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Empresas familiares e sustentabilidade ambiental e social: o caso da Petrotec

Cardoso, Gabriela Gomes

Abstract

A preocupação com o desenvolvimento sustentável, defende a ideia de que os interesses das gerações futuras têm de ser considerados com a mesma importância que os da geração atual. Este relatório reflete o estágio curricular realizado numa empresa familiar, um tipo de organização que apresenta uma grande heterogeneidade na forma como adota e reporta práticas de sustentabilidade. O objetivo principal do estágio centrou-se em fornecer à Petrotec – Inovação e Indústria, S. A. uma base sólida para a elaboração do seu primeiro relatório de sustentabilidade, em conformidade com as diretrizes internacionalmente aceites e adequadas a cada empresa. De forma a dar resposta aos pontos estabelecidos pelas normas GRI, os resultados obtidos, assim como os cálculos efetuados ao longo do estágio, permitem estruturar um modelo abrangente que poderá servir de base para o primeiro relatório de sustentabilidade da Petrotec – Inovação e Indústria, S.A., garantindo transparência na divulgação de indicadores. A metodologia utilizada passou, essencialmente, por levantar e sistematizar informação retirada do SAP, com o objetivo de analisar a conformidade da empresa com normas e padrões de sustentabilidade. Este trabalho fortalece a posição da empresa no seu setor de atuação pois a comunicação de informações sobre sustentabilidade é bastante valorizada pelos stakeholders, a adoção dessa prática, evidencia o compromisso da empresa com a responsabilidade social. Espera-se que o relatório sirva de base e motivação para futuras iniciativas, bem como para a consolidação de uma cultura mais sustentável na organização.

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Universidade do Minho Escola de Economia e Gestão Gabriela Gomes Cardoso Empresas Familiares e Sustentabilidade Ambiental e Social: O Caso da Petrotec abril de 2025 Empresas Familiares e Sustentabilidade Ambiental e Social: O Caso da Petrotec Gabriela Gomes Cardoso UMinho | 2025 Universidade do Minho Escola de Economia e Gestão Gabriela Gomes Cardoso Empresas Familiares e Sustentabilidade Ambiental e Social: O Caso da Petrotec Relatório de Estágio Mestrado em Economia Industrial e da Empresa Trabalho realizado sob a orientação de: Professora Doutora Lígia Costa Pinto Professora Doutora Isabel Correia abril de 2025 ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/ iii AGRADECIMENTOS Dedico o presente trabalho ao meu avô, com a certeza que me acompanha todos os dias, espero que estejas orgulhoso. De seguida, quero agradecer aos meus pais por todo o esforço, por todo o apoio e acima de tudo por acreditarem sempre em mim, vocês são o meu maior exemplo. À Lara que me tira o juízo todos os dias, mas é a minha pessoa favorita, esforço-me sempre para ser um exemplo para ti. À minha avó que é a pessoa mais genuína do mundo e me dá sempre força para lutar pelos meus objetivos. Ao Grupo Petrotec por me ter recebido durante os três meses de estágio para que pudesse desenvolver o meu trabalho. Agradecer ao meu supervisor Alexandre por todos os conselhos. Queria deixar um agradecimento especial à Vânia do departamento de qualidade por se ter mostrado sempre disponível para me ajudar, por toda a dedicação e por toda a atenção atribuída aos meus pedidos. À professora Isabel Correia que desde o primeiro ano, mesmo sem saber, me motivou sempre para que o fim deste capítulo fosse possível. À professora Lígia Pinto por ter acompanhado este trabalho e por todo o conhecimento transmitido. Sem o contributo de ambas este relatório não seria possível. À Beatriz e à Joana as minhas conterrâneas que se cruzaram no meu caminho e ficaram para sempre, sem vocês não seria a mesma coisa. Por fim, agradecer a todos que de alguma forma contribuíram para eu chegar até aqui. O meu sincero obrigada. iv DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. v Empresas Familiares e Sustentabilidade Ambiental e Social – O Caso da Petrotec Resumo A preocupação com o desenvolvimento sustentável, defende a ideia de que os interesses das gerações futuras têm de ser considerados com a mesma importância que os da geração atual. Este relatório reflete o estágio curricular realizado numa empresa familiar, um tipo de organização que apresenta uma grande heterogeneidade na forma como adota e reporta práticas de sustentabilidade. O objetivo principal do estágio centrou-se em fornecer à Petrotec – Inovação e Indústria, S. A. uma base sólida para a elaboração do seu primeiro relatório de sustentabilidade, em conformidade com as diretrizes internacionalmente aceites e adequadas a cada empresa. De forma a dar resposta aos pontos estabelecidos pelas normas GRI, os resultados obtidos, assim como os cálculos efetuados ao longo do estágio, permitem estruturar um modelo abrangente que poderá servir de base para o primeiro relatório de sustentabilidade da Petrotec – Inovação e Indústria, S.A., garantindo transparência na divulgação de indicadores. A metodologia utilizada passou, essencialmente, por levantar e sistematizar informação retirada do SAP, com o objetivo de analisar a conformidade da empresa com normas e padrões de sustentabilidade. Este trabalho fortalece a posição da empresa no seu setor de atuação pois a comunicação de informações sobre sustentabilidade é bastante valorizada pelos stakeholders , a adoção dessa prática, evidencia o compromisso da empresa com a responsabilidade social. Espera-se que o relatório sirva de base e motivação para futuras iniciativas, bem como para a consolidação de uma cultura mais sustentável na organização. Palavras-chave: Empresas Familiares; GRI (Global Reporting Initiative); Impactos Ambientais; Impactos Sociais; Sustentabilidade. vi Family Firms and Environmental and Social Sustainability: The Case of Petrotec Abstract The concern for sustainable development promotes the belief that future generations' interests must be deemed as important to those of the current generation. This report reflects a curricular internship completed in a family-owned firm, a type of organization that exhibits significant heterogeneity in how it adopts and reports sustainability practices. The internship aimed to help Petrotec - Inovação e Indústria, S.A. produce their first sustainability report using personalized recommendations. To address the requirements established by the GRI standards, the results obtained, combined with the calculations performed during the internship, allowed for the development of a comprehensive model that can serve as the foundation for Petrotec's first sustainability report, ensuring transparency in the disclosure of indicators. In order to evaluate the company's adherence to sustainability standards and norms, the technique mainly concentrated on collecting and organizing data taken from the SAP system. This activity increases the company's position in the sector, as stakeholders place a high value on the distribution of sustainability-related information. Adopting this practice displays the company's commitment to social responsibility. The report is designed to serve as a basis and incentive for future projects, as well as the establishment of a more sustainable organizational culture. Keywords: Environmental Impacts; Family Firms; GRI (Global Reporting Initiative); Social Impacts; Sustainability. vii ÍNDICE Direitos de autor e condições de utilização do trabalho por terceiros ............................................. ii Agradecimentos .......................................................................................................................... iii Declaração de integridade ........................................................................................................... iv Resumo ....................................................................................................................................... v Abstract ...................................................................................................................................... vi I. Introdução ................................................................................................... 1 1.1. Enquadramento e motivação ........................................................................................ 1 1.2. Estrutura do relatório ................................................................................................... 2 II. Enquadramento teórico ................................................................................ 4 2.1. Relatórios de sustentabilidade e desempenho das empresas ........................................ 4 2.2. Empresas Familiares e o Reporte da Sustentabilidade .................................................. 5 2.3. Sustentabilidade e desenvolvimento sustentável ......................................................... 10 2.3.1. Dimensão Económica .......................................................................... 12 2.3.2. Dimensão Social ................................................................................. 13 2.3.3. Dimensão Ambiental ........................................................................... 13 III. Elaboração de relatórios de sustentabilidade ............................................. 15 3.1. Conteúdo dos Relatórios de Sustentabilidade.............................................................. 15 3.2. Padrões GRI .............................................................................................................. 16 3.3. Regulação .................................................................................................................. 19 3.4. Barreiras, dificuldades, desafios ................................................................................. 23 IV. Apresentação da empresa .......................................................................... 25 4.1. História do Grupo Petrotec ......................................................................................... 25 4.2. Estrutura e atividade .................................................................................................. 26 V. Objetivos do estágio e descrição das tarefas .............................................. 28 5.2. Método de pesquisa ................................................................................................... 28 5.3. Tarefas realizadas ...................................................................................................... 29 5.4. Apresentação dos resultados ...................................................................................... 30 VI. Reflexão crítica: contributos para a elaboração do Relatório de Sustentabilidade da Petrotec – Inovação e Indústria S. A. ....................................... 35 6.1. Contributos para a Petrotec – Inovação e Indústria S. A. ............................................. 35 3 – Inovação e Indústria, S. A. onde é descrita a estrutura e as atividades da empresa. Por fim, o quinto capítulo destina-se à descrição dos objetivos, das tarefas realizadas, do método de pesquisa utilizado e consta, ainda, a apresentação de resultados. 4 II. Enquadramento teórico 2.1. Relatórios de sustentabilidade e desempenho das empresas Os relatórios de sustentabilidade têm como principal objetivo a demonstração de transparência e a prestação de contas sobre o desempenho das organizações em relação ao desenvolvimento sustentável. Surgem como uma ferramenta essencial para a divulgação de práticas ambientais, sociais e económicas, respondendo à crescente exigência de responsabilidade por parte de diversos stakeholders , como clientes, fornecedores, colaboradores, acionistas e comunidades locais. A questão para a qual se procura dar resposta é, por que razão as empresas optariam por elaborar relatórios de sustentabilidade de forma voluntária, na ausência de uma obrigação legal? A resposta pode ser encontrada na compreensão de que, ao comunicarem os impactos das suas atividades e adotarem uma postura de transparência, as empresas não apenas reforçam a sua reputação, como também fortalecem relações com as partes interessadas, ganham legitimidade e alinham-se com expectativas sociais emergentes. Assim, os relatórios de sustentabilidade assumem um papel estratégico, pois contribuem para a integração de critérios sustentáveis nas decisões empresariais, promovendo a ética e a sustentabilidade corporativa. As organizações enfrentam, cada vez mais, tanto oportunidades quanto desafios relacionados com o desenvolvimento sustentável, como é o caso dos fatores ESG (Environmental, Social and Governance) (Li et al., 2021). Ainda que a regulação tenha um papel relevante, é também a compreensão da importância dos temas ESG no desempenho organizacional — inclusive financeiro — que leva as empresas a divulgar, voluntariamente, informações não financeiras. Relativamente ao efeito dos Relatórios de Sustentabilidade no desempenho das empresas, a literatura apresenta evidências mistas. Segundo Broadstock et al., (2021), as empresas que possuem uma classificação positiva em aspetos relacionados com a sustentabilidade parecem estar menos expostas aos riscos, o que, consequentemente atrai mais investimentos e retornos de ações mais elevados. 5 Resultados idênticos foram obtidos por Lehenchuck et al., (2023). Este estudo, que investigou o impacto dos relatórios de sustentabilidade no desempenho financeiro das empresas, com base numa amostra de empresas turcas de alguns setores tradicionais, não encontrou evidência de impacto estatisticamente significativo nas medidas de desempenho financeiro utilizadas. Ao contrário, num estudo anterior, Abdulrahman Anam et al., (2011), identificaram, uma relação positiva entre transparência, divulgação de informações e valorização da empresa. Segundo a pesquisa, a transparência facilita a avaliação da qualidade dos preços das ações, o que contribui para o aumento do valor da empresa. Assim, uma maior divulgação de informações acerca de sustentabilidade, tende a ter um impacto favorável no valor da empresa (Bata, T. 2020). 2.2. Empresas Familiares e o Reporte da Sustentabilidade As empresas familiares (EF), têm um peso significativo na generalidade das economias. Segundo dados da Comissão Europeia, as empresas familiares representam mais de 60% de todas as empresas europeias, o que representa, em média mais de 40 a 50% de todos os postos de trabalho. Em Portugal, a Associação das Empresas Familiares, estima que as empresas familiares representam mais de 70% do tecido empresarial português, contribuindo para 65% do Produto Interno Bruto (PIB) e para 50% do emprego. As empresas familiares são, portanto, a forma de negócio predominante na maioria das economias salientando-se o seu contributo para a criação de emprego e o produto interno (CominoJurado et al., 2021). A caracterização de uma empresa familiar (EF) varia consoante o contexto, as circunstâncias e depende, também, das perspetivas dos investigadores. Por essa razão, importa afirmar que não existe apenas um conceito de empresa familiar. No entanto, em geral, vários estudos afirmam que o facto de a família se envolver no negócio, é o que faz do negócio diferente. Posto isto, parece haver um consenso quando a considerar EF, uma empresa que seja gerida e que pertença a uma família nuclear. A dinâmica familiar afetará as decisões e as ações do respetivo negócio, e é o facto dessa dinâmica estar envolvida no negócio que torna uma empresa familiar única. Ao nível da governação, se por um lado as empresas familiares possuem vantagem de beneficiar do envolvimento da família, tanto na propriedade como na gestão, por outro lado, as empresas necessitam 6 de profissionalização, o que pode implicar a contratação de pessoas externas à família, uma vez que podem enfrentar limites no que diz respeito ao conhecimento e às competências disponíveis no meio familiar. Alguma evidência empírica, mostra que possuir gestores externos à família pode ser particularmente benéfico para as empresas familiares, sobretudo se apresentarem um desempenho abaixo da média (Fang et al., 2021). Considerando que estas empresas possuem características distintas, tem-se observado que, pela sua própria natureza, tendem a adotar uma visão a longo prazo, centrada na continuidade para as futuras gerações. Essa perspetiva leva-as a valorizar práticas sustentáveis, já que a preservação de recursos e o fortalecimento das relações sociais são fundamentais para assegurar a sua viabilidade futura (Miller & Breton-Miller, 2005). Alguns autores defendem que a orientação a longo prazo das empresas familiares as torna mais propensas a envolverem-se em atividades ESG, refletindo assim, um compromisso com as próximas gerações e com o bem-estar da comunidade (Dou et al., 2019; Sun et al., 2024; Tseng, 2020). Por outro lado, outros autores defendem que o controlo por parte da família pode originar conflitos com os acionistas não familiares, reduzindo os incentivos para a adoção de práticas ESG (Aman et al., 2021). Para além disso, as estruturas de empresas familiares podem introduzir assimetrias de informação o que poderá dificultar a adoção de práticas ESG (García-Sánchez et al., 2021; Lien et al., 2016). Com o aumento da exigência de transparência e de responsabilidade corporativa, as empresas têm, cada vez mais, adotado práticas sustentáveis. Os relatórios de sustentabilidade, podem ser vistos como um meio de demonstrar o seu compromisso às partes interessadas. No entanto, a partilha de informação com as partes interessadas, traz alguns desafios para as empresas. Para as EF, a partilha de informação pode ter como consequência diversos custos associados ao controlo e à posse da empresa por parte da família (Dye, 1990). Por um lado, os relatórios de sustentabilidade podem trazer benefícios estratégicos e financeiros. A divulgação voluntária de informações não financeiras, reforça a credibilidade da empresa e facilita o seu crescimento a longo prazo (Martin et al., 2016). Contudo, ao lidar com as decisões relativas à divulgação voluntária, as empresas familiares enfrentam um problema, entre os benefícios de satisfazer as expectativas das partes interessadas e os custos associados a essa mesma divulgação voluntária. 7 Por outro lado, vários estudos encaram as características das empresas familiares como um entrave na redação de relatórios de sustentabilidade. De acordo com Ananzeh, (2022), os relatórios são um ponto negativo para estas empresas, por diversas razões. À cultura das empresas familiares está associada uma maior reserva quanto às suas práticas, ou seja, as EF acabam por ser mais discretas do que as outras empresas. A maior parte das EF são empresas de pequena ou de média dimensão, por essa razão, a limitação de recursos, tanto financeiros, como humanos, poderá ser um entrave à realização de relatórios de sustentabilidade. A natureza das EF, é um fator importante, que poderá explicar a heterogeneidade nas práticas de relatos de sustentabilidade (Block & Wagner, 2014). Para estes autores, nas EF existe uma combinação e interação entre a família e a empresa, o que, acaba por ter um impacto significativo na forma de estabelecimento de metas, nos processos de tomada de decisão, e no comportamento, tornando, as EF, empresas orientadas para o longo prazo e sempre muito adversas ao risco. A literatura apresenta vários argumentos a favor da ideia de que as empresas familiares são mais orientadas para apresentar relatórios de sustentabilidade: i) Em primeiro lugar, o facto do nome da família, estar ligado à empresa, pode levar a boas práticas ambientais, por uma questão de reputação. Segundo Dyer & Whetten (2006), este fator aumenta a preocupação sobre o efeito que o comportamento irresponsável em relação ao ambiente pode ter na reputação da família. ii) Além disso Terlaak et al., (2018), argumentaram que as EF são mais propensas do que outras empresas a fornecer informações não financeiras de forma voluntária, pois os benefícios da partilha de informação acabam por exceder os custos da mesma, sobretudo, quando o CEO da empresa pertence à família. Nesses casos, quando o controlo familiar é mais elevado, os benefícios superam as implicações negativas da partilha de informações não financeiras. iii) Por fim, a estratégia da partilha voluntária cria uma reputação de transparência que contribui para manter o bom nome da família (Martin et al., 2016). Segundo Hadjelias et al., (2022), a tomada de decisões estratégias em EF, foca-se em dois objetivos, a maximização da riqueza financeira e a preservação da riqueza social. Assim, alguns autores sugerem que as EF divulgam mais informações não financeiras (Parra – Domínguez et al., 2021), sobretudo para aumentar a credibilidade das suas ações (Maughan, 2023). 8 No contexto das EF, os procedimentos de gestão são distintos dos adotados pelas empresas não familiares, uma vez que a família acaba por ser uma parte interessada na empresa, e a governação da mesma acaba por afetar a disponibilidade da empresa para realizar relatórios de sustentabilidade. O controlo familiar afeta, de um modo geral, positivamente a divulgação de práticas de sustentabilidade quando está associado à influência direta da família nos negócios, mas não quando está associada à influência indireta. Quando a família exerce influência indireta apenas por meio da propriedade, sem se envolver diretamente no negócio, a divulgação de sustentabilidade está negativamente associada ao grau de participação familiar (Gavana et al., 2016). A adoção, por parte das empresas, de relatórios de sustentabilidade não ocorre sem motivo. Existem influências, internas e externas, e ainda fatores que motivam ou que, desencorajam, as empresas a adotar esta prática. São diversos os fatores que podem motivar esta prática, funcionando, a partilha de informação como um mecanismo de reposta à procura das suas partes interessadas, sendo elas, colaboradores, investidores, gestores, fornecedores, clientes, e até mesmo, a sociedade em geral. Desta forma, acaba por contribuir para melhorar a relação da empresa com as partes interessadas, resultando num melhor desempenho para as empresas (Al-Tuwaijri et al., 2004). Outro fator que motiva o reporte de informações não financeiras é o facto, das características da natureza das EF permitirem que as mesmas tenham um maior potencial para enfrentar os desafios futuros (Van Gil et al., 2014), dado que, as EF possuem uma perspetiva a longo prazo, têm fortes ligações com a comunidade, possuem ainda valores e uma cultura empresarial forte, entre outras. Para as EF, a reputação é algo valioso, pois ao contrário das outras empresas, não afeta apenas o desempenho corporativo, mas também o nome da família (Zellweger et al., 2013), assim, as empresas familiares prestam mais atenção à reputação para evitar denegrir o nome da família. Ou seja, as empresas familiares estão mais dispostas a proteger e a fortalecer a sua imagem na comunidade (Gómez-Melia et al., 2014), juntamente com o desejo de prolongar a empresa, de uma forma sustentável, para a próxima geração (Ward, 2016). De acordo com a literatura, o envolvimento da família impacta, de forma negativa, os relatórios de sustentabilidade devido, sobretudo, ao medo de perder o controlo sobre o negócio (Brunelli et al., 2024). O argumento é que a partilha de informação atrairia mais capital externo, o que poderia diluir o controlo da família sobre a empresa (Grham, Harvey & Rajgopal, 2005). Existem ainda autores que interpretam 9 as características específicas das EF, como um entrave à realização de relatórios de sustentabilidade, assim como à qualidade dos mesmos (Ananzeh, 2022; Al Nashef &Saaydah, 2021), devido sobretudo à falta de recursos especializados e financeiros, e ao facto de uma grande parte das empresas familiares, encarar o longo prazo apenas como a preservação do património da família, não significando um foco por parte da empresa na sustentabilidade. Por fim, ainda a governação tem influência na disponibilidade da empresa em realizar relatórios de sustentabilidade. Nas EF, de acordo com Martinez Ferrero et al., (2018), como a família já detém a maior parte da informação, a transparência na divulgação de informação ambiental possui um menor impacto, na diminuição da assimetria de informação. Além disso, a centralização de informação, permite que a empresa decida, estrategicamente, o que quer ou não divulgar. Empiricamente, Ho & Wong (2001) observaram que a percentagem de membros da família no conselho de administração, está negativamente relacionada com a divulgação de informações de forma voluntária. No entanto, Chau & Gray (2010) encontraram uma relação positiva entre propriedade familiar e a divulgação voluntária. Relativamente às influências externas e internas, estas são fundamentais na forma como as EF abordam os relatórios de sustentabilidade. Começando pelas influências externas, como por exemplo, a regulação ou a pressão das partes interessadas, podem incentivar ou dificultar a transparência das empresas. Da mesma forma que as outras empresas divulgam informações ambientais, maioritariamente, para dar resposta à procura das partes interessadas, também as EF o fazem. Para Craig & Dribell (2006), o ambiente em que as EF se inserem representa um aspeto intangível que as empresas protegem, pois é considerado uma fonte de vantagem competitiva sustentável (Sageder et al., 2018). Relativamente às influências internas, pelo facto de, nas EF, o nome da família estar associado à empresa, existe uma maior preocupação com a reputação, o que poderá levar a um maior compromisso com a transparência e a responsabilidade social, aumentando assim, a monitorização externa através da opinião pública. 10 2.3. Sustentabilidade e desenvolvimento sustentável O conceito de Sustentabilidade foi abordado na década de 1950 (Kidd, 1992) no seguimento de questões relacionadas com a preservação dos recursos naturais. Gladwin, Kennelly & Krause (1995) descreveram o desenvolvimento sustentável como um processo para alcançar o desenvolvimento humano de forma inclusiva, conectada, equitativa e segura. Até ao final da década de 70, o conceito de sustentabilidade referia-se apenas ao modo como determinados recursos deveriam ser explorados (Leal Filho, 2000). Atualmente, o conceito de sustentabilidade tem vindo a ganhar importância no mundo empresarial (Tjahjadi et al., 2022) e suporta a ideia de que os interesses das gerações futuras têm de ser considerados com a mesma importância e atenção dos da geração atual (Arnand & Sem, 2000). Numa fase inicial, a regulamentação ambiental colocou dificuldades às empresas, uma vez que impunham custos muito elevados. Apesar disso, as empresas começaram a modificar os seus processos, os produtos e os modelos de negócio, tendo resultado numa produção mais eficiente e da eliminação significativa de resíduos. O desenvolvimento sustentável não se restringe apenas às preocupações ambientais, mas implica também a concentração nas preocupações económicas e sociais. Apesar de existirem diversas versões do conceito de desenvolvimento sustentável nas organizações, existe uma opinião que predomina: para avaliar como uma organização se está a sair no que diz respeito à sustentabilidade, a mesma tem de ser medida (Ozdemir et al., 2011), utilizando para isso os relatórios de sustentabilidade. Elkington (1994), apresentou o conceito de Triple Bottom Line, fornecendo orientações para a medição e a avaliação do desempenho de uma determinada organização, através da ótica do desenvolvimento sustentável. O desenvolvimento sustentável tem por base três dimensões: o desenvolvimento económico, o desenvolvimento social e a proteção ambiental, o Triple Bottom Line da sustentabilidade respeita a integração dessas três dimensões. A sustentabilidade é essencialmente o equilíbrio entre esses três pilares, considerando-se por isso, que o desenvolvimento sustentável deve ser ambientalmente correto, economicamente livre e socialmente justo. Este processo é, segundo Elkington (1994), um caminho de incentivo às organizações, não só no sentido do aumento do lucro, mas também na procura de uma responsabilidade social e ambiental que o impacto do negócio em causa, provoca no planeta. 11 Segundo Wallner (1999), o desenvolvimento sustentável implica a adoção de estratégias inovadoras de forma a ultrapassar as dificuldades sentidas por parte das empresas na implementação das medidas impostas pela regulação. Contudo, a adoção de um sistema de produção mais sustentável, e o aumento da eficiência dos produtos pode não ser suficiente, apesar de contribuírem para melhorias significativas no grau de sustentabilidade. A partir do conceito de desenvolvimento sustentável, surge o termo de “Responsabilidade Social Corporativa” que é caracterizado pelas iniciativas que as empresas realizam, de forma voluntária, que contribuem para o desenvolvimento sustentável. Essas ações vão para além dos requisitos legais aplicáveis, isto é, não se limitam apenas ao que é exigido por lei, promovendo assim um comportamento mais ético e mais sustentável por parte das empresas (Belas & Zvarikova, 2021). Na literatura acerca da RSE/ RSC (Responsabilidade Social Corporativa) existe um consenso de que os benefícios superam os custos potenciais, dado que, uma qualidade superior nas práticas de RSE tem o potencial de afetar, de forma positiva, o valor da empresa, tanto no curto, como no longo prazo. Consoante a estrutura e os objetivos de práticas de RSE, as empresas obtêm diferentes benefícios que contribuem para melhorar o valor da empresa, entre os quais se pode destacar: (1) a competitividade no mercado; (2) a eficiência operacional; (3) maior produtividade dos colaboradores (Malik, 2014). Assim, alinhar as ações sociais com os objetivos corporativos, com a finalidade de obter uma atuação mais intensa nos domínios ESG, pode permitir às empresas maximizar o seu valor, uma meta que é considerada o objetivo prioritário das empresas (Malik, 2014). Uma das grandes dificuldades na literatura acerca da RSE, é a definição do que consiste em concreto, isto é, não há clareza sobre o que deve ser incluído na definição do conceito de RSE. Por esse motivo, surgem estudos que procuram identificar e quantificar as categorias que podem ser importantes de considerar para a construção de uma ligação entre as práticas de RSE e os seus resultados. No entanto, todos os métodos utilizados apresentam limitações. Para que este problema seja resolvido, é necessário que as práticas de RSE sejam medidas de forma consistente e uniforme. Assim, caso seja possível medir e comparar as atuações ESG entre empresas, é possível comparar os seus valores e desempenhos e medir a relação entre atuação ESG e o desempenho da empresa. 12 Existe um debate sobre se o comportamento socialmente responsável de uma empresa pode ser compatível com o objetivo de maximizar os interesses das partes interessadas, Aupperle et al., (1985), defendem que as práticas de RSE geram alguns custos adicionais que são suscetíveis de colocar a empresa em desvantagem. Por contrapartida, Alexander & Buchholz (1987) e McWiliiams & Siegel (2000) argumentam que esses custos são mínimos quando comparados aos benefícios obtidos. Os benefícios podem ser diretos ou indiretos: diretos através de iniciativas sociais e ambientais que influenciam diretamente o valor das ações da empresa; ou indiretos através de fatores como, por exemplo, a melhoria do desempenho dos trabalhadores. As partes interessadas possuem um papel fundamental a desempenhar na sobrevivência das empresas. O aspeto social dentro da abordagem das partes interessadas ganhou importância à medida que as empresas se começaram a concentrar, não apenas nas metas corporativas, mas também na promoção de objetivos sociais (Kleine & von Hauff, 2009). “O uso das estratégias RSE para a integração dos interesses das partes interessadas pode resultar numa situação de win-win que se alimenta devido aos efeitos exclusivamente positivos sobre os negócios, os clientes e o meio ambiente” (Elkington, 1994:4). O princípio do ESG possui três dimensões, E (environmental), S (social) e G (governance). É um princípio utilizado pelas empresas para avaliar o comportamento das mesmas, assim como para prever o seu desempenho futuro. As dimensões do ESG, são os três principais pontos a ter em consideração, sobretudo, no processo de análise de investimento, assim como na tomada de decisão, auxiliam ainda a medir a sustentabilidade e o impacto social das atividades empresariais (Li et al., 2021). 2.3.1. Dimensão Económica A dimensão económica estabelece a relação entre o crescimento da organização e o crescimento da economia (Alhaddi, 2015). Esta dimensão facilita ainda a sobrevivência da empresa através do auxílio na garantia da sustentabilidade da empresa, promovendo o desenvolvimento da sociedade, apoiando, consequentemente as gerações futuras (Spangenberg, 2005). Nogueira et al., (2002), defendem que a dimensão económica possui uma influência negativa sobre o desenvolvimento sustentável, uma vez que prioriza os lucros em detrimento das preocupações 19 estratégias; políticas; e o envolvimento das partes interessadas. Permitem esclarecer o perfil da organização, ajudando-a na deteção e compreensão dos seus impactos (GRI 2); • GRI 3: Temas Materiais 2021 - enumera os passos a seguir para a organização poder determinar os tópicos materiais mais relevantes associados aos seus impactos, descrevendo o modo como as normas setoriais são utlizadas neste processo. Inclui ainda conteúdos que a organização utiliza para relatar informações acerca do seu processo de definição de temas e o modo como gere cada tópico (GRI 3). As Normas Setoriais GRI pretendem aumentar a qualidade e a consistência dos relatórios de sustentabilidade. O objetivo passa por desenvolver normas para os diversos setores industriais, começando por aqueles que geram um maior impacto para o planeta. Para o GRI, um tópico considerase material sempre que tenha um impacto significativo na avaliação e na decisão de uma parte interessada, ou que tenha impactos económicos, ambientais ou sociais importantes (GRI). As normas setoriais listam tópicos materiais que provavelmente serão materiais para uma grande parte das organizações desse mesmo setor. Relativamente às Normas Temáticas GRI, estas funcionam como orientações para o fornecimento de informações acerca de temas específicos, como por exemplo, o desempenho económico, os materiais utilizados e a segurança no trabalho. Possuem uma visão geral e orientações específicas ao tema, auxiliando as organizações a gerir os impactos associados à sua atividade (GRI). Os padrões GRI têm desempenhado um papel de liderança no desenvolvimento de relatórios voluntários de sustentabilidade, antes dos relatórios de sustentabilidade serem obrigatórios (Carungu et al., 2022). A adoção voluntária das normas GRI, por parte das empresas, ao longo dos últimos anos, tornaram-nas as normas mais relevantes a serem utilizadas na elaboração de relatórios de sustentabilidade (Villiers et al., 2022). De acordo com o membro do conselho de administração das normas GRI, Eric Hespenheide, partilhar informações, globalmente, através das normas GRI, permite comparar os impactos económicos, ambientais e sociais, o que permite dar suporte ao processo de tomada de decisão (KPMG International, 2020). 3.3. Regulação Nos países da União Europeia, os relatórios de sustentabilidade, para a maioria das empresas, já não são voluntários. Os relatórios de sustentabilidade são obrigatórios, para empresas com mais de 500 20 funcionários, para empresas com mais de 450 milhões de euros de faturação por ano e ainda para empresas não europeias, mas que possuam transações significativas na Europa. A partir de 2025, esta obrigatoriedade estendeu-se, também, para as empresas médias (com mais de 250 funcionários ou 40 milhões de faturação por ano). A União Europeia tem-se destacado através da introdução de regulamentos ESG abrangentes que possuem implicações para as empresas que operam dentro do seu espaço. As normas europeias referentes à sustentabilidade estão a transformar a forma como as empresas abordam a responsabilidade ambiental, social e de governação. Existem várias normas, sendo as mais relevantes a Corporate Sustainability Reporting Directive (CSRD) e a Corporate Sustainability Due Diligence Directive (CSDDD). As diretivas mencionadas, estabelecem requisitos para a transparência nas práticas empresariais e a devida diligência ao longo das cadeias de valor, reforçando assim, o compromisso da União Europeia com uma economia sustentável. A CSDDD foi aprovada, em 2024, reforçando o compromisso da União Europeia com os direitos humanos e a gestão ambiental. De acordo com a CSDDD as empresas devem identificar, prevenir, mitigar e contabilizar os impactos da sustentabilidade nas suas atividades e ao longo das cadeias de valor. Através da adoção desta diretiva, aprovada pelo Conselho da União Europeia, a União Europeia propõe-se continuar a promover a responsabilidade e a sustentabilidade empresarial e a incorporação de práticas éticas e sustentáveis nas atividades empresariais. Inicialmente, a CSDDD previa a aplicação a um número mais elevado de empresas. No entanto, a atual diretiva, restringe a sua obrigatoriedade a empresas com um volume de negócios líquido mundial superior a 450 milhões de euros, por ano, reduzindo o número de empresas abrangidas de 6800 para aproximadamente 5300. A CSDDD destina-se a empresas da União Europeia que excedam o limite financeiro definido e ainda às empresas de países terceiros que possuam operações significativas na União Europeia. As empresas abrangidas pela diretiva, devem cumprir determinadas responsabilidades, sendo elas: • A realização da devida diligência das suas operações e da respetiva cadeia de valor, de forma a identificar, prevenir e mitigar os diversos impactos nos direitos humanos e no ambiente; 21 • Desenvolver e implementar estratégias eficazes, incluindo as mesmas nos seus processos de negócio; • Manter-se atualizada com a evolução dos padrões e das expectativas, utilizando a diretiva como uma estrutura capaz de promover a inovação, aumentar a sustentabilidade e, ainda, construir cadeias de fornecedores resilientes. O processo de “ due diligence ” estabelecido na diretiva abrange as seis etapas definidas pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) para uma conduta empresarial responsável: i) incorporação da conduta empresarial responsável nas políticas da empresa; ii) a identificação e a avaliação de impactos efetivos e potenciais associados às operações da empresa; iii) a interrupção, mitigação e prevenção de impactos; iv) a abordagem da implementação e dos resultados do processo de devida diligência; v) a comunicação às partes interessadas relativamente à forma como os impactos causados estão a ser tratados; vi) a prestação/cooperação para remediar os danos, quando necessário. Relativamente à sustentabilidade corporativa, a diretiva estabelece, como referido anteriormente, o dever de diligência para as grandes empresas identificarem e abordarem impactos nos direitos humanos e no ambiente. Além disso, a diretiva estabelece a obrigação das empresas adotarem e colocarem em prática um plano de transição para mitigação das mudanças climáticas que tem como finalidade garantir, que o modelo de negócio e a estratégia da empresa sejam compatíveis com a transição para uma economia sustentável. Os principais deveres de diligência, no âmbito da diretiva, incluem algumas ações, tais como a integração da devida diligência nas políticas corporativas e nos sistemas de gestão de riscos, a identificação de impactos adversos aos direitos humanos e ao ambiente nas operações da empresa, bem como nas subsidiárias, e nos parceiros de negócio. As empresas têm de prevenir ou mitigar impactos potenciais e, quando os impactos negativos já tenham ocorrido, terminar com os mesmos ou, quando não for possível de imediato, minimizar as suas consequências. As empresas são ainda responsáveis por fornecer soluções se elas causaram o impacto ou contribuíram para o mesmo, através de atos ou omissões. Para finalizar, antes de ser tomada uma medida extrema, as empresas devem optar pelas outras ações, no entanto, se todas as outras falharem e os impactos negativos forem elevados, a empresa será obrigada a terminar a sua relação comercial. No entanto, esta opção só deve ser tomada se não existir outra que minimize os danos. 22 Assim, em suma, as empresas abrangidas pela diretiva possuem a obrigação de envolver as partes interessadas, isto é, consultar as mesmas ao longo do processo, estabelecer e manter um procedimento para notificar as mesmas, monitorizar a eficácia das medidas de “due diligence” e, por último, comunicar, de forma pública, acerca da devida diligência de acordo com a diretiva de relatórios de sustentabilidade corporativa e as normas europeias de relatórios de sustentabilidade. Mais recentemente, em fevereiro de 2025, a Comissão Europeia desenvolveu uma proposta diretamente relacionada com a responsabilidade das empresas relativamente às suas obrigações ambientais, sociais e de governação, a proposta Omnibus. A Omnibus vai ao encontro da ideia de que as empresas devem integrar a sustentabilidade nas suas decisões estratégicas, com o mínimo de burocracia exigida. Propõe alguns ajustes na CSRD, tornando-a mais simples, o que, acaba por ter impacto na responsabilidade das empresas pois, para as empresas de menor dimensão, será possível adotar normas de relato de sustentabilidade mais acessíveis, o que contribui para uma maior adesão, por parte das empresas à divulgação transparente de informações e evitar o greenwashing (prática através da qual as empresas apresentam a adoção de práticas sustentáveis, no entanto, as ações efetuadas, são contrárias). De acordo com a KPMG (2025), a proposta Omnibus propõe, também, alterações nos prazos que as empresas possuem para apresentar os seus relatórios de sustentabilidade. Além disso as empresas ficam obrigadas a garantir que os seus fornecedores possuam práticas sustentáveis. Por fim, o imposto CBAM (Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira) isenta determinados importadores de algumas obrigações, no entanto, mantém a exigência de elaboração de relatórios para setores como o do aço, cimento e alumínio. Dessa forma, a redução das emissões torna-se uma estratégia fundamental para que as empresas importadoras minimizem custos adicionais e preservem a sua competitividade no mercado. Adicionalmente, esta medida contribui para diminuir a desvantagem competitiva de empresas europeias face às estrangeiras. 23 3.4. Barreiras, dificuldades, desafios Durante o processo de elaboração de relatórios de sustentabilidade, é importante considerar tanto as vantagens como os desafios envolvidos nesse processo. Uma das vantagens é o facto de os relatórios promoverem práticas ambientais, sociais e economicamente sustentáveis. Outro grande benefício é a comunicação da empresa com as suas partes interessadas de forma transparente, contribuindo para a construção de uma relação de confiança entre as partes (Kolk, 2005). Do ponto de vista da empesa, Deegan (2014) demonstrou que, embora existam diversas teorias que motivam uma empresa a reportar informação relacionada com a sustentabilidade, os motivos de relatos sustentáveis estão, fortemente, associados à legitimidade, às normas e às partes interessadas. A legitimidade, sugere que, as práticas sustentáveis podem fortalecer a posição de uma empresa, evidenciando a sua capacidade de dar reposta às expectativas das partes interessadas e, ao mesmo tempo, garantir a sua viabilidade económica. Por outro lado, do ponto de vista das partes interessadas (clientes, fornecedores, o governo, trabalhadores e a sociedade), os relatórios de sustentabilidade são considerados uma questão importante (Ferell et al., 2010). Vários autores, como McElroy & Engelen (2012) defendem que estas desempenham um papel crucial para garantir que as empresas reportem as suas estratégias de sustentabilidade. Assim, admitese que a empresa tem como objetivo, não apenas na maximização do lucro, mas também na miximização do seu valor (Martitosvan & Vasakmadze, 2013). Assim, a preocupação com a atuação das empresas nestas áreas tem vindo a aumentar, com destaque para o fenómeno do aquecimento global, que tem levado a uma maior pressão, por parte da sociedade, sobre as empresas, para que estas alinhem a sua atuação com os objetivos sociais. De acordo com Parry (2018), a sustentabilidade deixou de ser opcional, passando a ser um ponto inegável para o crescimento de uma empresa, tanto mais que, as gerações jovens são mais sensíveis à preservação do meio ambiente e ao tema da sustentabilidade (Musova et al., 2021). Relativamente aos desafios, (Kolk, 2005) refere desafios internos e externos. Um dos grandes desafios é o ceticismo em relação às vantagens que os relatórios de sustentabilidade trazem para o negócio e para a sociedade em geral. Mesmo depois de superar este desafio inicial, muitas empresas possuem barreiras que se tornam um obstáculo na elaboração dos relatórios de sustentabilidade, como por exemplo, a falta de pessoal qualificado para a sua elaboração, colheita de dados e processos de análise ineficazes, falta de recursos financeiros, entre outros. Existe no setor industrial, uma grande dificuldade em desenvolver relatórios de sustentabilidade, por diversas razões. Um dos principais obstáculos está 24 relacionado com a complexidade organizacional das empresas, que muitas das vezes possuem vários departamentos com diferentes prioridades e níveis de conhecimento nas práticas sustentáveis. Essa falta de alinhamento interno pode dificultar a recolha de informação. Está claro que, não existe apenas uma solução para uma produção sustentável, por essa razão, o tema da sustentabilidade nas indústrias é bastante debatido (Seacy & Buslovich, 2014). Outro obstáculo, nas empresas que operam no setor da indústria transformadora, é o facto de o processo logístico neste setor ser algo complexo (Fletcher & Grose, 2012), tornando-o um desafio para a monitorização e para a elaboração de relatórios de sustentabilidade. O elevado envolvimento das partes interessadas é um fator determinante para o processo, sendo que, em muitos casos, a colaboração não se mostra eficiente, quer por falta de interesse, quer por falta de conhecimento (Kolk, 2005). 25 IV. Apresentação da empresa 4.1. História do Grupo Petrotec O percurso do Grupo Petrotec, reflete o crescimento das suas empresas no setor de equipamentos e serviços para a indústria petrolífera. Desde a sua fundação, há mais de 40 anos, o Grupo expandiu a sua atuação, apostando na inovação e alargando a sua presença internacional. A Figura 3 apresenta uma cronologia com os principais marcos históricos do Grupo, destacando datas como, por exemplo, o ano de fundação, a expansão para novos mercados e o desenvolvimento de novas tecnologias. Figura 3 - Marcos Históricos Grupo Petrotec Fonte: História do Grupo Petrotec O início da atividade do grupo aconteceu em 1983, com a criação da Petrotec, com atividade na assistência técnica a postos de abastecimento. Em 1984, obteve por parte do Ministério Português da Indústria, a licença para a fabricação de bombas de combustíveis líquidos. Um ano mais tarde iniciou o fabrico de bombas de combustível, sob licença da marca holandesa Koppens Automatic, registando-se assim, a introdução, em Portugal, da primeira bomba eletrónica para combustíveis. Em 1988 teve início a expansão do grupo para outros serviços, 26 fundando a Petrónica e a Petroserve, com atividades na produção de hardware e software para a gestão de frotas e de soluções para estações de serviço, respetivamente. Em meados da década de 90, iniciou-se o fabrico de bombas de combustíveis e de equipamentos de lavagem automóvel. Em 1997, o grupo continuou a expandir a sua presença internacional. Por fim, em 2017, é fundada a mais recente empresa do grupo, a Hellonext para o desenvolvimento de soluções capazes de dar resposta à mudança de paradigma para um futuro energético limpo. 4.2. Estrutura e atividade A empresa Petrotec – Inovação e Indústria, S. A., é uma empresa familiar fundada em 1983, com sede em Guimarães e, atualmente encontra-se gerida pela segunda geração da família. Com tecnologia 100% própria e quatro décadas de experiência, a Petrotec – Inovação e Indústria, S. A. dedica-se ao desenvolvimento e produção de bombas de combustível, carregadores elétricos, equipamentos de lavagem automóvel e sistemas de pagamento e automação para infraestruturas de abastecimento, incluindo retalhos, frotas, aviação e marinas. Oferece soluções flexíveis e personalizadas, adaptadas às necessidades dos clientes. A sua atividade principal enquadra-se na CAE 28130 Fabricação de outras bombas e compressores, um subsetor da indústria da Fabricação de máquinas e de equipamentos para uso geral (CAE 2.8.1). A Petrotec – Inovação e Indústria, S.A., faz parte do grupo Petrotec que integra 20 empresas. Em termos de dimensão, enquadra-se na definição de média empresa, de acordo com os critérios propostos na Recomendação 2003/361 da Comissão Europeia. A figura 4 representa o Conselho de Administração do Grupo Petrotec. No entanto, para a Petrotec – Inovação e Indústria, S. A., de acordo com a certidão permanente da empresa, fazem parte do Conselho de Administração apenas membros da segunda geração da família. 27 Figura 4 - Conselho de Administração Fonte: Organograma do Grupo Petrotec Através da figura 4 é possível compreender que se trata de uma empresa familiar que se encontra no processo de sucessão entre gerações. Embora os fundadores da empresa (1º geração) ainda pertençam ao Conselho de Administração do Grupo, é a segunda geração que se encontra à frente da gestão operacional da empresa Petrotec – Inovação e Indústria, S.A. O Grupo Petrotec é o maior fabricante europeu de equipamentos para postos de combustível, com representação em 84 países, através da sua rede de distribuição e representação comercial, possuindo unidades industriais e filiais em diversos países, incluindo, Portugal, Espanha, França, Roménia, Reino Unido, Angola, Moçambique, África do Sul e Índia. Já instalou mais de 200.000 estações de serviço, sendo o parceiro industrial e tecnológico de algumas das maiores companhias do mundo. Integra funções que vão desde o fornecimento, o hardware , o software e assistência, apresentando-se como a única empresa, a nível mundial, capaz de oferecer soluções integrais. O grupo possui um comportamento alinhado com a sustentabilidade ambiental e social, expresso nas suas certificações. O projeto de investimento Descarbonização da Indústria Petrotec (financiado parcialmente com fundos Europeus do PRR), visa promover a transição para uma economia circular e neutra em carbono, proporcionando ganhos de eficiência energética. 28 V. Objetivos do estágio e descrição das tarefas 5.1. Objetivos Com o propósito de fornecer à empresa um guião, ou seja, as bases fundamentais para a elaboração de um relatório de sustentabilidade, foram definidos alguns objetivos estratégicos que serviram como ponto de partida para a realização do presente relatório de estágio: 1) Analisar aspetos relacionados com a sustentabilidade no contexto da empresa: compreender a posição da empresa relativamente à sustentabilidade e qual o grau de prioridade atribuído ao tema pela mesma; verificar se a empresa já divulgava informações relacionadas com a sustentabilidade e, sendo este o caso, conhecer as motivações que a levam a fazê-lo, se por exigências legais, por pressão das partes interessadas ou se por iniciativa própria. 2) Apresentar à empresa os potenciais impactos positivos e negativos, ou seja, oportunidades e dificuldades aliados à partilha de informação relacionada com as práticas de sustentabilidade da empresa. Evidenciar a importância da partilha de informação, sobretudo de dados ambientais, é também um dos objetivos do trabalho, demonstrando que esta partilha representa uma maisvalia, dado que contribui para a transparência e para a melhoria contínua da organização. 3) Para que seja possível atingir o propósito do estágio, é importante compreender se a empresa adota estratégias para contribuir para a sustentabilidade ambiental, como por exemplo, gestão de resíduos e eficiência energética, assim como práticas e políticas adotadas no âmbito da responsabilidade social, incluindo o apoio à comunidade local, boas condições de trabalho e a inclusão. 4) Por fim, o presente relatório fornece algumas orientações para a elaboração do relatório de sustentabilidade da Petrotec – Inovação e Indústria, S. A. 5.2. Método de pesquisa Desenvolveu-se um estudo qualitativo, uma vez que o propósito era acompanhar e contribuir para o processo. Uma análise qualitativa tem como chave o investigador, o ambiente é a fonte direta da informação, a análise de dados é feita de forma muito intuitiva e através da observação, por parte do investigador, de fenómenos que acontecem no ambiente da empresa (Kallmuenzer et al., 2022). 35 VI. Reflexão crítica: contributos para a elaboração do Relatório de Sustentabilidade da Petrotec – Inovação e Indústria S. A. 6.1. Contributos para a Petrotec – Inovação e Indústria S. A. O objetivo definido inicialmente para o meu relatório de estágio consistia na redação do primeiro relatório de sustentabilidade da empresa. No entanto, devido à falta de dados rigorosos, tal objetivo não foi possível por falta de informação. Assim, listam-se de seguida algumas recomendações importantes de ter em conta para a realização do relatório de sustentabilidade: 1) Ambiente regulatório: A regulação existente sobre o reporte de sustentabilidade em Portugal e na União Europeia tem evoluído de forma muito rápida, o que coloca problemas às empresas e aumenta a incerteza na gestão. A pertença a associações do setor e a associações empresariais com foco nas temáticas da sustentabilidade constitui uma forma de diminuir o custo de compilação de informação; 2) Recursos Internos: A estratégia de sustentabilidade da empresa deve ser assumida pela direção, mas deve assentar numa equipa interna que tenha como principal foco os relatórios de sustentabilidade. A mesma deve ser escolhida pelos colaboradores do departamento de qualidade, ambiente e segurança e deve ser constituída, no mínimo, por um elemento de cada departamento da empresa; 3) Parceiros externos: É fundamental que a empresa saiba quais são as expectativas dos seus stakeholders em relação à incorporação de práticas sustentáveis nas estratégias organizacionais; 4) Normas de reporte de sustentabilidade: A empresa tem de definir qual a norma de sustentabilidade de referência. No trabalho desenvolvido durante o estágio foram seguidas as normas GRI, de entre as quais a empresa deve selecionar os indicadores materiais aplicáveis; 5) Estruturação de canais de produção de informação: A elaboração de um relatório de sustentabilidade compreende diversas tarefas cuja elaboração requer um certo encandeamento temporal. A empresa deve estabelecer uma metodologia eficiente e rigorosa, de forma a garantir dados credíveis que permitam retirar conclusões relevantes e sustentadas por valores reais (numéricos); 36 6) Construção da matriz de dupla materialidade: A matriz de dupla materialidade compreende a identificação e avaliação do impacto ambiental e social da empresa no exterior, bem como a avaliação do impacto financeiro da dimensão ambiental e social na empresa. A elaboração desta matriz é essencial como forma de integrar todas as dimensões da empresa, nomeadamente a financeira. 6.2. Reflexões finais Com a realização do estágio e do presente relatório de estágio, pretendia-se, de uma forma geral, contribuir para a empresa através da elaboração das linhas orientadoras para a elaboração do relatório de sustentabilidade. Neste contexto, importa referir que a Petrotec – Inovação e Indústria, S.A., será obrigada a elaborar e a divulgar o seu relatório de sustentabilidade em conformidade com a nova regulação, o que reforça a necessidade de integrar práticas sustentáveis na gestão da empresa. É fundamental compreender que, embora os impactos possam parecer pouco expressivos a curto prazo, cumulativamente acabam por se tornar significativos. Mais ao nível da empresa, descreveu-se a estratégia global da empresa, incluindo os objetivos da mesma, assim como o alinhamento com normas internacionais. Como já foi referido é fundamental reforçar a importância de comunicar não apenas os resultados e os impactos financeiros, mas também os não financeiros, de forma ética e transparente. Os relatórios de sustentabilidade permitem comparar resultados nas três dimensões, económica, social e ambiental, e assim, avaliar os impactos da empresa. Para as conclusões serem fiáveis é necessário serem baseadas em dados rigorosos e transparentes. Assim, um dos principais contributos esperados foi o cálculo de indicadores sociais, económicos e ambientais, que permitissem fornecer à empresa um modelo de apresentação de resultados que poderá, no futuro, ser reproduzido e desenvolvido pela mesma. Durante a realização do estágio na Petrotec – Inovação e Indústria, S.A. foram identificados vários desafios relacionados com a implementação de relatórios de sustentabilidade na empresa que, refletem, em grande parte, as dificuldades enfrentadas por empresas familiares ao lidar com o tema da sustentabilidade. Um dos principais desafios sentidos ao longo do estágio foi um comprometimento deficiente da empresa com a sustentabilidade, em particular com o seu reporte. Tal como identificado anteriormente a gestão 37 de empresas familiares tende a privilegiar as partes interessadas internas à empresa relativamente às externas. Adicionalmente, e apesar de o termo sustentabilidade ser quase uma palavra de uso comum, e talvez até por essa razão, a organização revelou não ter conhecimento da complexidade do mesmo e principalmente da sua multidimensionalidade e exigência. Da parte dos colaboradores, revelou-se a tendência já identificada nas empresas familiares, que têm a sustentabilidade como uma exigência externa e não como parte estratégica do negócio. Embora a Petrotec – Inovação e Indústria, S. A. seja uma empresa familiar, está presente em diversos mercados internacionais, por essa razão, esperava-se uma maior integração de práticas sustentáveis na empresa. No entanto, verificou-se que a sustentabilidade é ainda tratada apenas como um cumprimento de obrigações legais, não existindo uma perceção clara do seu verdadeiro impacto e da necessidade de transparência na divulgação de informação. Observou-se ainda, uma tendência para contratar serviços externos para tarefas que poderiam ser desempenhadas internamente, com os recursos da empresa. Por fim, outro desafio do estágio está relacionado com a falta de consistência da informação. Durante a recolha de informação, verificou-se que os valores disponibilizados variavam entre diferentes ficheiros e fontes internas, comprometendo a análise. A ausência de um sistema padronizado para a gestão de dados dificultou o processo de organização de informação, tornando-o limitado. Para além disso, houve dificuldade de acesso à informação, devido a restrições de confidencialidade, o que, não deveria acontecer, uma vez que se pretende divulgar informações. Em suma, o presente trabalho evidencia a importância dos relatórios de sustentabilidade para as empresas, e reforça a ligação existente entre empresas familiares e divulgação de informações não financeiras. Reforçando, assim, a ideia de que a adoção de práticas sustentáveis contribui para uma gestão mais eficiente, permitindo as empresas familiares a alinhar tradições da família com a inovação e os desafios sociais e ambientais do presente e do futuro. Espera-se que as recomendações sugeridas possam ser um ponto de partida para a construção de uma cultura organizacional mais consciente e comprometida com a sustentabilidade, contribuindo, assim, para uma gestão mais transparente e mais ciente da complexidade do tema da sustentabilidade. 38 VII. Referências bibliográficas Abdulrahman Anam, O., Hamid Fatima, A., & Rashid Hafiz Majdi, A. (2011). Effects of intellectual capital information disclosed in annual reports on market capitalization: Evidence from Bursa Malaysia. Journal of Human Resource Costing & Accounting , 15 (2), 85–101. https://doi.org/10.1108/14013381111157328 Abeydeera, S., Tregidga, H., & Kearins, K. (2016). Sustainability reporting – more global than local? 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