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Memória social e desafios decoloniais: reflexões a partir de um estudo sobre representações de personalidades históricas no Brasil e em Portugal

Author: Lins, Luiza; Cabecinhas, Rosa; Lima, Marcus Eugênio Oliveira; Valentim, Joaquim Pires; Techio, Elza Maria
Publisher: Sociedade Interamericana de Psicologia
Year: 2025
DOI: 10.30849/ripijp.v59(2025).e2020
Source: https://repositorium.uminho.pt/bitstreams/3b67e82f-4020-4752-9fe0-dd9826700964/download
Re is a In e ame icana de Psicología/In e ame ican Jou nal o Psychology
2025, Vol., 59, e2020
ARTICLE | 1
Memó ia social e desa ios decoloniais:
e lexões a pa i de um es udo sob e
ep esen ações de pe sonalidades his ó icas
no B asil e em Po ugal
Luiza Lins 1 a , Rosa Cabecinhas a , Ma cus Eugênio Oli ei a Lima b
, Joaquim Pi es Valen im c , & Elza Ma ia Techio d 2 & 3
Uni e sidade do Minho, B aga, Po ugal a; Uni e sidade Fede al
de Se gipe, São C is ó ão, B asil b; Uni e sidade de Coimb a,
Coimb a, Po ugal c; Uni e sidade Fede al da Bahia, Sal ado ,
B asil d.
RESUMO
Nes e a igo, obje i amos e le i sob e a memó ia social e os desa ios decoloniais do p esen e a
pa i da análise de um es udo sob e ep esen ações de pe sonalidades his ó icas, ealizado no
B asil e em Po ugal. Conduzimos um inqué i o no qual os pa icipan es e am con idados a e oca
li emen e pessoas ou g upos que conside a am mais impo an es na His ó ia nacional, e em que
medida conside a am o seu impac o posi i o ou nega i o pa a o país. Pa icipa am 260 pessoas,
sendo 96 b asilei as (M=34,6; DP = 11,8), maio ia homens (55,2%) e 164 po uguesas (M=19,92;
DP = 2,66), maio ia mulhe es (78%). Den e os esul ados, obse amos que en e as 10
pe sonalidades mais e ocadas em cada país não hou e uma única mulhe - and ocen ismo.
Obse amos ambém uma ocalização na polí ica, com ên ase na agência indi idual em
de imen o da agência cole i a - solipsismo. E ei o pa icula men e e iden e nos dados ecolhidos
em Po ugal, em que o des aque ai pa a eis, go e nan es, na egado es e esc i o es.
Pe sonalidades associadas aos “Descob imen os” o am equen es, mas quase não hou e menção
a pe sonalidades elacionadas à descolonização. Nos dados do B asil, po ou o lado, “Indígenas”
e “A odescenden es” es a am en e os mais e ocados. Discu imos implicações dessas
“lemb anças” e “esquecimen os” na memó ia social e a descolonização do pensamen o enquan o
a e a c ucial e pa icula men e desa ian e.
Pala as-cha e
memó ia social, ep esen ações sociais da his ó ia, colonialismo, descolonização
1 Co espondence abou his a icle should be add essed Luiza Lins: luizaalins@ho mail.com
2 Con lic s o In e es : The au ho s decla e ha he esea ch was conduc ed in he absence o any comme cial o inancial
ela ionships ha could be cons ued as a po en ial con lic o in e es .
3
Ag adecimen o: Es e a igo oi desen ol ido no âmbi o do p oje o “Mig aMediaAc s – Mig ações, media e
a i ismos em língua po uguesa: descoloniza paisagens mediá icas e imagina u u os al e na i os” (PTDC/COM-
CSS/3121/2021), inanciado po undos nacionais a a és da FCT – Fundação pa a a Ciência e a Tecnologia, I.P., e
no âmbi o do p oje o e I&D “Concilia e: Con iden ly Changing Colonial He i age” (“HORIZON-CL2-2023-
HERITAGE-01-04: Cul u al he i age in ans o ma ion – acing change wi h con idence”, GA n.º 101132582).
LINS, CABECINHAS, LIMA, VALENTIM, & TECHIO
ARTICLE | 2
ABSTRACT
In his pape , we aim o e lec on social memo y and he decolonial challenges o he p esen by
analysing a s udy on ep esen a ions o his o ical pe sonali ies ca ied ou in B azil and Po ugal.
We conduc ed a su ey in which pa icipan s we e asked o eely e oke people o g oups hey
conside ed o be he mos impo an in na ional his o y, and o wha ex en hey conside ed hei
impac on he coun y o be posi i e o nega i e. 260 people ook pa : 96 B azilians (M= 34.6;
SD = 11.8), mos ly men (55.2%) and 164 Po uguese (M= 19.92; SD = 2.66), mos ly women
(78%). Among he esul s, we obse ed ha he e was no a single woman - and ocen ism -
among he 10 mos e oked pe sonali ies in each coun y. We also obse ed a ocus on poli ics,
wi h an emphasis on indi idual agency o he de imen o collec i e agency - solipsism. This is
pa icula ly e iden in he da a collec ed in Po ugal, whe e he emphasis is on kings, ule s,
na iga o s and w i e s. Pe sonali ies associa ed wi h he ‘Disco e ies’ we e equen , bu he e
was almos no men ion o pe sonali ies ela ed o decolonisa ion. In he da a om B azil, on he
o he hand, ‘Indigenous’ and ‘A o-descendan s’ we e among he mos e oked. We discussed he
implica ions o ‘ emembe ings’ and ‘ o ge ings’ o social memo y and he decolonisa ion o
hough as a c ucial and pa icula ly challenging ask.
Keywo ds
social memo y, social ep esen a ions o his o y, colonialism, decoloniza ion
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Social memo y and decolonial challenges: e lec ions om a s udy on ep esen a ions o
his o ical pe sonali ies in B azil and Po ugal
In odução
Em ab il de 2023, o p esiden e do B asil, Luiz Inácio Lula da Sil a, oi con idado
a ealiza uma isi a de Es ado a Po ugal, na ocasião das celeb ações dos 49 anos do 25
de ab il. En e no as in odu ó ias do seu discu so, Lula e e iu uma sensação de
acolhimen o expe ienciada no país. Em suas pala as: “Nos úl imos dias, i e aqui em
Po ugal a incon undí el sensação de es a em casa, sen imen o que, ac edi o, é
compa ilhado po odos os b asilei os que isi am Po ugal e odos os po ugueses que
isi am o B asil”. Na sequência, ea i mou a impo ância da Re olução dos C a os, da
econquis a das libe dades, den e ou os ma cos que ela ep esen ou não só pa a Po ugal,
mas ambém pa a o B asil que “assis ia com admi ação e espe ança às mudanças polí icas
e sociais alcançadas pelos po ugueses”. O discu so me ece des aque não apenas pela
impo ância da e emé ide, mas, sob e udo, pela na a i a de in eg ação que sus en a.
No en an o, cabe ques iona se a memó ia social e as i ências co idianas
co obo am essa ideia de que “es amos em casa” e e idas pelo p esiden e. Essa sensação
é compa ilhada en e b asilei os e po ugueses? B asil e Po ugal possuem uma sé ie de
a ados e aco dos bila e ais jus i icados po um passado em comum. Con udo, os
acon ecimen os que ma ca am a his ó ia desses países são mais complexos do que pa ece
ep esen a o í ulo de “países i mãos”. Apesa das na a i as de um sen imen o de
a e nidade cimen ado numa alegada “con i ência mul issecula ” e “passado comum”,
a o ma como os acon ecimen os ligados à colonização são e ocados po po ugueses e
po cidadãos de países que no passado o am colônias po uguesas, como o B asil, é
ma cada po di e gências e ambiguidades (e.g. Cabecinhas e al., 2006; Sá, Oli ei a &
P ado, 2004). A análise de con e gências e di e gências nas memó ias cole i as sob e
um dado acon ecimen o é undamen al, pois a o ma como um g upo ep esen a sua
his ó ia a ua na de inição da sua iden idade social, nas elações com ou os g upos, nas
espos as a acon ecimen os polí icos, den e ou os desa ios a uais (Liu e al., 2005).
Hakoköngäs e Sakki (2016) de endem que o campo da memó ia cole i a é
complexo e in e disciplina , sendo emp egadas po ezes de e en es e minologias como
sinônimas. En e an o, pa a os au o es, a memó ia cole i a si ua-se no c uzamen o da
eo ia da iden idade social (Taj el, 1982) e da eo ia das ep esen ações sociais
(Mosco ici, 1961/2004), pois «sua unção p imo dial é c ia um sen imen o de
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iden i icação, um sen imen o de con inuidade e de solida iedade no seio de um g upo,
bem como sepa a o g upo dos “ou os”» (Hakoköngäs & Sakki, 2016, p. 2). Nes e es udo,
op amos pelo e mo memó ia social e pelo concei o de ep esen ações sociais da his ó ia,
um conjun o de ep esen ações do passado, cons uído e pa ilhado no seio de um g upo,
a pa i de uma pe ença social comum (Lica a & Klein, 2005; Liu & Hil on, 2005).
Es udos sob e ep esen ações sociais da his ó ia, an o a ní el in e nacional como
nacional, êm iden i icado algumas endências comuns, mas, ambém e idências de que
cada g upo em suas p óp ias ên ases e pon os de is a sob e a His ó ia (e.g., Cabecinhas
e al., 2006; Hakoköngäs & Sakki, 2016; Liu e al., 2009; Pennebake e al., 2006).
Uma sé ie de es udos sob e as ep esen ações sociais do passado colonial
e idencia que as opiniões e emoções susci adas pelos acon ecimen os di e em em unção
do papel desempenhado pelo g upo du an e o pe íodo colonial (Cabecinhas & Feijó,
2010; Cabecinhas & Nhaga, 2008). Mesmo no que diz espei o às elações in e cul u ais
con empo âneas, an igos po os colonizados e an igos po os colonizado es expe imen am
impac os di e en es em es e as como a cons ução da iden idade ou a disc iminação social
(Bobowik, e al., 2018). Nesse sen ido, as dinâmicas da memó ia não podem se
en endidas sem conside a mos as múl iplas e pe sis en es assime ias de pode , a agência
indi idual e g upal e as in e ações co idianas (Cabecinhas, 2019).
Em um es udo sob e ep esen ações da his ó ia da Eu opa, Boucha e al. (2023),
explicam como, desde o início do p oje o eu opeu, êm sido p omo idas na a i as
his ó icas baseadas num conjun o especí ico de acon ecimen os e alo es supos amen e
comuns aos po os da Eu opa. Esse esga e de um “passado comum”, conside ado
undamen al no p ocesso de in eg ação eu opeia, em, no en an o, acompanhado de um
cu ioso silêncio de pa es impo an es da his ó ia do con inen e, como o colonialismo, a
esis ência ao colonialismo e os p ocessos de descolonização.
A p opagação de mi os e es e eó ipos que, po mui o empo, legi ima am o
colonialismo enquan o emp eendimen o que alegadamen e ouxe p og esso e
ci ilização, con ibuiu pa a o silenciamen o das ealidades sociais e cul u ais dos po os
ou o a colonizados (Mbembe, 2015). Como os es e eó ipos a uam na jus i icação das
ideologias, o necendo ao g upo p i ilegiado uma “explicação” da sua posição enquan o
al, mesmo memb os de g upos socialmen e des a o ecidos em alguns con ex os podem
aze uso de de e minadas ideologias e es e eó ipos pa a explica ou legi ima (implíci a
ou explici amen e) a os sociais, como a iolência con a g upos mino izados,
con ibuindo pa a a p ese ação de hie a quias e desigualdades (Ma eus & Pe ei a, 2023;
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Taj el, 1982). Nessa di eção, na a i as como a isão de que Po ugal “deu no os mundos
ao mundo” e ou as ep esen ações p esen es no imaginá io social po uguês con inuam
a in luencia elações in e g upais e p ocessos iden i á ios (Lins e al., 2024).
Ademais, o acismo e a disc iminação pe sis en es que pessoas pe cebidas como
es angei as nas sociedades eu opeias en en am não pode se dissociado do passado
colonial (Mignolo & Walsh, 2018) ou de uma lei u a colonialis a do ou o (Hen iques,
2020). Pos o isso, nes e a igo, obje i amos e le i sob e a memó ia social e os desa ios
decoloniais do p esen e a pa i da análise de um es udo sob e ep esen ações de
pe sonalidades his ó icas, ealizado no B asil e em Po ugal. Como pon o de pa ida e
pa a uma melho con ex ualização, e isi amos a segui um conjun o de es udos sob e
memó ia social e ep esen ações sociais da his ó ia.
A “memó ia do mundo” e suas dinâmicas
Os es udos da memó ia cons i uem um campo de g ande a enção acadêmica e
desen ol imen o nas úl imas décadas em domínios a iados, mas, especialmen e, nas
ciências sociais (Hakoköngäs & Sakki, 2016). As dinâmicas da memó ia social só podem
se comp eendidas na sua in e ligação com o con ex o social e cul u al en ol en e,
p ocessos iden i á ios e ep esen ações sociais, o que passa necessa iamen e pela
a iculação de ní eis de análise (Doise & Valen im, 2015). Assim, é undamen al e le i
sob e a “memó ia do mundo”, como as pessoas se elacionam com a his ó ia, bem como
comp eende os usos públicos do passado (e.g., Balbé e al., 2024; Cabecinhas & Abadia,
2013).
Ma cado es como gêne o, classe social ou o igem geog á ica in luenciam a
memó ia social, condicionando subs ancialmen e o espec o das eco dações possí eis
numa dada sociedade (Cabecinhas e al., 2018b). Bu e a e al. (2017) abo dam al ques ão
quando desc e em a c ip omnésia social, enômeno que oco e quando alo es
p omo idos po g upos “mino i á ios” são acei os e in eg ados socialmen e (como os
di ei os das mulhe es), mas essa acei ação em um cus o, pois é acompanhada pelo
“esquecimen o” em elação ao papel desempenhado pelo g upo em causa. Mesmo quando
uma mino ia a i a em sucesso em e mos de in luência, p omo endo mudanças sociais
consis en es, isso não signi ica que seu papel se á socialmen e “lemb ado” e econhecido.
No exemplo, apesa dos a anços impo an es quan o aos di ei os das mulhe es, os
mo imen os eminis as ainda são is os equen emen e de o ma nega i a e, mui as

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ezes, não ecebem nenhum c édi o po suas conquis as. Esse enômeno ilus a como
p ocessos de in luência social e, sob e udo, as posições de cada g upo na es u u a de
pode a uam na cons ução e disseminação de memó ias.
Nos úl imos anos, o am ealizados á ios es udos sob e ep esen ações sociais da
his ó ia em dezenas de países, nos quais os pa icipan es o am con idados a menciona
li emen e acon ecimen os e pe sonalidades que conside a am mais impo an es na
his ó ia mundial, nacional ou sup anacional (e.g., Boucha e al., 2023; B asil &
Cabecinhas, 2017; Liu e al., 2009; Pennebake e al., 2006). Re isões de li e a u a (e.g.,
Cabecinhas, 2018b; Hil on & Liu, 2017; Páez e al., 2016) des aca am um conjun o de
endências obse adas, en e elas: a) cen alidade da gue a e do con li o - endência pa a
conside a e en os ela i os a gue as, e o ismo, con li os e e oluções en e os mais
impo an es da his ó ia mundial; b) e ei o de ecência - endência pa a eco da
acon ecimen os mais ecen es, em de imen o dos mais emo os, bem como uma elação
en e acon ecimen os e ocados e a agenda mediá ica no momen o de ecolha de dados; c)
sociocen ismo - endência pa a conside a acon ecimen os que oco e am no seu p óp io
país, ou que en ol e am di e amen e o seu país, en e os mais impo an es, colocando o
seu país no “mapa mundo”; d) eu ocen ismo ou Wes e ncen ism - endência a uma isão
que coloca os acon ecimen os que oco e am nos países ociden ais, nomeadamen e, na
Eu opa e Es ados Unidos da Amé ica (EUA), como cen o do mundo, ep oduzindo as
elações de pode hegemônicas na o dem mundial (Liu e al., 2005, 2009); e) e ei o
nos álgico - endência a conside a e en os mais emo os como mais posi i os do que
acon ecimen os ecen es (Páez e al., 2016); e ) and ocen ismo - quase odas as
pe sonalidades conside adas mais impo an es na his ó ia, nesses es udos, o am homens
(Cabecinhas, 2018a).
Quan o ao e ei o de ecência, e i icou-se um des aque pa a pe sonalidades dos
úl imos cem anos. Esse e ei o oi, inclusi e, mais acen uado na condição de e ocação às
pe sonalidades do que aos acon ecimen os (B asil & Cabecinhas, 2017; Liu e al., 2005).
Ve i icou-se ainda um p edomínio de go e nan es, polí icos, líde es mili a es e líde es
eligiosos, em de imen o de ou as á eas de a uação (Liu e al., 2009). As pe sonalidades
e ocadas o am, sob e udo, homens, b ancos, c is ãos, o iundos de países ociden ais (e.g.,
Cabecinhas, 2018b). Cabe des aca que nos es udos iniciais oi pedido aos pa icipan es
pa a lis a em cinco “pe sonalidades” que conside a am mais impo an es enquan o nos
es udos mais ecen es essa ques ão oi e o mulada, passando a solici a “pessoas ou
g upos”, mas o e ei o de pe sonalização pe maneceu en e os p incipais esul ados (e.g.,
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Boucha e al., 2023). Ou seja, de o ma ge al, os pa icipan es e oca am sob e udo
pessoas singula es, endo sido mui o a as as e e ências a g upos, o que apon a pa a um
e ei o de solipsismo, no qual a his ó ia é pe cebida como p odu o da agência indi idual,
descu ando a agência cole i a (Cabecinhas, 2023).
Dados ecolhidos nos países a icanos de língua o icial po uguesa co obo a am
esses pad ões obse ados nos es udos sup aci ados. Em complemen o, e i icou-se
ambém um signi ica i o des aque pa a os e ei os op essi os do colonialismo e as lu as
de libe ação po pa e dos pa icipan es nos países a icanos (e.g. Cabecinhas & Feijó,
2010; Cupa a, 2022; Mendes e al., 2010) e, em con apa ida, um silêncio da maio ia dos
pa icipan es po ugueses sob e es es p ocessos (Cabecinhas, 2019).
Os es udos epo ados an e io men e o am ealizados com ques ões abe as, is o
é, os pa icipan es o am chamados a e oca , sem qualque lis agem p é ia, os
acon ecimen os que conside a am mais impo an es na his ó ia nacional ou sup anacional
(po exemplo, his ó ia da Eu opa). Es udos ealizados com ques ões echadas pe mi i am
ap o unda os conhecimen os sob e a es u u a e as unções dessas ep esen ações. Po
exemplo, em um es udo sob e ep esen ações sociais do colonialismo em ês países
eu opeus (Bélgica, F ança e Po ugal) e seis a icanos (Angola, Bu undi, Cabo Ve de,
República Democ á ica do Congo, Guiné-Bissau e Moçambique), Lica a e al. (2018)
demons a am que as ep esen ações do colonialismo se es u u am em duas dimensões
básicas: “explo ação e acismo” e “desen ol imen o” (po exemplo, “a cons ução de
ias de comunicação e de in aes u u as econômicas nas colônias”). Os esul ados
indica am que as ep esen ações sociais do colonialismo en e os pa icipan es eu opeus
e am mais nega i as, mas es es não es abelece am conexões en e o colonialismo, a ida
co idiana e implicações u u as pa a o seu país. Em con apa ida, en e os pa icipan es
a icanos o passado colonial e suas con inuidades são mais equen emen e pe cebidos
como ques ões do p esen e e com implicações no u u o (Lica a e al., 2018).
Es e conjun o de es udos e idencia a complexidade da memó ia social e os
desa ios decoloniais a ela associados. Mas, e quan o às elações especí icas en e B asil
e Po ugal?
B asil e Po ugal: algumas conside ações
Es udos an e io es ealizados com pa icipan es po ugueses indicam que o
impac o dos “Descob imen os” na his ó ia nacional em sido conside ado
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consensualmen e posi i o, susci ando emoções como o gulho, aleg ia, elicidade e
ascínio, independen emen e do enquad amen o da e ocação des e acon ecimen o
(his ó ia mundial ou his ó ia nacional) (e.g., Cabecinhas e al., 2006; Sá e al., 2004; Vala
& Sain -Mau ice, 2004). Apesa de se um acon ecimen o emo o, a maio pa e dos
pa icipan es po ugueses e e e os “Descob imen os”, os “Descob imen os po ugueses”,
a “Descobe a do caminho ma í imo pa a a Índia” ou a “Descobe a do B asil”. Além
disso, embo a os pa icipan es po ugueses e i am ou os acon ecimen os, como a
Fundação da nação e o 25 de Ab il de 1974, o pionei ismo dos po ugueses no pano ama
expansionis a pa ece ainda pe manece na memó ia social enquan o um passado
“glo ioso” ou como a “idade de ou o” da nação (Cabecinhas, 2018b).
A ele ada saliência cogni i a do pe íodo dos “Descob imen os” é um pon o
dissonan e quando compa ado às memó ias de pa icipan es de ou os países, nos quais
se e i icou um oco no passado mais ecen e da his ó ia nacional. Di e sos au o es êm
discu ido essa con inuidade a pa i de es udos sob e o ensino da his ó ia e o con eúdo
dos manuais escola es (e.g. A aújo, 2020; Cabecinhas e al., 2022; Soa es & Jesuíno,
2004; Valen im & Miguel, 2018). Nesse con eúdo ea ualizado na mídia e em ou os
espaços sociais, apesa de alguma inclusão de “ isões do ou o”, pa ece não ha e uma
ans o mação conc e a das es u u as na a i as.
Ademais, Cabecinhas e al. (2006), em um es udo compa a i o, indica am uma
“idealização dos Descob imen os” e a dissociação en e a “chegada dos po ugueses”,
como um ma co his ó ico, e o p ocesso de “colonização”. En e pa icipan es b asilei os,
po sua ez, o “Descob imen o” susci ou uma mis u a de emoções (decepção, e ol a,
aleg ia, admi ação e indi e ença). Es es esul ados demons am que a onalidade
emocional de um acon ecimen o depende das pe enças sociais, polí icas, geog á icas e
econômicas dos g upos en ol idos. Depende ainda da o ma como cada g upo concebe o
papel que desempenhou no acon ecimen o (Cabecinhas, 2019). Além dos
“Descob imen os”, os pa icipan es b asilei os epo a am emoções ambi alen es ace à
p esença po uguesa em ou os acon ecimen os: a “ inda da amília eal” pa a o B asil,
po exemplo, oi associada a emoções posi i as. Já a “colonização po uguesa” susci ou
emoções nega i as (Cabecinhas e al., 2006).
Nos es udos an e io es, os pa icipan es b asilei os menciona am ambém
acon ecimen os como a “Di adu a mili a ”, a “Abolição da esc a a u a”, a
“Independência do B asil” e algumas e ol as con a a colonização po uguesa du an e os
séculos XVIII e XIX (Cabecinhas e al., 2006). Em es udo ecen e ealizado no B asil,
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po Techio e al. (no p elo), os acon ecimen os mais lemb ados, em 2017, o am, nes a
o dem: “Descob imen o do B asil”, “Independência do B asil”, “Esc a idão”,
“Colonização”, “Abolição da esc a idão” e “Chegada dos po ugueses”; em 2019:
“Esc a idão”, “Colonização”, “Descob imen o do B asil”, “Chegada dos po ugueses”,
“Genocídio indígena” e “B asil Colônia”; em 2020: “Esc a idão”, “Descob imen o do
B asil”, “Colonização” e “Chegada dos po ugueses”. Hou e, po an o, e e ências ao
passado colonial nessas e ocações e pa ece es a subjacen e a elas uma pe spec i a mais
c í ica ace ca desses ma cos his ó icos. Nessa di eção, analisa emos a segui dados de um
es udo sob e ep esen ações de pe sonalidades his ó icas, ealizado no B asil e em
Po ugal. Ap esen amos, inicialmen e, o enquad amen o me odológico do p og ama de
pesquisa que deu o igem ao es udo.
Mé odo
Es e es udo é pa e de um p oje o mais amplo com o obje i o de analisa as
memó ias sociais sob e a his ó ia sup anacional e a his ó ia nacional, a a és de um
inqué i o po ques ioná io online, cujos dados o am ecolhidos em Po ugal en e 2015
e 2016 (no âmbi o da Ação COST IS 1205 – “Dinâmicas psicossociais das ep esen ações
da his ó ia na União Eu opeia ala gada”) e no B asil en e 2020 e 2021 (enquad ado no
p oje o CNPq nº 204632/2018-8, “Anomia, iden idade nacional e acismo”). Nes e a igo,
abo da emos os esul ados e e en es à e ocação li e de pe sonalidades da his ó ia
nacional (as demais ques ões o am obje o de análise em ou os abalhos). Em unção do
pe íodo de ecolha de dados, ap esen a emos p imei o os dados da amos a po uguesa e,
em seguida, os dados da amos a b asilei a. Na sequência, em uma discussão ge al,
p opomos algumas e lexões a pa i da elação en e as pe sonalidades his ó icas mais
eco dadas pelos pa icipan es dos dois países.
Pa icipan es
Pa icipa am des e es udo 164 po ugueses e 96 b asilei os. Ap esen amos na
Tabela 1 os p incipais dados desc i i os dos pa icipan es, conside ando as a iá eis:
idade, gêne o, escola idade. Quan o aos c i é ios pa a a composição da amos a,
conside amos necessá io apenas e acima de 18 anos e condições de escola idade pa a
esponde ao ques ioná io. Em Po ugal, como a ecolha de dados acon eceu na
uni e sidade, equen a um cu so ambém oi, consequen emen e, um c i é io de
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ma cada pela explo ação em ciclos econômicos - pau-b asil, açúca e ou o -, além da
esc a ização de indígenas e a icanos.
Além disso, a emá ica do colonialismo eme ge na e ocação desses g upos, mas,
ambém, na p esença de ep esen an es da co oa po uguesa, como D. Ped o I (p imei o
Impe ado do B asil, 1822-1831) e D. Ped o II (segundo e úl imo mona ca do Impé io do
B asil, endo impe ado du an e um pe íodo de 58 anos, 1831-1889). Embo a haja
e idências do c escimen o de uma lei u a mais c í ica ace ca da his ó ia (Cabecinhas e
al., 2006; Techio e al., no p elo), ais pe sonalidades ainda ap esen am a aliações
posi i as nes e es udo (em média seis pon os na escala de alência), o que pode
ep esen a a o ça e manu enção da na a i a his ó ica dominan e. Pois, ma cos como a
independência do B asil ou a abolição da esc a a u a con inuam a se na ados enquan o
a os he oicos ou bene olen es dos ep esen an es da co oa po uguesa (g i o do Ipi anga;
assina u a da Lei Áu ea), negligenciando a impo ância das di e sas lu as popula es que
en aquece am o colonialismo e o egime esc a oc a a.
En e an o, a p esença e a aliação posi i a de g upos mino izados, como os
“Indígenas” (M = 6,77) e “A odescenden es” (M = 6,73), as mais al as médias de
alências no op 10, po um lado, e a a aliação nega i a dos “Colonizado es” (M = 2,3),
a mais baixa alência, po ou o lado, pa ecem simboliza um p ocesso de econs ução
c í ica do passado colonial em cu so no B asil. Embo a não es eja en e o Top 10, a igu a
de Zumbi dos Palma es (11º luga ), po exemplo, impo an e símbolo da esis ência neg a,
líde do maio quilombo do pe íodo colonial, pa ece compo essa a ualização con a
hegemônica da his ó ia nacional, ao elemb a que não hou e nada pací ico na lu a con a
a esc a idão e pela independência do B asil.
Discussão Ge al
Embo a a compa ação en e os dados dos dois países não es eja en e os obje i os
des e es udo (nem seja possí el em unção de ca ac e ís icas da amos a: não-
ep esen a i as e com assime ias na dis ibuição, em e mos de idade e gêne o),
p opomos nes a seção algumas e lexões a pa i da elação en e as pe sonalidades
his ó icas mais eco dadas pelos pa icipan es dos dois países. De manei a ge al, as
e ocações an o dos pa icipan es b asilei os quando dos po ugueses pa ecem co obo a
com os achados da li e a u a (e.g., Cabecinhas, 2019; Hil on & Liu, 2017; Páez e al.,
2016), especialmen e, quan o às ausências ou assime ias.

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Em ambos os países, os dados e idenciam ep esen ações da his ó ia
and ocên icas, não ha endo nenhuma mulhe no Top 10 das pe sonalidades e ocadas.
Isso não signi ica, po si só, que os pa icipan es sejam p econcei uosos con a as
mulhe es em um ní el de análise indi idual. O que essa ausência indica é, sob e udo,
como a disc iminação de gêne o é uma ques ão sis êmica de g ande impac o, e le indo-
se no silenciamen o do papel das mulhe es na his ó ia. Como a ideia de supe io idade
acial e cul u al do homem b anco e a sua “missão ci ilizado a” é uma das dimensões
undamen ais do sis ema ideológico colonial (Hen iques, 2020), a a e a de isibiliza as
mulhe es da his ó ia é ambém pa e dos desa ios decoloniais do p esen e.
Além disso, a análise das e ocações dos pa icipan es do B asil e de Po ugal
indica a cen alidade da polí ica e, consequen emen e, a negligência de ou as á eas, como
a cien í ica ou ambien al (ques ão que se o na ainda mais ele an e se conside a mos que
os pa icipan es são quase odos uni e si á ios); além do e ei o de ecência e uma
endência pa a o solipsismo: os pa icipan es nomea am mais pessoas singula es e poucos
g upos ou mo imen os sociais. No B asil, esse e ei o oi menos acen uado, pois hou e
g upos nacionais impo an es en e os mais e ocados.
Obse a-se, ambém, nessas e ocações, a cen alidade dos “he óis nacionais”,
igu as elacionadas a na a i as de conquis as e con li os. Enquan o que no caso dos
pa icipan es po ugueses odas as pe sonalidades que compõem o Top 10 são homens e
po ugueses, no caso dos pa icipan es b asilei os são nomeadas pe sonalidades de o igem
po uguesa ou ep esen an es de Po ugal du an e o pe íodo colonial. Cabe e le i sob e
a p esença dessas pe sonalidades en e as conside adas mais impo an es na his ó ia do
país, em de imen o de pe sonalidades b asilei as. Nessa di eção, alguns au o es êm
e idenciado como, apesa de se em equen emen e subes imados, o colonialismo e seus
e ei os op essi os con inuam a molda as men alidades e ainda es ão p esen es nas a uais
dinâmicas psicossociais en e an igos po os colonizados e colonizado es, a uando na
ep odução de de e minados es e eó ipos sociais e na manu enção do colonialismo como
o ma de elação social (Bobowik, e al., 2018; Quijano, 2005; Lica a & Volpa o, 2010).
Lica a e al. (2018), po exemplo, mos a am que as ep esen ações sociais do
colonialismo es a am associadas à iden i icação nacional en e os pa icipan es de países
a icanos an e io men e colonizados, mas não en e os pa icipan es de países eu opeus
an e io men e colonizado es, como se o colonialismo não i esse impac ado ambém a
Eu opa. Nessa di eção, pa a Ribei o e Ribei o (2016) é undamen al discu i como o
impe ialismo de iniu a Eu opa e como ela ambém p ecisa se descolonizada, po meio
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de um “ abalho da memó ia”. Pa a os au o es, esse abalho se o nou um impe a i o
simul aneamen e polí ico e é ico, a im de p omo e e lexões que agam pa a o cen o
do deba e as incidências con empo âneas do passado colonial.
En e os b asilei os que pa icipa am des e es udo, pa ece ha e uma
con aposição en e a e são con ada pelos g upos dominan es (“D. Ped o I” e “D. Ped o
II”) e as lu as popula es de esis ência (“Indígenas” e “A odescenden es”). O que le a a
uma e lexão sob e o papel de e minan e do pode nas ep esen ações sociais da his ó ia.
Pois, em uma dimensão linguís ica, pode é o que de e mina como as his ó ias são
con adas, po quem e quando são con adas. “Pode é a capacidade de con a a his ó ia de
ou a pessoa e o ná-la sua his ó ia de ini i a” (Adichie, 2009, p. 16).
Com isso, cabe ques iona : como a e lexão sob e a memó ia social a pa i das
pe sonalidades his ó icas pode se ú il pa a o en en amen o dos desa ios decoloniais?
Em espos a, á ios abalhos (e.g. Boucha e al., 2023; Cabecinhas & Nhaga, 2008;
Lica a & Volpa o, 2010) êm essal ado que embo a as memó ias de con li os passados
mui as ezes cons i uam en a es ao diálogo, a mobilização de di e en es isões do
passado, po ou o lado, pode auxilia a econciliação in e g upal, o espei o e
econhecimen o mú uo. Assim, da a conhece os di e en es olha es sob e o passado é
essencial no comba e ao apagamen o da memó ia de algumas pessoas e g upos
mino izados (Cabecinhas, 2023; Gu man & Wüs enbe g, 2023). Nesse con ex o, a
descolonização do pensamen o, de modo a descons ui “ elhos” es e eó ipos e as
con inuidades do colonialismo como o ma de elação social (Quijano, 2005) é uma a e a
pa icula men e desa ian e.
Conside ações inais
Nes e a igo, nosso obje i o p incipal oi e le i sob e a memó ia social e os
desa ios decoloniais do p esen e a pa i da análise de um es udo sob e ep esen ações de
pe sonalidades his ó icas, ealizado no B asil e em Po ugal. Em espos a a esse obje i o,
des acamos que pe sonalidades elacionadas ao passado colonial o am espon aneamen e
e ocadas nos dois países, embo a com di e en es a aliações quan o ao seu impac o na
his ó ia nacional.
A eco ência e a a aliação posi i a dos na egado es em Po ugal, além da não
e e ência a pe sonalidades inequi ocamen e elacionadas ao p ocesso de descolonização
e à lu a con a a iolência colonial, pa ecem indica a con inuidade de uma isão posi i a
dos “Descob imen os” (pa a os pa icipan es des e es udo) como o ma de man e uma
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iden idade posi i a, uma ez que o passado é lido, “esquecido” e econs uído de o ma a
man e a iden idade posi i a dos g upos. Em oposição a esse silêncio a espei o do
colonialismo e seus e ei os mais b u ais, como o á ico humano e ou as o mas de
op essão, en e os pa icipan es b asilei os, os “colonizado es” o am as pe sonalidades
com pio a aliação en e os mais e ocadas. Já “Indígenas” e “A odescenden es”,
enquan o símbolo de lu a e esis ência, o am as pe sonalidades melho a aliadas.
Po ém, igu as elacionadas ao passado colonial como D. Ped o I e D. Ped o II
ambém pe manece am cen ais nas ep esen ações sociais da his ó ia pa a os
pa icipan es no B asil, sendo a aliados posi i amen e. Assim, na a i as abe amen e
c í icas e en á icas quan o ao ca á e nega i o e de explo ação do colonialismo pa ecem
coexis i com ou as que celeb am os colonizado es e sua impo ância his ó ica. Cabe
discu i as consequências dessa cen alidade no quad o dos desa ios decoloniais e e le i
sob e as “ânco as” a i adas na e ocação de cada uma dessas pe sonalidades (Cabecinhas
e al, 2006). Tais ambi alências quan o às pe sonalidades elacionadas ao colonialismo
e idenciam como a memó ia social é um “campo de dispu a” e de lu a simbólica en e
g upos. En e an o, cabe salien a que es e é um es udo explo a ó io, não sendo possí el
gene aliza seus esul ados pa a oda a população do B asil ou de Po ugal, pois não o am
usadas amos as ep esen a i as.
Enquan o limi ações, é impo an e e e i as di e enças especí icas quan o aos
pa icipan es e ins umen os aplicados nos dois países. A ques ão da dis ibuição da
amos a em e mos de idade e gêne o, po exemplo, impossibili a a compa ação e
con as e en e os dados. Em unção de al assime ia, os esul ados ela ados podem se
in luenciados pelas di e enças de gêne o, po exemplo, e não apenas pelo enquad amen o
em e mos da nacionalidade. Dian e disso, e o çamos que não emos a in enção de aze
in e ências ou ex apolações pa a a população em ge al de cada país. O obje i o é
p omo e e lexões a pa i da elação en e as pe sonalidades mais eco dadas pelos
pa icipan es, conside ando que os mesmos es ão inse idos em di e en es ealidades e
momen os his ó icos.
Ou a limi ação a se conside ada na lei u a desses esul ados é o pe íodo de cole a
de dados en e os dois países. A cole a de dados em Po ugal oco eu em 2015/2016
enquan o no B asil em 2021/2022, cob indo um pe íodo de in ensas ans o mações
sociais em odo o mundo, com a pandemia de COVID-19 e a in ensi icação dos
mo imen os decoloniais e as mobilizações an i acis as do mo imen o Black Li es
Ma e , após o assassina o de Geo ge Floyd nos EUA. Nessa di eção, no os es udos
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podem se ealizados a im de a alia , inclusi e, o impac o desses acon ecimen os na
memó ia social.
Es udos u u os podem conside a ambém uma amos a mais ampla e com melho
dis ibuição, além de ou as me odologias, como g upos ocais, capazes de amplia as
discussões susci adas pelos dados e ma iza algumas das endências obse adas. Ademais,
como o am analisadas e ocações espon âneas, cabe conside a o possí el impac o da
ecência ou a ualização mediá ica de de e minados emas no imaginá io social, como a
p oximidade do pe íodo elei o al, a comemo ação do bicen ená io da independência do
B asil, em 2022, ou a exibição, no pe íodo da ecolha de dados, de uma no ela de g ande
audiência no país: “Nos Tempos do Impe ado ”, que con a a a aje ó ia de Ped o II, à
en e da Co e b asilei a.
Em suma, as e lexões p opos as nes e es udo podem se elacionadas a ou as
in es igações (Bobowik, e al., 2018; Lica a e al., 2018) sob e as ep esen ações do
passado colonial que, igualmen e, con idam-nos a um ap o undamen o sob e os e ei os
ou as incidências con empo âneas do colonialismo. En e memó ias e desa ios
decoloniais, des acamos que de e minadas ausências ou “esquecimen os” (como as
discussões sob e o colonialismo e seus e ei os ou a in isibilização das mulhe es na
his ó ia) podem e uma sé ie de implicações nas elações en e pessoas e g upos nas
sociedades con empo âneas, como os casos de disc iminação e acismo. Nesse con ex o,
as na a i as his ó icas (e uma maio di e sidade nas his ó ias) podem se impo an es
e amen as, pois o modo como o passado é ep esen ado po um g upo a e a suas p á icas
sociais, isões do p esen e, a pa icipação na ação cole i a e agendas pa a o u u o
(Cabecinhas, 2019; F eel & Bilali, 2022; Makanju e al., 2023), além de desempenha um
papel c ucial nos p ocessos de econciliação e epa ação his ó ica (Lica a & Volpa o,
2010).
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Recei ed: 2024-03-11
Accep ed: 2025-02-25