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Avaliar a Qualidade da Informação: Referencial Teórico-Metodológico
Avaliar a Qualidade da Informação: Referencial Teórico-Metodológico AUTOR Barómetro para a Qualidade da Informação EQUIPA Ana Filipa Gomes; Gisiela Klein; Inês Mendes; Joel Felizes; Luís Miguel Loureiro; Rita Araújo; Sandra Marinho; Tiago Vaz Estêvão CAPA Giulia May (Fotografia) Luís Pinto e Inês Mendes (Composição) PAGINAÇÂO Inês Mendes; Sofia Salgueiro EDIÇÃO © Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade, 2025 Instituto de Ciências Sociais, Universidade do Minho Campus de Gualtar, 4710-057 Braga, Portugal https://www.cecs.uminho.pt/ https://www.b-info.pt/ [email protected].pt e-ISBN 978-989-36112-0-3 Este trabalho é financiado por fundos nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P., no âmbito do projeto UIDB/00736/2020 (financiamento base) e UIDP/00736/2020 (financiamento programático).
Índice Introdução ........................................................................................................................................ 9 1. A QUALIDADE DA INFORMAÇÃO: RELEVÂNCIA SOCIAL E CIENTÍFICA ........ 11 1.1. Qualidade dos dados e qualidade da informação ............................................................. 11 1.2. A importância da qualidade da informação ....................................................................... 14 1.3. O direito à informação de qualidade e o papel do jornalismo ................................. 16 2. AFERIÇÃO DA QUALIDADE: MODELOS, DIMENSÕES E INDICADORES ....... 19 2.1. Breve evolução do conceito ............................................................................................................... 19 2.2. O ciclo TDQM ............................................................................................................................................. 21 2.3. Dimensões da qualidade da informação .............................................................................. 23 2.4. O caso específico da informação jornalística .................................................................... 26 2.5. Abordagens metodológicas para avaliar a qualidade da informação .......... 30 3. PROJETOS ANÁLOGOS AO BIP ......................................................................................... 37 4. METODOLOGIA DO BIP ..................................................................................................... 45 4.1. O processo de monitorização do BIP ........................................................................................ 45 4.1.1. Critérios transversais ........................................................................................................... 46 4.2. Métodos e técnicas .............................................................................................................................. 48 4.3. O método Delphi e o estudo de caso ....................................................................................... 48 4.4. Disseminação dos resultados e regularidade de atualização .............................. 49 4.5. Política de transparência e acesso aberto ........................................................................... 50 4.6. Intervenção social e científica ....................................................................................................... 51
Referências ..................................................................................................................................... 53 Anexos .............................................................................................................................................. 57 Anexo 1 .................................................................................................................................................................... 57 Anexo 2 ................................................................................................................................................................... 58
Índice de figuras e tabelas Figura 1 Os conceitos de dados e informação ................................................................................... 12 Figura 2 Etapas do ciclo TDQM .................................................................................................................. 22 Figura 3 Etapas do processo de medição da qualidade da informação, segundo González-Valiente (2014) ................................................................................................................................... 23 Figura 4 Quatro dimensões da qualidade da informação, segundo Lee et al. (2002) ....................................................................................................................................................................... 24 Figura 5 Modelo de qualidade segundo Meier (2019) .............................................................. 27 Figura 6 Localização geográfica dos barómetros analisados ............................................ 37 Figura 7 Idioma dos relatórios de divulgação dos resultados ............................................ 38 Figura 8 Barómetros analisados por abordagem ........................................................................ 39 Figura 9 Barómetros analisados conforme o tipo de fonte de informação .............. 40 Figura 10 Barómetros analisados conforme o método de recolha e cruzamento dos dados ................................................................................................................................................................................ 41 Figura 11 Imagem do gráfico interativo apresentado pelo VIBE 2023 .......................... 42 Figura 12 Frequência da divulgação dos resultados ................................................................... 42 Figura 13 Etapas do processo de avaliação da qualidade da informação pelo BIP .................................................................................................................................................................... 46 Tabela 1 Perspetivas académicas acerca do conceito de qualidade da informação ................................................................................................................................................... 14 Tabela 2 Uma perspetiva histórica da investigação sobre qualidade da informação, segundo Eppler (2006) ........................................................................................................................................ 20 Tabela 3 Modelo para medição da qualidade da informação, segundo ZarragaRodriguez & Alvarez (2015)................................................................................................................................. 25 Tabela 4 Abordagens metodológicas propostas por Baskarada (2009) .................... 34 Tabela 5 Modelo de critérios transversais para avaliação da qualidade .................. 47
Tabela 6 Técnicas de seleção, recolha e análise, de acordo com a abordagem da análise ............................................................................................................................................................................ 48 Tabela 7 Instrumentos de disseminação e respetiva regularidade ............................... 49 Tabela 8 Plataformas e suportes de disseminação e respetiva regularidade ........ 50 Tabela A1 Lista de barómetros analisados ......................................................................................... 57 Tabela A2 Vínculo institucional e financiamento dos barómetros analisados ..... 58
INTRODUÇÃO A literatura sugere que a qualidade da informação tem sido uma preocupação que atravessa diferentes períodos no tempo. Embora a terminologia varie, a investigação sobre a comunicação — verbal ou não verbal — tem considerado, de uma forma ou outra, características como, por exemplo, a precisão e a fiabilidade da informação. A era digital trouxe desafios que tornam este conceito ainda mais relevante e complexo. Apesar das vantagens que a digitalização e o acesso à internet trouxeram à disseminação de informação — decorrentes da instantaneidade e dos processos de globalização —, também coloca dificuldades relativamente ao controlo da sua qualidade, agravadas pelo uso dos media sociais e — atualmente — pelo acesso generalizado a ferramentas de inteligência artificial. A disseminação de informação falsa e a manipulação de dados tornaram-se assim problemas que exigem investigação mais robusta, desenvolvida também a partir do conceito de qualidade da informação. Neste contexto, o BIP – Barómetro para a Qualidade da Informação surge como uma abordagem integradora. Este observatório visa monitorizar e analisar a qualidade da informação disponível em diferentes ecossistemas comunicacionais e em plataformas diversas (tanto nas tradicionais como nos media sociais). Como exemplos, podemos citar, sem nos limitarmos a eles, a informação jornalística, os canais de comunicação das organizações públicas e privadas, a comunicação governamental, a comunicação política, as peças de publicidade e propaganda e a produção audiovisual. Ao reunir um grupo de investigadores e especialistas em diversas áreas do conhecimento, o BIP procura desenvolver critérios e indicadores para avaliar a qualidade da informação, através de uma metodologia rigorosa e transparente. O BIP pretende ser uma ferramenta valiosa para a compreensão e melhoria da qualidade da informação disponível, contribuindo assim para uma sociedade mais crítica e consciente. Além disso, a atividade do BIP constitui também uma forma de se promover a transparência e a accountability em todas as esferas da sociedade. Ao estabelecermos critérios claros e objetivos para avaliar a qualidade da informação, pretendemos criar uma cultura de responsabilidade e promover a confiança na informação disponibilizada. Este e-book tem como propósito discutir e situar o conceito de qualidade da informação — enquanto objeto de estudo —, explorando a sua evolução, as suas diferentes abordagens teóricas, modelos e metodologias de aferição. Esta reflexão não pretende constituir-se como uma revisão da publicação científica sobre o tema, mas antes como um referencial para o estudo da qualidade da
16 A Qualidade da Informação: Relevância Social e Científica da de confiança dos clientes e parceiros); penalizações e multas (em resultado da violação de leis); ineficiência operacional (retrabalho, desperdício de tempo, processos ineficientes e trabalho adicional para corrigir os erros); oportunidades perdidas (perda de oportunidades de negócio e de conquistar novos clientes ou explorar novos mercados): e falhas nos processos empresariais (falhas nos processos de negócio, levando a atrasos, erros e problemas de comunicação). 1.3. O direito à informação de qualidade e o papel do jornalismo Na ordem jurídica nacional, o direito à informação é considerado um direito fundamental, consagrado na Constituição da República Portuguesa (1976/2005) e referido em pelo menos nove dos seus artigos. Há menção ao direito à informação de caráter jurídico (Artigo 20.º); à liberdade de expressão, dos meios de comunicação social e à regulação da comunicação social (Artigos 37.º, Artigo 38.º e Artigo 39.º); o direito à informação para o bom funcionamento dos sindicatos (Artigo 55.º); o direito à informação enquanto bem de consumo (Artigo 60.º); o direito à informação para fins de planeamento familiar (Artigo 67.º); e o direito à informação política (Artigo 155.º e Artigo 197.º). Apesar de não haver referência específica à qualidade da informação, a Lei é clara quanto à sua finalidade. Assim, caso a informação fornecida não cumpra com a sua finalidade, o cidadão tem o direito a reclamá-la: “Os consumidores têm direito à qualidade dos bens e serviços consumidos, à formação e à informação, à proteção da saúde, da segurança e dos seus interesses económicos, bem como à reparação de danos” (art. 60º, n.º 1). Neste contexto, o jornalismo assume um papel central enquanto mediador das instituições, produtor de notícias e veículo de transmissão de informação (Diakopoulos & Essa, 2008). Espera-se que, munidos de informação de qualidade sob a forma de notícias, os cidadãos adquiram as ferramentas adequadas para se envolverem num processo de tomada de decisão informada (Diakopoulos & Essa, 2008). Assim, a qualidade da informação é crítica para uma boa compreensão e está relacionada com a precisão e validade das afirmações, bem como com a confiabilidade das fontes de informação (Diakopoulos & Essa, 2008). Na secção 2.4 aprofundamos o debate sobre os modelos de medição da qualidade da informação jornalística. Ainda assim, a importância da qualidade da informação não se circunscreve ao jornalismo: ao longo desta secção, percebemos a relevância da qualidade da informação em diversos âmbitos sociais, nomeadamente para as empresas, para as organizações e para os consumidores. A credibilidade e a confiança na
17 Avaliar a Qualidade da Informação informação são fundamentais para o exercício da cidadania e para a democracia, e, nesse sentido, para o funcionamento social — daí, também, a importância que é dada ao direito à informação a nível legislativo. Assim, a aferição da qualidade da informação é essencial — estabelecer modelos, dimensões e indicadores que permitam a sua medição —, porque impacta o processo de tomada de decisão, não só ao nível individual, mas também ao nível das políticas.
2. AFERIÇÃO DA QUALIDADE: MODELOS, DIMENSÕES E INDICADORES Analisar a qualidade da informação é uma tarefa muito complexa, que contempla diversos modelos, assentes em dimensões ou indicadores de diferente natureza. E procedimentos morosos: é necessário reunir itens de informação para serem analisados e, em seguida, aplicar critérios de decisão para lhes atribuir pontuações específicas. Essa tarefa é diferente em escala e complexidade, para cada domínio de aplicação. Além disso, o conhecimento sobre as fontes de informação e sobre os processos usados para derivar os dados ou informação é importante, quando os utilizadores avaliam a sua qualidade e quando decidem sobre o uso apropriado a dar-lhes (Howard et al., 2011). 2.1. Breve evolução do conceito A investigação sobre a qualidade dos dados e da informação remonta ao final da década de 1980, pela mão de investigadores do MIT, o que levou ao lançamento formal do programa MIT — Total Data Quality Management (TDQM) em 1992, que estabelecia a qualidade dos dados como uma área de investigação (Zhu et al., 2014). O trabalho pioneiro do programa TDQM lançou as bases da investigação sobre a qualidade dos dados e atraiu um número crescente de investigadores neste domínio emergente. A investigação conduzida por esta comunidade contribuiu para a criação de conferências, workshops e do ACM Journal of Data and Information Quality. Nas últimas duas décadas, a investigação produziu um conjunto significativo de conhecimento e expandiu a nossa capacidade de abordar vários problemas de qualidade dos dados e da informação. A consciencialização para estas questões cresceu rapidamente, devido ao papel crítico desempenhado pela qualidade da informação numa economia baseada no conhecimento e com grande intensidade de produção de dados. A Tabela 2 apresenta a perspectiva de Eppler (2006) sobre as investigações que constituem marcos na pesquisa sobre a qualidade da informação.
20 Aferição da Qualidade: Modelos, Dimensões e Indicadores Lesca & Lesca (1995) Identificam vários critérios para avaliar a qualidade da informação, incluindo a utilidade, a compreensibilidade, a pertinência, a exaustividade, a coerência, a clareza, a fiabilidade, a acessibilidade, a objetividade, a credibilidade e a interatividade. Wang & Strong (1996) Propõem um quadro que vai além da exatidão e centra-se no significado da qualidade dos dados para os consumidores. Discutem a importância de atributos como a qualidade intrínseca da informação (exatidão, objetividade, credibilidade, reputação), a qualidade da acessibilidade da informação (acessibilidade, segurança), a qualidade da informação contextual (relevância, valor acrescentado, atualidade, exaustividade, quantidade de informação) e a qualidade da informação de representação (interpretabilidade, facilidade de compreensão, representação concisa, representação consistente). Redman (1996) Inclui dimensões como o conteúdo (pertinência, possibilidade de obtenção, clareza de definição), o âmbito (abrangência, essencialidade), o nível de pormenor (granularidade dos atributos, precisão dos domínios), a composição (naturalidade, identificabilidade, homogeneidade, redundância mínima desnecessária), a coerência da perspetiva (coerência semântica, coerência estrutural), visão conceptual, reação à mudança (robustez, flexibilidade), valores (exatidão, exaustividade, consistência, atualidade/tempo de ciclo), formatos (adequação, interpretabilidade, precisão do formato, flexibilidade do formato, capacidade de representar valores nulos, utilização eficiente do armazenamento) e representação (instâncias físicas, consistência da representação). Königer & Reithmayer (1998) Categorizam a qualidade da informação em diferentes dimensões, tais como a qualidade intrínseca (precisão, objetividade, fiabilidade), a qualidade de acesso (acessibilidade, segurança), a qualidade contextual (relevância, valor acrescentado, atualidade, conteúdo da informação), a qualidade de apresentação (interpretabilidade, compreensibilidade, concisão, consistência), a qualidade da meta-informação (existência, adequação) e a qualidade da estruturação (existência, adequação, compreensibilidade). Alexander & Tate (1999) Centram-se em critérios como a autoridade, a exatidão, a objetividade, a atualidade, a orientação para o grupo-alvo e a conceção da interação/navegação. Salienta a necessidade de informação validada, conteúdo fiável e isento de erros, apresentação imparcial, informação atualizada, sinalização clara do público-alvo e compreensão intuitiva dos elementos de conceção. English (1999) Engloba tanto a qualidade inerente da informação (definições, exaustividade, validade, exatidão, precisão, não duplicação, equivalência de dados redundantes ou distribuídos, simultaneidade de dados redundantes ou distribuídos, acessibilidade) como a qualidade pragmática da informação (atualidade, clareza contextual, integridade da derivação, usabilidade, correção ou exaustividade dos factos). Ruß-Mohl (1994/2000) Destaca critérios como a objetividade, a compreensibilidade, a relevância, a atualidade, a redução da complexidade, a transparência/reflexividade e a interatividade. Sublinha a importância de revelar os interesses do autor, explicar as abreviaturas, a relevância geográfica e social para os interesses dos leitores, informações rápidas, mas validadas, relatórios de base para reduzir a complexidade, orientações editoriais claras e um espaço para correções, e possibilidades de participação interativa para os leitores. Tabela 2. Uma perspetiva histórica da investigação sobre qualidade da informação, segundo Eppler (2006) A presente síntese destaca marcos na investigação sobre a qualidade da informação, abordando dimensões como a qualidade intrínseca, o acesso, o contexto e a representação. Uma das principais abordagens observadas é a ênfase na
21 Avaliar a Qualidade da Informação qualidade intrínseca, que inclui atributos como a exatidão, a objetividade, a credibilidade e a reputação, essenciais para assegurar a fiabilidade da informação. A qualidade de acesso, representada pela acessibilidade e segurança, sublinha a importância de a informação ser facilmente consultável pelo público, ao mesmo tempo que se garante proteção contra acessos não autorizados. Já a dimensão contextual considera a relevância, o valor acrescentado, a atualidade e a exaustividade, focando-se na adequação da informação ao seu propósito e ao seu público, bem como no valor prático e na completude dos dados. No que se refere à qualidade de representação, incluem-se critérios como a interoperabilidade, a clareza, a concisão e a consistência, destacando-se a importância de uma apresentação compreensível e objetiva. As investigações abordam, ainda, a qualidade estrutural e da meta-informação, com o foco na existência, na adequação e na clareza dos metadados, além da organização eficiente da informação. Por fim, a categorização proposta enfatiza critérios como a autoridade, a precisão, a atualidade e a orientação para o público-alvo, salientando a necessidade de informações validadas, imparciais e atualizadas. Em suma, os investigadores apontam para a qualidade da informação como um conceito multidimensional que engloba desde a veracidade e precisão dos dados até à forma como são apresentados e disponibilizados ao público, sendo a integração dessas dimensões crucial para uma comunicação eficaz e fiável. 2.2. O ciclo TDQM O ciclo TDQM é aplicado a todo o processo de produção de dados e propõe a gestão da qualidade total de dados em quatro componentes: definição, medição, análise e melhoria. Wang (1998) destaca a importância de estabelecer requisitos claros de qualidade dos dados, envolver as partes interessadas relevantes e adotar práticas adequadas de gestão de produtos, como planeamento, conceção, desenvolvimento, teste e manutenção (Figura 2). O autor também enfatiza a necessidade de utilizar métricas e indicadores de desempenho para avaliar e monitorizar a qualidade dos dados ao longo do tempo (Wang, 1998). O ciclo TDQM é aplicado a todo o processo de produção de dados e propõe a gestão da qualidade total de dados em quatro componentes: definição, medição, análise e melhoria. Wang (1998) destaca a importância de estabelecer requisitos claros de qualidade dos dados, envolver as partes interessadas relevantes e adotar práticas adequadas de gestão de produtos, como planeamento, conceção, desenvolvimento, teste e manutenção (Figura 2). O autor também enfatiza a necessidade de utilizar métricas e indicadores de desempenho para avaliar e monitorizar a qualidade dos dados ao longo do tempo (Wang, 1998).
22 Aferição da Qualidade: Modelos, Dimensões e Indicadores A componente da definição envolve a definição dos requisitos de qualidade dos dados A componente da medição envolve a medição da qualidade dos dados com base nos requisitos definidos A componente de melhoria envolve a implementação das mudanças necessárias para melhorar a qualidade dos dados A componente da análise envolve a análise dos resultados da medição para identificar as causas raiz dos problemas de qualidade dos dados TDQM Figura 2. Etapas do ciclo TDQM Há etapas gerais (Figura 3) que podem ser envolvidas no processo de medição da qualidade da informação (González-Valiente, 2014):
23 Avaliar a Qualidade da Informação 4. Análise e avaliação: analisar os dados recolhidos e avaliar a qualidade da informação com base nos critérios e indicadores estabelecidos. Pode envolver comparações com padrões prédeterminados ou com outras fontes de informação 6. Ações corretivas: com base nos resultados da medição, tomar medidas corretivas para melhorar a qualidade da informação, como implementar políticas ou processos de melhoria contínua 1. Definição dos critérios de qualidade: identificar e estabelecer os critérios que serão utilizados para avaliar a qualidade da informação 2. Seleção de indicadores: escolher os indicadores específicos que serão utilizados para medir cada critério de qualidade definido anteriormente 3. Recolha de dados: obter os dados necessários para avaliar a qualidade da informação, seja por meio de pesquisas, análise documental, entrevistas ou outras fontes de informação Etapas do processo 5. Interpretação dos resultados: interpretar os resultados da medição da qualidade da informação, identificando pontos fortes e áreas de melhoria Figura 3. Etapas do processo de medição da qualidade da informação, segundo González-Valiente (2014) 2.3. Dimensões da qualidade da informação Para além da verificação dos factos, é necessário considerar outras dimensões quando se afere a qualidade da informação, como o contexto em que a informação é apresentada, a acessibilidade e a interpretação que lhe é dada. Essa abordagem mais abrangente permite uma análise mais completa e precisa da qualidade da informação, incorporando diversas teorias e modelos de análise. Vários autores têm contribuído para o desenvolvimento deste campo de estudos, nomeadamente através da conceção de modelos. Lee et al. (2002), por exemplo, agruparam as dimensões da qualidade da informação em quatro categorias: intrínseca (a informação tem qualidade por si só); contextual (reforça a necessidade de considerar a informação no contexto em que é aplicada, tendo em conta que deve ser relevante, oportuna, completa e apropriada em quantidade); representacional e sua acessibilidade (Figura 4). As duas últimas categorias enfatizam a importância de os sistemas computacionais armazenarem e forne-
24 Aferição da Qualidade: Modelos, Dimensões e Indicadores cerem acesso à informação de uma forma segura. Neste âmbito, o sistema deve apresentar a informação de uma forma que seja interpretável, fácil de entender, fácil de manipular e representada de maneira concisa e consistente. Outros autores contribuíram para o construto de qualidade da informação, através de revisões de literatura (DeLone & McLean, 2003; Goodhue, 1998; Jarke & Vassiliou, 1983), da análise de dimensões a partir dos consumidores de informação (Wang & Strong, 1996), ou com base em relatórios impressos (Zmud, 1978). Outros, ainda, focaram a sua investigação em dimensões que podem ser definidas objetivamente (Ballou & Pazer, 2003; Lee et al, 2002; Wand & Wang, 1996). Intrínseca: consiste na exatidão, objetividade, credibilidade e fidedignidade da informação Contextual: consiste em informação de valor acrescentado, relevante, atual, exaustiva e quantidade adequada de dados Representacional: consiste em interpretabilidade, facilidade de compreensão, consistência representacional e representação concisa Acessibilidade: consiste na acessibilidade e na segurança de acesso Quatro dimensões da qualidade da informação Figura 4. Quatro dimensões da qualidade da informação, segundo Lee et al. (2002) Zarraga-Rodriguez e Alvarez (2015) propõem um modelo de avaliação da qualidade da informação assente em três categorias — conteúdo, formato ou representação e acessibilidade — cada uma associada a um conjunto de dimensões, que passamos a explicitar e estão sistematizadas na Tabela 3: 1. Categoria de conteúdo: esta categoria contempla o conteúdo propriamente dito da informação — a sua relevância, precisão e completude. Considera duas subcategorias: a visão intrínseca, que considera as propriedades da informação, sem estabelecer ligação com o utilizador, a tarefa ou a aplicação; e a visão baseada no contexto, que sugere a necessidade de ter em conta o utilizador/utilização da informação. 1.1 Dimensão de precisão: o grau em que a informação está correta, exata, precisa, livre de erros e ambígua. 1.2 Dimensão de consistência: o grau em que a informação é sólida, objetiva, única, livre de viés. Ausência de conflito entre diferentes fontes.
25 Avaliar a Qualidade da Informação 1.3 Dimensão de credibilidade: o grau em que a informação vem de fontes confiáveis, sendo aceite como verdadeira, real e credível. 1.4 Dimensão de relevância: o grau em que a informação é exatamente o que é necessário para a tarefa em questão; ou seja, a informação é útil, agregadora de valor, apropriada e atualizada. 1.5 Dimensão de exaustividade: o grau em que a informação é abrangente e inclui todas as informações relevantes. 2. Categoria de formato: mede o estilo de apresentação da informação e até que ponto esta é fácil de entender. Ou seja, reporta à facilidade de entendimento e compreensão, que pode ser atribuída pelo estilo de apresentação da informação. No entanto, esta categoria acaba por não ser utilizada por Zarraga-Rodriguez e Alvarez (2015), dado que os autores assumem a definição e análise cuidadas da representação da informação. 3.Categoria de acessibilidade: esta categoria mede o grau em que a informação está facilmente disponível, incluindo três dimensões de qualidade da informação: acessibilidade, atualidade e segurança. 3.1 Dimensão de acessibilidade: o grau em que a informação necessária está sempre disponível e pode ser acedida de forma fácil e rápida. 3.2 Dimensão de atualidade: o grau em que a informação é atualizada e disponível a tempo de ser utilizada. 3.3 Dimensão de segurança: refere-se à proteção da informação. Os autores consideram esta dimensão devido ao seu enquadramento legal. Categorias Dimensões Conteúdo Visão intrínseca Precisão, consistência, credibilidade Visão baseada no contexto Relevância, exaustividade Formato ou representação Estilo de apresentação, compreensibilidade Acessibilidade Acessibilidade, atualidade, segurança Tabela 3. Modelo para medição da qualidade da informação, segundo Zarraga-Rodriguez & Alvarez (2015)
32 Aferição da Qualidade: Modelos, Dimensões e Indicadores Lee et al. (2002) desenvolveram e aplicaram, em cinco organizações, a Methodology for Information Quality Assessment (Metodologia para Avaliação da Qualidade da Informação), que propõe um modelo para avaliação da qualidade da informação e a sua aplicação nas empresas. Os autores afirmam que, à data, poucos estudos tinham efetivamente contribuído para melhorar a qualidade da informação. Não nos interessa aqui desenvolver a Methodology for Information Quality Assessment, mas apenas anotar o uso de um questionário (aplicado aos utilizadores) e o seu processo de validação. O instrumento chamado IQ Assessment (IQA), no formato de um questionário, foi inicialmente construído a partir das perspetivas académicas sobre a qualidade de informação, tendo sido identificados 12 a 20 itens para cada dimensão. Foi realizado um estudo piloto, com 52 respondentes, para reduzir o número de itens, que passaram a entre 4 a 5 itens por dimensão. Após o piloto, foi elaborado e aplicado o questionário completo (com 65 itens IQA, sendo alguns demográficos) a 261 respondentes (consumidores de informação, quem a recolhe, profissionais de sistemas de informação) que pontuaram as questões mais importantes para a sua organização. Lee et al. (2004) recorreram à investigação-ação para promover a relevância de se considerar a integridade de dados como uma dimensão essencial nos processos de melhoria da qualidade da informação, trabalhando com uma empresa de fabrico global. O estudo envolveu cinco atividades principais, que se enquadram no ciclo de melhoria da qualidade dos dados, nomeadamente: investigação de identificação (definição do que é a qualidade e a integridade dos dados para a empresa analisada); diagnóstico de problemas (medir e analisar a integridade dos dados); planeamento de soluções (analisar as causas e definir possíveis soluções); implementação de soluções; refletir e aprender (pensar sobre as violações à integridade dos dados). Os investigadores observaram as práticas da empresa, providenciaram “sessões de treino e sobre qualidade dos dados e a discussão de formas de melhorar a integridade dos dados” (Lee et al., 2004, p. 92). Foram, também, considerados documentos, nomeadamente as avaliações periódicas à qualidade dos dados e a auditoria dos resultados. Lee et al. (2006) recorrem à aplicação do questionário IQA desenvolvido pelo Cambridge Research Group em 1997. O inquérito é construído utilizando uma escala de tipo Likert que varia entre 0 e 10, em que 0 indica “De modo algum” e 10 indica “Completamente”. No manual de Lee et al. (2006), aponta-se que o propósito deste inquérito, enquanto instrumento de trabalho, é “obter as avaliações subjectivas dos inquiridos sobre a qualidade dos dados e o conhecimento dos inquiridos sobre os processos, programas e ferramentas de qualidade dos dados existentes” (p. 31). Os autores acrescentam que os inquiridos devem ser
33 Avaliar a Qualidade da Informação “indivíduos cuja interação com a informação da organização é como coletor, guardião ou consumidor” (p. 31). Zúñiga e Hinsley (2013), para perceberem e compararem as perspectivas dos jornalistas e dos públicos sobre aquilo que é “bom jornalismo”, colocaram hipóteses e questões de partida que orientaram o desenvolvimento de dois inquéritos (aplicados online). Um destes foi aplicado a uma amostra aleatória e representativa de jornalistas (N = 927); o outro foi aplicado aos públicos (N = 1159), em dois momentos — no primeiro, foi distribuído a adultos ao longo dos EUA, no segundo procurou-se representatividade com base nos censos do país. Jenkins e Nielsen (2019) selecionaram oito órgãos de informação em quatro países (França, Reino Unido, Finlândia e Alemanha) — dois por país, que apresentassem características semelhantes — para estudar as perspetivas dos jornalistas e outros atores da indústria dos media sobre a qualidade das notícias através de entrevistas semiestruturadas em profundidade (N = 48). Os autores analisaram os dados a partir de uma abordagem comparativa constante e recorreram ao NVivo enquanto software para a análise. Odriozola-Chéné et al. (2019) recorreram a uma metodologia qualitativa e às entrevistas qualitativas semiestruturadas para estudar as condicionantes do jornalismo de qualidade. Foram entrevistados 120 jornalistas de três países diferentes da América Latina (Chile, Ecuador e México). Odriozola-Chéné et al. (2019) trabalharam com uma amostra não-probabilística, pelo que não era esperado que fosse possível efetuar generalizações estatísticas ao conjunto das populações de jornalistas dos três países (p. 123). Costera Meijer e Bijleveld (2016) procuram entender o ponto de vista dos públicos sobre a qualidade do jornalismo. Para isso, recorreram a um inquérito que tinha como propósito “medir o jornalismo valioso enquanto categoria de análise”, e, também, perceber que tipo de inter-relação existe na “experiência dos consumidores de notícias” (p. 4). Os autores selecionaram, intencionalmente, utilizadores reais do jornalismo local. Baskarada (2009) propõe um conjunto de abordagens metodológicas que podem ser aplicadas ao estudo da qualidade da informação, sintetizadas na Tabela 4:
34 Aferição da Qualidade: Modelos, Dimensões e Indicadores Abordagem interpretativa qualitativa Centra-se na compreensão dos fenómenos através dos significados que as pessoas lhes atribuem. Não pré-define as variáveis dependentes e independentes e procura explorar toda a complexidade da produção humana de sentido. Abordagens de recolha de dados Inclui amostragem teórica, entrevistas, análise de documentos e observação. Abordagens de análise de dados Método comparativo constante, a hermenêutica, a correspondência de padrões, a construção de explicações, a análise de casos e entre casos. Revisão da literatura É efetuada uma revisão da literatura como parte da metodologia de investigação, para recolher informações relevantes e conhecimentos de estudos anteriores. Estudos de caso exploratórios Trata-se de efetuar investigações aprofundadas de um pequeno número de casos, para obter informações e identificar potenciais indicadores ou conceitos para investigação posterior. Estudo Delphi (processo sistemático e interativo para obter opiniões ou consenso de um grupo de especialistas sobre um determinado assunto) É efetuado um estudo Delphi de quatro rondas, para validar e agrupar os indicadores de maturidade candidatos em níveis evolutivos faseados. Este estudo envolve a recolha de dados de um painel de participantes para chegar a um consenso. Estudos de casos explicativos São efetuados estudos de casos explicativos múltiplos, para testar e reforçar a teoria desenvolvida. Estes estudos de caso envolvem a aplicação de um modelo de análise em diferentes contextos do mundo real. Tabela 4. Abordagens metodológicas propostas por Baskarada (2009) É de sublinhar a diversidade de abordagens na avaliação da qualidade da informação, tendo em conta as três perspectivas consideradas por este Barómetro (qualidade a partir da produção, do produto, e dos públicos). Destaca-se, além disso, a existência de diferentes aspetos que podem ser avaliados no caso do jornalismo, por exemplo — não só as características da produção (como a precisão, a objetividade e a transparência), mas também questões associadas às fontes de informação, à independência (do jornalismo, e dos órgãos de informação e dos jornalistas que o produzem), e à accountability dos média, por exemplo. Por outro lado, o recurso a metodologias quantitativas ou qualitativas depende dos objetivos da investigação desenvolvida e das dimensões consideradas no estudo. As abordagens são diversas e demonstram a flexibilidade existente, sobretudo no que diz respeitos às técnicas de recolha: embora o inquérito por questionário seja recorrente (potencialmente pela facilidade de aplicação, sobretudo online), as entrevistas e os grupos focais também são técnicas implementadas neste tipo de investigação. Destaca-se, também, a necessidade de acautelar o tempo que estes processos implicam — a avaliação da qualidade da informação, independentemente da metodologia empregue, é morosa. A avaliação da qualidade da informação é complexa, existindo diversos critérios e modelos para aferir se determinada informação é, ou não, de qualidade. Por
35 Avaliar a Qualidade da Informação outro lado, percebeu-se, também, a relevância dos dados para a informação e, a partir daí, a importância da qualidade dos dados — e do sistema de gestão proposto pelo TDQM. As dimensões da qualidade da informação são variadas e têm origem não só na literatura, mas também no contexto específico, até porque esta não pode, ou não deve, ser estudada independentemente da realidade envolvente — que mostra o seu propósito, relevância e abrangência. Nesse sentido, tornou-se preponderante analisar projetos que colocam em prática a avaliação da qualidade da informação. O capítulo seguinte é, por isso, dedicado ao mapeamento de projetos análogos ao BIP.
3. PROJETOS ANÁLOGOS AO BIP O BIP – Barómetro para a Qualidade da Informação mapeou e analisou 24 projetos, em 63 países (ver lista no Anexo 1). A maior parte deles são oriundos de Portugal, França e EUA (Figura 6). Os resultados desses barómetros estão publicados em português, inglês, francês, espanhol, galego, sueco, alemão, italiano e, no caso do African Media Barometer Publications, também em idiomas regionais africanos (Figura 7). 0 1 2 3 4 5 6 Itália Suíça Uruguai Reino Unido Suécia Alemanha Espanha Canadá Bélgica Áustria África (32 países) Leste Europeu, Euroásia e parte da Ásia… EUA França Portugal Número de barómetros analisados Figura 6. Localização geográfica dos barómetros analisados
38 Projetos Análos ao BIP 0 1 2 3 4 5 6 Italiano Inglês e idiomas locais Inglês e Sueco Inglês, Francês e Espanhol Galego Alemão Inglês e Espanhol Francês Português Inglês Idioma dos relatórios de divulgação Figura 7. Idioma dos relatórios de divulgação dos resultados Em relação aos barómetros portugueses, foram mapeados cinco projetos que integram dois laboratórios de investigação — LabCom e MediaLab. O LabCom integra o Barómetro das Redes Sociais das CIM, que monitoriza a comunicação das políticas públicas desenvolvidas pelas 21 Comunidades Intermunicipais distribuídas pelo território nacional continental. Já o MediaLab suporta quatro projetos, um deles ainda em atividade (Monitio) e os outros três já encerrados. Os três projetos já encerrados foram, ainda assim, considerados nesta análise, pela relevância metodológica e pela proximidade territorial com o BIP. Cada um dos barómetros analisados avalia a informação segundo diferentes dimensões, como acessibilidade, confiança, transparência, relevância, precisão, distribuição e produção. Para este relatório, classificamos os projetos segundo as três abordagens que orientam o trabalho do BIP: a) a avaliação da qualidade da informação tomando por objeto o processo de produção b) a qualidade avaliada a partir das características dos produtos; e c) a qualidade avaliada a partir das perceções dos públicos. Como se demonstra na Figura 8, a abordagem menos representada é a que olha a qualidade a partir do processo de produção, ou seja a que avalia as rotinas, as condições de produção e as práticas dos profissionais.
39 Avaliar a Qualidade da Informação 10 10 4 Qualidade avaliada a partir da receção/audiências/públicos Qualidade avaliada a partir das características dos produtos Qualidade avaliada a partir do processo de produção Figura 8. Barómetros analisados por abordagem Na sua maioria, os barómetros disponibilizam os resultados em relatórios no formato PDF, mas alguns oferecem gráficos interativos e/ou estáticos e vídeos. Em termos de usabilidade, o Vibrant Information Barometer (VIBE) — que divulga um relatório anual sobre como a informação mediática/jornalística é produzida, difundida, consumida e utilizada em 18 países no Leste Europeu, Eurásia e parte da Ásia — apresenta o dashboard interativo mais completo, de fácil e rápida visualização dos dados. Os relatórios do barómetro VIBE são produzidos a partir de questionários com especialistas e aferem 20 indicadores diferentes de qualidade da informação mediática/jornalística. Já o Science Barometer Austria conseguiu resumir o relatório de 2022 numa animação em vídeo com cerca de um minuto, em linguagem acessível ao público leigo. Os barómetros que tratam de dados abertos governamentais oferecem, ainda, acesso integral à base de dados no formato CSV (The Open Data Barometer e Global Data Barometer). Livros, revistas e eventos académicos também são usados para divulgar os resultados, especialmente em projetos ligados a universidades. Quanto às fontes de informação (Figura 9), os projetos podem ser organizados da seguinte forma: os que trabalham com fontes primárias (a categoria em que se enquadra a maior parte dos projetos analisados), fontes secundárias ou com fontes mistas. Há barómetros alimentados por dados externos produzidos por sindicatos, associações, governos locais e organizações internacionais como Fórum Económico Mundial, União Internacional de Telecomunicações, Nações Unidas, Freedom House e Repórteres Sem Fronteiras. Aqueles que utilizam fontes primárias realizam, geralmente, inquéritos por meio de questionário, en-
40 Projetos Análos ao BIP trevistas e sondagens. Neste último caso, as amostras são representativas da população estudada, há regularidade na recolha dos dados para fins de investigação comparada e, normalmente, há uma base sólida de financiamento (governos, universidades ou plataformas digitais como a Google). 15 5 4 Fonte primária de informação Fonte secundária de informação Fonte primária e secundária de informação (mista) Figura 9. Barómetros analisados conforme o tipo de fonte de informação Metade dos barómetros analisados (Figura 10) desenvolveu e/ou adaptou uma metodologia mista (quantitativa e qualitativa) para a recolha e cruzamento dos dados. Nesses casos, há triangulação das técnicas de recolha, com a aplicação de inquéritos por questionário e entrevistas, para além da análise qualitativa de outros relatórios e estudos científicos. Quanto às metodologias, a aplicada pelo African Media Barometer Publications destaca-se pela complexidade do instrumento de medição, que é aplicado a 32 países com diferenças culturais, linguísticas e socioeconómicas. O instrumento foi desenvolvido em conjunto pela organização não-governamental Friedrich-Ebert-Stiftung e pelo Instituto de Média da África Austral.
41 Avaliar a Qualidade da Informação 3 9 12 Qualitativa Quantitativa Qualitativa-Quantitativa Figura 10. Barómetros analisados conforme o método de recolha e cruzamento dos dados Também se destacam os barómetros Media Bias/Fact Check (MBFC) e VIBE, pelo uso de escalas. O MBFC mede o nível de credibilidade de um meio de comunicação através de indicadores como a linguagem usada nas manchetes, os tipos de fontes de informação, a escolha das histórias, a filiação política das fontes de informação, a liberdade de imprensa no país onde se encontra o meio de comunicação, o tipo de governo do país e a estimativa do tráfego (audiência) do website do meio de comunicação. Cada categoria é avaliada através de uma escala de 0 a 10, onde 0 indica falta de viés (meio de comunicação não tendencioso) e 10 representa um viés extremo (meio de comunicação tendencioso). A média dessas quatro pontuações é representada na escala, para indicar o viés geral do meio de comunicação. A pontuação é a seguinte: 0 – 2 = Menos Tendencioso; 2 – 5 = Viés de Centro à Esquerda/Direita; 5 – 8 = Viés Esquerda/ Direita; e 8 – 10 = Viés Extremo. No caso do VIBE, o objetivo é aferir como a informação é produzida, disseminada, consumida e usada. Para tal, são utilizados 20 indicadores subdivididos em quatro dimensões: qualidade da informação; circulação da informação; consumo e comprometimento com a informação; e ações transformadoras dessa informação. Um questionário com os 20 indicadores é distribuído a especialistas nos 18 países monitorizados pelo VIBE no Leste Europeu, Eurásia e parte da Ásia. Os especialistas atribuem pontuações a cada indicador e participam de debates moderados por um representante do VIBE. No final, o resultado é apresentado numa escala que vai do “mais vibrante” ao “menos vibrante” (Figura 11).
48 Metodologia do BIP 4.2. Métodos e técnicas Para o BIP, a qualidade da informação pode ser avaliada a partir de três dimensões ou abordagens: do processo de produção da informação; das características do produto (que pode ser de natureza diversa); e a partir da receção da informação pelos públicos. Cada uma destas três vertentes implica o recurso a diferentes técnicas de seleção, recolha e análise de dados. Na Tabela 6 anotamos as mais comuns ou tipicamente usadas. Procuraremos privilegiar de forma tão equitativa quanto possível cada uma das abordagens, tendo em conta que — como vimos — a menos representada na literatura é a que se centra nos processos de produção da informação. Avaliação a partir do processo de produção Avaliação a partir das características do produto Avaliação a partir da receção/uso do público Seleção de casos Amostragem não probabilística por casos típicos Amostragem não probabilística por bola de neve Amostragem probabilística simplesmente aleatória ou sistemática Amostragem probabilística estratificada Amostragem não probabilística por quotas Amostragem não probabilística por casos típicos Amostragem não probabilística acidental Amostragem não probabilística por quotas Recolha de dados Entrevista Grupo focal Observação Observação (grelha) Questionário Sondagem Grupo focal Painel Análise de dados Análise de conteúdo temática Análise do discurso Análise de conteúdo quantitativa Análise de conteúdo temática Análise narrativa Análise estatística Análise de conteúdo temática Análise do discurso Tabela 6. Técnicas de seleção, recolha e análise, de acordo com a abordagem da análise 4.3. O método Delphi e o estudo de caso No que toca a métodos específicos de pesquisa, para além da survey (assente no uso do questionário), antecipamos o recurso a estudos de caso e ao método Delphi. Relativamente ao método Delphi, será usado para validar os diferentes modelos de análise/indicadores e a construção de alguns instrumentos de recolha (questionários ao público). Os painéis serão constituídos por profissionais e por especialistas/investigadores. Iremos recorrer a estudos de caso, sempre que se verifiquem situações que — pela sua relevância e impacto público — justifiquem um estudo mais aprofundado. Antecipamos a realização de dois estudos de caso por ano, mas esta regularidade será sempre ditada pelo contexto. O que diferencia esta modalidade
49 Avaliar a Qualidade da Informação de outras atividades de avaliação do BIP é a profundidade de análise, o que implica, por exemplo, considerar as três abordagens (processo de produção, produto e receção) para avaliação da qualidade da informação. 4.4. Disseminação dos resultados e regularidade de atualização Uma dimensão essencial de um observatório é a sua capacidade de comunicar os resultados do trabalho de monitorização. Como vimos no capítulo anterior, são diversos os instrumentos e as plataformas a que recorrem os barómetros e é também distinta a regularidade com que comunicam os seus resultados. Na Tabela 7 sistematizamos os principais instrumentos de disseminação a que recorre o BIP e sua regularidade. Instrumento Regularidade Descrição Sondagem Mensal Sondagem (com recurso a uma escala) online acerca de um assunto tópico atual com relevância pública Relatório Variável Relatório de avaliação da qualidade da informação (a partir de uma ou mais abordagens) sobre um tema/tópico Newsletter Trimestral Resumo dos Relatórios (com destaque para os resultados principais); produção própria e trabalho de curadoria sobre informação que possa interessar ao público do BIP Anuário Anual Relatório da atividade anual do BIP, constituído pelo conteúdo dos diversos relatórios, sondagens e newsletters, mas adicionando também textos de análise produzidos por profissionais e investigadores convidados Tabela 7. Instrumentos de disseminação e respetiva regularidade Quanto às plataformas e suportes de disseminação (Tabela 7), o BIP recorrerá essencialmente a um website e à publicação em redes sociais para dar conta das atividades que realiza e, no caso do website, para publicar relatórios e outra documentação relevante. Adicionalmente, pretende-se criar espaços de discussão (físicos e virtuais) — como debates, mesas-redondas e a edição de um podcast — que favoreçam a interação entre especialistas e profissionais e — um aspeto muito relevante — permitam a participação do público. No que toca à participação dos cidadãos, pretendemos que vá para além da habitual posição de recetores ou de participantes nas pesquisas do BIP. Gostaríamos que adotasse uma dimensão de verdadeira intervenção, com a criação de canais que lhes permitam ter voz na nossa agenda de investigação. Concebemos ainda a articulação com outras plataformas do CECS, nomeadamente o Think Tank Communitas e com os Observatórios Milobs e Polobs (Tabela 8).
50 Metodologia do BIP Plataforma/suporte Regularidade Descrição Website Em contínuo Disponibilização de informação sobre a atividade do BIP, de todos os relatórios e bases de dados produzidos pelo barómetro e publicação mensal da sondagem Redes sociais Em contínuo Disponibilização de informação sobre a atividade do BIP e divulgação da sondagem Podcast Mensal Espaço de debate (com os diversos atores, incluindo o público) sobre temas relativos à qualidade da informação. Articulação com o Communitas, MilObs e PolObs. Evento científico anual Anual Evento (presencial ou online), subordinado a um tema relevante (que emerja da atividade anual do BIP) e que congregue diversos atores (incluindo o público), com uma dimensão interventiva. Tabela 8. Plataformas e suportes de disseminação e respetiva regularidade Nesta dinâmica, ao concebermos os instrumentos e formatos de disseminação dos resultados, não perdemos de vista que o BIP é um observatório, mas também uma plataforma de intervenção, pelo que as diferentes modalidades de divulgação incorporam sempre não só uma dimensão de apresentação de dados/resultados, mas também propostas de intervenção ou propostas para debater no espaço público eventuais iniciativas de transformação ou mudança, a partir do trabalho do BIP. 4.5. Política de transparência e acesso aberto O BIP subscreve uma política de transparência no que diz respeito a todo o seu processo de produção. Por esse motivo, será disponibilizada no website informação sobre os critérios e modelos adotados para avaliar cada projeto do BIP e sobre o processo de recolha e análise da informação. Ao usar os dados dos participantes (na fase de recolha, armazenamento e divulgação), seguimos as normas do Regulamento Geral de Proteção de Dados e acautelamos os princípios de Integridade Académica e os procedimentos éticos a ele associados. A política de transparência do BIP estende-se ao financiamento. Podendo ser público e privado, a informação sobre quem são as instituições ou indivíduos que financiam a atividade do BIP ou algum projeto em particular e sobre as modalidades de apoio financeiro será disponibilizada no website. O acesso aberto é a modalidade com que opera o Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade — o centro de investigação que acolhe o BIP — pelo que, tanto os resultados, como as bases de dados produzidas pelo BIP ficam disponíveis a partir do website.
51 Avaliar a Qualidade da Informação 4.6. Intervenção social e científica Um dos principais contributos científicos do BIP reside na construção e teste de modelos de análise e instrumentos para a aferição da qualidade da informação, que poderão ser adotados e adaptados por outros investigadores. Desta forma, além de promover a robustez da investigação sobre a qualidade da informação, abre-se a porta a mais estudos comparativos. O BIP pretende ainda promover o debate e a construção coletiva de conhecimento, fortalecendo a comunidade académica e a sociedade civil, impulsionando assim o avanço científico. Outro contributo reside na integração do público — os recetores e utilizadores da informação — que é chamado a pronunciar-se sobre a qualidade da informação, mas também a discutir os resultados dessa avaliação. Esta integração dos públicos, e do seu entendimento sobre a qualidade da informação, permite também a comparação entre a avaliação feita por parte dos produtores e por parte dos receptores de informação. Pretende-se ainda que o BIP se constitua como uma ferramenta de avaliação da qualidade da informação acessível e de fácil utilização, através de uma navegação intuitiva e da disponibilização de recursos a investigadores de diversas áreas de estudo. A palavra informação é muitas vezes confundida com a palavra jornalismo. Os jornalistas trabalham por excelência na divulgação de um tipo específico de informação — a jornalística —, sendo por isso crucial que sejam imparciais e rigorosos no seu trabalho. A disseminação de informação falsa ou imprecisa pode causar danos à sociedade, por isso é dever dos profissionais da área realizar uma apuração rigorosa dos factos. Pelo impacto social do jornalismo, o BIP reconhecelhe um lugar relevante, mas não exclusivo, até pelo cada vez maior impacto que tem outro tipo de informação — que compete com a jornalística — veiculada por líderes de opinião ou instituições. Será dada atenção a diferentes tipos e contextos de produção de informação, em diversos campos. Nesse sentido, o Barómetro para a Qualidade da Informação irá centrar-se em três tipos de informação, nomeadamente, a jornalística, a publicitária e a organizacional/institucional. O desenvolvimento de modelos de avaliação para cada uma das tipologias de informação, bem como a consideração dos produtores, do produto e dos receptores de informação, irá permitir maior rigor e precisão dos dados recolhidos. Espera-se que isto contribua para a geração de conhecimento útil, não só a nível científico, mas também social, e para a monitorização e análise adequadas da qualidade da informação. O BIP tem como objetivo ser uma ferramenta essencial nesta tarefa, de forma a contribuir para uma sociedade mais informada e capaz de tomar decisões de forma crítica e consciente, e a promover a transparência e a responsabilização social, bem como a confiança nos diferentes tipos de informação ao dispor de cada um.
52 Metodologia do BIP O BIP acredita que esta vertente de intervenção social e científica é crucial, não só devido ao potencial contributo para a melhoria da qualidade da informação (e aos benefícios claros para a sociedade), mas sobretudo devido ao cenário em que vivemos, pautado por fenómenos desinformativos que se propagam com pouco, ou nenhum, tipo de controlo. Aqui, é preponderante o papel que os média sociais têm tido e continuam a ter na disseminação desse tipo de conteúdos (por exemplo, o Digital News Report 2024, do Reuters Institute, nota que as redes sociais são ainda uma das principais fontes de notícias online; Newman, 2024), sobretudo tendo em conta fenómenos como o término da verificação de factos no Facebook, anunciado pela Meta (Ferreira, 2025). À desinformação acresce a perda de confiança nas instituições e na informação, inclusive na jornalística, verificando-se uma preocupação crescente com a distinção entre o que é falso e o que é real no que toca às notícias online e, ainda, entre o conteúdo que é fiável e aquele que não é, em plataformas online — sobretudo no TikTok e no X (Newman, 2024). A atuação deste Barómetro a nível científico e social está em linha com a importância do diálogo entre a ciência e a sociedade e, também, com a ideia de que a implementação é tão relevante quanto a invenção (explicar a ciência, além de gerir os seus impactos, é relevante para o avanço social) — estes são dois pontos destacados pelo Edelman Trust Barometer (2024) para restaurar a confiança na promessa da inovação. Para além disso, estas pontes são relevantes para assegurar que o conhecimento científico não se encerre dentro da academia, mas que seja utilizado de modo mais abrangente, como ferramenta informativa e capacitante. A disseminação, junto dos públicos, dos resultados que o Barómetro alcance é fulcral. Concebemos os públicos tendo em conta o público em geral, os profissionais produtores de informação e as instituições e empresas onde estes trabalham. Esta preocupação com a divulgação dos resultados prende-se, como anteriormente salientado, com a vocação interventiva do BIP, que tem em vista melhorar a qualidade da informação, e o objetivo de devolver à sociedade aquilo que se recolheu, analisou e compreendeu.
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Anexos Anexo 1 African Media Barometer Publications (AMB) https://fesmedia-africa.fes.de/media-and-publications/african-media-barometer- -publications Baromètre de l’accessibilité numérique en lecture publique https://www.culture.gouv.fr/Thematiques/Livre-et-lecture/Actualites/Barometrede-l-accessibilite-numerique-en-lecture-publique-2023-publication-des-resultats-de-la-4e-edition Baromètre de l’esprit critique https://www.printempsdelespritcritique.fr/fr/barometre-de-lesprit-critique Baromètre de la confiance politique https://www.sciencespo.fr/cevipof/fr/content/le-barometre-de-la-confiance-politique.html Baromètre sur l’utilité du Journalisme https://journalisme.com/tours/barometre/ Barómetro CIM https://labcomca.ubi.pt/investigacao/obcom/investigacao/barometro-cim/ Barómetro da calidade dos servizos públicos https://transparencia.xunta.gal/tema/participacion-e-relacions-coa-cidadania/ barometro-calidade-servizos?langId=es_ES barometerlac.org Barómetro de Dados Abertos para a América Latina e as Caraíbas barometerlac.org/?_year=2020&indicator=ODB Barómetro do MediaLab do ISCTE-IUL - Barómetro Presidenciais 2021 nas redes sociais https://medialab.iscte-iul.pt/barometro/presidenciais-2021/ Barómetro do MediaLab do ISCTE-IUL - Barómetro da Desinformação https://medialab.iscte-iul.pt/barometro/desinformacao/ Barómetro do MediaLab do ISCTE-IUL - Barómetro do sentimento político nas redes sociais https://medialab.iscte-iul.pt/barometro-sentimento-politico-redes-sociais-metodologia/ Barómetro MediaLab-Monitio https://medialab.iscte-iul.pt/barometro-medialab-monitio-metodologia/ Digital News Report https://www.digitalnewsreport.org/ Edelman Trust Barometer https://www.edelman.com/ Global Data Barometer https://globaldatabarometer.org/ Media Accountability and Transparency https://brost.ifj.tu-dortmund.de/en/projects/media-accountability-and-transparency/ Media Bias/Fact Check (MBFC) https://mediabiasfactcheck.com/ Mediebarometern https://www.nordicom.gu.se/en/facts-analysis/media-barometer OSH Barometer https://visualisation.osha.europa.eu/osh-barometer/ Science Barometer Austria https://www.oeaw.ac.at/en/science-barometer The Open Data Barometer http://devodb.wpengine.com/?_year=2017&indicator=ODB Vibrant Information Barometer (VIBE) https://www.irex.org/resource/vibrant-information-barometer-vibe fög https://www.foeg.uzh.ch/en Il barometro dell´odio https://www.amnesty.it/barometro-odio/ Tabela A1. Lista de barómetros analisados