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Análise Psicológica (2013), 1 (XXXI): 3-16 doi: 10.14417/ap.615 Ajustamento psicossocial, ajustamento diádico e resiliência no contexto de desemprego Inês Margarida Dimas*/ Marco Daniel Pereira** / Maria Cristina Canavarro*** *Bolseira de Investigação da Universidade do Minho; ** Bolseiro de Pós-Doutoramento da Fundação para a Ciência e Tecnologia (SFRH/BPD/44435/2008); ** Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra No contexto socioeconómico atual, o confronto com condições de maior ou menor adversidade no trabalho, onde podemos enquadrar o desemprego, pode desafiar a vida pessoal e relacional dos indivíduos. No presente estudo transversal, analisámos a adaptação pessoal (sintomatologia psicopatológica e qualidade de vida), relacional (ajustamento diádico) e resiliência individual no contexto de desemprego. A amostra foi constituída por conveniência e incluiu 15 casais em que um dos elementos estava desempregado e 22 casais, com ambos os elementos empregados. O protocolo de avaliação incluiu os seguintes instrumentos: Inventário de Sintomas Psicopatológicos (BSI); Instrumento de Avaliação da Qualidade de Vida da Organização Mundial de Saúde – WHOQOL-Bref; a Escala de Ajustamento Diádico – Revista (EAD-R) e a Connor-Davidson – Escala de Resiliência (CD-RISC). Os resultados encontrados sugerem que os participantes desempregados atribuem uma maior importância à relação do que os seus parceiros. A resiliência do desempregado mostrou-se associada a menor sintomatologia psicopatológica, a melhor perceção de QdV e a melhor ajustamento diádico. O presente estudo exploratório permitiu contribuir para conhecer melhor a adaptação individual e conjugal ao desemprego, sobretudo devido à escassez de estudos nesta área, deixando ainda pistas futuras de investigação. Palavras-chave: Desemprego, Qualidade de vida, Relação de casal, Resiliência, Saúde mental. INTRODUÇÃO O desemprego é um fenómeno muito atual, acarretando consequências nos âmbitos económico e social, bem como na qualidade de vida individual e do casal. Os dados mais recentes relativos ao quarto trimestre de 2010 indicam-nos que a taxa total de desemprego em Portugal se situou nos 11.1% (10.1% para os homens e 12.3% para as mulheres), sendo a faixa etária dos 15 aos 44 anos a mais atingida (Instituto Nacional de Estatística [INE], 2011). Depreende-se, por isso, que muitos casais e famílias estejam atualmente a ser afetados por este contexto potencialmente adverso. No contexto familiar e, nomeadamente no âmbito de uma relação diádica, cada elemento influencia e é influenciado pelo outro. Viver em família implica, pois, uma adaptação progressiva (Vaz Serra, 2007), quer individual quer à relação. Perante as exigências do trabalho e da vida em geral, parece ser cada vez mais difícil conciliar o trabalho com a família e encontrar um equilíbrio que não comprometa estas diferentes adaptações. 3 A correspondência relativa a este artigo deverá ser enviada para: Marco Pereira, Instituto de Psicologia Cognitiva, Desenvolvimento Vocacional e Social, FPCE, Universidade de Coimbra, Rua do Colégio Novo, Apartado 6153, 3001-802 Coimbra. E-mail: [email protected]
O desemprego, entendido como uma situação que envolve uma ausência de carga de trabalho, normalmente involuntária (Vaz Serra, 2007), constitui-se como uma condição potencialmente adversa de trabalho, com implicações ao nível pessoal e relacional da vida dos indivíduos. Neste sentido, exige ao indivíduo capacidades de adaptação, podendo ser entendido como uma transição, na medida em que incorpora um certo grau de mudança e, consequentemente, de incerteza (Francisco, 2004). No entanto, e apesar de constituir um acontecimento de vida indutor de stresse, o seu impacto psicológico não é igual para todos os sujeitos e pode afetar distintamente o seu bem-estar individual e relacional. A maior parte da investigação que tem sido desenvolvida sobre fatores psicológicos relacionados com o Desemprego tem evidenciado, fundamentalmente, o impacto do desemprego no plano individual. Por outro lado, é possível confirmar que a maioria dos estudos têm focado essencialmente os aspetos negativos da adaptação ao desemprego ao invés dos aspetos positivos. Com efeito, diversos estudos têm constatado que a situação de desemprego provoca mudanças geralmente negativas a nível psicológico, podendo conduzir a uma deterioração da saúde mental e física (e.g., Banks & Jackson, 1982; Dooley & Prause, 1995; Warr, Jackson, & Banks, 1988). Globalmente, os estudos têm mostrado que o indivíduo desempregado tende a experienciar níveis elevados de depressão, ansiedade, somatização, angústia e stresse, apresentando, igualmente, baixa auto-estima, baixa autoconfiança, inatividade e isolamento social (Kessler, Turner, & House, 1988; Warr, Jackson, & Banks, 1988). A este respeito, Mossakowski (2009) estudou a influência do desemprego anterior na duração dos sintomas de depressão, e os resultados mostraram que o desemprego de longa duração predizia níveis elevados de sintomas depressivos nos sujeitos entre os 29 e 37 anos, não tendo registado diferenças estatisticamente significativas em termos de género. Contudo, num estudo de Axelsson, Andersson, Edén e Ejlertsson (2007) sobre a qualidade de vida (QdV) dos jovens desempregados, os resultados revelaram que o desemprego entre os jovens nem sempre é vivenciado como uma experiência negativa, uma vez que a maioria considerou ter uma boa QdV (51%). A partir dos estudos revistos, foi possível constatar que a resposta psicológica individual ao desemprego é caracterizada pela heterogeneidade, embora os aspectos negativos pareçam ser mais frequentes. No plano familiar, os estudos empíricos desenvolvidos revelam que o desemprego é um fator importante por detrás da instabilidade conjugal, podendo conduzir a uma situação de separação/divórcio, ainda que apenas o desemprego do homem pareça ter esse efeito (Jensen & Smith, 1990; Wilhelm & Ridley, 1988). Não obstante a relevância da temática em causa, verificase ainda a existência de poucos estudos, sendo que, pela pesquisa bibliográfica realizada, grande parte dos disponíveis são referentes aos anos 80/90 do século XX. Recentemente, Kinnunen e Felt (2004) estudaram de que forma o stresse económico se refletia no ajustamento diádico de 608 casais finlandeses. Este estudo avaliou variáveis como: as circunstâncias económicas e tensão económica, o distress psicológico e o ajustamento conjugal. Os resultados mostraram que circunstâncias de pobreza se associavam a tensão económica, aumentando o distress psicológico e que estas duas variáveis se refletiam negativamente no ajustamento conjugal. A tensão económica relacionada com as dificuldades em responder às necessidades básicas e pagar as contas, pareceu ter um impacto negativo nos casais, nomeadamente ao nível do bem-estar individual. Por sua vez, os indivíduos psicologicamente perturbados tendiam a ser menos positivos na interação conjugal, o que se refletia na perceção que os elementos do casal tinham acerca da qualidade da sua relação e este aspeto verificou-se tanto entre as mulheres como entre os homens. À semelhança da tensão financeira, também o endividamento parece afetar a saúde psicológica e física dos indivíduos e dos casais de duas formas, como um tema que propicia o conflito diádico e aumenta o nível de stresse individual. Num estudo de Dew (2007, 2008), o aumento do endividamento mostrou-se associado a uma diminuição na satisfação com a relação de casal e a uma diminuição do tempo que o casal passa junto. 4
Apesar do impacto negativo que temos vindo a referir, o desemprego nem sempre tem efeitos nefastos no bem-estar subjetivo dos indivíduos que o vivenciam. Isto pode acontecer, por exemplo, se o emprego anterior era insatisfatório ou fonte de angústia ou stresse (Graetz, 1993). Com efeito, as consequências do desemprego parecem variar consoante o tipo de desemprego, sendo que os estudos sugerem que quando este é involuntário, implica maior sofrimento psicológico do que quando é voluntário e que, no início do desemprego, a angústia é maior do que quando já passou algum tempo (Francisco, 2004). É possível, assim, perante uma situação de desemprego, conceptualizada como uma adversidade, ser resiliente e conseguir uma adaptação bem-sucedida. Mais recentemente, Moorthouse e Caltabiano (2007) verificaram que os sujeitos desempregados com qualidades resilientes tinham menores níveis de depressão. Com efeito, determinados fatores poderão proteger o indivíduo e atenuar os efeitos negativos do desemprego, entre os quais a intrepidez, as estratégias de coping e o apoio social (incluindo do companheiro). Por outro lado, a fraca capacidade de procura de emprego, períodos prolongados de desemprego, dificuldades financeiras e pouca disponibilidade de trabalho, poderão constituir-se como fatores de risco na adaptação ao desemprego. Embora a experiência para a maioria das pessoas em situação de desemprego possa ser resumida em termos de desespero, renúncia ou passividade, é evidente que alguns indivíduos são capazes de neutralizar muitos dos efeitos psicológicos e físicos do desemprego, envolvendose em atividades diversas como passatempos, educação e trabalho voluntário (Brenner & Bartel, 1983; Starrin & Larsson, 1987). Face ao exposto, os desempregados com qualidades resilientes (isto é, autoconfiança, independência, determinação, engenho e perseverança) e atitudes positivas, parecem ter maior probabilidade de adotar um comportamento assertivo na procura de emprego, o que pode ser um aspeto facilitador no processo de adaptação (Moorthouse & Caltabiano, 2007). Porém, e apesar da pertinência desta temática, por exemplo, na prevenção de comportamentos disfuncionais, são ainda escassos os estudos sobre a adaptação bem-sucedida ao desemprego, particularmente no âmbito relacional. O objetivo do presente estudo consistiu em avaliar a adaptação pessoal (em termos de sintomatologia psicopatológica e qualidade de vida) e relacional (relação conjugal e ajustamento diádico) no contexto de desemprego, avaliar a associação entre resiliência individual e adaptação pessoal e relacional, bem como a influência de variáveis associadas ao emprego/desemprego nesta adaptação. Face à revisão de literatura, estabelecemos as seguintes hipóteses de investigação: (1) os sujeitos desempregados apresentarão maiores dificuldades de adaptação pessoal; (2) os sujeitos desempregados apresentarão menor satisfação com a relação conjugal e menor ajustamento diádico; (3) uma melhor adaptação do parceiro estará associada positivamente a melhor adaptação do desempregado; (4) a resiliência individual encontrar-se-á positivamente associada a melhor adaptação individual e relacional; (5) maiores dificuldades de adaptação estarão associadas a maior tempo de desemprego e à perceção de maiores dificuldades financeiras. MÉTODO Participantes A amostra do presente estudo foi constituída por conveniência e incluiu 15 casais (n=30) em que um dos elementos estava desempregado (Grupo Desemprego – GD) e 22 casais (n=44), com ambos os elementos empregados (Grupo Emprego – GE). As principais características sociodemográficas dos participantes são apresentadas no Quadro 1. De forma geral, a maior parte 5
da amostra é constituída por sujeitos casados (73%), com filhos (83.8%), residentes em meios urbanos (75.7%), com uma média de idade de 39.23 anos, uma escolaridade média de 12.28 anos e uma duração média da relação de 13.85 anos. Quadro 1 Características sociodemográficas da amostra GE (n=44) GD (n=30) Total n%n%n% Sexo Masculino 22 29.7 15 20.3 37 50.0 Feminino 22 29.7 15 20.3 37 50.0 Estado civil Casado 42 56.8 12 16.2 54 73.0 União de facto 0202.7 18 24.3 20 27.0 Filhos Não 0608.1 0608.1 12 16.2 Sim 38 51.4 24 32.4 62 83.8 Residência Meio rural 14 18.9 0405.4 18 24.3 Meio urbano 30 40.5 26 35.1 56 75.7 Religião Católica 41 55.4 22 29.7 63 85.1 Nenhuma 0304.1 0608.1 09 12.2 Outra 0000.0 0202.7 0202.7 M (DP) M (DP) M (DP) Idade 40.64 (8.77) 37.17 (6.89) 39.23 (8.19) Escolaridade 13.16 (4.13) 11.00 (3.18) 12.28 (3.90) Duração da relação 15.52 (9.46) 11.40 (8.79) 13.85 (9.36) A análise comparativa dos dois grupos permitiu constatar a sua homogeneidade na maior parte das variáveis sociodemográficas consideradas, com exceção das variáveis religião [ c 2(1)=6.31; p<.05; Vde Cramer=.29] e estado civil [ c 2(1)=27.81; p<.001; Vde Cramer=.61]. Especificamente, verificou-se uma proporção mais elevada de sujeitos de religião católica no GE e uma proporção de união de facto mais elevada no GD. Procedimentos O presente estudo foi constituído por dois grupos, sendo que para cada grupo foram definidos critérios de inclusão. Com efeito, no grupo “Emprego”, foi definido que ambos os elementos do casal teriam de estar empregados. O grupo “Desemprego”, foi constituído por casais em que um elemento tinha trabalho, enquanto o outro se encontrava desempregado, isto é, embora tendo tido um emprego, no período de referência não se encontrava a trabalhar. Todos os participantes após serem informados sobre os objetivos do estudo, das condições para participar e dos critérios de inclusão, assinaram o consentimento informado. Os protocolos foram agrupados em dois e colocados em envelopes selados pelos casais, de modo a garantir a total confidencialidade dos dados, sendo que cada elemento foi instruído a responder separadamente ao protocolo de avaliação. No consentimento informado, os objetivos do estudo eram explicados aos 6
participantes e salvaguardados o anonimato e a confidencialidade das respostas aos questionários. Foi ainda explicado o papel dos investigadores, bem como o carácter voluntário da participação no estudo. Instrumentos O protocolo de avaliação foi composto por uma ficha de dados sociodemográficos, uma ficha de dados relativa à situação profissional devidamente adaptada para cada grupo e quatro questionários de auto-resposta. A ficha de caracterização sociodemográfica foi comum a todos os grupos de participantes. Aqui pretendíamos avaliar as seguintes variáveis: idade, género, estado civil, duração da relação conjugal, habilitações literárias, situação profissional, profissão, religião, e diferentes características da relação conjugal atual, incluindo a importância, felicidade e satisfação global com a relação conjugal. Estas três últimas variáveis foram avaliadas, respetivamente, através das perguntas “Até que ponto é importante a sua relação conjugal?”, “Até que ponto é feliz a sua relação conjugal?” e “Como classifica a sua relação conjugal atual?”, respondidas numa escala de 10 pontos. A ficha de dados relativa à situação profissional diferia segundo o grupo a que se destinava. Para a situação de desemprego, analisaram-se as seguintes variáveis: motivo do desemprego, a sua duração, se tem procurado trabalho, a dificuldade em pagar as despesas, o impacto do desemprego (considerando perguntas relativas à reação ao desemprego, impacto global do desemprego e interferência nas esferas social, familiar e financeira) e a relação conjugal anterior à perda de emprego. Nestas duas últimas variáveis, foi considerada uma escala de resposta de 10 pontos. Relativamente à situação de emprego, prendia-se estudar a modalidade de trabalho (i.e., se tem horário fixo, e caso não tenha, que tipo de turnos tem), se trabalha aos fins-de-semana, as horas que trabalha por dia/semana e a dificuldade em pagar as despesas. Os sintomas psicopatológicos foram avaliados através do Inventário de Sintomas Psicopatológicos (BSI) (Derogatis, 2000; Versão Portuguesa [VP]: Canavarro, 2007), que é composto por 53 itens. Este instrumento avalia nove dimensões básicas de sintomatologia psicopatológica (Somatização, Obsessões-compulsões, Sensibilidade interpessoal, Depressão, Ansiedade, Hostilidade, Ansiedade fóbica, Ideação paranóide e Psicoticismo) e três índices globais: o Índice Geral de Sintomas (IGS), o Total de Sintomas Positivos (TSP) e o Índice de Sintomas Positivos (ISP). No presente estudo, considerámos apenas três dimensões do BSI, nomeadamente as dimensões somatização, depressão e ansiedade. Em relação às características psicométricas do inventário no nosso estudo, os valores de α de Cronbach (nas três dimensões consideradas) variaram entre .82 e .92. A qualidade de vida foi avaliada através da Versão abreviada do instrumento de avaliação da Qualidade de Vida da OMS – WHOQOL-Bref (WHOQOL Group, 1998; VP: Canavarro et al., 2007). Este instrumento é constituído por 26 itens, e por sete escalas de resposta diferentes, todas com cinco possibilidades de resposta (1-5). Os itens encontram-se organizados em quatro domínios (Físico, Psicológico, Relações sociais e Ambiente) e uma faceta geral de qualidade de vida. Cada um dos quatro domínios é composto por facetas específicas da QdV que sumariam o domínio particular de QdV em que se inserem. Este instrumento revelou boas qualidades psicométricas no presente estudo (todos os domínios >.70), com exceção do domínio Ambiente no GD, cujo a de Cronbach apresentou um valor inaceitável (.56), razão pela qual tivemos um maior cuidado na interpretação dos resultados deste domínio neste grupo. Utilizámos a Escala de Ajustamento Diádico – Revista (EAD-R) (Busby, Christensen, Crane, & Larson, 1995) para avaliar o ajustamento diádico. A versão revista da EAD, desenvolvida por 7
Busby et al. (1995), e utilizada no nosso estudo, é composta por 14 itens, e por quatro escalas de resposta. A EAD-R é constituída por três subescalas (Consenso, Satisfação, Coesão) que avaliam o ajustamento diádico. O consenso é composto por três dimensões: tomada de decisões, valores e afeto; a satisfação é constituída por duas dimensões: estabilidade e conflito; e, por fim, a coesão engloba duas dimensões: atividades e discussão. Esta escala contempla ainda um resultado total. No nosso estudo a EADS apresentou boas qualidades psicométricas (valores de a entre .74 e .89), com exceção da subescala coesão no GD, cujo a de Cronbach foi de .61. Por fim, a Resiliência foi avaliada através da Connor-Davidson Resilience Scale (CD-RISC) (Connor & Davidson, 2003). Este instrumento de avaliação permite quantificar a resiliência, sendo constituído por 25 itens com uma escala de resposta de cinco pontos (desde “Não verdadeira” a “Quase sempre verdadeira”). Nos estudos originais, Connor e Davidson (2003) identificaram cinco fatores: Fator 1: Competência pessoal, elevados padrões e tenacidade; Fator 2: Confiança no seu instinto, tolerância ao afeto negativo e efeito da resistência ao stresse; Fator 3: Aceitação positiva de mudança e relações seguras; Fator 4: Controlo; e, por fim, Fator 5: Influências espirituais. No presente estudo, a escala revelou boas propriedades psicométricas. Os valores de consistência interna medida através do α de Cronbach oscilaram entre .70 e .86. RESULTADOS Caracterização do contexto profissional Os desempregados são maioritariamente do sexo feminino (73.3%) e que o motivo mais comum do desemprego é o “despedimento” (53.3%), seguida do fim de contrato (20%). A duração média do desemprego foi de 11.33 meses (DP=9.65 meses), sendo que para a maioria foi a primeira vez que se encontraram nesta situação (73.3%). A maioria dos sujeitos (80%) referiu estar, no momento da participação no estudo, à procura de emprego. Tendo em conta os dados descritos no Quadro 2, e considerando que a escala de resposta varia entre 1 e 10, verificou-se que os sujeitos desempregados referem um impacto particularmente negativo do desemprego e uma interferência mais negativa na vida social, familiar e na situação financeira (o impacto do desemprego apenas se situou acima do ponto médio da escala [5] em relação à interferência na vida social). De assinalar, que a reação da pessoa desempregada, bem como a perceção que o sujeito tem da reação do seu companheiro foi igualmente negativa. Quadro 2 Impacto da situação profissional dos sujeitos desempregados (n=15) Impacto do desemprego (amplitude: 1 – 10) M DP Como se sentiu quando ficou desempregado? 2.67 1.95 Como acha que o seu companheiro(a) se sentiu e reagiu quando ficou desempregado(a)? 2.87 1.77 Interferência na vida social a5.67 2.85 Interferência na relação com a família a4.47 3.31 Interferência na situação financeira a4.80 3.17 Como se sente com a situação de desemprego? 3.13 1.96 Nota. aUm valor mais elevado corresponde a um impacto mais negativo. 8
Sintomatologia psicopatológica e qualidade de vida Para comparação de médias nos indicadores de adaptação pessoal, recorreu-se à análise multivariada da variância (MANOVA) com o grupo (Emprego, Desemprego) e género (Masculino, Feminino) como variáveis independentes (respetivamente, between-subjects e whithin-subjects – dado que os participantes estavam naturalmente emparelhados em casais) e os diferentes indicadores de adaptação pessoal e relacional como variáveis dependentes. Assim, em relação à sintomatologia psicopatológica, a MANOVA revelou um efeito multivariado estatisticamente significativo [Lambda de Wilks=.77; F(3,33)=3.36; p=.030; h p2=.23]. Contudo, os testes univariados subsequentes não revelaram nenhum efeito univariado significativo, ainda que os resultados médios tenham mostrado maior Depressão entre o GD (cf. Quadro 2), tendo sido a diferença marginalmente significativa, F(1,35)=3.02, p=.091, h p2=.08. Não se registaram efeitos multivariados significativos relativamente ao género [Lambda de Wilks=.92; F(3,33)=0.97; p=.419; h p2=.08] ou de interação entre grupo e género [Lambda de Wilks=.95; F(3,33)=0.53; p=.668; h p2=.05]. Já em relação à QdV, não se verificaram diferenças significativas na comparação entre estes dois grupos [Lambda de Wilks=.76; F(5,31)=2.02; p=.104; h p2=.25]. Os testes univariados revelaram, no entanto, uma diferença no domínio Ambiente. Especificamente, apresentam pior QdV neste domínio os sujeitos desempregados. Não se verificou um efeito significativo relativamente ao género [Lambda de Wilks=.91; F(5,21)=0.61; p=.696; h p2=.09], mas verificou-se um efeito de interação entre as variáveis grupo e género [Lambda de Wilks=.65; F(5,31)=3.28; p=.017; h p2=.35]. As análises subsequentes mostraram a existência de um efeito de interação relativamente à Faceta geral de QdV, F(1,35)=6.47, p=.016, h p2=.16. Concretamente, apresentaram pior perceção de QdV os parceiros do GD. Quadro 3 Comparação da sintomatologia psicopatológica e qualidade de vida entre o GD e o GE, por género Grupo Desemprego (n=30) Grupo Emprego (n=44) Feminino Masculino Feminino Masculino M(DP)M(DP)M(DP)M(DP) Sintomatologia psicopatológica Somatização 1.00 (1.01) 0.87 (0.92) 0.84 (0.92) 0.80 (0.70) Depressão 1.28 (0.86) 1.16 (1.11) 0.94 (0.74) 0.68 (0.58) Ansiedade 1.36 (0.88) 1.02 (0.97) 1.04 (0.85) 1.05 (0.75) Qualidade de vida Físico 72.62 (17.11) 71.90 (12.29) 77.44 (13.91) 75.81 (11.87) Psicológico 68.61 (14.42) 72.50 (15.97) 74.62 (13.84) 78.41 (10.81) Relações sociais 66.11 (16.51) 66.67 (13.73) 72.73 (11.26) 73.86 (17.69) Ambiente 59.17 (10.12) 57.29 (8.07)069.03 (12.94) 68.61 (15.11) Faceta geral 68.33 (14.07) 63.33 (9.99)070.45 (13.66) 75.00 (12.20) À semelhança da análise anterior procurámos, ainda, comparar os resultados nos indicadores de adaptação individual dos sujeitos desempregados em relação aos dos seus companheiros (cf. Quadro 4). Controlando o efeito do género, não foi encontrado um efeito multivariado para a sintomatologia psicopatológica [Lambda de Wilks=.93; F(3,25)=0.65; p=.590; h p2=.07]. Para as dimensões da QdV o efeito multivariado também não se revelou estatisticamente significativo [Lambda de Wilks=.87; F(5,23)=0.67; p=.652; h p2=.13]. 9
Quadro 4 Comparação da sintomatologia psicopatológica e qualidade de vida entre o desempregado e o seu companheiro GD – Desempregado GD – Companheiro (n=15) (n=15) M(EP)M(EP)F h p2 Sintomatologia psicopatológica Somatização 00.77 (0.27) 01.10 (0.27) 0.70 .03 Depressão 01.16 (0.28) 01.27 (0.28) 0.08 .00 Ansiedade 01.02 (0.26) 01.36 (0.26) 0.79 .03 Qualidade de vida Físico 70.38 (4.15) 74.15 (4.15) 0.37 .01 Psicológico 70.30 (4.27) 70.82 (4.27) 0.01 .00 Relações sociais 66.20 (4.26) 66.58 (4.26) 0.00 .00 Ambiente 58.60 (2.57) 57.86 (2.57) 0.04 .00 Faceta geral 68.60 (3.35) 63.06 (3.35) 1.22 .04 Nota. *p<.05; **p<.01; ***p<.001. Satisfação com a relação conjugal e ajustamento diádico Relativamente aos indicadores de relação conjugal entre os desempregados e seus companheiros, o efeito multivariado não foi significativo [Lambda de Wilks=.88; F(3,25)=1.10; p=.368; h p2=.12]. De assinalar, no entanto, que em todos os indicadores, os valores médios foram bastante elevados e próximos do máximo da escala de resposta (cf. Quadro 5). No que concerne às dimensões do ajustamento diádico, também não se registou um efeito multivariado estatisticamente significativo [Lambda de Wilks=.79; F(3,25)=2.25; p=.107; h p2=.21]. De igual modo, não se mostrou significativa a diferença relativamente ao total de ajustamento diádico. Quadro 5 Comparação dos indicadores de relação conjugal e ajustamento diádico entre os sujeitos desempregados e os seus companheiros GD – Desempregado GD – Companheiro (n=15) (n=15) M(EP)M(EP)F h p2 Relação conjugal (amplitude: 1-10) Importância da relação conjugal 9.08 (0.42) 8.06 (0.42) 2.60 .09 Felicidade da relação conjugal 8.73 (0.43) 7.87 (0.43) 1.73 .06 Satisfação com a relação conjugal 8.62 (0.49) 7.85 (0.49) 1.12 .04 Ajustamento diádico Consenso 3.85 (0.21) 3.58 (0.21) 0.78 .03 Satisfação 3.99 (0.22) 3.22 (0.22) 05.61* .17 Coesão 2.75 (0.23) 2.70 (0.23) 0.08 .00 Total 48.31 (2.23)043.41 (2.23)02.42 .09 Nota. *p<.05; **p<.01; ***p<.001. 10
Associação entre adaptação conjugal do companheiro e adaptação pessoal do desempregado Para avaliar a associação entre a adaptação conjugal (satisfação com a relação conjugal e ajustamento diádico) do companheiro e a adaptação pessoal (QdV e sintomatologia psicopatoló - gica) do desempregado, recorreu-se ao coeficiente de correlação de Spearman. Em relação aos sujeitos desempregados e seus companheiros, as correlações significativas foram baixas a moderadas. Registou-se uma correlação negativa significativa entre a Coesão do parceiro e a Ansiedade do desempregado (r=-.37, p<.05) e encontraram-se correlações positivas entre o Consenso (r=.37, p<.05), Satisfação (r=.38, p<.05) e Total da escala de ajustamento diádico (r=.37, p<.05) do parceiro e o domínio Psicológico da QdV no desempregado. A variável Impor - tância da relação conjugal do parceiro mostrou-se negativamente correlacionada com as três dimen - sões de sintomatologia psicopatológica [Somatização (r=-.60, p<.05); Depressão (r=-.68, p<.01); e Ansiedade (r=-.56, p<.05)] e positivamente com o domínio Psicológico de QdV (r=.62, p<.05). Associação entre resiliência individual e adaptação pessoal e relacional Relativamente aos sujeitos desempregados, foi possível observar a existência de correlações significativas entre a resiliência individual e adaptação pessoal e conjugal. Especificamente, verificou-se a existência de uma correlação negativa entre as dimensões de resiliência Competência pessoal, Elevados padrões e tenacidade e Aceitação positiva de mudança e relações seguras e a dimensão psicopatológica Depressão (respetivamente, r=-.63, p<.05 e r=-.58, p<.05). Por outro lado, a subescala Aceitação positiva de mudanças e relações seguras apresentou uma correlação positiva significativa com os domínios Físico (r=.59, p<.05) e Psicológico de QdV (r=.55, p<.05). De salientar nesta análise, os resultados significativos encontrados para as três subescalas de resiliência e os domínios de QdV Ambiente (rentre .56, p<.05 e .67, p<.001) e Faceta geral de QdV (rentre .52, p<.05 e .55, p<.05), sendo que apenas não se verificou uma associação significativa entre o fator Confiança no instinto, tolerância ao afeto negativo e efeito de resistência ao stresse e o domínio Faceta Geral. De forma geral, uma maior resiliência do desempregado mostrou-se correlacionada com uma melhor perceção da QdV. Por fim, apenas a dimensão Competência pessoal, elevados padrões e tenacidade apresentou correlações significativas com a subescala Coesão (r=.62, p<.05) e com o Total do ajustamento diádico (r=.63, p<.05). Influência de variáveis associadas à situação de desemprego Para verificar a associação existente entre a duração do desemprego e a sintomatologia psicopatológica, qualidade de vida e ajustamento diádico, recorreu-se também ao coeficiente de correlação de Spearman. A duração do desemprego mostrou-se positivamente correlacionada com a sintomatologia psicopatológica e negativamente correlacionada com a QdV (com exceção do domínio Ambiente) e às dimensões de ajustamento diádico (com exceção da subescala Coesão). Nenhuma das correlações se mostrou, no entanto, estatisticamente significativa. Para a totalidade da amostra, foi realizada também uma MANOVA para comparar a adaptação pessoal e relacional considerando a perceção da dificuldade em pagar as despesas. Os resultados mostraram a existência de diferenças estatisticamente significativas nas três dimensões da sintomatologia psicopatológica [Lambda de Wilks=.83; F(3,70)=4.81; p=.004; h p2=.17], assim como nos domínios de QdV [Lambda de Wilks=.70; F(5,68)=5.87; p<.001; h p2=.30]. Globalmente, os dados mostraram que os sujeitos que referiam dificuldades em pagar as despesas apresentavam maior sintomatologia psicopatológica, sendo que todos os efeitos univariados foram estatisticamente significativos. Já em relação à QdV, verificou-se um padrão semelhante, registando-se uma menor QdV em todos os domínios, com exceção do domínio das Relações 11