GAME OF THRONES, O ÚLTIMO PONTO DE ENCONTRO TELEVISIVO 49
REVISTA 2i, Vol. 7, N.º 11, 2025, 49–63. eISSN: 2184-7010
GAME OF THRONES, O ÚLTIMO PONTO DE ENCONTRO
TELEVISIVO
FANTÁSTICO, HUMOR, HISTORICISMO, VIOLÊNCIA E
EROTISMO
GAME OF THRONES, TELEVISION'S LAST HOTSPOT
FANTASTIC, HUMOUR, HISTORICISM, VIOLENCE AND
EROTICISM
EDUARDO DOS SANTOS FERNANDES
*
[email p o ec ed]
Numa época ca a e izada pela desag egação das audiências nos media audio isuais, Game o
Th ones cons i uiu o úl imo momen o em que exis iu uma con e gência global de públicos em
con eúdos ele isi os. O obje i o des e a igo é coloca um conjun o de hipó eses pa a jus i ica
es e enómeno, a pa i da análise dos p incipais ing edien es da sé ie: a combinação de humo ,
iolência e e o ismo, a associação de elemen os an ás icos com uma ambiência baseada em
e e ências his ó icas, a impo ância da pe ceção da passagem do empo na na a i a, a p esença
cons an e da mo e e o uso de cená ios eais, econhecí eis apesa da sua manipulação digi al.
A aje ó ia pa icula que ca a e iza a elação en e a p odução da HBO e a na a i a publicada
em li o ambém in e essa a es e ex o, sob e udo a pa i do momen o em que os ex os de Geo ge
R. R. Ma in deixa am de pode cons i ui uma e e ência pa a o guião, po que a sé ie ul apassou
a his ó ia ela ada nos olumes publicados.
Pala as-Cha e: Gue a dos T onos; Geo ge R. R. Ma in; his o icismo; na a i a.
In an e a cha ac e ized by he disagg ega ion o audiences in audio- isual media, Game o
Th ones was he las momen in which he e was a global con e gence o he public on a ele ision
con en . The pu pose o his ex is o aise a se o hypo heses o jus i y his phenomenon, based
on he analysis o he main ing edien s o he se ies: he combina ion o humou , iolence and
e o icism, he associa ion o an as ic elemen s wi h his o ical e e ences, he impo ance o he
passage o ime in he na a i e, he cons an p esence o dea h and he use o eal scena ios,
ecognizable despi e hei digi al manipula ion.
The pa icula ajec o y ha cha ac e izes he ela ionship be ween he se ies and he na a i e o
he books is also impo an o his essay, especially om he momen in which Geo ge R. R.
Ma in's ex s could no cons i u e a e e ence o he sc ip , because he se ies wen beyond he
con en s o he published olumes.
Keywo ds: Game o Th ones; Geo ge R. R. Ma in; his o icism; na a i e.
*P o esso Auxilia , Uni e sidade do Minho, Escola de A qui e u a, A e e Design, Labo a ó io de
Paisagens, Pa imónio e Te i ó io, Guima ães, Po ugal. ORCID: 0000-0002-5762-2682
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Da a de eceção: 19-12-2024
Da a de acei ação: 12-6-2025
DOI: 10.21814/2i.6124
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1. In odução: o úl imo pon o de encon o de massas.
Ao longo do século XXI, a mul iplicidade de canais de ele isão po cabo e o
apa ecimen o de uma (cada ez maio ) o e a de p odução audio isual em s eaming
le ou a uma desag egação p og essi a das audiências. A sé ie Game o Th ones (GoT),
exibida na HBO en e 2011 e 2019, e á cons i uído o úl imo momen o em exis iu uma
con e gência global de públicos em con eúdos ele isi os; não po que enha exis ido um
consenso de opiniões, mas po que exis iu uma audiência mui o ala gada e um g ande
impac o mediá ico, que a o nou um pon o de encon o pa a di e en es ge ações.
O seu sucesso jun o do público oi imedia o; a sé ie ba eu consecu i os eco des de
audiência, de empo ada em empo ada, com milhões de espec ado es na HBO e ou os
an os a assis i em ilegalmen e. A qualidade da sé ie oi amplamen e econhecida, sendo
dis inguida com um núme o imp essionan e de p émios: en e ou os, des acam-se um
Golden Globe (p émio pa a o qual oi nomeada oi o ezes) e 59 Emmy, conseguidos a
pa i de 164 nomeações. É conside ada a p odução ele isi a mais popula de semp e
(Se gean , 2021).
O seu sucesso ambém se ez sen i pelo impac o do ema nas in e ações sociais do
público, que na in e ne (dando o igem a deba es acesos nas edes sociais), que nas
con e sas quo idianas. GoT oi, a é hoje, o úl imo momen o em que (quase) odos
pa ilha am uma mesma e e ência, que ossem adep os en usiás icos (dos li os e/ou da
sé ie), que ossem c í icos e ozes da adap ação ele isi a, que i essem acompanhado
apenas alguns episódios; em qualque ci cuns ância (escola, uni e sidade, abalho, g upo
de amigos) e a possí el es abelece uma con e sa que con e gia à ol a des e assun o
sem que (quase) ninguém se sen isse excluído (Ba ke , Smi h, & A wood, 2021).
Es a si uação, no mal nas úl imas décadas do século XX em elação a ou as sé ies
(numa época em que a o e a e a mui o mais limi ada), e a já mui o di ícil de acon ece
em 2011. Depois de 2019 nunca mais se epe iu, nem mesmo com a p equela de GoT,
House o he D agon.
O p imei o obje i o des e a igo é con ibui pa a explica es e enómeno, a pa i da
análise dos p incipais ing edien es da sé ie c iada po Da id Benio e Dan Weiss: a
combinação de humo , iolência e e o ismo (uma das es a égias mais e iden es da sé ie,
já p esen e nos li os), a associação de elemen os an ás icos (d agões, caminhan es
b ancos, gigan es) com e ocações his ó icas (ma e ializadas nos locais e nas
pe sonagens), a impo ância da pe ceção da passagem do empo na na a i a (e iden e no
c escimen o dos a o es mais jo ens), a p esença cons an e da mo e (que su ge, mui as
ezes, de o ma su p eenden e, eliminando pe sonagens p incipais) e o uso de locais eais,
al e ados digi almen e, como cená io - o caso da capi al King's Landing, c iada a pa i
da cidade de Dub o nik, na C oácia, é um dos exemplos em que es e p ocesso se o na
mais e iden e.
Num segundo ní el de análise, p ocu ou-se e le i nes e ex o sob e as consequências
da peculia elação en e a p odução da sé ie e os li os de Geo ge R. R. Ma in. Podemos,
i onicamen e, es abelece um pa alelo en e uma ase mui as ezes esc i a no li o e
epe ida na sé ie (“ he win e is coming”) e a c escen e p eocupação dos p odu o es com
a ap oximação do momen o em que a sé ie ul apassa ia a na a i a p ees abelecida nos
li os: se na p imei a empo ada e a uma p eocupação longínqua, com o a ança do
empo ai-se o nando e iden e que e a uma ci cuns ância ine i á el que, depois, se
ans o ma ia em ealidade.
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Spoile ale : pa a abo da as duas ques ões elencadas nos pa ág a os an e io es
o nou-se ine i á el e e i nes e ex o pe sonagens, locais e e en os p esen es nos li os
e/ou nos guiões da sé ie. Po isso, a lei u a das p óximas páginas pode se desaconselhá el
pa a quem não leu os p imei os e/ou não iu a segunda, mas enciona azê-lo; nes e caso,
se o lei o ac edi a que a igno ância dos ac os na ados é essencial pa a a ap eciação de
uma ob a de icção, de e á e i a le os capí ulos in e médios e a ança di e amen e pa a
a conclusão. Ressal e-se, no en an o, que a lei u a des as páginas não a e a á a uição de
Game o Th ones (em qualque um dos seus dois o ma os) a quem pa ilha com o au o
des e ex o a ideia de que a his ó ia in e essa menos do que a manei a como se con a a
his ó ia.
2. “You know no hing, Jon Snow”: e e ências his ó icas em Game o
Th ones.
A ase “you know no hing, Jon Snow”, eco en emen e p o e ida pela pe sonagem
Yg i e, pode se in e p e ada como uma i onia de Geo ge R. R. Ma in, aludindo aos
di e sos mecanismos de cons ução da na a i a que pe mi em a manipulação do
in e esse dos lei o es dos seus li os (e dos espec ado es da sé ie), con ibuindo
decisi amen e pa a a popula idade de Game o Th ones.
Umbe o Eco, no seu ensaio “A ino ação no se ial”, e e e ques ões elacionadas com
a “ ipologia de epe ição”, a i mando que o sucesso de uma sé ie ele isi a não se de e à
no idade (con a iamen e ao que o público supõe); pelo con á io, de e-se ao
econhecimen o de um ema, de um esquema na a i o conhecido, e ao con ac o
eco en e com pe sonagens que se ão, p og essi amen e, o nando amilia es. Assim, a
“se ialidade” nos media implica um p ocesso de econhecimen o que começa po se
inconscien e e depois se pode (ou não) o na conscien e: se no início, julgamos encon a
“qualque coisa que à p imei a is a não pa ece igual a qualque ou a coisa”, depois
podemos cons a a que, “de alguma manei a”, es amos e e i amen e a assis i a algo “que
já conhecíamos” (Eco, 2016, pp. 133-135).
E e i amen e, o esquema na a i o de GoT segue uma es a égia com adições na
no ela ele isi a; a sua o iginalidade es á apenas em exace ba as componen es da ecei a
con encional, ampliando exponencialmen e o núme o de pe sonagens, sí ios e na a i as
pa alelas, num jogo de di e gências e con e gências (Se gean , 2021) que ob iga o
espec ado a um cons an e apelo à memó ia. No en an o, o o ma o s eaming, que a sé ie
ajudou a consolida , ap esen a possibilidades no as, que o a as am da sé ie adicional; o
espec ado pode de ini o seu p óp io i mo, assis indo aos di e en es episódios segundo
a sua con eniência (podendo mesmo e oda uma empo ada de seguida), o que a e a o
modo como o apelo à memó ia se desencadeia.
O e e ido jogo de di e gências e con e gências na na a i a êm uma elação mui o
di e a com alguns an eceden es, en e os quais se des aca O Senho dos Anéis.
Em The Lo d o he Rings a na a i a ambém pa e de uma c iação li e á ia que já
inha uma as a legião de admi ado es. Os li os de J. R. R. Tolkien, esc i os em meados
dos anos 50, conhece am uma p imei a adap ação ao cinema num ilme de animação de
Ralph Bakshi (em 1978), mas oi apenas no início do século XXI, com os ês ilmes
ealizados po Pe e Jackson (The Fellowship o he Ring em 2001, The Two Towe s em
2002 e The Re u n o he King em 2003) que a na a i a alcançou um impac o global.
A colagem do au o ame icano a es e au o b i ânico ica logo e iden e no nome que
ado a, ainda adolescen e, e que su ge depois esc i o na capa dos seus li os: nascido
Geo ge Raymond Ma in, ac escen a um Richa d pa a consegui o segundo “R” de
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Geo ge R. R. Ma in. A admi ação pela ob a de Tolkien é cla amen e assumida pelo au o
de GoT em di e sas en e is as, onde admi e abe amen e que usou alguns p incípios
na a i os simila es:
Tolkien was my g ea model o much o his. Al hough I di e om Tolkien in impo an ways, I'm
second o no one in my espec o him.
I you look a Lo d o he Rings, i begins wi h a igh ocus and all he cha ac e s a e oge he . Then,
by he end o he i s book, he Fellowship spli s up and hey ha e di e en ad en u es. I did he same
hing. (Geo ge R. R. Ma in apud Hibbe d, 2011)
Em ambos os casos, pa a além da já e e ida mul iplicidade de pe sonagens, luga es
e na a i as, exis e ainda uma e ocação medie al que se e le e nos cená ios, nas oupas,
nos acessó ios e no compo amen o dos pe sonagens, o que ambém é admi ido po
Ma in (Hibbe d, 2011).
Em “Dez modos de sonha a idade média”, Umbe o Eco esc e e sob e as á ias
o mas como pode oma o ma o ascínio medie al, e quase odas se podem aplica a
Game o Th ones: a e isi ação de uma e a “passada e i ep odu í el”, um “luga bá ba o,
e a i gem de sen imen os elemen a es, época e paisagem o a de oda a lei”, uma idade
“ omân ica que se delei a nas e as dos cas elos em uinas”, que pode se “ is a como
an ído o da mode nidade”, po que é o luga em que encon amos “um sabe bem mais
an igo”, que “insc e e o azmen e na sua his ó ia in empo al udo o que não se pode nem
p o a , nem alsi ica ” (Eco, 2016, pp. 90-92).
O medie alismo p esen e no uni e so de GoT es ende-se a é ao pe íodo de ansição
pa a o enascimen o: a gue a en e os S a k e os Lanis e pode e encon ado inspi ação
na Gue a das Rosas, que opôs as amílias Lancas e e Yo k na lu a pelo ono da
Ingla e a no século XV; nesse con ex o, Ce sei Lannis e pode se associada a Ma ga e
de Anjou e Ned S a k a Richa d o Yo k (Gilmo e, 2014). Do mesmo modo, B ienne o
Ta h pa ece se uma e ocação de Jeanne d’A c (que ambém i eu no século XV, ês
décadas an es, em F ança).
Exis em, no en an o, cenas e pe sonagens que e ocam ou as épocas: Jo ey
Ba a heon pa ece se inspi ado em Calígula, jo em impe ado omano louco e sádico
(assassinado com 29 anos); a a alidade da ap oximação do in e no, associado ao início
de uma e a amaldiçoada, com pe igos sob ena u ais, em o seu equi alen e na mi ologia
nó dica; os Do h akis, po o gue ei o, eme em pa a os mongóis enquan o o seu líde ,
Khal D ogo, pode se associado a Genghis Khan (Sil a, [s.d.]).
Geo ge Ma in es udou his ó ia como disciplina cu icula da sua licencia u a em
jo nalismo e isso o na-se e iden e na cons ução das suas pe sonagens. O mesmo se pode
dize em elação aos cená ios: as cenas de Go deco em em ambien es a iados, quase
odos com uma e ocação his ó ica. Qua o das suas cidades pa ecem e oca os elemen os
mais ma can es das se e ma a ilhas do mundo an igo: Highga den (cidade dominada po
campos de lo es) eme e pa a os ja dins suspensos da Babilónia, o colosso de Rhodes
em o seu pa alelo na gigan esca es á ua que ecebe os isi an es de B a os, o a ol de
Alexand ia em o seu equi alen e em Old Town e a pi âmide de Gisé encon a uma
ein e p e ação em Mee een.
Face à di e sidade de cená ios desc i os nos li os, a adap ação pa a ele isão oi
ilmada em locais de ca á e mui o dis in o, que ão desde a e ocação muçulmana, com
cenas ilmadas em Espanha (Gi ona, Valência, Alme ia, Guadalaja a, Se ilha, Co doba)
e Ma ocos (Ma aquexe, Oua zaza e), a é às paisagens geladas da Islândia, passando
pelos cas elos medie ais da I landa do No e e pelos ambien es enascen is as ou ba ocos
de Mal a (Con u & Pau, 2022).
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A pe ceção des a di e sidade geog á ica pa ece se um aspe o impo an e a ansmi i
ao lei o , uma ez que Ma in inclui mapas dos locais onde se passa a ação nas p imei as
páginas dos seus li os. Do mesmo modo, na sé ie da HBO, o gené ico ap esen a uma
animação idimensional es ilizada do e i ó io, chamando a a enção do espec ado pa a
a as idão e di e sidade do uni e so onde deco em as á ias na a i as pa alelas
(Se gean , 2021). Há, no en an o, uma egião que em algum p o agonismo em elação às
ou as: Wes e os é o cen o da ação no início e no im da sé ie, sendo ambém aí que se
passam a maio pa e das cenas nas empo adas in e médias.
Cu iosamen e, se analisa mos os mapas de Ma in, pa ece ha e alguma semelhança
o mal en e es e e i ó io e as ilhas b i ânicas, que se o na mais e iden e se in e e mos
a o ma da I landa e a coloca mos em baixo da Ingla e a (B illian Maps, 2023). Fazendo
es a mon agem, cons a amos que a mu alha de GoT (elemen o undamen al da na a i a,
si uado no ex emo no e de Wes e os) se encon a num local equi alen e ao da mu alha
de Ad iano, mandada cons ui pelo impe ado omano que lhe deu o nome na on ei a
en e a Ingla e a e a Escócia. Pa a os omanos, al como pa a os soldados da Nigh 's
Wa ch, a no e da mu alha i iam ibos sel agens e indomá eis…
The Wall p eda es any hing else. I can ace back he inspi a ion o ha o 1981. I was in England
isi ing a iend, and as we app oached he bo de o England and Sco land, we s opped o see
Had ian’s Wall. I s ood up he e and I ied o imagine wha i was like o be a Roman legiona y,
s anding on his wall, looking a hese dis an hills. I was a e y p o ound eeling. Fo he Romans a
ha ime, his was he end o ci iliza ion. (Geo ge R. R. Ma in apud Gilmo e, 2014)
Vale a pena ambém e e i , nes e con ex o, o p o agonismo dado à cidade de
Dub o nik nos cená ios de GoT: oi aí que o am ilmadas g ande pa e das cenas
ela i as a King’s Landing, a capi al dos se e einos de Wes e os.
A Dub o nik que conhecemos hoje é o esul ado de uma his ó ia de esiliência: cidade
o i icada, edi icada a pa i do seculo VII (após a des uição da izinha cidade de
Epidau um), esis iu a um longo ce co Sa aceno no século IX, c esceu com a ag egação
da ilha La ae no inal do século XI e o nou-se o po o mais impo an e do Ad iá ico, nos
séculos XIV e XV. Face à ameaça do impé io O omano, a República de Dub o nik
negociou habilmen e a sua independência, p oclamando que “a libe dade é mais aliosa
que o ou o”. Após o e amo o de 1667, que des uiu g ande pa e da cidade, o es ilo
ba oco dominou a econs ução. As in asões napoleónicas do inal do século XVIII
acaba am com uma his ó ia de mais de mil anos de libe dade; seguiu-se o domínio do
impé io Aus o-Húnga o e, depois da p imei a Gue a Mundial, a in eg ação na
Jugoslá ia. A cidade so eu ainda a ocupação Fascis a, du an e a II G ande Gue a, e os
a aques da Sé ia e do Mon eneg o, du an e a gue a ci il dos anos 90; é na sequência
des e úl imo con li o que eencon a a sua libe dade (I elja-Dalma in, 1997, pp. 13-38).
Desenhadas (e sucessi amen e econs uídas ao longo dos séculos) pa a esis i a
odos es es con li os, as suas mu alhas con am es a his ó ia em ped a; e á sido a sua
p esença imponen e que mo i ou a escolha pa a local das ilmagens ela i as a King’s
Landing (que ambém é cená io de impo an es ba alhas), pelos p odu o es de GoT. A
cidade exis en e oi usada como base, sendo depois ac escen ados digi almen e edi ícios
impo an es pa a a na a i a, como o G ea Sep o Baelo ( emplo majes oso dedicado ao
Deus das Se e Faces) e o Red Keep (cas elo eal, onde es á o T ono de Fe o, símbolo do
pode nos Se e Reinos); es a écnica ansmi e aos espec ado es uma maio ilusão de
ealidade.
Visi ando Dub o nik, podemos acilmen e econhece a Blackwa e Bay de King’s
Landing (Wes Ha bou , na ealidade), baía dominada pelo Fo e Lo ijenac, uma
o aleza medie al que, na sé ie, oi al e ada digi almen e, mas ainda ap esen a mui os
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aços econhecí eis. No nono episódio da segunda empo ada de GoT, deco eu aí uma
impo an e ba alha; es e oi um dos qua o episódios cujo guião oi esc i o po Ma in e,
ao con á io do que semp e acon ecia a é en ão, a ação deco e in ei amen e em King’s
Landing.
Podemos igualmen e encon a em Dub o nik a escada onde se inicia a “caminhada
da e gonha” de Ce sei Lannis e , uma das cenas mais amosas da sé ie, que e á sido
inspi ada na humilhação so ida no século XV pela aman e do ei Edwa d IV, Jane Sho e
(S a ne , 2020). Na ealidade, es a escada ia ba oca, idealizada po Padalacqua em 1738,
é inspi ada na sua congéne e da p aça de Espanha, em Roma (p oje ada po Alessand o
Specchi e F ancesco de Sanc is, em 1725), e dá acesso à p aça Bosko ic, onde se si ua a
ig eja Jesuí ica desenhada po And ea Pozzo na ansição dos séculos XVII/XVIII (I elja-
Dalma in, 1997, 89). Na King’s Landing imaginada pela HBO, é no al o des a escada ia
que se si ua o G ea Sep o Baelo .
Há, po an o, em GoT uma pe manen e associação de pe sonagens e cená ios a
pe sonalidades his ó icas e sí ios eais. Mas nada dis o é explicado ao lei o (ou ao
expec ado da sé ie), que só pode á aze es as associações se conhece as e e ências.
Es e jogo de duplos sen idos, ípico da linguagem pós-mode na (Jencks, 1986, p. 14),
pe mi e a a de o ma di e enciada dois ipos de público: o mais in o mado, a quem o
au o ai alimen ando o ego com a descobe a das e e ências escondidas, e o menos
e sado em his ó ia, pa a quem a na a i a êm ou os a a i os, que abo da emos
seguidamen e.
3. Humo , iolência e sexo como mecanismos de cons ução da na a i a:
“I d ink and I know hings”.
A a ação sexual e o medo da mo e são duas pulsões essenciais do se humano,
associadas ao ins in o de sob e i ência da espécie. Em Game o Th ones, o au o joga
com as emoções do espec ado , abalhando a p esença do sexo e da iolência como
componen es essenciais da na a i a (Roy, 2020). O humo , pelo con á io, unciona como
con apon o, ali iando pon ualmen e a ensão c iada (Pe ei a, 2016).
Es ando já p esen e nos li os de Ma in, o modo como es as ês componen es são
a adas na p odução ele isi a ajudou a cons ui a au a de o iginalidade da sé ie; es a é,
no en an o, uma ecei a an iga, aplicada com maio ou meno qualidade no cinema e em
sé ies ele isi as há á ias décadas, de modo a di e i o espec ado , a e a as suas
emoções e choca as sensibilidades mais mo alis as. No caso de GoT, como em mui os
ou os, as cenas de iolência e sexo pe mi i am que a sé ie osse mo i o de polémica e,
po an o, de maio a enção mediá ica.
A iolência es á associada ao medo da mo e; Edmund Bu ke (1757) de endia que o
con on o com o pe igo e a do p o ocam emoções o es que, quando associadas a um
dis anciamen o que ga an a uma sensação de segu ança, despe am sensações posi i as:
o co ação ba e mais dep essa, uma pessoa sen e-se mais despe a, mais i a. Se es a
ealidade já es a a p esen e na li e a u a e na pin u a, oi explo ada no cinema desde mui o
cedo, po que se o nou apidamen e e iden e que es e meio de comunicação em
condições ideais pa a manipula as emoções da assis ência: o ambien e escu o da sala e
as g andes dimensão das imagens na ela acen uam o impac o, a enuando o
dis anciamen o do espec ado , azendo esquece que se es á a assis i a uma cena
iccional.
Em ele isão, ou no ec ã de um compu ado , o impac o não é o mesmo: a ilusão pe de
a sua e icácia, o que le a a que sejam is os com maio descon ação cenas que, no
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cinema, choca iam os espec ado es mais sensí eis. Is o em conduzido a um aumen o
p og essi o dos ní eis de iolência em sé ies ele isi as; os seus p odu o es e
ealizado es êm explo ado es e géne o a é à exaus ão, p o ocando uma cada ez maio
habi uação no público.
No ilme Il sol dell'a eni e, Nanni Mo e i c i ica i onicamen e es e cí culo icioso
de banalização da iolência. Gio anni, o p o agonis a (um ealizado de cinema
in e p e ado pelo p óp io Mo e i), in e ompe du an e oi o ho as as ilmagens de um
ilme p oduzido pela sua mulhe Paola pa a ques iona o modo como a iolência de uma
de e minada cena é ap esen ada; ge a-se um longo deba e, pa a o qual são chamados a
pa icipa pe sonagens eais: o a qui e o Renzo Piano (con ac ado po ele one), a
ma emá ica Chia a Vale io e um c í ico de a e não iden i icado (Gio anni en a ainda
con ac a ele onicamen e Ma in Sco cese, que não a ende a chamada). Ressal e-se, no
en an o, que o pe sonagem de Mo e i não censu a a exis ência de iolência, c i ica apenas
a o ma como é banalizada, ap esen ada como “uma iolência sem peso”.
Geo ge Ma in es á pe ei amen e conscien e des a ci cuns ância, quando esc e e os
seus li os, onde a p esença da iolência e da mo e é cons an e, mas não é banalizada;
i ando pa ido des a habi uação do público ao sangue, GoT abalha uma ce a es e ização
da iolência, que es á p esen e em doses iguais nos li os e na sé ie (mas êm,
e iden emen e, maio impac o no o ma o audio isual). Es a ca a e ís ica não é, no
en an o, pa icula men e o iginal, uma ez que a es e ização das cenas de sangue es á
p esen e no cinema há á ias décadas: êm imedia amen e à memó ia ilmes de Se gio
Leone, Ma in Sco sese, F ancis Fo d Coppola e Quen in Ta an ino, en e mui os
exemplos possí eis.
Do mesmo modo, não podemos ala de o iginalidade ela i amen e à p esença de
cenas de sexo em sé ies p oduzidas pa a pla a o mas de s eaming. Em GoT elas são uma
componen e indissociá el da na a i a, que es a a já p esen e nos li os e é en a izada na
sé ie. Ma in explica que a escolha da HBO pa a a p odução da adap ação ele isi a se
de e, em g ande pa e, à necessidade de man e as cenas de sexo de o ma explici a.
One o he easons I wan ed o do his wi h HBO is ha I wan ed o keep he sex. We had some eal
p oblems because Dany is only 13 in he books, and ha 's based on medie al his o y. They didn' ha e
his concep o adolescence o he eenage yea s. You we e a child o you we e an adul . And he onse
o sexual ma u i y mean you we e an adul . So I e lec ed ha in he books. Bu hen when you go o
ilm i you un in o people going c azy abou child po nog aphy and he e's ac ual laws abou how you
can' depic a 13 yea old ha ing sex e en i you ha e an 18 yea old ac ing he pa — i 's illegal in he
Uni ed Kingdom. So we ended up wi h a 22 yea old po aying an 18 yea old, ins ead o an 18 yea
old po aying a 13 yea old. I we decided o lose he sex we could ha e kep he o iginal ages. (…)
The ac we made all hese changes indica es how impo an we hough sex was. (Geo ge R. R. Ma in
apud Hibbe d, 2011)
E e i amen e, as cenas de sexo são mui as ezes essenciais na na a i a de GoT: na
e olução da elação de Daene ys Ta ga yen com Khal D ogo, po exemplo, ou na his ó ia
de Ty ion Lannis e . Mas, no caso des e úl imo, o sexo es á p esen e de ou a o ma, quase
semp e associado ao humo que ca a e iza a pe sonagem e o o na i esis í el pa a o
espec ado . Num p imei o momen o, o espec ado i da sua igu a, com “escá nio”, sendo
aqui o humo um mecanismo de cons a ação de supe io idade, que é o p imei o dos ês
modos eo izados po Rica do A aújo Pe ei a em A Doença, o So imen o e a Mo e
En am num Ba . Com o a ança da na a i a o espec ado começa a i -se com ele, pela
o ma como Ty ion i oniza com as incong uências do mundo em que i e (o segundo
modo desc i o nes a eo ia). Depois, inalmen e, pe cebe que o seu sen ido de humo se
elaciona com o seu so imen o; es e cons i ui um e cei o modo de usa o humo , como
GAME OF THRONES, O ÚLTIMO PONTO DE ENCONTRO TELEVISIVO 57
REVISTA 2i, Vol. 7, N.º 11, 2025, 49–63. eISSN: 2184-7010
meio “de ali ia ensões e inibições” que o e ece “uma espécie de consolo” ace a um
mundo assus ado (Pe ei a, 2016, pp. 16-19).
A ase “ ha 's wha I do, I d ink and I know hings”, di a po Ty ion no segundo
episódio da sex a empo ada de GoT, sin e iza bem a melancolia que ca a e iza es e
pe sonagem, que p ocu a compensa a sua pequena es a u a com o conhecimen o e o
humo . A sua ida es á ma cada pela agédia desde o seu nascimen o, quando a sua mãe
mo e em consequência do pa o. A sua au oculpabilização, associada às ca a e ís icas
ísicas que ap esen a desde a nascença (que lhe ale am o cognome “ he Imp”) e à
pe ceção do ódio do pai e da i mã, azem com que enha c escido ma cado po um
complexo de in e io idade, con abalançado pela necessidade de sob e i ência num
ambien e hos il, que aguçou a sua in eligência.
Pa a Ty ion, o sexo é, como o inho, um escape momen âneo da agédia que ma ca
a sua exis ência; mas, ao longo da na a i a, acaba ambém po se mais um elemen o
ágico, associado à aição e ao engano. O humo , pelo con á io, é um mecanismo que
desa ma os seus oponen es e o na e iden e a sua supe io idade in elec ual.
Es a é uma das pe sonagens mais bem conseguidas de GoT, cuja iqueza oi
en a izada pelo magni ico desempenho do a o Pe e Dinklage na sé ie ele isi a. É
ambém um bom exemplo ( al ez o melho ) do modo como Geo ge Ma in abalha a
empa ia do público com a sua na a i a, c iando pe sonagens de pe sonalidade densa e
complexa: se há algumas igu as unidimensionais, absolu amen e de es á eis (Jo ey
Ba a heon, Ramsay Bol on e Walde F ey são os exemplos mais e iden es), quase odos
os ou os ap esen am qualidades e de ei os, como qualque se humano.
4. “The win e is coming”: a passagem do empo em Game o Th ones.
A lógica se ial in oduziu um no o pa adigma na a e. As “ob as p oduzidas pelos mass
media” são “ epe i i as, cons uídas segundo um modelo semp e igual, de o ma a
p opo ciona em aos seus des ina á ios o que eles que iam e espe a am”, como e e e
Umbe o Eco, no (já e e ido) ensaio “A ino ação no se ial”, onde elenca á ios ipos de
epe ição: “ ep ise”, “decalque”, “sé ie”, “saga” e “dialogismo in e ex ual”. A e olução
da na a i a em Game o Th ones em ca a e ís icas pa icula es que pe mi em econhece
um des es ipos, a “saga”: uma “sucessão de e en os, apa en emen e semp e no os”, que
a e am “uma geneologia de pe sonagens” que, po sua ez, ambém se eno am e al e am:
“po que se subs i uem umas às ou as e po que en elhecem”, celeb ando “o consumo do
empo” (Eco, 2016, pp. 131-137).
E e i amen e, há em GoT uma p eocupação com a pe ceção da passagem do empo
que é cla amen e assumida: Geo ge Ma in con essa que uma das suas in enções e a aze
com que os pe sonagens mais no os ossem c escendo ao longo da na a i a (Hibbe d,
2011).
Po azões p agmá icas, es a in enção (que o au o con essa e sido uma di iculdade
na esc i a) o nou-se e iden e na sé ie. Uma ez que exis i am oi o empo adas, e cada
uma delas demo a a, pelo menos, um ano a p oduzi , a pe ceção do c escimen o dos
a o es que desempenha am os papeis de pe sonagens mais no os e a ine i á el: o a o
Isaac Hemps ead W igh (B andon S a k), e ia oi o anos no início das ilmagens do
episódio pilo o, exibido em ab il de 2011; quando e mina a úl ima empo ada, já em
dezano e anos…
O c escimen o dos a o es mais no os acompanha a na a i a e pe mi e ao espec ado
uma maio iden i icação com es es pe sonagens, como se de amilia es ou de amigos de
in ância se a asse. Tal ez po isso, o seu ácio de mo alidade seja conside a elmen e