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O Soft Power turco na era Erdoğan: concepção, desempenho e adaptação

Castro, Ana Filipa Pinto de Sousa

Abstract

O soft power turco tem experienciado um declínio ao longo da última década. Embora os estudos existentes o reconheçam e, inclusive, salientem o papel do soft power turco como instrumento de diplomacia cultural e de política externa, a revisão de literatura é omissa na avaliação da influência quer da conceção do líder, quer das alterações domésticas e internacionais no soft power turco. Em virtude desta lacuna, a presente dissertação pretende responder à seguinte pergunta de investigação: De que forma é que a conceção e o desempenho do papel de Erdoğan influenciaram a evolução do soft power turco de 2013 a 2023?. Com efeito, consideramos 2013 o ano de início do estudo na medida em que a ocorrência dos protestos de Gezi evidenciaram o autoritarismo de Erdoğan, denegrindo a sua reputação tanto na esfera nacional, como internacionalmente, e representando um ponto de viragem na política turca. Por sua vez, o ano de 2023 coincide com o centenário da República turca, ao mesmo tempo em que assinala cerca de duas décadas de governação ininterrupta de Erdoğan. A metodologia adoptada combina a análise de fontes primárias - como documentos oficiais, relatórios e índices de soft power - e secundárias, apoiada nos pressupostos da role theory, nomeadamente na conceção do papel, nas expectativas face ao papel, na adaptação do papel e no desempenho do papel. Apesar do investimento de Erdoğan no aumento do número de embaixadas e consulados turcos, reforço da ajuda ao desenvolvimento, atribuição de bolsas de estudo e institutos de promoção da cultura e língua turcas no estrangeiro, entre outros, tal não se traduziu numa melhoria do soft power turco como corroboram os indicadores por nós consultados. Na prática, as expectativas externas face ao desempenho do papel de Erdoğan, reflectem que as iniciativas supramencionadas não foram capazes de contrariar a insatisfação sentida no estrangeiro face ao afastamento dos ideais democráticos que acompanha a consolidação do poder por parte do líder turco.

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Universidade do Minho Escola de Economia e Gestão Ana Filipa Pinto de Sousa Castro O Soft Power turco na Era Erdoğan: Concepção, desempenho e adaptação março de 2025 O Soft Power turco na Era Erdoğan: Concepção, desempenho e adaptação Ana Filipa Pinto de Sousa Castro UMinho | 2025 Ana Filipa Pinto de Sousa Castro O Soft Power turco na era Erdoğan: concepção, desempenho e adaptação Dissertação de Mestrado Mestrado em Relações Internacionais Trabalho efetuado sob a orientação de Professora Doutora Laura Cristina Ferreira-Pereira Professor Doutor Paulo Afonso Brardo Duarte março de 2025 Universidade do Minho Escola de Economia e Gestão iv DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Atribuição CC BY https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/ v Agradecimentos Aos meus pais, obrigada pelo amor e apoio incondicional. Aos meus amigos, por me acompanharem e partilharem comigo esta etapa. Aos meus orientadores Professora Doutora Laura Cristina Ferreira-Pereira e Professor Doutor Paulo Afonso Brardo Duarte, obrigada por toda a ajuda, paciência, partilha e dedicação. E por fim, a todos os que, de diversas formas, contribuíram para a conclusão deste ciclo. Por não ter sido possível sem o vosso contributo, dedico-vos, com toda a minha gratidão, estas páginas. vi DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho vii O Soft Power turco na era Erdoğan: concepção, desempenho e adaptação Resumo O soft power turco tem experienciado um declínio ao longo da última década. Embora os estudos existentes o reconheçam e, inclusive, salientem o papel do soft power turco como instrumento de diplomacia cultural e de política externa, a revisão de literatura é omissa na avaliação da influência quer da conceção do líder, quer das alterações domésticas e internacionais no soft power turco. Em virtude desta lacuna, a presente dissertação pretende responder à seguinte pergunta de investigação: De que forma é que a conceção e o desempenho do papel de Erdoğan influenciaram a evolução do soft power turco de 2013 a 2023?. Com efeito, consideramos 2013 o ano de início do estudo na medida em que a ocorrência dos protestos de Gezi evidenciaram o autoritarismo de Erdoğan, denegrindo a sua reputação tanto na esfera nacional, como internacionalmente, e representando um ponto de viragem na política turca. Por sua vez, o ano de 2023 coincide com o centenário da República turca, ao mesmo tempo em que assinala cerca de duas décadas de governação ininterrupta de Erdoğan. A metodologia adoptada combina a análise de fontes primárias - como documentos oficiais, relatórios e índices de soft power - e secundárias, apoiada nos pressupostos da role theory , nomeadamente na conceção do papel, nas expectativas face ao papel, na adaptação do papel e no desempenho do papel. Apesar do investimento de Erdoğan no aumento do número de embaixadas e consulados turcos, reforço da ajuda ao desenvolvimento, atribuição de bolsas de estudo e institutos de promoção da cultura e língua turcas no estrangeiro, entre outros, tal não se traduziu numa melhoria do soft power turco como corroboram os indicadores por nós consultados. Na prática, as expectativas externas face ao desempenho do papel de Erdoğan, reflectem que as iniciativas supramencionadas não foram capazes de contrariar a insatisfação sentida no estrangeiro face ao afastamento dos ideais democráticos que acompanha a consolidação do poder por parte do líder turco. Palavras-chave Atatürk, Concepção e Desempenho, Erdoğan, Role Theory , Soft Power, Turquia viii Abstract Turkish soft power has experienced a decline over the last decade. Although existing studies recognise this and even highlight the role of Turkish soft power as an instrument of cultural diplomacy and foreign policy, the literature review has neglected the assessment of the influence of both the leader's conception and domestic and international changes on Turkish soft power. Given this gap, this dissertation aims to answer the following research question: How did Erdoğan's conception and performance of his role influence the evolution of Turkish soft power from 2013 to 2023? In fact, we consider 2013 to be the starting year for the study, as the Gezi protests highlighted Erdoğan's authoritarianism, denigrating his reputation both nationally and internationally, and representing a turning point in Turkish politics. In turn, the year 2023 coincides with the centenary of the Turkish Republic, while also marking nearly two decades of Erdoğan's uninterrupted rule. The methodology adopted combines the analysis of primary sources - such as official documents, reports and soft power indices - and secondary sources, based on the assumptions of role theory, namely role conception, role expectations, role adaptation and role performance. Despite Erdoğan's investment in increasing the number of Turkish embassies and consulates, strengthening development aid, awarding scholarships and institutes to promote Turkish culture and language abroad, among other things, this has not translated into an improvement in Turkish soft power, as the indicators we consulted corroborate. In practice, external expectations of Erdoğan's role reflect the fact that the aforementioned initiatives have not been able to counter the dissatisfaction felt abroad with the departure from democratic ideals that has accompanied the Turkish leader's consolidation of power. Keywords Atatürk, Conception and Performance, Erdoğan, Role Theory , Soft Power, Turkey ix Índice Resumo............................................................................................................................................. vii Abstract............................................................................................................................................ viii Lista de Abreviaturas ........................................................................................................................... x 1.Introdução ..................................................................................................................................... 11 1.1. Descrição e delimitação do Tema .......................................................................................... 11 1.2. Identificação e relevância da problemática ............................................................................. 12 1.3. Revisão de literatura .............................................................................................................. 13 1.4. Quadro teórico ....................................................................................................................... 15 1.5. Metodologia de Investigação .................................................................................................. 18 1.6. Estrutura da dissertação ........................................................................................................ 19 2. Soft Power e Role Theory : contextualização e operacionalização .................................................... 20 2.1. O Soft Power face aos demais componentes do poder............................................................ 20 2.2. Os pressupostos da Role Theory ............................................................................................ 22 2.3. A interdependência entre Role Theory e Soft Power ................................................................ 30 3. O Soft Power pré-Erdoğan: a imagem da Turquia no Mundo .......................................................... 37 3.1. Contextualização histórica e determinantes da política externa turca ....................................... 37 3.2. O Soft Power durante o governo de Atatürk ............................................................................ 38 3.3. O Soft Power durante o governo de Özal ............................................................................... 41 4. A Evolução do Soft Power na era Erdoğan ..................................................................................... 47 4.1 A ascensão e consolidação de Erdoğan e do AKP no poder ..................................................... 47 4.2. A nova era da Turquia - o ponto de viragem ........................................................................... 54 5. Conclusão .................................................................................................................................... 62 Bibliografia ....................................................................................................................................... 65 16 papéis de acordo com a sua actividade, reconhecendo que estes podem ser, por vezes, contraditórios (Silva e Labriola, 2019). Como acima mencionado, a role theory é formada por um conjunto de conceitos, nomeadamente: a conceção do papel, as expectativas face ao papel, a adaptação do papel e o desempenho do papel. Quanto à conceção do papel, esta representa a ideia que o actor tem de si mesmo, ou seja, o modo como este se vê. De acordo com Holsti (1970), a conceção do papel consiste no entendimento que o actor tem das suas próprias posições e funções, bem como do comportamento que a elas mais se adequa. A role theory inclui a conceção do papel doméstico que corresponde às perceções dos decisores políticos sobre a posição dos seus Estados no sistema internacional (Wish apud Silva e Labriola, 2019: 86). Estas são, em teoria, consensuais em relação a qual deve ser o papel manifestado pelo país na esfera internacional (Thies, 2015). Holsti (1970) realizou o estudo das concepções do papel doméstico através dos discursos dos decisores políticos. Deste modo, a análise do discurso é de grande importância para a role theory . De acordo com Pilch (2012), os discursos dos decisores políticos turcos espelham as concepções do papel doméstico da Turquia, mais concretamente, o termo Neo-Otomanismo. Segundo Alekseevich (2018), o Neo-Otomanismo é um dos principais conceitos utilizados para definir a actual política externa turca apesar de não ser uma ideologia oficial do governo. Este conceito implica a extensão da influência turca a territórios vizinhos, incluindo os do antigo império otomano através do soft power e de melhorias a nível económico e social. Pilch (2012) reitera a visão de Alekseevich (2018), indo mais além ao afirmar que o Neo-Otomanismo, apesar de central na política externa turca, é, contudo, negado pela classe política do país. A Turquia tem vindo a redefinir a sua conceção do papel doméstico, assim como a sua política externa para que estas acomodem melhor as exigências da actual ordem internacional. Com a chegada do AKP (Adalet ve Kalkınma Partisi: Partido de Justiça e Desenvolvimento) ao poder, a narrativa da política externa turca tem vindo a alterar-se. As concepções do papel doméstico são “múltiplas e dinâmicas” (Holsti, 1970: 254). Por outras palavras, o mesmo país pode apresentar diversas concepções do papel doméstico, sendo que estas podem, por sua vez, mudar consoante a necessidade do Estado e/ou as circunstâncias domésticas ou internacionais. Pilch (2012) identificou várias conceções do papel que permitem compreender a política externa turca e a forma como o país se vê a si próprio, nomeadamente: líder regional, protector regional, mediador-integrador, colaborador dos subsistemas regional e global, Estado-modelo e aliado fiel. Segundo o autor, as mudanças na política externa turca que se deram depois da ascensão ao poder do AKP em 2002 produziram novas concepções do papel doméstico e um novo 17 discurso de política externa, o Neo-Otomanismo. Os decisores políticos turcos são os principais responsáveis por esta mudança na conceção do papel da Turquia. Assim, estes dão a conhecer uma determinada imagem do país tanto a nível interno como internacionalmente. Pilch (2012) concluiu que a utilização da role theory se afigura útil no estudo da política externa da Turquia, nomeadamente ao debruçar-se sobre a conceção do papel doméstico do país. Uma outra componente da role theory diz respeito às expectativas face ao papel. Estas consistem em “normas, crenças e preferências relativas ao desempenho de qualquer indivíduo numa posição social em relação a indivíduos que ocupam outras posições” (Thies, 2008:9). Por outras palavras, no caso da presente dissertação, as expectativas face ao papel dizem respeito às expectativas que os outros países têm em relação à Turquia. Já a adaptação do papel concerne eventuais mudanças quanto ao desempenho do mesmo (Harnisch et al., 2011). Dito de outro modo, a adaptação do papel traduz-se na forma como o país em estudo (a Turquia) adapta a visão de si mesma – o seu papel – para ir ao encontro das expectativas de terceiros. Como exemplo desta adaptação do papel, aponte-se a mudança da política externa turca nas suas relações com os Estados Unidos da América (EUA). Com efeito, até 2013 a Turquia dispunha de boas relações com os EUA. No entanto, a relação entre os dois sofreu um revés quando os EUA começaram a apoiar o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) na Síria. Tal facto levou a uma adaptação na política externa turca, que se traduziu numa aproximação face à Rússia. Por fim, o desempenho do papel corresponde, segundo Harnisch et al. , ao “comportamento político do ator no contexto social” (2011:114). Por outras palavras, trata-se da forma como o país desempenha o seu papel. Por sua vez, de acordo com Holsti, o desempenho do papel doméstico é o comportamento da política externa dos governos. Este inclui “padrões de atitudes, decisões, respostas, funções e compromissos para com outros Estados” (Holsti, 1970: 245). Destaque-se que quer o soft power quer a role theory têm por denominador comum as dinâmicas da imagem, da percepção tanto do ´eu’ como do `outro´, bem como da interdependência na interação entre os actores. Através da análise dos elementos constitutivos da role theory acima mencionados, verificamos que esta lente conceptual oferece ferramentas para compreender o modo como o soft power turco influencia as perceções e expectativas do ‘eu’ e do ‘outro’. A role theory admite ainda a possibilidade de adaptação de/no papel dos Estados, permitindo assim que estes atinjam os seus objetivos. Esta lente conceptual espelha a mudança e a evolução do soft power turco, uma vez que este não pode ser entendido como algo acabado. Ao invés, o soft power está em permanente mudança, procurando ir ao encontro simultaneamente das expectativas domésticas e externas. Ora, tal só é possível por meio de uma lente conceptual que permita 18 a coexistência de variáveis que se pautam por constante interação, dinamismo e interdependência. Por sua vez, o soft power turco tem, ele próprio, sido reflexo de uma busca activa de adaptação no contexto de um sistema internacional igualmente fluido. Por conseguinte, em virtude das razões acima enumeradas, a utilização da role theory afigura-se a mais adequada no âmbito desta dissertação para a análise do soft power turco. 1.5. Metodologia de Investigação Esta dissertação adoptará uma metodologia predominantemente qualitativa, que visa compreender mais do que descrever o papel da Turquia no atual sistema internacional. Com efeito, comungamos do entendimento de que as Ciências Sociais são fundamentalmente do domínio da hermenêutica, isto é, da compreensão do que move este ou aquele actor a agir de determinada forma. Dito isto, a presente dissertação tem por objetivo analisar a evolução do soft power turco de 2013 a 2023, procurando perceber de que forma é que a conceção e o desempenho do papel de Erdoğan a influenciaram neste período . A análise será realizada com base no recurso a fontes primárias, nomeadamente a índices de soft power como o Soft Power Index 30, documentos oficiais e relatórios, disponíveis na sua maioria em inglês. Adicionalmente, serão utilizados dados provenientes da Agência Turca de Cooperação e Coordenação (TIKA), entre outras, com vista à compreensão de aspectos sociais, humanitários, educacionais, económicos e culturais. Por sua vez, as fontes secundárias são compostas por artigos de revistas científicas, livros e capítulos de livros. Segundo Nye (2004), o soft power de um país é susceptível de incluir aspectos tão distintos como o seu histórico de direitos humanos, liberdade de imprensa, acolhimento de eventos desportivos internacionais ou o seu património cultural. Tais dimensões serão privilegiadas no âmbito do presente estudo, com vista à análise de como estas impactam o soft power turco. Cabe também realçar o facto de a maior parte dos dados serem provenientes de fontes ocidentais, como atesta, por exemplo, o indicador Soft Power 30 . Deste modo, as referidas fontes não estão isentas quer de interpretações, quer de valores políticos e culturais ocidentalizados. No seguimento do raciocínio anterior, os valores políticos turcos podem ser interpretados de modo distinto, conforme o contexto e a cultura em que se inserem. Outro entrave a este estudo que importa realçar consiste na falta de dados referentes ao período temporal abrangido pela presente análise. A título de exemplo, o soft power turco referente aos anos de 2016 e 2018 não é englobado na análise do The Soft Power 30 uma vez que o país estava, à data, classificado fora dos 30 países com maior pontuação no soft power . Assim, a análise requer a utilização 19 de outras ferramentas para estudar a temática referente a estes anos. Por fim, cabe mencionar que a candidata não é fluente, ainda que estudiosa da língua turca. Deste modo, esta sua lacuna linguística será compensada por meio do recurso a outras fontes, tais como agências noticiosas turcas, bem como a consulta de documentos oficiais traduzidos para inglês e directamente disponibilizados pelos órgãos estatais turcos. 1.6. Estrutura da dissertação Esta dissertação está dividida em três capítulos. O primeiro centrar-se-á na contextualização e operacionalização do Soft Power e da Role Theory . O segundo e o terceiro capítulos debruçar-se-ão sobre a evolução do Soft Power nas eras pré-Erdoğan e Erdoğan, respectivamente. Por fim, a conclusão responderá à questão de investigação e apresentará as considerações finais. 20 2. Soft Power e Role Theory : contextualização e operacionalização 2.1. O Soft Power face aos demais componentes do poder De forma a alcançarmos os objetivos deste capítulo, começamos por definir o poder. De seguida, caracterizamos o conceito de soft power , distinguindo-o de outros tipos de poder, nomeadamente o hard power, o sharp power e o smart power . Depois, apresentaremos e explicaremos os pressupostos da teoria que serve de ferramenta de análise para o presente estudo: a role theory. E, por fim, analisaremos a interdependência entre soft power e role theory , procedendo, igualmente, à operacionalização das variáveis daí provenientes. O conceito de poder é, certamente, um dos conceitos mais importantes das Relações Internacionais (RI). Tanto os debates como as teorias que constituem a disciplina de RI, afloram em torno deste conceito (Kaviani, 2017). Contudo, a sua definição não é alvo de consenso entre os académicos (Drezner, 2021). Por exemplo, para Barnett e Duvall (2005), o poder traduz-se na capacidade de “um actor controlar o outro para que este faça o que de outra maneira não faria” (2005: 39). Neste sentido, é perceptível que a definição dos autores converge com o entendimento clássico de Dahl, para quem “A tem poder sobre B na medida em que ele pode levar B a fazer algo que este não faria de outra forma” (1957: 202-203). Desta maneira, e como reforçam Barnett e Duvall (2005), embora a definição de poder enunciada seja importante, esta primazia conceptual atribuída pela disciplina de RI negligencia outras formas de poder. Por esta razão, os autores defendem a utilização de múltiplos conceitos de poder. Como tal, passaremos a analisar os conceitos de poder mais importantes para o presente estudo, nomeadamente o soft power , o hard power, o smart power e o sharp power . No que concerne ao soft power, este conceito foi inicialmente introduzido por Joseph Nye com a obra Bound to Lead: The Changing Nature of American Power , publicada em 1990. De acordo com Nye, o soft power é a capacidade de influenciar terceiros com vista a obter os resultados que se deseja através da atracção em vez da coerção ou pagamento (2008: 94). Nye (2004) admite que o soft power se baseia principalmente em três recursos: a cultura, os valores políticos e a política externa. Com efeito, estes são os instrumentos que, segundo Nye (2004), produzem a atracção característica do soft power . Em oposição a este poder de atração, encontramos o hard power , que corresponde ao exercício de coacção. O hard power , ao contrário do soft power , decorre do poder militar e económico (Nye, 2004). De facto, segundo Wilson (2008), tais recursos são passíveis de ser instrumentalizados com o propósito de fazer cumprir os interesses nacionais de determinado Estado ou Estados. Apesar destes dois conceitos 21 – o soft power e o hard power – parecerem contraditórios, é possível, em certos casos, que ambos coexistam. Por isso, entre estes dois conceitos, existe um espaço intermédio suscetível de acomodar outros de poder, nomeadamente, o smart power e o sharp power . Comecemos pelo smart power , que à semelhança do soft power , também tem o propósito de influenciar. Contudo, Nye (2009) defende que o exercício do soft power não exclui a utilização do hard power , por parte de determinado Estado e em função de circunstâncias e necessidades específicas. Por outras palavras, o smart power consiste na combinação inteligente e estratégica de soft power e hard powe r por parte de determinado Estado. Por fim, o sharp power tem sido utilizado nos últimos anos como forma de redesenhar perceções e opiniões a nível internacional. Desta forma, o sharp power é suscetível de caracterizar uma propensão autoritária para manipular a realidade, forjando, para o efeito, uma narrativa que tende a ocultar determinados aspectos (negativos, entenda-se) e a enfatizar outros (positivos) (Walker e Ludwig, 2017). A título ilustrativo, podemos considerar o Telling China's Story Well (Vickers e Chen, 2024; Xu e Gong, 2024) como uma forma de Xi Jinping ocultar os aspectos negativos da China, fazendo propaganda do que de melhor possui a cultura, as artes, a filosofia, a gastronomia chinesas, entre outros. Nye (2018) admite, assim, que as técnicas usadas no âmbito do conceito de sharp power se distanciam do soft power , uma vez que se baseiam na manipulação ao invés da atracção. O sharp power pode ser definido, de acordo com o The Economist (2017), como a conciliação da intimidação, pressão e subversão. Desta forma, os pressupostos menos atractivos por que se pauta o autoritarismo, como a censura e o controlo, são usados para mascarar a realidade do país, moldando-a para que vá ao encontro da realidade que os decisores políticos pretendem. Apesar das diferentes dimensões que o poder assume, o soft power é a que melhor permite analisar o objecto de estudo da presente dissertação. A investigação de De Martino (2020) aponta mudanças no sistema internacional que conferiram ao soft power uma grande importância e que nos serve de argumento para a relevância da utilização deste tipo de poder nesta dissertação. A primeira foi a grande transformação na dinâmica das Relações Internacionais, nomeadamente nas relações entre actores internacionais. Tal como a literatura atesta, em particular Nye (2004), a abordagem tradicional, muito mais apoiada em dinâmicas de hard power e, que por isso, baseia o poder dos países no poder militar, não se coaduna com as exigências da ordem internacional contemporânea. Desta forma, e como considera De Martino (2020), o mundo atual é mais complexo do que outrora, havendo um maior número de actores a interagir no contexto internacional. De entre esses actores, merece especial destaque a opinião pública. Como consideram Osée et al. (2019), os cidadãos têm cada vez mais peso nos assuntos 22 da ordem internacional, nomeadamente na capacidade de influência das decisões políticas. Por esta razão, os mesmos autores sublinham que a opinião pública tem sido cada vez mais tida em conta como parte integrante do poder de decisão. 2.2. Os pressupostos da Role Theory A role theory é o quadro teórico-conceptual utilizado nesta dissertação. De modo a oferecer uma melhor compreensão da interdependência entre role theory ao soft power , começamos por explicar os pressupostos em que assenta a role theory . Iniciamos com o conceito de papel. Este foi introduzido por sociólogos e depois utilizado nas ciências sociais. O conceito de papel corresponde, segundo Harnisch et al, aos “valores e convicções que os indivíduos trazem para as suas interações com os outros” (2011:2). Os papéis reflectem, assim, o entendimento que os indivíduos possuem sobre si mesmos e o que gostariam de representar face a terceiros. Por conseguinte, um papel é constituído por duas dimensões: o `ego´ e o `alter´. O `ego´ corresponde, como reconhece Müller (2011), ao que o actor é. Por outras palavras, ele equivale à percepção que o sujeito tem de si mesmo. O mesmo autor afirma também que esta dimensão se aproxima bastante, podendo inclusive ser equivalente ao conceito de identidade, a qual é um produto da evolução histórica de cada país. Mais tarde, Holsti (1970) adaptou este conceito às Relações Internacionais (RI). Nesta adaptação da role theory às RI, o conceito de papel permite explicar as interacções dos Estados da mesma forma como se estes se apresentassem em contexto social (Silva e Labriola, 2019). Neste sentido, Holsti (1970) aplica o conceito de papel aos Estados como se de indivíduos se tratassem. Como admitem Silva e Labriola (2019), o papel de um determinado actor engloba, tanto a percepção que o actor possui acerca de si mesmo, como também as expectativas que os outros possuem em relação a ele. Estas são as dimensões de `ego´ e `alter´ aplicadas, por sua vez, aos Estados. Desta forma, Silva e Labriola (2019) sublinham que o mesmo actor pode exercer diversos papéis de acordo com as suas necessidades e objectivos no sistema internacional. A role theory é então, como sustentam Harnisch et al. (2011), uma ferramenta que permite estudar um dos quesitos mais complexos das RI: a interação entre os actores e o sistema internacional. Por isso, como afirmam os autores, os papéis permitem não só auxiliar a compreensão e explicação das políticas externas dos países, como também analisar e entender a dinâmica e evolução da ordem internacional. Segundo Thies, “a role theory não corresponde a uma teoria única, mas sim a um conjunto de teorias, abordagens ou perspectivas que vê no conceito de role ou papel, a centralidade da vida social” 23 (2009: 4). Por conseguinte, a presente teoria tem vindo a ser utilizada nas RI como ferramenta de análise do comportamento dos Estados no sistema internacional, tornando possível a ligação entre o estudo da política externa e as teorias das RI. Desta forma, a role theory admite que os Estados podem desempenhar vários papéis de acordo com a sua actividade, reconhecendo que estes podem ser, por vezes, contraditórios (Silva e Labriola, 2019). Como mencionado acima, a role theory é formada por um conjunto de conceitos, nomeadamente: a conceção do papel, as expectativas face ao papel, a adaptação do papel e o desempenho do papel. Quanto à conceção do papel, esta representa a ideia que o actor tem de si mesmo, ou seja, o modo como este se vê. De acordo com Holsti (1970), a conceção do papel consiste no entendimento que o actor tem das suas próprias posições e funções, bem como do comportamento que a elas mais se adequa. A role theory inclui a conceção do papel doméstico que corresponde às perceções dos decisores políticos sobre a posição dos seus Estados no sistema internacional (Wish apud Silva e Labriola, 2019). Estas são, em teoria, consensuais internamente em relação a qual deve ser o papel manifestado pelo país na esfera internacional (Thies, 2015). Os discursos dos decisores políticos são de tal forma importantes para a conceção do papel doméstico que Holsti (1970) realizou o estudo das conceções do papel doméstico através destes. Tal aplica-se, naturalmente, ao caso da Turquia, que é alvo de análise na presente dissertação. Fazendo referência a Hudson (1999), Breuning (2011) defende que a ascensão dos líderes políticos ocorre, em grande parte, pelo facto de estes personificarem uma determinada conceção do Estado em que se inserem, conceção esta profundamente enraizada nas convicções culturais em relação ao seu próprio Estado. Desta forma, acredita-se que a conceção do papel doméstico assenta no legado cultural do Estado. Por conseguinte, Hudson (1999) acrescenta que os líderes se encontram deveras focados na sociedade em que se inserem. Tal como argumenta Breuning (2011), a instrumentalização da role theory pode ser potenciada se as perspectivas e opiniões dos líderes políticos forem integradas na análise. Aliado a isso, este autor aponta que a role theory também pode ser otimizada se as relações entre as conceções de papel adoptadas pelos decisores políticos e as visões preponderantes dos cidadãos forem analisadas de forma mais diligente. Em terceiro lugar, Breuning (2011) defende que a role theory pode ainda ser melhorada se se tratarem dogmaticamente as dinâmicas de mudança e adaptação das conceções de papel doméstico. Por último, Breuning (2011) refere também que é crucial investigar o facto de os decisores políticos poderem adoptar papéis múltiplos e até divergentes. Em concreto, o autor recomenda analisar em que medida estes papéis são proeminentes ou se variam tendo em conta o contexto em que se apresentam. Finalmente, Breuning (2011) acrescenta que a cultura é, 24 de maneira consensual, considerada como uma parte importante da conceção do papel doméstico. Desta forma, adicionamos à equação a dimensão cultural. Assim, Breuning (2011) sublinha que o papel dos líderes depende, não só do seu entendimento da identidade e da cultura, como também da transposição de ambas para uma conceção de papel. Esta deve, assim, gerar identificação no domínio doméstico e coadunar-se com as demandas internacionais. A Turquia e o Presidente Erdoğan espelham exatamente as considerações descritas acima, tendo, sobretudo, por base os postulados do Neo-Otomanismo. Segundo Alekseevich (2018), o NeoOtomanismo é um dos principais conceitos usados para definir a atual política externa turca, apesar de não ser uma ideologia oficial do governo. Este conceito implica a extensão da influência turca a territórios vizinhos, incluindo os do antigo império otomano através do soft power, e de melhorias a nível económico e social. Pilch (2012) reitera a visão de Alekseevich (2018), indo mais além ao afirmar que o NeoOtomanismo, apesar de central na política externa turca, é, contudo, negado pela classe política do país. A Turquia tem vindo a redefinir a sua conceção do papel doméstico, assim como a sua política externa para que estas acomodem melhor as exigências da atual ordem internacional. Com a chegada do AKP ( Adalet ve Kalkınma Partisi : Partido de Justiça e Desenvolvimento) ao poder, a narrativa da política externa turca tem vindo a alterar-se. As conceções do papel doméstico são “múltiplas e dinâmicas” (Holsti, 1970: 254). Tal corrobora o argumento dos teóricos da role theory de que um país pode apresentar diversas conceções do papel doméstico, sendo que estas podem, por sua vez, mudar consoante a necessidade do Estado e/ou as circunstâncias domésticas ou internacionais. Pilch (2012) identificou várias conceções do papel que permitem compreender a política externa turca e a forma como o país se vê a si próprio, nomeadamente: líder regional, protetor regional, mediadorintegrador, colaborador dos subsistemas regional e global, Estado-modelo e aliado fiel. Segundo o autor, as mudanças na política externa turca que se deram depois da ascensão ao poder do AKP em 2002 produziram novas conceções do papel doméstico e um novo discurso de política externa, o NeoOtomanismo. Os decisores políticos turcos são os principais responsáveis por esta mudança na conceção do papel da Turquia. Assim, estes dão a conhecer uma determinada imagem do país tanto a nível interno, como internacionalmente. Pilch (2012) conclui que a utilização da role theory se afigura útil no estudo da política externa da Turquia, nomeadamente ao debruçar-se sobre a conceção do papel doméstico do país. Um outro componente da role theory diz respeito às expectativas face ao papel. Estas consistem em “normas, crenças e preferências relativas ao desempenho de qualquer indivíduo numa posição social em relação a indivíduos que ocupam outras posições” (Thies, 2008:9). Por outras palavras, no caso da 25 presente dissertação, as expectativas face ao papel dizem respeito às expectativas que os outros países e o próprio eleitorado turco têm em relação à conceção do papel e ao desempenho do papel por parte do líder turco. Deste modo, as expectativas face ao papel incluem tanto a audiência externa como a audiência doméstica. Neste sentido, foram realizados estudos em grande escala sobre as perceções nestas audiências acerca da política externa turca. Desta forma, à semelhança do apresentado acima, separar-se-ão as perceções do público doméstico das do público externo. No que concerne ao público doméstico, comungamos das conclusões da pesquisa do Pew Research Center (2014) segundo o qual a Turquia é um país muito dividido em relação às perceções dos turcos nas suas diversas áreas. De forma a permitir uma melhor compreensão acerca deste tópico, organizámo-lo em termos cronológicos. Começamos, assim, com o estudo de 2014 sobre o então primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdoğan. Tal estudo é relevante nesta dissertação uma vez que a sua análise comporta os protestos de Gezi ocorridos em 2013. Estes constituem um ponto de viragem na política turca e, por conseguinte, correspondem ao início da baliza temporal da presente dissertação. O estudo referido foi conduzido pelo Pew Research Center que investigou as perceções da opinião pública turca relativamente às condições do país, ao primeiro-ministro Recep Tayyip Erdoğan e às instituições nacionais. Além destas, a pesquisa também se concentrou nas perceções da opinião pública turca em relação aos protestos de Gezi, conforme referido acima. Para o efeito, o estudo foi elaborado com base em 1000 entrevistas a adultos com 18 ou mais anos. No que diz respeito às perceções face ao atual Presidente turco Recep Tayyip Erdoğan, a pesquisa elaborada pelo Pew Research Center , revela que a opinião pública turca se encontra dividida de forma quase igualitária entre os que estão satisfeitos com a liderança de Erdoğan e aqueles que consideram que este está a liderar o país na direção errada. Em termos percentuais, 44% dos turcos mostraram-se satisfeitos e 51% revelaram-se descontentes com a liderança do então primeiro-ministro. No que concerne à influência de Recep Tayyip Erdoğan no país, a tendência de divisão da opinião pública mantinha-se, sendo desta vez ainda mais equilibrada. Com efeito, 48% considerava, à data de 2014, que o então primeiro-ministro influenciava a Turquia de forma positiva, sendo que a mesma percentagem de inquiridos acreditava que Erdoğan influenciava o país de maneira negativa. Além disso, quando questionados sobre liberdades individuais, crime, corrupção e a situação na Síria, 56% dos inquiridos reprovava a forma como Erdoğan geriu estas questões. Em termos económicos, 49% da opinião pública turca condenava a maneira como Erdoğan geriu a economia do país, enquanto 46% dos turcos se revelavam satisfeitos. O estudo salienta que os turcos mais religiosos demonstraram, em 2014, maior apoio a Erdoğan em relação aos que são mais seculares. Na verdade, esta é uma divisão omnipresente. 32 interação, dinamismo e interdependência entre os actores e as perceções que estes têm de si e dos outros. As teorias tradicionais das Relações Internacionais são, por vezes, alvo de críticas uma vez que nem sempre suprem as necessidades que a análise da atual ordem internacional requer. Uma delas é, como admitem Görener e Ucal (2011), o facto de as variáveis individuais serem, por norma, desvalorizadas pelas teorias mainstream . Neste sentido, segundo os autores, as mesmas marginalizam a relevância dos líderes aos quais cabe interpretar as exigências e necessidades internacionais que, por sua vez, têm impacto nas suas decisões políticas. A role theory , no entanto, permite a análise do perfil dos líderes, o que se revela bastante útil no caso turco, já que as decisões políticas da Turquia se concentram largamente na pessoa de Erdogan. Desta forma, com uma lente conceptual que tenha em conta esse prisma individual de análise de Erdogan, é possível realizar uma avaliação mais adequada do soft power turco. Além disso, Görener e Ucal (2011) defendem que existe um reconhecimento cada vez maior do enriquecimento que a incorporação das variáveis individuais, tais como as perceções ou as motivações, proporcionam na análise do comportamento da política doméstica e externa. Mais uma vez, a role theory consegue responder a estas necessidades, adequando-se ao estudo da Turquia. Assim, o contributo de Görener e Ucal (2011) realça o facto de a política externa turca ser indissociável do prisma de valores do estadista que a influencia. Por conseguinte, é fundamental não se descurar a política externa tendo em conta que esta é um processo de tomada de decisão que inclui a subjetividade humana em conjunto com a influência das variáveis estruturais. No caso turco, a nostalgia é um factor a ter em conta, uma vez que condiciona a tomada de decisão por parte de Erdogan. Assim, Brown (2002) considera que a nostalgia é importante para entender o processo de construção das identidades, quer dos indivíduos, quer das instituições. Deste modo, o autor admite que esta pode ser uma ferramenta tanto para preservar o sentido de grupo, como para desviar os indivíduos das suas preocupações diárias. O estudo de Brown (2002) mostra que as narrativas construídas formam a identidade de grupo. Desta forma, a nostalgia de grupo permite fornecer informações sobre a forma como, quer os indivíduos, quer os grupos percecionam determinadas situações e ameaças. Por fim, o autor considera a nostalgia como um veículo para aceder ao legado comum de valores e convicções que são, de facto, importantes para a identidade, na medida em que serve de base emocional em alturas de mudança. Desta forma, Brown (2002) admite que esta é uma forma de manifestação da individualidade em processos de reconhecimento da identidade, tanto dos indivíduos como das organizações. Um ponto importante a realçar é o facto de a nostalgia ser relevante para que os sujeitos construam as suas narrativas de forma 33 a que estas sejam credíveis e tragam tranquilidade aos indivíduos (Brown, 2002). Esta é, na prática, uma estratégia usada por Erdogan. Segundo o autor, o enfoque na nostalgia permite analisar a formação e mudança da identidade com base nas perspectivas dos sujeitos no contexto social. Além disso, o autor realça que estudar este tópico é uma forma eficaz de explorar aprofundadamente os diálogos (Hazen, 1993 apud Brown, 2002). É possível estabelecer uma ponte entre a role theory e o acima exposto. Como admite Breuning (2011), a role theory está intimamente ligada a conceitos como os de identidade, imagem e auto-imagem, normas e cultura. Acima abordámos a importância da nostalgia na construção da identidade e como esta nos fornece informações importantes para compreendermos as perceções dos diversos actores, relembrando que as perceções são um conceito-chave para a role theory. Como constata Ayoob (2020), a herança do Império Otomano continua muito patente na memória dos turcos, ainda que Atatürk tivesse procurado distanciar-se deste legado, regendo-se por linhas de acção mais ocidentalizadas e que, por conseguinte, podem ter escondido estes sentimentos de pertença. No entanto, Ayoob (2020) acrescenta que estes sentimentos afloraram aquando da ascensão ao poder do AKP. Com efeito, este partido espelha as características de Erdoğan, mais precisamente, como refere Ayoob (2020), o orgulho do legado otomano e islâmico da Turquia. Tal não deixa de ter impacto, obviamente, no soft power turco, nomeadamente na visão que Erdoğan tem do legado da Turquia no mundo, o que se reflecte na forma como a Turquia gera o seu soft powe r. De facto, a mensagem de filmes e séries relacionados com o Império otomano projectam, quer nos turcos, quer no estrangeiro a identidade de um tempo glorioso para este povo. Tal tem, por sua vez, impacto na maneira como Erdoğan concebe simultaneamente o seu papel e o da Turquia, projectando uma certa identidade a nível internacional. Consideramos pertinente mencionar aqui o papel da actual mesquita Hagia Sophia. Esta havia sido transformada num museu no tempo de Atatürk, que se empenhou em criar um Estado laico. Esta mesquita é uma das maiores da Turquia e um dos símbolos de orgulho e poder resultantes da vitória dos otomanos sobre os bizantinos, como afirma Ayoob (2020). O autor refere também que quando Atatürk decidiu convertê-la num museu, fê-lo para que isso representasse uma quebra face ao passado otomano, contribuindo assim para que o Ocidente passasse a ver a Turquia como um país “civilizado”. Ora, a decisão de Erdoğan converter o museu em mesquita em 2020 gerou grandes críticas em círculos cristãos e outros ocidentais, uma vez que acreditavam que a conversão do museu para práticas exclusivamente muçulmanas poderia acentuar ainda mais as divisões religiosas patentes no seio da sociedade turca (Público, 2020). Neste sentido, a mesquita Hagia Sophia é instrumentalizada, por 34 Erdoğan, como um símbolo da “Nova Turquia”, elemento essencial da nova conceção do papel da Turquia. Este desempenho do papel visa robustecer o Islão num Estado laico (Yavuz e Öztürk, 2019). Além disso, há muito que a reconversão da Hagia Sophia em mesquita era solicitada pelos muçulmanos (BBC, 2020). Desta forma, num contexto em que a quase totalidade da população turca é muçulmana, Erdoğan reuniu esforços para ir ao encontro das expectativas da maior parte da população turca que se revê no Islão. 35 Conclusão parcial No capítulo que aqui finda procedemos à análise de vários tipos de poder, destacando, em especial, o soft power , que corresponde à capacidade de influenciar. De seguida, introduzimos e explicámos as variáveis e postulados da role theory , que gravita em torno de quatro conceitos-chave: a conceção do papel, as expectativas face ao papel, a adaptação do papel e o desempenho do papel. Em relação à conceção do papel, concluiu-se que a Turquia tem vindo a redefinir o seu papel, inclusive no âmbito da sua política externa, sobretudo desde a ascensão do AKP ao poder. No que concerne às expectativas face ao papel, realçámos a grande divisão da opinião pública doméstica face ao papel do presidente Erdoğan. Efectivamente, constatámos que os turcos mais religiosos são os que demonstram maior apoio ao presidente, comparativamente aos ditos ‘mais seculares’, sendo esta uma divisão omnipresente na Turquia. Ainda no que concerne à religião, percebemos que os turcos lhe atribuem uma importância crescente desde que o AKP é governo, o que impacta as expectativas do papel da Turquia e, por conseguinte, a conceção do papel do seu presidente. Relativamente às expectativas do público internacional, destacámos que estas são fortemente influenciadas pelos discursos, pela política externa da Turquia e pelas notícias nos media que as acompanham. Como veremos ao longo desta dissertação, estes são factores fundamentais nas perceções internacionais face à Turquia tendo, por conseguinte, uma grande influência no soft power do país. Em relação à adaptação do papel, concluímos que o papel da Turquia sofreu mudanças profundas desde que se encontra sob a governação de Erdoğan. A primeira década da sua governação ficou marcada por uma política externa em favor da integração regional e alianças na região, iniciando também o processo de negociação para adesão à UE. Já na segunda década, Erdoğan buscou afirmar a autonomia da Turquia, por meio de intervenções militares e diplomacia coerciva, colocando de parte a sua neutralidade na região. Deu-se, então, a viragem da política externa turca sobretudo para a Ásia, sem deixar, todavia, de ser membro da OTAN, em consequência do esmorecimento das relações com o Ocidente. Quanto ao desempenho do papel, apesar de a Turquia não ter publicado nenhum documento oficial contendo a sua estratégia global, identificámos múltiplas estratégias ao nível da sua política externa. Por fim, concluímos que o estudo do soft power turco é perfeitamente analisável à luz da role theory, que admite a interação, dinamismo e interdependência entre os actores e as perceções que estes têm de si e dos outros. Por outro lado, a role theory permite analisar as diferentes adaptações da Turquia no contexto internacional e o perfil de Erdoğan, visto que as decisões políticas se concentram na sua 36 pessoa, ou seja, nas suas perceções e motivações. Assim, no próximo capítulo iniciaremos a análise do soft power turco no período pré-Erdoğan, para melhor percebermos a sua evolução. 37 3. O Soft Power pré-Erdoğan: a imagem da Turquia no Mundo 3.1. Contextualização histórica e determinantes da política externa turca De forma a introduzir este novo capítulo, consideramos pertinente proceder a uma breve contextualização histórica da conceção do papel da Turquia no mundo, uma vez que ela está intimamente ligada à identidade turca que, por sua vez, se afigura uma ferramenta essencial à análise do soft power. De seguida, analisaremos a liderança de Atatürk e de Özal, visto que estes foram os líderes mais relevantes na transformação da política externa turca antes de Erdoğan. Neste sentido, recuamos ao período Otomano para contextualizar a análise. Como reconhece Ayoob (2020), a queda do império teve início a partir da segunda metade do século XIX, verificando-se uma perda gradual dos territórios otomanos na Europa, mais concretamente, nos Balcãs. Este facto justifica os laços históricos que a Turquia tem com os países pertencentes a esta região, na medida em que ambos pertenciam ao Império Otomano. No entanto, o autor afirma que o abalo mais forte para o império resultou das determinações do pós-Primeira Guerra Mundial. O tratado de Sèvres atribuiu, como zona de influência, a Anatólia Ocidental à Grécia, tendo o sul da Anatólia sido cedido a Itália, e o sudeste a França. Para além destas, partes consideráveis de território situadas na zona leste da Anatólia foram convertidas, quer em enclaves, quer em protoestados arménios e curdos (Ayoob, 2020). Ora, o autor considera que esta situação não agradou aos turcos. Na sequência deste descontentamento, teve lugar uma árdua guerra pela independência da Turquia em que as tropas turcas, lideradas por Mustafa Kemal, se revoltaram contra o sultão otomano, em razão da assinatura da rendição. Ao fim de quatro anos de luta, os turcos foram capazes de reverter as alterações do tratado de Sèvres acima mencionadas. Contudo, Mustafa Kemal - posteriormente apelidado Atatürk - procurou não interferir nos territórios árabes não-turcos do Império pertencentes à Grã Bretanha e à França, visto que isso significaria um confronto directo com estes dois países. De facto, estas duas potências afirmaram o seu domínio na região do crescente fértil, pelo que um conflito com estes países poderia significar uma ameaça à independência e soberania da Turquia (Ayoob, 2020). Aqui chegados, passamos agora à análise do soft power turco sob a liderança de Atatürk e Özal. Comungamos, para o efeito, do entendimento de Ataman (2002) que defende que com a mudança de líderes surgem novas conceções do papel, acompanhadas da alteração de objectivos e prioridades as quais, por sua vez, influenciam a política externa. Por outras palavras, diferentes conceções do papel repercutem-se em distintos desempenhos do papel, como defende a role theory. 38 3.2. O Soft Power durante o governo de Atatürk Após a contextualização histórica do papel da Turquia abordada acima, procederemos de seguida à análise da liderança do fundador da República - Atatürk. Este líder direcionou a política externa turca para o Ocidente (Isik, 2021). Danforth (2008) sustenta que o distanciamento de Atatürk face ao Médio Oriente e a posterior aproximação de Erdoğan à região - ou seja, a adaptação do papel - é uma resposta prática e estratégica face à mudança da conjuntura internacional. De facto, ainda durante o Império Otomano, assistiu-se a diversas mudanças (adaptações do papel) com o intuito de tentar evitar o seu colapso, como a modernização da administração, da economia e da sociedade. Não obstante, o império acabaria por cair. Com a fundação da República, a prioridade de Atatürk continuava a ser a de garantir a integridade do Estado (Oğuzlu, 2007 apud Muter 2018). Danforth (2008) reconhece que, em vez de um enfoque na conceção do papel dos líderes turcos, os estudiosos têm analisado a política externa do país concentrando-se, sobretudo, no confronto entre as identidades ocidentais e orientais. De facto, a posição geográfica da Turquia, entre o Ocidente e o Oriente, justifica o emprego destas noções. Com efeito, Aydın (2019) argumenta que a localização geográfica da Turquia torna difícil quer o enquadramento do país numa região específica, quer a capacidade de este se ligar a múltiplos Estados com culturas, dinâmicas políticas, evoluções históricas e económicas também distintas. De acordo com Danforth (2008), ao dilema identitário sobre a identificação da Turquia com o Oriente versus Ocidente, acresce também o do Islão e da democracia. No fundo, o autor aponta para uma fusão de identidades pautadas pelo Islão, democracia e secularismo que predominam nos debates sobre a política externa turca, tanto na Turquia como no estrangeiro. Desta forma, o entendimento de Danforth (2008) revela-se de extrema importância, ao alargar o campo de visão centrado nas identidades, ao considerar as decisões de Atatürk e Erdoğan como sendo condicionadas pelo contexto internacional e não determinadas apenas pelo factor identitário ou ideológico, ou seja a conceção do papel dos mesmos. Assim, entendemos que esta postura espelha uma adaptação do papel por parte de Atatürk, na medida em que este adaptou a política externa do país à situação que então se vivia na região. Desta forma, abandonar as exigências e o legado otomano foi, segundo Danforth (2008), uma das medidas mais transformadoras que Atatürk adoptou. O líder turco procurou, igualmente, distanciar-se das pretensões imperiais que haviam caracterizado o sultanato turco no período precedente. Tal posicionamento consubstancia, uma vez mais, uma adaptação do papel do líder perante a sua leitura da evolução da conjuntura histórica. 39 Desta forma, Atatürk concentrou os seus esforços em criar uma imagem e uma identidade mais voltadas para o Ocidente, baseando-se tanto no nacionalismo como na modernização (Sancar apud Muter, 2018). Este empenho deu, então, origem a uma nova conceção do papel da Turquia. A nível cultural, estes esforços de aproximação ao Ocidente começaram a ser realizados mesmo antes da implantação da República turca. De facto, as traduções de obras europeias começaram a ser feitas a partir de 1850. Além disso, os escritores otomanos começaram também a estabelecer contacto com géneros de romance da Europa, assim como estilos de poesia. Contudo, esta aproximação ao modelo europeu transcendeu o domínio literário e reflectiu-se em diversas outras áreas como modelos de consumo, atividades de tempos livres, na arquitetura e na educação (Gulmez et al., 2023). Assim, as reformas levadas a cabo por Atatürk buscavam eliminar os elementos islâmicos, tanto da política como da sociedade turca, distanciando-se da herança otomana e islâmica e adoptando traços civilizacionais ocidentais (Ataman, 2002). Com efeito, a adaptação foi notória também na indumentária. Refira-se, a título ilustrativo, a substituição do Fez por chapéus com traços mais ocidentais, numa tentativa de apagar as características mais orientais da cultura turca. Esta alteração deu-se uma vez que as vestes islâmicas eram percecionadas de forma negativa, enquanto o estilo ocidental era visto como evoluído. Além destas, deu-se também a abolição do sultanato e do califado; a substituição do alfabeto árabe pelo alfabeto latino; a promoção do futebol no país e a criação da ópera turca. Todas estas medidas foram adoptadas com o intuito de estabelecer uma nova identidade da Turquia (Gulmez et al., 2023). Por fim, importa também realçar a passagem do ensino primário para um regime gratuito e obrigatório e a atribuição de direitos civis e políticos iguais às mulheres (Huijgh e Walick, 2016 apud Ayhan, 2018). Por conseguinte, estas reformas representam uma clara adaptação do papel da Turquia. Neste seguimento, a modernização era percecionada pela ideologia kemalista como sinónimo de ocidentalização (Yavuz e Öztürk, 2019). O Kemalismo assenta, assim, em seis pilares basilares, nomeadamente o republicanismo, populismo, nacionalismo, reformismo, estatismo e secularismo. O secularismo consistiu na exclusão dos princípios islâmicos pelos Kemalistas como forma de alcançar a ocidentalização. Contudo, embora a Turquia buscasse identificar-se com o Ocidente, existiam razões estruturais desde a génese do Estado que impossibilitaram essa orientação ocidental, tanto na esfera doméstica como internacional. Assim, o kemalismo enveredou por políticas autoritárias com o intuito de afastar os seus inimigos domésticos (Ataman, 2002). Por outro lado, embora as reformas pró-Ocidente fossem percecionadas de forma positiva em algumas esferas ocidentais, a percepção tradicional dos turcos pelos europeus não se alterou necessariamente, já que não foi capaz de os convencer de que estes esforços se reflectiriam na mudança de identidade turca (Gulmez et al., 2023). Além das reformas 40 implementadas não terem tido a capacidade de uniformizar a sociedade turca, elas exacerbaram a divisão da mesma, estando esta fragmentação presente até aos dias de hoje (Ibid). Atatürk ambicionava desconstruir a imagem que a Europa tinha dos turcos, ao desenvolver os seus princípios de secularismo e não-intervenção. O conceito de secularismo é particularmente importante, uma vez que o líder defendia que o Islão ajudava a promover uma imagem dos turcos enquanto sociedade diferente da europeia. Assim, ao adoptar o secularismo, este deixaria de ser um ponto determinante para os europeus. Ao mesmo tempo, a Europa era percecionada pelos Kemalistas como o “centro do progresso e da civilização”, razão pela qual estes empenharam esforços com vista à ocidentalização da Turquia (Gulmez et al, 2023). Os Kemalistas percepcionavam os países europeus como “amigos espontâneos”, assim como as alianças com os países do velho continente eram vistas como ligações espontâneas. Por conseguinte, o desejo de adesão à UE era percepcionado pelos Kemalistas como algo igualmente espontâneo (Ataman, 2002). É neste sentido que se compreende a adesão ao Conselho da Europa em 1949 e à OTAN em 1952. No domínio cultural destaquemos, por sua vez, a primeira participação do país no Festival da Eurovisão em 1975. Sublinhemos também as visitas de Charles de Gaulle e Elizabeth II à Turquia, que atestam o fortalecimento dos laços do país com a Europa (Gulmez et al., 2023). Contudo, estas iniciativas foram motivadas pela necessidade de segurança, uma vez que no contexto da Guerra Fria, a Turquia era vista pelos países europeus como um aliado importante para conter a ameaça soviética, mas não necessariamente percepcionada como parte do Ocidente. Todavia, esta conjuntura alterou-se aquando da apresentação dos critérios de Copenhaga em 1993, que realçavam a importância da democracia como principal critério na definição de um Estado Europeu. Assim, aquando do pedido de adesão da Turquia à Comunidade Económica Europeia (CEE) em 1987, um dos principais entraves que o país enfrentou e que contribuíam para que a Europa se opusesse a esta adesão eram a instabilidade económica e democrática e o desrespeito pelos direitos humanos (Gulmez et al, 2023). De entre os desafios domésticos e regionais saliente-se o nacionalismo curdo e o Islão político (Ataman, 2002). No que concerne ao primeiro, podemos traçar uma relação causa-efeito entre este e o facto de o regime kemalista ter estabelecido a etnia turca como a identidade principal do Estado turco (Ibid.). De facto, esta perspectiva de Atatürk da Turquia como um Estado étnico único está na génese da questão curda, que permanece actualmente um dos principais temas que fragmentam a política turca (Institute for Security and Development Policy, 2016). Com efeito, a criação de um Estado étnico único numa sociedade constituída por várias etnias, levou a que o regime turco evoluísse de forma autoritária, 41 uma vez que havia a necessidade de dispor de um poder central forte para preservar a segurança e a integridade do território (Institute for Security and Development Policy, 2016; Yavuz e Öztürk, 2019). Desta forma, as preocupações de segurança sobrepuseram-se à tentativa de resolução das diferenças étnicas, negligenciando, no processo, direitos básicos como a justiça social (Ergil, 2000 apud. Institute for Security and Development Policy, 2016). Efectivamente, a desintegração do Império Otomano proporcionou a divisão dos curdos em quatro Estados, nomeadamente a Turquia, o Irão, o Iraque e a Síria. A partir de então, os curdos começaram a enfrentar os Estados em que estão distribuídos depois de verem o reconhecimento dos seus direitos políticos, culturais e linguísticos lhes serem recusados (Mohammed e Romano, 2023). Um dos objectivos dos vários governos desde a formação da República consistia na diluição da etnia curda no Estado turco através da proibição da língua e de actividades culturais curdas, bem como da execução de massacres e deportações de curdos (Ibid.). Ao invés do que sucedia na era otomana, em que a identidade era baseada na religião, aquando da constituição da República turca e, mesmo no final do século XIX com o ainda império otomano, a nova identidade do país assentaria na língua e cultura turcas, desencorajando a criação de um espaço para acomodar as necessidades dos curdos. Este contexto levou, assim, ao rápido surgimento de revoltas curdas que reivindicavam a legitimação da sua identidade (Ibid . ). 3.3. O Soft Power durante o governo de Özal Ataman (2002) admite que os líderes que sucederam a Atatürk procuraram manter a mesma orientação de política externa face à região e ao Ocidente. Contudo, o autor considera que esta postura foi, pela primeira e única vez, desafiada por Özal enquanto Primeiro-Ministro turco, de 1983 a 1989, e como Presidente do país no período de 1989 a 1993. De facto, com Özal verificou-se uma transformação da política externa turca, passando dos princípios mais isolacionistas de Atatürk para uma política externa mais dinâmica (Laçiner, 2009). Özal procurou diversificar o conjunto de alianças do país, concentrando, todavia, as suas políticas mais a Oriente, uma vez que a melhoria das relações com o mundo turco era uma das prioridades do seu governo. Esta tentativa de redefinição da conceção dos objectivos e do papel da Turquia visou essencialmente contribuir para a consolidação do país como potência regional (Ibid). Assim, nos anos 80, Özal abraçaria uma nova identidade política, abandonando alguns dos pilares do Kemalismo, nomeadamente o “estatismo” e o “populismo”, e alterando a natureza do “secularismo”, 48 transformações revelaram-se intensas, súbitas e constantes, em especial após a Segunda Guerra do Golfo e, com maior impacto para a Turquia, como foram as revoltas árabes de 2011 (Guida e Göksel, 2018). Assim, entende-se que tanto as preocupações de natureza económica como de segurança contribuíram para a adaptação do papel da Turquia, de forma a responder às exigências domésticas e internacionais. Desta forma, ambas as dinâmicas deram origem a uma nova conceção do papel da Turquia. À luz deste cenário doméstico e externo, Erdoğan era percecionado como uma figura benéfica para a segurança económica do país (Yeşilada, 2023). A nível doméstico, a crise económica (2000-2001) constituiu um ponto de viragem ao acelerar o processo de reformas tanto a nível económico como democrático com vista à possível adesão da Turquia à UE (Onis, 2003). De facto, a maioria dos turcos apoiava esta adesão, na esperança de uma saída eficaz para a crise económica em que o país se encontrava (Ibid.). As reformas operadas pela Turquia na década de 2000, em consequência do seu processo de candidatura à UE, vieram alavancar o soft power turco ao compreenderem a melhoria do Estado de direito, das liberdades religiosas, e da transparência do governo (Çevik, 2019). Deste modo, a orientação da política externa turca pró-União Europeia fortaleceu a imagem de que a prioridade do governo deveria concentrar-se na reforma económica e na política externa, ao invés de privilegiar o ressurgimento islâmico (Kirdiş, 2016). Estas mudanças espelham uma adaptação do papel da Turquia face às expectativas internacionais, neste caso da UE. Além disso, elas atestam a capacidade de as reformas democráticas gerarem soft power , algo que aumentou consideravelmente desde que o AKP ascendeu ao poder em 2002, tornando-se uma das prioridades do partido no que concerne à política externa (Yenokyan, 2023). Por sua vez, a nível internacional, o 11 de setembro de 2001 veio reforçar a importância da Turquia para o Ocidente, sobretudo ao nível da segurança. Desde o primeiro mandato, a partir de 2002, o partido de Erdoğan (AKP) tomou novas decisões de reforma em relação à questão curda, que passavam por conferir mais direitos às minorias, assim como operar um desarmamento gradual dos rebeldes do PKK. Esta tentativa inicial de inclusão dos curdos pode ser vista como uma estratégia do partido para atrair os eleitores mais conservadores de origem curda (Institute for Security and Development Policy, 2016) Por outro lado, a expectativa da adesão à UE permitiria à Turquia desenvolver simultaneamente uma relação mais equilibrada com os EUA e desempenhar um papel mais comedido e construtivo a nível regional. Em suma, as mudanças domésticas e externas, neste período, contribuíram para a transição de um papel coercivo para um de potência regional potencialmente benigna e construtiva (Onis, 2003). 49 O objectivo de adesão à UE reflectiu-se também nas políticas do governo relativamente à diplomacia cultural, que sentiu a necessidade de melhorar a perceção da opinião pública da UE face à Turquia. Neste sentido, verificou-se um reforço da diplomacia pública turca, sobretudo na esfera cultural, na UE, visível, entre outros, ao nível das exposições de arte e sessões de cinema (Muter, 2018). Neste contexto, foi criada a Fundação Yunus Emre, em 2007, tendo sido a primeira instituição oficial ao nível da diplomacia cultural turca. Esta tem como objectivo divulgar a cultura, a história e a língua turcas, bem como proporcionar o intercâmbio científico entre a Turquia e outros Estados. Apesar de, antes desta, existirem outras instituições com o objectivo de desenvolver laços com o estrangeiro, a Fundação Yunus Emre foi a primeira organização do Estado a fazê-lo de forma constante, tanto doméstica como internacionalmente. O elemento mais importante desta organização é o Yunus Emre Institute (YEE), criado com o intuito de permitir o intercâmbio cultural entre cidadãos turcos e cidadãos estrangeiros (Çevik, 2019). Nas regiões dos Balcãs e do Médio Oriente verifica-se uma presença significativa destes institutos, o que atesta o desejo da Turquia em promover a sua cultura e laços culturais nestas regiões (Donelli, 2019). Akıllı (2018) salienta o contributo do YEE na criação de uma imagem positiva da Turquia a nível internacional. Na prática, este instituto é um dos maiores instrumentos de diplomacia cultural turca, nation branding e elemento de prestígio da Turquia no estrangeiro (Szyszlak, 2021). Através da Fundação Yunus Emre, a Turquia também tem procurado estabelecer melhores relações com a sua diáspora, reconhecendo a sua importância política. Como resultado desse reconhecimento, foi criada a YTB - Presidência para os Turcos no Estrangeiro e Comunidades Relacionadas - agência da diáspora turca que fomenta iniciativas de envolvimento destas comunidades (Çevik, 2019; Presidência dos Turcos no Exterior e Comunidades Relacionadas, s/d). A YTB foi criada quer para monitorizar iniciativas que envolvem turcos a viver no estrangeiro, quer para incrementar os laços sociais, culturais e económicos no seio das comunidades turcas. Tais iniciativas visam promover o diálogo e fomentar uma imagem positiva da Turquia ao nível da sua história e cultura. Além disso, a YTB também criou programas de bolsas - as Türkiye Bursları 2 . Todas estas iniciativas têm ajudado a Turquia a melhorar a sua capacidade de influenciar as audiências externas, desconstruindo estereótipos e preconceitos sobre o país e a sociedade (Donelli, 2019). Ainda no primeiro e segundo mandatos de Erdoğan, além do YEE, passou a haver uma maior aposta noutras instituições enquanto ferramentas de soft power (Szyszlak, 2021). É o caso da TIKA, que introduzimos no capítulo anterior. Em 2011, a TIKA passou por uma reestruturação, com vista a melhorar 2 As Türkiye Bursları, também denominadas Türkiye Scholarships, são bolsas de estudo financiadas pelo governo turco e destinadas a estudantes e investigadores internacionais (Türkiye Scholarships, 2023). 50 a sua eficácia na cooperação e coordenação. A agência revelou particular interesse em intervir em áreas que outrora pertenciam ao antigo império otomano, o que se revela coerente com as visões de política externa do governo de Erdoğan que se focam na herança otomana e nas respectivas relações com os Balcãs, o Médio Oriente e a Ásia Central (Akıllı e Çelenk, 2019). O número de projectos da TIKA praticamente quadruplicou em 2011, em comparação com o ano de 2002, o que comprova os esforços feitos pelo AKP em promover uma imagem positiva da Turquia. Além disso, também o orçamento destinado às iniciativas desta agência aumentou exponencialmente desde 2002, ano em que o AKP ascendeu ao poder. De facto, durante o período de 2003 a 2013 o investimento feito foi cinco vezes maior comparativamente ao período de 1992 a 2002 (Akıllı e Çelenk, 2019). Assim, os investimentos na ordem dos 85 milhões de dólares em 2002, aumentaram para mais de mil milhões de dólares em 2011 (Turkish Development Assistance Report 2018, 2019). Esta evolução não se cingiu apenas ao investimento feito, mas também ao número de escritórios abertos da TIKA e ao número de países aos quais a ajuda externa turca chegou. Efectivamente, a agência que em 2002 possuía 12 escritórios, passou a dispor de 25 em 2011 (Akıllı e Çelenk, 2019). Por sua vez, o número de países alvo do apoio da TIKA ultrapassou os 100 em 2011 (TIKA apud Akıllı e Çelenk, 2019). Embora a Turquia tenha passado por dificuldades - nomeadamente com as crises económicas dos anos 90 e entre 2000 e 2001 - o crescimento da economia, a estabilidade e o processo de democratização a partir desta década permitiu ao país atrair a atenção de diversos actores (Ayhan, 2018). Efectivamente, a crise de 2000-2001 incentivou à realização de reformas nas instituições políticas e económicas, que levaram à recuperação entre 2002 a 2007. Esta foi incentivada por dois pilares essenciais: a implementação bem-sucedida das reformas apoiadas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e a abertura das negociações para a adesão à UE. Contudo, este período bem-sucedido de reformas económicas, políticas económicas prudentes, redução da dívida pública e crescimento do produto interno bruto conheceria desenvolvimentos menos positivos a partir das eleições de 2007 (Macovei, 2009) O AKP tentou construir uma imagem credível da Turquia, convencendo os outros actores de que o país continuava a ser uma democracia. Por outro lado, a política externa, mais orientada para a esfera económica do que de segurança, desempenhou um papel activo em fora importantes de cariz económico e político e acordos de cooperação multilaterais e regionais, o que permitiu o reforço da imagem da Turquia como potência média. Esta proactividade do soft power turco confirma a conceção do papel de Erdoğan em alargar a área de influência da Turquia, tanto na esfera regional como internacional. Assim, a Turquia passaria a assumir cumulativamente diversos papéis: “líder regional”, “protector” e “mediador” (Gürzel, 2014). 51 Quando ascendeu ao poder, o partido de Erdoğan era constituído por membros com diversas ideologias mas que convergiam no descontentamento face aos partidos seculares e às suas políticas austeras. Pairava, contudo, a desconfiança de que estas fossem apenas promessas, tirando proveito da má situação política e económica que o país atravessava, em consequência da crise económica de 2001 (Yeşilada, 2023). A imagem de partido reformador e pró-UE permitiu que o AKP ganhasse eleitorado, quer por parte dos mais conservadores, quer dos que não se identificavam como religiosos embora fossem mais liberais. Tal aconteceu uma vez que ambos se viram representados pelo partido: para os liberais as reformas democráticas na tentativa da adesão à UE, e para os conservadores, a salvaguarda dos seus direitos religiosos (Kirdiş, 2016). Assim, o partido conseguiu adaptar o seu papel às expectativas do público doméstico. Efectivamente, durante o primeiro mandato do AKP - de 2002 a 2007 - desenvolveram-se esforços com vista à possível adesão da Turquia à UE, o que culminou numa abertura às negociações de Ancara com Bruxelas em 2005. Estas acções conseguiram convencer o eleitorado mais cético de que o partido se apresentava como moderado em termos religiosos (Kirdiş, 2016). O país produziu políticas para o Médio Oriente respeitadoras do status quo da região, ao não intervir militarmente nos conflitos regionais. Em vez disso, a Turquia optou por recorrer ao seu soft power para tentar dirimir eventuais conflitos na região, tais como entre a Síria e Israel. Desta forma, os decisores de política externa turcos conseguiram, principalmente no primeiro mandato do AKP, conjugar os interesses da Turquia no Médio Oriente com a orientação das suas políticas para o Ocidente (Özpek e Demirağ, 2014). Apesar de Erdoğan reiterar continuamente que a religião não se deveria misturar com a política, na prática, a situação seria diferente. Erdoğan esforçara-se em afastar, aos poucos, os seus opositores dentro do partido, bem como em desfazer as reformas anteriores com recurso a emendas na constituição, favorecimento e corrupção para consolidar o seu poder. Aquando da criação do AKP houve um grande cuidado em camuflar as referências à religião, muitas vezes sob o pretexto da defesa dos direitos políticos e civis. Além disso, o AKP também se mostrou favorável à UE, menos nacionalista e islâmico do que os partidos anteriores. Após a sua segunda eleição, em 2007, a maioria das reformas concebidas para alcançar o objectivo da adesão à UE foram desfeitas, com vista à criação gradual de um regime autoritário centrado na pessoa de Erdoğan (Yeşilada, 2023). Deste modo, a reviravolta nas reformas fez abrandar o processo de adesão, o que se fez sentir na política externa turca (Kirdiş, 2016). Por conseguinte, durante o segundo mandato (2007-2011), o partido passou por um período ímpar em que no campo doméstico via o seu eleitorado crescer, governando, assim, sem coligações. Contudo, decorria, ao mesmo tempo, um processo para o encerramento do AKP no tribunal 52 constitucional turco, sendo que no plano externo a desaceleração das negociações com vista à adesão da Turquia à UE eram notórias (Kirdiş, 2016). Nas eleições de 2007, a questão curda e o Islão político foram temas centrais. No ano anterior às eleições, 2006, a televisão pública - a Rádio e Televisão Turca (TRT) - havia inaugurado um canal em curdo - o TRT Kurdı . Não obstante a melhoria da qualidade tanto da TRT World como da TRT Kurdı , estes canais não conseguiram competir com outros do mesmo género, como a Al Jazeera . Tal facto dificultou a disseminação da narrativa/modelo da Turquia a outras sociedades (Guida e Göksel, 2018). Apesar disso, a criação do canal curdo atesta um esforço, por parte do AKP, em acolher e disseminar a identidade curda no estrangeiro. Com efeito, no segundo mandato do AKP, em 2007, Erdoğan anunciou resoluções para atender a algumas demandas curdas, nomeadamente com vista a trazer de volta à Turquia membros do PKK vindos tanto do Iraque, como de várias bases na Europa. Apesar de tais tentativas de adaptação do papel face às expectativas dos curdos parecerem representar um ponto de viragem na questão curda, a mesma produziu apenas uma perceção de vitória por parte dos curdos, que levou à prisão de alguns membros do PKK e ao regresso de outros ao Iraque. Ainda nos seus esforços para apaziguar a questão curda, Erdoğan aboliu a necessidade de vistos por parte dos sírios que viajassem para a Turquia, e vice-versa. No entanto, com a Primavera Árabe na Síria, surgiu um novo perigo, uma vez que a medida facilitava a entrada de sírios na Turquia. Este facto iria, assim, impactar a dinâmica das relações entre a Turquia e a Síria. Mais tarde, em 2010, as propostas de reforma que o AKP apresentou no parlamento turco não referiam os curdos (Bengio, 2011), atestando o declínio das políticas que envolvem esta minoria, não sem impacto no soft power turco. De facto, o problema curdo também afectou as relações entre a UE e a Turquia, sobretudo no respeitante aos direitos humanos no país, representando este um dos maiores obstáculos à adesão da Turquia à UE. Por sua vez, a UE mostrava-se preocupada quanto ao facto de o PKK ter formado redes em alguns países da União. Em 2002, o PKK foi considerado, pela UE, uma organização terrorista, no seguimento do 11 de setembro de 2001. Por conseguinte, esta conjuntura veio comprometer as perceções da Turquia por parte de alguns países da UE, e vice-versa. Assim, a questão curda, que anteriormente era tida pela Turquia como uma questão de segurança doméstica, transformou-se numa das principais preocupações do país, tanto a nível doméstico como internacional (Bengio, 2011). No que concerne ao Islão político, o ano de 2007 foi também marcado pelas acusações do Estado-Maior do exército turco a Erdoğan, de este seguir uma agenda islâmica camuflada (Polat, 2009). No início do segundo mandato do AKP, deu-se uma redefinição da identidade turca na política externa 53 do país - adaptação do papel - com um distanciamento face à postura passiva da Turquia e ao restabelecimento de relações dinâmicas e amplas com os seus vizinhos (Kirdiş, 2016). Neste seguimento, foi introduzido por Davutoğlu (2001) o conceito de “profundidade estratégica” que tem por foco a posição geográfica da Turquia. Assim, este realça a história turca, nomeadamente o seu passado otomano e as relações culturais com as regiões dos Balcãs, Médio Oriente e Ásia Central (Rabasa & Larrabee, 2008 apud Yenokyan, 2023). Além desta doutrina, o soft power turco da época também incluiu a política “zero problemas com os vizinhos” que procurava resolver os atritos com países próximos, melhorando as relações com os mesmos (Yenokyan, 2023). Estas políticas permitiram, por exemplo, desenvolver relações de amizade com a Grécia, apesar da questão do Chipre (Guida, 2018). Esta reorientação da política externa turca representou também uma adaptação do papel face às expectativas do público doméstico. De facto, os turcos entendiam que a Turquia acomodava de forma passiva as demandas das potências - em particular, das potências ocidentais - mesmo que estas divergissem dos interesses turcos. Assim, ao reorientar a política externa, o AKP conseguiu conquistar apoio por parte de diferentes orientações políticas movidas pelos sentimentos nacionalistas (Kirdiş, 2016). Apesar da política de “zero problemas com os vizinhos”, a disputa com o Chipre foi e continua a ser um grande obstáculo à adesão da Turquia à UE (Euronews, 2023). Em 1960 o Chipre conquistou a sua independência face ao Reino Unido sob uma constituição baseada na partilha de poderes entre cipriotas gregos e turcos, sendo que o Reino Unido pode intervir na ilha juntamente com a Turquia e a Grécia. O Chipre encontra-se dividido desde 1974, aquando da invasão da Turquia ao norte da ilha, em resposta ao golpe militar que teve apoio do governo grego. A ilha foi assim dividida: um terço a norte que está sob governo turco-cipriota e dois terços a sul governados por um governo greco-cipriota reconhecido internacionalmente (BBC, 2023). Em 2003 deu-se um acontecimento importante na história deste conflito quando os cipriotas turcos e gregos atravessaram a linha que divide a ilha - linha verde - como consequência do alívio das restrições fronteiriças por parte das autoridades cipriotas turcas. Por sua vez, em 2004 o Chipre tornouse membro da UE mas como uma ilha dividida (BBC, 2023). Quando ascendeu ao poder em 2002, o AKP defendeu uma solução confederal para a questão do Chipre ou seja, uma reunificação da ilha, o que representou uma grande mudança na política externa turca acompanhada por uma perceção positiva na UE face à Turquia (Özertem, 2021). Esta postura está em consonância com o comportamento mais moderado que o AKP adoptou aquando da sua subida ao poder, uma vez que o apoio a uma 54 confederação no caso do Chipre pressupõe um esforço de conciliação. Por outro lado, a defesa de uma solução confederal pressupõe a preservação da autonomia do Estado. Contudo, depois de vários anos de negociações, a Turquia decidiu voltar à sua postura inicial face ao Chipre. Özertem (2021) entende que esta mudança de posição da Turquia é resultado de uma multiplicidade de factores, incluindo as negociações de décadas, que diminuíram a capacidade transformadora da UE na Turquia e a mudança nos equilíbrios de poder na região em que o país se insere. Além destes, acresce ainda as baixas perspectivas de uma adesão da Turquia à UE e a descoberta de hidrocarbonetos próximos da ilha. A questão do Chipre continua a ser um tema melindroso nas relações Turquia - UE. Esta problemática intensificou-se após a adesão do Chipre à UE, uma vez que a questão do Chipre passou a fazer parte da agenda interna da UE. Além disso, com a adesão à UE, os cipriotas gregos ganharam influência nas decisões da União devido ao poder de veto, o que tornou ainda mais complicada a relação Turquia - UE. Com esta conjuntura, as políticas pró-UE começaram a afastarse gradualmente das prioridades do AKP (Özertem, 2021). Por outro lado, a partir de 2011, as revoltas árabes originaram preocupações com a segurança ainda maiores na política externa dos Estados, uma vez que estas dinâmicas incitaram à escalada de tensões entre a Turquia e outros Estados, nomeadamente Israel, Grécia, Chipre e Egito. Por sua vez, a Turquia passou a fazer uso do seu hard power na região em busca de maior segurança, principalmente na segunda metade da década de 2010 (Özertem, 2021). Face ao exposto, considera-se então que a “era de ouro” da diplomacia pública turca ocorreu entre 2007 e 2013. Nos anos seguintes, a sua capacidade diplomática diminuiu de forma radical, consequência da instabilidade política interna e do sucessivo isolamento internacional da Turquia. Por conseguinte, o soft power turco viria a conhecer um período de declínio como analisaremos de seguida. 4.2. A nova era da Turquia - o ponto de viragem De 2010 a 2016 o soft power turco sofreu um declínio significativo em virtude dos acontecimentos domésticos e internacionais. Na esfera doméstica, verificou-se a centralização do poder, o declínio dos valores democráticos e o ressurgimento do conflito curdo. Por sua vez, na esfera internacional, a Turquia manifestava dificuldade em concretizar os seus objectivos, ao mesmo tempo em que prosseguia a islamização da política (Szyszlak, 2021). Para melhor analisarmos a evolução do soft power turco, recorremos ao The Soft Power 30 , bem como ao IFG Monocle que nos permitem ter uma visão mais homogénea das perceções do público 55 externo face à Turquia. Assim, o IfG-Monocle 2010 index posicionou a Turquia no 25º lugar, em 2010, em matéria de soft power . O relatório destacou a alteração da dependência da Turquia face ao hard power para uma abordagem mais voltada para o soft power no domínio internacional. No plano doméstico são sublinhadas as reformas decorrentes da candidatura do país à UE. Por sua vez, a nível internacional, o relatório salienta que a evolução da política externa turca procurou servir três objectivos: reforçar as relações com os países vizinhos, maximizar a sua posição geográfica privilegiada entre o Oriente e o Ocidente, e instrumentalizar o saudosismo otomano na condução da política externa. Nesta altura, o principal objectivo da Turquia em matéria de política externa consistia em afirmar-se enquanto líder regional, ou até global, através do soft power (Ibid). Um acontecimento impactante no soft powe r turco foi a distinção do então presidente Abdullah Gül através do prémio Chatham House 2010 pelo seu papel como impulsionador das reformas com vista à adesão da Turquia à UE. Além destas, o antigo presidente foi também distinguido pela sua dedicação em trazer estabilidade e prosperidade à região da qual a Turquia faz geograficamente parte (Turkish Forum, 2010). No final de 2010, os países árabes foram palco de transformações políticas únicas e radicais, conhecidas por Primaveras Árabes. Em virtude da sua posição geográfica e crescente relevância na região, a Turquia foi igualmente influente nestes acontecimentos, assim como bastante influenciada por eles. Desta forma, as Primaveras Árabes constituíram um obstáculo para a política externa turca, uma vez que esta se apoiava nos princípios de “zero problemas” com os vizinhos, de justiça, liberdade e nãointerferência nos assuntos domésticos do país. Por este motivo, a má gestão desta questão poderia motivar a perda de credibilidade da Turquia (Khalifa, 2017). Em 2011, segundo o IfG-Monocle index , a Turquia passou do 25º lugar para o 23º, mantendo a postura descrita no ano anterior. Destacam-se novamente as mudanças para consolidar a sua democracia, a política externa baseada nos três pilares enumerados acima e as ambições em afirmar-se como potência regional e global, através do uso do soft power . O relatório de 2011 menciona também a Agência de Diplomacia Pública turca, na sequência do crescimento da rede diplomática da Turquia. Criada em 2008, esta agência é um mecanismo que visa melhorar as bases do soft power turco, nomeadamente as instituições públicas e a política externa ( IfG-Monocle index, s/d). De facto, a ajuda externa, assim como a ajuda humanitária e ao desenvolvimento é, por natureza, um componente essencial do soft power turco (Çevik, 2019). Esta representa um esforço para minimizar os efeitos negativos do declínio dos valores políticos, compensando-os com o desenvolvimento de ferramentas culturais e humanitárias. Como analisámos anteriormente, dos mais de mil milhões de 56 dólares em investimentos na TIKA em 2011, o apoio governamental a esta agência foi aumentando ao longo dos anos, atingindo mais de oito mil milhões de dólares em 2020 ( Turkish Development Assistance Report 2018-2021). Por sua vez, também se registou uma evolução no número de escritórios da TIKA (de 25 escritórios em 2011 para 62 em 2020) e no número de países aos quais a ajuda externa turca chegou (em 2011 a ajuda turca foi alargada a mais de 100 países, aumentando para cerca de 170 em 2020). Os projectos e actividades realizadas por esta agência permitem que a Turquia seja percecionada de forma mais positiva, contribuindo, por sua vez, para o aumento do soft power turco (Akıllı e Çelenk, 2019). Assim, podemos inferir que a TIKA foi fortalecida, assumindo um papel mais dinâmico a partir de 2002. Apesar das dificuldades, tanto a nível internacional como a nível doméstico, a Turquia continuou a reunir esforços para contribuir na ajuda a outros Estados, sendo um dos países mais generosos do mundo (Akıllı e Çelenk, 2019). Quando as Primaveras Árabes despoletaram no Médio Oriente em 2011, as perceções dos líderes turcos face a estes acontecimentos foram maioritariamente positivas, uma vez que a Turquia apoiava todas as mudanças com origem popular na região. Contudo, a Primavera Árabe na Síria começou a ter implicações na Turquia, através do surgimento do Estado Islâmico na Síria e no Iraque, e do reaparecimento do PKK, realçando os problemas antigos da política externa turca no Médio Oriente, nomeadamente a questão curda e a orientação sunita da Turquia. Por conseguinte, estes obstáculos motivaram a perda do papel mediador da Turquia na região (Işıksal, 2018). Assim, os desenvolvimentos das Primaveras Árabes fomentaram o fim das políticas de “zero problemas com os vizinhos” (Muter, 2018), constituindo uma adaptação do papel da Turquia face à conjuntura vivida na região. No terceiro mandato do AKP - de 2011 a 2015 - o papel da identidade revelar-se-ia cada vez mais proeminente (Kirdiş, 2016). Em concreto, Erdoğan enfatizaria ao nível da política externa os valores, as tradições, a história e a geografia turca, enquanto modelo para os países muçulmanos (Yanık, 2012). Contudo, esta construção identitária acentuou as polarizações latentes na sociedade turca (Kirdiş, 2016). Neste mandato, e em especial depois dos protestos de Gezi, em 2013, presenciou-se uma crescente debilidade do soft power turco. Efectivamente, o aumento da polarização ideológica no país afectou de forma negativa tanto a estabilidade como a imagem da Turquia desde 2013. Por sua vez, o quarto mandato - de 2015 a 2018 - foi muito conturbado, destacando-se a tentativa de golpe de Estado a 15 de outubro de 2016, o que provocou uma mudança na conceção do papel de Erdoğan e, consequentemente, no desempenho da sua política externa, que se tornaria mais nacionalista com o objectivo de se proteger de ameaças externas. Esta postura traduziu-se, entre outros 57 aspectos, num maior ceticismo com críticas ao Ocidente e na criação de uma narrativa de que este era o inimigo externo da Turquia (Kirdiş, 2016). De acordo com The Portland Soft Power Index 30, a Turquia encontrava-se no 28º lugar em 2015, sendo que em 2016 não conseguiu fazer parte dos 30 países com melhor capacidade de soft power , classificando-se na 32ª posição dada a instabilidade doméstica e internacional. Na prática, a Turquia tornava-se gradualmente num regime autoritário, reprimindo os críticos e afastando os opositores, situação que atraiu a atenção do público internacional (Institute for Security and Development Policy, 2016). Além disso, a 15 de julho de 2016, a tentativa de golpe de Estado com vista a derrubar o governo de Erdogan, falhou, pese embora as suas repercussões continuassem latentes. Erdogan e o seu governo atribuíram a culpa deste golpe a Fethullah Gülen, antigo aliado do presidente, que vive exilado desde 1999 por planear uma tentativa de golpe (Al Jazeera, 2022). A tentativa de golpe de Estado despoletou mudanças profundas a nível político, económico e social no plano doméstico da Turquia e, consequentemente, a nível internacional. Por outras palavras, ela impactou tanto a conceção do papel, como o desempenho do papel da Turquia de Erdoğan. Desde logo, a tentativa de golpe teve como principal consequência a reforma constitucional. Aprovada por referendo com 51% dos votos, ela teve como objectivo reforçar os poderes de Erdoğan, permitindo-lhe desatender o parlamento e limitar direitos e liberdades, assim como a demissão de milhares de juízes e funcionários públicos (Euronews, 2017; Al Jazeera, 2016). Estas restrições às liberdades também incluíram os media, tendo as autoridades encerrado mais de uma centena de meios de comunicação, justificando-as com alegadas ligações terroristas, detido mais de 100 jornalistas e bloqueado o acesso à wikipédia. A onda de demissões não se ficou pelos media, abrangendo também as forças armadas com o encerramento de academias militares, e a demissão de milhares de oficiais do exército. Por outro lado, também se verificou o encerramento de organizações não-governamentais, escolas, universidades e sindicatos (Euronews, 2017). Por conseguinte, o desempenho do papel por parte de Erdoğan teve como principal consequência o aumento das tensões face ao Ocidente, nomeadamente para com os EUA e a UE a respeito, fundamentalmente, dos Direitos Humanos e do Estado de Direito (Al Jazeera, 2016; Tol et al., 2016). Além disso, tanto a mudança constitucional, que concedeu mais poderes a Erdoğan, como as detenções, foram percecionadas pelos Estados democráticos como uma via para o autoritarismo, afectando a imagem da Turquia nestes países (Tol et al., 2016). Em consequência da deterioração dos laços com o Ocidente, Ancara procurou aprofundar as relações com potências não-Ocidentais, como 64 culturais é insuficiente para compensar o declínio da reputação do país provocado por condutas políticas que não são bem recebidas pela comunidade internacional. Por último, em resultado do acima exposto, a nossa conclusão final destaca que o soft power da Turquia de Erdoğan tem sido mais eficaz no plano doméstico do que externo. De facto, nos últimos anos o soft power turco tem-se revestido de um crescente populismo que se caracteriza pela exploração da vertente islâmica em detrimento da tradicional laicidade. Tal conceção do papel é produzida à custa da frustração das expectativas de um Ocidente que vendeu a ilusão de uma identidade europeia ao país, mas que não viria a ser consequente. Por conseguinte, não tendo sido correspondida pela UE, mas também pelos EUA, a Turquia de Erdoğan optou por aprofundar identitariamente a sua vertente asiática - na qual a China e a Rússia importam como polos alternativos aos valores ocidentais - ao mesmo tempo em que a instrumentalização do Islão tem contribuído para a consolidação do líder turco no poder. Como contributos para pesquisas futuras, consideramos oportuno o aprofundamento da diplomacia cultural turca - ao nível da promoção da língua, artes e séries, e do seu impacto no soft power turco - com enfoque na Europa ocidental, região onde estas têm sido alvo de um crescimento ímpar. Também se afigura pertinente um estudo da diplomacia digital turca, mais concretamente do papel das plataformas digitais e redes sociais, para além dos media tradicionais, no desenvolvimento do soft power da Turquia. Como vimos ao longo desta dissertação, os media desempenham um papel fundamental na formação de perceções, influenciando profundamente o soft power turco. Por último, acreditamos que a condução de estudos que avaliem os impactos do turismo estético (como, por exemplo, os implantes capilares) no soft power turco é de grande importância. 65 Bibliografia Fontes Primárias: Al Jazeera. (2022, 15 de julho). 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