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Problemas e soluções relacionados à biodiversidade: concepções de estudantes e materiais didáticos

Calegari, Andreia dos Santos; Santana, Carolina Maria Boccuzzi; Almeida, Ester Aparecida Ely de; Soares, João Paulo Reis; Jorge, Jéssica; Carvalho, Graça S.; Franzolin, Fernanda

Abstract

Esta pesquisa é parte de um Projeto mais amplo que visa didatizar os conhecimentos produzidos pela ciência sobre biodiversidade para a educação básica. Para tanto, os objetivos deste artigo residem em compreender o que estudantes do Estado de São Paulo conhecem sobre os problemas relacionados à biodiversidade de sua localidade e suas soluções, o tratamento desse assunto em livros didáticos e apostilas, e o que seus professores expressam sobre a temática ao falar acerca do ensino de biodiversidade. A pesquisa é qualitativa, com dados coletados por meio de entrevistas com alunos e professores, analisados por imersão nas transcrições, codificações e no estabelecimento de categorias e regras de contagem. A análise dos materiais didáticos envolveu imersão, categorização e registro em matriz de dados. Em geral, os jovens expressam um repertório limitado, apontando um ou outro problema, sendo mais citados os maus tratos aos animais domésticos e desmatamento. Apontam, como solução, a educação e a fiscalização, faltando evidências de uma consciência crítica sobre a responsabilidade do poder público e privado na mitigação dos problemas. Já os materiais didáticos podem explorar mais o tema abordando, por exemplo, o impacto da extinção de espécies, da emissão de gases e do aquecimento global, da construção de represas e da mineração para a biodiversidade. Já os professores apontaram a preservação e a conservação como os temas mais importantes a serem trabalhados em relação à biodiversidade.

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RBPEC • Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências, 25, e53246 1–28 1 https://doi.org/10.28976/1984-2686rbpec2025u75102 Submetido em 08 de julho de 2024 Aceito em 21 de dezembro de 2024 Publicado em 27 de fevereiro de 2025 Andreia dos Santos Calegari, Carolina Maria Boccuzzi Santana, Ester Aparecida Ely de Almeida, João Paulo Reis Soares, Jéssica Jorge, Graça Simões de Carvalho, e Fernanda Franzolin Problemas e Soluções Relacionados à Biodiversidade: Concepções de Estudantes e Materiais Didáticos Problems and Solutions Related to Biodiversity: Students’ Conceptions and Didactic Materials Problemas y Soluciones Relacionados con la Biodiversidad: Concepciones de Estudiantes y Materiales Didácticos Resumo Esta pesquisa é parte de um Projeto mais amplo que visa didatizar os conhecimentos produzidos pela ciência sobre biodiversidade para a educação básica. Para tanto, os objetivos deste artigo residem em compreender o que estudantes do Estado de São Paulo conhecem sobre os problemas relacionados à biodiversidade de sua localidade e suas soluções, o tratamento desse assunto em livros didáticos e apostilas, e o que seus professores expressam sobre a temática ao falar acerca do ensino de biodiversidade. A pesquisa é qualitativa, com dados coletados por meio de entrevistas com alunos e professores, analisados por imersão nas transcrições, codificações e no estabelecimento de categorias e regras de contagem. A análise dos materiais didáticos envolveu imersão, categorização e registro em matriz de dados. Em geral, os jovens expressam um repertório limitado, apontando um ou outro problema, sendo mais citados os maus tratos aos animais domésticos e desmatamento. Apontam, como solução, a educação e a fiscalização, faltando evidências de uma consciência crítica sobre a responsabilidade do poder público e privado na mitigação dos problemas. Já os materiais didáticos podem explorar mais o tema abordando, por exemplo, o impacto da extinção de espécies, da emissão de gases e do aquecimento global, da construção de represas e da mineração para a biodiversidade. Já os professores apontaram a preservação e a conservação como os temas mais importantes a serem trabalhados em relação à biodiversidade. Palavras-chave: Biodiversidade, concepções de estudantes, livro didático, preservação ambiental, problemas ambientais Abstract This research is part of a broader project that aims to make the didactic transposition of the knowledge produced by science about biodiversity for secondary education. To this end, the objectives of this specific article are to understand what students in the state of São Paulo know about the problems related to biodiversity in their area and their solutions, how this subject is addressed in textbooks and workbooks, and what their teachers say about the topic when talking about teaching biodiversity. The research is qualitative, with data collected through interviews with students and teachers and analyzed through immersion in the transcripts, coding, and establishment of categories and counting rules. The analysis of the teaching materials involved immersion, categorization and recording in a data matrix. In general, young people express a limited repertoire, pointing out one or another problem, with the most cited being the mistreatment of domestic animals and deforestation. They point to education and monitoring as solutions, lacking evidence of critical awareness of the responsibility of public and private 2 Calegari, Santana, Almeida, Soares, Jorge, Carvalho, & Franzolin RBPEC • Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências, 25, e53246 1–28 authorities in mitigating the problems. Teaching materials can explore the topic further, for example, discussing the impact of species extinction on biodiversity, gas emissions and global warming, dam construction, and mining. Teachers have highlighted preservation and conservation as among the most critical topics to be worked on regarding biodiversity. Keywords: Biodiversity, students’ conceptions, textbooks, environmental preservation, environmental problems Resumen Esta investigación es parte de un proyecto más amplio que pretende hacer la transposición didáctica del conocimiento producido por la ciencia sobre la biodiversidad para la educación secundaria. Para ello, los objetivos de este artículo específico son comprender qué saben los estudiantes del estado de São Paulo sobre los problemas relacionados con la biodiversidad en su área y sus soluciones, cómo se aborda este tema en los libros de texto y cuadernos de trabajo, y qué dicen sus profesores. sobre el tema cuando se habla de enseñar biodiversidad. La investigación es cualitativa, con datos recopilados a través de entrevistas con estudiantes y profesores y analizados mediante inmersión en las transcripciones, codificación y establecimiento de categorías y reglas de conteo. El análisis de los materiales didácticos implicó inmersión, categorización y registro en una matriz de datos. En general, los jóvenes expresan un repertorio limitado, señalando uno que otro problema, siendo los más citados el maltrato a los animales domésticos y la deforestación. Señalan que la educación y el monitoreo son soluciones, sin evidencia de una conciencia crítica sobre la responsabilidad de las autoridades públicas y privadas en la mitigación de los problemas. Los materiales didácticos pueden explorar más el tema, por ejemplo, hablando sobre el impacto de la extinción de especies en la biodiversidad, las emisiones de gases y el calentamiento global, la construcción de represas y la minería. Los docentes han destacado la preservación y conservación como uno de los temas más importantes a trabajar en materia de biodiversidad. Palabras clave: Biodiversidad, concepciones estudiantiles, libro de texto, preservación del medio ambiente, problemas ambientales Introdução Os Problemas Ambientais Relacionados à Biodiversidade Na atualidade, a dimensão humana se tornou uma força dominante que impacta direta e intensamente a integridade da biosfera (Folke et al., 2021). Provoca-se a homogeneização da paisagem por meio da urbanização em grandes áreas, realiza-se a seleção artificial e a alteração da distribuição da fauna e flora no agronegócio, e degradase o solo, a água e o ar com a emissão de poluentes (Smith et al., 2014). Essas ações, mesmo quando locais, têm efeito em cascata e de repercussão global, com implicações diretas no bem-estar e na qualidade de vida das pessoas (Newbold et al., 2018). Alguns desses aspectos foram evidenciados com a pandemia provocada pelo vírus SARS-CoV-2 no fim de 2019, facilitada pela grande conexão entre as metrópoles mundiais e pelo fato de 50% da população mundial viver em regiões urbanas (Folke et al., 2021). 3 Problemas e Soluções Relacionados à Biodiversidade: Concepções de Estudantes e Materiais Didáticos RBPEC • Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências, 25, e53246 1–28 As problemáticas ambientais são tratadas em diversas esferas e eventos mundiais, como a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, a Eco-92. Em decorrência desta, 168 países assinaram o tratado Convention on Biological Diversity (CBD), com diretrizes para conservar e recuperar a biodiversidade, estabelecer áreas prioritárias para intervenção e orientar a inclusão desses temas nos programas educacionais (CBD, 1992). Diversas ações foram propostas a partir das discussões propiciadas pelo documento em âmbito mundial, como o estabelecimento das Metas de Aichi e o Programa de Pesquisas em Caracterização, Conservação, Restauração e Uso Sustentável da Biodiversidade do Estado de São Paulo (Biota+Fapesp, 2020). No Brasil, as Metas de Aichi focam em ações para a redução da perda da biodiversidade, incluindo uma meta que visa conscientizar a população sobre os valores relacionados à biodiversidade, além de possíveis medidas para sua conservação e uso sustentável (Brasil, 2016). Todavia, dentro do prazo para o cumprimento previsto para final de 2020, muitas não foram alcançadas, sendo necessários novos planos (Joly & Speglich, 2020). Nesse sentido, a Carta de São Paulo, publicada em fevereiro de 2020 por representantes da esfera pública e privada, ressalta a importância de o país continuar a desenvolver estratégias e ações voltadas à promoção da conservação da biodiversidade (Biota+Fapesp, 2020). No entanto, essas ações parecem não ser consenso no país, uma vez que, embora o Brasil já tenha sido uma das lideranças no enfrentamento das problemáticas ambientais, nos últimos anos apresentou uma postura contrária a essas ações (Londoño & Friedman, 2018). No Estado de São Paulo, onde se desenvolveu esta pesquisa, encontram-se dois biomas considerados como hotstpots da biodiversidade: a Mata Atlântica (MA) (Myers, 1988) e o Cerrado (CE) (Myers et al., 2000). Esses biomas estão entre as áreas prioritárias para conservação, por abrigarem muitas espécies endêmicas em risco de extinção e pela rápida taxa de esgotamento dos recursos locais (Myers, 1988; Myers et al., 2000). Diante da extensa degradação, a vegetação nativa remanescente do CE é de 3,0%, e da MA, de 32,6% (São Paulo, 2020). Sendo complexa e urgente a reversão desse quadro, governos, organizações multilaterais e a sociedade civil pleiteiam a elaboração de estratégias, em diferentes âmbitos, para enfrentar esse desafio (Duraiappah et al., 2014; Folke et al., 2021). Para tanto, é desejável que englobem metas e ações tanto locais quanto globais (Werlen, 2016). Dentre essas estratégias, a educação sobre os problemas ambientais e a biodiversidade tem sido recomendada (Gayford, 2000), por ser uma importante ferramenta na construção de sentidos que impactam diretamente os valores e compreensões dessas temáticas, as relações entre os seres vivos e a dependência humana da natureza e o interesse nas demandas de conservação (Dreyfus et al., 1999; NavarroPérez & Tidball, 2012). A educação também pode contribuir significativamente para a construção do letramento científico, de opiniões amplas e bem estruturadas, bem como no desenvolvimento de atitudes voltadas à conservação e à sustentabilidade do ambiente (Dreyfus et al., 1999; Navarro-Pérez &Tidball, 2012; van Wellie & Wals, 2002). 4 Calegari, Santana, Almeida, Soares, Jorge, Carvalho, & Franzolin RBPEC • Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências, 25, e53246 1–28 É igualmente necessário incentivar a participação social, a ciência cidadã e a formação de lideranças, valorizando o conhecimento tradicional, além de promover a igualdade e protagonismo das comunidades locais (ICLEI, 2020). Considerações Para a Educação Voltada aos Problemas Ambientais Uma das possibilidades para fomentar a educação voltada à compreensão dos problemas ambientais relacionados à biodiversidade é o desenvolvimento de materiais didáticos. Para discutir a criação de novos materiais didáticos relacionados ao ensino sobre a diversidade dos seres vivos, é relevante considerar os processos de transformação do conhecimento a ser ensinado em sala de aula. Nesse sentido, segundo a teoria da transposição didática (TD) de Chevallard (1991), do saber sábio — conhecimento produzido pela Ciência — são selecionados aqueles conteúdos que passam por um processo de transformações para serem ensinados. Essa ideia, inicialmente muito difundida e utilizada por pesquisadores brasileiros ao final da década de 1990 e início dos anos 2000, chegou a sofrer descaracterizações e críticas, as quais foram posteriormente respondidas pelo autor e seus colaboradores (Machado, 2011). Dessa forma, serve ainda como referência para pesquisadores da área de Educação em Ciências, que se baseiam em suas ideias e as enriquecem com novas proposições (Clément, 2006; Gericke et al., 2018; Lombard & Weiss, 2018; Machado, 2011). Contribuindo para a compreensão desse processo, Clément (2006) destaca a importância de outros pressupostos na elaboração do conhecimento escolar. Além do conhecimento científico (K), ele considera também valores (V) e práticas sociais (P), concordando com Martinand (1981), e propõe o modelo KVP para a construção de concepções. Clement ainda enaltece a importância da interação entre K, V e P nas concepções, as quais se refletem em documentos de popularização da ciência, televisão, livros didáticos, professores, além das dimensões socioculturais e afetivas dos estudantes (Clément, 2006). Ao encontro dessas discussões, Lombard e Weiss (2018) desenvolvem o modelo TD-Evo, uma metáfora evolutiva. Nesse modelo, o conhecimento transformado, para entrar e prosperar em um ecossistema escolar, deve ser do interesse dos professores e adaptável ao ambiente cognitivo e estrutural dos estudantes. Nessas condições, o conhecimento selecionado prospera e pode ser modificado, se houver alterações nesse ambiente. Para contribuir com o propósito da TD, é importante identificar as concepções dos estudantes (Gericke et al., 2018), contribuindo para a compreensão de seus aspectos socioculturais (Cobern, 1996) e os obstáculos epistemológicos, a fim de fornecer subsídios para superá-los (Clément, 2006). Desse modo, acreditamos nas potencialidades de considerar as concepções e os interesses de estudantes e professores no processo de seleção de conteúdos em novos materiais didáticos. Pesquisas sobre a compreensão dos problemas relacionados à biodiversidade têm identificado aproximações entre 5 Problemas e Soluções Relacionados à Biodiversidade: Concepções de Estudantes e Materiais Didáticos RBPEC • Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências, 25, e53246 1–28 as concepções de estudantes e cientistas sobre os impactos ambientais (Bermudez & Lindermann-Mathies, 2020). Entretanto, há um reconhecimento de que a importância dos seres vivos é pautada por valores antropocêntricos (Yorek et al., 2008). Outros estudos indicam a relevância da participação dos estudantes em decisões e compromissos relacionados aos problemas socioambientais locais e globais (Moreno-Fernández & García-Pérez, 2015). Além disso, para a proposição de novos materiais, faz-se necessário entender as opiniões dos professores sobre o tratamento da temática a ser didatizada, pois são importantes atores no processo de transformação e ensino de conhecimentos (Lombard & Weiss, 2018). Ademais, além de considerar o entendimento de estudantes e professores, também consideramos importante saber o que já é bem ofertado e o que demanda didatização entre os materiais já disponíveis para os jovens. Esses materiais didáticos difundem informações, valores, culturas e crenças da sociedade na qual foram concebidos (Newton & Newton, 2006). Por isso, é relevante identificar como essa temática está presente nos materiais didáticos utilizados pelos professores com seus alunos. No Brasil, o Programa Nacional do Livro Didático e do Material Didático (PNLD) avalia, classifica e disponibiliza gratuitamente livros didáticos e literários para escolas públicas brasileiras (Ministério da Educação, 2020). Em certos contextos, esses materiais são os mais utilizados em sala de aula (Bueno & Franzolin, 2019), e, por vezes, os únicos materiais de apoio disponíveis para professores e estudantes (Bizzo, 2000). Ademais, exercem uma forte influência nos sistemas educacionais (Mohammad & Kumari, 2007). No entanto, atualmente, algumas redes de ensino adotam as comumente conhecidas apostilas, que não passam por essa avaliação. No que diz respeito à abordagem dos problemas relacionados à biodiversidade nos livros didáticos, estudos já identificaram materiais de Ciências que tratam da desfragmentação e destruição das florestas como uma das causas da perda de biodiversidade (Sakir & Kim, 2019), bem como materiais que indicam soluções descontextualizadas e que não consideram o poder público como responsável (Gugssa et al., 2020; Sharma & Buxton, 2015), e livros que apresentam algumas atividades humanas sem refletir sobre os impactos negativos dessas ações no meio socioambiental (Bizerril, 2003; Gola, 2017; Korfiatis et al., 2004). Assim, o presente trabalho pretende contribuir com a literatura sobre a educação para a biodiversidade, trazendo evidências do potencial dos materiais já existentes para o tratamento dessa temática e evidenciando possibilidades para o desenvolvimento de materiais novos. Para tanto, são objetivos deste trabalho: (1) compreender o que estudantes do Estado de São Paulo conhecem sobre os problemas relacionados à biodiversidade de sua localidade e se conhecem possíveis soluções para esses problemas; (2) compreender o que seus professores expressam sobre a temática ao falarem sobre o que consideram importante que os alunos aprendam a respeito da diversidade dos seres vivos; (3) investigar quais problemas são abordados em livros e apostilas utilizados por eles, e quais causas, soluções e responsáveis são apontados para tais problemas por esses materiais didáticos. 6 Calegari, Santana, Almeida, Soares, Jorge, Carvalho, & Franzolin RBPEC • Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências, 25, e53246 1–28 Metodologia Esta pesquisa teve sua amostra delineada a partir do critério qualitativo de máxima variação (Patton, 2002), que busca analisar extremos dentro de determinado grupo amostral, com o objetivo de evitar vieses, considerando a localização e o rendimento dos alunos. Assim, este estudo não permite generalizações para todos os estudantes de nosso local de estudo, o Estado de São Paulo, mas permite conhecer possíveis respostas dentro dos limites extremos da variação de nossa amostra. Com base nesse critério, consideramos que a pesquisa ocorreria no Estado de São Paulo, que abriga os biomas Cerrado e Mata Atlântica (IBGE, 2019), além do ecossistema litorâneo. Foram selecionadas quatro escolas próximas e quatro distantes de fragmentos preservados desses biomas, distribuídas igualitariamente entre Cerrado e Mata Atlântica, além de duas escolas localizadas no litoral paulista, totalizando dez escolas. As escolas consideradas próximas estavam a até 20 minutos de caminhada de um fragmento preservado da vegetação característica, considerando aqueles que poderiam ser acessados a pé pelos alunos, sem obstáculos como rodovias, por exemplo. Para tal, utilizamos o mapa da Fundação Florestal do Estado São Paulo (2019), Google Maps (2019), Google Earth (2019), DataGeo (2019), bem como contato com as Secretarias Municipais do Meio Ambiente. Procurando ainda diversificar o perfil das dez escolas, selecionamos cinco com os maiores e cinco com os menores índices de aproveitamento, de acordo com o Índice de Educação Básica — IDEB 2017, um importante indicador de avaliação das escolas brasileiras (Ministério da Educação, 2017). O objetivo de usar esses critérios não era realizar comparações entre os perfis, mas garantir uma amostra heterogênea. Para compreender as concepções dos estudantes dessas escolas sobre os problemas relacionados à biodiversidade local e suas possíveis soluções, foram selecionados jovens dos 9.º anos do Ensino Fundamental, considerando que, nessa etapa, provavelmente já teriam tido contato com o conteúdo escolar sobre a temática. Assim, dois estudantes de cada escola participaram de entrevistas semiestruturadas. Esse formato de entrevista permite a organização em concordância com os objetivos de pesquisa, mas também oferece flexibilidade em sua condução (Brinkmann, 2014). Utilizando-se também o critério de máxima variação (Patton, 2002), a equipe de cada escola indicou um estudante com maior rendimento em Ciências e outro com menor rendimento. As perguntas feitas aos estudantes exploradas neste artigo foram: “Você já ouviu falar de problemas relacionados aos seres vivos do local onde você vive? Quais são? O que você acha que pode ser feito para evitá-los?” Além disso, os professores desses alunos (um professor por escola) também participaram de entrevista semiestruturada para compreendermos o que consideram importante para o ensino de biodiversidade. Perguntou-se aos professores: “O que você considera importante que os alunos aprendam a respeito da diversidade dos seres vivos?” Essa entrevista visava coletar dados para nosso projeto mais amplo, mas, para o presente artigo, optamos por identificar nas falas dos professores o que mencionaram em relação aos problemas vinculados à biodiversidade, sua preservação e conservação. 7 Problemas e Soluções Relacionados à Biodiversidade: Concepções de Estudantes e Materiais Didáticos RBPEC • Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências, 25, e53246 1–28 As entrevistas foram transcritas e analisadas utilizando os passos descritos por Marshall e Rossman (2006): organização dos dados, imersão, elaboração de categorias, codificação e interpretação dos dados. Além disso, alguns elementos da Análise de Conteúdo (Bardin, 2011) foram empregados. Na codificação, os dados foram organizados em unidades de registro, que consistem em recortes do texto a nível semântico correspondentes às categorias identificadas. Também foram utilizadas unidades de contexto, trechos que permitiram a compreensão das unidades de registro. Nesta pesquisa, as unidades de contexto corresponderam às perguntas e aos trechos das respostas que facilitaram o entendimento. As categorias foram definidas a priori, com base nos temas desta pesquisa, sendo criadas novas categorias e subcategorias a posteriori, de acordo com as respostas dos estudantes e professores, de maneira a detalhar e discutir tais categorias. Essas categorias e subcategorias estão apresentadas nas tabelas ao longo da descrição dos resultados. Apesar da natureza qualitativa da pesquisa, sua análise gera dados quantitativos devido ao processo de contagem, comum nas pesquisas de Análise de Conteúdo. Esses dados foram planilhados e tratados por meio do programa Excel Office 2010 para o estabelecimento das frequências. Para compreender como as causas da perda de biodiversidade e suas possíveis soluções eram abordadas nos materiais didáticos utilizados pelos estudantes entrevistados, foram analisados livros didáticos e apostilas adotados nas escolas participantes, resultando na análise de nove coleções: seis coleções de livros distribuídas nas dez escolas pelo PNLD vigente de 2017–2019 (Ministério da Educação, 2020), duas coleções de apostilas distribuídas na Rede Estadual de Ensino do Estado de São Paulo e outra em uma rede municipal. Para a coleta dos atributos de interesse, foram organizadas matrizes eletrônicas inspiradas em estudos da área (ex.: Caravita et al., 2008), construídas nas etapas de imersão e criação de categorias (Marshall & Rossman, 2006). Essa análise qualitativa também gerou dados quantitativos, que foram tratados pelo Programa RStudio, Os instrumentos de coleta (roteiros de entrevista, questionários e matrizes) foram construídos, avaliados, revistos e validados pelo grupo de pesquisa. Antes da coleta de dados, foi realizada uma aplicação piloto dos instrumentos para verificar sua efetividade, e as adequações necessárias foram feitas. Tal projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos da Universidade Federal do ABC (parecer no. CAAE:67968217.5.0000.5594). Ainda ressaltamos que esta pesquisa é parte de um projeto amplo, sendo este trabalho específico para discutir os dados sobre os problemas ambientais relacionados à biodiversidade, bem como as possíveis soluções propostas por estudantes e materiais didáticos analisados. Assim, a descrição de sua metodologia também pode ser encontrada em outras publicações referentes a outros dados do projeto (Franzolin et al., 2021; Santana et al., 2023). 8 Calegari, Santana, Almeida, Soares, Jorge, Carvalho, & Franzolin RBPEC • Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências, 25, e53246 1–28 Resultados e Discussões Entrevistas com Estudantes Ao citarem problemas relacionados aos seres vivos de sua localidade que já ouviram falar, as menções dos estudantes mais frequentes são: maus tratos aos animais (n=8), desmatamento (n=7), poluição (n= 6), e queimadas (n= 4). Figura 1 Problemas relacionados à biodiversidade apresentados pelos estudantes Problemas n Soluções Agente Maus Tratos aos Animais 8 Denunciar e punir (4) Educação/conscientização (3) Desenvolvimento de leis (1) Responsabilidade com animais domésticos (1) Diminuir o desmatamento (1) M M P I M Desmatamento 7 Denunciar e punir (2) Educação/conscientização (2) Replantar (2) Monitorar e Diminuir Desmatamento (2) Consciência no consumo (1) Aproveitar melhor áreas já desmatadas (1) M M M M I M Poluição 6 Educação /conscientização (2) Não Jogar Lixo ou Animais Mortos no rio (2) Não jogar lixo em lugar errado (1) Capinar e não queimar (1) Precaução contra acidentes na indústria petroleira (1) Fiscalizar (1) M I I I P P Não Possui Problemas 4 - Queimadas 4 Educação/conscientização (2) Limpeza de áreas públicas (1) Capinar e não queimar (1) Denunciar e punir (1) M P I M 9 Problemas e Soluções Relacionados à Biodiversidade: Concepções de Estudantes e Materiais Didáticos RBPEC • Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências, 25, e53246 1–28 Figura 1 Problemas relacionados à biodiversidade apresentados pelos estudantes (continuação) Problemas n Soluções Agente Doenças (Bactérias, Dengue) 3 Pesquisa para cura de doenças (1) Não Jogar Lixo ou Animais Mortos no rio (1) Educação/conscientização (1) Atuação órgãos públicos (1) Coleta de lixo eficiente (1) P I M P P Urbanização 2 Aproveitar melhor áreas já desmatadas (1) Educação/conscientização (1) M M Animais Brigam por Comida 1 - - Ataque de Animais 1 Aproveitar melhor áreas já desmatadas (1) M Caça 1 Educação/conscientização (1) M Extinção 1 Consciência no consumo (1) Educação/conscientização (1) I M Falta educação 1 - - Problemas Sociais 1 - - Total de menções 40 Nota. n amostral = 20 estudantes; I = esfera individual; P = Poder público ou privado; M = Mista. Quanto ao problema mais citado, maus tratos aos animais, cinco alunos relacionaram tal questão com animais domésticos. A denúncia, punição e o desenvolvimento de leis, ao lado da educação e conscientização e responsabilidade, foram as soluções propostas. O destaque aos animais domésticos (Blumstein & Saylan, 2007) possivelmente ocorre pela proximidade dos alunos em relação a esses animais, tanto espacialmente quanto afetivamente (Lindeman-Matthies, 2006; Yorek et al., 2008), além das representações antropocêntricas construídas pelos alunos para explicarem a biodiversidade de sua localidade (Driver et al., 1994), o que pode confundir os alunos sobre o real papel da proteção à diversidade nativa (Nabhan, 1995). Todavia, diferentemente, um estudante citou a redução do desmatamento como uma possibilidade para evitar que animais invadam os ambientes urbanos e sejam caçados, mostrando preocupação com animais silvestres. O segundo tópico mais mencionado pelos estudantes, o desmatamento, tem relação direta com o quarto problema mais mencionado, as queimadas, embora eles nem sempre explicitassem essa correlação. Os jovens apontaram como soluções a redução do desmatamento, a conscientização, o monitoramento, a punição dos infratores, o aproveitamento de regiões já desmatadas para evitar o desmatamento de outras áreas e o replantio para compensar o desmatamento. Também foi mencionada a importância de limpar áreas públicas para evitar que as pessoas resolvam o problema queimando a mata 16 Calegari, Santana, Almeida, Soares, Jorge, Carvalho, & Franzolin RBPEC • Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências, 25, e53246 1–28 Quanto às menções aos agentes responsáveis (Tabela 4), verificamos tratar-se de um tópico mais explorado pelos materiais didáticos quando se fala em fiscalização e desenvolvimento de leis. Há pouca explicitação sobre os agentes nos demais casos. Tabela 4 Agentes responsáveis pelas medidas de prevenção, segundo os materiais didáticos Natureza do agente responsável número de menções % Poder público 26 70 Esfera individual 6 16 Agentes mistos 3 8 Poder privado 2 5 Nota. n amostral = 6 coleções de livros didáticos e 3 coleções de apostilas. Como vimos anteriormente, os materiais didáticos quase não explicitam a responsabilidade dos governantes sobre os problemas ambientais, talvez por receio de entrar em debates políticos. Todavia, indiretamente, colocam os governantes como responsáveis pela solução desses problemas, ao mencionarem fiscalização e leis. Esse aspecto pode ser um passo à conscientização política, pois um problema identificado por pesquisadores em outros contextos foi que os livros didáticos não incluíam a responsabilidade governamental, indicando que a solução deve ser realizada individualmente por pessoas leigas (Sharma & Buxton, 2015). O desconhecimento sobre as responsabilidades do poder público dificulta a cobrança por melhorias pela população (Shah & Parsons, 2018), o que é uma necessidade urgente na realidade brasileira, em especial nos contextos em que os dados foram coletados (Scarano et al., 2019; Silva et al., 2019). Os dados apontam que pouco se explora a ação individual e do setor privado, ou a natureza mista dos agentes de muitas das ações. Compreender as possibilidades de ação dos indivíduos também é importante. Sem explorar esse viés, os materiais apresentaram um conteúdo apenas informativo e não formativo, visto que a maioria das recomendações e medidas de solução são feitas de forma generalista e estão além da capacidade de ação dos jovens, sem apresentar o que pode ser feito de forma concreta para solucionar os problemas (Gugssa et al., 2020). Tal simplificação, por vezes, distorce a compreensão dos papéis individuais e coletivos nas ações de preservação da biodiversidade, dificultando o processo de conscientização (Blumstein & Saylan, 2007; Nabhan, 1995). Isso ocorre especialmente pelo fato de que, mesmo para atividades destinadas a um setor da sociedade, é necessária uma ação de regulamentação por meio do poder público, bem como investimento público ou privado (Nabhan, 1995). Assim, é importante que os materiais apresentem as soluções para os problemas ambientais com suas respectivas responsabilidades (Aarnio-Linnanvuori, 2019). A pouca responsabilização presente nos materiais didáticos, além de descontextualizar o ensino de sua realidade social, representa um problema às ações de proteção da biodiversidade (Shah & Parsons, 2018). 17 Problemas e Soluções Relacionados à Biodiversidade: Concepções de Estudantes e Materiais Didáticos RBPEC • Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências, 25, e53246 1–28 Entrevistas com Professores Sendo os professores relevantes no processo de reformulação e propiciadores de novos conhecimentos (Chevallard, 1998; Clément, 2006; Lombard & Weiss, 2018), é relevante compreender o que julgam importante ser trabalhado em sala de aula. Dessa maneira, nove dos dez professores entrevistados apontaram a preservação e a conservação como temas mais essenciais a serem abordados dentro dessa temática. Outrossim, o contexto socioeconômico-cultural pode se apresentar como um desafio para o ensino de questões ambientais (Duraiappah et al., 2014; Scarano et al., 2019). Em nosso estudo, uma das professoras entrevistadas relatou a dificuldade de trabalhar o tema junto a seus alunos que, em boa parte, são provenientes de área rural, e têm um histórico de produção de cana-de-açúcar. Desse modo, embora haja pesquisas que apontem a dependência do sucesso da produção agrícola ao manejo ambiental adequado do solo (IPBES, 2019), e práticas de agricultores do Estado de São Paulo consideradas favoráveis à conservação da biodiversidade (Comin & GhelerCosta, 2016), trabalhar essas questões junto aos estudantes pode se apresentar como um desafio aos professores (Gayford, 2000). Tal posicionamento também já foi evidenciado em outros estudantes brasileiros, que, embora demonstrem uma postura pró-conservacionista, quando se deparam com um dilema econômico ou de saúde, priorizam esses aspectos em detrimento da conservação, o que é explicado especialmente por questões socioeconômicas vividas, principalmente, por estudantes de escolas públicas (Rosalino et al., 2017). Assim, é necessário considerar os contextos socioeconômicos e culturais dos estudantes ao trabalhar com esse tema (Ministério da Educação, 1998; Duraiappah et al., 2014; Gayford, 2000; Menzel & Bögeholz, 2009; Primack, 2013; Sachs, 2010), de maneira que possam lidar com diferentes questões da realidade (Ministério da Educação, 1998; Menzel & Bögeholz, 2009). Conclusões e Implicações Nesta pesquisa, investigamos os conhecimentos dos alunos sobre os problemas relacionados à sua biodiversidade local, como o assunto é abordado nos materiais didáticos e a opinião de seus professores sobre a importância da abordagem do assunto. São dados que nos ajudarão em um projeto mais amplo a refletir quais aspectos podem ser enfatizados na elaboração de materiais didáticos. Assim, ao considerar o que o aluno conhece, a opinião de seus professores e o que os materiais já fornecem, podemos investigar caminhos para o enriquecimento dos materiais já existentes e a produção de novos. Os estudantes apresentaram um repertório limitado de conhecimentos sobre os problemas de sua localidade, sendo capazes de identificar, muitas vezes, um ou outro problema. A maioria das menções estava relacionada aos maus tratos aos animais, especialmente os domésticos, o que pode estar associado à afetividade por esses seres vivos e à sua vivência em um ambiente urbano. Porém, alguns estudantes se destacaram, mostrando que os jovens podem se envolver e conhecer mais sobre o assunto. 18 Calegari, Santana, Almeida, Soares, Jorge, Carvalho, & Franzolin RBPEC • Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências, 25, e53246 1–28 Há também temas mais presentes na fala dos estudantes e nos materiais didáticos, como o problema do desmatamento e a poluição. O desmatamento causado pelas queimadas era uma problemática na época da coleta de dados, com forte repercussão midiática e debate entre grupos políticos, o que pode ter chamado a atenção dos estudantes que mencionaram o tema com recorrência durante as entrevistas. Já nos materiais didáticos analisados, há várias menções de problemas ambientais relacionados à perda da biodiversidade, podendo ser recursos úteis para abordá-los, uma vez que são pouco conhecidos pelos estudantes. Esses materiais permitem abordar: a destruição do habitat, o comércio e o tráfico de seres vivos, a agropecuária, a urbanização, a exploração de recursos, o consumo e a geração de produtos. Para além, exploram bem algumas soluções importantes, como o manejo e o uso sustentável de recursos, a criação de projetos de preservação ou Unidades de Conservação e a preservação da biodiversidade ou de áreas naturais. De certa forma, os materiais didáticos também abordam as alterações no modo de produção e consumo, apesar de ser um tema amplo que pode ser mais explorado, especialmente por ser pouco mencionado pelos estudantes. Percebemos, ainda, alguns tópicos que podem ser mais explorados, como o impacto da extinção de espécies na biodiversidade, a emissão de gases e o aquecimento global, a construção de represas, a mineração e a poluição do ar e do solo. Novos materiais podem dar atenção ímpar a esses aspectos. Quanto às soluções para a perda da biodiversidade apresentadas pelos estudantes, a educação e, mais especificamente, a conscientização, se destacam. Esse valor positivo é de interesse para nós, pesquisadores e educadores da área. Além disso, esses jovens apontaram “pessoas” como agentes responsáveis, que devem se conscientizar dos impactos que causam ao ambiente. Não fica claro em que âmbito atuam essas pessoas, mas parece que estão falando de pessoas agindo isoladas. Eles também apontaram denúncias e punições como soluções, alinhando-se às mais citadas nos livros didáticos: leis e fiscalização. Porém, percebemos que os alunos parecem mais atentos ao que indivíduos conscientes podem fazer pelo ambiente, enquanto os materiais didáticos pouco exploram sobre esse aspecto, apresentando mais soluções relacionadas às leis e à fiscalização, que têm um escopo de ação mais voltado ao poder público. Como as soluções apresentadas pelos alunos para reduzir os problemas podem ser de responsabilidade de vários atores, a compreensão da importância desses múltiplos agentes deve ser fomentada e melhorada pelos materiais didáticos. Assim, é fundamental que os alunos compreendam tanto as possibilidades de suas ações enquanto indivíduos, para evitar o impacto relacionado pela biodiversidade, quanto as responsabilidades dos poderes público e privado em mitigá-lo. Ademais, é relevante se atentar à ação individual de escolha dos agentes que irão atuar no poder público. Os indivíduos são eleitores e, deste modo, podem escolher representantes mais propensos à preservação da biodiversidade. A consciência desse papel deve ser mais explorada pelos materiais. Destacamos ainda a relevância dada pelos professores entrevistados à preservação e à conservação, mencionadas por quase todos, como um dos aspectos mais importantes 19 Problemas e Soluções Relacionados à Biodiversidade: Concepções de Estudantes e Materiais Didáticos RBPEC • Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências, 25, e53246 1–28 a serem trabalhados sobre a biodiversidade. Ademais, as entrevistas evidenciaram a importância de considerar os contextos socioeconômico e culturais dos estudantes ao abordar o tema, vez que podem influenciar suas atitudes e compreensão. Assim, materiais contextualizados e regionais podem ajudar nessa abordagem. Por fim, diante dos conhecimentos dos estudantes, dos materiais didáticos e da importância declarada pelos professores de se trabalhar a preservação e conservação dos seres vivos, é crucial que novos materiais ampliem a abordagem dos impactos ambientais relacionados às espécies, trazendo à tona a complexidade envolvida nesses problemas e em suas soluções. Desse modo, os estudantes poderão ter acesso a essas discussões e desenvolver uma visão mais ampla e holística da questão, envolvendo, portanto, não somente sua atuação individual, mas também a necessidade da atuação de toda a sociedade, incluindo instâncias individuais, governamentais e do setor privado. Entretanto, vale considerar que a falsa neutralidade imposta pela omissão da discussão política nos materiais didáticos implica a construção de um contexto inexistente, distante de conflitos e discussões acerca das questões socioambientais. Agradecimentos O presente trabalho foi realizado com apoio do processo nº 2018/217560, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). processo nº 2019/08689-4, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), processo nº 2016/05843-4 Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Foi parcialmente financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) de Portugal, processo nº SFRH/BD/79512/2011 e Centro de Investigação em Estudos da Criança pelo projeto UIDB/00317/2020, e ainda pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior — Brasil (CAPES). Referências Aarnio-Linnanvuori, E. (2019). How do teachers perceive environmental responsibility? Environmental Education Research, 25(1), 46–61. https://doi.org/10.1080/13504622.201 8.1506910 Andrade, O. R. (2019). Alarming surge in Amazon fires prompts global outcry. Nature. https://www.nature.com/articles/d41586-019-02537-0 Araújo, B. F., & Sovierzoski, H. H. (2016). 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