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Comunicação e Sociedade, vol. especial, 2025, 243–260 https://doi.org/10.17231/volesp(2025).5431 “O Mesmo Rigor, o Mesmo Pluralismo”: Análise da “Parceria Transatlântica” Entre os Jornais Público e Folha de S. Paulo Thaís Braga Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade, Instituto de Ciências Sociais, Universidade do Minho, Braga, Portugal Resumo Com base na premissa de que, por meio do discurso jornalístico, é possível reconhecer os sentidos socialmente partilhados, bem como as disputas simbólicas de poder, este artigo objetiva identificar e compreender de que maneira o compromisso normativo se manifesta no discurso jornalístico luso-brasileiro. A perspectiva normativa é aqui revista, pois sua tradicional associação à democracia dos Estados Unidos da América não se aplica a todas as sociedades. A partir de um estudo de caso mais amplo, selecionou-se o editorial publicado conjuntamente pelos jornais Público (Portugal) e Folha de S. Paulo (Brasil), em 9 julho de 2020, para a análise do fenômeno. Sob o guarda-chuva teórico-metodológico dos estudos do discurso, aplicou-se a técnica da análise crítica do discurso. Os resultados mostram que o discurso jornalístico luso- -brasileiro atravessa cinco eixos: a informação digital; certa idealização do jornalismo como defensor da democracia; as questões migratórias; a língua portuguesa; e os objetivos europeus. De maneira alargada, Público e Folha de S. Paulo unem-se para ampliar a sua força no campo jornalístico. Entretanto, por mais que se almeje uma irmandade entre Portugal e Brasil, as particularidades político-institucionais de cada país abalam a fantasia criada. O caso também aponta para estratégias que os jornais tradicionalmente impressos têm adotado para reafirmar sua qualidade noticiosa, sobretudo diante dos mídia digitais e da desinformação. Palavras-chave análise crítica do discurso, Brasil, democracia, metajornalismo, Portugal “The Same Rigour, the Same Pluralism”: An Analysis of the “Transatlantic Partnership” Between Público and Folha de S. Paulo Newspapers Abstract This paper is based on the premise that, through journalistic discourse, socially shared meanings and symbolic power disputes can be recognised. It aims to identify and understand how normative commitment manifests within Portuguese-Brazilian journalistic discourse. The normative perspective is examined here, as its traditional association with democracy in the United States does not necessarily apply to all societies. For this analysis, a broader case study was conducted, focusing on the editorial published jointly by Público (Portugal) and Folha de S. Paulo (Brazil) on July 9, 2020. Under the theoretical-methodological framework of discourse studies, critical discourse analysis was applied. The results indicate that Portuguese-Brazilian journalistic discourse spans five key axes: digital information, the idealisation of journalism as an advocate of democracy, migration issues, the Portuguese language, and European objectives. Broadly, Público and Folha de S. Paulo are collaborating to strengthen their position in the journalistic field. However, despite their aspiration for an alliance between Portugal and Brazil, the political and institutional particularities of each country undermine this ideal. The case also highlights
Comunicação e Sociedade, vol. especial, 2025 “O Mesmo Rigor, o Mesmo Pluralismo”: Análise da “Parceria Transatlântica” Entre os Jornais Público e Folha de S. Paulo . Thaís Braga 244 strategies adopted by traditionally printed newspapers to reaffirm their journalistic credibility, particularly in the face of digital media and misinformation. Keywords critical discourse analysis, Brazil, democracy, meta-journalism, Portugal 1. Introdução Numa acepção mais básica, o discurso jornalístico convoca um outro a observar a sociedade por dentro, pois ambos — jornais/jornalistas e audiência — não estão dissociados dela (V. França, 1998). Pelo contrário, a produção noticiosa molda-se a partir de acontecimentos públicos — isto é, a partir de questões que interessam à coletividade — apreendidos por um conjunto complexo de fatores profissionais, organizacionais, tecnológicos, políticos, econômicos e culturais (Belair-Gagnon, 2019; Deuze & Witschge, 2018). As notícias, como construção simbólica, não equivalem a um espelho, mas sim representam dada realidade — por isso, são um lugar de luta permanente (Couldry & Andreas, 2017; Martins, 2017). Esta perspectiva posiciona o jornalismo como uma entidade provisória, pois seu conjunto de práticas institucionalizadas insere-se numa teia de discursos sobrepostos e/ou conflitantes (Carlson, 2016). A aceitabilidade de qualquer representação dependerá de uma compreensão cultural mais ampla de formas expressivas válidas que estão abertas à contestação. Assim, é importante compreender o ambiente discursivo em que o jornalismo se desenvolve — suas condições de produção, os atores envolvidos e os processos interpretativos que impactam diretamente na qualidade da comunicação —, sobretudo em países como Brasil e Portugal, que possuem relações históricas, cujas redes de poder cultural e político não só se mantiveram, como se multiplicaram (T. França & Padilla, 2019; Vargas et al., 2017); porém atualmente são posicionados como semiperiféricos (Borges & Afonso, 2018), ocupando espaços ambíguos no sistema econômico mundial. O primeiro, ex-colônia portuguesa, atua de forma ligeiramente imperialista diante de países sul-americanos e africanos; o segundo, antiga potência imperial, é visto como “colonizador subalterno”, oprimido na política europeia (Scalabrin Müller et al., 2023). Sem a pretensão de generalizar os resultados, o artigo1 objetiva identificar e compreender de que maneira o compromisso normativo se manifesta no discurso jornalístico luso-brasileiro. A partir de um estudo de caso mais amplo, selecionaram-se os jornais Público (Portugal) e Folha de S. Paulo (Brasil) para a análise do fenômeno. Uma vez que ambos têm ofertado a partilha de assinaturas digitais (https://login.folha.com. br/assinatura/jornalpublico), é possível encontrar pistas sobre como são construídos os 1 Este artigo resulta parcialmente da tese Narrativas Jornalísticas Sobre o Dia do Fogo na Amazônia (2019-2020): O Caso da Folha de S. Paulo (Brasil) e do Público (Portugal), desenvolvida no âmbito do doutoramento em Ciências da Comunicação no Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade, da Universidade do Minho. Uma versão preliminar do artigo foi discutida no Grupo de Trabalho Jornalismo e Sociedade do “XIII Congresso da Sopcom”, que decorreu em Braga, entre 24 e 26 de janeiro de 2024.
Comunicação e Sociedade, vol. especial, 2025 “O Mesmo Rigor, o Mesmo Pluralismo”: Análise da “Parceria Transatlântica” Entre os Jornais Público e Folha de S. Paulo . Thaís Braga 245 sentidos sociais acerca de temas semelhantes, bem como quais estratégias estão a ser utilizadas pelos jornais tradicionalmente produtores de edições impressas para reafirmar a sua força no campo jornalístico (Bourdieu, 2005). Esta premissa vai ao encontro do que aponta Franklin (2012): em vez de desaparecer, os jornais tradicionalmente produtores de edições impressas têm se mostrado cada vez mais integrados às mudanças impostas pelo ambiente digital, adaptando-se editorial e financeiramente para acomodar inovações em tecnologias midiáticas e mudanças nos requisitos do mercado. Inicialmente, discutir-se-á a natureza normativa do jornalismo em sua relação com a democracia. Em seguida, serão apresentados os procedimentos metodológicos, com ênfase na técnica da análise crítica do discurso, que será utilizada para o exame do editorial publicado conjuntamente pelos jornais Público e Folha de S. Paulo em 9 de julho de 2020. Com este trabalho, espera-se contribuir para os estudos de jornalismo, principalmente para as análises comparadas luso-brasileiras. A Folha de S. Paulo é um jornal centenário e dispõe de extensa bibliografia sobre a sua trajetória, marcada por diferentes posicionamentos político-editoriais. O Público, por sua vez, com pouco mais de três décadas de funcionamento, surgiu num contexto de liberdade após a Revolução dos Cravos (1974) como resultado de um esforço planejado, na maior parte, por jornalistas até então vinculados ao jornal Expresso. Em concordância com Moisés de Lemos Martins (Carvalho, 2019), compartilhar a língua portuguesa, por si só, pouco significa, se não se desenvolverem projetos e trabalhos comuns. Neste sentido, responde-se aqui ao desafio apontado por Oliveira e Paulino (2017): perceber o que é comum ao jornalismo português e brasileiro a partir da consciência de que as ambiências socioculturais são díspares. 2. (Meta)jornalismo e Democracia: Uma Visada Crítico-Normativa Uma das principais características do jornalismo, quando examinado sob as lentes da comunicação, é a sua consciência normativa (Carlson et al., 2018). A partir da ideia de construção social da realidade, a adesão a um padrão universal de comportamento dá sentido e legitima a prática jornalística, recusando-se a aceitar, de maneira automática, que as notícias cumprem um papel indispensável nas sociedades democráticas. A ênfase na “consciência” trata a norma como um arranjo complexo e recíproco entre o ideal e a prática, apontando para uma reconciliação entre o que foi aceite como dogma e o que é fluido e sujeito à transformação de muitas forças diferentes. Este entendimento permite que os estudos de jornalismo transitem entre o que McNair (1998) chama de “paradigma normativo” (que expressa o ideal ou como as coisas deveriam ser) e “crítico” (cuja abordagem concentra-se em como as coisas são, bem como nas lacunas entre o que é real e o que é ideal). Inicialmente, a perspectiva normativa revela-se como alternativa ao comunismo, no qual a mídia é utilizada como ferramenta para suprimir a democracia. Num segundo momento, é justificada como forma de combater outros inimigos: o terrorismo internacional, algumas vezes vinculado ao fundamentalismo religioso ou outros movimentos “extremistas” ou revolucionários (McQuail, 2010). Ainda numa visada histórica, que
Comunicação e Sociedade, vol. especial, 2025 “O Mesmo Rigor, o Mesmo Pluralismo”: Análise da “Parceria Transatlântica” Entre os Jornais Público e Folha de S. Paulo . Thaís Braga 246 reflete sobre o crescimento do Estado-nação e o espírito do nacionalismo, é recorrente a referência a Carey (2007), para quem as origens do jornalismo são as mesmas das formas republicanas ou democráticas de governança. Ou seja: sem jornalismo, sem democracia. A teoria normativa da comunicação explica como o discurso público deve ser conduzido para que uma comunidade ou nação encontre soluções para seus problemas (Christians et al., 2009). Em outras palavras, tenta explicar como certas formas de discurso público — por exemplo, o discurso jornalístico — levam a boas decisões coletivas. Sua característica mais fundamental reside na relação entre a concepção de democracia em uma sociedade particular e os papéis concretos dos atores no discurso público. Neste sentido, democracia significa soberania popular, a qual se define mediante dois critérios básicos: igualdade e liberdade. Em Hanitzsch (2019), percebe-se que a maioria dos papéis normativos dos jornalistas deriva de uma visão que enfatiza a potencial contribuição do jornalismo para o funcionamento adequado da democracia. Por isso, espera-se que a mídia forneça vigilância e informações sobre acontecimentos potencialmente relevantes e seus contextos; comentários, orientações e conselhos sobre questões complexas; os meios para acesso, expressão e participação política; contribuam para a consciência compartilhada; ajam como críticos e vigilantes para responsabilizar os poderosos. Da mesma forma, Thomas (2019) considera o jornalismo não apenas central para o funcionamento de uma democracia, mas também o vê como um agente de controle e mudança social. Para Martins (2010), enquanto prática discursiva, o jornalismo funda o espaço público alargado, de forma que a experiência coletiva e o discurso tornam-se indissociáveis. O autor defende que o jornalismo tem como razão de ser o exercício da cidadania e a construção da memória pública, apenas se justificando como capacitação para uma prática mais sustentada de participação cívica. Além disso, dispõe de valores que sustentam a ordem democrática: a liberdade, a justiça social, a equidade e o bem público. Traquina (2005) afirma que a democracia não pode ser imaginada como um sistema de governo sem liberdade. Neste sentido, o jornalismo assume o papel de informar o público sem censura, bem como, num quadro de divisão do poder entre os poderes, a responsabilidade de ser o guardião do governo. No seio da teoria normativa, a liberdade no exercício do jornalismo torna-se útil aos cidadãos que buscam se informar o suficiente para desempenhar suas responsabilidades cívicas. Dissociados, por defeito, dos laços políticos, os jornais devem servir aos leitores, apresentando-lhes fatos, e não opiniões. A natureza normativa do jornalismo constitui a base da sua identidade profissional, isto é, distingue os jornalistas de outros profissionais na indústria, bem como define a maneira como se avalia, se critica e se julgam outros jornalistas e diferentes formas de jornalismo (Mesquita, 2023). No entanto, é um entendimento aberto a interpretações e suas regras e normas mudam de acordo com construções ideológicas e contextos culturais. Hanitzsch (2019) aponta que o paradigma normativo do jornalismo se articula dentro das noções ocidentais de democracia, que enfatizam a liberdade e a liberdade individual. Thomas (2019) destaca que suas considerações acerca da utilidade como âncora normativa do jornalismo restringem-se a uma estrutura democrática de governo.
Comunicação e Sociedade, vol. especial, 2025 “O Mesmo Rigor, o Mesmo Pluralismo”: Análise da “Parceria Transatlântica” Entre os Jornais Público e Folha de S. Paulo . Thaís Braga 247 É certo que a relação entre o jornalismo e a democracia resulta nomeadamente dos Estados Unidos da América, entre o final do século XIX e o início do século XX (Hallin & Giles, 2005). Contudo, o jornalismo desenvolveu-se “além do estágio em que um país pode assumir o paradigma certo para todos os outros países” (Josephi, 2013, p. 445). Schudson (2011) não nega a importância do jornalismo para a democracia — pelo contrário, o estatuto do seu trabalho é seminal nas teorias democráticas da profissão —, entretanto defende que o jornalismo, por si só, não representa, tampouco cria a democracia. Para Zelizer (2017), embora historicamente o jornalismo tenha sido necessário para a democracia, o contrário não se aplica, dado que a ideia de democracia como tábua de salvação do jornalismo não foi apoiada na prática. Isso não nega o fato de que ser jornalista em sociedades democráticas pode ser menos perigoso do que ser jornalista em regimes não democráticos. Entretanto, a autora sugere que o jornalismo, de alguma forma, floresceu em lugares onde a democracia não. De acordo com McQuail (2010), o paradigma normativo do jornalismo pressupõe um tipo de “boa sociedade”, que seria democrática, liberal, plural, consensual, ordenada e bem-informada. As desigualdades socioeconômicas não são essencialmente problemáticas ou injustas, uma vez que as tensões e conflitos podem ser resolvidos pelos meios institucionais existentes. Contudo, o autor reconhece que esta visão pressupõe uma sociedade idealizada — o chamado “modo de vida ocidental” —, logo não contempla as contradições vividas pelos países em desenvolvimento ou de Terceiro Mundo. Albuquerque (2005, 2019b) concorda que, nas últimas décadas do século XX, o jornalismo estadunidense estabeleceu-se como um padrão quase universal em relação ao qual o jornalismo de outros países é avaliado. Na maioria dos casos, a influência é avaliada positivamente, pois se associa a valores como profissionalismo, independência e democracia. No modelo empírico proposto por Brüggemann et al. (2014), Portugal faz parte de um sistema mediático ocidental, que inclui Bélgica, Holanda, Irlanda e Estados Unidos. Todavia, a classificação não contempla países como o Brasil. Essas nuances reforçam a necessidade de se refletir sobre o que é o jornalismo — num sentido crítico/descritivo — e o que o jornalismo deveria ser — num sentido normativo. A análise da produção discursiva dos jornais Público e Folha de S. Paulo tem sido utilizada em estudos recentes, no entanto, inova-se aqui ao evocar o exame metajornalístico — isto é, do jornalismo sobre o jornalismo —, de forma a criticar os códigos, as convenções e as circunstâncias da sua construção (Deuze, 2001, 2003). Este tipo de discurso parece ter ganho mais força no ambiente digital, dado que a capacidade e a vontade de refletir publicamente sobre si e de ser abertamente autocrítico são geralmente bem-vistas. O jornalismo torna-se “meta” quando discute o seu trabalho em um produto noticioso, como os editorais e a imprensa especializada. Há ainda formas contemporâneas de clamar pela autoridade jornalística, como os podcasts (Perdomo & Rodrigues-Rouleau, 2022). A autopercepção, especialmente do papel social e do poder relativo, molda as interações do jornalista com outros atores públicos (Moon, 2021) — o que acaba por conduzir à reinterpretação da natureza normativa do jornalismo ao longo do tempo. Da mesma forma, o metajornalismo proporciona a estabilização do campo por meio de experiências e o discurso emerge do processo em que os jornalistas
Comunicação e Sociedade, vol. especial, 2025 “O Mesmo Rigor, o Mesmo Pluralismo”: Análise da “Parceria Transatlântica” Entre os Jornais Público e Folha de S. Paulo . Thaís Braga 248 dão sentido ao mundo e situam o seu papel nele (Perreault, Perreault, & Maares, 2022; Perreault, Tandoc, & Caberlon, 2023). A seguir, a proposta dos jornais Público e Folha de S. Paulo será objeto de análise crítica a partir do editorial publicado em 9 de julho de 2020. Antes, apresenta-se o método de investigação. 3. Procedimentos Metodológicos Parte de uma pesquisa qualitativa mais ampla, este estudo apoia-se na metodologia da análise do discurso, que representa um guarda-chuva, cuja estrutura (suas hastes) abriga diferentes correntes epistemológicas (Guimarães et al., 2020). É certo que o dispositivo de análise tem sofrido constantes alterações, em concordância com a própria natureza da disciplina — que admite o discurso como uma materialidade em contínuo movimento. Por isso, de maneira específica, dialoga-se com os estudos críticos, que admitem o discurso como um evento sociocognitivo complexo, que envolve atores sociais num contexto específico (tempo, lugar, circunstâncias). Busca-se, assim, compreender não apenas o texto, mas a ambiência mais ampla (van Dijk, 2017). A “parceria transatlântica” entre o Público e a Folha de S. Paulo configura-se como um estudo de caso, pois é ilustrativa da produção jornalística e fornece pistas sobre a sociedade luso-brasileira de forma descritiva, em profundidade e não confirmatória (Gerring, 2004). Por meio de uma amostragem não probabilística de casos típicos, selecionou-se o editorial intitulado “Carta aos Leitores do PÚBLICO e da Folha de S. Paulo”. Como técnica complementar de recolha de dados, foram utilizadas entrevistas semiestruturadas em profundidade com o jornalista e professor universitário Joaquim Fidalgo, que participou de forma ativa da criação do Público, e com o atual secretário de redação da Folha de S. Paulo, o jornalista Vinícius Mota. A técnica mostrou-se útil, por envolver poucas pessoas e suscitar a profundidade de informações (Guion et al., 2011). Operacionalizou-se a análise crítica do discurso (ver Tabela 1), admitindo que a maneira como foram construídas as estruturas do discurso jornalístico podem influenciar modelos mentais específicos e representações genéricas da audiência (van Dijk, 1998, 2015). A partir de superestruturas esquemáticas gerais — isto é, excertos estrategicamente posicionados (de acordo com hierarquia, códigos e convenções jornalísticas) no editorial assinado por Manuel Carvalho e Sérgio Dávila, os respectivos diretores do Público e da Folha de S. Paulo na altura —, discutir-se-ão, na seção seguinte, as macroestruturas semânticas, que representam o significado global do discurso. Não se consideraram o quinto, nem o sexto parágrafos do editorial, dado que continham informações repetidas — e o enquadramento foge ao escopo deste trabalho. Assim, identificou-se que o compromisso normativo se manifesta no discurso jornalístico luso-brasileiro a partir de cinco eixos: a informação digital; certa idealização do jornalismo como defensor da democracia; as questões migratórias; a língua portuguesa; e os objetivos europeus.
Comunicação e Sociedade, vol. especial, 2025 “O Mesmo Rigor, o Mesmo Pluralismo”: Análise da “Parceria Transatlântica” Entre os Jornais Público e Folha de S. Paulo . Thaís Braga 249 Superestruturas Macroestruturas Submanchete “Ler sem restrições as edições digitais” Informação digital “É um gesto original – primeira parceria transatlântica” Idealização Primeiro parágrafo “Se há um enorme oceano que nos separa, há também uma língua, uma cultura e um código de valores que nos aproximam” “Compromisso com a democracia, o Estado de direito ou pela nossa devoção aos direitos humanos” Segundo parágrafo “Jornalismo baseado no rigor, na independência, no pluralismo, na rejeição do sensacionalismo e na valorização do sentido de serviço público” Terceiro parágrafo “Enormes comunidades de portugueses que vivem no Brasil ou de brasileiros que habitam em Portugal” Migração Quarto parágrafo “Dimensão universal da língua de Camões ou de Machado de Assis ou da cultura que essa língua comum projecta” Língua portuguesa “Os desafios europeus, os riscos ambientais, as crises da pandemia ou as ameaças à democracia” Objetivos europeus Tabela 1. Superestruturas e macroestruturas da “Carta aos Leitores do PÚBLICO e da Folha de S. Paulo” 4. Resultados e Discussão 4.1. Informação Digital A última década do século XX marcou a transição digital para a Folha de S. Paulo, que deixou de ser apenas um jornal produtor de edições impressas para se tornar um grupo mediático fornecedor de conteúdos em diferentes formatos e plataformas por meio do portal Universo On-Line (UOL), que é uma holding controlada por Luiz Frias, o atual publisher da Folha de S. Paulo (Aguiar, 2016). Por seu turno, desde 1995, o Público disponibiliza o seu conteúdo em um portal da internet. As trajetórias digitais de ambos os periódicos se entrelaçaram em 2014, quando o Público passou a apresentar uma versão brasileira do seu site (https://www.publico.pt) no domínio do UOL. No período mencionado, era possível acessar o sítio https://www.publico.uol.com.br. A aproximação entre os dois refinou-se com a partilha de assinaturas digitais, em vigor desde 2020. A atual iniciativa conjunta dos jornais Público e Folha de S. Paulo reitera o posicionamento de Franklin (2012), de que os periódicos não se resumem à publicação de edições em papel, tampouco estão em vias de desaparecimento. É certo que ambos mantêm suas tiragens impressas, porém igualmente mostram sua força no ambiente digital — com a criação de podcasts e de perfis na mídia social. Os dois jornais estão entre os líderes de audiência nos seus respectivos países no segmento de publicações diárias. Segundo o Índice Verificador de Comunicação, em julho de 2023, Folha de S. Paulo era o jornal mais consumido do Brasil, com 796.088 exemplares pagos. Deste número, mais de 94% (752.019) referia-se à circulação digital. Por sua vez, dados da Associação Portuguesa para o Controlo de Tiragem e Circulação apontam que, no segundo trimestre de 2023, a circulação paga digital do Público foi de 47.227 exemplares, enquanto a circulação impressa foi de 10.256 (pouco mais de 21% da digital).
Comunicação e Sociedade, vol. especial, 2025 “O Mesmo Rigor, o Mesmo Pluralismo”: Análise da “Parceria Transatlântica” Entre os Jornais Público e Folha de S. Paulo . Thaís Braga 250 O’Sullivan et al. (2017) apontam que a materialidade do objeto impresso e as estruturas culturais construídas em torno dele funcionam como uma matriz que facilita a inovação, permitindo que os jornais coexistam com a mídia digital. Em concordância, Mesquita (2023) assinala que a produção de informação por diferentes atores sociais — o que antes da disseminação das tecnologias de informação e comunicação era domínio dos jornalistas e das redações (Deuze & Witschge, 2018) — forçam a mídia tradicional a produzir um jornalismo alinhado aos valores normativos, promovendo a mudança e a transformação social. Isto mostra que o Público e a Folha de S. Paulo estão dispostos a competir pela audiência, sobretudo a digital, demarcando-se a partir de certos princípios. Apesar de limitada pelo acesso à internet, a partilha de assinaturas digitais não constitui uma falha, e sim uma mais-valia para os dois jornais — que são alçados a um patamar internacional ou, pelo menos, luso-brasileiro, justamente num espaço onde a desinformação2 tende a ocorrer de maneira mais frequente. O argumento da internacionalização pode naturalmente ser desafiado, uma vez que, de acordo com o jornalista e professor universitário Joaquim Fidalgo, o cosmopolitismo é uma das características fundamentais do Público, ou seja, o que ocorre no estrangeiro é frequentemente destacado nas manchetes, independentemente do segmento (economia, política, sociedade, cultura, desporto, etc.) desde a sua criação, em 1990. Da mesma forma, a Folha de S. Paulo apoia-se nas agências de notícias e em alguns correspondentes para perceber os principais acontecimentos do mundo. O mais provável é que, para o periódico português, o acesso ao conteúdo da Folha de S. Paulo seja importante não apenas para a audiência, mas também para os próprios jornalistas — que têm no jornal brasileiro um canal de fontes de informação. Isto é relevante para cobrir temas mais amplos a Portugal e Brasil — como as questões ambientais —, sobretudo quando há limitações de recursos humanos e financeiros. Para o periódico brasileiro, a partilha de assinaturas digitais destaca-se pelo caráter simbólico, no sentido de demarcar-se dos seus concorrentes nacionais. Quando surgiu, em 1921, a Folha de S. Paulo procurava dialogar com leitores da classe média urbana, a exemplo de funcionários públicos, de pequenos comerciantes e de uma parcela da classe operária; da mesma forma, seguia um viés urbanístico em oposição aos demais periódicos, como o Estadão, que tratavam predominantemente dos interesses da oligarquia agrária (Souza, 2019). Ainda hoje permanece como característica do sistema midiático brasileiro a concentração da propriedade por grupos familiares — no caso, a Folha de S. Paulo pertence à segunda geração da família Frias (Azevedo, 2006). A parceria com o Público aproxima-a do jornalismo normativo e de práticas mais comprometidas socialmente. Mesquita (2023) argumenta que, mesmo em contextos menos democráticos ou em democracias em desenvolvimento — como o Brasil —, o papel e a função cívica do jornalismo, os seus compromissos éticos com a democracia, a pluralidade e o acesso à 2 A expressão “fake news”, popularizada pela eleição presidencial nos Estados Unidos da América, em 2016, possui ampla acepção, podendo significar desde notícias fabricadas que circulam pelos mídia sociais até ao descrédito genérico dos meios de comunicação social (Quandt et al., 2019). Neste estudo, em concordância com L. Wu et al. (2019), opta-se por referir à “desinformação” (misinformation) de forma extensiva a fim de incluir todas as informações falsas ou imprecisas divulgadas pelos mídia sociais, independente de terem sido deliberadamente criadas ou não.
Comunicação e Sociedade, vol. especial, 2025 “O Mesmo Rigor, o Mesmo Pluralismo”: Análise da “Parceria Transatlântica” Entre os Jornais Público e Folha de S. Paulo . Thaís Braga 251 informação, e a sua adesão a papéis e normas profissionais são generalizados. Assim, a iniciativa luso-brasileira parece dar à Folha de S. Paulo a chance não de escapar da disputa interna, mas sim de se fortalecer nela, pois passa a olhar as questões nacionais e internacionais sob o ponto de vista europeu. 4.2. Idealização A referência à originalidade da partilha de assinaturas digitais reafirma o compromisso normativo do Público e da Folha de S. Paulo. Diante da proliferação de fontes on- -line de conteúdo, muitas de confiabilidade e veracidade desconhecidas, a autorreflexão e a transparência no processo de produção jornalística revelam-se diferenciais no mercado da informação (McNair, 2017). Porém, igualmente se percebe uma apresentação romantizada como defensores da democracia. Em concordância com o posicionamento de que não necessariamente jornalismo e democracia são equivalentes (Hanitzsch, 2019; McQuail, 2010; Schudson, 2011; Thomas, 2019; Zelizer, 2017), a crítica de Nerone (2013) é aqui adequada: a evocação ao caráter normativo do jornalismo beira a fantasia, já que as normas idealizam o que agentes perfeitos fazem em situações perfeitas. Nesta matéria, Eldridge (2017) explica que, ao falar de si por meio de retratos típicos ideais e de valores enaltecidos (quase como sinônimos de “heróis” e de representantes do “bem”), os jornalistas oferecem o que têm de melhor ao público: a sua “visão dominante”. Convém lembrar que a Folha de S. Paulo teve diferentes proprietários ao longo do seu centenário. Nas primeiras décadas após sua fundação, em 1921, permaneceu sem grande importância, tampouco comprometida com a democracia, chegando a apoiar o golpe militar de 1964 e adotando uma atitude aquiescente e discreta até quase o fim do período ditatorial (Albuquerque, 2019a). Isto porque, em termos ideológicos, o jornal brasileiro refletia a concordância entre o empresariado e o Governo militar em combater as ideias comunistas (Dias, 2012). Essa postura mudou entre 1983–1984, quando o periódico se envolveu na campanha Diretas Já — um movimento popular em favor do restabelecimento das eleições diretas para a Presidência. Entretanto, essa transformação ocorreu por razões mercadológicas, pois os donos da Folha de S. Paulo da altura, Octavio Frias de Oliveira e Carlos Caldeira Filho, perceberam que o jornal só poderia prosperar num regime democrático. Assim, reestruturou-se como um jornal de resistência no período de redemocratização. Quando a Folha de S. Paulo se une ao Público e declara publicamente o seu compromisso com a democracia, é preciso atenção para o fato de que, talvez, seu compromisso principal seja consigo própria. Isto porque, apesar de se mostrar apartidária, independente e pluralista, o jornal brasileiro adota posicionamentos próprios na cobertura de determinadas questões (Paixão Marcos, 2018) — especialmente em temas internos. Em relação ao ex-Presidente Jair Bolsonaro (2019–2021), claramente foi opositora, sobretudo na cobertura da pandemia de COVID-19, quando, juntamente com outros veículos de comunicação social (portal g1 e UOL, além dos jornais O Globo, Extra, Estadão), consolidou o número de casos e de mortes em decorrência da doença, após o Governo
Comunicação e Sociedade, vol. especial, 2025 “O Mesmo Rigor, o Mesmo Pluralismo”: Análise da “Parceria Transatlântica” Entre os Jornais Público e Folha de S. Paulo . Thaís Braga 258 França, T., & Padilla, B. (2019). Imigração brasileira para Portugal: Entre o surgimento e a construção midiática de uma nova vaga. Cadernos de Estudos Sociais, 33(2), 207–237. https://doi.org/10.33148/ CES2595-4091v.33n.220181773 França, V. R. V. (1998). Jornalismo e a vida social: A história amena de um jornal mineiro. Editora UFMG. Franklin, B. (2012). The future of journalism: Developments and debates. Journalism Studies, 13(5–6), 663– 681. https://doi.org/10.1080/1461670X.2012.712301 Freedman, E. (2020). In the crosshairs: The perils of environmental journalism. Journal of Human Rights, 19(3), 275–290. https://doi.org/10.1080/14754835.2020.1746180 Gerring, J. (2004). What is a case study and what is it good for? American Political Science Review, 98(2), 341–354. https://doi.org/10.1017/S0003055404001182 Guimarães, G. T. D., Paula, M. C., & Hirai, W. G. (2020). Discourse analysis applied to qualitative research: Methodological perspective in debate. New Trends in Qualitative Research, 4, 40–54. https://doi. org/10.36367/ntqr.4.2020.40-54 Guion, L. A., Diehl, D. C., & McDonald, D. (2011). Conducting an in-depth interview. University of Florida. Hallin, D. C., & Giles, R. (2005). Presses and democracies. In G. Overholser & K. H. Jamieson (Eds.), Institutions of American democracy: The press (pp. 4–16). Oxford University Press. Hanitzsch, T. (2019). Journalistic roles. In T. P. Vos & F. Hanusch (Eds.), The international encyclopedia of journalism studies (pp. 1–9). John Wiley & Sons. https://doi.org/10.1002/9781118841570.iejs0029 Josephi, B. (2013). De-coupling journalism and democracy: Or how much democracy does journalism need? Journalism, 14(4), 441–445. https://doi.org/10.1177/1464884913489000 Martins, M. de L. (2010). Jornalismo e sonho de comunidade. In M. Oliveira (Ed.), Metajornalismo - Quando o jornalismo é sujeito do próprio discurso (pp. 9–13). Grácio Editor. http://hdl.handle.net/1822/30049 Martins, M. de L. (2017). A linguagem, a verdade e o poder: Ensaio de semiótica social. Edições Húmus. McNair, B. (1998). The sociology of journalism. Arnold. McNair, B. (2017). After objectivity? Schudson’s sociology of journalism in the era of post-factuality. Journalism Studies, 18(10), 1318–1333. https://doi.org/10.1080/1461670X.2017.1347893 McQuail, D. (2010). McQuail’s mass communication theory. SAGE. Mesquita, L. (2023). Collaborative journalism and normative journalism: Lessons from Latin American journalism. Anàlisi, 68, 27–44. https://doi.org/10.5565/rev/analisi.3541 Miranda, J., Fidalgo, J., & Martins, P. (2021). Jornalistas em tempo de pandemia: Novas rotinas profissionais, novos desafios éticos. Comunicação e Sociedade, 39, 287–307. https://doi.org/10.17231/ comsoc.39(2021).3176 Moon, R. (2021). When journalists see themselves as villains: The power of negative discourse. Journalism & Mass Communication Quarterly, 98(3), 790–807. https://doi.org/10.1177/1077699020985465 Nerone, J. (2013). The historical roots of the normative model of journalism. Journalism, 14(4), 446–458. https://doi.org/10.1177/1464884912464177 Nicoletti, J., & Flores, A. M. M. (2022). Violência contra jornalistas no canal de Jair Bolsonaro no Youtube. Brazilian Journalism Research, 18(1), 4–35. https://doi.org/10.25200/BJR.v18n1.2022.1438
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