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Memória social e desafios decoloniais: reflexões a partir de um estudo sobre representações de personalidades históricas no Brasil e em Portugal

Lins, Luiza; Cabecinhas, Rosa; Lima, Marcus Eugênio Oliveira; Valentim, Joaquim Pires; Techio, Elza Maria

Abstract

Neste artigo, objetivamos refletir sobre a memória social e os desafios decoloniais do presente a partir da análise de um estudo sobre representações de personalidades históricas, realizado no Brasil e em Portugal. Conduzimos um inquérito no qual os participantes eram convidados a evocar livremente pessoas ou grupos que consideravam mais importantes na História nacional, e em que medida consideravam o seu impacto positivo ou negativo para o país. Participaram 260 pessoas, sendo 96 brasileiras (M=34,6; DP = 11,8), maioria homens (55,2%) e 164 portuguesas (M=19,92; DP = 2,66), maioria mulheres (78%). Dentre os resultados, observamos que entre as 10 personalidades mais evocadas em cada país não houve uma única mulher - androcentrismo. Observamos também uma focalização na política, com ênfase na agência individual em detrimento da agência coletiva - solipsismo. Efeito particularmente evidente nos dados recolhidos em Portugal, em que o destaque vai para reis, governantes, navegadores e escritores. Personalidades associadas aos “Descobrimentos” foram frequentes, mas quase não houve menção a personalidades relacionadas à descolonização. Nos dados do Brasil, por outro lado, “Indígenas” e “Afrodescendentes” estavam entre os mais evocados. Discutimos implicações dessas “lembranças” e “esquecimentos” na memória social e a descolonização do pensamento enquanto tarefa crucial e particularmente desafiante.

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Revista Interamericana de Psicología/Interamerican Journal of Psychology 2025, Vol., 59, e2020 ARTICLE | 1 Memória social e desafios decoloniais: reflexões a partir de um estudo sobre representações de personalidades históricas no Brasil e em Portugal Luiza Lins 1 a , Rosa Cabecinhas a , Marcus Eugênio Oliveira Lima b , Joaquim Pires Valentim c , & Elza Maria Techio d 2 & 3 Universidade do Minho, Braga, Portugal a; Universidade Federal de Sergipe, São Cristóvão, Brasil b; Universidade de Coimbra, Coimbra, Portugal c; Universidade Federal da Bahia, Salvador, Brasil d. RESUMO Neste artigo, objetivamos refletir sobre a memória social e os desafios decoloniais do presente a partir da análise de um estudo sobre representações de personalidades históricas, realizado no Brasil e em Portugal. Conduzimos um inquérito no qual os participantes eram convidados a evocar livremente pessoas ou grupos que consideravam mais importantes na História nacional, e em que medida consideravam o seu impacto positivo ou negativo para o país. Participaram 260 pessoas, sendo 96 brasileiras (M=34,6; DP = 11,8), maioria homens (55,2%) e 164 portuguesas (M=19,92; DP = 2,66), maioria mulheres (78%). Dentre os resultados, observamos que entre as 10 personalidades mais evocadas em cada país não houve uma única mulher - androcentrismo. Observamos também uma focalização na política, com ênfase na agência individual em detrimento da agência coletiva - solipsismo. Efeito particularmente evidente nos dados recolhidos em Portugal, em que o destaque vai para reis, governantes, navegadores e escritores. Personalidades associadas aos “Descobrimentos” foram frequentes, mas quase não houve menção a personalidades relacionadas à descolonização. Nos dados do Brasil, por outro lado, “Indígenas” e “Afrodescendentes” estavam entre os mais evocados. Discutimos implicações dessas “lembranças” e “esquecimentos” na memória social e a descolonização do pensamento enquanto tarefa crucial e particularmente desafiante. Palavras-chave memória social, representações sociais da história, colonialismo, descolonização 1 Correspondence about this article should be addressed Luiza Lins: [email protected] 2 Conflicts of Interest: The authors declare that the research was conducted in the absence of any commercial or financial relationships that could be construed as a potential conflict of interest. 3 Agradecimento: Este artigo foi desenvolvido no âmbito do projeto “MigraMediaActs – Migrações, media e ativismos em língua portuguesa: descolonizar paisagens mediáticas e imaginar futuros alternativos” (PTDC/COMCSS/3121/2021), financiado por fundos nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P., e no âmbito do projeto e I&D “Conciliare: Confidently Changing Colonial Heritage” (“HORIZON-CL2-2023HERITAGE-01-04: Cultural heritage in transformation – facing change with confidence”, GA n.º 101132582). LINS, CABECINHAS, LIMA, VALENTIM, & TECHIO ARTICLE | 2 ABSTRACT In this paper, we aim to reflect on social memory and the decolonial challenges of the present by analysing a study on representations of historical personalities carried out in Brazil and Portugal. We conducted a survey in which participants were asked to freely evoke people or groups they considered to be the most important in national history, and to what extent they considered their impact on the country to be positive or negative. 260 people took part: 96 Brazilians (M= 34.6; SD = 11.8), mostly men (55.2%) and 164 Portuguese (M= 19.92; SD = 2.66), mostly women (78%). Among the results, we observed that there was not a single woman - androcentrism - among the 10 most evoked personalities in each country. We also observed a focus on politics, with an emphasis on individual agency to the detriment of collective agency - solipsism. This is particularly evident in the data collected in Portugal, where the emphasis is on kings, rulers, navigators and writers. Personalities associated with the ‘Discoveries’ were frequent, but there was almost no mention of personalities related to decolonisation. In the data from Brazil, on the other hand, ‘Indigenous’ and ‘Afro-descendants’ were among the most evoked. We discussed the implications of ‘rememberings’ and ‘forgettings’ for social memory and the decolonisation of thought as a crucial and particularly challenging task. Keywords social memory, social representations of history, colonialism, decolonization Revista Interamericana de Psicología/Interamerican Journal of Psychology 2025, Vol., 59, e2020 ARTICLE | 3 Social memory and decolonial challenges: reflections from a study on representations of historical personalities in Brazil and Portugal Introdução Em abril de 2023, o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, foi convidado a realizar uma visita de Estado a Portugal, na ocasião das celebrações dos 49 anos do 25 de abril. Entre notas introdutórias do seu discurso, Lula referiu uma sensação de acolhimento experienciada no país. Em suas palavras: “Nos últimos dias, tive aqui em Portugal a inconfundível sensação de estar em casa, sentimento que, acredito, é compartilhado por todos os brasileiros que visitam Portugal e todos os portugueses que visitam o Brasil”. Na sequência, reafirmou a importância da Revolução dos Cravos, da reconquista das liberdades, dentre outros marcos que ela representou não só para Portugal, mas também para o Brasil que “assistia com admiração e esperança às mudanças políticas e sociais alcançadas pelos portugueses”. O discurso merece destaque não apenas pela importância da efeméride, mas, sobretudo, pela narrativa de integração que sustenta. No entanto, cabe questionar se a memória social e as vivências cotidianas corroboram essa ideia de que “estamos em casa” referidas pelo presidente. Essa sensação é compartilhada entre brasileiros e portugueses? Brasil e Portugal possuem uma série de tratados e acordos bilaterais justificados por um passado em comum. Contudo, os acontecimentos que marcaram a história desses países são mais complexos do que parece representar o título de “países irmãos”. Apesar das narrativas de um sentimento de fraternidade cimentado numa alegada “convivência multissecular” e “passado comum”, a forma como os acontecimentos ligados à colonização são evocados por portugueses e por cidadãos de países que no passado foram colônias portuguesas, como o Brasil, é marcada por divergências e ambiguidades (e.g. Cabecinhas et al., 2006; Sá, Oliveira & Prado, 2004). A análise de convergências e divergências nas memórias coletivas sobre um dado acontecimento é fundamental, pois a forma como um grupo representa sua história atua na definição da sua identidade social, nas relações com outros grupos, nas respostas a acontecimentos políticos, dentre outros desafios atuais (Liu et al., 2005). Hakoköngäs e Sakki (2016) defendem que o campo da memória coletiva é complexo e interdisciplinar, sendo empregadas por vezes deferentes terminologias como sinônimas. Entretanto, para os autores, a memória coletiva situa-se no cruzamento da teoria da identidade social (Tajfel, 1982) e da teoria das representações sociais (Moscovici, 1961/2004), pois «sua função primordial é criar um sentimento de LINS, CABECINHAS, LIMA, VALENTIM, & TECHIO ARTICLE | 4 identificação, um sentimento de continuidade e de solidariedade no seio de um grupo, bem como separar o grupo dos “outros”» (Hakoköngäs & Sakki, 2016, p. 2). Neste estudo, optamos pelo termo memória social e pelo conceito de representações sociais da história, um conjunto de representações do passado, construído e partilhado no seio de um grupo, a partir de uma pertença social comum (Licata & Klein, 2005; Liu & Hilton, 2005). Estudos sobre representações sociais da história, tanto a nível internacional como nacional, têm identificado algumas tendências comuns, mas, também evidências de que cada grupo tem suas próprias ênfases e pontos de vista sobre a História (e.g., Cabecinhas et al., 2006; Hakoköngäs & Sakki, 2016; Liu et al., 2009; Pennebaker et al., 2006). Uma série de estudos sobre as representações sociais do passado colonial evidencia que as opiniões e emoções suscitadas pelos acontecimentos diferem em função do papel desempenhado pelo grupo durante o período colonial (Cabecinhas & Feijó, 2010; Cabecinhas & Nhaga, 2008). Mesmo no que diz respeito às relações interculturais contemporâneas, antigos povos colonizados e antigos povos colonizadores experimentam impactos diferentes em esferas como a construção da identidade ou a discriminação social (Bobowik, et al., 2018). Nesse sentido, as dinâmicas da memória não podem ser entendidas sem considerarmos as múltiplas e persistentes assimetrias de poder, a agência individual e grupal e as interações cotidianas (Cabecinhas, 2019). Em um estudo sobre representações da história da Europa, Bouchat et al. (2023), explicam como, desde o início do projeto europeu, têm sido promovidas narrativas históricas baseadas num conjunto específico de acontecimentos e valores supostamente comuns aos povos da Europa. Esse resgate de um “passado comum”, considerado fundamental no processo de integração europeia, vem, no entanto, acompanhado de um curioso silêncio de partes importantes da história do continente, como o colonialismo, a resistência ao colonialismo e os processos de descolonização. A propagação de mitos e estereótipos que, por muito tempo, legitimaram o colonialismo enquanto empreendimento que alegadamente trouxe progresso e civilização, contribuiu para o silenciamento das realidades sociais e culturais dos povos outrora colonizados (Mbembe, 2015). Como os estereótipos atuam na justificação das ideologias, fornecendo ao grupo privilegiado uma “explicação” da sua posição enquanto tal, mesmo membros de grupos socialmente desfavorecidos em alguns contextos podem fazer uso de determinadas ideologias e estereótipos para explicar ou legitimar (implícita ou explicitamente) fatos sociais, como a violência contra grupos minorizados, contribuindo para a preservação de hierarquias e desigualdades (Mateus & Pereira, 2023; Revista Interamericana de Psicología/Interamerican Journal of Psychology 2025, Vol., 59, e2020 ARTICLE | 5 Tajfel, 1982). Nessa direção, narrativas como a visão de que Portugal “deu novos mundos ao mundo” e outras representações presentes no imaginário social português continuam a influenciar relações intergrupais e processos identitários (Lins et al., 2024). Ademais, o racismo e a discriminação persistentes que pessoas percebidas como estrangeiras nas sociedades europeias enfrentam não pode ser dissociado do passado colonial (Mignolo & Walsh, 2018) ou de uma leitura colonialista do outro (Henriques, 2020). Posto isso, neste artigo, objetivamos refletir sobre a memória social e os desafios decoloniais do presente a partir da análise de um estudo sobre representações de personalidades históricas, realizado no Brasil e em Portugal. Como ponto de partida e para uma melhor contextualização, revisitamos a seguir um conjunto de estudos sobre memória social e representações sociais da história. A “memória do mundo” e suas dinâmicas Os estudos da memória constituem um campo de grande atenção acadêmica e desenvolvimento nas últimas décadas em domínios variados, mas, especialmente, nas ciências sociais (Hakoköngäs & Sakki, 2016). As dinâmicas da memória social só podem ser compreendidas na sua interligação com o contexto social e cultural envolvente, processos identitários e representações sociais, o que passa necessariamente pela articulação de níveis de análise (Doise & Valentim, 2015). Assim, é fundamental refletir sobre a “memória do mundo”, como as pessoas se relacionam com a história, bem como compreender os usos públicos do passado (e.g., Balbé et al., 2024; Cabecinhas & Abadia, 2013). Marcadores como gênero, classe social ou origem geográfica influenciam a memória social, condicionando substancialmente o espectro das recordações possíveis numa dada sociedade (Cabecinhas et al., 2018b). Butera et al. (2017) abordam tal questão quando descrevem a criptomnésia social, fenômeno que ocorre quando valores promovidos por grupos “minoritários” são aceitos e integrados socialmente (como os direitos das mulheres), mas essa aceitação tem um custo, pois é acompanhada pelo “esquecimento” em relação ao papel desempenhado pelo grupo em causa. Mesmo quando uma minoria ativa tem sucesso em termos de influência, promovendo mudanças sociais consistentes, isso não significa que seu papel será socialmente “lembrado” e reconhecido. No exemplo, apesar dos avanços importantes quanto aos direitos das mulheres, os movimentos feministas ainda são vistos frequentemente de forma negativa e, muitas LINS, CABECINHAS, LIMA, VALENTIM, & TECHIO ARTICLE | 6 vezes, não recebem nenhum crédito por suas conquistas. Esse fenômeno ilustra como processos de influência social e, sobretudo, as posições de cada grupo na estrutura de poder atuam na construção e disseminação de memórias. Nos últimos anos, foram realizados vários estudos sobre representações sociais da história em dezenas de países, nos quais os participantes foram convidados a mencionar livremente acontecimentos e personalidades que consideravam mais importantes na história mundial, nacional ou supranacional (e.g., Bouchat et al., 2023; Brasil & Cabecinhas, 2017; Liu et al., 2009; Pennebaker et al., 2006). Revisões de literatura (e.g., Cabecinhas, 2018b; Hilton & Liu, 2017; Páez et al., 2016) destacaram um conjunto de tendências observadas, entre elas: a) centralidade da guerra e do conflito - tendência para considerar eventos relativos a guerras, terrorismo, conflitos e revoluções entre os mais importantes da história mundial; b) efeito de recência - tendência para recordar acontecimentos mais recentes, em detrimento dos mais remotos, bem como uma relação entre acontecimentos evocados e a agenda mediática no momento de recolha de dados; c) sociocentrismo - tendência para considerar acontecimentos que ocorreram no seu próprio país, ou que envolveram diretamente o seu país, entre os mais importantes, colocando o seu país no “mapa mundo”; d) eurocentrismo ou Westerncentrism - tendência a uma visão que coloca os acontecimentos que ocorreram nos países ocidentais, nomeadamente, na Europa e Estados Unidos da América (EUA), como centro do mundo, reproduzindo as relações de poder hegemônicas na ordem mundial (Liu et al., 2005, 2009); e) efeito nostálgico - tendência a considerar eventos mais remotos como mais positivos do que acontecimentos recentes (Páez et al., 2016); e f) androcentrismo - quase todas as personalidades consideradas mais importantes na história, nesses estudos, foram homens (Cabecinhas, 2018a). Quanto ao efeito de recência, verificou-se um destaque para personalidades dos últimos cem anos. Esse efeito foi, inclusive, mais acentuado na condição de evocação às personalidades do que aos acontecimentos (Brasil & Cabecinhas, 2017; Liu et al., 2005). Verificou-se ainda um predomínio de governantes, políticos, líderes militares e líderes religiosos, em detrimento de outras áreas de atuação (Liu et al., 2009). As personalidades evocadas foram, sobretudo, homens, brancos, cristãos, oriundos de países ocidentais (e.g., Cabecinhas, 2018b). Cabe destacar que nos estudos iniciais foi pedido aos participantes para listarem cinco “personalidades” que consideravam mais importantes enquanto nos estudos mais recentes essa questão foi reformulada, passando a solicitar “pessoas ou grupos”, mas o efeito de personalização permaneceu entre os principais resultados (e.g., Revista Interamericana de Psicología/Interamerican Journal of Psychology 2025, Vol., 59, e2020 ARTICLE | 7 Bouchat et al., 2023). Ou seja, de forma geral, os participantes evocaram sobretudo pessoas singulares, tendo sido muito raras as referências a grupos, o que aponta para um efeito de solipsismo, no qual a história é percebida como produto da agência individual, descurando a agência coletiva (Cabecinhas, 2023). Dados recolhidos nos países africanos de língua oficial portuguesa corroboraram esses padrões observados nos estudos supracitados. Em complemento, verificou-se também um significativo destaque para os efeitos opressivos do colonialismo e as lutas de libertação por parte dos participantes nos países africanos (e.g. Cabecinhas & Feijó, 2010; Cupata, 2022; Mendes et al., 2010) e, em contrapartida, um silêncio da maioria dos participantes portugueses sobre estes processos (Cabecinhas, 2019). Os estudos reportados anteriormente foram realizados com questões abertas, isto é, os participantes foram chamados a evocar, sem qualquer listagem prévia, os acontecimentos que consideravam mais importantes na história nacional ou supranacional (por exemplo, história da Europa). Estudos realizados com questões fechadas permitiram aprofundar os conhecimentos sobre a estrutura e as funções dessas representações. Por exemplo, em um estudo sobre representações sociais do colonialismo em três países europeus (Bélgica, França e Portugal) e seis africanos (Angola, Burundi, Cabo Verde, República Democrática do Congo, Guiné-Bissau e Moçambique), Licata et al. (2018) demonstraram que as representações do colonialismo se estruturam em duas dimensões básicas: “exploração e racismo” e “desenvolvimento” (por exemplo, “a construção de vias de comunicação e de infraestruturas econômicas nas colônias”). Os resultados indicaram que as representações sociais do colonialismo entre os participantes europeus eram mais negativas, mas estes não estabeleceram conexões entre o colonialismo, a vida cotidiana e implicações futuras para o seu país. Em contrapartida, entre os participantes africanos o passado colonial e suas continuidades são mais frequentemente percebidos como questões do presente e com implicações no futuro (Licata et al., 2018). Este conjunto de estudos evidencia a complexidade da memória social e os desafios decoloniais a ela associados. Mas, e quanto às relações específicas entre Brasil e Portugal? Brasil e Portugal: algumas considerações Estudos anteriores realizados com participantes portugueses indicam que o impacto dos “Descobrimentos” na história nacional tem sido considerado LINS, CABECINHAS, LIMA, VALENTIM, & TECHIO ARTICLE | 8 consensualmente positivo, suscitando emoções como orgulho, alegria, felicidade e fascínio, independentemente do enquadramento da evocação deste acontecimento (história mundial ou história nacional) (e.g., Cabecinhas et al., 2006; Sá et al., 2004; Vala & Saint-Maurice, 2004). Apesar de ser um acontecimento remoto, a maior parte dos participantes portugueses refere os “Descobrimentos”, os “Descobrimentos portugueses”, a “Descoberta do caminho marítimo para a Índia” ou a “Descoberta do Brasil”. Além disso, embora os participantes portugueses refiram outros acontecimentos, como a Fundação da nação e o 25 de Abril de 1974, o pioneirismo dos portugueses no panorama expansionista parece ainda permanecer na memória social enquanto um passado “glorioso” ou como a “idade de ouro” da nação (Cabecinhas, 2018b). A elevada saliência cognitiva do período dos “Descobrimentos” é um ponto dissonante quando comparado às memórias de participantes de outros países, nos quais se verificou um foco no passado mais recente da história nacional. Diversos autores têm discutido essa continuidade a partir de estudos sobre o ensino da história e o conteúdo dos manuais escolares (e.g. Araújo, 2020; Cabecinhas et al., 2022; Soares & Jesuíno, 2004; Valentim & Miguel, 2018). Nesse conteúdo reatualizado na mídia e em outros espaços sociais, apesar de alguma inclusão de “visões do outro”, parece não haver uma transformação concreta das estruturas narrativas. Ademais, Cabecinhas et al. (2006), em um estudo comparativo, indicavam uma “idealização dos Descobrimentos” e a dissociação entre a “chegada dos portugueses”, como um marco histórico, e o processo de “colonização”. Entre participantes brasileiros, por sua vez, o “Descobrimento” suscitou uma mistura de emoções (decepção, revolta, alegria, admiração e indiferença). Estes resultados demonstram que a tonalidade emocional de um acontecimento depende das pertenças sociais, políticas, geográficas e econômicas dos grupos envolvidos. Depende ainda da forma como cada grupo concebe o papel que desempenhou no acontecimento (Cabecinhas, 2019). Além dos “Descobrimentos”, os participantes brasileiros reportaram emoções ambivalentes face à presença portuguesa em outros acontecimentos: a “vinda da família real” para o Brasil, por exemplo, foi associada a emoções positivas. Já a “colonização portuguesa” suscitou emoções negativas (Cabecinhas et al., 2006). Nos estudos anteriores, os participantes brasileiros mencionaram também acontecimentos como a “Ditadura militar”, a “Abolição da escravatura”, a “Independência do Brasil” e algumas revoltas contra a colonização portuguesa durante os séculos XVIII e XIX (Cabecinhas et al., 2006). Em estudo recente realizado no Brasil, Revista Interamericana de Psicología/Interamerican Journal of Psychology 2025, Vol., 59, e2020 ARTICLE | 9 por Techio et al. (no prelo), os acontecimentos mais lembrados, em 2017, foram, nesta ordem: “Descobrimento do Brasil”, “Independência do Brasil”, “Escravidão”, “Colonização”, “Abolição da escravidão” e “Chegada dos portugueses”; em 2019: “Escravidão”, “Colonização”, “Descobrimento do Brasil”, “Chegada dos portugueses”, “Genocídio indígena” e “Brasil Colônia”; em 2020: “Escravidão”, “Descobrimento do Brasil”, “Colonização” e “Chegada dos portugueses”. Houve, portanto, referências ao passado colonial nessas evocações e parece estar subjacente a elas uma perspectiva mais crítica acerca desses marcos históricos. Nessa direção, analisaremos a seguir dados de um estudo sobre representações de personalidades históricas, realizado no Brasil e em Portugal. Apresentamos, inicialmente, o enquadramento metodológico do programa de pesquisa que deu origem ao estudo. Método Este estudo é parte de um projeto mais amplo com o objetivo de analisar as memórias sociais sobre a história supranacional e a história nacional, através de um inquérito por questionário online, cujos dados foram recolhidos em Portugal entre 2015 e 2016 (no âmbito da Ação COST IS 1205 – “Dinâmicas psicossociais das representações da história na União Europeia alargada”) e no Brasil entre 2020 e 2021 (enquadrado no projeto CNPq nº 204632/2018-8, “Anomia, identidade nacional e racismo”). Neste artigo, abordaremos os resultados referentes à evocação livre de personalidades da história nacional (as demais questões foram objeto de análise em outros trabalhos). Em função do período de recolha de dados, apresentaremos primeiro os dados da amostra portuguesa e, em seguida, os dados da amostra brasileira. Na sequência, em uma discussão geral, propomos algumas reflexões a partir da relação entre as personalidades históricas mais recordadas pelos participantes dos dois países. Participantes Participaram deste estudo 164 portugueses e 96 brasileiros. Apresentamos na Tabela 1 os principais dados descritivos dos participantes, considerando as variáveis: idade, gênero, escolaridade. Quanto aos critérios para a composição da amostra, consideramos necessário apenas ter acima de 18 anos e condições de escolaridade para responder ao questionário. Em Portugal, como a recolha de dados aconteceu na universidade, frequentar um curso também foi, consequentemente, um critério de LINS, CABECINHAS, LIMA, VALENTIM, & TECHIO ARTICLE | 16 marcada pela exploração em ciclos econômicos - pau-brasil, açúcar e ouro -, além da escravização de indígenas e africanos. Além disso, a temática do colonialismo emerge na evocação desses grupos, mas, também, na presença de representantes da coroa portuguesa, como D. Pedro I (primeiro Imperador do Brasil, 1822-1831) e D. Pedro II (segundo e último monarca do Império do Brasil, tendo imperado durante um período de 58 anos, 1831-1889). Embora haja evidências do crescimento de uma leitura mais crítica acerca da história (Cabecinhas et al., 2006; Techio et al., no prelo), tais personalidades ainda apresentam avaliações positivas neste estudo (em média seis pontos na escala de valência), o que pode representar a força e manutenção da narrativa histórica dominante. Pois, marcos como a independência do Brasil ou a abolição da escravatura continuam a ser narrados enquanto atos heroicos ou benevolentes dos representantes da coroa portuguesa (grito do Ipiranga; assinatura da Lei Áurea), negligenciando a importância das diversas lutas populares que enfraqueceram o colonialismo e o regime escravocrata. Entretanto, a presença e avaliação positiva de grupos minorizados, como os “Indígenas” (M = 6,77) e “Afrodescendentes” (M = 6,73), as mais altas médias de valências no top 10, por um lado, e a avaliação negativa dos “Colonizadores” (M = 2,3), a mais baixa valência, por outro lado, parecem simbolizar um processo de reconstrução crítica do passado colonial em curso no Brasil. Embora não esteja entre o Top 10, a figura de Zumbi dos Palmares (11º lugar), por exemplo, importante símbolo da resistência negra, líder do maior quilombo do período colonial, parece compor essa atualização contra hegemônica da história nacional, ao relembrar que não houve nada pacífico na luta contra a escravidão e pela independência do Brasil. Discussão Geral Embora a comparação entre os dados dos dois países não esteja entre os objetivos deste estudo (nem seja possível em função de características da amostra: nãorepresentativas e com assimetrias na distribuição, em termos de idade e gênero), propomos nesta seção algumas reflexões a partir da relação entre as personalidades históricas mais recordadas pelos participantes dos dois países. De maneira geral, as evocações tanto dos participantes brasileiros quando dos portugueses parecem corroborar com os achados da literatura (e.g., Cabecinhas, 2019; Hilton & Liu, 2017; Páez et al., 2016), especialmente, quanto às ausências ou assimetrias. Revista Interamericana de Psicología/Interamerican Journal of Psychology 2025, Vol., 59, e2020 ARTICLE | 17 Em ambos os países, os dados evidenciam representações da história androcêntricas, não havendo nenhuma mulher no Top 10 das personalidades evocadas. Isso não significa, por si só, que os participantes sejam preconceituosos contra as mulheres em um nível de análise individual. O que essa ausência indica é, sobretudo, como a discriminação de gênero é uma questão sistêmica de grande impacto, refletindose no silenciamento do papel das mulheres na história. Como a ideia de superioridade racial e cultural do homem branco e a sua “missão civilizadora” é uma das dimensões fundamentais do sistema ideológico colonial (Henriques, 2020), a tarefa de visibilizar as mulheres da história é também parte dos desafios decoloniais do presente. Além disso, a análise das evocações dos participantes do Brasil e de Portugal indica a centralidade da política e, consequentemente, a negligência de outras áreas, como a científica ou ambiental (questão que se torna ainda mais relevante se considerarmos que os participantes são quase todos universitários); além do efeito de recência e uma tendência para o solipsismo: os participantes nomearam mais pessoas singulares e poucos grupos ou movimentos sociais. No Brasil, esse efeito foi menos acentuado, pois houve grupos nacionais importantes entre os mais evocados. Observa-se, também, nessas evocações, a centralidade dos “heróis nacionais”, figuras relacionadas a narrativas de conquistas e conflitos. Enquanto que no caso dos participantes portugueses todas as personalidades que compõem o Top 10 são homens e portugueses, no caso dos participantes brasileiros são nomeadas personalidades de origem portuguesa ou representantes de Portugal durante o período colonial. Cabe refletir sobre a presença dessas personalidades entre as consideradas mais importantes na história do país, em detrimento de personalidades brasileiras. Nessa direção, alguns autores têm evidenciado como, apesar de serem frequentemente subestimados, o colonialismo e seus efeitos opressivos continuam a moldar as mentalidades e ainda estão presentes nas atuais dinâmicas psicossociais entre antigos povos colonizados e colonizadores, atuando na reprodução de determinados estereótipos sociais e na manutenção do colonialismo como forma de relação social (Bobowik, et al., 2018; Quijano, 2005; Licata & Volpato, 2010). Licata et al. (2018), por exemplo, mostraram que as representações sociais do colonialismo estavam associadas à identificação nacional entre os participantes de países africanos anteriormente colonizados, mas não entre os participantes de países europeus anteriormente colonizadores, como se o colonialismo não tivesse impactado também a Europa. Nessa direção, para Ribeiro e Ribeiro (2016) é fundamental discutir como o imperialismo definiu a Europa e como ela também precisa ser descolonizada, por meio LINS, CABECINHAS, LIMA, VALENTIM, & TECHIO ARTICLE | 18 de um “trabalho da memória”. Para os autores, esse trabalho se tornou um imperativo simultaneamente político e ético, a fim de promover reflexões que tragam para o centro do debate as incidências contemporâneas do passado colonial. Entre os brasileiros que participaram deste estudo, parece haver uma contraposição entre a versão contada pelos grupos dominantes (“D. Pedro I” e “D. Pedro II”) e as lutas populares de resistência (“Indígenas” e “Afrodescendentes”). O que leva a uma reflexão sobre o papel determinante do poder nas representações sociais da história. Pois, em uma dimensão linguística, poder é o que determina como as histórias são contadas, por quem e quando são contadas. “Poder é a capacidade de contar a história de outra pessoa e torná-la sua história definitiva” (Adichie, 2009, p. 16). Com isso, cabe questionar: como a reflexão sobre a memória social a partir das personalidades históricas pode ser útil para o enfrentamento dos desafios decoloniais? Em resposta, vários trabalhos (e.g. Bouchat et al., 2023; Cabecinhas & Nhaga, 2008; Licata & Volpato, 2010) têm ressaltado que embora as memórias de conflitos passados muitas vezes constituam entraves ao diálogo, a mobilização de diferentes visões do passado, por outro lado, pode auxiliar a reconciliação intergrupal, o respeito e reconhecimento mútuo. Assim, dar a conhecer os diferentes olhares sobre o passado é essencial no combate ao apagamento da memória de algumas pessoas e grupos minorizados (Cabecinhas, 2023; Gutman & Wüstenberg, 2023). Nesse contexto, a descolonização do pensamento, de modo a desconstruir “velhos” estereótipos e as continuidades do colonialismo como forma de relação social (Quijano, 2005) é uma tarefa particularmente desafiante. Considerações finais Neste artigo, nosso objetivo principal foi refletir sobre a memória social e os desafios decoloniais do presente a partir da análise de um estudo sobre representações de personalidades históricas, realizado no Brasil e em Portugal. Em resposta a esse objetivo, destacamos que personalidades relacionadas ao passado colonial foram espontaneamente evocadas nos dois países, embora com diferentes avaliações quanto ao seu impacto na história nacional. A recorrência e a avaliação positiva dos navegadores em Portugal, além da não referência a personalidades inequivocamente relacionadas ao processo de descolonização e à luta contra a violência colonial, parecem indicar a continuidade de uma visão positiva dos “Descobrimentos” (para os participantes deste estudo) como forma de manter uma Revista Interamericana de Psicología/Interamerican Journal of Psychology 2025, Vol., 59, e2020 ARTICLE | 19 identidade positiva, uma vez que o passado é lido, “esquecido” e reconstruído de forma a manter a identidade positiva dos grupos. Em oposição a esse silêncio a respeito do colonialismo e seus efeitos mais brutais, como o tráfico humano e outras formas de opressão, entre os participantes brasileiros, os “colonizadores” foram as personalidades com pior avaliação entre os mais evocadas. Já “Indígenas” e “Afrodescendentes”, enquanto símbolo de luta e resistência, foram as personalidades melhor avaliadas. Porém, figuras relacionadas ao passado colonial como D. Pedro I e D. Pedro II também permaneceram centrais nas representações sociais da história para os participantes no Brasil, sendo avaliados positivamente. Assim, narrativas abertamente críticas e enfáticas quanto ao caráter negativo e de exploração do colonialismo parecem coexistir com outras que celebram os colonizadores e sua importância histórica. Cabe discutir as consequências dessa centralidade no quadro dos desafios decoloniais e refletir sobre as “âncoras” ativadas na evocação de cada uma dessas personalidades (Cabecinhas et al, 2006). Tais ambivalências quanto às personalidades relacionadas ao colonialismo evidenciam como a memória social é um “campo de disputa” e de luta simbólica entre grupos. Entretanto, cabe salientar que este é um estudo exploratório, não sendo possível generalizar seus resultados para toda a população do Brasil ou de Portugal, pois não foram usadas amostras representativas. Enquanto limitações, é importante referir as diferenças específicas quanto aos participantes e instrumentos aplicados nos dois países. A questão da distribuição da amostra em termos de idade e gênero, por exemplo, impossibilita a comparação e contraste entre os dados. Em função de tal assimetria, os resultados relatados podem ser influenciados pelas diferenças de gênero, por exemplo, e não apenas pelo enquadramento em termos da nacionalidade. Diante disso, reforçamos que não temos a intenção de fazer inferências ou extrapolações para a população em geral de cada país. O objetivo é promover reflexões a partir da relação entre as personalidades mais recordadas pelos participantes, considerando que os mesmos estão inseridos em diferentes realidades e momentos históricos. Outra limitação a ser considerada na leitura desses resultados é o período de coleta de dados entre os dois países. A coleta de dados em Portugal ocorreu em 2015/2016 enquanto no Brasil em 2021/2022, cobrindo um período de intensas transformações sociais em todo o mundo, com a pandemia de COVID-19 e a intensificação dos movimentos decoloniais e as mobilizações antirracistas do movimento Black Lives Matter, após o assassinato de George Floyd nos EUA. Nessa direção, novos estudos LINS, CABECINHAS, LIMA, VALENTIM, & TECHIO ARTICLE | 20 podem ser realizados a fim de avaliar, inclusive, o impacto desses acontecimentos na memória social. Estudos futuros podem considerar também uma amostra mais ampla e com melhor distribuição, além de outras metodologias, como grupos focais, capazes de ampliar as discussões suscitadas pelos dados e matizar algumas das tendências observadas. Ademais, como foram analisadas evocações espontâneas, cabe considerar o possível impacto da recência ou atualização mediática de determinados temas no imaginário social, como a proximidade do período eleitoral, a comemoração do bicentenário da independência do Brasil, em 2022, ou a exibição, no período da recolha de dados, de uma novela de grande audiência no país: “Nos Tempos do Imperador”, que contava a trajetória de Pedro II, à frente da Corte brasileira. Em suma, as reflexões propostas neste estudo podem ser relacionadas a outras investigações (Bobowik, et al., 2018; Licata et al., 2018) sobre as representações do passado colonial que, igualmente, convidam-nos a um aprofundamento sobre os efeitos ou as incidências contemporâneas do colonialismo. Entre memórias e desafios decoloniais, destacamos que determinadas ausências ou “esquecimentos” (como as discussões sobre o colonialismo e seus efeitos ou a invisibilização das mulheres na história) podem ter uma série de implicações nas relações entre pessoas e grupos nas sociedades contemporâneas, como os casos de discriminação e racismo. Nesse contexto, as narrativas históricas (e uma maior diversidade nas histórias) podem ser importantes ferramentas, pois o modo como o passado é representado por um grupo afeta suas práticas sociais, visões do presente, a participação na ação coletiva e agendas para o futuro (Cabecinhas, 2019; Freel & Bilali, 2022; Makanju et al., 2023), além de desempenhar um papel crucial nos processos de reconciliação e reparação histórica (Licata & Volpato, 2010). Revista Interamericana de Psicología/Interamerican Journal of Psychology 2025, Vol., 59, e2020 ARTICLE | 21 Referências Adichie, C. N. (2009). O perigo da história única. Companhia das Letras. 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