanças, estimulando e preservando assim, a crença de um corpo perfeito e duradouro. A par disso existe um diverso leque de inovações cosméticas, estéticas, tecnológicas, cirúrgicas, entre outras, que proporcionam em termos de qualidade e estilo de vida a ideia de um corpo juvenil que se produz, prolonga ou até mesmo se antecipa. São utilizados vários recursos para o afastamento da categoria infantil, como o uso de vestuário e determinados adereços, mas também determinados comportamentos ou atividades físicas que tentam retardar aquilo que é inevitável com o passar do tempoas rugas, cabelos brancos, o cansaço, etc. Com todos estes aparatos procura-se assim, manter um modelo de corporeidade ideal que gira em volta de dois eixos, a juventude e a beleza, que são frequentemente representados e explorados pelos media (Santos, 2017). No quotidiano, quando vamos ao supermercado ou a um quiosque, se prestarmos atenção às revistas expostas no linear damos conta de uma capa apelativa, repleta de cores que destaca aspetos relacionados com o culto ao corpo, seja através da moda e imagem (quando por exemplo são colocados modelos), alimentação, saúde, desporto (dicas de alimentos, dietas saudáveis, uso de determinados medicamentos, exercícios e planos de treino para se manter em linha). Desta forma, a publicidade promove produtos e serviços com o objetivo de atrair e persuadir o público-alvo a comprá-los. Numa sociedade de consumo, a publicidade é amplamente utilizada no sentido de utilização do corpo humano como suporte de venda, mostrando ao espectador “o corpo perfeito” ou uma “vida ideal” associados a um serviço ou bem material que pode ser adquirido. Encontramos também no motivo existencial da beleza juvenil, uma negação patente da velhice. Um exemplo bastante claro disso é a publicidade de um fortificante para os ossos (!), o Calcitran B12 (…) Nela somos chamados a um cenário onde jaz uma vitrine com três manequins femininos. Do lado de fora, uma garota observa os manequins, enquanto, pelo lado de dentro, outra jovem retoca a roupa de um deles. Para falar de osteoporose, a publicidade, então recorre a esse manequim, que começa a
52 se quebrar e se entortar, enquanto a jovem do lado de dentro tenta consertá-lo. Muito embora a osteoporose seja parte do processo normal do envelhecimento, nenhum idoso aparece nessa publicidade, mas apenas as duas garotas e o eufemismo do manequim. (Rocha, 2009: 120) O corpo é capitalizado pela publicidade em forma de poder, sedução e atração, associando as suas marcas a modelos ideias de corporeidade e respetivas normas simbólicas de referência. Face à grande influência social e simbólica da publicidade, ela torna-se o discurso dominante e doutrinário no que diz respeito à questão da corporeidade na sociedade atual, invadindo tanto ambientes públicos quanto privados, com imagens de corpos ideais e promessas de produtos muitos deles considerados “milagrosos” que garantem saúde e beleza. Um ideal que começa a ser interiorizado desde tenra idade e se transforma numa busca incessante pela manutenção corporal, prolongando cada vez mais esta etapa, e esperando que todas as promessas que o mercado fez para a manutenção da juvenilidade não se esgotem. “Em última instância, é-se jovem quando se começa a parecê-lo, e transpõe-se a condição juvenil quando se deixa de (conseguir) transparecê-lo. Ser e parecer fundem-se numa imagem que, na respectiva projecção e percepção, consubstancia a figura do jovem” (Ferreira, 2006: 124-125). De facto, existe uma normatividade que se baseia nesta figura jovem e que é em grande parte estabelecida por critérios de ordem corporal. A categoria juvenil deixou de ser, por várias razões, uma categoria com um valor tão negativo como o anteriormente era afirmada (delinquência, desobediência, etc.) - ela constitui, nos dias de hoje uma geração de referência (Pais, 1998). as jovens gerações têm vindo a constituir-se num importante quadro de referência para as gerações mais velhas, possibilitando uma certa horizontalidade intergeracional de valores. Os gostos juvenis passam às gerações mais velhas. Certos jovens iniciam os seus pais em matéria de vídeo, informática e música. É como se os processos de socialização tivessem sofrido uma inversão de sentido: já não são apenas os filhos a serem socializados pelos pais; estes acabam por anuir, com entusiasmo ou resignação, a alguns dos chamados valores juvenis. (Pais, 1998: 39-40)
53 Segundo José Machado Pais (1998), não é novidade que os jovens partilham os valores que são próprios dos jovens - os valores juvenis. O que se não se tinha verificado até há relativamente pouco tempo era a capacidade que os jovens revelam em influenciarem o mundo dos adultos; é a permeabilidade que as mais velhas gerações dão mostra de se deixarem influenciar ou mesmo seduzir por alguns valores juvenis; e, enfim, a tolerância com que outros valores juvenis são encarados pelas gerações mais velhas. (Pais, 1998:40) Em outros momentos da história, o/a “jovem” procurava assemelhar-se às até então consideradas figuras de referência, pai, mãe, irmão mais velho.Nos dias de hoje verifica-se o oposto. A título de exemplo circulam vários vídeos na internet com milhares de visualizações onde vemos aparente mãe e filha, com o mesmo vestuário, maquilham, adereços… e postura semelhante. Nele podemos observar inúmeros comentários como “nem se nota quem é a mãe quem é a filha”, “Parecem gémeas”. Neste contexto Ferreira (2006) explica que: Manter-se jovem corresponde à adopção e manutenção de uma imagem, postura e desempenho corporal, uma gestalt, conotada com a imagem pública criada sobre essa idade de vida. Muitos, independentemente da idade, sexo ou estatuto social, renderamse ao sportswear, aos jeans, às t-shirts, às dietas e ginásticas várias, aos cosméticos de alisamento e tonificação da pele, às tatuagens e aos piercings, contaminados pelo complexo de Peter Pan, arquétipo cultural profundamente enraizado nas sociedades ocidentais contemporâneas, onde parecer ter um «corpo jovem» é uma ambição social largamente partilhada. (Ferreira, 2006: 126) É nesta linha de pensamento que o corpo juvenil adquire uma elevada importância na visibilidade e no reconhecimento social nas sociedades ocidentais contemporâneas. Ele é considerado uma referência corporal, objeto de admiração no culto diário ao corpo, um modelo ideal que transparece beleza, saúde e vitalidade. O "corpo jovem" é um conceito idealizado que se materializa no desejo de ter uma aparência física perfeita que tem em conta certos padrões estéticos. Não obstante, existe uma preocupação em manter o corpo saudável e
54 ativo, evitando doenças ou sinais de envelhecimento; procura-se construir um corpo sedutor e prazeroso, sempre desejável, explorar uma vida repleta de prazeres e sem restrições; uma busca pela satisfação no momento, através de um conjunto de “elixires” que cada vez mais estão ao dispor a quem os quiser “tomar”: Os sonhos de imortalidade e os elixires da juventude sempre existiram, poções míticas cujo móbil principal era a luta pela conservação do corpo enquanto jovem. Mas se outrora esses produtos eram restritos a uma elite de afortunados, hoje em dia, esse sonho tende a democratizar-se, existindo um «elixir da juventude» à mão de qualquer um em muitas prateleiras de supermercado ou mercearia de bairro. (Ferreira, 2006: 127) Se por um lado os sistemas de mediatização fazem a apologia de uma imagem ideal que é a do “corpo jovem”, aliciando a população-alvo a persegui-la, por outro lado, colocam à margem outros modelos de corporeidade, vivências, experiências e práticas corporais. Enquanto uns, por iniciativa própria, celebram os seus corpos, outros, mais vulneráveis, vêm o seu corpo depreciado, ou até mesmo repudiado - anticorpos que remetem para incarnações de corporeidades menosprezadas. O “corpo doente”, o “corpo velho”, “o corpo obeso”, o “corpo deformado” que são frequentemente marginalizados e estigmatizados comparativamente aos modelos anterioresde um corpo que é perfeito, saudável, forte, de alta performance, autónomo: ilusões catalizadas pelos média, publicidade, na moda, etc. A ideologia do juvenilismo baseia-se na promoção dos valores de bem-estar e da excelência física relacionadas ao corpo jovem, o que leva a situações de idadismo, definido segundo a Organização Mundial de Saúde como situações onde “ a idade é usada para categorizar e dividir as pessoas de maneiras que levam a perdas, desvantagens e injustiças, causando desgaste no relacionamento entre as gerações” (Organização Pan-Americana da Saúde, 2022: 3) Isto acontece porque, estes ideais traduzem-se em morais corporais que incentivam as pessoas a se auto vigiarem a manterem-se jovens. Nesta lógica, o processo de envelhecimento é adiado ao máximo pelo sujeito, marginalizando esta categoria (idosa) e responsabilizando quem a (inevitavelmente) fazer transparecer. Na cultura ocidental, o sujeito tem dificuldade em lidar com a morte pois ela “persegue o animal humano como nenhuma outra coisa; é uma das molas mestras da actividade humana –
55 actividade destinada, em sua maior parte, a evitar a fatalidade da morte, a vencê-la mediante a negação, de alguma maneira, de que ela seja o destino final do homem” (Becker, nd: 9) daí a constante necessidade de permanecer jovem. Necessidade esta que tem por base uma cultura do consumo “onde academias, cirurgias plásticas, substâncias químicas não liberadas para o consumo humano, cremes, choques e agulhas formam uma grande arma para combater a insatisfação física” (Diniz, 2014: 13). Assim, luta-se contra a inevitável degradação do corpo através de todos os sacrifícios necessários para que este se mantenha estável, jovem e belo. 3.2 Valores, sentidos e vivências da cultura juvenil Desde a sua origem como campo teórico, a sociologia investiga temas que continuam a ser motivo de atenção e escrutínio até aos dias de hoje. Como é o caso da sociologia da juventude que estuda a relação dos jovens com a sociedade, os seus comportamentos e práticas, procurando assim renovar o olhar face à juventude. O debate começa pelo próprio conceito de juventude. Segundo Pierre Bourdieu (2003) a “juventude” nada mais é que uma mera palavra, argumentando que este conceito é alvo de constantes manipulações. De acordo com o sociólogo as divisões etárias são inúteis e negam a diversidade interna das gerações e faixas etárias da própria juventude enquanto realidade social. É a partir deste momento que a teoria sociológica se barra com a necessidade de estabelecer limites no que diz respeito ao seu conceito, questionar-se sobre ele, desconstruí-lo para mais tarde o reconstruir. De acordo com Machado País: A questão central que se coloca à sociologia da juventude é a de explorar não apenas as possíveis ou relativas similaridades entre jovens ou grupos sociais de jovens (em termos de situações, expectativas, aspirações, consumos culturais, por exemplo), mas também —e principalmente— as diferenças sociais que entre eles existem. (Pais, 1990: 140)
56 Na sociologia da juventude, há uma abordagem de desconstrução dos estereótipos e preconceitos associados à juventude e ao corpo jovem. Desta forma, a sociologia procura entender a juventude e os jovens como seres sociais complexos e não como um grupo uniforme com determinadas características. Segundo Vítor Ferreira (2006), apesar disso: o facto é que a «adolescência» e/ou a «juventude», esses tempos recentemente inventados e cada vez mais dilatados nas sociedades ocidentais contemporâneas, são fases do ciclo de vida em que o corpo, no que nele acontece, o que com ele se faz e dele se pode e deseja fazer, toma um lugar central, investido de um valor de experimentação e exploração pessoal, bem como de expressão e de reconhecimento social, difícil de ser alcançado por qualquer outro referente identitário. (Ferreira, 2006: 132) É a partir deste processo de (re)construção identitária que esta categoria da vida implica, que o jovem, através do seu corpo e signos que ele emite, experimenta o mundo, como pessoa singular, para que mais tarde seja classificado pela sociedade. Cientes do valor performativo e expressivo do corpo e da enorme diversidade de recursos que estão à sua disposição, os jovens vêm no corpo um recurso que fortalece a sua presença e poder na sociedade. Entrar na “idade jovem” marca um momento de mudança, onde o jovem procura ganhar autonomia relativamente às suas preferências. É uma fase intrinsecamente ligada à tentativa emancipatória dos jovens, que passa de grosso modo pelo corpo. Este culto ao corpo “passa por um contexto social que o constrói, atribuindo-lhe representações constituídas de acepções, imagens e significados dentro de um universo simbólico” (Miranda et al., 2017: 41) Para muitos jovens, o cuido do corpo é uma prioridade, na medida em muitos deles carecem de outros recursos e capitais que lhes permitam afirmar socialmente (Ferreira, 2006). É neste sentido que os jovens investem em projetos corporais, com as mais variadas configurações, procurando a sua inserção social, quer pelo uso dos mesmos enquanto signo de conformação, ou pelo contrário, de contestação face aos modelos e instituições de modelos corporais que imperam. Desta forma, percebemos que os contextos sociais juvenis atuais são marcados por uma grande importância atribuída ao corpo, com vários dados empíricos que apontam para a
57 crescente valorização das dimensões corporais, pelas gerações mais recentes da sociedade portuguesa contemporânea. Nos anos 80, um estudo feito por Luísa Schmidt (1985) procurava detetar os aspetos da “cultura juvenil” cruciais na vida social dos jovens. De todos os entrevistados, independentemente do seu sexo e grupo social, os jovens davam bastante importância e “atenção à imagem do corpo (…) particularmente à imagem do corpo despido” (Schmidt, 1985: 1062). O aspeto físico era para os inquiridos um fator essencial na definição de si próprios e do seu grupo, não se remetendo apenas ao aspeto carnal (ser “bonito”, “feio”), mas também para o vestuário (estar na moda). Segundo Mendes (2013): o vestuário aliado á Moda tanto pode ajudar as pessoas a levantar a auto-estima como pode até mesmo ajudar a conquistar certas posições sociais na mente de terceiro, exemplo disso é o caso das pessoas de classe baixa que vivem para manter a aparência de pessoas de classe alta e com poder financeiro; ou as pessoas que se vestem de certa forma para conseguirem um determinado cargo no seu local de trabalho. (Mendes, 2013: 41) A importância objetiva e subjetiva que os jovens dão ao vestuário e outras formas de adorno ficam para além do seu “mero valor de uso” (Ferreira, 2006: 133), ou seja do seu valor funcional enquanto peças que cobrem o corpo, pois “Mal o indivíduo nasce, é coberto e revestido de símbolos, pois a moda e o vestuário são elementos que nos acompanham desde o primeiro até ao último dia” (Gomes 2010, 14) Segundo Giddens “Em todas as culturas, a roupa é muito mais que um simples meio de proteção do corpo — é manifestamente um meio de exibição simbólica, um modo de dar forma exterior às narrativas da auto-identidade (Giddens, 2002:62). Em 2000, um inquérito feito pelo Instituto Português da Juventude confirmou o lugar crucial que a imagem corporal tem em contextos juvenis, seja como um território importante na criação de uma identidade pessoal única e autónoma, ou como um recurso distintivo na definição de fronteiras simbólicas grupais (Pais & Cabral, 2003). Se nas culturas prémodernas, os visuais eram mais padronizados e codificados, remetendo para o estatuto social do sujeito, nos dias de hoje, sem perder essa essência, a imagem corporal tende a ser um marcador de diferença individual e singular, um recurso importante para a construção auto
64 culturais que regulam os corpos, concedendo aos jovens (e não só) visibilidade, marcada pela sua originalidade e diferença que é socialmente identificada como "radical". Como podemos observar anteriormente, o valor simbólico que o corpo tem nas sociedades ocidentais contemporâneas está associado em grande medida à celebração do “corpo jovem”, à tentativa da sua preservação e do uso de meios, técnicas e serviços que o possam prolongar o maior tempo possível. Este modelo é extensamente divulgado, estereotipado, formatado e disciplinado pelos media e considerado aquele que todos devemos ambicionar, colocando assim à margem todos os outros modelos de corporeidade. Este corpo pode ser moldado através de dietas e exercícios que o tonificam traduzindo valores de saúde, vitalidade, beleza, força. É nesta medida, que se ambiciona um corpo atlético, musculado, belo, ágil que se deseja e é desejado pelos outros. Esse modelo de corporeidade juvenil é a imagem corporal idealizada e celebrada pelos meios de comunicação de massa, que têm o público jovem como seu público-alvo. Além disso, este modelo corporal é objetificado e mercantilizado por entidades que têm como fim vender determinados produtos e/ou serviços. No entanto, a insistência nestes ideais corporais pode criar uma pressão excessiva na busca por uma aparência física perfeita, o que pode ter consequências negativas para a saúde mental e emocional das pessoas. Apesar desta busca pelo corpo “jovem” e “perfeito” estar intrinsecamente ligado aos jovens, ela também atinge outros sujeitos (que não são incluídos nesta etapa jovem). Segundo Ferreira (2006: 156) “Portar símbolos do corpo juvenil, parecer sempre jovem, constitui um valor social desta época”. A juventude é o público-alvo de políticas de saúde pública que representam esta fase como um período de fragilidade e vulnerabilidade. Estas políticas são baseadas em discursos veiculados por técnicos e instituições de saúde, que como podemos verificar em diversos trabalhos (Associação de Planeamento Familiar, Instituto Português da Juventude, Organização Mundial de Saúde, entre outros) constroem a juventude como uma categoria de risco sanitário, nomeadamente na prevenção de gravidez adolescente, AIDS, dependência química, acidentes de trânsito, tabagismo, alcoolismo, depressão e suicídio, transtornos alimentares, etc. Da mesma forma, o corpo jovem é também sujeito ao controlo e regulação por parte da família e da escola, instituições que lhe ensinam as responsabilidades e os deveres que lhe compete realizar em sociedade (Ferreira, 1997). Por conseguinte, é espectável que os jovens
65 sigam os discursos que são (re)produzidos por estas agências, que vão ao encontro de um modelo corporal que corresponde a determinadas normas impostas através de práticas disciplinares e punitivas, de modo a corrigir comportamentos por estas considerados pouco adequados. Ou seja, o objetivo desses discursos e práticas é moldar o corpo de acordo com ideais e expectativas de apresentação, de postura e expressão emocional formais e institucionais. Por conseguinte, existem padrões sociais para o comportamento corporal que são valorizados e promovidos, enquanto outros são marginalizados ou até mesmo desconsiderados. No caso das escolas, podemos verificar o facto de elas irem contra ideias de sedentarismo, exigindo aos alunos que se associem a algum desporto, ou pelo contrário que de alguma forma promovam o sedentarismo. No caso do seio familiar damos conta de discursos (re)produzidos através de ideais hegemónicos de género e orientação sexual (quando perguntamos a um jovem rapaz se tem namorada, ou pelo quando perguntarmos a uma jovem rapariga se tem namorado). Desta forma, o signo de “corpo jovem” que é divulgado em escala global acaba por padronizar em massa os jovens e todos aqueles que se querem parecer com eles, colocando aqueles que não se identificam com este modelo hegemónico, numa posição marginal, ignorando por sua vez toda a complexidade e diversidade de modelos corporais que poderiam ser construídos em contextos sociais. É neste contexto que os grupos são importantes principalmente no texto dos jovens considerados “não conformista” na medida em que: A ação não conformista, como qualquer outro tipo de ação social, assenta em definições e orientações adquiridas e assimiladas em contato íntimo e intenso com os outros, que, em virtude desses contactos, passam a assumir enorme importância e significado, tornando-se referências fundamentais na estruturação do self (…) o desvio juvenil começa pelas atitudes de oposição à autoridade escolar e desenvolve-se por intermédio da acção do grupo (…) E, se o grupo é sempre fundamental para o processo de maturação juvenil, assume ainda mais significado no caso dos jovens não conformistas. Porque, para estes jovens, o grupo constitui, por vezes, o único espaço da aceitação e integração sociais perante a adversidade do mundo convencional. Sem
66 as referências para a modelagem das reações “oposicionais” e sem a sustentação proporcionadas pelo grupo, a afirmação da identidade não conformista seria, com certeza, muito mais difícil. (Ferreira, 2000: 59-60-64) Como forma de reação e resistência do modelo hegemónico do “corpo jovem”, muitos jovens acabam por repudiar essas normas institucionalizadas seja através da indiferença, ou através de modelos que vão contra o normalizado, procurando assim, no seu corpo, através de técnicas e regimes corporais, um lugar onde possam mostrar que são diferentes, singulares e inovadores dos demais, originando assim corpos que não têm em conta os valores normativos. É nesta medida que os grupos ou microculturas são importantes, pois acabam por, através da convivência legitimar entre eles práticas não tão bem aceites pela sociedade. Estes procuram novas sensações e emoções, experimentar os seus limites, investir em processos estéticos, motores e sensitivos seja através de um look (vestuário, cosméticos…), uma operação estética, o uso de substâncias para aumentar a massa muscular, entre outros, que pelo modelo normativo são desvalorizados, ignorados ou por vezes desprezados. Assim, o “corpo radical” não se reduz a um conjunto de práticas e imagens previamente estabelecidas como anti normas, pelo contrário, ele tem um espaço crucial naquilo que é a individualidade, singularidade da pessoa, mas também simbolicamente na medida em que representa um mecanismo escapatório àquilo que são os processos normativos e institucionalizados que o invadem no quotidiano. Importa também constatar que a transgressão característica de um “corpo radical” não é unicamente retratada por práticas corporais anticonformistas ou contra modelo, elas são também expostas em modelos de corporeidade que seguem excessivamente as normas corporais hegemónicas. A título de exemplo vejamos os indivíduos anoréticos que procuram incessantemente ser mais magros, outros mais musculados e tonificados, aplicando nesta medida, um conjunto de dietas, exercícios e fármacos que lhes possibilitem alcançar o “corpo ideal”. Em suma, corpo radical tornou-se mais proeminente na sociedade sendo exposto, visível e sujeito a várias interpretações, classificações e representações socioculturais. Isto acontece, porque este se liberta da descrição quotidiana socialmente prescrita assumindo novas facetas.
67 Quando o corpo do jovem se torna o principal símbolo da sua individualidade, a capacidade de se destacar na sociedade aumenta de modo proporcional à “radicalidade” associada ao seu projeto. Por outras palavras, quanto mais o projeto incorporado for socialmente reconhecido como radical, mais o jovem ganha em termos de singularização, autenticidade e diferenciação social. Por conseguinte, estas práticas “radicais” são atividades que demonstram a capacidade que o jovem tem de agir e se libertar face às normas sociais hegemónicas. Elas envolvem o exercício de um poder performativo que permite aos praticantes testarem e demonstrarem as suas habilidades, particularidades e capacidades, conferindo-lhes uma expressão simbólica de poder e distinção (Ferreira, 2006). Num contexto sociocultural marcado pela instabilidade, precariedade, fragmentação, fragilidade dos laços sociais e simultaneamente pelo culto da performance e da autorresponsabilização, os jovens vêm no corpo um recurso valioso, passível de ser moldado e mobilizado face a todas as diversidades, sendo desta forma capaz de reagir e se adaptar ao contexto. Devido ao excesso de possibilidades, incertezas, pressões, exigências e espectativas sociais, que várias vezes são na sua objetividade, extremamente difíceis de concretizar, os jovens respondem também com excessividade que é espelhada nos seus investimentos subjetivos mais imediatos e acessíveis. Seja através da sua aparência, nos consumos, nas experiências e prazeres, e que em múltiplos casos apesar de conscientes do seu risco mortal, os jovens sentem necessidade constante de celebrar a vida. É, por conseguinte, devido a estes excessos que surgem patologias, distúrbios alimentares, anorexia, bulimia, numa sociedade que demanda altos padrões de rendimento, face ao corpo, à escola, ao trabalho o que em determinadas situações pode levar a depressões e ansiedade. Pelo que simultaneamente surgiram produtos que aumentam a performancebebidas energéticas, estimulantes, diuréticos, anabolizantes entre outros tipos de fármacos. Assim, de um ponto de vista sociológico, é importante explorar as raízes das várias expressões corporais “radicalizadas” que se apresentam na sociedade contemporânea. Ao compreender as formas que essas expressões assumem, as lógicas simbólicas que elas incorporam e os efeitos sociais que produzem, podemos aceder a processos e dinâmicas sociais que foram surgindo e se desenvolvendo na sociedade. Ao nos aproximarmos dos contextos juvenis, estamos a reconhecer um aspeto que por eles tanto é valorizado e um lugar crucial no contexto das suas vivências: o corpo. Pois segundo Vítor Ferreira (2006):
68 se é no corpo que muitos jovens mais intensamente experimentam e vivem o controlo social e os mecanismos disciplinares, é também na superfície da pele que alguns encontram o lugar performativo de expressão e desempenho do ideário de liberdade e autonomia individual constitutivo da modernidade mais recente, onde se entrosam políticas orientadas no sentido da individuação e reconhecimento social de uma subjectividade que tende a ser sentida e vivida como diferente, singular e autêntica. (Ferreira, 2006: 166)
1-James Huge Cook foi um explorador, navegador e cartógrafo inglês responsável por mapear ilhas e zonas costeiras em mapas europeus pela primeira vez 69 II-Tatuagem e Sociedade 1História da tatuagem A tatuagem é utilizada desde a era pré-histórica por inúmeras sociedades e praticada por vários motivos. A palavra tatuagem teve origem na palavra taitiana tatau trazida para a Europa no final do século XXVIII pelo capitão Cook1, após a viagem feita no Tahiti e Polinésia, como significado “depósito deliberado ou acidental de pigmento na pele” (Oanţă et al., 20014: 125). Quando falamos de tatuagens ou de outras marcas corporais, referimo-nos a um conjunto de procedimentos que na literalidade incorporam o sujeito, marcam a sua superfície, com recurso a um complexo e diversificado conjunto de objetos e de técnicas de aplicação. Existem uma diversidade de configurações possíveis, sendo que atualmente, as mais recorrentes no Ocidente são intervenções relativamente moderadas de perfuração epidérmica, nomeadamente a tatuagem e o body piercing. Ao longo das últimas décadas, além destas formas de inscrição corporal radicais, outras começaram discretamente a se tornar uma opção no leque de possibilidades disponíveis para o ornamento do corpo. As tatuagens são divididas em três categorias, traumáticas, cosméticas e decorativas. As primeiras são resultado de um acidente que penetra na pele (como por exemplo a pele esfoliada resultado de acidente de bicicleta). As tatuagens cosméticas também conhecidas como “permanente makeup” utilizam cosméticos que alteram a pigmentação da pele, por vezes utilizadas com fins medicinais, como cobrir cicatrizes. Além desta, outra que aos poucos tem vindo a ter mais reconhecimento, a chamada “tatuagem de aréola” que é feita para quem perdeu o mamilo durante uma mastectomia e decide fazer uma cirurgia de reconstrução mamária. Tatuagens cosméticas também são usadas para fins terapêuticos para corrigir doenças que desfiguram a pele, como vitiligo, alopecia, areata ou algumas malformações vasculares. Por fim, as tatuagens decorativas que fazem referência a uma determinada orientação cultural, religiosa ou social (ex. o objetivo de punir a pessoa: infidelidade, servidão, prisioneiros) e que vão ser exploradas mais à frente. Todas estas práticas passaram por um processo de aperfeiçoamento que demorou décadas, até mesmo a técnica que hoje consideramos ser “tradicional”, que utiliza uma máquina com dezenas de agulhas.
70 Como tal, as práticas de modificação corporal que conhecemos até aos dias de hoje resultaram da evolução de procedimentos tais como o cutting, a escarificação, o stretching, etc., que já eram utilizados ao redor do mundo, por várias sociedades Ancestrais, universais e praticamente ubíquas, desde sempre, por todo o mundo, parecem ter marcado o corpo humano, tido como um dos actos mais “primitivos” da história da humanidade. Arranhando, rasgando, perfurando, queimando a pele, cortando, penetrando, distendendo, deformando ou amputando órgãos170, o corpo foi sempre sendo sujeito a modelações onde o cultural e o social se inscreve e grava sobre o biológico (Ferreira, 2006: 208) Nas sociedades tradicionais, as tatuagens tomavam forma de instrumento de biopoder, na medida em que configuravam um exercício de dominação e controlo sobre o sujeito. Reproduzidas numa situação obrigatória, as marcas expressavam uma relação hierárquica entre o indivíduo e a autoridade que as impunha, expressando, por conseguinte, uma clara relação hierárquica, subjacente à instituição na qual o sujeito se inseria. Ao longo da história até a tempos não tão longínquos, a tatuagem caracterizou-se por ser uma forma de classificação de indivíduos e grupos, onde a supremacia da sociedade em que estes estavam inseridos era inescapável e inquestionável. Ritos de passagem, nascimentos e mortes, valores, condutas morais e jurídicas constituíam formas de controlo das sociedades sobre os indivíduos e eram expressas através de modificações corporais, nomeadamente a tatuagem. Que como vamos ver mais à frente, pode ser classificada como obrigatória ou opcional. As marcas formam decorações corporais complexas e consistentes, que anexam um sistema de signos que “identifica”, “localiza” e “orienta” socialmente os seus detentores, estando em conformidade com determinados códigos de comunicação definidos através de contextos políticos, sociais, religiosos, etc… específicos (Ferreira, 2006). Assim, é através desta conduta corporal codificada e materialmente incorporada que se denotava a determinação coletiva e o controlo do social sobre os membros de um determinado grupo. Nesse contexto, a noção de pertença coletiva proporcionada pelas marcas corporais operava de modo a agregar identidades individuais, submetendo-as ao coletivo social. No ocidente, as marcas corporais eram condenadas e repudiadas pela Igreja pois à luz da Bíblia elas eram consideradas um atentado moral à integridade corporal. Segundo Le Breton
71 (2004) a Bíblia recusa qualquer intervenção visível e duradoura no corpo humano, pelo que o respeito pela sua integridade é crucial, pois além de indicar submissão ao destino por Deus escrito, também lhe demonstra fidelidade, por no corpo que ele criou nada acrescentar ou alterar. Neste contexto modificar algo no corpo seria, portanto, um ato de blasfémia. “«Não fareis incisão no corpo de um morto nem fareis em vós próprias tatuagens diz o Levítico (1928)»” (Le Breton, 2004: 26), o corpo deve permanecer tal e qual Deus o criou. À luz da tradição judaico-cristã, estas marcas eram consideradas perversas, ligadas ao crime e ao pecado e por si só faziam a distinção entre pagão e crente. A única exceção era quando as práticas tomavam formas de autoflagelação divinamente inspiradas e utilizadas para demonstrar obediência e devoção religiosa. Durante o período medieval e renascentista, as marcas corporais tinham ligações ao místico, nomeadamente em certas subculturas pagãs, que integravam mágicos, médicos, astrónomos, físicos, etc., que praticavam filosofias relacionadas às consideradas “artes” ou “ciências ocultas”, como o caso da astrologia ou da feitiçaria (Ferreira, 2006). É, portanto, nesta linha de pensamento, que as tatuagens tinham um valor de amuleto mágico e protetor. Podemos também verificar que em povos guerreiros, como os Vikings, a sua função e significados eram semelhantes. Os povos de religião pagã eram mal vistos pela religião judaicocristã, pois além de venerarem mais do que um Deus, tinham várias tatuagens espalhadas pelo corpo. Povos pagãos como os Vikings eram considerados rebeldes, cruéis, selvagens, opiniões que ainda ficaram mais vincadas após incursões destes povos no sul da Europa. Logo, qualquer cidadão que decidisse fazer uma tatuagem era assemelhado ao “outro”, ao “estrangeiro”, pois a palavra de Deus a ele não tinha chegado, sendo também associado ao primitivismo, paganismo, ao bárbaro, exótico e selvagem (Carneiro, 2018). Durante o século XVI as marcas corporais começam a popularizar-se na Europa Central através das expedições marítimas e consequente contacto dos navegadores com as recémdescobertas colónias que até então não tinham conhecimento das restrições cristãs e usavam as marcas como parte inerente das suas culturas (Carneiro, 2018). A tatuagem passa assim a fazer parte da experiência simbólica de ser navegador e acaba
72 também por ser transmitida não só entre pessoas do ofício, mas também por contágio, mimetismo e pelo contacto com as suas redes de amigos e familiares (Ferreira, 2006). As marcas corporais começam assim a ser socialmente construídas como estigma, termo que Goffman (2004) utiliza para mostrar a relação entre determinado atributo e estereótipo. Ou seja, neste contexto, com base na característica corporal é tecida uma leitura social que provoca um descrédito sobre o seu portador. Mais tarde, fruto deste estigma surgiram algumas atenuantes sociais e culturas para os portadores de tatuagens, que acabaram por afetar as suas relações sociais quotidianas. Até meados do século XX, sujeitos extensivamente tatuados, como o caso de alguns marinheiros, eram expostos em espetáculos circenses tais como freak shows e feiras itinerantes, junto de outros que também era colocados à margem, anões, gémeos, gigantes e outras anomalias corporais humanas e animais. É aqui que começam a formar-se os primeiros estúdios profissionais de modificações corporais. Os seus trabalhadores funcionavam em regime itinerante vendendo os seus serviços aos protagonistas dos espetáculos e à sua clientela. Neste contexto, fazer da tatuagem um espetáculo contribui mais ainda para que esta não ficasse indiferente ao olhar social “Pelo contrário, reforçou os seus aspetos de marginalidade e de aviltamento. As marcas corporais cristalizam o preconceito hostil das «pessoas honestas»” (Le Breton, 2004: 69). A conotação negativa das marcas corporais, principalmente a tatuagem, colocam o seu portador à margem da sociedade global devido à sua conotação negativa e também por serem marca de eleição dos grupos sociais marginais. Além de provocarem uma situação de posição social desfavorável têm simultaneamente um valor estigmático, como já observámos. No entanto, a tatuagem sofria de uma dupla moralidade: enquanto representava marginalidade entre camadas menos abastadas, ela representava riqueza entre grupos sociais mais favorecidos. Ou seja, para um portador de um estrato social desfavorável, a sua conotação seria negativa, sendo por isso marcado como um selvagem e marginal. Pelo outro lado, a tatuagem experimentada por estratos sociais mais elevados como a aristocracia tradicional europeia ou a alta sociedade americana era vista entre os seus membros como um sinal de riqueza, excentricidade e luxo. No final do século XIX e inícios do século XX começam a surgir autores como Lombroso, Lacassagne e Locard que apontaram ligações entre a tatuagem e o criminoso. Césare
73 Lombroso, referência da história da criminologia, causou uma revolução na sua época no que diz respeito ao Direito Penal e Medicina legal. Entre várias afirmações Lombroso apresentou a teoria de que o criminoso é nato, uma pessoa que está doente e deve ser tratada. Em 1876, em “o homem delinquente” Lombroso escreve: A primeira causa da difusão do uso da tatuagem, entre nós, creio que seja o atavismo (hereditariedade); ou a espécie de atavismo histórico, que é a tradição, como se a tatuagem fosse um dos caracteres especiais do homem primitivo e do homem em estado de selvageria. (Lombroso, 2007: 43) Este tipo de expressão corporal torna-se assim uma patologia criminal que é legitimada jurídica e medicamente, sendo ainda mais desvalorizada pela sociedade. À luz desta lógica, o corpo marcado funcionaria como uma prova de que o corpo está preso à sua biologia, e as marcas corporais são a prova visível que a pele do sujeito deixa transparecer (Ferreira, 2006). A pele marcada é considerada um “dado adquirido” ou uma “informação objetiva”, um texto ideográfico que é passível de ser traduzido e diagnosticado. Esse diagnóstico associa as marcas corporais a traços de personalidade com predisposição para desordens que se poderiam vir a manifestar sob formas patológicas e/ou criminais. A institucionalização médica e jurídica da época, que tinha esta visão naturalista, normativa e funcionalista da relação entre corpo e identidade, contribuiu para um maior peso sob a reputação social dos detentores deste tipo de marcas, acabando em última instância por solidificar ainda mais o estereótipo negativo no Ocidente. Em certos contextos, tatuagens e outros projetos corporais foram utilizados como marcas de infâmia (Le Breton, 2004: 31) onde a forma de punição por um crime cometido era gravada na pele do sujeito, como no caso de escravos, criminosos, prisioneiros, etc. Além de serem utilizadas como forma de punir comportamentos marginais e socialmente disruptivos, também serviam como forma de classificação e hierarquização, pois identificavam e “imortalizavam” um estrato social dominado. Sobre os membros destes grupos sociais (minorias étnicas e sexuais, escravos, criminosos, etc.) eram colocados números, letras ou figuras geométricas que os distinguiam, enquanto submetidos dos restantes indivíduos livres. Segundo Goffman (2004), em determinadas instituições totais, o sentido dado a estas marcas inverteu-se:
80 Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE). “Na Alemanha, Áustria e França, entre outros, há um sistema de vigilância dos efeitos adversos das tintas, à semelhança do que existe para os medicamentos e cosméticos. Por cá, nada disto existe ainda.” DECO PROTESTE https://www.deco.proteste.pt/saude/beleza-cuidados-pele/noticias/tatuagensespera-lei visitado a 22/10/2022 Ao contrário das leis relativas às tintas que têm vindo a ganhar forma nos últimos anos a par da monitorização dos lixos por parte de empresas de segurança e higiene de trabalho, a atividade do tatuador continua sem legislação (clara). Abrir um estúdio de tatuagem em Portugal implica um grande conjunto de burocracias: Tens de ter uma empresa, imagina não podes ser tu a colar essa cena (ficha de recolha de resíduos) tas a ver? Tem de ser uma empresa de segurança e higiene no trabalho, que te vem aqui, sinalizada tudo, mesmo a nível de fichas, eles vão ver tudo tas a ver? E depois passam tipo um relatório a dizer que está tudo em conformidade, se tiveres uma espécie de ASAE ou o que seja, tipo tu mostras os teus relatórios da empresa de higiene segurança no trabalho e tu tás legal, tás na boa. Agora se não tiveres nada disso é complicado. Apanhas multas paí até 75 mil euros, ou por aí fora se não tiveres as cenas… sei que na altura acho que aquele papel ali (aponta para o papel onde constam os números de urgência) dava 75 mil euros, tem polícia, ambulância por aí fora para tu veres, o livro de reclamações tem que tar visível e a cena da recolha de higiene e segurança, tipo a recolha, um certificado a dizer que uma empresa vem todos os meses recolher-me o lixo e resíduos tas a ver? (Tatuador, 6º ano de escolaridade, sexo masculino, 31 anos, Fafe, origem portuguesa) Tanta coisa… ter uma licença da câmara, ter que vir aqui o ministério da saúde pa ver, teve que… o que veio mais, isto já foi à muito tempo…. Teve que vir aqui um arquiteto para pôr as coisas como eles queriam, teve que vir a recolha de resíduos hospitalares e matérias perigosas, veio muitas coisas assim. Estou a dizer-te assim por alto, aquilo que eu me lembro. (Tatuador, 6º ano de escolaridade, sexo masculino, 31 anos, Fafe, origem portuguesa)
81 No entanto nada se encontra definido no que diz respeito ao exercício da atividade: das condições de higiene das instalações, às medidas a adotar durante a execução do trabalho, passando por regras de esterilização de agulhas e outros materiais de tatuagem, tudo está à consideração do(a) profissional. Não obstante, alguns sujeitos exercem sem formação e outros não têm brio para exercer a profissão. É desta forma que os nossos entrevistados recorrentemente fizeram referência aos tatuadores enquanto profissionais que confiam, a par dos profissionais tatuadores entrevistados que sublinham aspetos que fazem a diferença, no que diz respeito ao cliente voltar ao estabelecimento para marcas futuras. Sim, eu não fui às cegas, não fui às cegas, até porque quando se vai fazer uma tatuagem, não é? A gente tem que ir minimamente preparada, ou saber para onde vai, o que vai fazer, se há higiene se não há? Que tipo de tatuador é, porque é assim, seria desagradável nós termos tatuados no corpo algo e chegar alguém que até percebe, entre aspas, de tatuagens e dizer “pah, porra que desenho tão mal feito, ei que traço tão torcido”, vá seria horrível. A gente acho que nunca mais olhava para a tatuagem da mesma forma, portanto é uma das coisas que se calhar leva mais tempo, nem foi escolher o desenho é mais escolher onde, não é? E não é às cegas que a gente vai, portanto, não só por amigos, é obvio que são os que mais… as opiniões que mais nos caem, não é? Que são as opiniões que mais nos levam a querer na verdade, mas vamos por uma rede e por várias opiniões. (Responsável de loja, sexo feminino, 39 anos, Estorãos, origem portuguesa) Lá está… a arte é isso, que o pessoal tem que perceber e dar valor, o facto de seres um tatuar caro um tatuador barato, em chegar à beira de um tatuador, olha como eu fiz com as minhas, principalmente as maiores, as mais recentes tas a ver? Porque as primeiras eram copiadas, o “thug life” essas mais banais e dizer, olha por exemplo quem me tatuou estas duas grandes do Batman e do super-homem foi o João Fernandes (nome fictício) opah eu disse lhe “olha, quero o Batman… derivado a isto, isto e isto” então ele completou a peça tás a ver? Tipo a do Batman, da noite, tas a ver? Então ele fez a peça baseada na minha ideia. (…) Sim e ele cria a peça, chegas com a base. Dar valor ao tatuador é isso, é chegares lá com a base ou escolher “olha, escolheme um desenho fixe” e depois diz-me o que vais retratar sobre esse desenho
82 (expressando-se tanto como profissional tatuador e tatuado). Eu fiz uma tatuagem (perspetiva de tatuador) que é a medusa, com as cobras que significa o facto de seduzir os homens e pronto é isso, pegas na tatuagem e caracterizas como queres. (Tatuador, 6º ano de escolaridade, sexo masculino, 31 anos, Fafe, origem portuguesa) Essa pessoa em questão já conhecia antes de eu também exercer o trabalho de tatuador, entretanto opah, fui falando, fui falando, o rapaz foi crescendo enorme, o gajo lá está é o meu ídolo aqui em Portugal, para mim é dos melhores mesmo, não há hipótese, e opah fomos mantendo contacto, cheguei a ir lá tatuar, não é? É um grande amigo meu, o pessoal diz que é caro, eu acho que o rapaz tem o valor dele, acho justo… (Tatuador, 9º ano, sexo masculino, 29 anos, Medelo, origem portuguesa) O tatuador tem assim, um papel importante, não só pela forma como gere o estabelecimento, ou por ser um bom “artística”, mas também pelos conselhos que dá aos clientes, não só ao nível do desenho em si e o seu significado (estético e simbólico), como algo separado, mas também da sua junção, enquanto um projeto coeso. (…) falo da tatuagem (esclarecimento de dúvidas) , porque às vezes vêm pessoas fazer algumas tatuagens que nem sabem o significado da tatuagem, eu quando o sei explicole para ver se a pessoa quer fazer mesmo aquela tatuagem, pode querer por estética e depois pode ter um significado que a pessoa nem gosta. E acaba por nem fazer aquela e mudar o gosto. (citação parcialmente utilizada anteriormente) (Tatuador, 9º ano escolaridade, sexo masculino, 40 anos, Fafe, origem portuguesa) Além disso, os nossos profissionais salientam a forma como vivem aquele momento, como presenciam cada tatuagem, na medida em que e sendo muitas das suas tatuagens feitas por um motivo simbólico, a necessidade que os clientes têm de enquanto estão a ser marcados e por vezes a dor “aperta” de irem falando o profissional, descritos até em certa medida como “psicólogos”. Em 2018, um estudo conduzido pela DECO PROTESTE, que envolveu 40 estabelecimentos em Lisboa e Porto concluiu que mais de metade não levantava dúvidas aos jovens que
83 desejavam marcar a sua pele, nomeadamente se tinham autorização de seus pais ou educadores para tal. Por conseguinte, jovens de 14 e 15 anos conseguiram marcar uma sessão sem qualquer dificuldade. A par dos estúdios de tatuagem, o mercado de remoção de tatuagem também não apresenta qualquer norma/ legislação específica. A remoção de tatuagens definitivas pode ser realizada por técnicas a lazer, contudo é um processo dispendioso. A remoção exige que o profissional tenha conhecimentos médicos e na generalidade é mais adequada quando acompanhada de uma indicação médica (Santos, 2020). O vazio legal pode pôr em causa a segurança do consumidor que recorre aos serviços e, de certa forma, desmerece os bons profissionais, que investem em condições e formação adequadas. Além disso, está em contramão com a lei relativa à incineração de resíduos, na qual são referidos expressamente os estúdios de tatuagem, entre outros estabelecimentos. Segundo a lei, o desperdício resultante da tatuagem, como agulhas e outro material, é equiparado a “lixo hospitalar”, por conter sangue e excreções. Deste modo, deve ser recolhido por empresas especializadas e, posteriormente, incinerado. Se os resíduos são produtos de risco, a atividade que os produz não deveria estar sujeita a normas específicas, como acontece noutros países? (DECO PROTESTE) https://www.deco.proteste.pt/saude/beleza-cuidados-pele/noticias/tatuagens-espera-lei visitado a 22/10/2022 Os nossos profissionais entrevistados falam do aspeto higiénico não só como uma prioridade no momento de fazer a tatuagem, mas também de modo a manter o estúdio higienizado. Assim, além de ambos profissional e cliente terem uma experiência segura e higienizada, procura-se também um estúdio limpo e em ordem, seguindo por isso um conjunto de procedimentos minuciosos: Sim, sempre, sempre. Se fores o meu cliente habitual claro que não te vou estar a dizer sempre a mesma coisa. Mas a primeira vez que entras no meu estúdio, sou sempre obrigado a dizer, os meus materiais são todos descartáveis, americano (tintas) não há cá Taiwan, tudo descartável, tudo desinfetado, sempre… mudar várias vezes de luvas. A cena da higiene aqui é uma prioridade, a higiene é a prioridade numa tatuagem. Sejas um iniciante, sejas um médio termo, profissional. Não interessa o teu valor no
84 mundo da tatuagem, mas sim a tua higiene que é o primeiro passo, isso é obrigatório. Isso é uma cena que eu muito, muito, muito, muito valor…isso é uma coisa que tu não podes mesmo vacilar. Desde desinfetares a marquesa, a tua mesa de trabalhos, o espaço (o estúdio de tatuagens), todos os dias o espaço desinfetado… não, não! Isso não podes vacilar. (…) Depois és obrigado a ter a recolha de produtos, de resíduos tas a ver? Que é o caixote donde [SIC] contém as tintas que sobram com sangue, as agulhas, um recipiente próprio que é para a recolha. Para depois queimar, incinerar. (Tatuador, 6º ano de escolaridade, sexo masculino, 31 anos, Fafe, origem portuguesa) A Comissão Europeia alertou para a necessidade de legislar em todos os Estados-membros, de modo a garantir cuidados de higiene e segurança adequados aos que desejem fazer uma tatuagem. Em 2005, a DECO PROTESTE entregou um manual de boas práticas para tatuagens e piercings ao então secretário de Estado do Comércio, Serviços e Defesa do Consumidor. Novamente, em 2008 foi apresentado um projeto de lei, que abrangia na maioria as mesmas propostas, contudo nada foi feito. Posteriormente em 2011 e 2018 o projeto foi mais uma vez colocado em suspenso. O conteúdo do projeto de lei, em linhas gerais, continua o mesmo, pelo que necessita de uma revisão e que esta seja feita com alguma periocidade. Além das regras de higiene para os espaços, na lei continua a existir um vazio no que diz respeito aos procedimentos a seguir na atividade e formação dos tatuadores. Em 2020 o Partido Ecologista “Os Verdes” apresentou um projeto de resolução, na Assembleia da República, para regulamentar os parâmetros de higiene e segurança. O projeto de resolução recomendava ao Governo um diploma legal que garantisse “o equilíbrio e a sustentabilidade da prática de colocação de piercings e tatuagens e que defina os procedimentos, evite ambiguidades e assegure padrões de segurança na prestação destes serviços” NASCER DO SOL https://sol.sapo.pt/artigo/716339/pev-quer-regulamentarcolocacao-de-piercings-e-tatuagens visitado a 22/10/2022. A lei é indispensável para garantir a qualidade e segurança dos serviços ao consumidor, nomeadamente pelo facto destes processos de marcação corporal envolverem risco de infeções cutâneas, alergias, cicatrizes e hemorragias. Se o material não estiver bem esterilizado, o espaço ou o profissional não respeitarem as regras de higiene na sua plenitude, o estabelicmento poderá ser propício à transmissão de doenças graves, como VIH/SIDA e hepatites. Não obstante, certas condições de saúde, tais como doenças de pele e cardíacas,
85 diabetes e problemas imunitários necessitam de ser levadas em conta, de modo a não prejudicarem o consumidor e como tal é crucial que o mesmo partilhe a sua situação com o profissional. Tocar na pele de uma pessoa, além de teres as regras base de higiene obrigatórias, é uma situação muito delicada, porque tu só podes ir até à derme, tas a ver? Então se furares mais… tens de perceber de agulhas, da profundidade, porque se furares muito a pele da pessoa vai dilatar e entra-te dentro da gordura até ficas com uma mancha azul da tatuagem tas a ver? (Tatuador, 6º ano de escolaridade, sexo masculino, 31 anos, Fafe, origem portuguesa) Além das medidas tomadas para ter um estúdio seguro e higienizado o profissional procura fazer análises periodicamente pelo seu “descanso próprio”: Já, quando todos os anos, a entidade de higiene e segurança tas a ver… obrigam-te, obrigam-te não, tu pagas não é, vais a um laboratório, fazes análises ao sangue, urinas e por aí fora e é então a entidade de higiene e segurança no trabalho na medida em que se encarrega disso, mas também pelo teu descanso próprio…Não queres estar doente, não sabes. (Tatuador, 6º ano de escolaridade, sexo masculino, 31 anos, Fafe, origem portuguesa) No que diz respeito à visita dos estabelecimentos de modificação corporal por entidades competentes para verificar a sua regularização, esta é (praticamente) inexistente. Segundo os nossos testemunhos, estas entidades vão aos estúdios em duas estâncias, ou quando algum cliente descontente, pede a uma entidade de higiene e segurança visitar o local ou quando o estúdio de tatuagem é inaugurado e as autoridades vão verificar se ambos local e profissional estão aptos. Não, não, não! Ah desculpa tive (inspeção nos últimos 7 anos) uma, sim senhora tive no outro lado, na minha primeira loja quando na altura tava a parte estética e a rapariga teve um problema qualquer, não sei quê, a nível de faturação e vieram-me aqui à loja tipo… pedir-me faturas, por aí fora tas a ver? Por acaso tive uma inspeção
86 tive… A nível de faturação, porque antigamente eramos estética e tatuagem, eu faturava a minha parte da tatuagem, ela (ex namorada) faturava a parte estética. E acho que na altura houve um problema quando pá, pronto né cada um vai à sua vida, ela saiu da loja, tipo passado meia dúzia de dias tive uma inspeção na loja. (Tatuador, 6º ano de escolaridade, sexo masculino, 31 anos, Fafe, origem portuguesa) Eu já mudei de lojas várias vezes (…) Eu tive noutra loja, tive dez anos. Depois nesta, mal abrimos nesta, vieram logo duas vezes, na outra não vieram. (Tatuador, 9º ano escolaridade, sexo masculino, 40 anos, Fafe, origem portuguesa) Não, só mesmo para ver se tem placas, se tem extintores e não sei quê, mais nada. Mas lá está, não existe lei em Portugal, uma pessoa tem é de ir mesmo por… consciência e fazer as coisas bem feitas e limpas. (Tatuador, 9º ano, sexo masculino, 29 anos, Medelo, origem portuguesa) Damos assim conta que abrir um salão de tatuagem/body piercing em Portugal não é uma tarefa fácil. Ao mesmo tempo que são exigidos vários procedimentos e burocracias, a lei não é explicita em vários pontos, especialmente no que diz respeito a procedimentos de higiene e segurança no trabalho. Assim, os profissionais entrevistados procuram por iniciativa própria, mais do que perceber a linha entre o que é legal e o que deixa de ser (e suas respetivas consequências), ser o mais rigorosos possível. Além disso admitem que apesar deste vazio legal, comparativamente ao passado, as entidades de proteção e segurança no trabalho (apesar da sua escassa intervenção) são bastante mais rigorosas. Eu penso que já mudou bastantes coisas, quando abrimos a primeira vez, foi mais fácil, agora as coisas estão mais difíceis. (…) Tipo isso de matérias perigosas, de higiene e segurança, do lixo que vêm buscar… de essas empresas que antigamente se calhar não existiria isso e agora é. (Tatuador, 9º ano escolaridade, sexo masculino, 40 anos, Fafe, origem portuguesa)
87 Não, de todas as formas é como eu te digo, tipo, se esses ( entidade da segurança e higiene no trabalho) se vêm nesse dia, daí eu pagar a uma empresa que se ocupa de me verificar, se tenho por exemplo, se a ficha não está bem ali, olha X tens que mudar isto, tens que mudar aquilo, tens que mudar isto, tens que mudar aquilo, que isto vai-te dar multa, aquilo não te vai dar multa podes deixar estar é isso que ele faz, eu pago uma empresa para vir mesmo à loja, avaliar tudo se tenho correto ou incorreto, se está incorreto tenho que corrigir para não me dar nenhum tipo de problema. Tipo apanhares uma multa de 50 mil euros aqui é fácil, muito fácil mesmo, basta teres, imagina sei lá, uma agulha caiu-te ao chão, pá não destes fé, caiu-te ao chão… esqueceste-te… tavas a tatuar e meteste a agulha na máquina, a agulha saltou-te, tu não queres mudar de luvas e queres ir lá rápido, pá calhou-te… esqueceste-te ali, é um motivo pra fechar-te a loja. (Tatuador, 6º ano de escolaridade, sexo masculino, 31 anos, Fafe, origem portuguesa) 2.2 Legislação nos países da UE Um estudo feito pela Comissão Europeia “Safety of tattoos and permanent make-up Compilation of information on legislative framework and analytical methods” em 2015, compilou as respostas dos países membros e alguns não pertencentes, a um questionário que pedia as informações sobre o quadro legislativo relativo às tatuagens e às PMU (permanent make-up). O questionário contemplava questões ligadas às legislações/propostas de legislação, controlo de químicos, higiene, embalagem, rotulagem, requisitos e procedimentos para tatuar, controlo de de riscos, entre outros como a proibição de tatuagens em determinadas partes do corpo, idade legal, etc. Segundo o mesmo, Bélgica, França, Alemanha Holanda adotaram na altura legislação especifica baseada na CoE ResAP (Council of Europe Resolution), enquanto Espanha, Eslovénia e Suécia adotaram os princípios da mesma. Áustria, Dinamarca e Letônia tinham um projeto de legislação baseado na mesma e recomendações que estavam em lista de espera. Itália, Malta, Romênia e, até certo ponto, República Checa, Finlândia e Eslováquia regulamentaram apenas práticas de tatuagem e segurança de instalações, ou seja, para garantir que a saúde e os requisitos higiênicos fossem atendidos, mas não transpuseram o CoE ResAP
88 para o seu regime legislativo nacional. Na Eslováquia e na Itália, as autoridades de saúde pública realizavam vigilância do mercado de tintas de tatuagem. Croácia, Chipre, Grécia, Irlanda e Polônia não possuíam textos legais específicos sobre atividade de tatuagem. Bulgária, Estónia, Portugal e Luxemburgo até ao momento não tinham legislação específica. Luxemburgo estava prestes a adotar requisitos de higiene em estúdios de tatuagem, inspirado na legislação francesa nesta matéria. Alguns exemplos de medidas especificas tomadas: em 2013, a França atualizou a sua lista de substâncias proibidas de acordo com o CoE ResAP (2008) e a proibição de corantes sensibilizantes. Os países que incorporaram as disposições do CoE ResAP (2003) na sua legislação, nomeadamente a Bélgica, França, Alemanha e Holanda, não aplicaram limites para impurezas em tintas de tatuagem, enquanto aqueles que incorporaram o CoE ResAP (2008) (Eslovênia, Espanha e Suécia), tinham tais limites. Os requisitos mínimos de higiene para estúdios de tatuagem e os limites de idade para o cliente estavam legislados na maior parte dos Estados-Membros da UE. As provisões frequentemente exigiam esterilidade da tinta e uso único de materiais e produtos. Antes de colocar uma tatuagem ou produto no mercado, o fabricante/importador notificava as autoridades competentes sobre possíveis efeitos adversos à saúde, e ainda apresentavam um relatório de avaliação de segurança em alguns países como por exemplo na República Checa e Eslovênia. Na França e Espanha, os testes em animais eram expressamente proibidos pela legislação francesa. Os requisitos de rotulagem para tintas de tatuagem e PMU estavam presentes em todas as legislações consideradas. Além disso, na Alemanha e na Suécia, o rótulo devia mencionar a data de validade após a sua abertura. Enquanto a França estabeleceu um sistema nacional de vigilância para tatuagens, a Alemanha e a Itália estavam a realizar atividades de vigilância/monitoramento para avaliar a conformidade com regulamentos e orientações higiênico-sanitárias. Um sistema de notificação de efeitos indesejáveis estava presente em países como Áustria, França, Romênia, Holanda. Além disso, era obrigatório em quase todos os consultados um consentimento por escrito do cliente, ou do seu responsável legal. A autorização para realizar atividades de tatuagem era obrigatória na Bélgica, República Checa, Itália, Holanda, Malta, Roménia, Eslovénia e Eslováquia. A especialização era obrigatória para tatuadores na Bélgica, República Tcheca, França, Itália, Romênia e Suécia. Ambos os requisitos também estavam previstos na legislação austríaca, letã e projeto de lei
89 dinamarquês. Curiosamente na Dinamarca uma lei que vigora desde 1966, proíbe o uso de tatuagens em certas partes tais como na cabeça, pescoço e mãos. Como podemos verificar, vários países desenvolveram ao longo dos anos legislações específicas. Simultaneamente, a passo mais lento, outros tantos para lá caminham. Contudo, ainda existem países onde a tatuagem é bastante restrita ou até mesmo ilegal. Há alguns anos, a Turquia introduziu uma série de medidas rigorosas, incluindo a proibição de tatuagens nas escolas como parte de uma revisão do sistema educacional do país. Os líderes religiosos do país emitiram uma fatwa (decisão jurídica baseada na lei islâmica) contra as tatuagens. Não obstante, os estudantes são proibidos pelo governo turco de obtê-las. Em 2015, o Irão decidiu proibir as tatuagens, bem como os cortes de cabelo espetados, alegando que incitam a “adoração ao diabo”. Os iranianos conservadores vêem esses movimentos como um sinal de ocidentalização, que viola os regulamentos do sistema islâmico. O regime iraniano pauta-se por uma interpretação estrita da lei Sharia (sistema jurídico do Irão, que se baseia no Alcorão), com agências que devem agir em cada caso individual de violação na vida pública. No Sri Lanka, não se trata de ter tatuagens, mas sim, do tipo de tatuagem que o usuário possui. Por exemplo, designs com imagens budistas podem ser ofensivas culturalmente. Embora alguns países tendam a ser mais tolerantes com turistas tatuados do que com residentes tatuados, em 2014 uma turista britânica foi presa por causa de possuir um buda tatuado. Podemos assim verificar que violações nesta matéria são um assunto levado de forma rígida por parte das autoridades do Sri Lanka. O Japão, desde há centenas de anos tem sido uma inspiração no que diz respeito às tatuagens. No entanto, existem certas associações culturais que tornam a relação do Japão com as tatuagens bastante difícil. A tatuagem era recorrentemente utilizada para marcar os criminosos, o que tornava permanente o seu status de marginal. Essa mesma prática acabou por ser adotada por gangues. Embora nos últimos anos as atitudes perante a tatuagem se tenham inclinado cada vez mais para a sua aceitação, as associações entre tatuado e fora da lei, marginal, etc, não desapareceram totalmente. Até ao momento, ainda existem locais públicos que proíbem os seus usuários de entrarem caso as suas tatuagens estejam à vista, tais como certas piscinas, hotéis, spas e banhos públicos, bares, ginásios e lojas de comércio. Na Coreia do Norte a tatuagem não é ilegal, contudo ela é sujeita a algumas regulamentações, tal que necessita de estar relacionada a algum tipo de elemento ideológico, como fazer um
4Veja o exemplo da revista “Total Tatoo” uma revista anglo saxónica de visibilidade internacional. 5Como o caso da Revista Vernáculo nº 37 “A tatuagem como linguagem artística na contemporaneidade”. 6Como por exemplo Oporto Tatoo Expo, Lisbon Tatoo & Rock Festival e Freedom Tattoo Expo. 96 nível de figuras públicas. (Barbeiro, 10º ano de escolaridade, sexo masculino, 27 anos, Fafe, origem portuguesa) A construção destas marcas está em grande medida ligada à originalidade e à autenticidade que é perseguida pelo sujeito, sendo investida sob a forma de projetos corporais. O aspeto artístico a elas relacionado foi progressivamente reconhecido e legitimado na sociedade, seja através de revistas artísticas4 ou científicas5 ou através de eventos6. Esta legitimação deriva também do facto de tanto em Portugal como em outros locais do mundo os tatuadores estarem recorrentemente ligados às artes visuais, ao design gráfico e às artes plásticas: Depois a partir daí, da minha primeira tatuagem estava a frequentar um curso, mas decidi desistir do curso e trabalhar numa loja de tatuagem, em que era assistente (…) Depois de ter feito o meu primeiro risco, disse que era isto que eu queria estás a ver? (…) Além de não ter continuado na parte escolar, não é? Mas depois disso fiz um curso de desenho durante um ano, privado, percebes, com um professor de artes e pronto (…) Comecei a trabalhar tipo a treinar em pele de porco e por aí fora, não é? Tendo as indicações base para tu puderes tatuar uma pessoa (…). (Tatuador, 6º ano de escolaridade, sexo masculino, 31 anos, Fafe, origem portuguesa) Basicamente onde eu estava a trabalhar não estava muito bom era um trabalho de família e então decidi procurar trabalho fora do país, até que o meu irmão disse “tu não gostas de desenho?”, “gosto”, “não gostas de arte?” e eu “adoro!”, por acaso eu sempre quis ser arquiteto ou assim uma cena mais…. E o meu irmão disse “pronto olha inscrevi-te num curso deves-me mil e oitocentos euros e vais ser tratador” e foi assim que começou. (Tatuador, 9º ano, sexo masculino, 29 anos, Medelo, origem portuguesa Em vários casos, jovens destas áreas sentem-se insatisfeitos com as limitações expressivas do seu trabalho procurando, por conseguinte, novos horizontes. Desta forma elegem a tatuagem como meio privilegiado de expressão (Ferreira, 2006: 229).
7Nem todos têm competências, aptidões e o “brio” necessário (como afirmam os nossos profissionais entrevistados) para exercer tal profissão 97 Assim, os tatuadores proclamam a tatuagem como uma arte inovadora, que não é para todos7 e transcende aquilo que são os desenhos padronizados, passando a elaborar desenhos originais, criados e/ou aprimorados pelos mesmos. a tatuagem é uma arte corporal de decorares o teu corpo, tu decoras o teu corpo… é como uma tela, tu vais decorar o teu corpo e tu vês cenas que tu gostas e dizes “ya, ficava bem aqui”, olha gosto de fazer sei lá, tanta coisa, um símbolo da força, proteção. Tu assim, tu podes assimilar tipo uma tatuagem que tu gostas um desenho, não é propriamente um boneco, mas uma imagem mesmo realista que vais assimilar tipo para certo efeito, como o olho de Hórus, por exemplo que é o símbolo da proteção tás a ver? (Tatuador, 6º ano de escolaridade, sexo masculino, 31 anos, Fafe, origem portuguesa) 3.2 Atitudes perante as marcações corporais e perfis da clientela Um estudo lançado em 2021 em Portugal e organizado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos: “Os jovens em Portugal, hoje” analisou 2,2 milhões de jovens em Portugal (21,5% da população que residia em Portugal naquele momento). Para isso recorreu a dados do INE/Pordata acerca da faixa etária entre os 15 e os 34 anos de modo a aprofundar o entendimento face ao que pensavam e sentiam as mulheres e homens jovens em Portugal relativamente a uma diversidade de temáticas. Segundo os resultados podemos verificar a heterogeneidade entre clientelas (Sagnier & Morell, coords., 2021) que é apontada pelos nossos entrevistados. O mesmo fora referenciado também no caso português em 2006 na tese de doutoramento de Vítor Ferreira que se debruçou no Inquérito Nacional aos Jovens Portugueses realizado 2000 e publicado em 2003 (Pais & Cabral Coords., (2003) já abordado no capítulo anterior), onde constatou que a apropriação de marcas corporais era relativamente transversal do ponto de vista do género, origem de classe e da estrutura do capital escolar. O mais recente estudo em 2021, abordou múltiplas formas de intervenção corporal (tatuagens, piercings, dilatadores e cirurgias plásticas) tendo como variáveis o sexo e o nível de escolaridade.
98 Quando questionados sobre se já fizeram alguma intervenção no corpo por razões estéticas (Quadro 3), mais de um terço (37%) disseram que já tinham feito sendo que 3% tiraram, deixaram de usar ou se desfizeram. Até aquele momento 26% disseram que ainda não tinham feito admitindo que iriam fazer no futuro e por fim 37% disseram que nunca tinham feito nem iriam fazer. Quadro 3: Intervenções no corpo por razões estéticas (%) Fonte: Fonte: Sagnier & Morell, coord., (2021: 231) Dos 34% que já tinham feito alguma intervenção no corpo naquele momento, 45% eram do sexo feminino e 22% eram do sexo masculino. Assim, damos conta que as mulheres são mais audazes no que diz respeito às intervenções no corpo na sua generalidade. O mesmo já fora referenciado na tese de doutoramento de Victor Ferreira em 2006. Além disso, segundo o mesmo, a distinção de género entre aqueles que decidiram fazer modificações corporais mais iconoclastas nomeadamente a tatuagem e piercings era pouco significativa (cerca de 1/3 das mulheres e homens jovens) (Ferreira, 2006: 230). No estudo de 2021, 37% dos jovens diziam não ter feito tatuagens até aquele momento e que nunca o fariam, sendo que 27% eram mulheres e 48% eram homens. Ainda de acordo com o mesmo, dos 34% dos jovens que já tinham feito intervenções no corpo e ainda tinham, 30% terminaram ensino do básico, a par de 31% que terminaram o ensino superior. O destaque vai para os 39% que correspondem aos alunos que terminaram o ensino secundário ou pós-secundário. Da mesma forma, dos 27% dos jovens que não fizeram e nunca fariam uma intervenção no corpo por razões estéticas, 41% terminaram o ensino secundário, a par de 40% que terminaram o ensino superior contrastando os estes dois últimos com a menor percentagem (32%) de jovens que terminaram o ensino secundário ou pós-secundário.
99 No presente estudo as intervenções corporais não estão discriminadas (são consideradas pelo estudo apenas como “intervenções corporais”), o que faz com que não possamos saber a proporção exata dos dados. Contudo podemos adiantar algumas conclusões. De acordo com Ferreira (2006), verificou-se uma tendência bastante clara, a partir das conclusões do questionário da sua tese7, no que diz respeito às modificações corporais: com o crescimento do capital escolar e da posição social do indivíduo, mais recorrente se tornaria a concretização efetiva de marcas corporais e maior seria a predisposição para a sua mobilização. Contudo, o uso de marcas corporais não varia de maneira uniforme com o estatuto e/ou escolaridade do seu portador (Ferreira, 2006:231). Desta forma, acredita-se numa maior disponibilidade e provável incorporação entre jovens de estatutos sociais mais altos, o que aponta para o valor simbólico que as marcas corporais vieram a adquirir enquanto objetos socialmente distintivos destes estratos sociais (Quadro 4). Como observámos anteriormente, a insatisfação do/a jovem em relação ao seu corpo faz com que este adira a práticas de modificação corporal, tais como dietas ou cirurgias plásticas. Contudo, as práticas de marcação corporal e a variação de autoestima corporal não obtiveram comprovativo estatístico, não sendo por consequente possível relacioná-las com o grau de satisfação corporal do/a jovem (Ferreira, 2006: 231). No entanto, o risco que lhes é atribuído acaba por afetar diretamente a relação do jovem com as práticas de tatuagem e piercing (Ferreira, 2006:231). A (maior ou menor) consciencialização social dos riscos para a saúde ligados a determinadas práticas de intervenção pode influenciar o modo de como escolhemos os regimes que queremos utilizar no nosso corpo (Pais & Cabral Coord., 2003: 286-289).
100 Quadro 4 Atitudes perante práticas de marcação corporal, segundo o estatuto social (%) Fonte: Fonte: Pais & Cabral coords, (2003: 328) Como observado no quadro 5, as marcas corporais são uma prática mais recorrente nas zonas urbanas. Desta forma, os jovens do meio urbano são aqueles que mais incorporam estas práticas, principalmente no que diz respeito à sua concretização efetiva (Ferreira, 2006: 233) verifica-se, assim, uma maior predisposição e aceitação do valor da diferença. Embora se verifique uma relativa abertura dos jovens rurais em relação ao uso de piercings ou tatuagens, a dificuldade de acesso aos meios que permitem essas práticas, bem como mecanismos de vigilância e controlo social sobre o corpo, podem inibir a sua capacidade de concretização (Domínguez, 2005).
101 Quadro 5 Atitudes perante práticas de marcação corporal, segundo o habitat (%) Fonte: Fonte: Pais & Cabral coords, (2003:332) Estas práticas são mais recorrentes nos jovens, maioritariamente entre aqueles que estão fora do mercado laboral, estudantes e desempregados (Quadro 6). Pelo contrário, a prática de marcação corporal vai decrescendo com a transição para a idade a adulta (Figura 1).
102 Figura 1 Jovens que já fizeram ou admitem vir a fazer uma tatuagem ou um piercing, segundo o grupo etário (%) Fonte: Fonte: Pais & Cabral coords, (2003: 331) Este facto justifica-se em grande medida pela vigilância e controlo social mais apertados que são exercidos sobre os corpos e aquilo que neles se pode modificar, nomeadamente quando os jovens entram no mercado de trabalho (Ferreira, 2006: 235). A imagem do jovem candidato a um posto de trabalho é em vários casos um critério de seleção e admissão e como tal exige que estes se adequem às expectativas da entidade empregadora. Em determinadas profissões, nomeadamente no setor terciário, o aspeto visual está em várias instâncias internamente codificado e apresentado em termos contratuais que o empregado é obrigado a cumprir. Por outro lado, desempregados são aqueles que estão fora do controlo e vigilância social de aparência no mercado laboral, e por isso lhes é permitido investir em modificações corporais relativamente mais ousadas como a tatuagem ou o piercing. Contudo, o facto de estarem desempregados pode também ser justificado precisamente pelo visual mais ousado. Desta forma, os estudantes, trabalhadores-estudantes e desempregados são aqueles que mais incorporam estas marcas. Isto deve-se ao facto de por um lado ser uma manifestação juvenil recorrente entre estudantes que têm capital económico suficiente para aceder a estas práticas, que podem ser bastante dispendiosas. De certo modo, a percentagem mais alta que se verifica
103 entre os trabalhadores-estudantes está relacionada com o facto de estes entraram no mercado de trabalho, ocupando cargos precários e temporários, que em certos casos apresentam poucas ou nenhumas prescrições no regulamento contratual no que diz respeito à imagem do trabalhador. Por outro lado, como já observámos em capítulos anteriores, o investimento em práticas corporais pode também ser explicada pela atitude de desvinculação social por parte de indivíduos que volutaria ou involuntariamente se encontram à margem de uma determinada ordem social, sendo um desses casos precisamente o mercado de trabalho. Quadro 6 Atitudes perante práticas de marcação corporal, segundo a condição perante o trabalho (%) Fonte: Fonte: Pais & Cabral coords, (2003: 334) 3.3 Localização das marcas corporais Ao contrário da transversalidade que se verifica entre géneros, no que diz respeito a quem se tatua, o mesmo não acontece quando falamos nas zonas escolhidas para se tatuar. De acordo com os profissionais entrevistados as zonas mais escolhidas para tatuar correspondem a locais relativamente mais discretos que podem ser cobertos por peças de vestuário.
104 Braços são os mais escolhidos, braços, pernas… tenho feito muito seios nas mulheres… (Tatuador, 6º ano de escolaridade, sexo masculino, 31 anos, Fafe, origem portuguesa) É braços, pernas, costas. (Tatuador, 9º ano escolaridade, sexo masculino, 40 anos, Fafe, origem portuguesa) Os mais escolhidos acho que são mesmo braços e pernas (Tatuador, 9º ano, sexo masculino, 29 anos, Medelo, origem portuguesa) As zonas menos comuns são as zonas mais íntimas, a par de tatuagens no rosto É pés, porque dói muito, órgãos genitais, cara e… cabeça, fundo das costas já não se faz tanto também… no ano passado fez-se muito, vai mudando. (Tatuador, 9º ano escolaridade, sexo masculino, 40 anos, Fafe, origem portuguesa) (…) os menos habituais nas zonas púbicas, só fiz duas tatuagens de minha vida de sete anos de profissão, foi uma data de casamento (que o homem depois até teve de se separar) e depois a outra foi um jogo do galo, nunca mais me esquece. (Tatuador, 6º ano de escolaridade, sexo masculino, 31 anos, Fafe, origem portuguesa) Os menos escolhidos, pah talvez na zona da virilha se bem que já tenho feito algumas, tá-se a usar um bocadinho mais agora, pah há certas zonas que é mesmo, na virilha dói um bocadinho mais, nas axilas é horrível, as costelas as pessoas evitam muito, mas acabam na mesma por fazer, porque há certas tatuagens que fica bonito na costela, não é? Mas evitam sempre um bocadinho… e a barriga. Era uma zona que num tinha tatuado e este ano já fiz paí quatro barrigas. (Tatuador, 9º ano, sexo masculino, 29 anos, Medelo, origem portuguesa)
105 Figura 2Localização de tatuagens no corpo entre aqueles que a fizeram (N=512). As análises são baseadas em dados de uma variedade de pesquisas por Longitudinal Internet Studies, Social sciences (LISS) panel administered by CentERdata (Tilburg University, The Netherlands). Amostra representativa de indivíduos holandeses tendo como base as variáveis: idade, sexo, composição familiar, educação e várias medidas de renda atualizadas em intervalos de tempo regulares por um membro da família. Fonte: Dillingh et al, (2019: 193) Os braços são uma opção predominante masculina, um local de maior visibilidade (Hill, 2016:7), símbolo de força, pujança e virilidade que está ligada à identidade masculina, à ideia de homem que é musculado e tonificado (Ferreira, 2006: 239). No caso das mulheres, apesar dos locais escolhidos para se tatuarem serem mais diversificados, tal como no caso dos homens existem locais de inscrição dominante feminina. Na sua generalidade são menos visíveis diante do público (Hill, 2016:7), nomeadamente a barriga, o fundo das costas, a zona genital e as nádegas (Quadro 7), o que vai de encontro a uma lógica que está diretamente ligada às zonas mais sensuais e desejadas pelo sexo
112 Estava bastante nervosa, porque nem eu nem ela (amiga), nunca tínhamos feito, ou seja, tínhamos receio que doesse, não é? Nunca tínhamos feito nenhuma e então estávamos um bocadinho nervosas e… com medo que doesse muito e basicamente foi isso e pronto. (…) Talvez ficar bem (a tatuagem) direitinha, nós também pesquisamos a tatuadora e pareceu-nos que era boa, por isso estávamos confiantes relativamente ao trabalho, mas relativamente à dor (expectativas)… sim, sim maioritariamente, sim (Gestão de marca, licenciatura, sexo feminino, 26 anos, Fafe, origem portuguesa) Não vou dizer nervoso, mas senti-me excitado, por assim dizer, por ir fazer a tatuagem, acho que era uma experiência nova pra fazer e acho que foi uma experiência tranquila, foi uma tatuagem pequeninha, não durou muito. (…) Não tinha assim expectativas especiais para fazer a tatuagem, mas em termos de experiência, acho que não foi o melhor tatuador que foi…, mas a tatuagem sendo simples, saiu bem (Estudante Universitário, sexo masculino, 23 anos, Arões, origem portuguesa) Eu achei que me ia sentir, que ia ter medo, achei que ia ser assim… tava um bocadinho nervosa, mas ao mesmo tempo, lá está, com a colega e eramos as duas fortes entre aspas, nesse sentido de “ vai correr bem”, estava empolgada e na sala de espera do tatuador foi engraçado porque, estávamos à espera, estava uma rapariga a tatuar e nós só ouvíamos gritos “ ai, ai, ai, ai” e nós “ui, isto vai ser assim?” tal e coiso…Quando a imaginarmos a tatuagem da rapariga, deveria ser ali uma tatuagem enormíssima para ela estar aos gritos e numa parte assim muito frágil. Entretanto a rapariga sai e nós reparamos que ela tinha feito uma tatuagem na zona da omoplata e era uma coisa minúscula, um coraçãozinho e eu “bem, se ela vai ser um coraçãozinho na omoplata e ela deu estes gritos todos, quando formos nós e temos a ideia que temos, bem vai ser um caos” (Responsável de loja, feminino, 39 anos, Estorãos, origem portuguesa) A minha expectativa era que doesse menos, mas doeu mais. Foi difícil… (Tatuador, 9º ano escolaridade, sexo masculino, 40 anos, Fafe, origem portuguesa)
113 O momento de marcação corporal é uma prova tanto física como moral (Le Breton, 2004: 118): física porque se lhe associa o receio da dor, não unicamente no ato em si, mas também pelos dias que a precedem, tanto pela cicatrização como em possíveis complicações. Moral no sentido em que o sujeito pretende demonstrar tanto a si próprio como aos outros que é capaz de ultrapassar essa prova física e é por isso digno do universo da tatuagem: um espaço de coragem, de resistência e de indiferença perante os juízos exteriores e das convenções corporais predominantes. Passada a tão esperada experiência, o momento um tanto demorado característico das tatuagens, “a familiaridade que se vai construindo atenua o sofrimento da sensação, até que, depois de vivido na sua totalidade, habitualmente assoma alguma surpresa, por vezes até desilusão, considerando a expectativa da dor implicada” (Ferreira, 2006: 266). Assim, o preconceito a cerca da dor é (re)construído, onde este, em comparação com as expectativas a priori, tende em vários casos a ser desdramatizado. O sofrimento que se esperava da experiência desaparece acabando assim, por restar apenas um desconforto na pele causado pelas agulhas. Pah, estava sempre à espera que acabasse, fogo. Mas depois uma pessoa interioriza a dor e tipo tás à vontade né, mas ao começar custou-me um bocadinho. Mas, depois habitua-se à dor (…) (Tatuador, 6º ano de escolaridade, sexo masculino, 31 anos, Fafe, origem portuguesa) Estava cheia de medo, pensei que me ia doer horrores, que fiz logo meio antebraço inteiro e não. Aquilo foi mesmo super tranquilo foi a tatuagem que menos me doeu e toda a gente dizia que era uma zona que doía por causa dos ossos da mão e assim mas não, não dói nada. (Barbeiro, 10ºano escolaridade, sexo masculino, 27 anos, Fafe, origem portuguesa) Acho que a zona em que eu fiz não é das que dói mais, mas acho que a dor é bastante tolerável e não é por causa disso que uma pessoa deixa de fazer, é a primeira impressão, depois habituas-te… (Estudante universitário, sexo masculino, 23 anos, Arões, origem portuguesa)
114 Como podemos observar, os entrevistados relativizam a dor física e psicológica, transferindoas às condições pessoas, situacionais e culturais do momento (Ferreira, 2006: 267). Segundo Le Breton (2004: 181) “a sua relação com a dor é singular”, ou seja, a anatomia e fisiologia não são suficientes para explicar este fenómeno, pois não têm em conta o ambiente social, cultural e pessoal em que o sujeito está inserido. É por isso que diferentes indivíduos podem ter uma experiência de dor intensa e outros um momento de prazer, resultado de diferentes contextos sociais. E há pessoas que utilizam essa dor como uma psiquiatria, tipo precisam daquilo para se sentirem bem, há pessoas que precisam de sofrer para se sentirem bem, pagam para isso mesmo, seja fazer massagens que te partem todo tas a ver? Há pessoas que usam a dor para se sentirem bem (Tatuador, 6º ano de escolaridade, sexo masculino, 31 anos, Fafe, origem portuguesa) Numa perspetiva biomédica, a dor será apreendida unicamente como física, causadora das mesmas sensações para todos os sujeitos e que para a sua cura existe sempre um “remédio”. Contudo ao ligarmos a dor unicamente a um aspeto biológico, estamos a colocar de parte o facto de nem todas as pessoas se sentirem e reagirem da mesma forma (Ferreira, 2006:267; LeBreton: 2004). Segundo Vítor Ferreira (2006) e como vamos comprovar mais à frente: É no contexto das condições estruturais e ideológicas de vida que os sujeitos constroem a subjectividade da sua dor, solicitando para tal a memória da sua história pessoal, as vivências acumuladas no seu contexto social e cultural mais próximo, mas também a natureza da situação em que a dor é sentida. (Ferreira, 2006: 267) No que diz respeito à marcação corporal dos entrevistados, damos conta de uma espécie de conciliação entre querer fazer uma tatuagem e saber de antemão que no momento da sua realização irá existir dor. Este facto é visto como algo inerente à experiência, um aspeto um tanto naturalizado. Para alguns o ato de marcar a pele é um “obstáculo” que a pessoa necessita de passar de modo a conseguir atingir a sua meta, seja para atingir um projeto identitário, se
115 sentir mais realizada corporalmente ou como uma homenagem a amigos, familiares e/ou namorados. (…) é um pequeno preço a se pagar (Estudante universitário, sexo masculino, 23 anos, Arões, origem portuguesa) No pain, no gain, basicamente é isso (Barbeiro, 10ºano escolaridade, sexo masculino, 27 anos, Fafe, origem portuguesa) Apesar do fenómeno da dor variar consoante a pessoa que se sujeita à marcação corporal, é praticamente inevitável que ela esteja presente e que em muitos casos se torne desagradável, desconfortável ou até incomodativa, sendo que o jovem que a faz tenta evitá-la, ou pelo menos 115 orna-la o mais leve possível. Deste modo, com o crescimento da população que procura este tipo de marcações, além dos avanços técnicos e metodológicos utilizados para tatuar, os estúdios de marcações corporais investiram também na amenização da dor, utilizando para isso, de modo cada vez mais recorrente (e com um custo à parte da tatuagem) a anestesia. Dado que se trata de um ato voluntário e pessoal, a visão sempre negativa da dor por parte do discurso médico não corresponde à experiência de muitos tatuados, para quem o sofrimento é relativamente suportável. É por isso que, sendo um ato deliberado e autónomo permite ao sujeito preparar-se para o momento da marcação, consciencializando-se e preparando-se de antemão para um processo potencialmente doloroso. Além disso, esta decisão tem várias motivações, sejam estéticas ou éticas que lhe adicionam um valor subjetivo e pessoal. Assim, ao contrário da dor que não é prevista pelo indivíduo (por exemplo cair de bicicleta ou tropeçar numa escada), uma dor prevista, que corresponde a uma causa com valor e sentido investidos no projeto final, torna-se relativamente mais suportável. Fiz duas tatuagens com anestesia, que foram as duas últimas e nunca mais faço com anestesia, até porque ok na altura de eu tar a ser tatuado aquelas duas horitas iniciais não sentes nada, o problema é depois. Sentes tudo. Tás o resto da tatuagem, por exemplo eu tive uma média de 6-7 horas a fazer cada uma no pescoço, duas não senti nada, duas horas não senti nada e o resto, foi mesmo… esquece, doi mesmo pra
116 caraças (…) é assim, provavelmente reduzia, não tirar a dor (…) (Barbeiro, 10ºano escolaridade, sexo masculino, 27 anos, Fafe, origem portuguesa) Um dos nossos profissionais afirmou que a aplicação da anestesia na sua opinião é “ingrata”, pois acaba por prejudicar tanto no momento em que está a trabalhar como no desenho final: O processo da anestesia, eu acho que a pigmentação das tintas nunca fica igual, opah é um bocado ingrato, num gosto muito de usar no cliente, prefiro usar normal, sem anestesias nem nada, acho que a pigmentação fica mais bonita, consegue-se ver melhor o trabalho na hora e opah a pele fica muito mole, muito elástica é bué esquisito (Tatuador, 9º ano, sexo masculino, 29 anos, Medelo, origem portuguesa) Apesar de ser uma experiência descrita por muitos dos nossos entrevistados como um tanto dolorosa, depois de ultrapassada com sucesso, ela muitas das vezes acaba por introduzir aos jovens o mundo das modificações corporais levando-os em determinadas ocasiões a refletir sobre novos projetos corporais. É assim que muitos dos nossos entrevistados afirmam sair do estúdio – já a pensar em novos projetos para a sua pele. Na primeira tatuagem tinha ideia de fazer uma tatuagem uns cinco centímetros por cinco no máximo e acabei por fazer meio antebraço e então disse “num faço mais nenhuma, que isto dói muito” e passado uma semana liguei ao tatuador para marcar a segunda, que ó pah fica feio ter a parte de cima tatuado e a de baixo por tatuar e fiz essa tatuagem, e antes de sair de lá já deixei mais três marcadas, que foram as dos braços e não sei quê, ou seja é… quando uma pessoa está a fazer a tatuagem “nunca mais faço que sito dói mesmo muito”, mas pronto, antes de ir embora marca sempre a próxima, porque é uma dor viciante (Barbeiro, 10ºano escolaridade, sexo masculino, 27 anos, Fafe, origem portuguesa) ´ Não, pensei que ia doer mais, que ia ser um sacrifício grande, que ia doer bastante tempo, mas não, dói aquele bocadinho na hora, depois passa e já tá a tatuagem e bota fazer mais (Tatuador, 9º ano, sexo masculino, 29 anos, Medelo, origem portuguesa)
117 4.3 O início de um projeto de marcação corporal Em várias situações, o momento da primeira tatuagem é resultado de uma experiência impulsiva, um momento pouco refletido e movido pela curiosidade suscitada por um ídolo da cultura musical ou por algum amigo ou familiar. Apenas porque gosto de ver tatuagens e comecei a fazer só porque sim. (…) O querer sentir qual era a sensação e queria ter tatuagens no corpo (motivo de escolha da tatuagem). (Barbeiro, 10º ano de escolaridade, sexo masculino, 27 anos, Fafe, origem portuguesa) Já desde nova. Por muito que nunca fosse uma coisa que eu tivesse muito interesse, sempre tive um bocado a curiosidade, principalmente naquela altura da adolescência, de saber… se eu alguma vez iria ter alguma e como é que ia ser a sensação e, pronto. Acho que é normal quando somos adolescentes. (Gestão de marcas, licenciatura, sexo feminino, 26 anos, Fafe, origem portuguesa) Por conseguinte, o sujeito tende a imitar determinados comportamentos ou iconografias inspiradas nesses mesmos ídolos (Carvalho, 2010: 25), um amigo ou familiar que se gosta e admira no quotidiano. Não obstante, apesar da lógica de marcação corporal ir de encontro a um projeto original e diferente de todos os outros, acaba de certo modo por se assemelhar a um conjunto de marcações observadas pelo sujeito no seu dia a dia e que como tal servem de inspiração para a sua marcação corporal. Se em vários casos a primeira experiência de marcar o corpo por aí fica, em tantos outros ela é o início de muitas experiências e projetos para o futuro. As primeiras marcas são consideradas experiências isoladas, no entanto, a sua continuidade, ou seja, a marcação extensiva do corpo começa a tornasse fruto de um projeto reflexivo (Giddens, 2002: 12) que vai acompanhar o sujeito ao longo da sua vida e o vai ajudar a (re)construir-se e expressar um estilo de vida.
118 Depois de ter feito o meu primeiro risco, disse que era isto que eu queria estás a ver? (Tatuador, 6º ano de escolaridade, sexo masculino, 31 anos, Fafe, origem portuguesa) Fiz a primeira, e depois como te estava a dizer, quis fazer mais, mas foi mais para a frente. Foi evoluindo aos bocadinhos. Quando acabei de a fazer, eu só queria esquecer, mas passado uma semana ou duas vem-te a vontade novamente. (Tatuador, 9º ano escolaridade, sexo masculino, 40 anos, Fafe, origem portuguesa) Este momento de transição para um projeto corporal começa a ser descrito por alguns dos nossos entrevistados como uma necessidade em determinados momentos da sua vida por uma questão ética ou como um vício (não só por uma questão ética, mas também estética) para “justificar” as suas ideias e projetos futuros de marcações corporais. Em múltiplas ocasiões os seus portadores, após adquirirem a nova marca, saem do estabelecimento a pensar em novos contornos para o seu corpo. No entanto, há quem não as veja como um vício, mas não descarte a possibilidade de no futuro voltar a marcar a epiderme, nomeadamente em momentos específicos nos quais o portador (e como vamos falar mais à frente) acha que merecem ser “simbolizados” na pele. Perguntas a qualquer pessoa que tem tatuagens “à dói, dói um bocadinho”, mas tu depois habituaste à dor e gostas daquela dor, porque não é uma dor tipo quando cais de bicicleta é uma dor que te vai mesmo viciar, tás a ver? (Tatuador, 6º ano de escolaridade, sexo masculino, 31 anos, Fafe, origem portuguesa) Não, não tinha ideia, ficaria só por ali, embora me dissessem assim “ai, quem faz a primeira, depois tem sempre a ideia de andar e de fazer…” não, eu não tinha essa ideia. Eu dizia sempre que não, vou fazer esta tatuagem porque gosto e tudo mais, se depois tiver a ideia irei fazer, não sou daquelas pessoas que dizem “ai a tatuagem é um vício”, eu não acredito que seja isso. Só é um vício se tu deixares que… é um vício, fumar é um vício sim, mas tu…se tu tiveres uma mente forte, consegues controlar isso, agora, tudo depende da forma como tu vês a tatuagem. Lá está, eu acho que muitas pessoas vêm a tatuagem uma forma de…uma, como a sua imagem, como uma
119 estética, eu vejo a tatuagem como um simbolismo. Eu acho que, não acredito que haja pessoas a tatuar o corpo inteiro que só se vê a tatuagem e não se vê pele, por uma questão de simbologia, não é? Portanto, eu não tenho a necessidade de fazer tatuagens, por simbologia do corpo todo, não. Há partes da minha vida que merecem, ou que eu acho que mereço simbolizar, agora fazer só porque sim… (Responsável de loja, sexo feminino, 39 anos, Estorãos, origem portuguesa) O ato de marcar repetitivamente o corpo deixa de ser um caso isolado para passar a corresponder a um compromisso com um determinado modelo de corporeidade, um símbolo de identidade e estabilidade pessoal. O corpo não se resigna assim a um destino biológico passado em gerações, uma realidade sagrada e intocável, para passar a ser visto como um material volátil, flexível e passível de sucessivas transformações que resultam da vontade e do planeamento deliberado do sujeito. O corpo que se marca é uma realidade incerta e inacabada, que pode ser modificada consoante a vontade do sujeito (Ferreira, 2006: 278). Gosto pela experiência e pela tatuagem em si, tipo a tatuagem é uma arte corporal de decorares o teu corpo, tu decoras o teu corpo… é como uma tela, tu vais decorar o teu corpo e tu vês cenas que tu gostas e dizes “vá, ficava bem aqui”, olha gosto de fazer sei lá, tanta coisa, um símbolo da força, proteção. (Tatuador, 6º ano de escolaridade, sexo masculino, 31 anos, Fafe, origem portuguesa) Após a(s) primeira(s) (no caso das pessoas que decidem fazer múltiplas tatuagens na mesma sessão) serem reservadas para locais mais tradicionais, para o futuro são reservados locais subjetivamente mais valorizados, mas que exigem uma maior ponderação. Isto acontece, pois são locais que a priori são concebidos como de maior risco físico e também pela própria dimensão do desenho nessas zonas. A impulsividade que era característica da(s) primeira(s) experiência(s) é substituída por uma atitude bastante mais reflexiva nas seguintes. Ou no antebraço, acho que no antebraço foi onde pensei mais, assim de resto não tou a ver assim mais nenhuma… ou nas costas, mas nas costas é um bocado, tem que ser uma coisa muito bem pensada. (Estudante Universitário, sexo masculino, 23 anos, Arões, origem portuguesa)
120 Estou a pensar fazer no futuro… prá frente, se calhar fazer uma perna inteira ou as duas… se calhar o outro braço que só ainda tenho o esquerdo (tatuado). Mas isso é ainda uma ideia a digerir… com o tempo. (Tatuador, 9º ano escolaridade, sexo masculino, 40 anos, Fafe, origem portuguesa) Vou fechar as pernas todas, vou fechar-me todo, vou me tatuar todo praticamente, menos cara, não é? (Tatuador, 6º ano de escolaridade, sexo masculino, 31 anos, Fafe, origem portuguesa) É com este último depoimento que que damos conta de um dos vários constrangimentos a nível social que os projetos de marcação corporal provocam. Apesar de a tatuagem não ser um tabu tão grande comparativamente ao passado, nomeadamente quando falamos dos locais desejados para a sua marcação, continuam a existir zonas no corpo que estão fora do leque de opções, mesmo por aqueles que vêm nestas marcas um projeto identitário e de estilo de vida. Zonas como as mãos, os dedos, o pescoço e o rosto, ou seja, locais que muito dificilmente são escondidos pelo vestuário e ao mesmo tempo são alvo imediato de julgamento dos outros (Le Breton, 2004: 143). Eu queria aqui perto do ouvido, aqui assim (aponta para a parte de trás da orelha), mas queria a branco, algo que não fosse muito visível, não é? Que hoje em dia ainda temos um bocadinho de preconceito aqui nas tatuagens, parece que não, mas ainda existe. Então fazer em branco fica tipo como se fosse uma pequena cicatriz. Só que também depende muito da minha pele, da tinta, de quem a fizer… vários fatores. E então pode ficar um bocadinho amarela e então fiquei com um bocado de receio de andar aqui com uma cena amarela, então desisti um bocadinho da ideia. (Tatuador, 9º ano, sexo masculino, 29 anos, Medelo, origem portuguesa) Além disso, outra razão é a de que as marcas corporais não devem colocar em causa a “naturalidade” de elementos corporais que por si só têm um grande valor expressivo de singularização social do sujeito (Ferreira, 2006: 281). É por isso que zonas corporais como o rosto, mãos, pescoço, continuam a ser um tabu quando falamos de marcar o corpo. O rosto é o
121 local privilegiado do reconhecimento de si e de aparição aos outros, é por meio dele que estabelecemos contacto com as outras pessoas (Le Breton, 2004) e é nesse sentido que quanto mais uma sociedade valoriza a individualidade, maior se tornará o valor do rosto (Ferreira 2006: 282). Em vários casos o mesmo sucede pelo facto do jovem necessitar de confrontar sistemas de controlo e autoridade social, tais como os pais, a escola ou o mercado de trabalho. 5. A manifestação de uma estética que celebra a diferença 5.1 O interesse pelas marcas corporais Face às características materiais e simbólicas presentes nas marcas corporais nas sociedades ocidentais contemporâneas, damos conta que o seu uso mais ao menos recorrente não corresponde unicamente a um simples ato de consumo, como se de mais um objeto se tratasse. Quanto mais os jovens se decidem tatuar, mais as marcas carecem de uma justificação para a sua realização. Apesar da(s) primeira(s) serem muitas das vezes resultado de uma experiência, de um impulso, as (possíveis) próximas marcas necessitam de ser bem pensadas, na medida em que o local onde são colocadas, a pele, é um suporte finito e como tal requer uma estratégia de gestão. Desta forma, reconhecendo o indivíduo esta área limitada, especialmente a partir do momento em que a trata como um “vício”, numa grande variedade de casos não a costuma fazer sem um “bom” motivo, uma razão simbólica que a apoie (Ferreira, 2006: 287). Enquanto tatuado… opah sim, conheci grandes artistas, grandes amigos meus… deram-me a conhecer várias formas, métodos de tatuar também, ajudaram-me bastante, por isso todas elas para mim (tatuagens) têm um significado no sentido de aprendizagem ou lembrança. (Tatuador, 9º ano, sexo masculino, 29 anos, Medelo, origem portuguesa) Em várias conversas tidas com os nossos entrevistados, a sua justificação para a aderência a tais adornos, justificava-se pela sua curiosidade, porque “eram giras”, achavam “bonitas” e gostavam de “experimentar”. Numa maioria das entrevistas, a parte estética foi referenciada,
128 Pah… tenho um rei de copas que foi uma das tatuagens que eu mais pensei, que era por causa do meu filho, o rei… que é um menino, se fosse menina ia fazer a dama, copas, porque é um símbolo do coração, é o amor. Então fiz o rei de copas por exemplo… não tem nada a ver com aquilo que as pessoas pensam, mas para mim é um significado grande, não é? (Tatuador, 9º ano, sexo masculino, 29 anos, Medelo, origem portuguesa) A importância dada à originalidade é ainda acompanhada pelo local do corpo onde a tatuagem vai ser marcada. A escolha do local em muitos dos casos é marcada por padrões de tradição e/ou descrição (Ferreira, 2006) que possa ser coberta em determinadas situações sociais. Além da originalidade pretendida no projeto, ela também se articula a um princípio de adequação anatómica, ou seja, a dimensão do desenho escolhido e respetiva correspondência na zona corporal. Em algumas situações a escolha do local é baseada na perceção que os sujeitos têm em relação à dor, ou seja, optam por locais onde na sua conceção, a zona escolhida é relativamente menos dolorosa que outras zonas do corpo. Primeiro são todas do lado esquerdo, que é o lado do coração e então como estas tatuagens têm significado, eu achei que era apropriado e depois porque tatuagens em mulheres eu sempre preferi a parte superior do corpo e principalmente os braços. (…) É pela mesma razão que te disse nessa pergunta que tu fizeste, acho que é o melhor sítio, para mim é o sítio que eu mais gosto de ver em mulheres. (Gestora de clientes, mestrado, sexo feminino, 26 anos, Fafe, origem portuguesa) Pela dor (tatuagem na omoplata), pensei que doeria menos, hoje em dia já não tenho essa tatuagem, já a removi. (Tatuador, 9º ano escolaridade, sexo masculino, 40 anos, Fafe, origem portuguesa)
129 5.3 Identidade pessoal e relação com o corpo Em muitos casos utilizamos adornos corporais de que desconhecemos o modo de fabrico, mas o mesmo não acontece com a tatuagem. O ato de marcar o corpo implica a presença física do consumidor e do tatuador. Desta forma, as tatuagens diferem de outros adereços corporais não só pelo facto de serem permanentes, mas também pela sua natureza invasiva (Ferreira, 2006: 304). É neste sentido que as tatuagens podem constituir artefactos corpóreos, isto é, adornos que além de serem colocados sobre o corpo são literalmente incorporados (Ferreira, 2006: 304). Este tipo de modificações ultrapassa a epiderme: a zona de fronteira entre o interior e o exterior, um limiar que anteriormente apenas poderia ser ultrapassado por um conjunto de profissionais autorizados e procedimentos legitimados de um ponto vista médico (anatómico) (Queiroz, 2005). Por conseguinte, de um ponto de vista medicinal, atos que ultrapassem o limite da epiderme são considerados um desrespeito a esta ciência. Nos dias de hoje, atravessar a fronteira da epiderme continua a ser um ato poderoso na medida em que exige uma legitimidade social, que reside na detenção de competências especializadas. Dado que esta prática ocorre em contextos não clínicos, juntando-se ao facto de ser uma prática refletiva e consentida, pode acabar por ser relacionada socialmente a um ato prejudicial ao corpo, um ato profano, auto-mutilatório, patológico a nível psíquico, etc. Se no passado as instituições médicas e religiosas promoviam um corpo intacto, no sentido “natural” de como veio ao mundo e ao mesmo tempo censuravam qualquer tipo de marcas voluntárias (tatuagem, piercings, escarificação, etc.), nos dias de hoje a tendência é uma desdramatização deste tipo de adornos, resultando numa expressão de individualidade e estilo pessoal. À medida que o sujeito investe neste tipo de marcas, a sua relação com o seu corpo e a sua imagem acaba em determinados momentos por se modificar. Em alguns casos mais radicais, o projeto corporal torna-se de tal modo extenso que o sujeito deixa de conseguir distinguir o corpo físico e a iconografia que incorpora. A tatuagem é (especialmente nos dias logo a seguir à sua realização) admirada pelo sujeito diretamente, ou como alguns dos nossos entrevistados referem “ver ao espelho”. Nos primeiros dias, após a sua incorporação existe uma tendência para o sujeito de mexer neste objeto, numa espécie de celebração da sua presença. Olha-se para o objeto, toca-se, desenvolve-se uma espécie de narcisismo pela zona onde fora colocada (Ferreira, 2006: 306). Com o passar do tempo, a marca começa a ser naturalizada pela pessoa, acabando assim por
130 integrar a sua imagem corporal, tanto que como muitos de entrevistados fizeram referência ao facto de se “esquecerem que a tatuagem lá está”. Por isso, nos inícios quando fiz a tatuagem do pé, aí eu sentia-me assim um bocado mais elegante, um bocado mais fina, se calhar até já andava mais de chinelinho de dedo no verão, já… até recordo que quando fiz as fotografias pró casamento, o “antes do casar” até fazia de prepósito para por o pezinho assim à frente ficava uma coisa mais chique e tal, o fotógrafo até frisava um bocadinho, aquilo até se tornava engraçado. Mas com o passar do tempo, torna-se uma coisa que por exemplo, eu já lavo os pés, já tomo banho e já nem sei, já nem tipo… a tatuagem pra mim já é uma coisa que parece que já nem lá está, não é? Agora, é óbvio quando a gente veste certa roupa, ou não sei quê, “ai afinal está ali” a gente até põe assim o pezinho de lado pra notar. (Responsável de loja, sexo feminino, 39 anos, Estorãos, origem portuguesa) Exato... eu tipo… “ya tá fixe essa tatuagem da andorinha” e eu “onde é que eu tenho a andorinha?”, só depois é que me lembro “ ya, tá aqui na mão, calma, tá aqui” (risos). As pessoas às vezes comentam, mas eu, como eu digo eu habituei-me tanto às tatuagens que tenho que eu já não ligo, já não sei ao certo onde as tenho, então… já fazem parte! (Tatuador, 9º ano, sexo masculino, 29 anos, Medelo, origem portuguesa) Para te ser sincera não, as tatuagens sim são algo que eu às vezes até me esqueço que as tenho, não é? Depois olho e “ah eu fiz isto”, foi uma cena fixe de fazer, eu gosto. (Gestora de clientes, mestrado, sexo feminino, 26 anos, Fafe, origem portuguesa) Após a realização da tatuagem, várias são as precauções higiénicas tidas em conta pelo sujeito. Nos primeiros dias há um especial cuidado com infeções, a rejeição corporal das matérias incorporadas e com a dor que ambas podem provocar. Com o tempo, o desconforto vai desaparecendo, o risco de infeções é cada vez menor e o sujeito vai lentamente naturalizando a tatuagem como parte integral do seu corpo incarnando-a. Finalmente, após a
131 sua corporalização, as marcas escolhidas deixam de ser unicamente vistas como algo integrante do corpo, passando a ocupar uma zona de destaque, pois além de ser um local esteticamente belo é também um elemento essencial na identidade pessoal do sujeito. Além de mudarem a forma como o sujeito se vê a si próprio, as marcas corporais mudam também a forma como os outros o percecionam. Assim, em muitos casos a pele é escolhida como o palco privilegiado da comunicação e partilha simbólica do sujeito com o mundo exterior. No que diz respeito aos nossos entrevistados, a vasta maioria afirma que se descreveriam exatamente iguais antes e depois de começarem a fazer este tipo de práticas e que nada mudou na relação com o seu corpo. No entanto uma minoria, tendencialmente aqueles que já fizeram várias tatuagens e têm na mente um projeto a longo prazo demonstraram maior satisfação com o seu corpo, o que se traduziu no aumento da sua autoestima. Se mudou alguma coisa da minha vida? Opah, acho que isso é um tabu muito grande, ter as tatuagens visíveis, vai incomodar… tem pessoas que têm complexos, mas isso para mim, é tretas… não é? Tipo, tu sais por aqui fora mano, tu tens… pessoas olhos mesmo pretos, pintados na cara… A mim nada mudou, a pessoa tem de aceitar como sou, o meu trabalho não pode colocar em causa o meu corpo. Eu acho muito mais porco veres uma pessoa com as unhas grandes e sujas do que propriamente teres uma tatuagem na mão, não é? Isso a mim cria-me mais impressão que uma tatuagem, lá está… se as mulheres podem pintar as unhas, porque é que a gente não pode pintar as mãos? Correto? É tudo uma forma de arte corporal, um desenho. (…) Sinto-me mais satisfeito! Ya, mudou, gosto de me ver ao espelho todo tatuado, gosto de me ver tatuado, bastante. (Tatuador, 6º ano de escolaridade, sexo masculino, 31 anos, Fafe, origem portuguesa) Depois de me começar a tatuar comecei a ficar mais extrovertido, não tanto fechado naquele mundo, quando as pessoas começam a tatuar são obrigadas a conviver com bastantes pessoas e então muda, tu mudas automaticamente. (Tatuador, 9º ano escolaridade, sexo masculino, 40 anos, Fafe, origem portuguesa)
132 Sim gosto bué de me ver, vá. (Barbeiro, 10º ano de escolaridade, sexo masculino, 27 anos, Fafe, origem portuguesa) Quanto… ao sentir-me (diferente)... se calhar quando fazemos a tatuagem, nos primeiros tempos, como pra mim, eu falo por mim… como é uma tatuagem simbólica, eu estou sempre a pensar naquilo, estou sempre a pensar naquilo, estou sempre a pensar na simbologia da tatuagem e durante algum tempo ando ali com aquilo ali a remoer-me. Depois, e quem me conhece, sim, eu digo, “olha a minha tatuagem, eu fila a pensar nisto” e quem me conhece compreende. E acho, por exemplo, a tatuagem que tenho nas costas, quando vou, por exemplo, quando vou à praia, ou quando ando no verão, que se nota mais… eu acho que não… como é que eu hei-de dizer, como não a vejo… mas sinto que as pessoas, que olham, sinto que as pessoas que… já, notei, que olhavam pra mim tipo “olha aquela tatuagem”, como as vezes eu faço, como também, sou uma certa forma apreciadora, não é? Tornei-me um bocadinho apreciadora de tatuagens e como andei um bocadinho à procura, porque andei a pensar na minha próxima tatuagem, também quando passa alguém e eu vejo que tem uma tatuagem, eu se calhar fixo. Se calhar, acontece às outras pessoas que têm tatuagens, se calhar… olham pra minha tatuagem. Agora, sentir-me de forma diferente. Sinto-me de forma diferente por se calhar atingir o objetivo que eu queria, não é? Tipo, eu fiz esta tatuagem, era o objetivo que eu tinha, com esta simbologia, sinto-me de forma diferente, pessoalmente, não é? Um objetivo atingido. Agora, sentir-me, mais isto ou mais aquilo, não, isso não, porque há pessoas que têm essa forma de agir, eu não. (Responsável de loja, sexo feminino, 39 anos, Estorãos, origem portuguesa) Com este último depoimento podemos verificar que as marcas corporais podem adquirir algo mais profundo do que o seu valor estético. Apesar de em vários casos serem associadas a projetos meramente estéticos, muitas das vezes os seus portadores não escondem os aspetos simbólicos nelas investidas. Lá está, eu acho que muitas pessoas vêm a tatuagem uma forma de…uma, como a sua imagem, como uma estética, eu vejo a tatuagem como um simbolismo. (Responsável de loja, sexo feminino, 39 anos, Estorãos, origem portuguesa)
133 Sim, já tinha dois ou três colegas meus que iam fazendo tatuagens mais tipo anjos e tudo e eu sempre gostei de ver, mas a minha pergunta era “não iria enjoar daquilo?” tás a ver? Mas não, quando uma pessoa escolhe algo para nós não enjoa, porque é algo que nós queremos, eu normalmente faço tatuagens daquilo que passo na vida e não do que me lembro e faça. (Tatuador, 9º ano, sexo masculino, 29 anos, Medelo, origem portuguesa Apesar de no cenário atual ser tentador reduzir as tatuagens e outros formas de modificação corporal a algo de teor unicamente estético, tanto as práticas (de modificação corporal) holistas quanto as do dia de hoje refutam essa ideia (Turner, 1999; Ferreira, 2006). Para muitos o desenho inserido na pele não constitui um objeto de ordem puramente cosmética. É um recurso de marcação e de expressão social de uma identidade pessoal. Como dito anteriormente, para muito dos jovens o cuido do corpo é uma prioridade, pois em várias instâncias os mesmos não têm outros recursos e/ou capitais que lhes permitam afirmar socialmente assim, o jovem através das suas marcas corporais é capaz de se (re)construir e afirmar a sua existência perante si e perante os outros. Bem, eu acho que tem a ver com o facto de as pessoas cada vez procurarem sentir-se mais… as pessoas procuram cada vez mais ter uma identidade e procuram mais afirmá-la. Acho que há cada vez mais liberdade para as pessoas se afirmarem como são, seja tatuadas, ou seja de outra forma e então, em certa parte algumas pessoas que se calhar não o conseguem fazer de outra forma… isto é muito generalizado o que eu estou a dizer mas… pessoas que se calhar até se sentem um bocadinho oprimidas, ou se sentirem oprimidas durante alguns anos, sentem que através das tatuagens se conseguem exprimir, principalmente que agora há mais liberdade para isso. (Gestora de clientes, mestrado, sexo feminino, 26 anos, Fafe, origem portuguesa)
134 6. Marcas corporais e a expressão de uma identidade 6.1-Marcação corporal enquanto rito de passagem Como referia Vítor Ferreira (2006) era bastante recorrente por altura da sua tese de doutoramento em 2006, as primeiras marcas no corpo serem feitas na “adolescência”, numa faixa etária entre os 12 e os 16. Contudo, segundo os nossos entrevistados, tanto profissionais como clientes, a faixa etária ronda os 20-30 anos. Apenas um dos nossos entrevistados fez a sua primeira tatuagem entre os 12-16 anos. Em alguns dos casos, os interrogados confessaram que só não fizeram mais cedo porque não tinham a certeza se realmente o queriam fazer ou porque os pais os proibiram. Na conversa com os mesmos e como já vimos em alguns depoimentos anteriormente, o aumento desta faixa etária poderá ser explicado pelo facto do ato de marcar o corpo já não ser um ato tão impulsivo, mas reflexivo e também pelo facto de uma maior variedade de idades procurarem este tipo de serviços. (…) a idade entre os 20, 30 e tais entre os 20-40 vá, já tatuei uma senhora com quase 90 anos, era uma pessoa que vinha com os netos apostou com os netos que tatuava chegou aqui e tatuou!! Nunca mais me esqueço. (Tatuador, 6º ano de escolaridade, sexo masculino, 31 anos, Fafe, origem portuguesa) Bem agora, tenho que fazer contas…, mas portanto…tinha, fazendo contas por alto…pr’aí 26 anos… (Responsável de loja, sexo feminino, 39 anos, Estorãos, origem portuguesa) As minhas tatuagens foi só à cerca de ano e meio, há dois anos é que ganhei realmente coragem para as fazer, mas foi uma coisa muito pensada, 24-25 (anos). (Gestora de clientes, mestrado, sexo feminino, 26 anos, Fafe, origem portuguesa) É assim, o meu interesse pela tatuagem começou p’aí quê…eu fiz a tatuagem em 2018, foi mais ao menos meio ano antes, tinha combinado com as minhas irmãs fazer uma tatuagem e fizermos uma tatuagem em conjunto de… uma tatuagem de irmãos, é
135 isso, foi por causa disso (…) 19 anos. (Estudante universitário, sexo masculino, 23 anos, Arões, origem portuguesa) Não me recordo muito bem, mas teria p’aí 14 anos mais ao menos. (Tatuador, 9º ano escolaridade, sexo masculino, 40 anos, Fafe, origem portuguesa) Não, isso na minha altura, quando tinha visto os meus tios tinha paí os meus 12, 13 anos, só que não queria fazer muito novo para depois não me arrepender e então aos 21 já tinha uma ideia definida do que queria e fui fazer. (Barbeiro, 10º ano de escolaridade, sexo masculino, 27 anos, Fafe, origem portuguesa) À minha primeira tatuagem… lá está, os meus pais nunca foram muito a favor e ainda bem que eu com 15, 16 anos queria fazer umas caveiras e o caraças e ainda bem que eles nunca me deixaram, não tem nada a ver com a experiência que tenho hoje. (Tatuador, 9º ano, sexo masculino, 29 anos, Medelo, origem portuguesa) Segundo Erik Erikson (1971, 1976) citado por Oliveira 2006: 428, a adolescência corresponde a um momento pautado por uma crise normativa que resulta do conflito entre a identidade e difusão de papéis. Um momento de crise identitária onde o jovem procura sentido para a sua existência pessoal e social. A saída desta crise identitária seria resolvida pela formação de um “vigoroso sentimento interior de identidade” (Erikson (1972 [1968]:90) citado Ferreira, 2006: 340) por uma “identidade final, fixa no termo da adolescência” (Erikson (1972 [1968]:168) citado por Ferreira, 2006: 340), uma identidade estável e coerente que lhe pudesse servir na transição para a vida adulta. Como sabemos, o corpo do jovem sofre grandes alterações desde cedo, nomeadamente na aparência física e do modo de como o sujeito se vê a si mesmo. Além disso, temos ao dispor na sociedade, um conjunto de produtos, serviços e práticas que estão no campo de possibilidades de experimentação juvenil. Simultaneamente é pedido ao jovem, desde cedo, que tome determinadas decisões no seu quotidiano relativas a investimentos no futuro, como a carreira escolar, escolha profissional, relação com amigos e família, etc. A estes aspetos somam-se as trajetórias cada vez mais incertas da transição da “juventude” para a “idade adulta”. Este percurso precário, incerto e de risco contrasta cada vez mais com a
136 ideia do jovem que estuda para posteriormente embarcar no mercado de trabalho sabendo de antemão que tem um lugar garantido e fixo para toda a vida. Esta insegurança e dúvida sobre o que o futuro reserva ao jovem leva-o a um processo de reconstrução identitária ou a uma “procura de si”, de modo a combater a sensação de medo, ansiedade e de ameaça face a toda esta incerteza e volatilidade. Este conjunto de mudanças levam o jovem a refletir sobre quem ele é e qual o seu lugar na sociedade, o que resulta num processo de reconfiguração de identidade do mesmo. Este processo de reorganização é tão importante a nível inter como intrapessoal e resulta num conjunto de questionamentos que vão ao encontro da sua própria existência na sociedade como sujeito singular. Esta crise é entendida como uma rutura na estabilidade identitária do individuo e suas relações interpessoais (até então estabilizadas), produzida em vários momentos de desajustamento entre o que foi incorporado no passado e no que é imposto no presente. Nas sociedades holistas existiam ritos de passagem coletivamente organizados, calendarizados e codificados que facilitavam o confronto do sujeito com momentos de crise identitária, nomeadamente em situações de transição de ciclo de vida, como da fase jovem para a adulta (Le Breton, 2004, Ferreira, 2006). Por outro lado, nas sociedades orientais contemporâneas, com uma fase juvenil prolongada, fragmentada e diversificada, o processo de construção de uma identidade unificada e de um estatuto social para o jovem torna-se significativamente mais difícil. Momentos ritualistas que marcavam a passagem para a “idade adulta”, tais como a entrada no mercado de trabalho, casamento e ter filhos deixaram de ser instituições incontornáveis, na medida em que o sujeito passa sobretudo por elas através de um ato voluntário e deliberado, o que leva em última instância à perda do aspeto simbólico de passagem que este tipo de rituais possuíam. Na ausência de rituais socialmente determinados, o jovem vê-se obrigado a escolher, diante uma variedade alargadíssima de possibilidades, as provas simbólicas que farão parte do seu processo de formação identitária. Desta forma, escolhe um conjunto de ritos para si ou para o seu grupo que lhe permitam sair de fases conturbadas (Gauthier, 2000: 27). Desta forma, os jovens recorrem a antigos e consagrados dispositivos de demarcação de passagem de uma fase social para outra, onde a marcação corporal tinha um destaque central. É desta forma que os atos de marcação no corpo (como já verificámos) têm “uma valência
137 metamórfica para quem os realiza, beneficiando da evocação, hoje lugar comum, do seu significado ancestral e antropologicamente confirmado enquanto rito de passagem” (Ferreira, 2006: 342). Nas sociedades tradicionais, as marcas corporais eram utilizadas como símbolos permanentes e obrigatórios utilizados em situações de liminaridade, sendo através deles transmitidos princípios inequívocos de classificação social, codificados a priori e reconhecidos pelos membros dessa sociedade. É deste modo que Bourdieu, 1982: 61, nos diz que quanto mais austeros, dolorosos e prologados fossem os ritos de iniciação maior seria o nível de adesão e compromisso de jovem, ou seja, teriam uma maior eficácia simbólica. Apesar de, nos dias de hoje, o ato de marcação corporal ser evocado muitas das vezes como um rito de passagem pelas sociedades contemporâneas, ele não detém as mesmas funções e significados das sociedades holistas. Mesmo quando optam por marcas associadas a um registo designado por “étnico” ou “tribal”, os sujeitos não as incorporam necessariamente com o intuito de se fidelizarem a um grupo, mas sim pelo interesse imagético ou estético. Nas sociedades arcaicas, os ritos de passagem atuavam como meios de classificação, diferenciação, transmissão e confirmação de identidades. Ao sujeito eram atribuídos um conjunto de papéis a desempenhar na comunidade, de modo a se integrarem no coletivo e a manterem a ordem social. Desta forma, se este tipo de marcas era utilizado pelas sociedades holistas num contexto de convergência do individuo com as normas coletivas, nos dias de hoje ela tem novos significados, nomeadamente a de reproduzir identidades divergentes, “alternativas” e “marginais” aos modelos de cultura corporal hegemónica. O ato de marcar o corpo já não assinala a reprodução de normas coletivas para toda uma vida, pelo contrário, ele representa um mecanismo simbólico de individuação dos sujeitos. Para isso, o sujeito utiliza o corpo como lugar de inscrição e expressão simbólica de modo a se afirmar como singular e autêntico. O que vai de encontro aos testemunhos dos nossos entrevistadosonde as iconografias originais e inovadoras dão um “certo brilho” e “encanto” no seu quotidiano. Além disso, os ritos de passagem pré codificados, planeados e performatizados característicos das sociedades holistas eram realizados numa cerimónia coletiva entre os membros da sociedade. Nos dias de hoje, as marcas corporais, além de voluntárias são privatizadas, na medida em que são realizadas entre cliente (por vezes acompanhados por amigos e/ou família) e o profissional. A celebração das marcas corporais não está muitas das vezes ancorada a uma religiosidade que lhe dá uma razão de existência, ou seja, já não são feitas com base numa
144 pássaro desenhado na flor, um beija flor e eu adoro pássaros é uma das coisas que eu adoro, depois tenho outra nos dois pulsos, no esquerdo tenho o nome gravado da minha filha e no pulso direito tenho a árvore da vida com o nome gravado do meu irmão e dos meus sobrinhos e por fim nas costas tenho a fénix, que foi o renascer das cinza, mas com garra por momentos passados da minha vida. (Responsável de loja, sexo feminino, 39 anos, Estorãos, origem portuguesa) O orgulho que os entrevistados têm ao falar das suas marcas não passou despercebido, muito pelo contrário. Além disso, o investimento iconográfico intensificou o gosto dos seus portadores ao falarem sobre elas. As narrativas que foram surgindo em volta das tatuagens concederam novos contextos sejam eles estéticos, emocionais, biográficos, etc. Na criação das mitologias pessoais que inspiram os projetos de marcação corporal, os sujeitos procuram coerência não só a nível estético, mas também a nível ético de modo a preservar a sua identidade ao longo da vida. Estas marcas integram simbolicamente incertezas, incoerências ou até contradições que vão modelando um projeto que está em constante evolução. No entanto, com todas as incertezas da vida, os sujeitos acabam de certa forma por se irem reinventando consoante o passar do tempo, tentando assim não perder a sua essência. Ainda que resistentes e bem fundamentados, estes projetos identitários não ficam intactos com o passar do tempo. Deste modo um conjunto variadíssimo de fatores obrigam o sujeito a se reconfigurar. De acordo com Bauman (2011) na sua obra Modernidade líquida, estamos num período marcado pelo risco, incerteza, precariedade, instabilidade, pontos de referência e instituições cada vez mais transitórias e contornáveis. É-nos pedido cada vez mais que sejamos abertos e flexíveis tanto em termos identitários como nos papeis desempenhados a nível social, estes que por sua vez se tornam cada vez mais diversos e complexos. Um mundo cada vez mais fluído, instável e efémero, onde deixou de existir um emprego fixo, carreiras profissionais, laços familiares e amicais duradouros que garantiam a estabilidade identitária do sujeito na comunidade. Desta forma, o sujeito opta por valores que possam estabelecer um critério de coesão e preservação identitária, tentado assim, opor-se à erosão do tempo. Assim, independentemente da sua narratividade, a tatuagem atua como uma resposta a momentos de crise, funcionando como um escudo que protege o sujeito da sua fragmentação identitária. Numa perspetiva ritualista, segundo Ferreira, 2006: 368, os projetos de marcação corporal extensiva servem para colocar à prova esta identidade que tanto se pretende manter
145 intacta, sólida, resistente, autêntica e singular ao longo do percurso da sua vida nomeadamente na transição jovem para a “idade adulta”. Depois de fazer a primeira tatuagem é como se tivesse numa fase… não digo uma fase parada da minha vida, mas uma fase em que está tudo… minimamente a correr bem, depois quando as outras tatuagens vieram, vieram quando as coisas na vida começam… eu acho que quando te começas a sentir… não é sentires-te adulto, mas a pensar se calhar da fase de adolescência para a fase de “atenção tens de ganhar tino” e começas a tua vida… a ser outro tipo de vida, começas a pensar mais alto e tudo à tua volta começa a ser diferente. Coisas a crescer, coisas a desmoronar, vidas a largar, vidas a serem perdidas… situações da vida a magoarem-te, pessoas que te dizem muito a serem magoadas e tudo isso se calhar te leva à necessidade de veres a vida de outra forma e mudares muitas das vezes o teu pensamento à cerca de muita coisa, como foi o caso da tatuagem. Fez-me pensar e fez-me ver a vida com outros olhos e se calhar lá está a necessidade de ver consoante a gente muda de opinião acerca de muitas coisas que a gente vê e que a gente lê e etc., a gente tem uma opinião formada acerca de qualquer coisa, de qualquer tema que nos aparece e que por circunstâncias da vida a gente depois muda de opinião, porque se calhar essas coisas passaram-se connosco e nós “alto afinal não é bem assim”. Nós não somos obrigados, mas se calhar faz-nos ver a vida de outra forma, porque essas coisas passam por nós e afinal começamos a pensar que não acontece aos outros também passa por nós. (Responsável de loja, sexo feminino, 39 anos, Estorãos, origem portuguesa) 7. “Eu” vs “os outros”: o (re)conhecimento social 7.1Perceções e reações ao/do outro No que diz respeito aos encontros sociais a partir do momento em que os nossos entrevistados decidiram embarcar no mundo da tatuagem, a vasta maioria deu um feedback bastante positivo quando lhes fora perguntado como é que as pessoas (na sua generalidade) lidam com o seu aspeto visual. Apesar de não ser uma amostra representativa demonstra uma maior
146 aceitação tanto pelas camadas mais jovens como nas camadas mais velhas, como vamos verificar no próximo capítulo. Não noto muito isso que as pessoas, olhem tenho aqui clientes de várias gerações e tanto os mais novos como os mais velhos ninguém olha, ninguém critica nem nada apenas olham “ei tens uma tatuagem nova, que fixe, ó deixa ver” e eu mostro “ei ficou mesmo espetacular” por exemplo as do pescoço foi um bocado impactante porquê? Porque tive de cortar a barba toda completamente, as pessoas olhavam “ei rapaste barba, tens uma tatuagem no pescoço, que fixe, deixa ver, doeu muito?” e pronto eu acho que as pessoas hoje em dia vá, cada vez mais lidam com a tatuagem como uma arte corporal não como algo mau como era aqui há uns anos atrás e acho que basicamente é isso. (Barbeiro, 10ºano escolaridade, sexo masculino, 27 anos, Fafe, origem portuguesa) Normalmente elogiam-me, portanto… normalmente elogiam-me as tatuagens. Dizem que tão bem feitas e que são bonitas e foram as únicas reações que eu tive. (Gestora de clientes, mestrado, sexo feminino, 26 anos, Fafe, origem portuguesa) Apesar do maior aceitamento das marcas corporais é importante realçar mais uma vez que o local escolhido para se tatuar está em vastos casos ligado à forma de como o sujeito perceciona o modo de como os outros vão olhar para ele, seja no seio familiar, na rua, no trabalho e em outros planos sociais. Ainda que um projeto corporal seja algo pessoal, resultado de um processo autorreflexivo, a escolha harmoniosa entre iconografia e simbologia das marcas não são as únicas coisas a ponderar, sendo o local corporal escolhido também muito importante neste processo de tomada de decisão. Os locais menos visíveis do corpo são muitas das vezes, como já vimos, escolhidos devido ao facto de não comprometeram o sujeito, nomeadamente quando entra no mercado de trabalho, pois sabe de antemão que determinadas instituições têm códigos morais pré codificados que não aceitam modificações corporais, principalmente em locais visíveis e/ou que não possam ser cobertos por vestuário.
147 No verão, nas saídas é… nota-se, mas não é daquela tatuagem que choca (tatuagem no peito do pé), é uma tatuagem, que sendo no pé é uma tatuagem, que hoje mais que nunca é uma tatuagem, muito comum, não é? E sendo uma tatuagem, muito comum, praticamente já ninguém liga, já ninguém, olha, por assim dizer, como não é uma tatuagem, com cor também nos chama muito à atenção, lá está não é aquela tatuagem, de olho, de tirar o olho. (Responsável de loja, sexo feminino, 39 anos, Estorãos, origem portuguesa) Lá está, como… e se calhar até foi por isso que eu optei por ser sempre uma coisa discreta, para não afetar muito também a parte social, a parte de crítica, por assim dizer, porque nós sabemos, não é? Como é que as coisas são hoje em dia, se bem que tem melhorado. E se calhar mesmo eu fazendo mais optaria sempre por fazer discretas e coisas que nunca me comprometessem por assim dizer a nível de trabalho e assim. (Gestão de marcas, licenciatura, sexo feminino, 26 anos, Fafe, origem portuguesa) Desta forma, o sujeito marcado continua a ser vítima de estigma, especialmente quando falamos de um projeto corporal em larga escala. A crítica dominante coloca em risco a identidade social da pessoa na medida em que lhe são associadas um conjunto de características e comportamentos que podem não refletir a realidade, usando-os simultaneamente como um exemplo “desviante” para demonstrar aquilo que é legitimado pela sociedade. Por conseguinte, o corpo extensivamente marcado continua a ser visto como “fora da lei”, “condenável”, “criminoso”, o que acaba por potencializar atitudes discriminatórias num conjunto de atividades sociais. Este estigma é motivo de revolta para os seus portadores, nomeadamente para aqueles que têm tatuagens extensas, em locais visíveis e especialmente em locais considerados “não convencionais” (que não são passíveis de ser cobertas com vestuário) tais como pescoço, cara, mãos e dedos. Sim, sim. A família quando eu decidi ser tatuador, eles viam-me como um drogado, como… que eu andava a roubar e essas coisas e com o passar do tempo… depois foram-me conhecendo, algumas pessoas e foram vendo que aquilo era uma ideia que não existe, que é preconcebida, têm uma certa ideia e… é tudo errado. Tu tenhas as
148 tatuagens ou não tenhas, vais ser sempre a mesma pessoa. Não é por teres que vais ser pior pessoa…. (…) Sim, tu vais a qualquer sítio, seja onde for e as pessoas tão assim num sitio, ponhem-se [SIC] assim a olhar para ti de lado e até te seguem com os olhos, tu olhas diretamente e as pessoas desviam. Mas, as pessoas estão fixamente a olhar para ti, por tu seres diferente… era mais antes, hoje acontece, mas muito menos, mas antigamente era muito mais e não tenho a cara tatuada nem nada e há pessoas que têm, imagino que seja muito pior. (…) Eu penso que agora não pensam… é o normal, acho que agora não é… é normal agora penso eu. Antigamente eu penso que era muito diferente, agora… associado ao vandalismo, ao crime e isso tudo, era no passado, agora acho que as pessoas têm uma mente mais aberta, não toda a gente. Mas muito mais pessoas agora. (Tatuador, 9º ano escolaridade, sexo masculino, 40 anos, Fafe, origem portuguesa) Estou-me a cagar completamente, desculpa o termo, estou-me a lixar mesmo, esteja tanto seja tatuado, roto, o que seja, eu vivo a minha vida como cada um deve viver a sua, não podes julgar nem, tipo olha… “ele tem uma tatuagem na cara é um drogado”, não tem anda a ver, tu tens muitas pessoas que nem têm tatuagens e são drogados, porquê? Porque não têm dinheiro para tatuagens, gastam na droga, há quem gaste dinheiro nas tatuagens… (Tatuador, 6º ano de escolaridade, sexo masculino, 31 anos, Fafe, origem portuguesa) 7.2 Reações de amigos e familiares Como podemos verificar no último capítulo, quando questionados sobre como as pessoas na sua generalidade agiam e/ou se comportavam relativamente ao aspeto visual dos entrevistados, a maioria reagiu de forma positiva ou os entrevistados não demonstravam interesse pela opinião de alguém que não faz parte dos seus laços sociais. As respostas começam a variar quando questionados sobre como reagiram os seus amigos e familiares, no momento da sua primeira tatuagem e como reagem nos dias de hoje. Apesar destes projetos corporais serem pessoais, autónomos (salvo exceções, como tatuagens ponderadas em grupo,
149 por exemplo tatuagens combinadas entre irmãos) e estéticos, eles também carecem de um sentido ético, nomeadamente a celebração de um familiar. Como tal, ao contrário de um sujeito desconhecido que passa na rua, a opinião de certos amigos e familiares em relação à(s) marca(s) escolhida(s) pelos nossos entrevistados faz a diferença, não necessariamente por serem tidas em consideração para opinar se o sujeito deva fazer ou não a tatuagem, mas pelo feedback que dão às iconografias, especialmente pelo facto deles mesmos (os familiares e/ou amigos) serem em alguns casos o motivo dessa decisão. Os elogios a estas marcas deixaram notoriamente os nossos entrevistados mais felizes, mais satisfeitos a nível identitário e mais “bonitos” em termos estéticos, o que acabou por também aumentar a sua autoestima. Pelo contrário os comentários mais negativos deixaram-nos com uma expressão mais triste, considerando alguns membros das suas redes sociais não tão abertos a este tipo de procedimentos. Tendencialmente, as reações positivas vêm de sujeitos mais jovens e as negativas de faixas etárias mais velhas, o que de certo modo explica o facto dos amigos dos nossos entrevistados (pois coincidem com faixas etárias mais novas) na sua maioria aprovarem este tipo de práticas contrastando um pouco com os mais velhos, como no caso de pais e/ou tios como vamos verificar. Bem, os meus colegas, porque amigos tenho poucos e os amigos… amigos mesmo são familiares… porque lá está uma das questões que me levaram a fazer a tatuagem também foi por causa da desilusão de amigos, daí que aquelas pessoas em que realmente me conhecem e sabem o porquê da minha tatuagem adoraram e olharam para mim e disseram “tem tudo a ver contigo”. A minha família também, principalmente aqueles que eu queria mostrar e aqueles que eu fiz questão de mostrar. Só tive boas reações. Lá está principalmente do meu irmão (tatuagem feita em homenagem ao irmão) também, que adorou. E até o meu irmão quando eu mostrei, fez questão de dizer “olha, a tatuagem que a minha mãe fez top!!” pronto, ok (risos)… Portanto, quem eu queria deixou-me feliz. (Responsável de loja, sexo feminino, 39 anos, Estorãos, origem portuguesa) Não, normalmente a minha família hoje em dia, os mais jovens gostam todos, os mais velhos há sempre algum ou outro que diz “ai tá bonito, mas eu não fazeria” [SIC]. Que é compreensível. Mas aceitam que as outras pessoas tenham. Nós não somos
150 obrigados a gostar todos do mesmo. Temos é que nos aceitar uns aos outros. (Tatuador, 9º ano escolaridade, sexo masculino, 40 anos, Fafe, origem portuguesa) Lá está quando se calhar, quando é novo para eles, quando reparam dizem, “ai nem sabia que tens uma tatuagem” não sei quê. Pronto, não é uma coisa que eu propriamente diga, não é? Mas é uma reação também muito natural, porque também lá está é muito, é uma tatuagem bastante natural e hoje em dia as tatuagens também são assunto bastante normal. (Gestão de marca, licenciatura, sexo feminino, 26 anos, Fafe, origem portuguesa) “Ui, tu tas a ficar maluco, tás a ficar todo pintado, daqui a bocado não tens onde tatuar” isto às vezes com uma ou duas tatuagens muito pequenas, só que lá está os meus amigos são um bocado…pah não tão muito à frente, um bocadinho ainda no passado, então prendem-se no passado ainda. Então uma simples tatuagem já é “uh!” (Tatuador, 9º ano, sexo masculino, 29 anos, Medelo, origem portuguesa) Quando questionados sobre como reagiram os familiares dos nossos entrevistados no momento em que os últimos decidiram comunicar a sua decisão de marcar o corpo e/ou mostrar a(s) sua(s) tatuagens já realizada(s), tendencialmente as reações e comentários negativos foram atribuídos aos seus pais. Reagiu bem, os meus pais já sabiam de antecedência que nós (entrevistado e as suas duas irmãs) íamos fazer, já era uma coisa que tínhamos em mente há algum tempo e quando surgiu a oportunidade decidimos fazer e foi tranquilo, não houve stresses nenhuns. (Estudante universitário, sexo masculino, 23 anos, Arões, origem portuguesa) (…) primeiro fui “bem, vou fazer uma tatuagem”, “vais quê?”, “vou fazer uma tatuagem!”, “ah tu és maluca”, vou para fazer uma tatuagem primeiro o maior receio
151 seria o meu pai, porque é assim eu ainda vivia com os meus pais e então, não tanto receio da reação da minha mãe, porque a minha mãe é um bocado mais… a minha mãe é um bocadinho tipo, avança um bocadinho com as… com o avanço do tempo, não é? E então percebe perfeitamente que há coisas que vão mudando e a minha mãe vai-se tentando adaptar às mudanças também que surgem. E tava um bocadinho com receio do meu pai (…) não ia fazer um escândalo, mas ia…, portanto, eu acho que, eu dei só assim um primeiro “vou fazer uma tatuagem” não disse quando nem onde nem como e assim junto da minha mãe e do meu pai que era se houvesse ali um pequeno stress eu sabia que a minha mãe que estava ali para aparar a coisa. (Responsável de loja, sexo feminino, 39 anos, Estorãos, origem portuguesa) A minha mãe não se importava com tatuagens, o meu pai era completamente contra tatuagens e piercings. (Barbeiro, 10ºano escolaridade, sexo masculino, 27 anos, Fafe, origem portuguesa) Este processo metamórfico pode tornar-se bastante demoroso e doloroso, pois falamos de jovens alguns deles menores de idade e que vivem com os pais. A procura por um “novo” self é traduzida no afastamento e enfraquecimento dos laços do núcleo familiar, o que em determinados momentos pode gerar tensões e mais uma vez ruturas identitárias entre a identidade do momento e aquela que se pretende alcançar. O processo de transição de um para o outro requer um elo de ligação, neste caso a marca corporal, que ajuda o jovem nesta transição daquilo que ele era (velhas crenças) e naquilo que se tornou ou procura tornar (novas crenças), marca esta que é muitas das vezes negada pelos pais. A autoridade parental acaba em vários momentos por ser motivo de revolta e conflito entre os jovens, pois condiciona uma fase de descoberta pessoal e subjetiva. Sendo o corpo um dos únicos recursos que o jovem pode utilizar para se afirmar e se mostrar enquanto pessoa autónoma, o controlo parental faz com que este sinta que não tem controlo do seu próprio corpo. Em algumas situações, os jovens reconhecem que o facto dos pais terem interferido na sua decisão os ajudou a não tomar uma decisão impulsiva, como se vê numa citação já transcrita anteriormente a propósito dos ritos de passagem:
152 À minha primeira tatuagem… lá está, os meus pais nunca foram muito a favor e ainda bem que eu com 15-16 anos queria fazer umas caveiras e o caraças e ainda bem que eles nunca me deixaram, não tem nada a ver com a experiência que tenho hoje. Se bem que uma caveira é algo que eu até gostasse de tatuar pelo significado que no fundo somos todos iguais e não da morte, no fundo somos todos iguais, não há racismo, não existe e opah na altura eles não lidaram bem. (…) Reagi mal, o corpo é meu eu faço o que eu quero, nunca tava a ligar ao que os meus pais queriam, que queriam o meu bem, não é? Ainda bem que não deixaram na altura fazer, porque acho que me iria arrepender do que queria. (Tatuador, 9º ano, sexo masculino, 29 anos, Medelo, origem portuguesa) Foi a melhor coisa que ele me podia ter feito, porque na altura eu queria fazer uma tatuagem com dezasseis, dezassete anos, uma tatuagem só para dizer que sim, queria tatuar o meu nome. Toda a gente tem o nome tatuado, caso me esqueça, no caso de ter alzheimer (ironia), o meu pai não me deixou e disse “quando tiveres a certeza que queres fazer, fazes”. (Barbeiro, 10ºano escolaridade, sexo masculino, 27 anos, Fafe, origem portuguesa) solteiro Segundo os nossos entrevistados, após a primeira marca e com a construção de novos projetos corporais, o núcleo familiar começa a desmistificar o mundo das modificações corporais. As tatuagens são motivo de conversa entre os jovens e os seus familiares, acabando por estes últimos perceberam que um conjunto de desenhos feitos no corpo não os define como marginais ou fora da lei. Em última instância os familiares, nomeadamente os pais acabam por perceber que os desenhos escolhidos são fruto de uma trajetória pessoal, sendo que cada traço escolhido representa a forma de como os nossos entrevistados querem contar a sua história pessoal. Além disso também podem ser resultado de uma busca por uma melhor estética, por se “sentirem melhor quando se olham ao espelho” como os mesmos referem. Apesar de em várias situações os pais dos entrevistados se terem mostrado relutantes, acabaram gradativamente por desconstruir os preconceitos que giram em torno da tatuagem e de outras marcas corporais. Inclusive, em determinados momentos os nossos entrevistados confessaram que os seus pais acabaram por embarcar no mundo das modificações corporais.
153 A minha primeira tatuagem foi há muito tempo a trás, a família reagiu um bocadinho mal, tipo pais… porque eu era bastante jovem e… supostamente era uma coisa para toda a vida e hoje em dia não a tenho. Mas reagiram bastante mal e então quando eu decidi que queria ser tatuador ainda reagiram um bocadinho pior. (…) Reagem (atualmente) muito bem, gostam e já sabem apreciar. (Tatuador, 9º ano escolaridade, sexo masculino, 40 anos, Fafe, origem portuguesa) Então, a minha mãe também tinha essa ideia, tipo eu que “ai não gosto de tatuagens e não sei quê”, lá está o preconceito não é a palavra certa, nunca houve discriminação, nem nada desse género, mas ela também não gostava de tatuagens e portanto, eu fui avisando com calma e depois quando fui fazer disse “eu vou fazer hoje” ou “eu vou fazer neste dia”, mas ela adorou as tatuagens. (…) De mais, que a minha mãe já me pediu dois dias em agosto para lhe fazer uma perna inteira… para quem não gostava, começa a abusar (ironia)! (risos) (…) Quando fiz a primeira tatuagem eles disseram “ya, tá fixe” eu fiz pelo sentido, lá está, sentir a dor que iria provocar no futuro às pessoas (aquando do curso para se tornar tatuador) e até que o meu pai disse que queria ser a minha cobaia, a minha mãe queria ser a minha cobaia, o meu irmão, ou seja toda a família, pah ajudou-me bastante. (…) (Tatuador, 9º ano, sexo masculino, 29 anos, Medelo, origem portuguesa) (…) na altura disse-lhe (ao pai) “quero este tamanho” e ele disse “pronto, não faças muito grande, que se não depois arrependes-te” e eu “tá bem”, tatuei meio antebraço e ele viu a tatuagem “tinhas que tatuar o braço todo?” e eu “não ficou fixe?” e ele “por acaso ficou! Mas, decerto está um bocado grande!” e eu “não é nada, agora vou completar” e ele “não sejas tolo!”. Basicamente foi esta reação dele, mas hoje em dia até ele gosta de tatuagens e ele também faz, portanto. (…) Nos dias de hoje eles (pais) até fazem (tatuagens e piercings), portanto acho que reagem bem (risos). (Barbeiro, 10ºano escolaridade, sexo masculino, 27 anos, Fafe, origem portuguesa)