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“O mesmo rigor, o mesmo pluralismo”: Análise da “parceria transatlântica” entre os Jornais Público e Folha de S. Paulo

Author: Braga, Thais
Publisher: Universidade do Minho. Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS)
Year: 2025
DOI: 10.17231/volesp(2025).5431
Source: https://repositorium.uminho.pt/bitstreams/1b0487ea-c646-47b0-81b5-8ae67c48fd33/download
Comunicação e Sociedade, ol. especial, 2025, 243–260
h ps://doi.o g/10.17231/ olesp(2025).5431
“O Mesmo Rigo , o Mesmo Plu alismo”:
Análise da “Pa ce ia T ansa lân ica” En e
os Jo nais Público e Folha de S. Paulo
Thaís B aga
Cen o de Es udos de Comunicação e Sociedade, Ins i u o de Ciências Sociais, Uni e sidade do Minho, B aga, Po ugal
Resumo
Com base na p emissa de que, po meio do discu so jo nalís ico, é possí el econhece
os sen idos socialmen e pa ilhados, bem como as dispu as simbólicas de pode , es e a igo
obje i a iden i ica e comp eende de que manei a o comp omisso no ma i o se mani es a no
discu so jo nalís ico luso-b asilei o. A pe spec i a no ma i a é aqui e is a, pois sua adicional
associação à democ acia dos Es ados Unidos da Amé ica não se aplica a odas as sociedades.
A pa i de um es udo de caso mais amplo, selecionou-se o edi o ial publicado conjun amen e
pelos jo nais Público (Po ugal) e Folha de S. Paulo (B asil), em 9 julho de 2020, pa a a análise
do enômeno. Sob o gua da-chu a eó ico-me odológico dos es udos do discu so, aplicou-se a
écnica da análise c í ica do discu so. Os esul ados mos am que o discu so jo nalís ico luso-
-b asilei o a a essa cinco eixos: a in o mação digi al; ce a idealização do jo nalismo como de-
enso da democ acia; as ques ões mig a ó ias; a língua po uguesa; e os obje i os eu opeus. De
manei a ala gada, Público e Folha de S. Paulo unem-se pa a amplia a sua o ça no campo jo na-
lís ico. En e an o, po mais que se almeje uma i mandade en e Po ugal e B asil, as pa icula i-
dades polí ico-ins i ucionais de cada país abalam a an asia c iada. O caso ambém apon a pa a
es a égias que os jo nais adicionalmen e imp essos êm ado ado pa a ea i ma sua qualidade
no iciosa, sob e udo dian e dos mídia digi ais e da desin o mação.
Pala as-cha e
análise c í ica do discu so, B asil, democ acia, me ajo nalismo, Po ugal
“The Same Rigou , he Same Plu alism”: An Analysis
o he “T ansa lan ic Pa ne ship” Be ween
Público and Folha de S. Paulo Newspape s
Abs ac
This pape is based on he p emise ha , h ough jou nalis ic discou se, socially sha ed
meanings and symbolic powe dispu es can be ecognised. I aims o iden i y and unde s and
how no ma i e commi men mani es s wi hin Po uguese-B azilian jou nalis ic discou se. The
no ma i e pe spec i e is examined he e, as i s adi ional associa ion wi h democ acy in he
Uni ed S a es does no necessa ily apply o all socie ies. Fo his analysis, a b oade case s udy
was conduc ed, ocusing on he edi o ial published join ly by Público (Po ugal) and Folha de S.
Paulo (B azil) on July 9, 2020. Unde he heo e ical-me hodological amewo k o discou se
s udies, c i ical discou se analysis was applied. The esul s indica e ha Po uguese-B azilian
jou nalis ic discou se spans i e key axes: digi al in o ma ion, he idealisa ion o jou nalism as
an ad oca e o democ acy, mig a ion issues, he Po uguese language, and Eu opean objec i es.
B oadly, Público and Folha de S. Paulo a e collabo a ing o s eng hen hei posi ion in he jou nal-
is ic ield. Howe e , despi e hei aspi a ion o an alliance be ween Po ugal and B azil, he poli i-
cal and ins i u ional pa icula i ies o each coun y unde mine his ideal. The case also highligh s
Comunicação e Sociedade, ol. especial, 2025
“O Mesmo Rigo , o Mesmo Plu alismo”: Análise da “Pa ce ia T ansa lân ica” En e os Jo nais Público e Folha de S. Paulo . Thaís B aga
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s a egies adop ed by adi ionally p in ed newspape s o ea i m hei jou nalis ic c edibili y,
pa icula ly in he ace o digi al media and misin o ma ion.
Keywo ds
c i ical discou se analysis, B azil, democ acy, me a-jou nalism, Po ugal
1. In odução
Numa acepção mais básica, o discu so jo nalís ico con oca um ou o a obse a a
sociedade po den o, pois ambos — jo nais/jo nalis as e audiência — não es ão disso-
ciados dela (V. F ança, 1998). Pelo con á io, a p odução no iciosa molda-se a pa i de
acon ecimen os públicos — is o é, a pa i de ques ões que in e essam à cole i idade —
ap eendidos po um conjun o complexo de a o es p o issionais, o ganizacionais, ec-
nológicos, polí icos, econômicos e cul u ais (Belai -Gagnon, 2019; Deuze & Wi schge,
2018). As no ícias, como cons ução simbólica, não equi alem a um espelho, mas sim
ep esen am dada ealidade — po isso, são um luga de lu a pe manen e (Could y &
And eas, 2017; Ma ins, 2017). Es a pe spec i a posiciona o jo nalismo como uma en-
idade p o isó ia, pois seu conjun o de p á icas ins i ucionalizadas inse e-se numa eia
de discu sos sob epos os e/ou con li an es (Ca lson, 2016). A acei abilidade de qualque
ep esen ação depende á de uma comp eensão cul u al mais ampla de o mas exp essi-
as álidas que es ão abe as à con es ação.
Assim, é impo an e comp eende o ambien e discu si o em que o jo nalismo se
desen ol e — suas condições de p odução, os a o es en ol idos e os p ocessos in e -
p e a i os que impac am di e amen e na qualidade da comunicação —, sob e udo em
países como B asil e Po ugal, que possuem elações his ó icas, cujas edes de pode
cul u al e polí ico não só se man i e am, como se mul iplica am (T. F ança & Padilla,
2019; Va gas e al., 2017); po ém a ualmen e são posicionados como semipe i é icos
(Bo ges & A onso, 2018), ocupando espaços ambíguos no sis ema econômico mundial.
O p imei o, ex-colônia po uguesa, a ua de o ma ligei amen e impe ialis a dian e de
países sul-ame icanos e a icanos; o segundo, an iga po ência impe ial, é is o como
“colonizado subal e no”, op imido na polí ica eu opeia (Scalab in Mülle e al., 2023).
Sem a p e ensão de gene aliza os esul ados, o a igo1 obje i a iden i ica e com-
p eende de que manei a o comp omisso no ma i o se mani es a no discu so jo na-
lís ico luso-b asilei o. A pa i de um es udo de caso mais amplo, seleciona am-se os
jo nais Público (Po ugal) e Folha de S. Paulo (B asil) pa a a análise do enômeno. Uma
ez que ambos êm o e ado a pa ilha de assina u as digi ais (h ps://login. olha.com.
b /assina u a/jo nalpublico), é possí el encon a pis as sob e como são cons uídos os
1 Es e a igo esul a pa cialmen e da ese Na a i as Jo nalís icas Sob e o Dia do Fogo na Amazônia (2019-2020): O Caso da
Folha de S. Paulo (B asil) e do Público (Po ugal), desen ol ida no âmbi o do dou o amen o em Ciências da Comunicação
no Cen o de Es udos de Comunicação e Sociedade, da Uni e sidade do Minho. Uma e são p elimina do a igo oi dis-
cu ida no G upo de T abalho Jo nalismo e Sociedade do “XIII Cong esso da Sopcom”, que deco eu em B aga, en e 24 e
26 de janei o de 2024.
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sen idos sociais ace ca de emas semelhan es, bem como quais es a égias es ão a se
u ilizadas pelos jo nais adicionalmen e p odu o es de edições imp essas pa a ea i ma
a sua o ça no campo jo nalís ico (Bou dieu, 2005). Es a p emissa ai ao encon o do que
apon a F anklin (2012): em ez de desapa ece , os jo nais adicionalmen e p odu o es
de edições imp essas êm se mos ado cada ez mais in eg ados às mudanças impos as
pelo ambien e digi al, adap ando-se edi o ial e inancei amen e pa a acomoda ino ações
em ecnologias midiá icas e mudanças nos equisi os do me cado.
Inicialmen e, discu i -se-á a na u eza no ma i a do jo nalismo em sua elação com
a democ acia. Em seguida, se ão ap esen ados os p ocedimen os me odológicos, com
ên ase na écnica da análise c í ica do discu so, que se á u ilizada pa a o exame do edi-
o ial publicado conjun amen e pelos jo nais Público e Folha de S. Paulo em 9 de julho
de 2020. Com es e abalho, espe a-se con ibui pa a os es udos de jo nalismo, p inci-
palmen e pa a as análises compa adas luso-b asilei as. A Folha de S. Paulo é um jo nal
cen ená io e dispõe de ex ensa bibliog a ia sob e a sua aje ó ia, ma cada po di e en es
posicionamen os polí ico-edi o iais. O Público, po sua ez, com pouco mais de ês dé-
cadas de uncionamen o, su giu num con ex o de libe dade após a Re olução dos C a os
(1974) como esul ado de um es o ço planejado, na maio pa e, po jo nalis as a é en ão
inculados ao jo nal Exp esso. Em conco dância com Moisés de Lemos Ma ins (Ca alho,
2019), compa ilha a língua po uguesa, po si só, pouco signi ica, se não se desen ol e-
em p oje os e abalhos comuns. Nes e sen ido, esponde-se aqui ao desa io apon ado
po Oli ei a e Paulino (2017): pe cebe o que é comum ao jo nalismo po uguês e b asi-
lei o a pa i da consciência de que as ambiências sociocul u ais são díspa es.
2. (Me a)jo nalismo e Democ acia: Uma Visada C í ico-No ma i a
Uma das p incipais ca ac e ís icas do jo nalismo, quando examinado sob as len es
da comunicação, é a sua consciência no ma i a (Ca lson e al., 2018). A pa i da ideia de
cons ução social da ealidade, a adesão a um pad ão uni e sal de compo amen o dá
sen ido e legi ima a p á ica jo nalís ica, ecusando-se a acei a , de manei a au omá ica,
que as no ícias cump em um papel indispensá el nas sociedades democ á icas. A ên ase
na “consciência” a a a no ma como um a anjo complexo e ecíp oco en e o ideal e a
p á ica, apon ando pa a uma econciliação en e o que oi acei e como dogma e o que é
luido e sujei o à ans o mação de mui as o ças di e en es. Es e en endimen o pe mi e
que os es udos de jo nalismo ansi em en e o que McNai (1998) chama de “pa adigma
no ma i o” (que exp essa o ideal ou como as coisas de e iam se ) e “c í ico” (cuja abo -
dagem concen a-se em como as coisas são, bem como nas lacunas en e o que é eal e
o que é ideal).
Inicialmen e, a pe spec i a no ma i a e ela-se como al e na i a ao comunismo,
no qual a mídia é u ilizada como e amen a pa a sup imi a democ acia. Num segundo
momen o, é jus i icada como o ma de comba e ou os inimigos: o e o ismo in e -
nacional, algumas ezes inculado ao undamen alismo eligioso ou ou os mo imen-
os “ex emis as” ou e olucioná ios (McQuail, 2010). Ainda numa isada his ó ica, que
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e le e sob e o c escimen o do Es ado-nação e o espí i o do nacionalismo, é eco en e a
e e ência a Ca ey (2007), pa a quem as o igens do jo nalismo são as mesmas das o mas
epublicanas ou democ á icas de go e nança. Ou seja: sem jo nalismo, sem democ acia.
A eo ia no ma i a da comunicação explica como o discu so público de e se con-
duzido pa a que uma comunidade ou nação encon e soluções pa a seus p oblemas
(Ch is ians e al., 2009). Em ou as pala as, en a explica como ce as o mas de dis-
cu so público — po exemplo, o discu so jo nalís ico — le am a boas decisões cole i as.
Sua ca ac e ís ica mais undamen al eside na elação en e a concepção de democ acia
em uma sociedade pa icula e os papéis conc e os dos a o es no discu so público. Nes e
sen ido, democ acia signi ica sobe ania popula , a qual se de ine median e dois c i é ios
básicos: igualdade e libe dade.
Em Hani zsch (2019), pe cebe-se que a maio ia dos papéis no ma i os dos jo -
nalis as de i a de uma isão que en a iza a po encial con ibuição do jo nalismo pa a o
uncionamen o adequado da democ acia. Po isso, espe a-se que a mídia o neça igi-
lância e in o mações sob e acon ecimen os po encialmen e ele an es e seus con ex os;
comen á ios, o ien ações e conselhos sob e ques ões complexas; os meios pa a acesso,
exp essão e pa icipação polí ica; con ibuam pa a a consciência compa ilhada; ajam
como c í icos e igilan es pa a esponsabiliza os pode osos. Da mesma o ma, Thomas
(2019) conside a o jo nalismo não apenas cen al pa a o uncionamen o de uma demo-
c acia, mas ambém o ê como um agen e de con ole e mudança social.
Pa a Ma ins (2010), enquan o p á ica discu si a, o jo nalismo unda o espaço pú-
blico ala gado, de o ma que a expe iência cole i a e o discu so o nam-se indissociá eis.
O au o de ende que o jo nalismo em como azão de se o exe cício da cidadania e a
cons ução da memó ia pública, apenas se jus i icando como capaci ação pa a uma p á-
ica mais sus en ada de pa icipação cí ica. Além disso, dispõe de alo es que sus en am
a o dem democ á ica: a libe dade, a jus iça social, a equidade e o bem público.
T aquina (2005) a i ma que a democ acia não pode se imaginada como um sis e-
ma de go e no sem libe dade. Nes e sen ido, o jo nalismo assume o papel de in o ma
o público sem censu a, bem como, num quad o de di isão do pode en e os pode es, a
esponsabilidade de se o gua dião do go e no. No seio da eo ia no ma i a, a libe dade
no exe cício do jo nalismo o na-se ú il aos cidadãos que buscam se in o ma o su icien e
pa a desempenha suas esponsabilidades cí icas. Dissociados, po de ei o, dos laços
polí icos, os jo nais de em se i aos lei o es, ap esen ando-lhes a os, e não opiniões.
A na u eza no ma i a do jo nalismo cons i ui a base da sua iden idade p o issional,
is o é, dis ingue os jo nalis as de ou os p o issionais na indús ia, bem como de ine a
manei a como se a alia, se c i ica e se julgam ou os jo nalis as e di e en es o mas de
jo nalismo (Mesqui a, 2023). No en an o, é um en endimen o abe o a in e p e ações e
suas eg as e no mas mudam de aco do com cons uções ideológicas e con ex os cul-
u ais. Hani zsch (2019) apon a que o pa adigma no ma i o do jo nalismo se a icula
den o das noções ociden ais de democ acia, que en a izam a libe dade e a libe dade
indi idual. Thomas (2019) des aca que suas conside ações ace ca da u ilidade como ân-
co a no ma i a do jo nalismo es ingem-se a uma es u u a democ á ica de go e no.
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É ce o que a elação en e o jo nalismo e a democ acia esul a nomeadamen e dos
Es ados Unidos da Amé ica, en e o inal do século XIX e o início do século XX (Hallin &
Giles, 2005). Con udo, o jo nalismo desen ol eu-se “além do es ágio em que um país
pode assumi o pa adigma ce o pa a odos os ou os países” (Josephi, 2013, p. 445).
Schudson (2011) não nega a impo ância do jo nalismo pa a a democ acia — pelo
con á io, o es a u o do seu abalho é seminal nas eo ias democ á icas da p o issão —,
en e an o de ende que o jo nalismo, po si só, não ep esen a, ampouco c ia a demo-
c acia. Pa a Zelize (2017), embo a his o icamen e o jo nalismo enha sido necessá io
pa a a democ acia, o con á io não se aplica, dado que a ideia de democ acia como á-
bua de sal ação do jo nalismo não oi apoiada na p á ica. Isso não nega o a o de que se
jo nalis a em sociedades democ á icas pode se menos pe igoso do que se jo nalis a
em egimes não democ á icos. En e an o, a au o a suge e que o jo nalismo, de alguma
o ma, lo esceu em luga es onde a democ acia não.
De aco do com McQuail (2010), o pa adigma no ma i o do jo nalismo p essupõe
um ipo de “boa sociedade”, que se ia democ á ica, libe al, plu al, consensual, o denada
e bem-in o mada. As desigualdades socioeconômicas não são essencialmen e p oblemá-
icas ou injus as, uma ez que as ensões e con li os podem se esol idos pelos meios
ins i ucionais exis en es. Con udo, o au o econhece que es a isão p essupõe uma
sociedade idealizada — o chamado “modo de ida ociden al” —, logo não con empla as
con adições i idas pelos países em desen ol imen o ou de Te cei o Mundo.
Albuque que (2005, 2019b) conco da que, nas úl imas décadas do século XX, o
jo nalismo es adunidense es abeleceu-se como um pad ão quase uni e sal em elação
ao qual o jo nalismo de ou os países é a aliado. Na maio ia dos casos, a in luência é
a aliada posi i amen e, pois se associa a alo es como p o issionalismo, independência
e democ acia. No modelo empí ico p opos o po B üggemann e al. (2014), Po ugal az
pa e de um sis ema mediá ico ociden al, que inclui Bélgica, Holanda, I landa e Es ados
Unidos. Toda ia, a classi icação não con empla países como o B asil.
Essas nuances e o çam a necessidade de se e le i sob e o que é o jo nalismo
— num sen ido c í ico/desc i i o — e o que o jo nalismo de e ia se — num sen ido
no ma i o. A análise da p odução discu si a dos jo nais Público e Folha de S. Paulo em
sido u ilizada em es udos ecen es, no en an o, ino a-se aqui ao e oca o exame me a-
jo nalís ico — is o é, do jo nalismo sob e o jo nalismo —, de o ma a c i ica os códigos,
as con enções e as ci cuns âncias da sua cons ução (Deuze, 2001, 2003). Es e ipo
de discu so pa ece e ganho mais o ça no ambien e digi al, dado que a capacidade
e a on ade de e le i publicamen e sob e si e de se abe amen e au oc í ico são ge-
almen e bem- is as. O jo nalismo o na-se “me a” quando discu e o seu abalho em
um p odu o no icioso, como os edi o ais e a imp ensa especializada. Há ainda o mas
con empo âneas de clama pela au o idade jo nalís ica, como os podcas s (Pe domo &
Rod igues-Rouleau, 2022). A au ope cepção, especialmen e do papel social e do pode
ela i o, molda as in e ações do jo nalis a com ou os a o es públicos (Moon, 2021)
— o que acaba po conduzi à ein e p e ação da na u eza no ma i a do jo nalismo ao
longo do empo. Da mesma o ma, o me ajo nalismo p opo ciona a es abilização do
campo po meio de expe iências e o discu so eme ge do p ocesso em que os jo nalis as

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dão sen ido ao mundo e si uam o seu papel nele (Pe eaul , Pe eaul , & Maa es, 2022;
Pe eaul , Tandoc, & Cabe lon, 2023).
A segui , a p opos a dos jo nais Público e Folha de S. Paulo se á obje o de análise
c í ica a pa i do edi o ial publicado em 9 de julho de 2020. An es, ap esen a-se o mé-
odo de in es igação.
3. P ocedimen os Me odológicos
Pa e de uma pesquisa quali a i a mais ampla, es e es udo apoia-se na me odolo-
gia da análise do discu so, que ep esen a um gua da-chu a, cuja es u u a (suas has-
es) ab iga di e en es co en es epis emológicas (Guima ães e al., 2020). É ce o que o
disposi i o de análise em so ido cons an es al e ações, em conco dância com a p óp ia
na u eza da disciplina — que admi e o discu so como uma ma e ialidade em con ínuo
mo imen o. Po isso, de manei a especí ica, dialoga-se com os es udos c í icos, que ad-
mi em o discu so como um e en o sociocogni i o complexo, que en ol e a o es sociais
num con ex o especí ico ( empo, luga , ci cuns âncias). Busca-se, assim, comp eende
não apenas o ex o, mas a ambiência mais ampla ( an Dijk, 2017).
A “pa ce ia ansa lân ica” en e o Público e a Folha de S. Paulo con igu a-se como
um es udo de caso, pois é ilus a i a da p odução jo nalís ica e o nece pis as sob e
a sociedade luso-b asilei a de o ma desc i i a, em p o undidade e não con i ma ó ia
(Ge ing, 2004). Po meio de uma amos agem não p obabilís ica de casos ípicos, sele-
cionou-se o edi o ial in i ulado “Ca a aos Lei o es do PÚBLICO e da Folha de S. Paulo”.
Como écnica complemen a de ecolha de dados, o am u ilizadas en e is as semies-
u u adas em p o undidade com o jo nalis a e p o esso uni e si á io Joaquim Fidalgo,
que pa icipou de o ma a i a da c iação do Público, e com o a ual sec e á io de edação
da Folha de S. Paulo, o jo nalis a Vinícius Mo a. A écnica mos ou-se ú il, po en ol e
poucas pessoas e susci a a p o undidade de in o mações (Guion e al., 2011).
Ope acionalizou-se a análise c í ica do discu so ( e Tabela 1), admi indo que a
manei a como o am cons uídas as es u u as do discu so jo nalís ico podem in luen-
cia modelos men ais especí icos e ep esen ações gené icas da audiência ( an Dijk,
1998, 2015). A pa i de supe es u u as esquemá icas ge ais — is o é, exce os es a e-
gicamen e posicionados (de aco do com hie a quia, códigos e con enções jo nalís icas)
no edi o ial assinado po Manuel Ca alho e Sé gio Dá ila, os espec i os di e o es do
Público e da Folha de S. Paulo na al u a —, discu i -se-ão, na seção seguin e, as mac oes-
u u as semân icas, que ep esen am o signi icado global do discu so. Não se conside-
a am o quin o, nem o sex o pa ág a os do edi o ial, dado que con inham in o mações
epe idas — e o enquad amen o oge ao escopo des e abalho. Assim, iden i icou-se que
o comp omisso no ma i o se mani es a no discu so jo nalís ico luso-b asilei o a pa i
de cinco eixos: a in o mação digi al; ce a idealização do jo nalismo como de enso da
democ acia; as ques ões mig a ó ias; a língua po uguesa; e os obje i os eu opeus.
Comunicação e Sociedade, ol. especial, 2025
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Supe es u u as Mac oes u u as
Submanche e “Le sem es ições as edições digi ais” In o mação digi al
“É um ges o o iginal – p imei a pa ce ia ansa lân ica”
Idealização
P imei o pa ág a o “Se há um eno me oceano que nos sepa a, há ambém uma língua,
uma cul u a e um código de alo es que nos ap oximam”
“Comp omisso com a democ acia, o Es ado de di ei o
ou pela nossa de oção aos di ei os humanos”
Segundo pa ág a o “Jo nalismo baseado no igo , na independência, no plu alismo, na ejeição
do sensacionalismo e na alo ização do sen ido de se iço público”
Te cei o pa ág a o “Eno mes comunidades de po ugueses que i em no
B asil ou de b asilei os que habi am em Po ugal”
Mig ação
Qua o pa ág a o “Dimensão uni e sal da língua de Camões ou de Machado de
Assis ou da cul u a que essa língua comum p ojec a”
Língua po uguesa
“Os desa ios eu opeus, os iscos ambien ais, as c ises
da pandemia ou as ameaças à democ acia”
Obje i os eu opeus
Tabela 1. Supe es u u as e mac oes u u as da “Ca a aos Lei o es do PÚBLICO e da Folha de S. Paulo”
4. Resul ados e Discussão
4.1. In o mação Digi al
A úl ima década do século XX ma cou a ansição digi al pa a a Folha de S. Paulo,
que deixou de se apenas um jo nal p odu o de edições imp essas pa a se o na um
g upo mediá ico o necedo de con eúdos em di e en es o ma os e pla a o mas po
meio do po al Uni e so On-Line (UOL), que é uma holding con olada po Luiz F ias, o
a ual publishe da Folha de S. Paulo (Aguia , 2016). Po seu u no, desde 1995, o Público
disponibiliza o seu con eúdo em um po al da in e ne . As aje ó ias digi ais de ambos
os pe iódicos se en elaça am em 2014, quando o Público passou a ap esen a uma
e são b asilei a do seu si e (h ps://www.publico.p ) no domínio do UOL. No pe íodo
mencionado, e a possí el acessa o sí io h ps://www.publico.uol.com.b . A ap oxima-
ção en e os dois e inou-se com a pa ilha de assina u as digi ais, em igo desde 2020.
A a ual inicia i a conjun a dos jo nais Público e Folha de S. Paulo ei e a o posi-
cionamen o de F anklin (2012), de que os pe iódicos não se esumem à publicação de
edições em papel, ampouco es ão em ias de desapa ecimen o. É ce o que ambos
man êm suas i agens imp essas, po ém igualmen e mos am sua o ça no ambien e
digi al — com a c iação de podcas s e de pe is na mídia social. Os dois jo nais es ão en-
e os líde es de audiência nos seus espec i os países no segmen o de publicações diá-
ias. Segundo o Índice Ve i icado de Comunicação, em julho de 2023, Folha de S. Paulo
e a o jo nal mais consumido do B asil, com 796.088 exempla es pagos. Des e núme o,
mais de 94% (752.019) e e ia-se à ci culação digi al. Po sua ez, dados da Associação
Po uguesa pa a o Con olo de Ti agem e Ci culação apon am que, no segundo imes e
de 2023, a ci culação paga digi al do Público oi de 47.227 exempla es, enquan o a ci cu-
lação imp essa oi de 10.256 (pouco mais de 21% da digi al).
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“O Mesmo Rigo , o Mesmo Plu alismo”: Análise da “Pa ce ia T ansa lân ica” En e os Jo nais Público e Folha de S. Paulo . Thaís B aga
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O’Sulli an e al. (2017) apon am que a ma e ialidade do obje o imp esso e as es-
u u as cul u ais cons uídas em o no dele uncionam como uma ma iz que acili a a
ino ação, pe mi indo que os jo nais coexis am com a mídia digi al. Em conco dância,
Mesqui a (2023) assinala que a p odução de in o mação po di e en es a o es sociais —
o que an es da disseminação das ecnologias de in o mação e comunicação e a domínio
dos jo nalis as e das edações (Deuze & Wi schge, 2018) — o çam a mídia adicional
a p oduzi um jo nalismo alinhado aos alo es no ma i os, p omo endo a mudança e
a ans o mação social. Is o mos a que o Público e a Folha de S. Paulo es ão dispos os
a compe i pela audiência, sob e udo a digi al, dema cando-se a pa i de ce os p in-
cípios. Apesa de limi ada pelo acesso à in e ne , a pa ilha de assina u as digi ais não
cons i ui uma alha, e sim uma mais- alia pa a os dois jo nais — que são alçados a um
pa ama in e nacional ou, pelo menos, luso-b asilei o, jus amen e num espaço onde a
desin o mação2 ende a oco e de manei a mais equen e. O a gumen o da in e nacio-
nalização pode na u almen e se desa iado, uma ez que, de aco do com o jo nalis a e
p o esso uni e si á io Joaquim Fidalgo, o cosmopoli ismo é uma das ca ac e ís icas
undamen ais do Público, ou seja, o que oco e no es angei o é equen emen e des a-
cado nas manche es, independen emen e do segmen o (economia, polí ica, sociedade,
cul u a, despo o, e c.) desde a sua c iação, em 1990. Da mesma o ma, a Folha de S.
Paulo apoia-se nas agências de no ícias e em alguns co esponden es pa a pe cebe os
p incipais acon ecimen os do mundo.
O mais p o á el é que, pa a o pe iódico po uguês, o acesso ao con eúdo da Folha
de S. Paulo seja impo an e não apenas pa a a audiência, mas ambém pa a os p óp ios
jo nalis as — que êm no jo nal b asilei o um canal de on es de in o mação. Is o é
ele an e pa a cob i emas mais amplos a Po ugal e B asil — como as ques ões am-
bien ais —, sob e udo quando há limi ações de ecu sos humanos e inancei os. Pa a o
pe iódico b asilei o, a pa ilha de assina u as digi ais des aca-se pelo ca á e simbólico,
no sen ido de dema ca -se dos seus conco en es nacionais. Quando su giu, em 1921,
a Folha de S. Paulo p ocu a a dialoga com lei o es da classe média u bana, a exemplo
de uncioná ios públicos, de pequenos come cian es e de uma pa cela da classe ope-
á ia; da mesma o ma, seguia um iés u banís ico em oposição aos demais pe iódi-
cos, como o Es adão, que a a am p edominan emen e dos in e esses da oliga quia
ag á ia (Souza, 2019). Ainda hoje pe manece como ca ac e ís ica do sis ema midiá ico
b asilei o a concen ação da p op iedade po g upos amilia es — no caso, a Folha de
S. Paulo pe ence à segunda ge ação da amília F ias (Aze edo, 2006). A pa ce ia com o
Público ap oxima-a do jo nalismo no ma i o e de p á icas mais comp ome idas social-
men e. Mesqui a (2023) a gumen a que, mesmo em con ex os menos democ á icos ou
em democ acias em desen ol imen o — como o B asil —, o papel e a unção cí ica do
jo nalismo, os seus comp omissos é icos com a democ acia, a plu alidade e o acesso à
2 A exp essão “ ake news”, popula izada pela eleição p esidencial nos Es ados Unidos da Amé ica, em 2016, possui ampla
acepção, podendo signi ica desde no ícias ab icadas que ci culam pelos mídia sociais a é ao desc édi o gené ico dos
meios de comunicação social (Quand e al., 2019). Nes e es udo, em conco dância com L. Wu e al. (2019), op a-se po
e e i à “desin o mação” (misin o ma ion) de o ma ex ensi a a im de inclui odas as in o mações alsas ou imp ecisas
di ulgadas pelos mídia sociais, independen e de e em sido delibe adamen e c iadas ou não.
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“O Mesmo Rigo , o Mesmo Plu alismo”: Análise da “Pa ce ia T ansa lân ica” En e os Jo nais Público e Folha de S. Paulo . Thaís B aga
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in o mação, e a sua adesão a papéis e no mas p o issionais são gene alizados. Assim,
a inicia i a luso-b asilei a pa ece da à Folha de S. Paulo a chance não de escapa da dis-
pu a in e na, mas sim de se o alece nela, pois passa a olha as ques ões nacionais e
in e nacionais sob o pon o de is a eu opeu.
4.2. Idealização
A e e ência à o iginalidade da pa ilha de assina u as digi ais ea i ma o comp o-
misso no ma i o do Público e da Folha de S. Paulo. Dian e da p oli e ação de on es on-
-line de con eúdo, mui as de con iabilidade e e acidade desconhecidas, a au o e lexão
e a anspa ência no p ocesso de p odução jo nalís ica e elam-se di e enciais no me -
cado da in o mação (McNai , 2017). Po ém, igualmen e se pe cebe uma ap esen ação
oman izada como de enso es da democ acia. Em conco dância com o posicionamen-
o de que não necessa iamen e jo nalismo e democ acia são equi alen es (Hani zsch,
2019; McQuail, 2010; Schudson, 2011; Thomas, 2019; Zelize , 2017), a c í ica de Ne one
(2013) é aqui adequada: a e ocação ao ca á e no ma i o do jo nalismo bei a a an asia,
já que as no mas idealizam o que agen es pe ei os azem em si uações pe ei as. Nes a
ma é ia, Eld idge (2017) explica que, ao ala de si po meio de e a os ípicos ideais e de
alo es enal ecidos (quase como sinônimos de “he óis” e de ep esen an es do “bem”),
os jo nalis as o e ecem o que êm de melho ao público: a sua “ isão dominan e”.
Con ém lemb a que a Folha de S. Paulo e e di e en es p op ie á ios ao longo do
seu cen ená io. Nas p imei as décadas após sua undação, em 1921, pe maneceu sem
g ande impo ância, ampouco comp ome ida com a democ acia, chegando a apoia o
golpe mili a de 1964 e ado ando uma a i ude aquiescen e e disc e a a é quase o im do
pe íodo di a o ial (Albuque que, 2019a). Is o po que, em e mos ideológicos, o jo nal
b asilei o e le ia a conco dância en e o emp esa iado e o Go e no mili a em comba-
e as ideias comunis as (Dias, 2012). Essa pos u a mudou en e 1983–1984, quando o
pe iódico se en ol eu na campanha Di e as Já — um mo imen o popula em a o do
es abelecimen o das eleições di e as pa a a P esidência. En e an o, essa ans o ma-
ção oco eu po azões me cadológicas, pois os donos da Folha de S. Paulo da al u a,
Oc a io F ias de Oli ei a e Ca los Caldei a Filho, pe cebe am que o jo nal só pode ia
p ospe a num egime democ á ico. Assim, ees u u ou-se como um jo nal de esis ên-
cia no pe íodo de edemoc a ização.
Quando a Folha de S. Paulo se une ao Público e decla a publicamen e o seu com-
p omisso com a democ acia, é p eciso a enção pa a o a o de que, al ez, seu comp o-
misso p incipal seja consigo p óp ia. Is o po que, apesa de se mos a apa idá ia, in-
dependen e e plu alis a, o jo nal b asilei o ado a posicionamen os p óp ios na cobe u a
de de e minadas ques ões (Paixão Ma cos, 2018) — especialmen e em emas in e nos.
Em elação ao ex-P esiden e Jai Bolsona o (2019–2021), cla amen e oi oposi o a, so-
b e udo na cobe u a da pandemia de COVID-19, quando, jun amen e com ou os eícu-
los de comunicação social (po al g1 e UOL, além dos jo nais O Globo, Ex a, Es adão),
consolidou o núme o de casos e de mo es em deco ência da doença, após o Go e no
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ORCID: h ps://o cid.o g/0000-0002-2505-7367
Email: [email p o ec ed]
Mo ada: Uni e sidade do Minho, Campus de Gual a , 4710-057 B aga, Po ugal
Subme ido: 11/11/2023 | Acei e: 23/01/2025
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