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Universidade do Minho Escola de Letras, Artes e Ciências Humanas Rongrong Cui COVID-19 em Portugal e na China: A Cultura como Fator de Influência na Prevenção e Proteção contra a Pandemia fevereiro de 2025 Rongrong Cui COVID-19 em Portugal e na China: A Cultura como Fator de Influência na Prevenção Proteção contra a Pandemia UMinho | 2025
fevereiro de 2025 Universidade do Minho Escola de Letras, Artes e Ciências Humanas Rongrong Cui COVID-19 em Portugal e na China: A Cultura como Fator de Influência na Prevenção e Proteção contra a Pandemia Dissertação de Mestrado Mestrado em Estudos Interculturais Português/Chinês : Português para Falantes de Chinês Trabalho efetuado sob a orientação do Doutor João Marcelo Mesquita Martins
ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição-NãoComercial CC BY-NC https://creativecommons.org/licenses/by-nc/4.0/
iii AGRADECIMENTOS Quero agradecer ao meu orientador, Doutor João Marcelo Mesquita Martins, por me ter guiado durante o meu percurso académico. Embora geralmente ocupado, o Professor João deu-me uma orientação cuidadosa em todas as etapas da dissertação, desde a consulta de materiais até à determinação do tema, o primeiro rascunho do trabalho, a verificação intermédia e a revisão posterior, e apontou-me repetidamente erros e falhas. Além de admirar o seu profissionalismo, a sua atitude rigorosa e o espírito de pesquisa académica são exemplos que sempre apreciarei, algo que, acredito, influenciará positivamente os meus estudos e trabalho futuros. Agradeço também aos meus colegas e professores: Professor Manuel Gama, Professora Sun Lam, Professora Bruna Peixoto, Professor Pedro A. Vieira, e todos os outros professores. Por exemplo, com o Professor Gama adquiri uma melhor compreensão da cultura portuguesa e, graças à Professora Sun Lam, consegui aprofundar os meus conhecimentos sobre a cultura de chá. Eles não só me deram uma enorme orientação e assistência nos meus estudos, como também me deram lições de vida. Agradeço especialmente à minha família! Pelo seu encorajamento, por todo o seu cuidado e apoio infalíveis ao longo do meu percurso académicao. Sem o amor e o apoio dos meus pais, não teria sido capaz de completar mais esta etapa. Agradeço a todos os autores das referências, cujas frutíferas pesquisas constituem a base desta dissertação. Agradeço a todos os especialistas que reviram a dissertação e participaram da defesa.
iv DECLARAÇÃO Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados, em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho.
v COVID-19 em Portugal e na China: a cultura como fator de influência na prevenção e proteção contra a pandemia RESUMO No final de 2019, a COVID-19 espalhou-se como uma tempestade por todo o globo. Face à epidemia, os países adotaram diferentes medidas de emergência, tendo por base os seus próprios contextos políticos, culturais, médicos e outras características nacionais. A presente pesquisa tem como objetivo identificar e analisar os fatores subjacentes às medidas de combate à epidemia na China e em Portugal, sob uma perspetiva cultural. Por exemplo, no início da pandemia, o governo comunista chinês impôs imediatamente um confinamento obrigatório e rigoroso, enquanto Portugal implementou um confinamento relativamente mais flexível. Para melhor compreender estratégias nacionais tão distintas entre Oriente e Ocidente exige-se uma investigação mais aprofundada sobre que diferenças culturais atuaram neste contexto. Nesta dissertação, analisa-se a evolução da doença, utilizando materiais de pesquisa relevantes para refletir sobre os fatores culturais subjacentes às diferentes medidas para conter e mitigar a COVID-19 na China e em Portugal. O primeiro capítulo centra-se na evolução da epidemia e no seu impacto na política, economia, cultura e educação mundiais. Identifica-se, posteriormente, as medidas tomadas pelos governos chinês e português e os resultados obtidos. Por fim, destaca-se os motivos pelo quais os dois governos tomaram tais medidas, que reações populares estas suscitaram, de uma perspetiva cultural, e que lições poderão ser úteis no futuro, caso ocorram surtos semelhantes. Palavras-chave: COVID-19, Cultura, Coletivismo, Educação, Individualismo
vi COVID-19 in Portugal and China: Culture as an Influential Factor in Prevention and Protection against the Pandemic Abstract The COVID-19 spread like a storm that affected the entire globe at the end of 2019. In the face of the epidemic, countries adopted different emergency measures, based on their own political, cultural, medical contexts and other national characteristics. This research aims to identify and analyze the factors underlying measures to combat the epidemic in China and Portugal, from a cultural perspective. For example, at the beginning of the pandemic, China's communist government immediately imposed a mandatory and strict confinement, while Portugal implemented a relatively more flexible confinement. To better understand such radically different national strategies between East and West, a more in-depth investigation into what cultural differences acted in this context is required. This dissertation analyzes the evolution of the epidemic, using relevant research materials to reflect on the cultural factors underlying the different measures to combat COVID-19 in China and Portugal. The first chapter focuses on the evolution of the epidemic and its impact on global politics, economy, culture and education. The measures taken by the Chinese and Portuguese governments to combat the epidemic and the results obtained are subsequently identified. Finally, we highlight the reasons why the two governments took such measures, what popular reactions they aroused, from a cultural perspective, and what lessons could be useful in the future, if similar outbreaks occur. Keywords: COVID-19, Culture, Collectivism, Education, Individualism
vii 葡萄牙和中国的 COVID-19:文化作为预防和保护流行病的影响因素 摘要 2019 年末新冠疫情以一种风暴的形式迅速席卷了全球,整个世界遭到了重创,面对此次 疫情各国遵循各自的政治和文化环境,比如说文化、政治、医疗等国家特点采取了不同 的应急措施来面对这场突发灾难。 基于这种背景,笔者做了此次研究,试图从文化的角度研究,寻找中国、葡萄牙两国的 抗疫措施基于的文化原因,例如,在大流行病开始时,中国在共产党的控制下立即进行 强制性的严格禁闭;与中国的社会状况不同,葡萄牙实行的是相对宽松的禁锢,是何种 文化差异造就了这种东西方完全不同的措施? 在这篇论文中,我们将回顾该流行疾病发展的过程,借鉴有关的研究材料,分析中国、 葡萄牙采取不同抗疫措施的根本原因——文化因素。第一章主要介绍疫情的发展过程, 及对世界政治、经济、文化、教育造成的影响。第二章集中在面对疫情,中国政府、葡 萄牙政府采取的抗疫措施及所取得的成就。第三章则主要从文化的角度分析两国政府为 何采取这些措施、人民对这些措施采取何种态度,以及从抗疫措施我们可以汲取的教训, 为之后的疫情提出一些建议。 关键词:COVID-19、文化、集体主义、教育、个人主义
4 Capítulo I O conhecimento sobre a COVID-19 a 26 de janeiro de 2021, com os objetivos de: 1. Identificar as lacunas no sistema de financiamento global para a prevenção, vigilância, preparação e resposta a pandemias; e 2. propor soluções viáveis para colmatar estas lacunas nu ma base sistemática e sustentável, aproveitando de forma otimizada os recursos dos setores público, privado e filantr ópico e das instituições financeiras internacionais.
Um vírus varreu o mundo no final de 2019, causando perdas de vidas e, de maneira concomitante, um grande impacto político, económico, cultural e educacional. Os coronavírus são uma grande família de vírus conhecidos por causarem gripes e doenças mais graves, como a Síndrome Respiratória do Médio Oriente (MERS-CoV) e a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS). A COVID-19 é uma nova linhagem de coronavírus que nunca tinha sido encontrada em humanos. Os sinais comuns de infeção por em humanos incluem sintomas respiratórios, febre, tosse, dificuldades respiratórias, entre outros2. Em casos mais graves, a infeção pode conduzir a pneumonia, síndrome respiratória aguda grave, insuficiência renal e até mesmo à morte. 1.1 O início da COVID-19 Como referido, no final do ano de 2019, começava um processo de pandemia global, inédita, causada pelo SARS-CoV-2, um coronavírus de Síndrome Respiratória Aguda Grave, que ficou conhecida como COVID-19. Figura 1 - O SARS-CoV-2 visto ao microscópio eletrónico O primeiro caso foi registado na cidade chinesa de Wuhan (武汉, Wǔhàn ) e rapidamente se disseminou por todo o mundo3. Até 5 de março de 2021, registou-se 1.15 milhões de 2World Health Organization. (2024, January 3). Coronavirus disease (COVID-19): Similarities and differences between COVID-19 an d Influenza [Press release]. https://www.who.int/emergencies/diseases/novel-coronavirus-2019/question-and-answers-hub/q-a-detail/c oronavirus-disease-covid-19-similarities-and-differences-with-influenza 3Gao Yu, Peng Yanfeng, Yang Rui, Feng Yuding & Ma Danmeng. (2020, February 26). 独家|新冠病毒基因测序溯源:警报是 何时拉响的 Dújiā| xīnguān bìngdú jīyīn cèxù sùyuán: Jǐngbào shì hé shí lāxiǎng de (O sequenciamento genético do novo co ronavírus traça as suas origens: Quando soou o alarme?). CaiXin Media . https://web.archive.org/web/20200226161130/http://chin
6 casos em 192 territórios e países, resultando em 256.9 mil mortes4. Estes números representaram um crescimento epidémico dez vezes mais rápido, e em apenas um quarto do tempo, em comparação com o surto de SARS anterior (2002-2003). O Secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, descreveu estes acontecimentos como a crise global mais severa desde a Segunda Guerra Mundial. Figura 2 - Número de mortes causadas pelas principais pandemias histórica De acordo com investigadores da área da saúde, uma das características mais preocupantes da COVID-19 é o seu longo período de incubação, que pode atingir 24 dias. Além disso, qualquer pessoa infetada, mesmo que assintomática ou com sintomas leves, pode facilmente transmitir o vírus. Isto torna a triagem de sintomas ineficaz, havendo uma tendência de erros de diagnóstico devido à semelhança dos sintomas com outras condições, como a gripe. Ademais, os dados médicos indicam que o ser humano não é única fonte de contágio, sendo que o ambiente também desempenha um papel importante no processo de disseminação do vírus. Todos estes fatores contribuíram para o pânico global que se instalou. a.caixin.com/2020-02-26/101520972.html 4World Health Organization. (2021, March 5) . COVID-29 Statistics [Press release]. https://covid19.who.int
7 1.2 A propagação da COVID-19 e o agravamento da situação A COVID-19 expandiu-se gradualmente para os países vizinhos da China, como a Tailândia, o Japão e a Coreia do Sul, em janeiro de 2020, e, no dia 21 do mesmo mês, o vírus chegou à cidade de Seattle, nos Estados Unidos da América (EUA). Na China, o número de casos intensificou-se, atingindo um pico em meados de fevereiro; de igual forma, o número de casos confirmados na Itália, Coreia do Sul e Irão disparava exponencialmente. No dia 29 de fevereiro, a OMS elevou o nível de alerta para "muito alto", tendo, a 11 de março, declarado o surto como "pandemia global", após a identificação de muitos casos em países da Europa e do Médio Oriente. A 5 de outubro de 2020, a OMS estimava que cerca de 10% da população mundial poderia ter sido infectada pelo vírus5. Estes eventos marcaram a escalada da gravidade da situação em todo o mundo, com uma rápida disseminação do vírus e um número crescente de casos confirmados. Figura 3 - Mapa de infetados no mundo 5CGTN. (2020). Cronograma da COVID-19 [Press release]. https://news.cgtn.com/event/2020/The-Pandemic/index.html
8 Na Europa, o primeiro caso6de infeção registou-se em Roma, a 29 de janeiro de 2020, relacionado com dois turistas oriundos de Wuhan. Imediatamente após esta notícia, a Itália suspendeu todos os voos para a região da grande China, incluindo Hong Kong, Macau e Taiwan, e declarou o estado de emergência que se prolongou por seis meses. Cerca de 20 dias depois, o surto no norte da Itália contava com 60 novos casos e a primeira morte registada no país. No início de março, a primeira onda de COVID-19 atingiu vários países europeus, diminuindo gradualmente entre meados de abril e início de maio7. Posteriormente, em agosto do mesmo ano, um segundo surto começou em variados países, como França ou Espanha, com um aumento significativo nas taxas de infeção, mas sem um aumento significativo na mortalidade8. Dados da OMS demonstram que a 19 de março a pandemia alcançara mais de 150 países e territórios9. O número total de casos confirmados era de 209.809, sendo que um total de 16.498 registaram-se fora da China (Figura 4; a linha azul regista o número de novos casos por dia na China e a linha amarela aponta o número de novos casos diários fora da China). Em 13 de abril, o número de infetados ascendia a 1.905.935 pessoas em todo o mundo, com 118.623 mortes registadas. Na Europa, ainda no centro da pandemia, o aumento foi de 30.852 casos, totalizando 965.927 casos acumulados. 6Severgnini, Chiara. (2020, January 30). Coronavirus, primi due casi in Italia «Sono due cinesi in vacanza a Roma». Corrieri del la Sera. https://www.corriere.it/cronache/20_gennaio_30/coronavirus-italia-corona-9d6dc436-4343-11ea-bdc8-faf1f56f19b7.shtml 7Anzolin, Elisa & Amante, Angelo. (2020, February 22). First Italian dies of coronavirus as outbreak flares in north. Reuters. http s://www.reuters.com/article/us-china-health-italy/coronavirus-outbreak-grows-in-northern-italy-16-cases-reported-in-one-day-idUSKBN20F0UI/ 8(2022, January 2). No dia de Ano Novo, o número cumulativo de casos confirmados de pneumonia de Wuhan na Europa ultr apassou 100 milhões. The Liberty Times. https://web.archive.org/web/20220102114326/https://news.ltn.com.tw/news/world/breaki ngnews/3787366 9Department of Science and Technology of Guangdong Province. (2020, April 15). 欧洲为何成为新冠肺炎“大流行”中心?这篇 文章说清楚了 Ōuzhōu wèihé chéngwéi xīnguān fèiyán “dà liúxíng” zhōngxīn? Zhè piān wénzhāng shuōqīngchǔle ( Porque é qu e a Europa se tornou o epicentro da pandemia da COVID-19? Este artigo deixa claro ) [Press release]. http://gdstc.gd.gov.cn/kjfyz l/fykp/content/post_2973849.html
9 Figura 4 - Número de novos casos por dia na China e fora da China, no início de 2020 1.3 Os impactos causados pela COVID-19 1.3.1 O impacto na economia Um relatório do Banco Mundial estima que a pandemia de COVID-19 desencadeou a maior crise económica global do último século, com a atividade económica em 2020 a contrair-se em 90% dos países, o que excede o número de nações que vivenciaram declínios semelhantes durante as duas guerras mundiais, a Grande Depressão dos anos 1930, as crises da dívida de economias emergentes da década de 1980 e a crise financeira global de 2007–2009. O documento salienta ainda que a economia mundial encolheu cerca de 3%, a pobreza global aumentou pela primeira vez numa geração e os impactos foram especialmente severos nas economias emergentes10. A figura 5 ilustra a relação entre o PIB per capita e o número de casos confirmados por milhão habitantes em alguns países. Observa-se uma correlação estatística positiva entre o número de casos confirmados e o nível de desenvolvimento económico dos países analisados: os países com PIB per capita mais elevado (valores em US$ de 2018) tendem a apresentar um maior número de casos confirmados por milhão de habitantes (número de casos acumulados até 18 de março de 2023). 10 Banco Mundial. (2022). Desenvolvimento Mundial 2022. Finanças a Serviço de uma Recuperação Equitativa. Washington, D.C.
10 Figura 5 - Correlação entre o PIB per capita e o número de casos confirmados por milhão de habitantes em alguns países Os países mais desenvolvidos registavam maior propensão à infeção e rápida propagação devido à alta circulação populacional e à intensa internacionalização. Além disso, sublinhe-se que alguns deles apresentam taxas elevadas de envelhecimento populacional, o que aumenta a vulnerabilidade às infeções11. Por outro lado, os países em desenvolvimento enfrentaram desafios adicionais devido à precariedade dos seus sistemas de saúde12. Muitos deles tinham capacidade limitada para realizar testes em larga escala, resultando num menor número de casos confirmados e numa subnotificação dos casos de COVID-19 nessas regiões. 11 Previva. (2020, April 23). Covid-19 em idosos: por que eles são mais vulneráveis ao novo coronavírus [Press release]. https://www.previva.com.br/novosite/covid19emidosos/ 12 Organização das Nações Unidas. (2010, September 9). 世卫组织:发展中国家和发达国家拥有和使用医疗设备差距悬殊 Shì wèi zǔzhī: Fāzhǎn zhōng guójiāhé fādá guójiāyǒngyǒu hé shǐyòng yīliáo shèbèi chājù xuánshū (OMS: Existe uma enorme lacuna entre os países em desenvolvimento e os desenvolvidos na propriedade e utilização de equipamentos médicos) [Press release]. https://news.un.org/zh/story/2010/09/136962
11 Figura 6 - Proporção de famílias pobres com testagens virais efetuadas Como oportunamente se referiu, as classes mais vulneráveis foram mais severamente afetadas pela COVID-19. Os dois gráficos apresentados, ambos do Fundo Monetário Internacional (Figura 6 e 7), revelam uma correlação inversamente proporcional entre o nível socioeconómico das famílias e o acesso à testagem do vírus. Para além disso, mostram que a testagem em massa tem um impacto positivo no número de vidas salvas em contexto da pandemia.
12 Figura 7 – Relação entre testagem e número de vidas salvas O apoio económico específico às famílias foi uma forma direta de atenuar o impacto dos choques económicos desfavoráveis e em grande escala no seu consumo. Ao mesmo tempo, a melhoria da informação sobre o surto, bem como a realização de testagens extensivas, melhoraram a capacidade de identificar e isolar novas infeções, reduzindo o risco de contágio. Registou-se mais de um milhão de mortes desde o início do surto de COVID-19. Para além disso, milhões de pessoas perderam os seus empregos e meios de subsistência, e estimou-se que mais 130 milhões de pessoas viveriam em extrema pobreza se a crise persistisse. O impacto económico sem precedentes expôs de forma drástica as fraquezas pré-existentes da economia global, atrasando significativamente o desenvolvimento global. A flexibilização das políticas monetárias em resposta ao impacto da epidemia geraram
13 preocupação quanto à forma como a economia mundial recuperará no período pós-epidémico. A epidemia foi sendo controlada à medida que a vacina chegava a mais países. Entretanto, o funcionamento normal do comércio global foi completamente perturbado e será difícil que este recupere a curto prazo, já que a produção foi severamente afetada e a flexibilização monetária não conseguiu impulsionar a economia como esperado. Nos próximos cinco anos, a economia mundial deverá manter a sua lenta tendência de recuperação, mas há também a possibilidade de uma desaceleração no crescimento ou até mesmo de uma recessão. Embora esteja atualmente sob controlo ou em remissão em alguns países, a epidemia continua a espalhar-se globalmente e as perspetivas de crescimento económico mundial estão repletas de incertezas, podendo experimentar padrões recessivos em forma de "W", de períodos de recuperação seguidos de recessão, refletindo a volatilidade económica causada pela pandemia13. 1.3.2 O impacto na cultura A ameaça da COVID-19 teve um grande impacto no contexto cultural. No início da pandemia, 90% dos países fecharam total ou parcialmente os seus sítios classificados como Património Mundial, segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura ou UNESCO: No auge da pandemia, o acompanhamento regular da UNESCO sugeria que cerca de 90% dos países com locais marcados como Património Mundial os tinham encerrado total ou parcialmente, com consequências sociais e económicas evidentes para as comunidades circundantes. 14 (UNESCO, 2021, 13 Zhang, X. (2021). 新冠肺炎疫情持续蔓延对经济全球化的深远影响 Xīnguān fèiyán yìqíng chíxù mànyán duì jīngjì quánqiú huà de shēnyuǎn yǐngxiǎng (O Impacto Profundo da Propagação Contínua de COVID-19 na Globalização Económica). Desenvolvimento e Pesquisa, (06) , 54-59. 14 Original: “At the height of the pandemic, regular tracking by UNESCO suggested that nearly 90% of countries with World Heritage properties had totally or partially closed them, with overt social and economic consequences for the surrounding communities becoming steadily apparent.”
20 Capítulo II Reações e conquistas de ambos os países face à pandemia
21 2.1 A reação de Portugal à ameaça da COVID-19 Apesar dos dois primeiros casos terem sido confirmados apenas a 2 de março de 2020, o governo português adotou medidas de preparação para a crise sanitária desde janeiro e, no final de fevereiro, começou a publicar diariamente boletins informativos26. Pouco depois da primeira morte registada no país (16 de março), ocorreu o primeiro pico do surto, entre 23 e 25 de março, quando o número de casos aumentou 28,75% diariamente, de acordo com a Direção-Geral da Saúde (DGS)27. Para fazer face à situação epidemiológica, o governo português aplicou vários níveis de resposta. A Lei de Bases da Proteção Civil estabelece três níveis diferentes de resposta a acidentes graves ou catástrofes: situação de alerta (a menos grave), situação de contingência (intermédia) e calamidade. O estado de emergência, acima do estado de calamidade, tem de ser iniciativa do Presidente da República e foi adotado várias vezes durante a pandemia. No auge do aumento, o Serviço Nacional de Saúde (SNS) adotou um tratamento diferenciado, para evitar o colapso, como aconteceu em alguns países europeus. Isto incluiu a possibilidade de os casos suspeitos reservarem testes através da linha Saúde 24; enquanto os casos confirmados com sintomas moderados ficavam em quarentena domiciliária, sob vigilância do Centro de Saúde mais próximo, aqueles com sintomas graves eram internados no hospital e os doentes de alto risco recebiam tratamento especial em unidades de cuidados intensivos. 26 Barros, S. G. et al. (2023, May). Vigilância e elevada cobertura vacinal: Como Portugal superou o colapso e retomou o controle da pandemia. Ciência & Saúde Coletiva, 28(5) , 1297-1312. 27 Direção-Geral da Saúde (DGS). (2020, April 16). Relatório de Situação nº 015 . https://www.dgs.pt/em-destaque/relatorio-de-situac ao-n-015-17032020-pdf.aspx
22 Figura 8 - Número de casos confirmados por data de início de sintomas Figura 9 - Caracterização dos casos confirmados Inicialmente, o norte de Portugal apresentou uma carga significativa, em especial considerando o número absoluto de casos confirmados e mortes devidas à COVID-19. A 3 de junho, o número de infeções na região representava 50,5% do total de casos confirmados e 55% do número total de mortes28. Contudo, a epidemia espalhou-se pelo país: em outubro de 2022 tinha-se registado já 5.509.424 casos, 25.125 mortes e 4.237.853 recuperações. 28 Shaaban, A. N., Peleteiro, B., & Martins, M. R. O. (2020, August 21). COVID-19: What is next for Portugal? Frontiers in Publi c Health, 8 . https://www.frontiersin.org/journals/public-health/articles/10.3389/fpubh.2020.00392/full
23 Figura 10 - Todos os casos da COVID-19 em Portugal A disseminação da COVID-19 criou uma pressão sem precedentes nos hospitais e nos recursos médicos a nível mundial. Em Portugal, ultrapassou-se a capacidade do sistema de saúde ao nível do número de leitos e cuidados críticos, que exigiram uma revisão substancial. Portugal possuía um total de 35.000 camas distribuídas entre hospitais públicos, privados e parcerias público-privadas (22.400, 10.900 e 1.600, respetivamente). O número de profissionais membros da Ordem dos Médicos era de 53.657 em 2018 e havia um total de 73.650 enfermeiros ativos naquele ano, de acordo com a Ordem dos Enfermeiros. Registava-se igualmente desigualdades geográficas no acesso à saúde, com a concentração de equipamento sanitário e fornecedores em Lisboa e no Porto, em comparação com outras áreas do país. Para além disso, os recursos médicos concentram-se tradicionalmente em áreas do litoral, mais desenvolvidas de um ponto de vista económico, enquanto as zonas interiores desfavorecidas têm dificuldades de acesso a serviços médicos correspondentes. 2.1.1 Medidas e conquistas contra a COVID-19 O governo comunicou as suas decisões através de um website institucional (notícias, documentos, comunicados de imprensa e multimédia), bem como realizando com
24 regularidade conferências de imprensa e declarações nos média por parte do Presidente da República, Primeiro-Ministro, vários membros do governo e altos funcionários de organizações públicas. O governo também criou uma página web específica, chamada "Estamos ON - A Resposta de Portugal à COVID-19. As informações sobre a evolução da pandemia foram divulgadas conjuntamente pelo Ministério da Saúde e pela Direção Geral de Saúde, numa base diária, na imprensa e na página web. Considerando a evolução da epidemia em Portugal, as medidas-chave tomadas pelo governo e pelas autoridades públicas podem ser divididas em três etapas: (1) até à declaração de situação de alerta a 13 de março; (2) desde esta data e até à declaração do estado de emergência a 18 de março; (3) após a declaração do estado de emergência e a implementação de medidas concretas pelo Conselho de Ministros em 19 de março. (1) Até à declaração de estado de alerta a 13 de março As medidas tomadas neste período foram progressivamente mais fortes. O governo e as autoridades públicas não tomaram medidas concretas com impacto nos direitos fundamentais, antes do primeiro caso confirmado, limitando-se a divulgar informações e conselhos destinados a proteger os cidadãos. Depois dos primeiros casos confirmados de infeção, as medidas tomadas procuraram sobretudo preparar as entidades públicas. Por exemplo, o Despacho nº 2836-A/2020 de 2 de março determinou que os empregadores públicos deviam elaborar um plano de contingência, conforme as diretrizes emitidas pela DGS, para a prevenção e controlo da contaminação pela COVID-19. No Despacho nº 3219/2020, de 3 de março, determinou a compra de medicamentos, dispositivos médicos e equipamentos de proteção pessoal para o SNS, por forma a garantir condições adequadas para o tratamento da doença e reforço dos respetivos stocks em 20%. O Despacho nº 3186-B/2020 de 6 de março criou a Linha de Apoio ao Médico, assumindo-se como uma ferramenta importante para confirmar casos suspeitos da doença e esclarecer dúvidas que pudessem surgir nos serviços de saúde. Com relação às proibições de viagens, o Despacho nº 3186-D/2020 de 10 de março suspendeu todos os voos, comerciais ou privados, com origem ou destino para Itália a partir de 11 de março e pelo período de 14 dias, visando conter a propagação. A proibição foi
25 estendida a todo o país após Itália ter declarado quarentena. A Resolução do Conselho de Ministros n.º 10-A/2020 de 12 de março estabeleceu várias medidas relativas ao COVID-19, nomeadamente o reforço das instalações de saúde do Hospital das Forças Armadas e outras unidades sanitárias das Forças Armadas; o reforço da capacidade de resposta operacional da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil; a aprovação de medidas fiscais e económicas específicas (como medidas de incentivo para empresas); a adoção de medidas para o atendimento nos serviços públicos e a aprovação de apoios aos trabalhadores e empregadores afetados pela COVID-19. (2) Até à declaração do estado de emergência a 18 de março; O Despacho n.º 3298-B/2020 de 13 de março declarou situação de alerta em todo o território nacional e o Decreto-Lei n.º 10-A/2020, da mesma data, estabeleceu medidas excecionais temporárias de resposta à epidemia SARS-CoV-2, nomeadamente ao nível da contratação pública e autorizações de despesa, e da suspensão de todas as atividades letivas e não letivas a partir de 16 de março de 2020, em todos os graus de ensino. Os estabelecimentos de ensino tiveram de adotar medidas necessárias à alimentação dos estudantes com apoio social e para acolherem os filhos dos trabalhadores dos serviços essenciais (por exemplo, profissionais de saúde, bombeiros, forças e serviços de segurança). Também o acesso a locais públicos foi limitado, como restaurantes ou bares com espaços de dança, considerando ainda as regras de ocupação estabelecidas na Portaria n.º 71/2020 de 15 de março. O SNS contratou mais médicos e enfermeiros, restringindo as férias ao estritamente necessário.
26 Figura 11 - Cronograma de implementação de restrições do governo português Os portugueses cumpriram as restrições, que aumentaram de forma progressiva, e o confinamento. Os cidadãos reduziram significativamente a sua mobilidade diária, ao nível de compras e lazer (-83%), atividades ao ar livre (-80%) e transporte (-79%)29. Atinente às medidas internacionais, a Portaria n.º 3298-C/2020 de 13 de março proibiu o desembarque e a licença de desembarque de passageiros e tripulantes de navios de cruzeiro em portos nacionais, podendo estes atracar apenas para fins de abastecimento e manutenção. Não obstante, esta proibição não se aplicou a cidadãos nacionais ou titulares de autorizações de residência nacionais. Uns dias mais tarde, o Conselho de Ministros implementou temporariamente o controlo documental nas fronteiras com vista à defesa da saúde pública, o que se verificou entre 16 de março e 15 de abril daquele ano, através da Resolução n.º 10-B/2020 de 16 de março. Isto constituiu uma restrição ao Acordo de Schengen e suspendeu os voos, comboios, transportes fluviais e marítimos e o tráfego rodoviário proveniente de Espanha. Registaram-se algumas exceções, ao nível do transporte internacional de mercadorias, circulação de trabalhadores transfronteiriços, circulação de veículos de emergência, direito de entrada de nacionais e titulares de autorizações de residência, circulação de pessoal diplomático, forças armadas e 29 Google. (2020, April 4). COVID-19 community mobility reports . Retrieved [2021, April 22]. http://www.google.com/covid19/mobi lity
27 forças e serviços de segurança, as unidades de saúde em acordos bilaterais de cuidados de saúde, e o direito de saída de cidadãos que residiam noutros locais. A Portaria n.º 3427-A/2020 de 18 de março proibiu o tráfego aéreo de e para Portugal de países fora da União Europeia, salvo certas exceções, tais como países ligados ao Espaço Schengen (Liechtenstein, Noruega, Islândia e Suíça); países de língua portuguesa (do Brasil, só os voos de e para São Paulo e de e para o Rio de Janeiro foram admitidos); e o Reino Unido, EUA, Venezuela, Canadá e África do Sul, por causa das grandes comunidades portuguesas ali existentes. Todavia, não foi aplicável aos voos para Portugal promovidos pelas autoridades portuguesas, que visavam o regresso de cidadãos nacionais ou titulares da autorização de residência, nem aos voos promovidos por outras autoridades estrangeiras, com o acordo das autoridades portuguesas, destinados a permitir o regresso de cidadãos estrangeiros que se encontrassem em Portugal. A partir de 20 de março, todos os que entrassem em Portugal deviam permanecer em isolamento profilático durante 14 dias30. A proibição também não abrangeu voos de Estado e das Forças Armadas, voos para o transporte exclusivo de carga e correio, ou voos de natureza humanitária ou para emergências médicas. A crise sanitária sem precedentes motivou um novo decreto que permitiu aos imigrantes legais que solicitaram residência até 18 de março, quando o estado de emergência foi decretado, ter acesso aos serviços de saúde durante a pandemia (Despacho n.º 3863-B/2020, de 27 de março). Estes imigrantes passaram a ter os mesmos direitos dos cidadãos portugueses, como recorrer ao SNS e a quaisquer apoios sociais e financeiros atribuídos pelo governo. A decisão trouxe igualmente benefícios para os candidatos a asilo. No que diz respeito à vigilância, no início de junho, o governo estabelecera uma rede de centros de testes, com 205 laboratórios distribuídos por todo o país31: a maioria pertencente à rede do SNS (45,2%), mas incluindo também o setor privado (39,3%) e outros laboratórios, militares e académicos (15,7%). Em abril de 2020, o número médio de testes era de 11.500 30 Director-General for Health. (2020, March 20). Press conference [Press release]. Retrieved [2021, April 23]. 31 Citado por Shaaban, Peleteiro & Martins (2020), art cit.
28 por dia e, em maio seguinte, de 13.550 testes diários32. (3) Após a declaração do estado de emergência e a implementação de medidas concretas pelo Conselho de Ministros em 19 de março. O estado de emergência entrou em vigor de acordo com a Constituição Portuguesa, permitindo a suspensão de alguns direitos fundamentais, e foi regulamentado pelo Decreto n.º 2-A/2020 de 20 de março, destacando-se: restrições de mobilidade, confinamento obrigatório para doentes e pessoas sob vigilância, proteção e confinamento para pessoas com mais 70 anos, e um dever geral de permanecer em casa para pessoas sem problemas de saúde. Os serviços públicos foram reduzidos, salvo os serviços prioritários como os serviços de saúde, forças policiais e forças armadas, que foram reforçados. O teletrabalho tornou-se obrigatório quando possível e os serviços presenciais foram reduzidos, sendo comum a assistência telefónica ou em linha. Houve igualmente uma ordem geral de encerramento de empresas privadas, salvo padarias, supermercados, mercearias e farmácias, que deviam cumprir as regras ditadas pela DGS. Alguns bancos anunciaram uma série de medidas para mitigar o impacto da crise provocada pela epidemia, beneficiando as famílias que ficaram sem ou viram os seus rendimentos reduzidos, incluindo soluções de crédito pessoal, moratória de seis meses na amortização de capital dos créditos à habitação e provisões especiais para as empresas33. Graças a estas medidas e segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), os portugueses puderam obter, em média, um alívio nos seus encargos mensais superior a 200 euros34. Aprovou-se também uma série de medidas dirigidas a outros grupos vulneráveis, por exemplo, a Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género criou um enderenço 32 Serviço Nacional de Saúde (2020, March 6). Covid-19 Testes de diagnóstico. https://www.inem.pt/2020/06/04/covid-19-testes-de-diagnostico-2/ 33 Prado, M. (2020, March 22). BPI vai dar moratória nos créditos de famílias e empresa. Expresso. https://expresso.pt/sociedade/coronavirus/2020-03-22-BPI-vai-dar-moratoria-nos-creditos-de-familias-e-empresas 34 Prado, M. (2020, March 21). Crédito à habitação: Moratória pode trazer alívio mensal médio de 200 euros por família. Expres so. https://expresso.pt/sociedade/coronavirus/2020-03-21-Credito-a-habitacao-moratoria-pode-trazer-alivio-mensal-medio-de-200-euros-por-f amilia
29 eletrónico para responder a perguntas e pedidos de apoio de vítimas de violência doméstica35. O Conselho Português para os Refugiados implementou várias medidas de prevenção destinadas aos funcionários e à população refugiada, incluindo a distribuição de kits de higiene simples, em linha com as recomendações do Ministério da Saúde. A Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) efetuou múltiplas inspeções com o objetivo de combater lucros ilegítimos provenientes da venda de bens necessários para a prevenção e combate ao coronavírus, nomeadamente equipamento de proteção pessoal e dispositivos médicos (máscaras, luvas, fatos), bem como álcool, higienizador de mãos e desinfetantes36. Desde então, estas medidas foram ajustadas e otimizadas, em diferentes graus, para responder à evolução da epidemia. Analisando a resposta à pandemia em Portugal, Barros et al. (2023) concluíram que o país teve uma resposta firme e rápida, durante a primeira onda da doença, sublinhando ainda a existência de coordenação política nessa atuação, sendo as decisões tomadas pelo Presidente da República, em conjunto com o Primeiro-ministro, respaldados pelo Conselho de Ministros, Parlamento e instâncias técnicas da DGS.Sobre o conjunto de medidas relacionadas com o distanciamento físico, a equipa de investigadores concluiu que resultaram num elevado stringency index (indicador proposto pela Universidade de Oxford para mensurar o rigor das políticas de restrição/lockdown adotadas pelos governos): variou entre 82,41 e 87,96 no período de 19 de março a 3 de maio de 2020, um dos mais elevados dos países europeus.37 2.2 A reação da China perante a ameaça COVID-19 É possível distinguir quatro fases principais no desenvolvimento da epidemia na China, nomeadamente (1) o primeiro grande surto na primeira metade de 2020; (2) surtos dispersos 35 Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género [CIG]. (2020, March 18). Covid-19 -- Novo email para apoio na área da violência doméstica . http://www.cig.gov.pt/2020/03/covid-19-novo-email-apoio-na-area-da-violencia-domestica/ 36 Trigueirão, S. (2020, March 20). ASAE apanha comerciante a vender álcool a 20 euros. Público . https://www.publico.pt/2020/03/20/sociedade/noticia/asae-apanha-comerciante-vender-alcool-20-euros-1908638 37 (Barros et al., 2023)
36 China estabilizou, com exceção da referida província. À luz da evolução da situação, o governo decidiu coordenar a prevenção e o controlo da epidemia com o desenvolvimento socioeconómico, retomando o trabalho e a produção de uma forma ordenada. No dia 21 de fevereiro, as províncias reduziram os seus níveis de resposta de emergência, aliviando gradualmente as restrições. A 24, todos os pontos de estrangulamento rodoviários tinham sido libertados e a liberdade de circulação foi gradualmente restabelecida, com exceção da província de Hubei e do município de Pequim. A 6 de março, o número de casos confirmados baixou para menos de 100 em todo o país e para menos de dez a 11 desse mês, assim permanecendo na semana seguinte. O pico da epidemia passara e, a 17 de março, as primeiras 42 equipas médicas nacionais em Wuhan foram desmobilizadas. (4) Resultados decisivos na defesa em Wuhan e Hubei (18 de março - 28 de abril) A propagação da epidemia em Wuhan foi interrompida, contudo, a 25 de março, 23 províncias notificaram casos importados do estrangeiro. Neste seguimento, dois dias depois, o Comité Central do Partido Comunista da China ( 中国共产党中央委员会, Zhōngguó gòngchǎndǎng zhōngyāng wěiyuánhuì ) alterou a estratégia nacional para prevenir a importação de casos e garantir a recuperação interna. A nível interno, foi promovendo a retoma do trabalho e da produção por categorias. O Ministério dos Negócios Estrangeiros ( 外 交 部 , Wàijiāo bù ) e a Administração Nacional de Migração (国家移民管理局, Guójiāyímín guǎnlǐjú ) anunciaram a suspensão temporária de entrada de estrangeiros, mesmo que detentores de vistos ou autorizações de residência válidas45, que entrou em vigor a 28 de março de 2020. No mesmo dia, a Administração da Aviação Civil da China (中国民航局, Zhōngguó mínháng jú ) anunciou a redução dos voos internacionais46, ao abrigo do qual cada companhia aérea só poderia 45 Ministry of Foreign Affairs of the People's Republic of China & National Immigration Administration. (2020, March 26). 中华人 民共和国外交部、国家移民管理局关于暂时停止持有效中国签证、居留许可的外国人入境的公告 Zhōnghuá rénmín gòngh éguó wàijiāo bù, guójiāyímín guǎnlǐjú guānyú zhànshí tíngzhǐchí yǒuxiào zhōngguó qiānzhèng, jūliú xǔkěde wàiguó rén rùjìng de gōnggào (Announcement by the Ministry of Foreign Affairs and the National Immigration Administration on the temporary suspe nsion of entry by foreign nationals holding valid Chinese visas or residence permits) . https://www.nia.gov.cn/n741440/n741542/c1 267259/content.html 46 Civil Aviation Administration of China. (2020, March 26). 关于疫情防控期间继续调减国际客运航班量的通知 Guānyú yìqíng
37 reservar uma rota da China continental para qualquer país, operando até um voo por semana. A 1 de abril, passou a testar-se todos os passageiros que chegassem ao território chinês por via aérea, marítima ou terrestre. A 26 de abril, todos os hospitalizados em Wuhan tinham recuperado. (5) A normalização da prevenção e controlo nacional de epidemias (desde 29 de abril de 2020) A epidemia tem apresentando um caráter esporádico desde então, com aglomerados locais. Os casos importados do exterior foram controlados e a prevenção nacional da epidemia entrou num período de estabilidade. 2.3 A cooperação mútua De acordo com uma entrevista dada por Cai Run à Rádio e Televisão de Portugal (RTP)47 em abril de 2020, desde o surgimento da COVID-19 que a China e Portugal aprofundaram laços de cooperação em várias áreas. O embaixador chinês em Portugal afirmou que “ a China tem fortalecido a cooperação com a comunidade internacional, incluindo os lados português e europeu, de forma aberta, transparente e responsável para combater a epidemia, e forneceu apoio e assistência a português no combate à epidemia em todos os aspetos” [ sic ]. A cooperação referida pelo embaixador estende-se a diversos setores, incluindo a pronta partilha de informações sobre a COVID-19 à comunidade internacional: a) As autoridades chinesas receberam o relatório de um caso suspeito a 27 de dezembro de 2019, lançando de imediato uma investigação epidemiológica no dia 29; b) Notificaram oficialmente a OMS no dia 3 de janeiro de 2020, e partilharam com esta a sequência genética completa do vírus no dia 12; fáng kòng qíjiān jìxù diào jiǎn guójì kèyùn hángbān liàng de tōngzhī(Notice on continuing to reduce the volume of international passenger flights during the epidemic prevention and control period) . http://www.caac.gov.cn/XXGK/XXGK/TZTG/202003/t20200326_201746.html 47 Embassy of the People's Republic of China in the Republic of Portugal. (2020, June 7). Ambassador Cai Run's interview with Ms. Pinto of RTP, introducing China's efforts in fighting COVID-19 and cooperation with Portugal and Europe in epidemic control, and answering related questions . http://pt.china-embassy.gov.cn/chn/sgdt/202004/t20200407_2965202.htm
38 c) Desde então, têm atualizado os dados diariamente e respondido às preocupações de todas as partes em tempo oportuno. Com base nisto, os países puderam desenvolver reagentes de diagnóstico e reforçar a capacidade para prevenir e controlar a epidemia. A China disponibilizou os seus planos de prevenção e tratamento, para que a comunidade internacional pudesse ter uma referência. Manteve igualmente uma comunicação estreita com o governo português, o Ministério dos Negócios Estrangeiros, o Ministério da Saúde e a DGS, para estabelecer um mecanismo regular de troca de informações e reforçar a coordenação política para combater conjuntamente a epidemia. O país organizou videoconferências de especialistas com países europeus, incluindo Portugal, a fim de divulgar práticas e experiências chinesas no diagnóstico e tratamento clínico e trocar pontos de vista sobre o combate à epidemia. Outrossim, forneceu a Portugal dados e manuais acerca da sua experiência na prevenção e controle da doença. Em seguida, a China forneceu apoio material e assistência a Portugal e à Europa, facilitando a aquisição de materiais de prevenção48. A China, incluindo províncias e municípios relevantes, empresas chinesas em Portugal e expatriados chineses, estiveram ativos no apoio a Portugal em várias áreas, doando por exemplo materiais de prevenção49. Portugal apoiou os esforços feitos pela China para responder à epidemia, avaliando positivamente a cooperação daquele país com a comunidade internacional e contrariou quaisquer declarações ou ações discriminatórias contra países ou grupos específicos. Organizou igualmente iniciativas para demonstração de apoio a Wuhan e à China através de vários meios, tais como doações de materiais de prevenção, chamadas telefónicas, emails e mensagens em linha. A Câmara Municipal de Lisboa ultrapassou as diferenças partidárias e adotou por unanimidade a iniciativa "Juntamente com a diáspora chinesa". No âmbito desportivo, foi exibido o cartaz "Força China, estamos contigo!” (中国加油,我们与你同在!, Zhōngguó jiāyóu, wǒmen yǔnǐtóng zài! ) durante um jogo da Primeira Liga, entre o Sport Lisboa e Benfica e o Sporting Clube de Braga. 48 Executive Digest. (2020, April 2). Comunidade chinesa em Portugal paga aviões da China com máscaras, testes e ventiladores. Executive Digest. https://executivedigest.sapo.pt/noticias/comunidade-chinesa-em-portugal-paga-avioes-da-china-com-mascaras-testes-e-ve ntiladores/ 49 Lusa. (2020, March 23). Coronavírus: Governo chinês doa material de apoio a Portugal para combater pandemia. Público . http s://www.publico.pt/2020/03/23/sociedade/noticia/coronavirus-governo-chines-doa-material-apoio-portugal-combater-pandemia-1909136
39 Figura 13 – “Força, China, estamos contigo!” Durante o combate à epidemia, a parceria estratégica global entre a China e Portugal foi aprofundada, proporcionando uma panóplia de possibilidades de cooperação intensiva em várias áreas no futuro.
40 Capítulo III Análise das reações de ambos os países à pandemia
41 A cultura é a soma das características de um povo, refletindo a sua espiritualidade, o seu estado mental, a sua forma de pensar, os seus valores. Há muitas divergências entre as culturas orientais e ocidentais, diferenças que não podem ser qualificadas como superiores ou inferiores, sendo objetivamente formadas e dando origem ao desenvolvimento contínuo da humanidade. É impossível qualquer nação perder ou desfazer-se da sua própria cultura tradicional. Uma imposição do exterior ou uma deserção do interior não é favorável ao desenvolvimento das nações e à valorização das sociedades. A diferença mais óbvia entre as culturas orientais e ocidentais é, nesta perspetiva, o individualismo e o coletivismo. A China é um país multiétnico com uma história milenar, fortemente moldado pelo Confucionismo, que influencia de forma profunda a sociedade. Os chineses sempre utilizaram a ideia de moderação como um modo de vida clássico, o que remete para a Doutrina do Meio50 (中 庸 之 道 , Zhōngyōng zhīdào ) do Confucionismo como regra básica de comportamento. Os ideais confucionistas de benevolência (仁, Rén ), retidão (义, Yì ), decência (礼, Lǐ ), sabedoria (智, Zhì ) e fidelidade (信, Xìn )51 são como um guia do comportamento coletivo. Há que estudar a doçura, a bondade, o respeito, a frugalidade, e a concessão, ter orgulho na modéstia e opor-se à autoexpressão excessiva. Portanto, a cultura chinesa é coletivista, não permitindo que os valores individuais sejam colocados acima dos interesses do grupo. 50 De acordo com o Dicionário Moderno de Chinês, esta doutrina proposta por Confúcio defende neutralidade, sem excessos, sem faltas. Na vida e no trabalho, há dois pontos de orientação muito importantes: o primeiro é tratar as pessoas de uma forma n eutra. Não se trata de cobardia, nem de fraqueza, mas sim de tolerância e coragem para suportar a falta de visibilidade. Depois, é preciso ser moderado na prossecução dos objetivos. Não se trata de não lutar pelo progresso, mas sim de não ser demasia do ambicioso, de estabelecer objetivos dentro das possibilidades e de aceitar o resultado com uma mentalidade calma. Guo, Y. P. (2014, December 4). 浅谈“中庸之道” Qiǎn tán “zhōngyōng zhīdào” (Uma breve discussão sobre "A Doutrina do M eio"). Rede de Membros do Partido Comunista. https://www.12371.cn/2014/12/04/ARTI1417673303468241.shtml 51 As cinco virtudes constantes do confucionismo são benevolência, retidão, decência, sabedoria e confiança. Confúcio propôs as tr ês primeiras, Mêncio acrescentou sabedoria e Dong Zhongshu expandiu-as para incluir confiança. Mais tarde, passaram a ser desi gnadas como “cinco virtudes constantes”. A benevolência representa o amor do homem, que não pensa apenas em si próprio, mas também nos outros e tem consideração por eles. A retidão significa ajudar os outros quando estão em dificuldades. A decê ncia significa que há diferenças de nobreza e inferioridade, de respeitabilidade, de antiguidade e junioridade, e de proximidade; a s pessoas devem adotar um estilo de vida e um comportamento de acordo com o seu estatuto e a sua posição social e polític a no seio da família. SOHU.com. (2019, April 29). 仁义礼智信,学无止境 Rényì lǐzhì xìn, xué wú zhǐjìng (benevolência, retidão, decência, sabedoria, fidelidade, aprendizado sem fim). SOHU.com . https://www.sohu.com/a/311068306_650905
42 Já os valores dominantes nos países ocidentais foram fortemente moldados durante o Renascimento. A filosofia orientadora do Renascimento era o humanismo, que se concentrava no indivíduo, promovia a primazia do individualismo e da autoexpressão. O conceito de "modéstia" na cultura ocidental é negligenciável; as pessoas valorizam o "forte" e o "heroico". Aqueles que são fortes e talentosos são apreciados, os que são fracos e carecem de autoconfiança são esquecidos. A cultura ocidental encarna assim uma identidade cultural individualista, exaltando o valor do indivíduo acima dos interesses do grupo52. 3.1 Individualismo e Coletivismo em Portugal e na China 3.1.1 Individualismo e Coletivismo em Portugal O individualismo é uma atitude moral, filosofia política, ideologia e visão da sociedade que enfatiza o valor intrínseco do indivíduo. Os individualistas promovem a realização de objetivos e ambições pessoais, a importância da independência e autossuficiência e a prioridade dos interesses individuais sobre o Estado ou grupo social, ao mesmo tempo que se opõem à interferência externa nos interesses individuais. Essencialmente, é uma visão do mundo que parte da supremacia do indivíduo, colocando a sociedade e as relações humanas ao nível individual. A sociedade é apenas um meio para atingir um fim individual, sendo todos os indivíduos considerados, assim, moralmente iguais. A geografia relaciona-se intimamente com a cultura local. Jean Bodin53, originador francês de estudos sobre geografia política, considerou que o ambiente geográfico consiste na localização, clima, topografia e produção agrícola, fatores que influenciam diretamente os ideais, cultura, psicologia, forma física e modo de vida do povo e, indiretamente, a política. Berço da democracia e da civilização ocidental, a Grécia Antiga é uma referência obrigatória da cultura ocidental. Do ponto de vista geográfico, possuía um clima mediterrânico e uma terra fragmentada pelo mar. Os portos e a pesca eram de suma importância para a 52 Wu, B. (2009). 西方个人主义传统的渊源与发展, Xīfāng gèrén zhǔyì chuántǒng de yuānyuán yǔfāzhǎn (A origem e o de senvolvimento da tradição ocidental do individualismo). Ponte do Século, 21 , 56-58. 53 Jean Bodin (1530 - 1596) foi um jurista e filósofo francês, membro do Parlamento e professor de Direito em Toulouse. É conhecido pela sua Teoria da Soberania do Estado, independente de influências internas e externas. Os seus estudos contribuíram significativamente para o avanço dos conceitos de soberania e absolutismo dos Estados.
43 prosperidade comercial - o lucro e a igualdade eram as metas comuns, constituindo uma consciência social egocêntrica na base do individualismo54. Durante a época dos Descobrimentos, Portugal tornou-se uma das potências marítimas mais poderosas da Europa, controlando as principais rotas do comércio mundial e estabelecendo um grande número de postos de comércio e colónias. O sucesso e as conquistas dos navegadores eram considerados primordiais; a liberdade individual e a independência eram valorizadas. Os mercadores exploraram não apenas novas oportunidades comerciais, mas também novas instituições socioculturais, que refletiram valores cada vez mais individualistas. Entre os séculos XV e XIX, Portugal construiu um vasto império colonial, ocupando territórios que incluem os atuais Brasil, Índia, Angola e Moçambique, entre outros. O conceito de individualismo foi amplamente adotado no domínio colonial, dando, por exemplo, aos governadores vastos poderes para tomarem as suas próprias decisões sobre assuntos políticos, económicos e sociais nos territórios colonizados. Estes fatores contribuíram para uma maior difusão do individualismo. A base económica determina a superestrutura. Protágoras55, filósofo da Grécia Antiga, propôs que "o homem é a medida de todas as coisas". Durante o período socrático, o foco da investigação filosófica ocidental transferiu-se da natureza para o próprio homem. Sócrates56 afirmou que "virtude é conhecimento", sendo que para que um homem seja virtuoso deve ser racional e conhecedor. Com o Renascimento, a Reforma e o Iluminismo, o individualismo do Ocidente desenvolveu-se ainda mais. Os pensadores humanistas enfatizaram a emancipação do indivíduo, afirmaram os direitos humanos e rejeitaram a autoridade divina; a Reforma afirmou o valor e o papel do indivíduo e a ideia de que todos poderiam comunicar diretamente com Deus; o iluminista Thomas Hobbes57 sugeriu que o valor do indivíduo não pode ser ignorado, quer em termos de vida real, quer em termos de crenças religiosas58. 54 Wu, B. (2009), art. cit. 55 Protágoras (c. 490 a.C. - c. 420 a.C.) foi um filósofo grego pré-socrático e teórico retórico. 56 O ateniense Sócrates (470-399 a.C) é creditado como o fundador da filosofia ocidental e um dos primeiros filósofos morais da tradição ética do pensamento. 57 Ofilósofo inglês Thomas Hobbes (1588 - 1679) é considerado um dos fundadores da filosofia política moderna. 58 Liu, S. (2017). 中国集体主义与西方个人主义价值观之对比 Zhōngguó jítǐzhǔyì yǔxīfāng gèrén zhǔyì jiàzhíguān zhīduì bǐ(Uma comparação dos valores do coletivismo chinês e do individualismo ocidental). Materiais Culturais e Educativos, (6) , 94-9
44 Portugal é um país católico, religião que enfatiza o livre arbítrio e a responsabilidade do indivíduo pelas suas próprias ações. Cada pessoa é uma criação de Deus, tem dignidade e valor, e deve pensar independentemente. Neste sentido, é possível indagar sobre o quão individualista é a cultura portuguesa, sob uma perspetiva da Dimensão Cultural, um quadro teórico desenvolvido no final dos anos 1960 por Geert Hofstede59, destacado psicólogo social, para explicar diferenças culturais em diferentes países. Hofstede escreveu o famoso livro "O Fim da Cultura", baseado em dados recolhidos de um total de 116.000 questionários em 40 países e em 20 línguas em termos de atitudes e valores, que abrangem desde trabalhadores a doutorados e gestores de topo. Inicialmente, ele dividiu as orientações de valor das diferentes culturas em quatro dimensões básicas: 1. distância ao poder, 2. individualismo e coletivismo, 3. índice de prevenção de incerteza e 4. masculinidade e feminilidade. Mais tarde, foram acrescentadas duas dimensões: 5. orientação a longo prazo e 6. indulgência vs restrição. Figura 14 - As seis dimensões culturais na China e Portugal 6. 59 Gerard Hendrik (Geert) Hofstede (2 de outubro de 1928 - 12 de fevereiro de 2020) foi um psicólogo social holandês, funcionário da IBM, e professor emérito de Antropologia Organizacional e Gestão Internacional na Universidade de Maastricht, bem conhecido pela sua investigação pioneira sobre grupos e organizações transculturais.
45 De acordo com a explicação oficial, Portugal, in comparison with the rest of the European countries (except for Spain) is Collectivist (because of its score in this dimension: 27). This is manifest in a close long-term commitment to the member ‘group’, be that a family, extended family, or extended relationships. Loyalty in a collectivist culture is paramount, and over-rides most other societal rules and regulations. The society fosters strong relationships where everyone takes responsibility for fellow members of their group. Portugal apresenta um equilíbrio entre coletivismo e individualismo. Por um lado, o povo português valoriza a família e a comunidade, as relações interpessoais e a cooperação mútua, e há uma crença generalizada de que os indivíduos devem trabalhar para o bem das suas famílias e comunidades, em vez de perseguirem os seus próprios interesses. O governo também implementou uma série de políticas coletivistas, tais como nacionalizações60 e um sistema de bem-estar social61, logo após a Revolução do 25 de abril. Por outro lado, devido a fatores históricos e culturais, os portugueses também demonstram um alto grau de individualismo; preocupam-se com a proteção das liberdades e direitos consagrados na Constituição Portuguesa, defendendo-os ativamente, nomeadamente: liberdade de expressão, liberdade religiosa, liberdade de reunião e liberdade de imprensa. Os portugueses preocupam-se com a privacidade, regra geral, mantêm certa distância e independência em situações familiares e sociais, e não interferem facilmente nos assuntos privados dos outros; preocupam-se com a realização pessoal, buscando sucesso e respeito através do seu esforço e criatividade. 60 Após a Revolução de Abril de 1974, o governo português nacionalizou muitas indústrias e empresas importantes, incluindo o setor das telecomunicações, petróleo, aviação, navegação, ferrovias, bancos, etc. O principal objetivo dessas empresas nacionalizadas era responder aos interesses estratégicos e económicos do país, e não a busca de lucro. 61 O sistema de bem-estar social pressupõe apoios na área da saúde, pensões, subsídio de desemprego, abonos de família, licença de maternidade e paternidade, entre outros, projetados para fornecer proteção e assistência aos grupos desfavorecidos, reduzir a pressão social e melhorar a qualidade de vida de todos.
52 à sua terra natal (Figura 16). No contexto urbanizado da China, a mobilidade e a separação familiar são a norma, pelo que as breves reuniões são preciosas. Contudo, devido à COVID-19, o Partido fez um claro apelo ao confinamento em casa (居家隔离, Jūjiāgélí ) e o país inteiro respondeu positivamente. Figura 16 – Mobilidade habitual durante o Ano Novo Chinês O famoso ditado de Mêncio (孟子, Mèngzǐ ) - “ao apoiar e honrar os mais velhos, não nos devemos esquecer dos outros anciãos que não são nossos parentes. Ao educar os próprios filhos, não nos devemos esquecer das outras crianças que não são nossas parentes”70 - significa que o conceito chinês de família se estende ao relacionamento com os outros, a sociedade e o Estado. A epidemia demonstrou que a relação entre família e Estado permanece a pedra angular da estrutura social da China. A política nacional é dominada pelos interesses do povo, e o amor do povo pelo país e pela família, chave para a estabilidade e prosperidade. A vitória contra a epidemia deveu-se ao espírito de coletivismo gravado no povo chinês. 70 Original: “老吾老以及人之老,幼吾幼以及人之幼” ( lǎo wú lǎo yǐjí rén zhīlǎo, yòu wú yòu yǐjí rén zhīyòu ). Mêncio ou Mencius, (c. 372 a.C - 289 a.C) foi um filósofo, pensador e educador do período dos Estados em Guerra, representante da escola de pensamento confucionista.
53 3.2 Distância ao Poder em Portugal e na China A distância ao poder, a partir de dimensão cultural de Hofstede, mede o grau em que o poder é concentrado e a liderança é autoritária numa organização, bem como o grau em que uma sociedade pode aceitar tais desigualdades na distribuição do poder. Nesta dimensão, a China obteve 80 pontos e Portugal 63, indicando que a desigualdade é aceitável nos dois países. Na sociedade chinesa, as relações entre chefias e subordinados tendem a ser polarizadas, os indivíduos são influenciados pela autoridade formal e pelas sanções, há um otimismo geral sobre a capacidade dos líderes, mas as pessoas não devem aspirar a mais do que sua categoria. Na sociedade portuguesa, esta desigualdade é relativamente pior aceite, mas a maioria dos cidadãos aceita a existência de alguma desigualdade e hierarquias. 3.2.1 Distância ao Poder em Portugal Portugal regista uma distância ao poder relativamente elevada, o que significa que persistem diferenças no estatuto social entre as pessoas e uma distribuição do poder e da riqueza desigual. Em tal sociedade, existe um nível relativamente elevado de aceitação da autoridade e do poder, bem como da hierarquia social. No local de trabalho, as relações entre superiores e subordinados são frequentemente rigorosas. Os trabalhadores devem seguir as instruções dos seus líderes e a comunicação entre hierarquias tende a ser unilateral. Também há uma tendência para respeitar as diferenças de idade e estatuto, sendo que as pessoas mais velhas, as de topo e as de autoridade têm geralmente um estatuto mais elevado na sociedade. Tal situação pode ser atribuída a uma variedade de fatores, incluindo história, cultura e desenvolvimento económico. Portugal tem uma longa história, uma estrutura social relativamente estável e um profundo sentido de tradição. Em 1139, D. Afonso Henriques autointitulou-se rei e, poucos anos depois, o Condado Portucalense tornou-se um reino independente sob a sua liderança. O sistema feudal impactava profundamente a estrutura e valores sociais, categorizando as pessoas por classes: por um lado existia a nobreza, que possuía terras, poder político ou
54 clerical, por outro havia o povo, constituído por agricultores ou artesãos rendeiros, situados no fundo da escada social. Este legado histórico teve um profundo efeito sobre a distância ao poder na sociedade portuguesa. A partir do século XVI, Portugal tornou-se uma importante potência marítima e, no seu apogeu, foi uma potência económica, política e militar na Europa. Entre os séculos XVI e XIX, Portugal continuou a sua expansão colonial, que durou quase 600 anos, construindo um vasto império que incluía partes de 53 territórios. Nestas colónias, a força do trabalho era garantida por escravos desprovidos de direitos e liberdades básicas, que viviam em condições extremamente difíceis, o que exacerbou ainda mais a existência de tais disparidades. A sociedade portuguesa continuou inclinada a aceitar desigualdades de poder e de estatuto. Para além disso, em Portugal as crenças religiosas exercem ainda um profundo impacto sociocultural. A população portuguesa é maioritariamente católica, devido sobretudo à tradição e às circunstâncias históricas que Portugal teve e viveu no passado. Os católicos, segundo os censos de 2011, compõem cerca de 81% da população portuguesa, conferindo, por isso, à Igreja Católica uma considerável influência junto da sociedade, embora agora não tanto como outrora71 . Figura 17 - Distribuição da população portuguesa quanto à religião nos censos de 1900, 1940, 1950, 1960, 1981, 1991, 2001, 2011 e 2021 71 Instituto Nacional de Estatística (INE), Censos 2011 .
55 O catolicismo, cujos valores tradicionais valorizam noções de lealdade, obediência e reverência, enfatiza o temor e lealdade a Deus e à autoridade da Igreja, que se pode estender à identificação com a autoridade política, social e económica. Estes conceitos favorecem um valor autoritário na sociedade, levando a uma maior tendência de aceitação como razoável da desigualdade de poder e de estatuto. De forma concomitante, os valores católicos tradicionais contribuíram, em certa medida, para um individualismo não puramente egocêntrico, pois sublinha a interação entre o indivíduo e a sociedade. Os indivíduos devem agir de acordo com normas morais e não na pura busca do interesse próprio. Esta tradição contribuiu para a importância que se atribui aos direitos humanos e à igualdade, enfatizando a dignidade e direitos do indivíduo, especialmente dos grupos vulneráveis. Portugal é um país desenvolvido, membro da União Europeia, com uma base industrial fraca. Têxteis, calçado, vinificação e turismo são os pilares da economia nacional. A produção de cortiça é responsável por mais de metade da produção total mundial e a sua exportação ocupa o primeiro lugar no mundo. O crescimento económico é desigual, concentrado nas cidades e nas mãos de poucos, enquanto as pessoas das zonas rurais, mais pobres, são frequentemente incapazes de participar nos dividendos do crescimento económico. Isto levou a uma distribuição dissemelhante de recursos e criou dificuldades para os desfavorecidos no acesso a benefícios e recursos sociais adequados, traduzindo-se numa polarização das classes sociais e num aumento da desigualdade. Todos estes fatores contribuem para a distância ao poder relativamente elevada na sociedade portuguesa e as diferenças hierárquicas entre superiores e subordinados. 3.2.1.1 Reflexões sobre a Distância ao Poder em Portugal Nas sociedades com uma alta distância ao poder existe um elevado grau de identificação com a distribuição do poder e da hierarquia, sendo comum o respeito e a obediência à autoridade, com menos ênfase na igualdade e nos direitos individuais. Isto
56 também significa que a autoexpressão e o desenvolvimento individual são mais restritos e a desigualdade relativamente mais prevalecente. Se elevada distância ao poder é conducente a uma ordem social estável e a sistemas de gestão eficazes, é também propensa ao abuso de poder e à injustiça. Porém, a aceitação de distribuição do poder não é universal; as hierarquias não são fixas e impenetráveis, as liberdades e direitos individuais são garantidos até certo ponto e a estrutura social é mais flexível e igualitária. Os cidadãos normalmente respeitam as figuras de autoridade, mas também atentam na liberdade e direitos individuais, valorizam a igualdade e a justiça. Sob esta estrutura social, o poder não está inteiramente concentrado nas mãos de poucos, as pessoas comuns estão relativamente bem posicionadas para terem voz e oportunidade de participarem na tomada de decisões. As sociedades com uma distância ao poder relativamente elevada tendem a ser mais igualitárias do que as restantes. Esta estrutura social é propícia à autoexpressão e desenvolvimento individual e, ao mesmo tempo, permite o estabelecimento de uma ordem social estável e de sistemas de gestão eficazes. Portugal é uma república com um sistema de governo unitário semipresidencial, onde a distribuição do poder é mais centralizada e a tomada de decisões é relativamente eficiente. Esta dimensão cultural refletiu-se na tomada de decisões centralizada das medidas de combate à pandemia, de forte implementação e de manutenção da ordem social. O governo tomou uma série de medidas para controlar a epidemia, tais como restrições à circulação e encerramento de escolas; aumento dos recursos médicos, reforço dos testes e do isolamento, redução dos impostos sobre as empresas e concessão de subsídios de desemprego. Nesta sequência, criou também o Comité Nacional de Emergência, composto por dirigentes governamentais e representantes de várias áreas da sociedade, para desenvolver e implementar medidas de prevenção. Foi igualmente criado um órgão regulador, a Agência de Resposta de Emergência, com funções de coordenação e supervisão. Estas instituições facilitaram a tomada de medidas oportunas e eficazes. Em termos de implementação, o governo reforçou a deteção e isolamento de casos suspeitos e confirmados e aumentou os recursos médicos. No que respeita à manutenção da ordem social e da segurança pública, restringiu a circulação de pessoas, reforçou o destacamento da polícia e sancionou as violações, ao mesmo tempo que informava o público
57 sobre a epidemia em tempo útil, garantindo a transparência, para evitar rumores. Registou-se uma elevada aceitação da autoridade, com a maioria da população a cumprir as orientações oficiais sobre confinamentos, utilização de máscaras, etc. Os portugueses reforçaram o seu sentido de solidariedade social e cooperação, apoiando-se mutuamente e ajudando os grupos vulneráveis na luta contra a epidemia. Contudo, dado que as pessoas também se preocuparam com a proteção dos seus direitos à privacidade e à liberdade pessoal, houve uma série de violações, nomeadamente manifestações. Neste contexto, o governo procurou não infringir direitos individuais fundamentais, equilibrando eficiência e justiça, enquanto tentava controlar a epidemia de forma atempada e eficaz. Barros et al. (2023) sublinham a sintonia entre chefe de Estado, Parlamento e direção da DGS na condução de uma governança centralizada para coordenar a resposta nacional, em constante diálogo com um Comité científico de aconselhamento e a nomeação de cinco secretários de Estado para executar o estado de emergência, bem como a importância da estabilidade política para criar um consenso entre a população72. 3.2.2 Distância ao Poder na China73 O Confucionismo tem desempenhado um papel indelével na cultura tradicional chinesa, influenciando a economia, a política, o Direito e todos os aspetos da vida social. Durante o Período de Chunqiu (春 秋 时 代 , chūnqiūshídài , 770 a.C. - 476 a.C. ) e o Período dos Estados Combatentes (战国时代, zhànguó shídài, 475 a.C./403 a.C. – 221 a.C.), quando a China transitava de uma sociedade escrava para uma sociedade feudal e a posição do governante ainda não estava segura, a sua relação com os súbditos era de respeito mútuo, ou seja, havia uma visão hierárquica de benevolência, sem grande distinção entre superior e subordinado. Confúcio advogava que as pessoas deveriam amar-se de igual para igual, ter compaixão e respeito mútuos, sob o princípio moral supremo da benevolência. A hierarquia 72 (Barros et al., 2023) 73 Gao, Y. (2014). 等级中构建秩序——儒家礼教思想发展演变研究 Děngjí zhōng gòujiàn zhìxú - rújiālǐjiào sīxiǎng fāzhǎn yǎnbiàn yànjiū(Construir a ordem na hierarquia - Um estudo sobre o desenvolvimento e a evolução do pensamento ritual confuci onista). Teoria Académica, (5) , 46-48.
58 anunciada nos Analectos de Confúcio “que o rei seja um rei, o ministro seja um ministro, o pai seja um pai e o filho seja um filho”74, baseada no conceito de benevolência, destinava-se a assegurar que governante, súbdito e filho cumprissem os seus deveres e obrigações e se mantivessem fiéis. Mêncio, filósofo chinês já citado anteriormente, também considerou que a relação entre governante e sujeito era de igualdade ao afirmar: se um governante trata o seu súbdito como a sua mão e pé, então o seu súbdito tratá-lo-á como o seu coração; se ele trata o seu súbdito como o seu cão e cavalo, então o seu súbdito tratá-lo-á como um transeunte; se ele trata o seu súbdito como uma erva murcha, então o seu súbdito tratá-lo-á como um inimigo 75. Durante o reinado do imperador Wu ( 汉 武 帝 , Hàn wǔdì ), sétimo governante da dinastia Han76 (汉朝, Hàn cháo) , conhecido por ser um estadista e estratega extraordinário, a sociedade feudal entrou num período de prosperidade graças ao desenvolvimento das forças produtivas. Neste período, fortaleceu-se a centralização do poder absoluto. O filósofo Dong Zhongshu (董仲舒, dǒngzhòngshū )77 apresentou a ideia, 罢黜百家,独尊儒术”78 ( bàchù bǎi jiā, dú zūn rúshù ); a classe dominante monopolizou este pensamento e usou o poder político para promover a sua ideologia, recorrendo aos rituais confucionistas para submeter o povo. Dong sugeriu o direito divino dos reis, acreditando que o imperador era sacrossanto e, 74 Original: 君君 、臣臣、父父 、子子 ( jūn jūn, chén chén, fù fù, zǐzǐ ). 75 Original: “君主对待臣民如手足,则臣民对待他如心;对待臣民如狗马,则臣民对待他,如过路人;如臣如枯草,则臣 将视之如敌” ( Jūnzhǔduìdài chénmín rú shǒuzú, zé chénmíng duìdài tārú xīn; duìdài chénmín rú gǒu mǎ, zé chénmíng duìdài tā, rú guòlù rén; rú chén rú kūcǎo, zé chén jiāng shì zhīrú dí .). De “Mencius”, obra clássica do confucionismo, escrita por Mêncio e seus discípulos Wan Zhang e Gongsun Chou durante o Período dos Estados Combatentes. 76 A dinastia Han prolongou-se entre 206 a.C. e 220 d.C. e foi governada pela família conhecida como o clã Liu. Os 400 anos correspondentes à dinastia Han são considerados um dos grandes períodos históricos da China. 77 Dong Zhongshu (179 a.C. - 104 a.C.) combinou os ideias confucionistas com as necessidades sociais da época e absorveu outras teorias para criar um novo sistema de pensamento, tornando-o uma ortodoxia que influenciou a sociedade chinesa por mais de dois mil anos. A sua escola estava centrada no pensamento patriarcal confucionista, misturado com os cinco elementos do yin e yang . A este integrou o poder divino, o poder monárquico, o poder paternal e o poder conjugal, formando um sistema teológico imperial. 78 Isto é, abolir as outras ideias e respeitar apenas as doutrinas do confucionismo.
59 para manter a ordem feudal de governo, usou a teoria de que Yang (阳, Yáng , o governante, o pai, o marido) é superior e Yin (阴, Yīn , o súbdito, o filho, a esposa) é inferior. O Yin só pode ter o seu valor, desde que seja compatível com Yang . Este filósofo também explorou o conceito hierárquico “君君、臣 臣、父父 、子子” ( Jūn jūn, chén chén, fù fù, zǐzǐ ) nos Três Guias Cardeais e Cinco Virtudes Constantes79 (三纲五常, sāngāngwǔcháng ), a saber: "o governante é o esboço dos seus súbditos, o pai é o esboço dos seus filhos, e o marido é o esboço da sua esposa”80 e os ideais de benevolência, retidão, decência, sabedoria e fidelidade. Após a revisão deste pensamento por confucionistas Han como o próprio Dong, a visão hierárquica benevolente do Confucionismo primitivo deu lugar a uma hierarquia feudal rígida que penetrou em todos os aspetos da política e da ética do Estado. Mais tarde, a escola do Neoconfucionismo, liderada por pensadores com longa experiência de luta e integração entre Confucionismo, Budismo e Taoísmo, veio defender que o princípio81 (理, Lǐ ) é omnipresente e o fundamento mais elevado da sociedade, elevando os padrões morais do feudalismo a princípios celestiais invioláveis, usando-os para justificar a moralidade humana e exigir obediência absoluta. Em harmonia com os Três Guias Cardeais e Cinco Virtudes Constantes , Zhu Xi (朱熹, zhūxī )82 categorizou as relações humanas em cinco éticas (五伦, Wǔlún ): pai e filho, mais velho e mais novo, marido e mulher, governante e súbdito, e amigos. Segundo aquele filósofo, as cinco hierarquias não eram adquiridas, mas organizadas ao nascer, não sendo possível alterá-las ou transgredi-las. As cinco éticas correspondem a cinco princípios morais: há parentesco entre pai e filho, ordem entre os jovens e os idosos, separação entre marido e mulher, justiça entre governante e súbdito e confiança entre amigos. Zhu Xi defendeu que a lealdade ao governante e a piedade filial eram 79 Os Três Guias Cardeais e Cinco Virtudes Constantes são as três relações humanas e as cinco virtudes mais importantes, de acordo com os preceitos do Confucionismo, considerados os requisitos morais e políticos, bem como a eterna e imutável "essência da vida e dos laços da sociedade". A expressão teve origem no livro "Orvalho Luxuriante dos Anais da Primavera e do Outono" (春秋繁露, ChūnqiūFánlù ) de Dong Zhongshu, publicado durante a dinastia Han Ocidental. 80 Original: “君为臣纲,父为子纲,夫为妻纲”( Jūn wèi chén gāng, fù wèi zi gāng, fūwèi qīgāng ). 81 O princípio é a origem de todas as coisas no universo. Através da investigação da razão das coisas, podemos alcançar a verdade. O princípio é usado para clarificar a lógica normal do movimento das coisas; o seu objetivo é tornar claras as nossas responsabilidades e obrigações, com base no autocontrolo. 82 Zhu Xi (1130-1200) foi um cientista, pensador, filósofo, educador e poeta chinês da dinastia Song do Sul (宋朝, Sòngcháo ).
60 as duas éticas mais importantes, que as leis do Estado deveriam ser baseadas nas relações humanas como critério de bem e do mal e como padrão de punição. Se um subordinado ofendesse um superior, devia ser repreendido, mesmo que tal ofensa fosse justificável. Durante as dinastias Ming (明朝, Míng cháo , 1368-1644) e Qing (清朝, Qīngcháo , 1636-1912), o capitalismo desenvolveu-se no território chinês e pensadores como Kang Youwei83 e Tan Sitong84 foram influenciados pelo pensamento ocidental, promovendo vigorosamente a ideologia de liberdade, igualdade e fraternidade. As pessoas começaram a libertar-se de hierarquias e rituais, para perseguirem a ideia de igualdade. Embora o Confucionismo começasse a dissipar-se, depois de ser a ideologia dominante nos tempos antigos, permeou gradualmente todos os aspetos da vida social e tornou-se o padrão de conduta do povo chinês, continuando vivo até hoje. 3.2.2.1 O centralismo democrático Desde o início que toda a China concertou esforços para combater o novo coronavírus. O governo criou rapidamente um mecanismo de resposta de emergência, reuniu recursos nacionais e tomou medidas abrangentes, rigorosas e minuciosas. A rápida formação de uma frente unida contra a epidemia e a tendência objetiva de melhoria é um importante reflexo da força da liderança centralizada e unificada do Partido Comunista Chinês. O centralismo democrático sob a liderança do Partido ajuda a concentrar o poder nas grandes questões. O Partido lidera de forma credível em assuntos nacionais; uma ordem bastou para que dezenas de milhões de pessoas deixassem de circular em Wuhan; para que 1,4 mil milhões de chineses ficassem em casa; a força aérea transportou rapidamente dezenas de milhares de toneladas de equipamentos e suprimentos; dezenas de milhares de médicos foram para a linha de frente; um grande número de trabalhadores foi chamado para construir o Hospital Huoshenshan em dez dias, e assim por diante. Inúmeras pessoas fizeram sacrifícios, chegando a dar a vida, para vencer a epidemia. O facto de o país ter conseguido 83 Kang Youwei (1858-1927) foi um pensador do final da dinastia Qing e principal iniciador da Reforma dos Cem Dias. 84 Tan Sitong (1865-1898) foi um pensador do final da dinastia Qing e principal iniciador da Reforma dos Cem Dias.
61 uma forte execução baseada na concertação de esforços foi uma enorme vantagem institucional. O centralismo democrático é o princípio organizacional fundamental e o sistema de liderança do Partido Comunista da China, e é um símbolo importante que distingue os partidos marxistas de outros partidos políticos. Ele combina democracia e centralização, impedindo e superando efetivamente o descentralização da discussão sem decisão e decisão sem ação. Um dos seis princípios básicos é que os membros individuais do Partido estão subordinados à organização do Partido, que a minoria está subordinada à maioria, que as organizações estão subordinadas às organizações superiores, e que todas as organizações do Partido e os membros do Partido estão subordinados ao Congresso Nacional e ao Comité Central do Partido85 Mao Tse Tung disse: "Não há nenhuma vala profunda entre democracia e centralização que não possa ser atravessada". Para ele, democracia era centralização e liberdade era disciplina; dois lados que são contraditórios e unificados. A implementação do centralismo democrático pretende criar uma situação política que combine tanto centralização como democracia, disciplina como liberdade. A um nível espiritual, a milenar cultura confucionista determina a hierarquia que persiste na sociedade chinesa; enquanto ao nível institucional, o centralismo democrático consolida a hierarquia. 3.3 Indulgência em Portugal e na China A indulgência, enquanto dimensão cultural, mede o grau em que as pessoas tentam controlar desejos e impulsos. A indulgência implica um controlo mais fraco e, por sua vez, a contenção implica um controlo mais forte. A China apresenta 24 pontos no índice de indulgência, indicando que se trata de uma 85 Qiu Shi Wang Ping Lun Yuan. (2023, December 25). 民主集中制是我们党的根本组织原则和领导制度 Minzhu jizhongzhi shi women dang de genben zuzhi yuanze he lingdao zhidu (Democracia centralizada é o princípio organizacional fundamental e sistema de liderança do nosso partido). QSTHEORY:CN. http://www.qstheory.cn/wp/2023-12/25/c_1130043916.htm
68 As pandemias são, por definição, fenómenos globais, pelo que faz sentido serem analisadas de uma perspetiva internacional. Além disso, não são apenas um facto sanitário e epidemiológico; mas “igualmente um facto político e social, pois a sua propagação depende não só da natureza do vírus, mas também da forma como funciona e se organiza a comunidade por ele atingida”89. Como oportunamente refletimos, no primeiro capítulo desta dissertação, a epidemia teve impactos em quatro grandes áreas: económica, política, cultural e educacional. Na área económica, registou-se um enorme impacto global, com muitas empresas a enfrentarem o encerramento e o desemprego forçado dos seus colaboradores, e muitas indústrias a sofrerem graves prejuízos. Politicamente, a epidemia teve um impacto igualmente profundo, com muitos países a avaliarem a eficácia de medidas de prevenção da epidemia e as suas consequências na estabilidade social. A pandemia teve ainda um impacto sobre os hábitos culturais, tradições e crenças, testando a adaptabilidade e resiliência das culturas. Na área da educação, desafiou o calendário escolar, os modelos de ensino e os processos de aprendizagem, facilitando, ao mesmo tempo, o desenvolvimento de novos modelos educativos. No segundo capítulo, foram apresentadas as medidas tomadas por Portugal e pela China durante a epidemia e os resultados alcançados. A China tomou medidas mais rigorosas para controlar a epidemia, isolando cidades e restringindo a circulação de pessoas, ao mesmo tempo que intensificava esforços no desenvolvimento e produção de vacinas. O governo português foi mais brando nas fases iniciais, mas, à medida que a epidemia se intensificou, foram tomadas medidas mais rigorosas, como o estado de emergência. A estratégia nacional da China de concentrar os seus esforços nas principais questões refletiu-se na eficácia do controlo da doença, alcançando resultados relativamente bem-sucedidos, enquanto Portugal se concentrou mais na autoproteção dos cidadãos e na responsabilidade pessoal. Num terceiro momento, analisou-se as causas históricas e características culturais de ambos os países que se refletiram no momento do combate à COVID-19. Foram considerados três indicadores das dimensões culturais teorizadas por Hofstede: coletivismo e 89 Monteiro, Nuno & Jalali, Carlos (coord.) (2022). Impactos da pandemia de COVID-19 em Portugal , Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, p. 39.
69 individualismo, distância ao poder, e indulgência e contenção. No que respeita à primeira dimensão cultural, na China está profundamente enraizado o conceito de coletivismo e família, enquanto em Portugal, onde tanto o coletivismo como o individualismo são mantidos, a população coloca mais ênfase nos direitos e liberdades individuais e, por isso, estará mais inclinada a equilibrar os interesses individuais com o interesse público. Em termos de distância ao poder, desde tempos antigos que a China é influenciada pelo Confucionismo, pelo que o governo chinês goza de uma maior concentração de poder, conseguindo tomar medidas centralizadas de controlo e prevenção, verificando-se um maior nível de obediência por parte da população. Já em Portugal, influenciados pela cultura tradicional e pelo catolicismo, os cidadãos procuraram equilibrar os seus direitos fundamentais e obediência civil. Em termos de indulgência e contenção, a China coloca mais ênfase nas normas de comportamento e disciplina, enquanto Portugal coloca mais ênfase no autocontrolo individual. Analisando o acima exposto, conclui-se que os fatores culturais foram muito importantes para influenciar as medidas de prevenção e controlo da epidemia. Diferentes origens e valores culturais determinam a reação e atuação quer dos países, quer dos indivíduos, em contexto de situações de emergência. Na China, adotou-se uma estratégia nacional de concentração de esforços, recebendo o apoio de toda a população. Em Portugal, houve um elevado sentido de autopreservação e de responsabilidade pessoal, que conduziu a alguma desobediência às medidas governamentais. Por exemplo, nos primeiros tempos, as pessoas recusavam-se a usar máscaras e ainda participavam em atividades sociais, como participar em reuniões em bares, etc. Importa prestar mais atenção à influência dos fatores culturais na prevenção e controlo de epidemias, para evitar os efeitos adversos das diferenças culturais, e para melhor desenvolver e implementar medidas apropriadas para alcançar melhores resultados na prevenção e controlo de doenças.
70
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