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O Ministro da Justiça e as representações de morte: Um caso de anacronismo

Zocca, Ricardo

Abstract

Partindo da foto que ganhou os jornais no final de 2019, na qual Sérgio Moro, Ministro da Justiça à época, posa ao lado de uma escultura toda feita em cartuchos de munição, o estudo propõe uma reflexão acerca dos conceitos de violência, sofrimento e morte na atualidade. As conclusões apontam para a perda de estabilidade gerada pelo enfraquecimento da religião no início do século XX, agravada no pós-modernismo. O processo originou uma vulnerabilidade às narrativas totalizantes, que prometem reestabelecer a ordem e buscam a pureza a qualquer custo. O estudo também conclui que há um entorpecimento da repulsa à violência, o que vai de encontro ao processo de identificação da morte apontada por Ariés (1974).

Full text

https://doi.org/10.4322/dilemas.v18.n2.64482 Dilemas, Rev. Estud. Conflito Controle Soc. – Rio de Janeiro – Vol. 18 – no 2 – 2025 – e64482 Artigos O Ministro da Justiça e as representações de morte: Um caso de anacronismo Ricardo ZoccaI I Universidade do Minho, Braga, Portugal Partindo da foto que ganhou os jornais no final de 2019, na qual Sérgio Moro, Ministro da Justiça à época, posa ao lado de uma escultura toda feita em cartuchos de munição, o estudo propõe uma reflexão acerca dos conceitos de violência, sofrimento e morte na atualidade. As conclusões apontam para a perda de estabilidade gerada pelo enfraquecimento da religião no início do século XX, agravada no pós-modernismo. O processo originou uma vulnerabilidade às narrativas totalizantes, que prometem reestabelecer a ordem e buscam a pureza a qualquer custo. O estudo também conclui que há um entorpecimento da repulsa à violência, o que vai de encontro ao processo de identificação da morte apontada por Ariés (1974). Palavras-chave: Sérgio Moro, morte, violência, mito, pureza The Minister of Justice and Representations of Death: A Case of Anachronism Based on a photo that made headlines in late 2019, in which Sérgio Moro, Minister of Justice at the time, poses next to a sculpture made entirely of ammunition cartridges, this study proposes a reflection on the concepts of violence, suffering, and death in the present day. The conclusions point to the loss of stability generated by the weakening of religion in the early 20th century, aggravated in postmodernism. The process gave rise to a vulnerability to totalizing narratives that promise to reestablish order and seek purity at any cost. The study also concludes that there is a numbing of revulsion toward violence, which is consistent with the process of identification with death pointed out by Ariés (1974). Keywords: Sérgio Moro, death, violence, myth, purity Introdução O recorte desta notícia implica que expliquemos o contexto político brasileiro. Ele também revela uma profunda divisão na sociedade e como parte dela naturaliza feitos que poderiam ser considerados anômalos em uma sociedade comprometida com valores básicos de justiça, igualdade e respeito às instituições. A morte é um dos mistérios mais explorados dentro da arte e da cultura, como o memento mori, saudação utilizada pelos eremitas de São Paulo da França. Assim, a lembrança de que somos mortais ganhou o mundo das artes e ainda se faz presente. Mesmo que fascine os humanos desde a sua gênese, nenhuma prova jamais surgiu do que pode se suceder a este acontecimento, o mais importante de uma vida em conjunto com o nascimento. Tamanho é o fascínio sobre o tema que diversas mitologias foram criadas para tentar amenizar a inquietude sobre este mistério, sendo a explicação do fenômeno um dos princípios fundantes da maioria das religiões. Mas esta representação não surge apenas no imaginário mitológico das religiões. Ela ganha espaço em disputas de poder e caracterizações de heróis e vilões, antigos e modernos, conferindo 2 Dilemas, Rev. Estud. Conflito Controle Soc. – Rio de Janeiro – Vol. 18 – no 2 – 2025 – e64482 Ricardo Zocc a 2 poderes sobre aquele que tem a possibilidade de decisão sobre a morte de outro indivíduo. Segundo Morris (1981), a posição de poder de um atleta era feita justamente sobre a sua capacidade de encerrar a vida do oponente nos jogos dos gladiadores. Ainda que o conceito de morte persista, ele se transformou radicalmente ao longo do tempo. Esta alteração se deu essencialmente pelo que Ariès (1974) chama de “morte proibida”, conceito que designa os esforços da sociedade atual para se distanciar do conceito de morte, através da diminuição de práticas funerárias como o enterro e as visitas ao cemitério, tratando do assunto como uma espécie de tabu moderno, pois invoca sentimentos de tristeza e monotonia que não estão de acordo com o que se espera do homem pós-moderno. São fenômenos que vão de encontro a este conceito, proporcionando uma ruptura do que seria considerado atual, que levantam questões sobre estas representações aparentemente anacrônicas na atualidade e a sua recepção na sociedade. Um caso que merece destaque neste sentido surgiu na fotografia do ex-Ministro da Justiça Brasileiro, Sérgio Moro, que, à época, era o responsável maior pela segurança dos cidadãos do país. Na fotografia, Moro posa1 ao lado de uma escultura toda composta com cartuchos de munição, feita por Rodrigo Camacho: Figura 1 - Sérgio Moro, Rodrigo Camacho e Major Corbage Fonte: Azevedo (2019). 3 Dilemas, Rev. Estud. Conflito Controle Soc. – Rio de Janeiro – Vol. 18 – no 2 – 2025 – e64482 Ricardo Zocc a Na Figura 1, Sérgio Moro posa ao lado de Rodrigo Camacho e do Major Corbage, no dia em que foi presenteado com a escultura. Com o objetivo de compreender os fenômenos e traçar um retrato social da atualidade, este estudo se insere no paradigma interpretativo, adotando uma abordagem qualitativa. Essa metodologia é particularmente adequada, pois permite estabelecer uma conexão entre o sentido e a ação (JENSEN, 2021). O estudo utiliza a Grounded Theory, uma variação do método qualitativo, que se caracteriza pela iteração contínua da amostra (JENSEN, 2021). A análise da amostra é conduzida por meio de métodos de profundidade, com ênfase na observação e na semiótica social, complementada por análises de caráter exploratório e descritivo. Partindo do pressuposto levantado por Geertz (2008), de que qualquer objeto ou relação que serve como vínculo a uma concepção se torna também o “significado” do símbolo, os cartuchos de munição aqui figurados funcionam como um símbolo de morte. E assim é levantada a questão: se vivemos no momento em que a morte é proibida, causando distanciamento e repulsa, porque há a celebração da mesma? Ainda que Morris (1981) tenha apontado para o gradual banimento da violência, o que aconteceu neste caso? A análise parte da boa aceitação da foto e da escultura por uma parcela considerável da população e por sua ampla divulgação midiática. O rosto bélico e sisudo revela que o diálogo não é o caminho que o então encarregado máximo da segurança do país seguiria, ele não responde a críticas e questionamentos e terá a violência como resposta primária, apesar da supracitada repulsa. Temos como objetivo compreender como esta representação é percebida atualmente, através do posicionamento do mito moderno, referido por Eco (2006), com o complemento da busca pelo puro, apontado por Bauman (1998), com o apoio de Casullo (2020). Em certa medida, trata-se também de um pequeno resgate da história recente da política brasileira. A Morte na cultura ocidental Em “A morte de Ivan Illich”, de Tolstoi, o protagonista sofre um longo e doloroso decurso de morte e, nos seus momentos finais, pergunta-se: “E a morte? Onde está a morte?”. A pergunta de Tolstoi gera eco no leitor, pois esta e outras perguntas relacionadas inquietam a humanidade há milênios. Onde está, por que acontece, o que significa, qual o jeito certo de a experimentar, e como a vencer? O homem é o único animal que enterra ou queima os indivíduos da sua espécie que morreram e lhes prestam homenagem ou culto e, mais importante ainda, é o único que sabe que há de morrer […] Mas esta certeza, não adquire, curiosamente, carácter pessoal: sei que todos havemos de morrer, o que implica que terei que morrer, mas tal conhecimento continua a ter natureza abstracta, não relacionada comigo (OSSWALD, 2013, p. 11). E esta relação é bastante antiga: quando o ser humano começou a escrever na pedra ou na argila, a possibilidade de invocar a morte foi completada. Com tal técnica, era possível celebrar os feitos dos 4 Dilemas, Rev. Estud. Conflito Controle Soc. – Rio de Janeiro – Vol. 18 – no 2 – 2025 – e64482 Ricardo Zocc a senhores da guerra e dos reis, convidando à adoração de sua memória e à inscrição dos anos de suas vidas e suas linhagens. O vínculo entre a humanidade e a morte se torna rapidamente uma obsessão e a morte acaba por se transformar na Morte, uma entidade implacável que subjuga e aniquila tudo o que é velho, mas que também pode estender os seus poderes sobre os jovens (OSSWALD, 2013). O conceito de morte, assim, se torna familiar e exaustivamente representado em diversas produções culturais, sejam elas filmes, séries, desenhos, animações, histórias, jogos, romances etc., sendo fortemente presente em uma grande parte das narrativas atuais, de cunho verídico ou fictício, histórico ou noticioso. A arte, no geral, como já citado na introdução, tem grande participação na difusão e representação cultural da morte em seu memento mori. A repetição do conceito e até mesmo o empirismo fatual, inerente à vida, gera uma série de símbolos de morte. Desta maneira, revemos o conceito de “símbolo” de Geertz. Segundo o autor (2008, p. 67), “ele é usado para qualquer objeto, ato, acontecimento, qualidade, ou relação que serve como vínculo a uma concepção – a concepção é o ‘significado’ do símbolo”. O símbolo de Geertz (2008) difere um pouco daquele teorizado por Durand (1993), estando mais próximo do que este último nomeou como signo. “A morte é, nestas representações da simbologia persistente durante tantos séculos, o esqueleto, a sinistra figura armada de roçadoura afiada, o aterrador cavaleiro do Apocalipse” (OSSWALD, 2013, p. 12). Nesta perspectiva, não apenas o esqueleto e o cavaleiro do apocalipse, mas também o próprio ato de violência pode ser encarado como um símbolo ou signo de morte, de maneira que o culto à violência pode ser também o culto à morte. A crescente ênfase técnica e pragmática na compreensão do mundo faz com que a morte perca sua dimensão existencial e reflexiva, sendo reduzida a um simples fato ou evento. A respeito disso, Fernando Pessoa diria em se poema de 1932 que a morte é a curva da estrada, onde simplesmente deixamos de ser vistos. A aceitação da morte como fato passageiro, em que, num minuto estamos aqui e no outro não, no entanto, não ajuda nas respostas para a inquietação da humanidade em relação a esse evento. O pesquisador Ariés (1974) realizou um estudo com o objetivo de entender quais eram as atitudes da civilização ocidental perante a morte no período de quase um milênio, partindo do início da Idade Média até meados do século XX, no período que marca o fim da modernidade e o início da pós-modernidade. O estudo concluiu que estas atitudes poderiam ser divididas em quatro categorias: Morte domada (tammed death)2; Morte do indivíduo (one’s own death); Morte dos teus (thy death) e a Morte proibida, referida acima. Estas quatro categorias evoluíram de uma para outra de forma lenta e gradual, ainda que muitas situações invoquem sentimentos que podem ser considerados “de outro tipo de morte”, persistindo através de anacronismos, especialmente na arte, que permitem a sensibilização e percepção da morte de maneiras diferentes. O primeiro tipo de morte teorizada pelo autor foi a “morte domada”. Ela era a morte anunciada, os sinais naturais ou a própria convicção pessoal da aproximação da morte, entendida como implacável e natural. Este posicionamento da época (início da Idade Média) em relação à morte indicava conformismo e inabilidade de lutar contra tal natureza. É nesta época que surgem frases 5 Dilemas, Rev. Estud. Conflito Controle Soc. – Rio de Janeiro – Vol. 18 – no 2 – 2025 – e64482 Ricardo Zocc a repetidas, como “sinto que o fim está próximo”, o que indicava como a morte era preparada e aceita socialmente como o destino de todos os homens (Ariès, 1974). No passado, a morte <<domada>> instalava-se na vida dos familiares (morte em casa, velório nocturno prolongado, flores, coroas, acompanhamento do féretro, não só por familiares, mas igualmente por corporações ou representantes de instituições asilares) e os levava a manifestar a sua dor de forma exuberante (choro, eventual participação de carpideiras), e a inscrever nas lápides mensagens de <<eternas saudades>> (OSSWALD, 2013, p. 16). A noção da morte como uma das grandes leis da espécie humana foi individualizada com o tempo. A este processo Ariès (1974) batizou de “morte do indivíduo”, que consistiu justamente no trabalho de personificação da aceitação da morte, bem como de responsabilização individual pelos atos cometidos antes da partida. Os homens da igreja criavam monumentos para a sua morte que permitiriam a ressurreição, inspirada em Cristo, enquanto os hereges eram esquecidos e negados no Paraíso. A ideia de juízo ou teste final surge para os indivíduos que estão no leito de morte, indicando a possibilidade de entrada no Paraíso ou a condenação ao Inferno baseada nos atos feitos em vida. Neste período, foi intensificada a ideia de que fazer o bem poderia levar ao Paraíso, assim como fazer o mal poderia levar ao Inferno e à condenação eterna, mas o julgamento era feito na hora da morte. Assim, grande parte das pessoas da época dedicavam suas vidas ao preparo para uma boa morte, com a garantia de que teriam acesso ao Paraíso no Julgamento Final. A “morte dos teus” foi o passo seguinte, deslocando o sentido da importância da morte. Antes, o momento de ápice era o juízo ou teste final, mas, com a ascensão do romantismo, ele foi alterado para a morte dos entes queridos, que passou a ser percebida com maior dramaticidade e maior ênfase no período de luto. Este movimento também agregou um novo culto aos cemitérios e tumbas a partir também da romantização, sexualização e até erotização dos símbolos da morte (ARIÉS, 1974). Na modernidade, um fenómeno totalmente inesperado aconteceu: “A morte que de tão onipresente no passado era familiar, seria apagada, desapareceria. Seria vergonhosa e proibida (ARIÉS, 1974, p. 85)”. Trata-se da quarta e última categoria identificada pelo autor, a “morte proibida”, na qual os familiares escondem o estado do doente, mentindo sobre a sua real condição. O médico Walter Osswald (2013) discute este processo, assinalando que a entidade morte passou a se distanciar dos seres humanos. Com o aumento gradual da expectativa de vida e diminuição da mortalidade infantil, ela deixou de ser comum para as pessoas, além de se tornar mais escusa. A morte foi transferida das residências, que eram locais muito mais humanizados, para instituições hospitalares, que não são habitações nem oficinas de reparos: “Sabendo-se finito, o ser humano comporta-se como se esse conhecimento não lhes dissesse respeito” (OSSWALD, 2013, p. 14). Ainda que Ariés traga um relato bastante rico dos efeitos da morte durante longos períodos da sociedade, é importante relativizar alguns aspectos, como aponta Mónica (2015, p. 25): 6 Dilemas, Rev. Estud. Conflito Controle Soc. – Rio de Janeiro – Vol. 18 – no 2 – 2025 – e64482 Ricardo Zocc a A ideia de que, desde a Idade Média até o século XIX, os indivíduos morriam com resignação não corresponde aos relatos de que dispomos sobre como as coisas se passavam. Em 1842, um médico francês publicou o registo das suas observações junto de moribundos. Se havia indivíduos, conta-nos, que esperavam calmamente pelo fim, outros agiam de forma bem diferente (MÓNICA, 2015, p. 25). Segundo a autora, os relatos deste médico-antropólogo francês vão desde um trabalhador rural que, ao descobrir que a família havia chamado um padre para ministrar a extrema-unção, só conseguia imaginar o inferno, pedindo a Deus aos berros para que não o punisse, até outros que, em seu leito de morte, imaginavam comida. No passado, as atitudes diante da morte eram mais variadas do que se crê, o que nos obriga a ter cuidado quando as contrastamos com as de hoje. É verdade que os rituais mudaram, é verdade que se alterou a maneira como falamos da morte, é verdade que muita gente deixou de acreditar no inferno, mas a evolução não pode ser vista a preto e branco (MÓNICA, 2015, p. 26). No entanto, o processo da morte proibida tem respaldo no ideal pós-moderno, no qual existe uma pressão para que a vida seja sempre feliz ou que pelo menos pareça ser, modelo bastante reforçado atualmente com o desenvolvimento das redes sociais. A morte se torna o oposto deste ideal, inclusive sendo dividida em uma série de passos confusos em que já não se sabe onde ela de fato ocorre, se quando a pessoa perde a consciência ou quando deixa de respirar. Este processo é vivido de maneira a evitar ou minimizar qualquer causa de tristeza ou monotonia. Nesta sociedade, estar infeliz é o mesmo que ser derrotado, o que gera uma pressão cada vez maior no individuo atual, o que também tem sido tema de produções culturais desta era (ZOCCA, 2022). Esta pressão pode ser também catalisadora dos efeitos de derrocada da saúde mental e social experimentada na nossa sociedade. Actualmente, é frequente não se noticiar a morte de uma pessoa, mesmo que socialmente preeminente; adopta-se maior sobriedade nas manifestações lutuosas e vulgariza-se a cremação em vez do enterramento. Ora a cremação pode ser entendida como um acto de reintegração da matéria orgânica, que constitui o cadáver, na harmonia cósmica (<<cinzas às cinzas>>); mas é verdade também que uma urna com cinzas se torna um objeto de difícil conservação e valorização simbólica. (OSSWALD, 2013, p. 16) Os estudos de Ariés (1974), contudo, mostram que o entendimento do processo social da morte não foi sempre o mesmo na humanidade. Num primeiro momento, ela era aceita como natural e inerente aos homens, depois foi individualizada e responsabilizava as pessoas por suas ações em vida. Num terceiro momento, o sentido foi deslocado e a morte passou a ser mais sentida pelos vivos, que romantizavam a morte dos parentes e entes queridos, até chegar ao último momento, em que ela é proibida e representa o oposto dos valores sociais da atualidade. À luz da definição de “morte proibida”, e voltando à imagem do juiz Sergio Moro, pode-se dizer que a foto não se trata apenas de um anacronismo no estilo de morte, mas de uma completa 7 Dilemas, Rev. Estud. Conflito Controle Soc. – Rio de Janeiro – Vol. 18 – no 2 – 2025 – e64482 Ricardo Zocc a falta de historicidade dele. Enquanto no romantismo houve uma exacerbação do sofrimento causado pela morte humana, o que o autor Ariès (1974) batizou de “morte dos teus”, neste momento há um desligamento completo, um esquecimento do sofrimento alheio. Existiu, na estrutura do governo de Jair Bolsonaro, um apelo para reviver as “glórias do passado”, sendo constantes as referências ao período da Ditadura Militar. Foi criada uma narrativa mítica e purista que celebra este passado como um período livre de problemas, tais como a criminalidade e a corrupção. Esse apelo ao passado violento confronta-se com o atual padrão de tolerância à violência e à morte na sociedade ocidental contemporânea, fenômeno que denominamos de anacronismo. Considerando que a caça a animais selvagens não configura uma prática comum no Brasil, a munição, na foto, se torna somente um símbolo de morte de humanos, estando quase que exclusivamente associada aos embates entre policiais e os supostos criminosos. A criação de uma escultura toda feita em cartuchos de munição, associada ao ministro que comanda a ação das polícias é a vinculação e aceitação de políticas de morte e violência por parte do Estado. Assim, as figurações de morte propostas por Ariès (1974) tornam-se mais complexas no caso brasileiro. Se vivemos no momento em que a morte é proibida, porque há a celebração da mesma em uma escultura constituída de símbolos de morte e ofertada ao então Ministro da Justiça, responsável máximo pela segurança no país? Violência e novos mitos Ao darmos atenção para os estudos sobre a violência e a sua presença no desenvolvimento do ser humano, faz ainda mais sentido associá-la com a morte ou entendê-la como símbolo de morte. Pois o culto à violência e à caça está intimamente ligado à sociedade. Passamos muito mais tempo da história aceitando a violência do que a recusando. Morris (1981) defende que os seres humanos são autênticas máquinas de caçar, dado que as principais diferenças evolutivas entre os homens e os chimpanzés são orientadas para a predação. É o caso do tórax com maior amplitude, que permite a circulação de uma quantidade maior de oxigênio, da posição bípede, que possibilita enxergar a presa a longas distâncias, além dos membros alongados, capazes de percorrer grandes distâncias e de usar ferramentas. Ele ainda destaca que não somos apenas adaptados à caça, como necessitamos psicologicamente dela. Quando deixou de ser uma fonte vital de alimento devido ao sedentarismo das populações, os seres humanos ainda assim continuaram praticando caça esportiva, fenômeno existente até hoje, mesmo que não seja mais pela necessidade e sim pela simples emoção da caçada. Com a criação das áreas urbanas nos antigos impérios, foram desenvolvidas maneiras de trazer a caça até estas áreas como forma de entretenimento, criando grandes encenações de caçadas para um público sedento por violência. Assim surgiram os coliseus e as lutas entre gladiadores e animais. 8 Dilemas, Rev. Estud. Conflito Controle Soc. – Rio de Janeiro – Vol. 18 – no 2 – 2025 – e64482 Ricardo Zocc a Ainda que as lutas com seres humanos tenham sido extintas com o passar dos anos, as lutas entre animais perduraram, sendo muito comuns na Idade Média. Elas seguiam a mesma estrutura de encenação e espetáculo, como é o caso das touradas. O uso de animais para a saciedade da violência e caça inerentes ao ser humano só foi colocado em causa depois da Revolução Industrial e do advento da modernidade, período em que um novo êxodo rural aconteceu e surgiram as primeiras associações de defesa dos animais nestas novas aglomerações urbanas (MORRIS, 1981). Foi também nesta época que esportes como futebol, basquetebol, handebol e outros surgiram ou ganharam mais força, como uma alternativa saudável aos antigos espetáculos violentos. Ao investigarmos as raízes da Tribo do Futebol passamos por quatro fases principais. Primeiro, tínhamos os Caçadores pela sobrevivência – os nossos primitivos antepassados, para quem caçar e matar constituíam questão de vida ou de morte. Em segundo lugar, os Caçadores Desportivos – homens que continuavam a caçar, mesmo depois de a caça como atividade destinada a obter alimentos ter deixado de ser uma necessidade. Em terceiro lugar, os Desportistas Sangrentos de Arena, que trouxeram a caçada para a cidade. E, por fim, em quarto lugar, os Desportistas da Bola, que transformaram os antigos desportos sangrentos em modernos jogos de bola (MORRIS, 1981, p. 15). O período também marca o enfraquecimento de instituições religiosas, pois o encontro regular, que era um dos efeitos promovidos por elas, também passou a se dar pela prática e acompanhamento dos esportes (MORRIS, 1981). Dessa forma, entende-se que o futebol também representa uma das amálgamas de sentido que substituíram os antigos regimes de adoração (MAFFESOLI, 2002). Esse momento histórico também evidencia os primeiros indícios de que a violência, que antes era uma prática socialmente aceita em outras formas de entretenimento, começava a ser percebida como um problema a ser contido. Isto se reflete no próprio futebol, que substituiu esportes mais violentos por um jogo estruturado em torno de regras e controle. Fato que é também apoiado por Buch (2010) ao destacar o uso de imagens do início do século XX (período que também coincide com o banimento da prática violenta) de jovens chineses sendo torturados, mutilados e assassinados por Bataille em um de seus livros: Como consequência da apropriação, por Bataille, as fotos se tornaram uma espécie de token para a estética da transgressão do escritor francês, discutivelmente uma das mais ambiciosas e proeminentes tentativas no século XX de colocar um vislumbre da dor e do sofrimento no centro da reflexão e experiência estética, uma tentativa que teve um impacto significativo em diversas áreas (BUCH, 2010, p. 28). O trecho destaca que foi apenas no início do século XX que as características como dor e sofrimento passaram a ser efetivamente refletidas na sociedade. A discussão se estende até a atualidade na Comunicação, onde as formas de violência e de sofrimento necessitam de um tratamento diferenciado para serem mediatizadas, tratamento esse que dá a tônica da sua interpretação: A fotografia de imprensa não só passou a apresentar uma produção mais heterogênea quanto ao manejo da temática do sofrimento naquilo que elabora formas diferenciadas de expressão, mas, sobretudo, define uma nova zona 9 Dilemas, Rev. Estud. Conflito Controle Soc. – Rio de Janeiro – Vol. 18 – no 2 – 2025 – e64482 Ricardo Zocc a de disputa e/ou tensões em torno das práticas afetivas e subjetivas que estas mesmas imagens possibilitam. Neste contexto, torna-se necessário investigar os elementos expressivos que caracterizam as situações de sofrimento e, não apenas ver, mas pensar o corpo sofredor em suas disposições e arranjos tanto estético quanto políticos, a fim de contemplar quais competências de apropriação são operantes e solicitadas aqui (BIONDI, 2016, p. 230). A forma de se pensar e reproduzir a representação da violência e da morte se alterou drasticamente com o passar do tempo. Segundo a autora, o sofrimento e os sofredores foram estabelecidos socialmente através de redes semânticas ativadas por meio de diversas narrativas, mitos e códigos, produzindo modos de experiência através dessas imagens (Biondi, 2016). A mídia aplica tais redes semânticas para a representação que melhor comunique a história que pretende, utilizando-se de redes de interpretações previamente enraizadas na sociedade. Rosa (2022) reforça a ideia de uma historicidade de imagens, considerando que, quando colocadas em fluxo contínuo, são carregadas imagens anteriores, que marcam discursos e temporalidades específicas: As imagens que chamam nossa atenção enquanto objeto de pesquisa, e forma de compreensão do mundo, são as imagens midiáticas que configuram um imaginário também midiático a partir de um conjunto de elaborações de sujeitos diversos e díspares. Entendemos que a ponta visível do imaginário midiático são suas materializações (vídeos, fotografias, manchetes); porém, a dimensão invisível se presentifica nas relações que tais imagens desenvolvem com o imaginário social e coletivo, isto é, com imagens profundas do social. Tais imagens profundas são mobilizadas constantemente, como chaves de leitura do mundo, mas também como barreiras para que novos sentidos possam circular (ROSA, 2022, p. 94). As imagens profundas do social sobre as quais a autora se refere encontram respaldo em outra discussão teórica, que implica na comunicação não verbal da apresentação do corpo. A própria historicidade das imagens contribui para a criação desses espectros, entendidos aqui como imagens profundas ou redes semânticas, que transmitem mensagens claras sem a necessidade de um pronunciamento. Os agentes das deliberações do mundo real não são consciência pura, mas seres corporizados cuja corporeidade transporta o palimpsesto de marcas da sua classe, idade, etnia e orientação sexual, entre outras. A auto-apresentação corporal informa como o afeto, a identificação e a representação política são estabelecidos mesmo antes de as palavras serem faladas (CASULLO, 2020, p. 27). A conjuntura de todos esses elementos foi batizada por Eco (2006) como mito. Nela, o mito assume-se como aquilo que não é intencionalmente refletido pelo ser humano, ou seja, é na projeção dos medos, desejos e personalidades de toda uma sociedade que surgem os vãos responsáveis por dar espaço à criação dos mitos. Desta forma, os mitos geralmente são criaturas humanas ou com características humanas, que também tem suas próprias limitações como as sugeridas acima, mas com um algum poder ou qualidade sobre-humana, de maneira que se aproximem e se distanciem das pessoas comuns ao mesmo tempo. Assim como Maffesoli (2002), Eco (2006) defende que 16 Dilemas, Rev. Estud. Conflito Controle Soc. – Rio de Janeiro – Vol. 18 – no 2 – 2025 – e64482 Ricardo Zocc a deixar o governo Bolsonaro, Moro foi contratado pela consultoria Alvarez & Marsal, uma empresa sediada nos Estados Unidos com atuação em casos de reestruturação financeira e falências internacionais. Esse fato gera preocupações éticas significativas, uma vez que a Alvarez & Marsal foi responsável pela recuperação judicial de diversas empresas afetadas pela operação Lava-Jato, da qual Moro foi o juiz principal. A reportagem sugere que essa conexão pode indicar um alinhamento de interesses entre Moro e o setor econômico dos Estados Unidos, levantando questionamentos sobre a imparcialidade de sua atuação e o impacto nas políticas internas brasileiras. O episódio resultou no maior acordo global anticorrupção firmado fora dos Estados Unidos. Conforme reportado pela Agência Pública15, empresas brasileiras foram obrigadas a pagar US$ 2,6 bilhões a autoridades dos Estados Unidos, Suíça e Brasil. O papel dos Estados Unidos nesse processo foi amplamente intervencionista, com envolvimento direto no monitoramento e na condução das investigações em solo brasileiro. Esse apoio contou com a colaboração ativa dos procuradores da Operação Lava-Jato, revelando a influência externa no desenrolar da operação e o potencial acobertamento de interesses estrangeiros no contexto brasileiro. Em 2022 foram candidatos todos os três. Jair Bolsonaro se candidatou à reeleição para a presidência, sendo o primeiro presidente a perder uma reeleição desde a redemocratização do país. Lula também se candidatou e venceu à presidência, numa disputa acirrada, e Sérgio Moro, que iniciou a campanha como candidato à presidência, fez uma troca de partidos e acabou disputando e vencendo a vaga de senador do estado do Paraná (PR). O ex-ministro Sérgio Moro é uma personagem que conseguiu encarnar, como apontado por Eco (2006), a natureza humana com suas falhas, que acabaram por ser intensificadas com os dados revelados pelo jornalista Glenn Greenwald no episódio da Vaza-Jato. Ele conseguiu encarnar também a natureza sobre-humana, sendo a ele atribuído um poder que foi capaz de colocar, mesmo que de maneira eticamente duvidável, um ex-presidente do Brasil na cadeia. A imagem com a escultura em cartuchos meticulosamente elaborada vai além da mera exaltação do armamento; ela constitui um elemento vital em uma engrenagem complexa responsável por alimentar uma máquina de morte, contribuindo para a desvalorização de vidas específicas por meio da aniquilação, como ressalta Rosa (2022). E sua representação visual nos meios de comunicação de massa não apenas glorifica a letalidade, mas também se integra a um sistema mais amplo que perpetua a desumanização dos impuros. Estes aspectos são suficientes para a criação do mito moderno de Eco (2006), provocando e mexendo com as emoções de milhões de brasileiros que se sentiam instáveis e que agora são capazes de apoiar até os seus algozes em ideias perigosas. A arma de fogo como vangloriação da morte, representada não apenas na imagem, mas em toda a sua estética e comunicação, parece deslocada, mas ela é meticulosamente calculada, essencial para a sua campanha. A arma de fogo é o instrumento que mais mata no Brasil – ou será que é a crença em uma solução simplificante? 17 Dilemas, Rev. Estud. Conflito Controle Soc. – Rio de Janeiro – Vol. 18 – no 2 – 2025 – e64482 Ricardo Zocc a Armas de fogo Um dos principais motes da campanha de Jair Bolsonaro em 2018 era: “Bandido é bom é bandido morto”, a partir do qual se propunha um radical apoio à facilitação da aquisição de armas de fogo por cidadãos civis no Brasil, sob a perspectiva de que os cidadãos também deveriam se defender dos bandidos. A insatisfação que levou parte da população à aceitação deste discurso se dá parcialmente pelo fato de o Brasil ser um dos países mais violentos do mundo. Segundo o estudo do instituto Igarapé16, de abril de 2018, o Brasil ocupa o 13º lugar no ranking de países com maior número de homicídios a cada 100 mil habitantes, sendo o líder em números absolutos no mundo. A procura por uma resposta simples para o caso alarmante, impulsionada pelos modelos de trabalho do pós-modernismo (BAUMAN, 1998), pelo tecnicismo crescente (MARTINS, 2017) e pela frustração generalizada (RESNICK; WOLFF, 2006), pode ter empoderado este tipo de discurso na população, criando uma onda de apoio às armas de fogo, ainda que estas sejam a principal causa de morte por homicídios no país. O atlas da violência de 201917 aponta que o número de mortes por arma de fogo no Brasil em 2017 foi recorde e o número de homicídios diminuiu levemente nos anos seguintes, ainda que as mortes violentas tenham aumentado18. Segundo o estudo, apenas no ano de 2017, 65.602 pessoas foram assassinadas por armas de fogo no país. Outro ponto a se ressaltar sobre esse elevado número de mortes no país é que ela ocorre de maneira desigual. Segundo dados do atlas da violência19, 75,5% das vítimas de homicídios foram de indivíduos negros, configurando a taxa de homicídios a cada 100 mil negros de 43,1, ao passo que a de não negros é de 16. A polícia brasileira é uma das mais letais do mundo20 e numa das medidas do pacote anticrime, proposto pelo então ministro Sérgio Moro, estava a chamada “excludente de ilicitude”, que flexibilizaria enormemente a responsabilização dos policiais no caso de assassinatos, razão pela qual ficou conhecida como a “carta branca para matar”. Após alguns casos de escândalos políticos e a desvinculação do então presidente Jair Bolsonaro ao seu partido de eleição, foi realizada uma proposta para a criação de um novo partido encabeçado pelo ex-presidente, com o nome de Aliança pelo Brasil. A sigla do partido seria o número 38 (em referência ao revólver de calibre 38, de comum utilização pela polícia brasileira), indicando forte tendência armamentista. A proposta, no entanto, não conseguiu assinaturas suficientes para se concretizar. Um artesão apoiador de Bolsonaro, Rodrigo Camacho21, presenteou o então presidente com mais de uma escultura feita totalmente em projéteis e cartuchos de bala. É importante ressaltar a postura dos políticos que se utilizam de discursos populistas, como grifado por Casullo (2020, p. 29): “A forma como os populistas se comportam afeta os seus seguidores e detratores com tanta força como aquilo que dizem”, se utilizando da noção de populismo apresentada por Moffitt (2016) citada em Casullo (2020, p. 29): “O populismo é um estilo político, ou seja, uma atuação corporificada que apela ao ‘povo’ contra a ‘elite’, através de uma atuação pública estratégica de anti-elitismo e, muitas vezes, de ‘maus modos’”. 18 Dilemas, Rev. Estud. Conflito Controle Soc. – Rio de Janeiro – Vol. 18 – no 2 – 2025 – e64482 Ricardo Zocc a Existe um entorpecimento da morte e da violência no país, que já não choca porque é recorrente, e que pode também ter sido causado pela atuação do jornalismo ou pelo fotojornalismo. Biondi (2016) destaca uma possível solução, ao se utilizar de outros tipos de redes semânticas na comunicação da morte para que assim se possam retomar o sentido macabro do acontecimento para a população. Mas o jornalismo do país não parece comprometido com a situação, e os problemas, como o da imagem analisada, se tornam corriqueiros e irrefletidos na programação nacional, como a do caso Lázaro22, que ganhou todos os jornais e foi motivo de especulação sensacionalista por todo o país. Outro exemplo emblemático do endosso desse tipo de política excludente e purista são os inúmeros programas de “jornalismo policial”23, que se baseiam no sensacionalismo e no julgamento de pessoas ao vivo, enquanto são perseguidas pela polícia ou em tragédias, muitas vezes mostrando o corpo das vítimas de maneira descuidada24. Esta é a razão para a escultura do rosto ser a mais recorrente do portfólio do artesão. Após Rodrigo Camacho ganhar notoriedade a nível nacional, o novo presenteado foi Sérgio Moro, que ganhou uma escultura carregada com a inscrição “Lava Jato”, em pose heroica, abaixo de seu rosto25, que endossa a severidade do representado e o associa justamente a este aspecto repetitivo das representações sociais no país. A representação visual do rosto de Moro na escultura parece rejeitar os gestos de cuidado, empatia e acolhimento, especialmente daqueles que deveriam esperar uma resposta de reconhecimento e consideração por parte do mais alto representante da Justiça. Essa imagem esculpida a bala não apenas destaca a rigidez e a falta de receptividade, mas também simboliza uma barreira aparente entre o líder judicial e a sensibilidade humana, minando a esperada interação compassiva com aqueles que buscam justiça e compreensão. Voltando à teoria de Casullo (2020), trata-se justamente da superfície significante do corpo populista, a expressão austera parece não apenas resistir ao movimento da empatia, mas também distanciar-se da essência da humanidade que se esperaria da figura máxima do sistema judiciário, colaborando para a criação de um mito supostamente dotado de poderes sobre-humanos. Conclusão Ainda que não seja objetivo do trabalho extrapolar esta análise para toda a sociedade pós-moderna ocidental, é importante ressaltar a sua originalidade em relação ao campo de estudo e o porquê deste caso ser considerado para um recorte representativo. O período que vivemos pode ter sido considerado anômalo por diversas razões. Por essa razão, foi também fonte para estudos de diversos autores, alguns dos quais incluídos neste texto. Contudo, a aproximação desta chamada “nova política” aos símbolos de morte não foi abordada, ainda que represente um significante prisma semiótico para a análise de suas ações e comunicações. Este estudo buscou adicionar mais esta camada de análise, oferecendo 19 Dilemas, Rev. Estud. Conflito Controle Soc. – Rio de Janeiro – Vol. 18 – no 2 – 2025 – e64482 Ricardo Zocc a ao campo da sociologia e comunicação social uma compreensão restrita e aprofundada de fenômenos corriqueiros, mas que quase inconscientemente enviam mensagens e posicionam o mensageiro num grupo bastante específico, no qual ele é percebido e reproduzido como tal. A eleição de Donald Trump em 2016 como presidente dos Estados Unidos foi um grande marco para a história, pois representou o que ficou conhecido como a ascensão da extrema-direita pelo mundo26, em especial entre vários países da Europa27. No Brasil, o Bolsonaro e o bolsonarismo foram o reflexo deste movimento. Existe uma agenda por trás dessa ascensão, que perpassa quase todos esses governos. Existe uma agenda por trás dessa ascensão, que perpassa quase todos esses governos. Essa agenda se manifesta em atos de xenofobia, como a rejeição de imigrantes durante a crise dos refugiados sírios na Europa, e também na escalada de pautas religiosas, que, por sua vez, estimulam a repressão a minorias, como os gays, e a criminalização mais rigorosa do aborto e do uso de drogas. A pandemia também se revelou um grande palco para a politização e negacionismo por parte deste movimento político28. Começa a surgir também um obscurantismo e a negação da ciência, representados em teorias como a terra plana e o movimento antivacinas, que colabora para que doenças consideradas erradicadas voltem a surgir em países como Estados Unidos e Brasil, além da tentativa de flexibilização de medidas sanitárias na pandemia causada pelo coronavírus, levando os Estados Unidos e o Brasil a serem os campeões de óbitos por Covid-19, resultados da má gestão da pandemia e dos bizarros exemplos dos chefes de governo de tais países à época29. No entanto, o que mais marca a ascensão da extrema-direita é um reforço do neoliberalismo, garantindo e reforçando os aspectos do capitalismo tardio e o acúmulo massivo de riquezas. É curioso relacionar as textos de Ariès (1974), Morris (1981), Eco (2006) e Bauman (1998) porque os quatro autores selecionam o início da modernidade como um divisor de águas em suas teorias, seja a mudança do paradigma da morte, da violência, da estabilidade na crença ou uma radicalização da procura pelo puro. Ariès (1974) aponta o afastamento da população aos lugares como o cemitério e destaca a prática da cremação como uma afronta ao poder religioso que se extinguia. Fato endossado por Morris (1981), que indica que a alteração religiosa se deu pela troca dos momentos de socializações dos indivíduos, antes feitos nos encontros religiosos e posteriormente passam a ser nos estádios e na prática esportiva. Ao cair o efeito mítico da imagem religiosa, a crise psíquica se inicia. Como Eco (2006) destaca, esta crise tem fundação na falta de um discurso totalizador e puro, que foi fragmentado neste período, como aponta Bauman (1998). Contudo, vemos todos esses aspectos serem fortemente intensificados na pós-modernidade, representando novamente o ciclo de ascensão e queda de ideais antigos. Um dos fatores que impulsionam essa retomada é a vulnerabilidade social ampliada pelas transformações econômicas, políticas e culturais, que tornam amplas parcelas da população mais suscetíveis a discursos 20 Dilemas, Rev. Estud. Conflito Controle Soc. – Rio de Janeiro – Vol. 18 – no 2 – 2025 – e64482 Ricardo Zocc a que prometem restaurar uma suposta ordem baseada na pureza. A pureza garantia uma espécie de estabilidade que deixou de existir ou perdeu relevância, como também aponta Maffesoli (2002). A análise da foto de Sérgio Moro, posando ao lado de uma escultura feita de cartuchos de munição oferece novas perspectivas sobre o debate em torno da violência e da morte na política contemporânea, especialmente ao conectar essa imagem com as teorias destes autores. A imagem de Moro se torna um símbolo poderoso da radicalização das narrativas de pureza e ordem, características intensificadas na pós-modernidade. Através de um distanciamento crescente da população em relação à morte e ao sofrimento, conforme apontado por Ariès (1974), Morris (1981) e Buch (2010), e a crise psíquica resultante da fragmentação de discursos totalizadores, conforme Eco (2006) e Bauman (1998), a sociedade se mostra vulnerável a figuras públicas que encarnam a promessa de restabelecimento da ordem por meio de ações violentas. A escultura de munição ao lado de Moro não apenas reforça essa estética de força e pureza, mas também evidencia o entorpecimento coletivo frente à violência, exacerbado pela busca por uma pureza moral que parece justificar qualquer meio. Dessa forma, a análise amplia o debate sobre como a política, por meio de representações midiáticas, pode contribuir para a normalização e/ou redução da sensibilidade à violência, em contraste com o processo de identificação da morte discutido por Ariès (1974). O rápido advento de ideias progressistas na década de 2000 fez com que parte da população se sentisse deslocada da sociedade e buscasse refúgio em formas alternativas de interação. As redes sociais reforçaram a criação de grupos extremistas e as pessoas se viram rodeadas de outras pessoas que confirmavam suas opiniões, por mais absurdas que pudessem ser. Este movimento é responsável pela propagação de ideias obscurantistas, anticiência, antivacinas e outros ideais perigosos. Tal apoio mútuo funciona como um catalisador para retomar algum nível de estabilidade e pureza por parte desta população. Esta estabilidade pode ser de caráter emocional, relativa à crença no futuro ou até mesmo de cunho espiritual. O movimento nacionalista e a tentativa de reavivar as forças das religiões também corroboram tal perspectiva, pois contribuem para um sentimento de pertença e de construção de algo aparentemente perene e indestrutível, capaz de resistir às alterações causadas pelo progressismo. Sabendo capitalizar politicamente esta angústia, através de frases feitas e soluções simples para problemas complexos, a extrema-direita teve sua ascensão meteórica em meados da década de 2010 e deu sinais de enfraquecimento, com a derrota de Donald Trump em 2020, candidato à reeleição nos Estados Unidos, as diversas eleições de candidatos contrários a este movimento na América do Sul e a derrota de Bolsonaro nas eleições do Brasil de 2022. Problemas sociais como o excesso de violência não são resolvidos de maneira simples, sendo discutidos há mais de uma centena de anos como aponta Buch (2010) e de compreensão ainda discutível, como destacado por Biondi (2016). A humanidade, no entanto, é cíclica e sempre passa por momentos de ascensão e queda. Essa rápida guinada contra as ideias progressistas das últimas décadas pode já 21 Dilemas, Rev. Estud. Conflito Controle Soc. – Rio de Janeiro – Vol. 18 – no 2 – 2025 – e64482 Ricardo Zocc a Notas 1 A foto foi noticiada em diversos portais: https://reinaldoazevedo.blogosfera.uol.com.br/2019/12/12/moro-esculpido-a-bala-tem-a-cara-antipobre-e-antipretoda-extrema-direita/; https://revistaforum.com.br/politica/moro-tambem-ganha-painel-formado-por-balas-e-posa-com-ele/; https://www.poder360.com.br/governo/moro-e-homenageado-com-obra-feita-com-cartuchos-de-balas; https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2019/12/11/moro-ganha-obra-de-cartuchos-de-bala.htm. Acesso em: 08 jun. 2024. 2 Todas as traduções foram feitas livremente por mim. 3 Competições de jogos eletrônicos, em que os jogadores são considerados atletas profissionais e a plateia assiste presencialmente e/ou através de plataformas de streaming. 4 Para mais informações, conferir: https://www.bbc.com/portuguese/articles/crgl7x0e0lmo. Acesso em: 18 set. 2024. 5 Para maiores informações, acessar: https://super.abril.com.br/historia/a-ambigua-relacao-entre-hitler-e-a-igreja. Acesso em: 18 set. 2024. 6 Dataísmo é uma visão de mundo emergente, popularizada por Yuval Noah Harari, aprofundada por Alex Sandy Pentland, que coloca os dados e os fluxos de informação como a base fundamental para a compreensão da realidade e para a tomada de decisões. Segundo essa perspectiva, a vida, os processos humanos e até mesmo a consciência podem ser vistos como sistemas de processamento de dados. O Dataísmo sugere que a máxima eficiência e a melhor compreensão do mundo advêm da coleta, análise e interpretação de grandes volumes de dados, tornando-se, assim, uma nova forma de "religião" que valoriza o fluxo irrestrito de informação. 7 Para mais informações, conferir: https://www.vice.com/pt/article/por-que-este-audiao-pistola-resume-o-brasil-dameritocracia/. Acesso em: 19 jun. 2024. 8 Para maiores informações, conferir: https://www.rtp.pt/noticias/mundo/brasil-bandido-bom-e-bandido-morto_ a1120003. Acesso em: 06 jun. 2024. 9 Para maiores informações, conferir: http://g1.globo.com/mato-grosso/noticia/2016/04/advogado-mobiliza-vaquinhae-faz-bonecao-de-super-moro-em-mt.html. Acesso em: 05 jun. 2024. 10 Para maiores informações, conferir: https://www.publishnews.com.br/ranking/anual/13/2016/0/0. Acesso em: 05 jun. 2024. 11 Para maiores informações, conferir: https://www.publishnews.com.br/ranking/anual/0/2016/23/0. Acesso em: 05 jun. 2024. 12 Para maiores informações, conferir: https://theintercept.com/2020/01/20/linha-do-tempo-vaza-jato/. Acesso em: 05 jun. 2024. 13 Para maiores informações, conferir: https://www.terra.com.br/noticias/brasil/politica/pgr-recorre-da-decisao-queestende-efeito-da-suspeicao-de-moro-a-outros-processos,c37e539f6c1682acf56279b2320e7d01c295czy2.html. Acesso em: 05 jun. 2024. 14 Para maiores informações, conferir: https://www.lemonde.fr/en/archives/article/2022/03/11/lava-jato-the-braziliantrap_5978421_113.html. Acesso em: 17 set. 2024. 15 Para maiores informações, conferir: https://apublica.org/2020/03/como-a-lava-jato-escondeu-do-governo-federalvisita-do-fbi-e-procuradores-americanos/. Acesso em: 18 set. 2024. 16 Em ranking mundial de homicídios, Brasil ocupa 13º lugar. Disponível em: https://noticias.r7.com/internacional/ em-ranking-mundial-de-homicidios-brasil-ocupa-13-lugar-20072018. 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