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A redefinição do papel e das competências do tradutor em contexto de estágio na L10N Studio, Lda.

Ferreira, Maria João Dantas

Abstract

Este relatório de estágio centra-se na redefinição do papel e das competências do tradutor no contexto do estágio curricular realizado na L10N Studio, Lda., representando a conclusão do Mestrado em Tradução e Comunicação Multilingue. O enquadramento teórico sublinha a crescente relevância do tema nos Estudos de Tradução, em resposta às transformações significativas induzidas pela globalização, pelos avanços tecnológicos e pelas dinâmicas das economias neoliberais. São abordados tópicos como a definição do conceito do tradutor, as mudanças na indústria e no mercado global, a noção de competência tradutória, a formação de tradutores, a “dança da agência” entre o elemento humano e a máquina e o autoconceito do tradutor, culminando nas perspetivas futuras da profissão, refletidas na secção “Quo Vadis, interpres?”. A componente prática do estágio fornece uma visão geral do ambiente de trabalho, incluindo a apresentação da entidade de acolhimento, os detalhes do estágio, o fluxo de trabalho e os tipos de tarefas realizadas. A análise dos dados dos projetos, englobando domínios, tipologias textuais e recursos utilizados, como ferramentas de gestão de projetos e CAT Tools, permite uma compreensão aprofundada da rotina do tradutor e dos desafios enfrentados na prática.

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Escola de Letras, Artes e Ciências Humanas Maria João Dantas Ferreira A redefinição do papel e das competências do tradutor em contexto de estágio na L10N Studio, Lda. janeiro de 2025 Universidade do Minho Escola de Letras, Artes e Ciências Humanas Maria João Dantas Ferreira A redefinição do papel e das competências do tradutor em contexto de estágio na L10N Studio, Lda. Relatório de estágio Mestrado em Tradução e Comunicação Multilingue Trabalho efetuado sob a orientação do Professor Doutor Fernando Gonçalves Ferreira Alves janeiro de 2025 i DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição CC BY https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/ ii Agradecimentos Gostaria de expressar a minha mais profunda gratidão a todas as pessoas e instituições que, de diversas formas, contribuíram para a concretização deste relatório de estágio. Em primeiro lugar, dirijo um especial agradecimento ao meu orientador, Professor Doutor Fernando Gonçalves Ferreira Alves, pela paciência, pelos valiosos conselhos, pela orientação precisa e pelas recomendações bibliográficas ao longo de todo o processo de elaboração deste relatório. Para além disso, agradeço-lhe por ser um exemplo de excelência, tanto a nível profissional como pessoal. Não poderia ter escolhido melhor orientador para me guiar neste percurso académico. Agradeço igualmente aos restantes professores do curso de MTCM, que, ao longo da sua docência, foram fundamentais na construção das minhas referências académicas e na formação da minha ética profissional. O conhecimento que transmitiram, aliado à sua postura e ao rigor com que exercem a sua atividade, marcou profundamente o meu desenvolvimento. À equipa da L10N, e em particular à minha orientadora Ana Rita Canteiro, expresso o meu sincero agradecimento por me terem proporcionado uma visão clara e acolhedora do funcionamento de uma empresa de tradução em crescimento, permitindo-me vivenciar essa realidade de forma enriquecedora, ainda que num contexto virtual. A minha gratidão estende-se também à minha mãe, que sempre foi o meu maior pilar, assegurando não só o meu bem-estar mas também todas as condições para o meu sucesso, zelando sempre pelos meus interesses. Ao meu irmão, Dinis, que é o meu constante apoio, e aos meus amigos, que viveram esta jornada ao meu lado, deixo também o meu profundo agradecimento pela amizade, entreajuda e camaradagem, que tanto significaram para mim durante este percurso. Por fim, dedico este trabalho a todos os profissionais e futuros profissionais da área da tradução, cuja dedicação e empenho me inspiram a prosseguir neste caminho. iii DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. iv A redefinição do papel e das competências do tradutor em contexto de estágio na L10N Studio, Lda. Resumo Este relatório de estágio centra-se na redefinição do papel e das competências do tradutor no contexto do estágio curricular realizado na L10N Studio, Lda., representando a conclusão do Mestrado em Tradução e Comunicação Multilingue. O enquadramento teórico sublinha a crescente relevância do tema nos Estudos de Tradução, em resposta às transformações significativas induzidas pela globalização, pelos avanços tecnológicos e pelas dinâmicas das economias neoliberais. São abordados tópicos como a definição do conceito do tradutor, as mudanças na indústria e no mercado global, a noção de competência tradutória, a formação de tradutores, a “dança da agência” entre o elemento humano e a máquina e o autoconceito do tradutor, culminando nas perspetivas futuras da profissão, refletidas na secção “ Quo Vadis, interpres ?”. A componente prática do estágio fornece uma visão geral do ambiente de trabalho, incluindo a apresentação da entidade de acolhimento, os detalhes do estágio, o fluxo de trabalho e os tipos de tarefas realizadas. A análise dos dados dos projetos, englobando domínios, tipologias textuais e recursos utilizados, como ferramentas de gestão de projetos e CAT Tools, permite uma compreensão aprofundada da rotina do tradutor e dos desafios enfrentados na prática. Palavras-chave: competência tradutória, formação de tradutores, GILT, papel do tradutor, tradução especializada v The Redefinition of the Translator's Role and Competencies in the Context of an Internship at L10N Studio, Lda. Abstract This internship report focuses on redefining the role and competencies of the translator within the context of the curricular internship completed at L10N Studio, Lda., serving as the final requirement for the Master's in Translation and Multilingual Communication. The theoretical framework emphasizes the increasing relevance of this subject in Translation Studies, driven by significant shifts driven by globalization, technological advances, and the rise of neoliberal economies. Key topics explored include the definition of the translator's role, changes in the industry and global market, the concept of translation competence, translator training, the “dance of agency” between human and machine, and the translator’s self-concept, culminating in future perspectives for the profession, discussed in the section “ Quo Vadis, interpres ?” The practical component of the internship provides an overview of the work environment, including the presentation of the host company, the internship details, the workflow, and the types of tasks performed. The analysis of project data, covering domains, text types, and resources used, such as project management tools and CAT Tools, offers an in-depth understanding of the translator's routine and the challenges faced in practice. Keywords: GILT, role of the translator, specialized translation, translation competence, translator training vi Índice I. Introdução ........................................................................................................................ 1 II. Enquadramento teórico ..................................................................................................... 3 2.1. O Conceito e Definição do Tradutor ................................................................................ 3 2.2. As mudanças da Indústria e do Mercado Global .............................................................. 4 2.3. A noção de competência tradutória ................................................................................. 7 2.4. Formação de tradutores ............................................................................................... 10 2.5. A “dança da agência” e o autoconceito do tradutor ....................................................... 13 2.6. Quo Vadis, interpres? (Onde vais tradutor?) ................................................................... 15 III. Contextualização do estágio ........................................................................................ 22 3.1. Apresentação da entidade de acolhimento ............................................................... 22 3.2. Detalhes do estágio ................................................................................................. 23 3.3. Fluxo de trabalho .................................................................................................... 24 IV. Dados dos projetos ..................................................................................................... 27 4.1. Dados gerais ........................................................................................................... 27 4.2. Tipos de tarefa ........................................................................................................ 29 4.3. Domínios e tipologias textuais ................................................................................. 31 4.3.1. Domínios ........................................................................................................ 32 4.3.2. Tipologias textuais .......................................................................................... 35 4.4. Recursos ................................................................................................................ 39 4.4.1. Ferramentas de Gestão de Projetos................................................................. 39 4.4.2. CAT Tools/TEnTs ........................................................................................... 41 4.4.3. Ferramentas de QA ......................................................................................... 44 4.4.4. Outros recursos linguísticos ............................................................................ 46 V. Análise SWOT do estágio ................................................................................................. 51 VI. Considerações finais ................................................................................................... 54 VII. Referências Bibliográficas ............................................................................................ 57 5 padrão, regras e dados específicos a uma língua e a uma região geográfica (Esselink, 2000) — o que espoletou uma grande procura por serviços de tradução. Este período testemunhou também o aparecimento das ferramentas CAT que possibilitaram a automatização da atividade tradutória através de sistemas de gestão de terminologia, memórias de tradução (TM) e bases de dados bilingues que permitem o armazenamento de corpora paralelos para a recuperação e reutilização de segmentos de texto previamente traduzidos (conceito conhecido, na indústria, como leveraging ), e ainda sistemas de tradução automática (MT) que têm o poder de pré-traduzir todo o texto a fim de poupar trabalho ao tradutor. Mais tarde, com o advento e o desenvolvimento da Internet, a localização deixou de estar associada apenas a produtos de software e hardware, mas também a websites, multimédia e qualquer tipo de conteúdo digital, transformando a indústria da localização no “catalisador da produção e publicação eletrónica multilingue” (Schäler, 1999, p. 26). Esta nova face do setor da localização resultou da convergência de tecnologias e indústrias como a informática, a comunicação, a criação de conteúdos, a produção de filmes e vídeos, entre outros. Esta convergência abriu caminho para a chamada “viragem tecnológica” (Cronin, 2010, p. 1) nos Estudos de Tradução, contribuindo, por sua vez, para a procura intensa de serviços de tradução e localização em todo o mundo e para a mutação da natureza da tradução profissional. Por sua vez, na era da Globalização 3.0, a indústria da tradução profissional passou por mudanças profundas impulsionadas pelo aprimoramento da Tradução Automática e pelo surgimento do modelo de crowdsourcing , dois fenómenos que suscitaram grandes preocupações na comunidade de tradutores, nomeadamente por resultarem na diminuição da procura pelos seus serviços, a inevitável descida das suas tarifas e o desprestígio geral do estatuto e credibilidade da profissão. No caso da tradução automática, Frank Austermühl (2011) argumenta que o seu sucesso e adesão crescente se devem ao declínio das expectativas dos utilizadores e da progressiva “humanização” dos outputs dos sistemas de MT conseguida através de corpora retirados de compilações de textos produzidos por humanos (Austermühl, 2011, p. 4). Estes corpora podem também ser um motivo para o insucesso das traduções automáticas, pois, muitas vezes, são retirados da Web sem qualquer critério, dando origem a erros graves nas traduções, especialmente de cariz terminológico, que só poderão ser corrigidos através da pós-edição humana e, a longo prazo, podem contaminar e poluir as bases de dados. Por sua vez, o crowdsourcing — também chamado de tradução colaborativa, tradução feita por fãs, tradução baseada em utilizadores, tradução amadora, tradução voluntária, CT3 (tradução comunitária, de crowdsourcing e colaborativa), tradução em rede, tradução social, tradução Web 2.0., etc. (Austermühl, 2011:15) 6 — é descrito como o segundo “catalisador de desordem” no mercado da tradução, de acordo com Austermühl (2011). Crowdsourcing é um termo que foi cunhado por Jeff Howe, em 2006, e que o mesmo define como “o ato de aceitar um trabalho tradicionalmente efetuado por um agente designado (normalmente um empregado) e externalizá-lo para um grupo indefinido e geralmente grande de pessoas num anúncio público”. Este processo colaborativo tornou-se popular por razões óbvias, dado que se trata de uma forma de obter traduções baratas, ou mesmo gratuitas, e bem mais rápidas, uma vez que são realizadas em contexto de tradução colaborativa. Esta opção acaba por ser uma grande ameaça para os tradutores profissionais, uma vez que é “o público potencial da tradução que faz a tradução”, tornando-o num “modelo de internalidade orientado para o consumidor” (Cronin, 2013, p. 100). adicionando pressão financeira adicional a um trabalho já desvalorizado, Portanto, em cerca de três ou quatro décadas, os tradutores profissionais assistiram a mudanças profundas que impactaram a sua profissão para sempre, nomeadamente: a fragmentação do mercado; a progressiva divisão e profissionalização das tarefas; a reestruturação e reorganização da profissão; a adoção imperativa e progressiva de novos conjuntos de aptidões e competências; a crescente automatização e deslocalização da atividade tradutória; o aumento do impacto da tecnologia; e o surgimento de ameaças como a tradução automática e o crowdsourcing que põe em causa a sua estabilidade económica e estatuto social (Raído, 2016). Prova-se assim que, face a todas as vicissitudes agora enumeradas, as definições de tradutor inicialmente citadas acabam por não fazer, de todo, jus à profissão, tal como ela se apresenta hoje. Nesse seguimento, Vanessa Raído propõe uma definição muito mais fiel e atualizada, descrevendo os tradutores profissionais como “agentes altamente polivalentes cujo trabalho requer competências linguísticas avançadas, literacia da informação avançada e grande competência tecnológica e instrumental, operando atualmente numa e para uma sociedade cada vez mais tecnologizada, num sistema complexo e competitivo de expectativas de clientes e utilizadores, ferramentas e novas formas de organização e condições de trabalho” (Raído, 2016). O que se retira desta definição é que o tradutor, enquanto profissional, deixou de ser apenas definido por aquilo que produz, as traduções/textos de chegada, e passou a ser definido pelas suas competências, aquilo de que dispõe para obter o seu produto final. O que nos leva ao assunto das competências do tradutor e da aquisição das mesmas através da formação de tradutores. 7 2.3. A noção de competência tradutória A noção de competência na área da tradução constitui um objeto de estudo relativamente recente em comparação com outras disciplinas. A Competência Tradutória foi mencionada pela primeira vez por Wilss, em 1976, tendo começado a ser analisada nos Estudos de Tradução na metade da década de 1980 e tornando-se proeminente na década de 1990, consolidando-se posteriormente nos anos 2000. Nos diversos modelos que surgiram posteriormente, não se conseguiu obter consenso em relação à definição do conceito de competência tradutória. No entanto, Pym (2003), após estudar modelos de outros tradutólogos, destacou quatro noções mais comuns de competência tradutória: a inexistência de competência tradutória, os modelos multicomponenciais, os modelos que consideram a soma das competências linguísticas bilíngues e o conceito de supercompetência. A maioria dos modelos que descrevem a competência tradutória são modelos componenciais que se centram nas componentes (ou subcompetências) que caracterizam a tradução escrita, tais como o conhecimento linguístico, o conhecimento extralinguístico, a competência de transferência, as capacidades de documentação e a competência estratégica (Hurtado Albir, 2010). O modelo componencial mais reconhecido é o Modelo Holístico do grupo PACTE, um grupo de investigação liderado por Amparo Hurtado Albir, criado em 1997 com o objetivo de investigar a natureza da competência tradutória (CT) e a forma como esta é adquirida. Ao longo do tempo, o grupo refinou os modelos de CT com base em pesquisas empírico-experimentais. Este modelo holístico distingue entre competência (o sistema subjacente de conhecimento) e performance (o ato de traduzir), postulando que a competência tradutória é qualitativamente diferente da competência bilíngue, sendo esta última apenas um dos componentes da CT. A competência tradutória é definida como um sistema subjacente de conhecimentos, habilidades, destrezas e atitudes necessárias para traduzir, o qual, como qualquer conhecimento especializado, possui componentes declarativos e operativos. Na sua primeira versão, apresentada em 1998, o modelo holístico definia a competência tradutória como um conjunto de seis subcompetências interrelacionadas. Estas incluem a competência bilíngue, que envolve a compreensão da língua de partida e a produção na língua de chegada, abrangendo conhecimentos gramaticais, textuais, ilocutivos e sociolinguísticos; a competência extralinguística, que abrange conhecimentos sobre o mundo, culturas e áreas temáticas específicas; a competência de transferência, considerada central e que integrava todas as restantes subcompetências, referindo-se à capacidade de realizar o processo de transferência 8 do sentido entre o texto de partida e o texto de chegada; a competência instrumental e profissional, que se refere ao uso de fontes de documentação, tecnologias de tradução e ao conhecimento do mercado de trabalho; a competência psicofisiológica, que engloba recursos cognitivos, psicomotores e comportamentais, como a memória, a concentração, o rigor e a criatividade; e, por fim, a competência estratégica, que inclui os procedimentos utilizados para identificar e resolver problemas no processo tradutório, desempenhando um papel crucial na monitorização e correção de deficiências nas outras subcompetências. Em 2003, o grupo PACTE realizou uma revisão significativa deste modelo, eliminando a subcompetência de transferência, uma vez que se verificou que esta se sobrepunha à definição global de competência tradutória. A competência tradutória passou, então, a ser entendida como o sistema subjacente de conhecimentos, habilidades e destrezas necessárias para traduzir, composto por componentes declarativos e procedimentais, e integrando os conhecimentos necessários para completar o processo de tradução, desde a compreensão do texto de partida até à sua reexpressão no texto de chegada, em conformidade com o objetivo da tradução e o público destinatário. Nesta versão revista, o modelo passou a ser composto por cinco subcompetências: competência bilíngue, competência extralinguística, competência em conhecimentos sobre tradução, competência instrumental e competência estratégica. A remoção da subcompetência de transferência teve como objetivo clarificar que esta já não deveria ser considerada uma subcompetência autónoma, mas antes como sinónimo da própria competência tradutória, refletindo assim o caráter especializado e integrado deste conhecimento. No que diz respeito à aquisição da competência tradutória, o grupo PACTE considera que este é um processo de aprendizagem dinâmico, não linear e cíclico, que envolve a reestruturação e o desenvolvimento do conhecimento, desde um nível amador (competência pré-tradutória) até a um nível especializado (competência tradutória). Esta progressão não ocorre de forma sequencial ou previsível, mas sim através de uma evolução gradual e complexa que implica avanços e recuos, bem como a interação constante entre as diferentes subcompetências. Este processo requer a competência de aprendizagem e resulta numa reestruturação integrada de conhecimentos declarativos e operativos. Durante a aquisição da competência tradutória, os aprendizes atravessam diferentes estágios de desenvolvimento, os quais podem ser influenciados por diversos fatores, como o tipo de tradução, a combinação linguística, a especialização e o contexto de aprendizagem. A experiência prática de tradução é crucial para a formação dos tradutores, na medida em que 9 permite aos aprendizes internalizarem os princípios da tradução e desenvolverem as suas competências. À medida que se expõem a diferentes situações de tradução, as suas subcompetências são continuamente desenvolvidas e reestruturadas. Esta reestruturação implica a integração e o desenvolvimento de diferentes tipos de conhecimento, incluindo o conhecimento declarativo (saber o quê) e o conhecimento procedimental (saber como). O conhecimento declarativo refere-se aos princípios teóricos da tradução, enquanto o conhecimento procedimental envolve as competências práticas necessárias para realizar o processo tradutório. Duas variáveis-chave na aquisição da competência tradutória são o conhecimento de tradução (declarativo) e o projeto de tradução (procedimental). O primeiro abrange o conhecimento implícito que o aprendiz possui sobre os princípios da tradução, enquanto o segundo se refere à abordagem que o aprendiz aplica na tradução de um texto específico e nas unidades que o compõem, sempre em um determinado contexto. Para avaliar o desenvolvimento da competência tradutória, são utilizados indicadores como o índice de dinamismo e o coeficiente de coerência. O índice de dinamismo mede se a abordagem à tradução é mais dinâmica (textual, interpretativa, comunicativa e funcionalista) ou estática (linguística e literal). O coeficiente de coerência, por sua vez, avalia a consistência da conceção de tradução do aprendiz, verificando se a sua abordagem aos diferentes aspetos da tradução é coerente. Os estudos do grupo PACTE evidenciam a importância de uma conceção e de uma abordagem dinâmicas à tradução, tanto para a competência tradutória como para o processo de aquisição dessa competência. A progressão de um conhecimento declarativo estático para um dinâmico é uma característica fundamental do desenvolvimento da competência tradutória. Estes resultados reforçam a necessidade de integrar nas formações de tradução uma abordagem que promova o desenvolvimento de uma conceção dinâmica da tradução. Assim, a formação deve proporcionar aos aprendizes experiências práticas diversificadas que lhes permitam aprimorar as suas competências de resolução de problemas e de tomada de decisão, bem como a capacidade de aplicar estratégias de tradução eficazes. É igualmente crucial que a formação de tradutores aborde não apenas as competências específicas da tradução, mas também as competências genéricas, como a autocrítica, o pensamento crítico e a capacidade de trabalhar sob pressão (PACTE, 2020). 10 2.4. Formação de tradutores No âmbito da aquisição de competências tradutórias, torna-se, como já foi mencionado, de grande relevância, abordar os programas de formação de tradutores e, consequentemente, a conceção dos planos curriculares. Dorothy Kelly, no seu guia para formadores de tradutores ( A Handbook for Translator Trainers , 2005), dedica um capítulo às questões essenciais para a elaboração de planos curriculares orientados para a tradução. Ela inicia este capítulo com uma citação de Cannon & Newble (2000), afirmando que “a chave do planeamento curricular reside na criação de ligações educacionalmente sólidas e lógicas entre as intenções planeadas (expressas como objetivos), o conteúdo do curso, os métodos de ensino, de aprendizagem e de avaliação da aprendizagem dos alunos, tendo em conta as suas características” (2000: 142–143, tradução própria). Partindo deste princípio, Kelly estipula que o primeiro passo é definir objetivos explícitos e transparentes, bem como os resultados esperados para os cursos formativos, algo que, segundo a autora, já faz parte na maioria dos sistemas, enquanto esforço contínuo para melhorar a aprendizagem dos estudantes. Kelly (2005) também apresenta fatores a ter em consideração ao definir os resultados esperados. Entre estes incluem-se: as necessidades sociais, ligadas à economia local ou regional; as normas profissionais, que em alguns casos serão apresentadas formalmente (caso da ISO 17100 e do EMT Competence Framework , que será apresentado mais abaixo); as necessidades da indústria; a política institucional; as restrições institucionais, como a legislação ou as regulamentações nacionais; as considerações disciplinares, como as pesquisas e a bibliografia existentes, práticas comuns dos cursos semelhantes, etc.; e, por fim, os próprios perfis dos estudantes. Um dos fatores mais importantes, segundo Kelly, é o contexto sociocultural e institucional em que os cursos são desenvolvidos. Este contexto, muitas vezes, produz e apresenta a descrição realista do que é pedido que um tradutor profissional faça. Este foi um grande ponto de partida para o Espaço Europeu de Ensino Superior no processo de Bolonha, que visa harmonizar o ensino superior europeu, promovendo a mobilidade de estudantes e docentes, e tornando-o mais inclusivo e competitivo. Os países comprometem-se a adotar um sistema de três ciclos (licenciatura, mestrado e doutoramento), a reconhecer qualificações obtidas no estrangeiro e a garantir a qualidade do ensino (Comissão Europeia, 1999). 11 Neste contexto, a Comissão Europeia criou o EMT Competence Framework , do qual o Mestrado em Tradução e Comunicação Multilingue da Universidade do Minho passou a fazer parte este ano, 2024. O EMT Competence Framework (Quadro de Competências do Mestrado Europeu em Tradução), inicialmente publicado em 2009 e atualizado significativamente em 2017, tornouse uma referência essencial para a formação de tradutores na União Europeia e noutros contextos, tanto no meio académico como na indústria. A sua criação baseia-se nos princípios fundadores do EMT, estabelecidos em 2009 pelo Grupo de Peritos, e incorpora os resultados das investigações sobre tradução e competência tradutória conduzidas pela comunidade académica. Em 2022, foi atualizado para refletir as novas prioridades dos programas de tradução europeus e as mudanças na indústria dos serviços linguísticos, preparando os formandos para um mercado de trabalho altamente dinâmico e tecnologizado. Este quadro visa consolidar e melhorar a empregabilidade dos graduados de mestrados em tradução em toda a Europa. O quadro assume que os programas de mestrado devem ensinar uma combinação de conhecimento e aptidões, permitindo aos estudantes desenvolver as competências consideradas essenciais para aceder à indústria da tradução e ao mercado de trabalho em geral. Para tal, utiliza conceito definidos no European Qualifications Framework , onde o “conhecimento” é visto como a assimilação de informações, como factos, teorias e práticas; a “aptidão” refere-se à capacidade de aplicar esse conhecimento na execução de tarefas e resolução de problemas; e a “competência” consiste na capacidade comprovada de usar conhecimentos e aptidões, juntamente com capacidades pessoais, sociais e metodológicas, em contextos profissionais e académicos. Estes elementos são fundamentais para que os estudantes alcancem os resultados de aprendizagem, ou seja, o que sabem, compreendem e são capazes de fazer após o processo formativo, garantindo a sua autonomia e responsabilidade no mercado laboral. O quadro de competências não pretende descrever de forma exaustiva todas as competências e conhecimentos que os graduados em tradução devem adquirir, omitindo, por exemplo, o conhecimento teórico e as competências de investigação incluídas em programas avançados. No entanto, estabelece um conjunto comum de resultados de aprendizagem focado em competências gerais e aptidões específicas, permitindo que os programas incluam outras áreas de conhecimento, conforme as suas particularidades. O EMT Competence Framework define cinco áreas principais de competência que são fundamentais para a formação de tradutores ao nível de mestrado, atendendo às necessidades do mercado profissional e à preparação dos estudantes para os desafios complexos no setor da 12 tradução. A primeira área, Língua e Cultura (Consciência Transcultural e Sociolinguística e Aptidões Comunicativas), abrange o conhecimento linguístico e cultural necessário para a tradução de nível avançado, incluindo a capacidade de entender variações linguísticas (sociais, geográficas ou históricas) e adaptar-se a estruturas gramaticais e lexicais apropriadas, bem como identificar elementos culturais e valores subjacentes nos textos. O domínio de pelo menos duas línguas de trabalho (nível C1 ou superior no QECR) é um requisito fundamental. A segunda área, Tradução (Competência Estratégica, Metodológica e Temática), é o centro do quadro e abrange o processo de transferência de significado entre línguas (interlinguística e intralinguística) e inclui as competências metodológicas necessárias para a gestão do processo de tradução. Esta área sublinha também a importância da tradução automática nos fluxos de trabalho atuais, exigindo literacia em TA e uma compreensão das suas limitações e potencialidades. A terceira área, Tecnologia (Ferramentas e Aplicações), concentra-se no uso da tecnologia no processo de tradução. Esta competência abrange o conhecimento e a aptidão para implementar e aconselhar sobre o uso de tecnologias de tradução, incluindo a tradução automática e o uso de ferramentas de apoio à tradução, assegurando que os tradutores estejam preparados para um ambiente cada vez mais tecnologizado. A quarta área, Pessoal e Interpessoal, abrange as chamadas “soft skills”, que são fundamentais para a empregabilidade dos tradutores. Estas incluem a capacidade de comunicação, trabalho em equipa, gestão de tempo e resolução de conflitos, áreas que aumentam a adaptabilidade dos graduados num mercado de trabalho dinâmico. Por fim, a quinta área, Prestação de Serviços, está relacionada com a capacidade de prestar serviços linguísticos num contexto profissional, incluindo a gestão de clientes, negociação de contratos, gestão de projetos e garantia de qualidade. Esta competência reflete a necessidade de os tradutores não só serem competentes no ato de tradução, mas também de estarem cientes dos requisitos dos clientes, comissários e utilizadores, e de prestarem serviços de acordo com os mais altos padrões profissionais e éticos. Embora as cinco áreas possam ser vistas separadamente, são complementares e igualmente importantes na prestação do serviço de tradução, que constitui o objetivo final deste processo. 13 2.5. A “dança da agência” e o autoconceito do tradutor A tradução contemporânea é indubitavelmente uma forma de interação humano-máquina (HCI), definida por Johnson (1992) como “o estudo da interação entre pessoas, computadores e tarefas”. Este campo interdisciplinar combina elementos das ciências, engenharia e arte, com um foco central nas exigências que os computadores impõem ao conhecimento, às tarefas e à aprendizagem dos utilizadores. A HCI não se limita à interface do utilizador de um produto de software , mas abrange uma gama mais ampla de interações entre humanos e máquinas. No domínio da HCI, destacam-se dois conceitos frequentemente utilizados: os fatores humanos e a ergonomia. Os fatores humanos concentram-se na forma como as pessoas interagem com ferramentas e tecnologias, enquanto o termo “ergonomia” se referia, tradicionalmente, à facilidade de uso do hardware, como teclados, mas evoluiu para incluir também a usabilidade de produtos de software . Um subdomínio da ergonomia, designado ergonomia cognitiva, aborda as exigências cognitivas impostas aos utilizadores pelo design e pela complexidade dos programas de computador. Sharon O’Brien (2012) aplicou este conceito ao campo da tradução, uma vez que esta depende amplamente de recursos informáticos, tornando-se atualmente uma profissão quase simbiótica com a máquina. A tradução requer uma interação cada vez maior com os computadores, o que tem sido tanto uma facilitadora quanto uma fonte de descontentamento na profissão. Este desenvolvimento trouxe benefícios, mas também desafios significativos, que devem ser o foco de maior discussão e investigação na comunidade tradutória. As ferramentas tecnológicas, como as memórias de tradução (TM) e a tradução automática (TA), proporcionam benefícios claros em termos de velocidade, qualidade e custo. Para os clientes e utilizadores finais, a rapidez no processamento, através da reutilização de traduções anteriores, e a consistência assegurada, especialmente em domínios técnicos ou especializados, constituem vantagens indiscutíveis. Além disso, a redução de custos associada à reutilização de material traduzido representa um incentivo económico importante. Para os tradutores, o uso de TM e TA aumenta a produtividade, permitindo-lhes concluir projetos mais rapidamente e concentrar-se em tarefas mais desafiadoras, sem a necessidade de repetição contínua de frases. O acesso instantâneo a ferramentas de gestão de terminologia e a dicionários eletrónicos facilita o processo, enquanto a TA cria novas oportunidades de trabalho, 14 como a pós-edição e a avaliação de qualidade, expandindo o leque de papéis possíveis para os tradutores. Contudo, apesar destas vantagens, as desvantagens não devem ser ignoradas. O uso crescente de tecnologias de tradução pode resultar numa desumanização e desvalorização do papel do tradutor. Muitos profissionais sentem-se relegados à função de revisores de erros gerados por máquinas, o que pode desvalorizar a sua perícia e criatividade. Além disso, a pressão para adotar a TA pode conduzir a uma diminuição das tarifas, subvalorizando o trabalho do tradutor. A dependência excessiva de TM pode não só perpetuar erros, mas também limitar a inovação e a originalidade no processo tradutório, tornando-o mais mecânico. A qualidade e a criatividade, que constituem os pilares fundamentais da tradução humana, também estão em risco. A busca incessante por rapidez e consistência pode suprimir a liberdade criativa dos tradutores, reduzindo o seu papel à correção de erros triviais. A aceitação crescente de uma tradução “suficientemente boa” em detrimento da excelência pode, a longo prazo, comprometer as competências dos tradutores, afetando a qualidade global do serviço de tradução (O’Brien, 2012). É neste contexto que Öner Bulut (2019) sugere que o tradutor humano já não é o único agente na esfera da tradução, partilhando a agência — a vontade e capacidade de agir (Kinnunen & Koskinen, 2010) — com a máquina, transformando a interação numa verdadeira “dança de agência”. Bulut questiona como devem os formadores de tradutores adaptar-se a esta realidade, tendo conduzido um estudo em 2019 que pretendia explorar a forma como seria possível preparar os futuros tradutores para esta nova dinâmica. Este estudo defende que a redefinição do papel do tradutor humano está intimamente ligada à necessidade de repensar os currículos de formação. Bulut propõe um enfoque na “competência do tradutor humano”, considerando-a como uma nova construção na formação, que vai além das subcompetências tradicionais, como a “competência instrumental” ou a “competência tecnológica”. A nova perspetiva de Bulut sugere o desenvolvimento de uma “metacompetência de tradução humana”, que não implica a rejeição dos avanços pedagógicos alcançados, mas sim o reposicionamento das competências tradicionais dos tradutores através de uma análise SWOT e da integração de abordagens inovadoras de formação. O autor sugere, por exemplo, que a tradução automática seja integrada na formação o mais cedo possível, de modo a aumentar a consciência dos estudantes sobre os seus papéis atuais e futuros enquanto tradutores humanos. Estes papéis 21 e o prazer encontrado no processo de tradução. Para fortalecer a profissão, argumenta que é necessário aproximar a teoria da prática profissional, reformulando a teoria da tradução para tornála mais aplicável ao dia-a-dia dos tradutores, bem como promover normas de qualidade e uma maior regulamentação da profissão, essenciais para o reconhecimento das competências especializadas dos tradutores. Para além das sugestões destes autores, várias medidas podem ser adotadas para maximizar a agência do tradutor e, consequentemente, melhorar a sua qualidade de vida. A nível individual, é essencial que os tradutores desenvolvam continuamente novas competências. O domínio das ferramentas tecnológicas de tradução, incluindo a compreensão dos formatos de dados utilizados e do estatuto legal da propriedade dos dados, é crucial para garantir a sua relevância no mercado. Kiraly (2000, citado por Moorkens 2017) sublinha a importância da aprendizagem ao longo da vida, permitindo que os tradutores se adaptem de forma dinâmica às constantes mudanças na profissão. Adicionalmente, Katan (2016, citado por Moorkens, 2017) sugere que os tradutores se desvinculem de trabalhos insatisfatórios e se concentrem na transcriação, uma área menos suscetível à substituição por máquinas. Esta abordagem não apenas proporciona reconhecimento profissional pelo seu papel criativo, mas também permite que se dediquem a trabalhos mais gratificantes e que maximizem as suas tarifas. Além disso, é vital que os tradutores adotem uma estratégia ao aceitar apenas projetos que correspondam às suas competências, garantindo uma remuneração justa. A redução da qualidade do trabalho ou a aceitação de condições precárias, conforme revelado por Abdallah (2010, citado por Moorkens, 2017), pode resultar em consequências adversas para a profissão. Assim, a autovalorização e a seleção consciente dos projetos são fundamentais. No que respeita a soluções coletivas, a crescente preocupação com os direitos dos trabalhadores contingentes tem impulsionado iniciativas significativas. Um exemplo disto é a emenda legislativa na Irlanda (2016/17), que visa proteger os freelancers e permitir a negociação coletiva. Nos Estados Unidos, acordos de negociação coletiva para trabalhadores contingentes estão em vigor no estado de Washington desde 2013. No sector da tradução, a Carta do Tradutor da Federação Internacional de Tradutores (1963/1994) e a Recomendação da UNESCO sobre a proteção jurídica dos tradutores (1976) recomendam a equiparação salarial dos tradutores a outras profissões. Embora pequenas vitórias tenham sido alcançadas, como os acordos entre tradutores 22 literários italianos e editoras independentes em 2016, e o acordo coletivo para intérpretes no estado de Washington, melhorias substanciais continuam a ser um desafio (Moorkens, 2017). Berardi (2015, p. 329) ressalta que a “auto-organização dos trabalhadores cognitivos” tem falhado em grande parte devido à precariedade e à globalização, que comprometem a solidariedade social necessária para uma organização autónoma. Abdallah e Koskinen (2007, citado por Moorkens, 2017) notam um crescente clima de desconfiança entre clientes e tradutores, dificultando a interação e a organização através das redes sociais. Portanto, é fundamental que os tradutores se esforcem para fortalecer associações profissionais e explorem oportunidades de negociação coletiva, promovendo uma abordagem unificada diante da pressão global por reduções de preço. III. Contextualização do estágio 3.1. Apresentação da entidade de acolhimento A L10N é uma empresa de tradução e outras soluções linguísticas, com sede em Lisboa, fundada em 2009. A empresa é certificada pela norma ISO 17100 e destaca-se pela produção anual de aproximadamente 18.000.000 palavras traduzidas em 120 idiomas. A L10N atua em diversos setores, tais como saúde, indústria, marketing , finanças, direito, IT & software , bem como e-learning e formação. Para além de oferecer serviços de tradução especializada, a L10N proporciona soluções de localização, legendagem, transcrição, gestão terminológica, marketing multilingue (SEO, transcriação e copywriting ) e tecnologia (DTP e tradução automática). O principal objetivo da empresa é ajudar outras empresas e marcas a vencer nos mercados internacionais, adaptando a sua comunicação às necessidades dos seus clientes em todo o mundo. Este compromisso é refletido no seu slogan “making translation invisible”, uma alusão à teoria de Alexander Fraser Tytler (1791) que definia uma boa tradução como aquela que reflete o mesmo tom, ideia, fluência e naturalidade do texto original, e no mote “eficiência, fiabilidade e foco no cliente”. Conforme destacado no seu website, “é incalculável o preço da fiabilidade e do conhecimento”. Ou seja, tratase de uma entidade cujo objetivo é atuar nos “bastidores” das operações dos seus clientes, traduzindo os seus conteúdos com o rigor e o conhecimento especializados exigidos no domínio da tradução técnica e especializada, assegurando sempre a fidelidade à mensagem original do cliente e respetivos objetivos. 23 Relativamente à sua estrutura organizacional, a L10N conta com uma equipa interna composta por seis gestores de projeto, um líder de equipa, um responsável pela qualidade e recursos humanos, um responsável de marketing , um responsável de vendas, sete linguistas internos e o CEO. Esta equipa multidisciplinar colabora para garantir a máxima eficiência e qualidade nos serviços prestados, sempre com um foco constante na satisfação do cliente. Figura 1 - Organograma da L10N (Elaboração Própria) 3.2. Detalhes do estágio O estágio curricular descrito neste relatório decorreu entre 5 de fevereiro e 31 de maio, com uma duração total de três meses e 24 dias. O horário de expediente estabelecido foi das 9h às 18h, com uma pausa para almoço das 13h às 14h, de segunda a sexta-feira. Todas as atividades foram realizadas remotamente, utilizando o ambiente de trabalho remoto fornecido pela empresa. Durante este período, a estagiária esteve sob a orientação de Ana Rita Canteiro, uma das gestoras de projeto da empresa, com quem comunicava regularmente via Skype, assim como com o resto da equipa. Realizavam-se videochamadas esporádicas para fazer o ponto de situação. O principal enfoque do estágio foi a execução de projetos de tradução técnica e especializada em diversas áreas, envolvendo tradução e pós-edição, predominantemente do inglês para o português, com alguns projetos franceses ao longo do percurso, embora em quantidade reduzida devido à menor afluência de trabalho nesse par linguístico. 24 No âmbito das atividades realizadas, foi possível experimentar um pouco de todos os domínios abrangidos pela empresa, utilizando uma grande variedade de CAT Tools. Abaixo, segue uma cronologia que aponta os acontecimentos mais significativos, do período pré-estágio ao pós-estágio: Figura 2 - Cronologia do Estágio (elaboração própria) 3.3. Fluxo de trabalho O fluxo de trabalho adotado pela L10N para os seus projetos de tradução é metodicamente estruturado com o propósito de garantir eficiência e qualidade em todas as etapas do processo. Este fluxo pode ser dividido em várias fases distintas que se complementam para assegurar um produto final de alta qualidade. O processo inicia-se com a preparação do projeto, onde o gestor de projetos estabelece o contato inicial com o cliente. Durante esta fase, são analisados os requisitos do projeto, negociados os detalhes relacionados com o preço e definido o calendário de execução. É nesta etapa que se estabelece a base sobre a qual todo o trabalho subsequente será desenvolvido. Na fase seguinte, a tradução, o gestor de projetos disponibiliza ao(s) tradutor(es), através da plataforma Plunet, os recursos essenciais para a execução do trabalho fornecidos pelo cliente. 25 Estes incluem glossários, guias de estilo, memórias de tradução, instruções ( translation briefs) e outros documentos de referência como imagens, vídeos, versões anteriores do documento, entre outros. Utilizando uma CAT Tool apropriada, o tradutor realiza a tradução do texto, assegurando a fidelidade ao briefing fornecido e mantendo a consistência e precisão terminológica com base nos recursos disponibilizados. Após a conclusão da tradução, o projeto avança para a fase de revisão, onde o tradutor realiza a correção linguística do(s) documento(s), utilizando o corretor do Microsoft Word e verificando a terminologia, consistência, pontuação e formatação, através de ferramentas de software para QA, como o Verifika. Por fim, o tradutor finaliza o projeto e realiza a entrega através da plataforma Plunet, seguindo os protocolos específicos para cada tipo de ferramenta de tradução utilizada. Esta etapa pode incluir a submissão de documentos adicionais como notas de entrega e queries . “Query” refere-se a uma pergunta, dúvida ou solicitação de esclarecimento feita pelo tradutor, revisor ou outro profissional envolvido no processo de tradução. Essas queries podem surgir quando há ambiguidades, termos técnicos não esclarecidos, partes do texto original que não são claras o suficiente para serem traduzidas com precisão, ou outras questões que precisam de ser resolvidas para garantir a qualidade e a exatidão da tradução final. As queries são normalmente documentadas e tratadas pelo gestor de projetos ou pela equipa responsável e enviadas para o cliente a fim de garantir que todas as questões sejam resolvidas de maneira satisfatória antes da conclusão do projeto. Durante todo o processo, os gestores de projetos desempenham um papel central na coordenação e na garantia de que todos os passos sejam seguidos de acordo com as expectativas dos clientes e os padrões de qualidade da empresa. Esta abordagem estruturada não só facilita a gestão eficiente dos projetos de tradução, como também promove a colaboração entre os membros da equipa, resultando em traduções de alta qualidade que satisfazem plenamente as necessidades e expectativas dos clientes da L10N. 26 Figura 3 - Fluxo de trabalho na L10N (Elaboração Própria) 27 IV. Dados dos projetos 4.1. Dados gerais Durante o estágio, a estagiária participou na execução de um total de 247 projetos. Destes, os primeiros 11 foram “dummies”, ou seja, documentos fictícios criados para familiarizar os novos membros da equipa com os processos e ferramentas da empresa, simulando condições reais de trabalho. Todos os projetos tiveram como língua de partida o inglês, à exceção de 6 projetos, cujo texto de partida era em língua francesa. Gráfico 1 - Rácio entre projetos reais e “dummies” (Elaboração Própria) 96% 4% Rácio entre projetos reais e "dummies" Reais Dummies 28 Gráfico 2 - Rácio entre pares linguísticos (Elaboração Própria) Durante o estágio, as atividades concentraram-se em três áreas principais: tradução especializada, tradução técnica e localização. A tradução especializada, entendida como a tradução dos campos de conhecimento específico que se enquadram na tradução não-literária (Gotti & Sarcevic, 2007), envolveu a tradução de textos pertencentes a domínios específicos, como ciência, tecnologia, economia, marketing e direito. Este tipo de tradução exigiu um conhecimento aprofundado tanto da língua de origem quanto do tema abordado, para assegurar a precisão e a fidelidade do conteúdo original. Exemplos práticos incluíram a tradução de relatórios técnicos e documentos de marketing , onde a compreensão da terminologia e do contexto era essencial para a qualidade do trabalho. A tradução técnica, entendida como a tradução de documentos que contêm informações especializadas, com foco na clareza e na precisão técnica (Byrne, 2006), focou-se na tradução de documentos com informações especializadas, como manuais, guias de utilizador e especificações técnicas. Entre outros aspetos, a clareza e a precisão foram cruciais para garantir que as instruções fossem compreensíveis e eficazes para os utilizadores finais. Esta área de trabalho é enriquecida pela aplicação de princípios de engenharia de usabilidade e comunicação técnica, com o objetivo de melhorar a acessibilidade e a eficácia comunicativa dos textos traduzidos. 98% 2% Rácio entre pares linguísticos EN>PT FR>PT 29 Por fim, a localização, que se refere ao processo de adaptação de um produto de forma a torná-lo linguisticamente e culturalmente adequado ao público-alvo da região ou país onde será utilizado e comercializado ( locale ) (Esselink, 2000), esteve diretamente associado à tradução e adaptação de software . Este processo incluiu a interface de utilizador (UI) e toda a documentação associada, como ficheiros de ajuda e mensagens de erro. A localização de software exigiu especial atenção a elementos como menus, botões, notificações e outros componentes da UI, de modo a assegurar uma experiência de utilizador fluida e intuitiva. As três áreas mencionadas convergiram frequentemente nos projetos realizados, refletindo a necessidade das empresas de traduzir e localizar uma vasta gama de conteúdos com funções distintas. Estes conteúdos abrangem desde materiais para uso interno e conteúdos de marketing destinados a atrair novos clientes, até informações direcionadas ao utilizador final. A variação na função e no público-alvo dos textos acaba por ter um impacto direto no tom e no estilo da linguagem utilizada, no grau de especialização ou tecnicidade exigido, e no meio mais adequado para alcançar o destinatário. Desta forma, é natural que as áreas de tradução técnica e especializada se entrelacem, especialmente com a crescente digitalização dos negócios que torna a localização de websites e software cada vez mais interligada com essas áreas. Isto porque as empresas dos setores especializados precisam de manter uma presença online eficaz para alcançar audiências internacionais, o que exige uma combinação precisa de rigor técnico e adaptação cultural em todos os tipos de conteúdo. Esta integração é fundamental para garantir uma comunicação global eficaz e adaptada às necessidades de cada mercado. 4.2. Tipos de tarefa É também relevante mencionar que este estágio não se limitou exclusivamente a tarefas de tradução, embora estas tenham constituído a sua maioria. O escopo das atividades abrangeu uma variedade de funções que contribuíram para um desenvolvimento profissional abrangente e para uma compreensão mais aprofundada do setor. Essa diversidade reflete a crescente polivalência exigida aos tradutores no mercado de trabalho atual, onde competências como a revisão e edição de textos são essenciais para garantir a qualidade e a consistência do conteúdo. A seguir, apresentam-se os tipos de tarefas realizadas, acompanhados de informações relevantes para contextualizar cada uma, dentro do respetivo ambiente de trabalho: 30 • Tradução: Foi a tarefa predominante durante o estágio. Atualmente, o processo de tradução é invariavelmente assistido por CAT Tools, uma prática que se estabeleceu como norma no campo da tradução, com o uso de software especializado, sendo essencial para garantir a eficiência e a precisão do trabalho. Em muitos projetos, a escolha da CAT Tool era definida pelo cliente, alguns dos quais dispunham das suas próprias ferramentas e ambientes na nuvem, onde se traduziam e geriam os projetos. O processo de tradução beneficiava frequentemente de recursos fornecidos pelo cliente, como glossários específicos, memórias de tradução e documentos de referência, sempre que estes se encontravam disponíveis. A integração com CAT Tools assegurou um elevado nível de consistência e conformidade com as exigências, especificações e terminologias específicas de cada cliente. • Pós-edição: Cada vez mais comum no mercado da tradução pelo seu baixo custo, entre outros fatores, a pós-edição efetuada durante o estágio consistiu na revisão, edição e melhoria de uma tradução previamente feita por um motor de tradução automática. • Revisão de texto: Foi uma tarefa menos frequente, mas igualmente importante, focada na correção de traduções concluídas para garantir precisão e ausência de erros. Este processo é essencial para assegurar que o texto final esteja em conformidade com os padrões de qualidade esperados e reflita fielmente o conteúdo do texto original. • Transcrição: Esta tarefa foi solicitada apenas algumas vezes. Consistiu sempre na transcrição de texto presente em imagens, como rótulos e embalagens, para documentos Word. Este procedimento permitiu que o texto fosse posteriormente importado e traduzido utilizando CAT Tools. • Criação de glossários: Uma tarefa relativamente rara durante o estágio, a criação de glossários consistiu na extração de termos oriundos de traduções já aprovadas, com o objetivo de compilar esses mesmos termos em tabelas Excel. Estes glossários, bilíngues e desprovidos de definições, continham apenas os termos e as suas respetivas traduções. Posteriormente, essas tabelas poderiam ser utilizadas como bases de dados terminológicas ( Term Bases ), passíveis de serem importadas para CAT Tools, a fim de auxiliar no processo de tradução de projetos futuros. 37 Figura 4 - Diagrama das Tipologias Textuais (Elaboração Própria) Este diagrama tem como objetivo apresentar, de forma visual, os tipos de texto mais frequentemente trabalhados durante o estágio curricular, posicionando-os na pirâmide de acordo com as suas características, que variam em função da sua proximidade ou afastamento dos vértices — expressivo, informativo e operativo. Tal disposição não apenas facilita a visualização do carácter híbrido de alguns tipos de texto, como também oferece uma perspetiva sobre as tendências dos textos abordados, bem como a sua variabilidade contextual. Na análise do diagrama, observa-se que, no topo da pirâmide, na zona mais informativa, se encontram os Artigos Técnicos e os Estudos Médicos. Estes textos representam a expressão máxima da função informativa, caracterizando-se por um elevado grau de precisão e detalhe. A sua principal função é a transmissão de conhecimentos especializados, sendo, portanto, essencialmente informativos, com pouca ou nenhuma intenção expressiva ou operativa. Descendo na dimensão informativa e aproximando-se da operativa, situam-se os Termos e Condições e os Catálogos de Produtos. Embora ainda apresentem um elevado conteúdo informativo, estes textos possuem também uma função operativa, orientando o comportamento do leitor, seja no cumprimento de obrigações contratuais, seja na aquisição de produtos. Mais próximos do vértice operativo, encontram-se os Manuais e Guias Técnicos — como manuais de utilizador, especificações técnicas de produtos e instruções de operação e funcionamento. Estes textos distinguem-se por assumirem uma forte componente instrucional, sendo predominantemente operativos, dado que o seu objetivo principal é guiar o utilizador na execução de tarefas específicas, embora mantenham também um caráter informativo. 38 No centro da pirâmide, representando um equilíbrio entre as dimensões informativa e expressiva, está o Comunicado Empresarial (documentos utilizados para uso interno) — que abrange resultados financeiros, fusões e aquisições, mudanças na gestão, estratégias, lançamentos de produtos e sustentabilidade. Este tipo de texto não só transmite informações corporativas, como também pode refletir a identidade e os valores da empresa, incluindo elementos expressivos, como frases motivacionais destinadas aos funcionários. Um pouco abaixo, localiza-se o Conteúdo de E-learning , que inclui jogos, questionários e apresentações de cenários hipotéticos. Embora contenha elementos informativos e instrucionais, incorpora frequentemente aspetos expressivos com o objetivo de captar a atenção do leitor através de uma abordagem mais interativa e criativa. Situado na interseção entre as dimensões expressiva e operativa, encontra-se o Material de Marketing e Publicidade — como brochuras, campanhas, anúncios e e-mails de marketing . Este tipo de texto utiliza uma linguagem criativa e apelativa para persuadir e influenciar o comportamento do público-alvo, combinando uma função expressiva, que visa cativar emocionalmente o consumidor, com uma componente operativa, que orienta as decisões de compra. As Interfaces de Utilizador (UI), que se referem a todos os elementos visuais e interativos com que o utilizador final interage em cada momento da utilização de uma aplicação, website ou qualquer produto digital, como, por exemplo, ícones, botões e menus, embora predominantemente operativas, também apresentam uma componente expressiva. A experiência do utilizador é frequentemente otimizada através do design e da linguagem utilizados, melhorando a interação com sistemas e ferramentas digitais. Neste caso, o processo utilizado é a localização, que vai além da tradução de texto e envolve a adaptação cultural desses elementos UI, para atender melhor às expectativas dos utilizadores do mercado-alvo ( locale ). Essa adaptação assegura que a UI mantenha tanto a sua funcionalidade quanto a sua componente expressiva, proporcionando uma interação mais intuitiva e satisfatória, respeitando a diversidade cultural dos públicos globais. Por último, o diagrama proposto, inspirado na teoria de Reiss (1976), oferece uma visão abrangente e clara das diferentes funções que os textos podem desempenhar. Ao organizar os textos ao longo das dimensões Expressiva, Operativa e Informativa, o diagrama não só facilita a compreensão das suas funções predominantes, como também evidencia as inter-relações e sobreposições entre estas funções. Esta análise permite reconhecer que, embora os textos possam ser predominantemente informativos, expressivos ou operativos, incorporam, muitas vezes, 39 múltiplas funções, refletindo a complexidade e a diversidade da comunicação escrita. Assim, a pirâmide não só serve como uma ferramenta de análise das tipologias textuais, mas também como um reflexo da diversidade de desafios enfrentados e da riqueza dos projetos desenvolvidos ao longo do estágio. 4.4. Recursos Durante o processo de tradução, a utilização de recursos adequados é crucial para garantir a precisão, a consistência e a eficiência do trabalho realizado. Esta subsecção visa apresentar os principais recursos que foram utilizados ao longo do estágio, abrangendo ferramentas de gestão de projetos, ferramentas de apoio à tradução, ferramentas de QA e recursos linguísticos (dicionários, bases terminológicas, websites). Cada uma destas categorias desempenhou um papel essencial na otimização do processo de tradução, permitindo uma abordagem mais estruturada e profissional aos desafios encontrados. A seguir, são detalhados os recursos específicos dentro de cada categoria, demonstrando a sua relevância e impacto no sucesso dos projetos desenvolvidos. 4.4.1. Ferramentas de Gestão de Projetos A gestão eficaz de projetos de tradução exige não apenas a organização e coordenação das tarefas, mas também uma comunicação clara e constante entre todos os membros da equipa. Para atingir esses objetivos, foi essencial o uso de algumas ferramentas que facilitaram tanto o acompanhamento dos projetos como a interação com os gestores de projetos e a restante equipa. Este contexto ativou competências interpessoais fundamentais, como a capacidade de comunicação, a colaboração e a resolução de problemas, que são cruciais para o sucesso da gestão de projetos de tradução. Estas competências interpessoais revelaram-se nucleares ao longo do estágio, refletindo a importância de uma interação eficaz e de um trabalho em equipa harmonioso para garantir a qualidade e a eficiência dos processos de tradução. Plunet O Plunet é uma plataforma avançada de gestão de projetos de tradução, amplamente utilizada pela sua capacidade de automatizar e integrar todas as fases do ciclo de vida dos projetos. Desde a criação de orçamentos e atribuição de tarefas, até à monitorização do progresso, faturação 40 e geração de relatórios detalhados, o Plunet facilita o trabalho tanto para gestores de projetos quanto para tradutores. Para os gestores de projetos, o Plunet centraliza todas as informações essenciais, proporcionando uma visão completa e em tempo real de cada projeto. As suas funcionalidades permitem automatizar processos-chave, como a gestão de prazos e a comunicação com clientes, o que melhora a eficiência e a precisão na tomada de decisões. A integração com CAT Tools, como o SDL Trados Studio e o memoQ, assegura uma ligação fluida entre a gestão administrativa e a execução técnica das traduções. Do ponto de vista dos tradutores, o Plunet oferece um ambiente centralizado onde é possível aceder a todas as informações, documentos e instruções necessárias para os seus trabalhos. A integração com as CAT Tools permite o uso consistente de memórias de tradução e glossários, facilitando o trabalho e garantindo a qualidade e a uniformidade das traduções. Ao concentrar as tarefas e recursos num único local, o Plunet contribui significativamente para a eficiência e organização do trabalho dos tradutores. Ferramentas de Comunicação Durante o estágio remoto, a comunicação foi fundamental para a coordenação e execução eficaz dos projetos de tradução, garantindo um fluxo de informações ágil entre todos os membros da equipa. Foram utilizadas três ferramentas principais de comunicação, cada uma com funções específicas. O Microsoft Outlook serviu como a principal plataforma para a gestão de e-mails, desempenhando um papel central na comunicação formal e na partilha de informações críticas. Através do Outlook, eram recebidas notificações de novas tarefas atribuídas no Plunet e avisos sobre prazos de entrega. Além disso, era utilizado pelos gestores de projeto para enviar feedback detalhado sobre os trabalhos realizados, frequentemente em forma de tabelas comparativas de Excel com comentários e sugestões de melhorias, permitindo uma análise clara e estruturada do desempenho em cada projeto. Para a comunicação diária e instantânea, o Skype foi utilizado sobretudo para mensagens de texto, facilitando a resolução rápida de dúvidas e a discussão de questões que surgiam durante o processo de tradução. Esta ferramenta proporcionou uma comunicação mais direta e informal em comparação com o e-mail . 41 Para reuniões mais extensas ou para discutir questões complexas com a orientadora, o Zoom foi a plataforma escolhida para videochamadas, permitindo uma interação mais rica e detalhada, quando necessário. Essas ferramentas de comunicação foram cruciais para assegurar a realização eficiente e colaborativa dos processos de tradução, garantindo um fluxo contínuo de informações e a rápida resolução de quaisquer questões que surgissem ao longo do estágio. 4.4.2. CAT Tools/TEnTs Como anteriormente referido no presente relatório, a tradução contemporânea é indubitavelmente uma interação humano-máquina (HCI), sendo as CAT Tools os segundos protagonistas desta interação. O termo “CAT” refere-se à tradução assistida por computador, ou seja, ao uso de software que auxilia o tradutor humano no processo de tradução. Este conceito aplica-se a traduções cuja responsabilidade principal recai sobre o tradutor, mas que envolvem ferramentas informáticas que facilitam determinados aspetos do trabalho, ao contrário da tradução automática, que é realizada principalmente por um computador, embora possa envolver alguma intervenção humana, como a pré ou pós-edição. Estas ferramentas têm sido objeto de estudo por parte dos investigadores desde os anos 60; contudo, foi apenas a partir de meados dos anos 90 que se tornaram amplamente disponíveis no mercado. Desde então, a rápida evolução tecnológica tornou a tradução assistida por computador acessível, económica, popular e, até mesmo, essencial, ajudando os tradutores, numa era globalizada da informação, a lidar com volumes cada vez maiores de texto e prazos de entrega mais curtos (Bowker & Fisher, 2010). Existem muitas ferramentas que poderiam ser incluídas sob o conceito de CAT; no entanto, este termo refere-se, geralmente, a software projetado especificamente para a tarefa de tradução, e não a ferramentas de uso geral, como processadores de texto ou corretores ortográficos. Atualmente, as ferramentas mais populares e amplamente comercializadas são as chamadas TEnT, Translation Environment Tools . Este termo, cunhado por Jost Zetzsche (2006), refere-se a software que tem a memória de tradução como componente central, integrando também funções adicionais, como ferramentas de terminologia, alinhamento ou análise. Embora os termos “CAT Tool” e “TEnT” se tenham tornado praticamente sinónimos, existe uma distinção importante entre ambos. As CAT Tools referem-se ao conjunto completo de softwares que um tradutor profissional 42 utiliza no seu processo de trabalho — ou seja, as ferramentas propriamente ditas. Por outro lado, as TEnT referem-se ao software que integra essas várias CAT Tools num único ambiente de trabalho relativamente fácil de utilizar — ou seja, o workbench ou ambientes de trabalho. O estágio curricular na L10N teve como principal objetivo o domínio de um variado leque de CAT Tools e, para tal, foram introduzidas várias TEnT que as contêm. Durante esses meses, trabalhou-se com TEnT tanto locais, de desktop , quanto na nuvem, cuja escolha para cada projeto recaía, na maior parte das vezes, sobre o cliente, que, por vezes, até tinham a sua própria ferramenta. Das TEnT com base no desktop contou-se com o memoQ, a ferramenta utilizada pela estagiária no seu percurso académico, o SDL Trados Studio e o Phrase. Na categoria de software na nuvem, incluiu-se o XTM e o GlobalLink. Estas plataformas baseadas na nuvem não possuem tantas funcionalidades quanto as TEnT de desktop , pelo que suscita ainda alguma dúvida se poderão ser consideradas TEnT. Abaixo, apresenta-se uma tabela que contém as funcionalidades esperadas numa TEnT: Funcionalidade Descrição Área de Edição Exibe o texto fonte e oferece um campo para digitar a tradução, facilitando a comparação entre o texto original e a versão traduzida. Área de Visualização Permite ver uma pré-visualização do arquivo em tradução. Memória de Tradução Armazena traduções realizadas, exibindo traduções anteriores semelhantes, permitindo a recorrência a trabalhos anteriores e mantendo a consistência terminológica. Term Base Contém e exibe terminologia importante, mostrando traduções dos termos e informações adicionais para garantir o uso consistente dos termos-chave. Módulo de Tradução Automática Oferece sugestões de tradução, facilitando o processo, especialmente em segmentos novos ou desafiadores, embora a intervenção humana ainda seja necessária. Módulo de QA Verifica o arquivo traduzido em relação a erros formais, minimizando erros que poderiam afetar a apresentação final do texto. Filtros e Funções Personalizáveis Permitem adaptar a ferramenta às necessidades específicas do tradutor, aumentando a eficiência e produtividade durante o processo de tradução. Concordanciador Pesquisa um (bi)texto para todas as ocorrências de uma sequência de caracteres especificada pelo utilizador, exibindo-as em contexto. Módulo de Análise de Documentos Compara um novo texto a traduzir com o conteúdo de uma base de dados TM ou TB especificada, determinando o número/tipo de correspondências, permitindo que os utilizadores tomem decisões sobre quais bases de dados consultar, preços e prazos. Sistema de Tradução Automática Gera uma tradução automática de um segmento que não possui correspondência na base de dados TM. 43 Módulo de Gestão de Projetos Ajuda os utilizadores a rastrear informações do cliente, gerir prazos e manter arquivos de projeto para cada trabalho de tradução. Módulo de Controlo de Qualidade Pode incluir verificadores de conformidade com linguagem controlada por ortografia, gramática, completude ou terminologia. Extrator de Termos Analisa (bi)textos e identifica termos candidatos, facilitando a criação e manutenção de bases de termos. Tabela 1 - Funcionalidades de uma TEnT (Elaboração Própria, com base em Bowker & Fisher, 2010) As funcionalidades acima apresentadas estão presentes em todos os programas de desktop , sendo que alguns até excedem essas expectativas. É o caso do memoQ e do Trados Studio, que, de acordo com a estagiária e a equipa, são geralmente considerados os programas mais completos. No entanto, ambos apresentam uma curva de aprendizagem mais acentuada, exigindo mais tempo de adaptação por parte dos utilizadores. Por outro lado, nos programas baseados em browser , algumas funcionalidades são limitadas. Apesar destas limitações, a maioria das funcionalidades essenciais está disponível, embora sejam controladas pelas permissões definidas pelo cliente. Deste modo, a experiência da estagiária ao utilizar essas ferramentas variava significativamente consoante o cliente e as respetivas configurações. Embora as ferramentas de desktop ofereçam maior versatilidade e um conjunto mais amplo de funcionalidades, tem-se verificado um crescente interesse, por parte dos clientes, nas ferramentas baseadas na nuvem. Estas são, em grande parte, gratuitas para os tradutores, ao contrário das soluções de desktop mencionadas, e facilitam o acompanhamento do progresso dos projetos globalmente distribuídos pelas empresas. Relativamente à experiência da estagiária, o início revelou-se mais desafiante, sobretudo com o Trados Studio, que, apesar de ser semelhante ao memoQ em termos de funcionalidades, difere consideravelmente no que diz respeito ao layout e aos comandos, o que gerou alguma confusão inicial. A utilização do memoQ, por outro lado, foi mais fluida, uma vez que a estagiária já tinha explorado as suas funcionalidades durante a licenciatura e o mestrado, sendo a única novidade a integração com servidores online . O Phrase, introduzido mais tarde no estágio, revelouse de fácil aprendizagem devido ao seu layout simples e à menor quantidade de opções no seu friso, quando comparado com os outros dois programas. 44 Nos programas baseados em browser , a maior dificuldade inicial consistiu em compreender como entregar o projeto na plataforma e, posteriormente, como exportá-lo para entrega no Plunet, determinando o formato adequado, entre outros detalhes técnicos. Estas informações eram fornecidas num ficheiro Word descarregado no Plunet, que continha os dados de login para aceder ao projeto, bem como outras informações relevantes relativas ao cliente ou projeto. Essas dificuldades foram rapidamente superadas com o apoio dos tutoriais disponibilizados pela empresa no ambiente de trabalho remoto, que incluíam tanto documentos como vídeos explicativos. Estes vídeos, com gravações do ecrã, demonstravam detalhadamente os passos a seguir para realizar tarefas específicas, com títulos claros e objetivos, como “exportar projeto” ou “executar QA”. Para quaisquer outras dúvidas, a estagiária podia recorrer à orientadora ou a um membro da equipa mais familiarizado com a ferramenta em questão. De forma geral, à medida que se ganha experiência com diferentes ferramentas, a adaptação a novas plataformas torna-se mais rápida e intuitiva. Esta facilidade deve-se ao facto de os fabricantes de software de tradução terem cada vez mais em conta a experiência do utilizador, desenvolvendo interfaces e layouts familiares, que seguem padrões estabelecidos. Assim, o conhecimento prévio de outras ferramentas facilita a aprendizagem de novas, uma vez que estas partilham muitas das mesmas funcionalidades e estruturas de navegação, o que torna o processo de adaptação mais eficiente. 4.4.3. Ferramentas de QA Embora as CAT Tools ofereçam funcionalidades de QA, estas não são suficientes para garantir que os projetos estejam totalmente isentos de erros e prontos para entrega ao gestor de projetos. As CAT Tools desempenham um papel importante na verificação da qualidade durante o processo de tradução, especialmente no que se refere à consistência terminológica e à contagem de palavras. No entanto, as suas funcionalidades de QA são frequentemente limitadas, sendo mais elementares na deteção de erros complexos, como problemas de concordância, repetições e inconsistências estilísticas. Em contraste, as ferramentas especializadas em QA permitem uma análise mais rigorosa e detalhada da qualidade da tradução, gerando relatórios personalizados que podem ser utilizados para melhorar a qualidade e a consistência em projetos futuros. 45 Durante o estágio curricular, foi utilizado o Verifika, uma ferramenta de QA especializada desenvolvida pela Palex Group, destinada a apoiar tradutores, revisores e gestores de projetos na deteção e correção de erros em traduções, complementando e expandindo as capacidades das CAT Tools convencionais. O Verifika distingue-se pelas suas funcionalidades avançadas, como a deteção de inconsistências terminológicas e textuais, identificação de incoerências entre o texto de origem e o texto de destino, erros de tradução, omissões de texto, segmentos não traduzidos e incumprimento de glossários e memórias de tradução específicas. A ferramenta também verifica a concordância verbal e nominal, além de identificar repetições indesejadas, melhorando a qualidade e fluidez do texto traduzido e eliminando erros que frequentemente passam despercebidos nas verificações automáticas das CAT Tools. Outro destaque do Verifika é a sua capacidade de análise de formatação e tags , que assegura a preservação correta do layout e dos elementos estruturais do documento, como tags em ficheiros HTML, XML ou outros formatos complexos. A ferramenta gera relatórios personalizados e interativos que documentam os erros encontrados, categorizando-os por tipo e gravidade e sugerindo correções. Estes relatórios são altamente configuráveis, permitindo ajustar os critérios de QA às necessidades específicas de cada cliente ou projeto, facilitando o processo de revisão e aprovação final. O Verifika permite ainda a configuração de perfis de QA personalizados, ajustando as verificações de acordo com as preferências e exigências de cada utilizador ou projeto, o que o torna extremamente flexível e eficiente em diferentes contextos. Com suporte para múltiplos formatos de ficheiro, como XLIFF, SDLXLIFF e TMX, a ferramenta assegura uma ampla compatibilidade com as principais CAT Tools, como SDL Trados e memoQ, facilitando a sua integração nos fluxos de trabalho existentes sem necessidade de conversão adicional de ficheiros. Adicionalmente, o Verifika destaca-se pela rapidez na análise de grandes volumes de texto, sendo especialmente útil em projetos com prazos apertados, ao processar com rapidez os ficheiros e identificar áreas críticas que necessitam de revisão. Para a verificação ortográfica, optou-se pela utilização do Microsoft Word, em vez do Verifika. O Microsoft Word oferece vantagens significativas para a revisão ortográfica e gramatical, dispondo de um dicionário abrangente e atualizado, que abrange uma vasta gama de palavras em múltiplos idiomas. A Microsoft atualiza constantemente este dicionário, garantindo a inclusão de novos termos e corrigindo eventuais deficiências. A interface intuitiva do Word facilita a identificação e correção de problemas no texto, destacando erros ortográficos com uma linha ondulada vermelha 46 e erros gramaticais com linhas azuis ou verdes. Além disso, o Word sugere correções com base no seu dicionário, permitindo uma revisão rápida e eficiente dos erros. A possibilidade de personalizar o dicionário, adicionando palavras específicas como nomes próprios ou termos técnicos, é outra vantagem significativa, prevenindo que sejam incorretamente assinaladas como erros. A integração do Microsoft Word com outras ferramentas de revisão, como correção gramatical e de estilo, proporciona uma análise mais completa do texto, sendo especialmente útil para documentos bilíngues ou multilíngues, dada a sua capacidade de alternar entre diferentes dicionários linguísticos. 4.4.4. Outros recursos linguísticos Na prática da tradução, a precisão e a consistência terminológicas são cruciais para garantir a qualidade e a fidelidade dos textos traduzidos. Os materiais fornecidos pelos clientes, tais como memórias de tradução e glossários específicos, devem sempre prevalecer, uma vez que asseguram que a tradução está em conformidade com as diretrizes e requisitos particulares de cada projeto. No entanto, em situações onde estes documentos não fornecem soluções adequadas para determinados termos ou contextos, a utilização de recursos linguísticos complementares torna-se necessária. Estes recursos adicionais, que incluem diversos websites e ferramentas especializadas, ajudam a colmatar eventuais lacunas e a garantir as melhores soluções possíveis para os problemas de tradução encontrados. A seguir, serão apresentados os principais recursos linguísticos complementares que auxiliaram a estagiária nas suas escolhas de tradução e respetivo processo decisório: a) Dicionários Os dicionários são, indiscutivelmente, elementos essenciais no quotidiano de um tradutor ou de qualquer profissional da área das línguas. Durante o estágio, a estagiária verificou a o carácter indispensável do uso de dicionários, tanto monolingues quanto bilingues, na sua prática diária. Estas ferramentas proporcionaram-lhe uma maior segurança na identificação da palavra ou expressão mais adequada, assegurando que a tradução se mantivesse fiel ao texto original. A utilização de dicionários revelou-se fundamental, especialmente dada a multiplicidade de significados que uma palavra pode assumir consoante o contexto. Ao fornecerem definições 53 As oportunidades proporcionadas pelo estágio foram notáveis, destacando-se a possibilidade de expandir a rede profissional e de adquirir um conhecimento profundo sobre o funcionamento da indústria da tradução técnica. A opção pelo trabalho remoto, em particular, revelou-se uma vantagem significativa, permitindo aceder a uma experiência enriquecedora numa empresa de referência, sem os custos adicionais associados a um estágio presencial. Esta modalidade foi crucial para facilitar o desenvolvimento profissional e garantir uma progressão significativa, alavancando a carreira sem comprometer recursos financeiros. Estas vivências não só enriqueceram o currículo, como também abriram novas perspetivas de carreira, consolidando uma base sólida para futuras oportunidades no setor. Por outro lado, o formato remoto trouxe consigo alguns desafios, como o risco de isolamento e a necessidade constante de automotivação, fatores inerentes a esta modalidade de trabalho. A pressão para cumprir prazos rigorosos, mantendo elevados padrões de qualidade, testou a capacidade de gestão do tempo e a eficácia sob pressão. Adicionalmente, a ocasional falta de documentos de referência por parte de alguns clientes gerou situações que exigiram uma maior capacidade de pesquisa e adaptação, reforçando a importância da flexibilidade e da proatividade. Em suma, o estágio na L10N foi uma experiência enriquecedora que ofereceu uma visão abrangente e realista da tradução técnica e especializada. Mais do que o desenvolvimento de competências técnicas, o estágio proporcionou um valioso conhecimento sobre o funcionamento interno de uma empresa de tradução de maior dimensão e o quotidiano de um tradutor profissional. 54 VI. Considerações finais Este relatório de estágio, focado na redefinição do papel e das competências do tradutor no contexto atual, permitiu uma reflexão aprofundada sobre o impacto da globalização, dos avanços tecnológicos e do surgimento das economias neoliberais na prática tradutória. A experiência adquirida ao longo do estágio na L10N Studio, Lda., aliada a um sólido enquadramento teórico, proporcionou uma visão abrangente das transformações que moldam esta profissão, desde a conceptualização inicial do tradutor até à sua aplicação prática no mercado de trabalho. Este título, que inicialmente estava projetado para abordar a rotina, o stress e os hábitos do tradutor na sua relação com a tecnologia, foi mudando o seu conteúdo à medida que o estágio avançava e a estagiária era exposta a uma outra realidade que suscitou uma análise mais profunda do que é ser tradutor profissional, focando-se em aspetos mais latentes da vida do tradutor, como a sua agência, estatuto, posição hierárquica na sociedade e perspetivas futuras da profissão. Nesse sentido, esta experiência prática expandiu os horizontes de reflexão da estagiária, proporcionando novas perspetivas sobre o posicionamento do tradutor na sociedade contemporânea. Articulando as três vertentes que orientam este relatório — o enquadramento teórico escolhido, a experiência no mestrado, representativo da formação de tradutores, e a prática adquirida no estágio — conclui-se o seguinte: A rotina numa empresa de tradução em 2024 revelou a rapidez com que se vive e trabalha atualmente. A colaboração com clientes de renome internacional, os fluxos de trabalho distribuídos por várias empresas de tradução e Language Service Providers globais, as grandes cargas de trabalho e os prazos apertados são alguns dos desafios diários. A escala deste tipo de cadeia de fornecimento de serviços de tradução realmente faz com que o tradutor sinta a pequena agência e visibilidade que tem relativamente ao seu trabalho. Além disso, a informação limitada e as poucas referências relativas a certos projetos também são fatores que afetam a qualidade e o processo tradutório. Relativamente à automatização do processo tradutório, a estagiária sentiu que, na sua experiência de estágio, o trabalho ainda não se encontra tão automatizado quanto se previa, já que muitos projetos continuam a exigir tradução manual, embora haja uma tendência crescente para a pós-edição de textos traduzidos por MT. Esta realidade ainda difere da visão de Alan Melby (2006), por exemplo, que previa um futuro onde o tradutor seria apenas um pós-editor. O mais provável é que se chegue a essa realidade e que, com certeza, há empresas que já atuam dessa maneira; no entanto, não descreve a experiência que a estagiária teve 18 anos após esse artigo ser lançado. 55 Quanto à formação de tradutores, e em particular ao Mestrado em Tradução e Comunicação Multilingue (MTCM), verificou-se a eficácia do currículo profissionalizante. Os projetos reais realizados ao longo do curso, em colaboração com empresas e universidades, proporcionaram uma preparação adequada para o desenvolvimento das competências delineadas pelo EMT ( European Master's in Translation ). Os estudantes foram desafiados a cumprir prazos, a manter uma comunicação profissional com as entidades colaboradoras e a trabalhar com as tecnologias que hoje integram o fluxo de trabalho do tradutor, como as CAT Tools/TEnTs e a tradução automática (MT). O incentivo ao uso destas ferramentas, mesmo durante o processo formativo, foi crucial, pois permitiu aos estudantes reconhecer as limitações da MT e, ao mesmo tempo, desenvolver uma maior capacidade de autocrítica e autoconhecimento, tal como abordado por Öner Bulut no enquadramento teórico deste relatório. Considerando o currículo do MTCM, que segue o modelo europeu do EMT, podemos concluir que esta uniformização curricular cumpre, efetivamente, o seu propósito: capacitar os estudantes com as competências necessárias para uma atuação bem-sucedida no mercado de tradução. No entanto, apesar de esta formação produzir bons profissionais, ainda existem lacunas significativas no que diz respeito aos direitos laborais dos tradutores. Estas lacunas refletem-se na falta de reconhecimento formal da profissão, na precariedade laboral e na qualidade de vida de quem se dedica à tradução como carreira, e não apenas como uma ocupação ou hobby . A questão da agência do tradutor, também discutida no enquadramento teórico, é, por isso, essencial neste contexto. É inegável que o tradutor contemporâneo deve adaptar-se aos avanços tecnológicos, integrando-os no seu fluxo de trabalho. No entanto, não pode permitir que a utilização dessas mesmas tecnologias o rebaixem ou diminuam a sua importância, servindo como justificação para reduzir o seu capital, seja ele simbólico, social, económico ou cultural. Para assegurar a sobrevivência e a dignidade da profissão, é necessário que os tradutores se unam e criem um sentido de identidade coletiva. O tradutor precisa de deixar para trás o seu estatuto de invisibilidade, que há muito tempo o acompanha e que, de certa forma, tem contribuído para a sua precariedade. Maximizar a agência do tradutor exige um equilíbrio entre o desenvolvimento de competências individuais e a ação coletiva. Ao reforçar a importância do seu papel, os tradutores poderão resistir às pressões globalizadoras que ameaçam a sua profissão. Este esforço conjunto, aliado à capacitação individual, tem o potencial de melhorar significativamente a qualidade de vida dos tradutores e garantir um reconhecimento mais justo da 56 sua relevância no mercado. No entanto, dado que tal mudança depende de um movimento a partir da própria comunidade tradutória, implicando um certo esforço coletivo, a questão permanece: Quo Vadis, interpres? Nota final: Considere-se isto um call to action para esta nova geração de tradutores. 57 VII. Referências Bibliográficas Abdallah, K., & Koskinen, K. (2007). Managing trust: Translating and the network economy. Meta . 52(4), 673–687.https://doi.org/10.7202/017692ar Abdallah, K. (2010). Translator’s agency in production networks. In T. Kinnunen & K. Koskinen (Eds.), Translator’s agency . Tampere University Press. Alves, F. (2011). 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