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Línguas e tecnologias digitais de informação e comunicação: uma questão de vida ou de morte? O caso da língua portuguesa

Abstract

A globalização comunicativa parece estar diretamente relacionada com o facto de o inglês aparecer como praticamente a única língua global. Sabendo-se que no último século muitas línguas desapareceram e que atualmente muitas são consideradas como estando em perigo de desaparecer, pode perguntar-se se este processo não levará, a médio prazo, a uma unificação linguística. Por outro lado, as realidades designadas como “novas tecnologias de informação e comunicação” têm evoluído de modo absolutamente imprevisto, acarretando, para as línguas, novas formas de presença no universo digital. Assim, este texto procura analisar as implicações que a comunicação digital tem para uma língua policêntrica como o português e como pode e deve a mesma língua portuguesa aproveitar as ferramentas tecnológicas para consolidar o português como uma das línguas globais.

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Línguas e tecnologias digitais de informação e comunicação: uma questão de vida ou de morte? O caso da língua portuguesa

Author: Teixeira, José
Publisher: Tuga Edizioni
Year: 2019
Source: https://repositorium.uminho.pt/bitstreams/065ee55d-d548-4969-a74e-36e3beb32be0/download
145
Es e ex o co esponde à seguin e ci ação:
Teixei a, José (2018) “Línguas e ecnologias digi ais de in o mação e comunicação: uma ques ão
de ida ou de mo e? O caso da língua po uguesa” in Chula a, Ka ia De Ab eu (O g.)
(2018). Po oghese in azione. S a egie di insegnamen o e app endimen o-Po uguês em
Ação. Es a égias de ensino e ap endizagem, Tuga Edizioni.pp. 145-169. (ISBN 978-88-
99321-18-5)
Línguas e ecnologias digi ais de in o mação e comunicação: uma
ques ão de ida ou de mo e?
O caso da língua po uguesa.
José Teixei a
ILCH-Uni e sidade do Minho
“Hoje, uma língua que não se de ende, mo e” (José Sa amago)
1
,
1. As línguas ambém mo em
Segunda dados da UNESCO (ou ub o 2018) pouco mais de me ade das línguas do
mundo
2
(57,13%) é que, pelo menos pa a já, es á o a de pe igo. O enómeno do
desapa ecimen o (da “mo e”) de milha es de línguas nos úl imos dois séculos con inua á
nos empos u u os en e a e e ida (quase) me ade que es á em pe igo de ex inção.
E pa ece ha e uma implicação di e a en e a cada ez maio acilidade
comunica i a global e o desapa ecimen o de mui as línguas, na medida em que a
globalização pa ece e con ibuído pa a acele a es e p ocesso, de al modo que, mesmo
sabendo-se da alibilidade de p e isões a longo p azo, há quem a isque p e e um u u o
de heca ombe na di e sidade linguís ica.
Assim, S e en Roge Fische , em 2002 na ob a Uma His ó ia da Linguagem,
p ognos ica:
Os dois séculos que se segui ão i ão indubi a elmen e assis i a uma subs i uição linguís ica
sem p eceden es; à homogeneização e ao ni elamen o dos poucos dialec os e línguas que
sob e i em; e, inalmen e, em úl ima ins ância, a oda a gen e a ala p o a elmen e o inglês,
como p imei a ou como segunda língua, à medida que a sociedade global se o na uma
ealidade, pelo menos a ní el linguís ico.
3
1
Em 3 de janei o de 2003, num ex o in i ulado “Uma língua que não se de ende, mo e”, ex o
especialmen e esc i o pa a o Cibe dú idas, sí io na in e ne e dedicado à língua po uguesa
(h ps://cibe du idas.isc e-iul.p /)
2
Segundo o E hnologue (16 ou ub o 2018) há 7097 línguas i as conhecidas.
3
S e en Fische , , Uma His ó ia da Linguagem, Temas e Deba es, Lisboa, 2002, p. 197.
146
Ainda de aco do com o mesmo au o , “em e mos de me o núme o de alan es,
apenas ês línguas (e as espe i as linguagens ges uais) i ão possi elmen e sob e i e
daqui a 300 anos: o manda im, o espanhol e o inglês.”
4
O p ocesso do p og essi o monolinguismo passa, segundo Fische , pelo
bilinguismo: sucessi as ge ações bilingues em que a língua ma e na deixa de e a
impo ância social que inha e onde se ai impondo a língua ap endida po azões p á icas
ligadas ao p es ígio social e às opo unidades que p opo ciona:
A Escandiná ia, a Holanda, Singapu a e um pequeno núme o de ou as egiões do globo
ep esen am possi elmen e já a si uação linguís ica que em b e e p edomina á po odo o
mundo: populações adul as bilingues que alam a língua local (me opoli ana) e o inglês.
Depois dis o, al ez lá pa a o inal do século XXIV, só o inglês e á sob e i ido como a única
língua do mundo [...].
5
É e iden e que p e isões a ão longo p azo, dis an es 3 séculos pa a o u u o, e ão
alidade semelhan e às hipo e icamen e ei as há ezen os anos pa a os dias que i emos.
Não p ecisamos de sabe quais as que o am ei as pa a e mos a ce eza que se ia
impossí el e em qualque p obabilidade de ace o.
No en an o, há dados que não podemos igno a . Num mundo que se que cada ez
mais globalizado, que se au odesigna como “aldeia global”, a a iação e mul iplicidade
das línguas unciona ealmen e (quase) como (a única) ba ei a comunica i a, já que
p a icamen e desapa ece am as dis âncias geog á icas e de in e conexão a ní el
ecnológico. Os cus os e di iculdades da comunicação ecaem, ago a, di e amen e na
a iá el da di e sidade linguís ica. A União Eu opeia gas a, po ano, ce ca de mil milhões
de eu os com o seu de mul ilinguismo e apenas pa a o espe i o uncionamen o
ins i ucional, nas a i idades de adução de ex os e na in e p e ação das comunicações
o ais.
6
E o que e e i amen e se aduz é uma go a no oceano babélico das línguas
da ica União Eu opeia, a qual se pode da a es es luxos de pe mi i o uso de
4
Idem, p. 204.
5
Idem, p. 204.
6
An ónio B anco e al.,. A Língua Po uguesa na E a Digi al / The Po uguese Language in he Digi al
Age, Whi e Pape Se ies, Be lin, Sp inge , 2012, ISBN 978-3-642-29592-8 (li o imp esso); ISBN 978-3-
642-29593-5 (ebook), p. 1.
147
uma mul iplicidade de línguas em de e minadas si uações o iciais, mas onde a quase
o alidade da comunicação en e pessoas de línguas di e en es se az, na p á ica, numa
língua comum (quase semp e) u ilizada, o inglês.
Comp eende-se, po isso, que seja g ande a ape ência pa a, numa dimensão
económica, a longo p azo, se en a eduzi oda es a babel a uma única língua. A é
po que, a gumen a-se, a inal, as no as ge ações são, em g ande pa e, bilingues, com
inglês. Todas es as e en es endem, po isso, a passa a ideia de que a globalização
económica ende a aca e a a globalização linguís ica.
2. As chamadas “no as ecnologias” e di e sidade linguís ica: eneno ou
cu a?
O não desmen í el bilinguismo a ual, sob e udo dos mais jo ens, que a
comunicação global po encia, é, po ezes, is o como indício da p o á el
homogeneização u u a. Na e dade, his o icamen e comp o a-se que o bilinguismo, em
poucas ge ações, pode le a ao desapa ecimen o das línguas o iginais, como acon eceu
no p ocesso da omanização, na subs i uição das línguas au óc ones pelo la im na maio
pa e da zona geog á ica do impé io omano.
O apa ecimen o da in e ne e começou po e o ça a ideia de que o inglês i ia
domina a ede de modo absolu o e que odas as ou as línguas es a iam condenadas a
desapa ece . Os p imei os con eúdos da ede e am p a icamen e odos em inglês. No
en an o, quan o mais a oca global de in o mação se o ganizou e quan o mais as edes
sociais se desen ol e am, mais as línguas nacionais se implemen a am pe an e o inglês
e de o ma exponencial. É acilmen e comp eensí el que quan o mais possibilidades
ecnológicas o usuá io i e pa a usa a sua língua e não o o çado que eco e a uma
língua segunda ele i á usa cada ez mais essas e amen as pa a a comunicação a a és
da sua língua p imei a.
O a as po encialidades ecnológicas aumen a am exponencialmen e a pa i
dos anos 80 do século XX, mas sob e udo a pa i do início do século XXI. A
exp essão “No as Tecnologias da In o mação e Comunicação” ( equen emen e
ab e iadas no ac ónimo TIC), ainda hoje ão u ilizada,
148
apa ece p ecisamen e na i agem do século. A ápida e gené ica acei ação da
designação esul a da pe ceção de que a chamada sociedade indus ial se es a a a
ans o ma e iginosamen e numa sociedade in o macional, ans o mação essa
pe mi ida pelas no as ecnologias (“no as” nas duas úl imas décadas do século XX). A
globalização, no undo, não oi mais do que a ans o mação do espaço em cibe espaço.
Nos úl imos in e anos, no en an o, o adje i o “no as”, aplicado às ecnologias, é
pouco anspa en e, po que ele não pode designa o mesmo que designa a no início do
século XX. Pa ece-nos que hoje, no im da segunda década do século XXI, não az
g ande sen ido con inua a chama “no as” a ecnologias com 40 anos, mis u ando no
concei o ealidades como o compu ado de há 30 anos, os elemó eis in eligen es de
hoje e o sis ema global e pe manen e de acesso à ede (in e ne e). E a é po que pa a a
úl ima ge ação, nada dis o é “no o”, po que al ge ação já nasceu den o des e sis ema
global de comunicação e dos espe i os p ocessos.
Se á, po isso, mais ace ado ala de “comunicação e in o mação digi al”,
ocando “comunicação” e não “ ecnologias” (e mui o menos “no as”!). As ecnologias,
hoje, são imensas e a iadas, mas acabam odas no mesmo, na comunicação e
in o mação digi al. A adicional di e ença ecnológica en e, po exemplo, ele one,
ele isão e compu ado , hoje p a icamen e não exis e: as sma s e os sma phones são
(no que espei a ao uso da ede e da comunicação) compu ado es, apenas com ec ãs e
eclados di e en es.
A es a explosão ecnológica aliou-se, simul aneamen e, a explosão das ligações
in e pessoais em edes sociais. “Comunicação” não mais pode se iden i icada
simplesmen e com “in o mação” (como nos média clássicos), mas em de aba ca , e
mui o, os p ocessos de elações in e pessoais e públicas a a és do en io de con eúdos
comunica i os cons an emen e ( e)cons uídos e een iados.
O a es e ipo de comunicação não busca a in o mação neu a,
supos amen e obje i a, “deno a i a” na e minologia es u u alis a, que ê como
p incipal unção das línguas a comunicação e a in o mação sob e a ealidade das
coisas e acon ecimen os. É um equí oco pa i da ideia de que a inalidade da
comunicação linguís ica é a in o mação “deno a i a”. É e dade que oda a
linguís ica adicional apon a como sendo a inalidade das línguas a in o mação, no
sen ido de ansmissão de con eúdos cogni i os com os quais se e a am ou e e em
a ealidade ex alinguís ica. No en an o, como sublinham as ciências
149
cogni i as, a unção das línguas não é, em p imei o luga , a in o mação neu a
7
. As
línguas são, an es de ins umen o de comunicação de unção me amen e in o ma i a,
ins umen o de cons ução comuni á ia, es u u as a gumen a i as e pe ce i as,
emocionais e po isso ul apassam a dimensão pu amen e comunica i a. E es a se á a
ace a que mais esis e à uni icação linguís ica. Se á semp e e dade que só na minha
língua digo aquilo que que o; na língua dos ou os digo aquilo que posso. O bilinguismo
pu amen e simé ico é ilusó io. Po isso, mesmo num indi íduo bilingue que possua L1
e L2
8
, não é indi e en e a língua usada. Quando pode, ele acaba po op a po L1, sua
língua ma e na.
No en an o, dos milha es de línguas que ainda exis em no mundo, é ób io que
nem odas e ão a mesma hipó ese e a mesma qualidade de sob e i ência. Se alguns
milha es desapa ece am no úl imo século, al ez ambém mais alguns ou os milha es
desapa eçam ou iquem se iamen e meno izadas no(s) p óximo(s).
3. O po uguês como língua plu icên ica nos empos a uais de comunicação e
in o mação digi al
3.1. Que “Língua Po uguesa” que emos que não mo a?
O ex o de Sa amago a ás indicado é in e essan e po que, en e ou as azões,
pe segue uma inalidade que apa en a se comum e inques ioná el pa a quem a usa:
de ende a Língua Po uguesa (no malmen e assim, com maiúsculas) e po isso
ajuda a con ibui pa a que ela “não mo a”: po isso é que o in i ula como in i ula
(Uma língua que não se de ende, mo e).
O ex o é ambém sociologicamen e in e essan e po que, com a au o idade
publicamen e econhecida ao único p émio Nobel da li e a u a em po uguês,
ep esen a a o ma de pensa dominan e em mui os meios ligados ao ensino da
língua de pendo mais adicionalis a com eno me in luência nas decisões e
polí icas linguís icas da língua po uguesa. E nes a pe spe i a, que Sa amago
7
Ve , po exemplo, a “Gossip Theo y” de Robe Dunba que ocaliza a o oquice, o que e sabe que
ipo de elações se es abelecem numa comunidade como a unção p io i á ia que e á es ado na o igem do
su gimen o das línguas humanas no ní el de complexidade que a ingi am no homo sapiens.
8
Há bilingues que êm ambas as línguas como L1, ap esen ando, pa a as duas, os mesmos ní eis de
compe ência.

150
co po iza, o pe igo em da coexis ência das línguas num mesmo espaço, pe igo
le ado a limi es inimaginá eis pelas no as ecnologias de comunicação (“meios de
comunicação de massa”, como e e e):
A con i ência pací ica nunca oi a ca ac e ís ica p incipal das coexis ências linguís icas [...]
O a, as línguas hoje, ba em-se. Não há decla ação de gue a, mas a lu a é sem qua el. A
His ó ia, que an es não azia mais que anda , oa ago a, e os ac uais meios de comunicação
de massa excedem, na sua mais simples exp essão, mesmo o pode imagina i o daqueles que,
como o au o des as linhas, azem p ecisamen e da imaginação o seu ins umen o de
abalho.
9
Mas que “língua po uguesa” que Sa amago que se de enda? Pa ece uma ques ão
e ó ica ou simplesmen e deslocada, já que quando se deba e o ema habi ualmen e se
pa e do p incípio que odos sabem a que é que nos e e imos quando alamos de “língua
po uguesa”.
Mas não. O concei o é ab angen e e plu i e e encial. Nem odos alamos do mesmo
quando alamos (com ou sem maiúsculas) de “Língua Po uguesa”
10
.
Sa amago idealiza a língua po uguesa como a língua esc i a, maximamen e
ep esen ada pelos g andes esc i o es do passado:
é do ac ual es ado da língua po uguesa que me p opus ocupa . Ainda que, con esso-o, me
osse de g ande gos o, além do p o ei o que me a ia, sabe que causas se cong ega am pa a
que o po uguês esc i o, e p esumo que ambém o alado, a ingisse um ão al o g au de beleza
no século XVII, po exemplo, e que en e midades o a aca am depois e o ouxe am, com
algumas in e mi ências ulgu an es (Almeida Ga e em p imei o luga ), a es a ou a
c isálida em que se es á p epa ando não sei que insec o, po odos os indícios, p o a elmen e,
um mu an e.
11
9
José Sa amago, “Uma língua que não se de ende, mo e”, h ps://cibe du idas.isc e-
iul.p /ou os/an ologia/uma-lingua-que-nao-se-de ende-mo e/745 2003. (Consul ado em 7/11/2018)
10
Veja-se, a es e p opósi o, José Teixei a (S/D). “Decálogo de clichês mais ou menos enganado es sob e
a língua po uguesa” (em p ocesso de publicação), o cons an e equí oco que esul a da ase mil ezes
ci ada de Be na do Soa es “Minha pá ia é a língua po uguesa”, umas ezes omando “língua
po uguesa” como “a língua das pessoas que alam po uguês”, ou as ezes como “a língua alada em
Po ugal”, quando o que Pessoa/Be na do Soa es explici amen e iden i ica com a “sua” língua po uguesa
é apenas o sis ema de esc i a an e io à e o ma o og á ica de 1911.
11
José Sa amago, “Uma língua que não se de ende, mo e”, h ps://cibe du idas.isc e-
iul.p /ou os/an ologia/uma-lingua-que-nao-se-de ende-mo e/745 2003. (Consul ado em 7/11/2018)
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Embo a Sa amago diga (con e i início da an e io ci ação) que “é do ac ual
es ado da língua po uguesa que me p opus ocupa ”, pa a Sa amago, a língua do
p esen e é um “inse o mu an e” esul an e de e so ido “malei as do passado” e
que es á a se “deg adada” e “co oída”:
Po ém, mui o mais do que sabe que malei as e ão su gido nesse e nou os passados,
impo a ia a e igua as causas, e p opo os emédios, se ainda os há, pa a a acele ada
deg adação que es á co oendo a língua po uguesa.
12
A língua eal, a língua po uguesa que sob e i e e é hoje o que é, se equilib a
em no os usos, embo a di e en es dos usos dos clássicos, é uma língua que não lhe
az nenhum o imismo:
Eu sei, ai de mim, que os op imis as são dou o pa ece : dizem eles que a língua po uguesa
não p ecisou de quem a cuidasse du an e odos es es séculos e nem po isso se inou, que
uma língua é um se i o e, como al, eminen emen e adap á el, que essa capacidade de
adap ação é a p óp ia condição da ida, e que, ou a ez me a o icamen e alando, depois de
bem ba alhados os naipes, semp e es a ão na mesa as mesmas ca as, is o é, ha e á língua
po uguesa bas an e pa a que os po ugueses saibam do que es ou a ala . Oxalá. Mas eu, se
é p eciso dizê-lo, po de o mação o iginal de espí i o ou cep icismo que eio com a idade,
não sou op imis a.
13
Es e au o econhecido ce icismo sob e o p esen e e o u u o da língua esul a da
acei ação de um modelo men al de “língua po uguesa” cons uído à ol a de
(essencialmen e) qua o ideias es u u an es, como
1) a língua po uguesa ideal e mais impo an e é a língua esc i a;
2) essa língua e e o seu apogeu em esc i o es do passado;
3) desde essa época dou ada a é hoje em so ido “en e midades”, “a aques” e
em indo a se “co ompida”;
4) a língua po uguesa é dos po ugueses.
Bas a á e e as pala as ci adas de Sa amago pa a sal a à is a es a ideia
12
Idem.
13
José Sa amago, “Uma língua que não se de ende, mo e”, h ps://cibe du idas.isc e-
iul.p /ou os/an ologia/uma-lingua-que-nao-se-de ende-mo e/745 2003. (Consul ado em 7/11/2018)
152
de língua. E pa a es a “língua po uguesa” o pessimismo de Sa amago jus i ica-se. Es a
“língua po uguesa” não em u u o e só se pode dize que “não ai mo e ” po que... já
não exis e, já es á mo a. Con ina a língua po uguesa ao passado dos g andes esc i o es
ou ao p esen e apenas dos po ugueses é, isso sim, meno iza a língua. E epa e-se, na
úl ima ci ação, como pa a Sa amago a língua po uguesa é essencialmen e assun o
domés ico de Po ugal: “ha e á língua po uguesa bas an e pa a que os po ugueses
saibam do que es ou a ala ”.
O a não pode se es a a ideia ou o modelo men al ep esen a i o do e dadei o e
ealís ico concei o de língua po uguesa na a ualidade.
3.2. Que en ende po “Língua Po uguesa” pa a es e século XXI?
Po mais que seja e iden e que o po uguês hoje não é a mesma língua (linguís ica
e geopoli icamen e) que Camões usou, não é po acaso que an a gen e gos a da me onímia
“a língua de Camões”. Ela eme e pa a uma idealização mí ica
14
de uma si uação
linguís ica hoje adicalmen e di e en e. Os qua o mi os a ás e e idos de e ão se odos
is os como con a iados pela ealidade. Assim, em p imei o luga , a língua po uguesa
(como odas) não assen a na língua esc i a, mas na o alidade, no ac o de se usada
a ualmen e po mais de duzen os milhões de alan es. É a o alidade que começa po da
subsis ência a uma língua enquan o língua. Sem o alidade, não pode exis i qualque
língua. A esc i a é uma dimensão impo an íssima... desde que exis a uso o al. Língua
esc i a sem o alidade é língua mo a.
Em segundo luga , o “apogeu” de uma língua não se pode medi apenas pela sua
li e a u a do passado, mas po udo aquilo que com ela se cons ói comunica i a e
cul u almen e. E sob e udo depende da sua eal imposição global (sim, aqui os núme os
con am) pe an e as ou as línguas como eículo comunica i o e cul u al.
Em e cei o luga , as mudanças que o po uguês acei ou (melho do que “so eu”,
me á o a endenciosa que suge e que oda a mudança é má po que implica “so imen o”)
não são “en e midades”, “a aques” que a “co ompem”. São apenas adap ações a usos
que os alan es conside am ú eis, po mui o que choquem quem ê no passado de uma
língua cas idades e pu ezas in iolá eis.
14
José Teixei a (S/D). “Decálogo de clichês mais ou menos enganado es sob e a língua po uguesa” (em
p ocesso de publicação)
153
E po úl imo (pa a abo da mos apenas os 4 aspe os a ás e e idos), a língua
po uguesa não é apenas dos po ugueses, mas de odos os que a usam e que a escolhe am
como língua de comunicação. E é es a dimensão, sob e udo, a que lhe ga an e o u u o
nes e século XXI. Se uma língua policên ica, escolhida po á ios cen os polí icos,
espalhada po dispe sas e a iadas egiões do globo.
E não é acei á el o a gumen o de que se o c i é io o o núme o de alan es en ão a
única a ian e do po uguês que in e essa é p a icamen e só a do B asil. As p e isões são
bem di e en es pa a o inal do século XXI. Man endo-se as a uais endências
demog á icas, se á em Á ica que ha e á a maio comunidade de alan es de po uguês
em 2100 (Tabela 1).
País
Habi an es
% alan . p
Angola
97,34
22,96%
B asil
194,53
45,90%
Cabo Ve de
0,55
0,13%
Guiné Bissau
5,63
1,32%
Guiné Equa o ial
2,42
0,57%
Moçambique
111,02
26,43%
Po ugal
7,46
1,75%
São Tomé e P íncipe
0,57
0,13%
Timo -Les e
3,26
0,77%
To al
423,77
99,96
Tabela 1: População, em milhões, dos países de língua po uguesa em 2100
(Wo ld Popula ion P ospec s)
Se se con i ma em as p e isões, Po ugal e á, no inal do século, menos de 2% do
o al dos alan es da língua po uguesa! Ou seja, o po uguês se á cada ez mais uma
língua global, policên ica e cada ez menos a língua apenas dos po ugueses.
160
-“T ump uí ou com o seu exage o habi ual”
26
: o dicioná io conjuga ia o e bo
ui a ou pode ia explica que * uí ou não pode se assim acen uada po que é uma pala a
aguda e não g a e;
-o absolu amen e injus i icá el icebe gue, que quase 100% dos jo nalis as usa e que
os dicioná ios em papel aconselham: e á que se usada ou a pala a es angei a icebe g,
ou apo uguesada só pode se aicebe gue, nunca a p imei a me ade em inglês (ice) e a
segunda me ade em po uguês (be gue);
-a u gen e ixação g á ica em po uguês de pala as que ie am pa a ica , como
in e ne , link, email, download, blog, pos e que, pa a já, pouca co agem há pa a g a a
in e ne e, linke/linque, daunloude, blogue, pos e, e c...
Um dicioná io como es e (como se disse, com a chancela da au o idade das
academias dos países de língua po uguesa) pode ia acudi à necessidade de mecanismos
de o ien ação pa a a adap ação de neologismos, ins umen o ão ú il
27
pa a a de esa da
língua num espaço e num empo de agmen ação que em nada a ajuda pe an e as ou as
com ins umen os e mecanismos de união mais consolidados e acei es.
26
Fe ei a Fe nandes, um dos jo nalis as mais conhecidos, no Diá io de No ícias 8/11/2018)
h ps://www.dn.p /opiniao/opiniao-dn/ e ei a- e nandes/in e io /ame ica-2018-anuncia-um-mau-2020-
10142223.h ml.
27
A necessidade de os alan es sabe em se há uma o ma no ma i a é g ande e apa ece equen emen e
em deba e público. Sob e como g a a “ ui a ”, comp o e-se como o deba e público já em ce ca de dez
anos: “No semp e ú il si e Cibe dú idas da Língua Po uguesa, de endeu-se, em 2009, que não é
necessá io apo uguesa Twi e enquan o nome p óp io (admi indo-se pa a a o ma e bal o neologismo
“ wi a ”), mas suge indo, pa a um apo uguesamen o ei o a pa i do e bo inglês, as o mas “ uí e ”
(pa a o nome) e “ ui a ” (pa a o e bo). No B asil, onde a g a ia “ wi a ” se em indo a o na comum, o
p o esso Cláudio Mo eno ejei ou, na coluna que man ém sob e ques ões do idioma, a manu enção da
le a “w” (ou “k”, ou “y”) na nacionalização linguís ica das pala as, a gumen ando que al só de e se
ei o quando os e mos êm o igem em nomes p óp ios de pe sonalidades es angei as de ele o uni e sal
(“shakespea iano”, “keynesiano”, “wagne iano”, e c.). Recomenda a opção po “ ui a ” — pela mesma
lógica, dis in a da que p edomina em Po ugal, que le a a p e e i “sai e” a “si e” (José Quei ós,
20/11/2011, Jo nal Público/blogues online:
h p://blogues.publico.p /p o edo dolei o /2011/11/20/eu- ui o- u- wi as-ele-esc e e-no- wi e /)
consul ado em 8/11/2018)

161
3.3.2. O u u o de línguas como o po uguês e as ecnologias digi ais
Pa a Fische
28
, o u u o das línguas passa e mui o pela espe i a ligação às
ecnologias. Es e é o dado que, segundo ele, a á com que o inglês seja a língua dominan e
nos dois p óximos séculos:
Oi en a po cen o da in o mação na In e ne é ansmi ida ac ualmen e em
língua inglesa. A julga pelo índice de c escimen o da u ilização da
In e ne , es e ac o só po si pode á assegu a a posição do inglês como
língua mais popula do mundo ao longo de quase odo o século XXI,
senão a é mais a de. A população mundial es á assim a se “ob igada” a
adop a o inglês e p ospe a , ou a igno á-lo e declina . No início do século
XXI, a ap endizagem do inglês o nou-se uma ques ão económica básica:
os emp egos mais bem pagos do mundo exigem o domínio do inglês. Es a
é a endência que i á possi elmen e de e mina o pe il linguís ico do
plane a nos p óximos dois séculos, pelo menos.
O p essupos o de Fische e a o de que o inglês se ia, na p á ica, a única língua
com condições de sob e i e (“A população mundial es á assim a se “ob igada” a
adop a o inglês e p ospe a , ou a igno á-lo e declina ”, eco de-se da úl ima ci ação).
Só que Fische não conseguiu adi inha (alguém conseguiu?) a inc í el e olução
ecnológica das duas p imei as décadas do século XX e po isso pa e de uma p emissa
alsa: de que o inglês se ia a língua da in e ne e de uma o ma quase exclusi a. Quando
Fische dizia que (em 2002) 80% da in o mação da in e ne e e a em inglês, ele supunha
que is o ge a ia um cí culo icioso: como quase udo e a (na al u a) em inglês, quase
udo se ia apenas acessí el a quem usasse inglês, o que le a ia a cada ez mais o inglês
dos con eúdos implica inglês po pa e dos u ilizado es. No en an o, apenas uma
década e meia depois des a suposição, a ealidade é bem di e en e: em 2017, apenas
32% dos con eúdos e am em inglês ( e Tabela 2).
28
S e en Fische , , Uma His ó ia da Linguagem, Temas e Deba es, Lisboa, 2002, pp. 203-204.
162
LANGUAGE
INTERNAUTS
CONTENTS
English
22.2%
32.0%
Chinese
20.5%
18.0%
Spanish
9.1%
8.0%
F ench
5.6%
6.5%
Ge man
3.1%
3.8%
Russian
5.0%
3.5%
Po uguese
4.0%
3.5%
Japanese
3.4%
3.5%
A abic
4.2%
3.0%
Hindi
3.9%
3.0%
Malay
2.6%
2.5%
Polish
1.7%
1.8%
Ko ean
1.4%
1.4%
Bengali
1.5%
1.3%
I alian
0.9%
1.1%
U du
0.8%
0.7%
Tabela 2: Uso das 16 línguas mais equen es na in e ne e em 2017
( on e h p:// un edes.o g/lc2017/)
Is o desmen e as p e isões de Fische : o inglês, em ez de aumen a a sua p esença
ela i a na in e ne e, ê-a diminui a cada ano que passa.
Já desde há uma década, o po uguês em sido uma das línguas mais usadas na ede:
Um apanhado ge al dos dados es a ís icos sob e a língua po uguesa
e ela que es a é uma das línguas mais u ilizadas na in e ne . De aco do
com es ima i as ecen es, o po uguês é a quin a língua mais usada na
in e ne , sendo ul apassada apenas pelo inglês, chinês, espanhol e
japonês
29
. Es a pesquisa mos a que ce ca de 82,5 milhões de u ilizado es
usam o po uguês pa a na ega na in e ne , e que numa década, en e
2000 e 2010, o núme o de u ilizado es que usam o po uguês egis ou
uma su p eenden e expansão de 990%. O po uguês es á pa icula men e
bem posicionado quando se a a da p esença nas edes sociais.
29
In e ne wo ld use s by language - Top 10 languages. In e ne Wo ld S a s. In e ne , 25/01/2012 -
h p://www.in e ne wo lds a s.com/s a s7.h m
163
Um es udo semân ico e quan i a i o de 2,8 milhões de wee s, ealizado pela
Semiocas , e ela que o po uguês é a e cei a língua mais usada no Twi e ,
depois do inglês e do japonês
30
. A língua po uguesa é a quin a mais u ilizada na
in e ne , onde egis ou um su p eenden e c escimen o de 990% na úl ima década.
Is o esul a do eno me aumen o do acesso à in e ne no B asil, pa icula men e
en e os jo ens.
31
E mais c esce á, adi inha-se, num u u o mui o p óximo. As acilidades
ecnológicas do elemó el a ual (sma phone), uncionando como compu ado ,
es ão a pe mi i sal a a e apa ecnológica do uso dos compu ado es pessoais. Se há
10 anos só uma pequeníssima pa e dos a icanos usa a in e ne e, hoje, a a és do
elemó el, a conexão nos países com menos ecu sos ecnológicos aumen a
exponencialmen e. O a o po uguês em o seu maio campo de ec u amen o de uso
da ede na Amé ica do Sul e em Á ica.
Embo a Fische enha ap esen ado uma p e isão sob e o domínio do inglês
na ne nos p óximos duzen os anos, não o am p ecisos mais de quinze pa a
e i ica como se enganou. As po encialidades comunica i as das no as
pla a o mas ixas e mó eis, o uncionamen o das edes, o aumen o global do uso, a
adução au omá ica, êm pe mi ido a comunicação nas á ias línguas ma e nas.
Não o am as pessoas que se adap a am à in e ne e: es a é que se adap ou às pessoas.
A IA (In eligência A i icial) p ome e aze o es o, adap ando as máquinas aos
humanos num p ocesso que busca num u u o não mui o longínquo uma in e ace
comunica i a o mais pa ecida possí el com o uso das línguas humanas.
Pa a al, as polí icas linguís icas de uma língua como o po uguês êm de
pe cebe que o seu p es ígio, pleno uncionamen o e sob e i ência como língua
com u u o passa po se uma língua de ecnologias digi ais. Pa a isso, é p eciso
ambém não esquece a e idência de que as e e idas ecnologias digi ais
implicam in es imen o e abalho no campo ecnológico (es e é comum a odas),
mas ambém in es imen o e abalho no campo linguís ico, especí ico da língua.
Es a a e a não é possí el sem a pa icipação de especialis as da linguagem e da
30
Mos Used Languages on Twi e . Semiocas . In e ne , 17/02/2012 - www.semiocas .com/downloads/
Semiocas _Hal _o _messages_on_Twi e _a e_no _in_English_20100224.pd .
31
An ónio B anco e al.,. A Língua Po uguesa na E a Digi al / The Po uguese Language in he Digi al
Age, Whi e Pape Se ies, Be lin, Sp inge , 2012, ISBN 978-3-642-29592-8 (li o imp esso); ISBN 978-3-
642-29593-5 (ebook), p. 14.
164
língua po uguesa, como e minólogos, lexicólogos, adu o es, e c.
Numa ob a bilingue in i ulada A Língua Po uguesa na E a Digi al/ The
Po uguese Language in he Digi al Age, An ónio B anco, jun amen e com uma sé ie de
ou os colabo ado es, p ocu am
disponibiliza uma análise do es ado de desen ol imen o da ecnologia da
linguagem pa a a língua po uguesa, assim como das pe spec i as que se
o e ecem, e das ações necessá ias, pa a a consolidação do po uguês como
língua de comunicação in e nacional com p ojeção global, no quad o des a
ecnologia eme gen e.
32
O a o pano ama que nes e li o se ap esen a sob e as e amen as ecnológicas é
e elado do quan o há a aze . Usando a escala de bom; médio; agmen á io; pouco/
nenhum ela i a ao apoio que 30 línguas eu opeias ecebem pa a a ecnologia da
linguagem, ap esen a a língua po uguesa como uma das mais mal apoiadas e mal
p epa adas pa a as necessidades das in e ações ecnológicas, sendo apenas o inglês a
e e ida como endo bons apoios. Pa a o po uguês, emos e e ido: T adução
Au omá ica, pouco/nenhum apoio; Análise do Tex o, apoio agmen á io;
P ocessamen o da Fala, apoio médio; Recu sos linguís icos esc i os e o ais, apoio
agmen á io.
Is o não pode implica um baixa de b aços com o a gumen o de que não
há nada a aze , a é po que á ias coisas êm sido ei as. Encon am-se, po
ezes, sob e udo em Po ugal e no B asil, o ganismos e abalhos que pode iam
con ibui pa a, pouco a pouco, se cons i ui um eal p oje o de inse i a língua
po uguesa en e as línguas ecnologicamen e mais adap adas à e a digi al:
EUROTRA, ILTEC, LE-PAROLE, TagSha e, co pus CINTIL, Co pus de
Re e ência do Po uguês Con empo âneo (CRPC), Seman icSha e, Co pus de
Ex a os de Tex os Ele ónicos MCT/Público (CETEMPúblico), TRADAUT,
TECNOVOZ, p oje o CLARIN, p oje o DIRECT, p oje o PLN-BR, p oje o
FAROL, es as ins i uições e p oje os ligados a uni e sidades e o ganismos
es a ais e ins i uições públicas e p i adas pa ecem unciona indi idualmen e.
Não se ia al u a de ha e uma coo denação a ní el da CPLP que ap o ei asse
32
An ónio B anco e al.,. A Língua Po uguesa na E a Digi al / The Po uguese Language in he Digi al
Age, Whi e Pape Se ies, Be lin, Sp inge , 2012, ISBN 978-3-642-29592-8 (li o imp esso); ISBN 978-3-
642-29593-5 (ebook), p. III.
165
as sine gias de odos os p oje os nas á eas de in es igação e desen ol imen o no campo
das ecnologias de in o mação e comunicação digi al aplicadas ao po uguês? A
necessidade de omen a in es igação em língua po uguesa e de a coo dena pa ece se
u gen e, como se con essa em A Língua Po uguesa na E a Digi al:
Os esul ados des e li o apon am no sen ido de que a única ia de p og esso
consis e em se ealiza um es o ço subs ancial pa a se c ia em ecu sos
linguís icos pa a o po uguês que pe mi am, po sua ez, impulsiona e
omen a a in es igação, a ino ação e o desen ol imen o de e amen as e
aplicações da ecnologia da linguagem. A necessidade de g andes olumes de
dados e a ex ema complexidade dos sis emas da ecnologia da linguagem
o nam ambém c uciais o desen ol imen o de uma in aes u u a e de uma
o ganização de in es igação mais coe en e, que omen em uma maio
coope ação e pa ilha de esul ados.
33
Pa a complemen a o diagnós ico ei o po es a ob a, pa ece-nos aqui pe inen e
ap esen a os pon os de is a de quem é a ualmen e esponsá el e di igen e em emp esas
ecnológicas de pon a que êm po obje o a in e ace en e dados, p ocessamen o da
linguagem e In eligência A i icial. Sob e as p incipais e en es que es e ex o abo da,
colocámos a Daniela B aga, linguis a de o mação, CEO e undado a da De ined
C owd
34
cinco ques ões sob e a elação en e ecnologias de in o mação e o u u o das
línguas. E as espos as o am mui o elucida i as:
Ques ão 1: As TIC (Tecnologias de In o mação e Comunicação) con ibuem pa a
o desapa ecimen o ou manu enção do uso de uma língua em empos de globalização da
comunicação?
“Acho que as TIC con ibuem pa a a manu enção do uso de uma língua na
globalização da comunicação. Há uns anos, iz pa e de um p oje o em que
33
An ónio B anco e al.,. A Língua Po uguesa na E a Digi al / The Po uguese Language in he Digi al
Age, Whi e Pape Se ies, Be lin, Sp inge , 2012, ISBN 978-3-642-29592-8 (li o imp esso); ISBN 978-3-
642-29593-5 (ebook), p. 35.
34
Emp esa de p ocessamen o de dados c iada pela linguis a (de o mação) Daniela B aga nos Es ados
Unidos, com delegações em Sea le, Lisboa, Po o e Tóquio. Sí io in e ne e,
h ps://www.de inedc owd.com/

166
c iámos um TTS pa a Mi andês, em pa ce ia com a CELGA-ILTEC, o
Ins i u o Uni e si a io di S udi Supe io i, o Mic oso De elopmen Cen e e
o ISCTE. Es a é uma manei a de man e mos uma língua i a pa a semp e,
que, de ou a manei a, se i ia ex ingui ine i a elmen e.”
Ques ão 2: A cada ez melho adução au omá ica con ibui á pa a a
conse ação ou desapa ecimen o das línguas e espe i o uso pe an e o inglês?
“C eio que a adução au omá ica, que es á em cons an e melho ia e
expansão, con ibui pa a assegu a a exis ência pa alela de á ias línguas,
uma ez que exis e in es imen o em cada ez mais línguas. A ualmen e, já
assis imos a cada ez mais emp esas a c ia em os seus p óp ios sis emas, em
ez de u iliza em os gené icos já exis en es, o que pe mi e supo a o
c escimen o e melho ia dos sis emas nas mais a iadas línguas.”
Ques ão 3: A é que pon o as línguas que não i e em p ocessamen o/uso da
o alidade em TIC (co po a o ais mui o mais dispendiosos que os de esc i a) pode ão
no u u o compe i com as ou as e p ese a a p óp ia exis ência como línguas plenas
num mundo de comunicação cada ez mais global?
“O p ocessamen o o al das TIC é mui o impo an e. Ainda exis e um g ande
domínio da esc i a, mas num mundo cada ez mais ápido, esc e e-se em meno
quan idade e ala-se mui o. Es amos pe an e aquilo que a Amazon denomina de
oice economy – sabemos que o u u o é oice enabled, amos in e agi com os
nossos ele odomés icos, ca os, e ou os de ices da mesma manei a que alamos
com as pessoas. Pos o is o, é e iden e que as línguas que não in es em no
p ocessamen o o al na pa e das ecnologias de oz (que é bas an e dispendioso,
sem dú ida), i ão ica em des an agem. Num mundo u u o em que odas as
in e ações se ão po oz, é impo an e que, não exis indo um in es imen o de um
gigan e ecnológico em de e minado me cado, que o p óp io go e no ome con a
des e desen ol imen o, mesmo que em coope ação com as emp esas nacionais.”
Ques ão 4: Em línguas plu icên icas como o po uguês, as TIC não a o ecem a
miscigenação linguís ica? Se á es a uma das endências do u u o ou an es o
no ma ismo de No ma do PB, no ma do PE, no mas de Moçambique e Angola ende ão
a c is aliza -se e a as a -se cada ez mais en e si?
167
“Com a globalização e o acesso à in o mação, acho que as no mas se i ão
ap oxima . Is o já se e i ica com o inglês, sob e udo no domínio da esc i a,
o que acaba po se uma ques ão de e iciência. Po ou o lado, no caso dos
diale os, não c eio que se i ão ap oxima . Num mundo ápido, há uma
endência pa a homogeneização e não pa a a sepa ação.”
Ques ão 5: A é que pon o uma língua, embo a com uma g ande li e a u a e com
um g ande passado, pode á sob e i e sem se uma língua da comunicação nas edes
sociais globais, Facebook, Twi e (a ualmen e exemplos de algumas, no u u o al ez
ou as).
“A li e a u a, cuja ele ância é inegá el no con ex o cul u al, é semp e um
pa imónio das eli es e cul u al, mas nunca se á a linguagem u ilizada nas
edes sociais. No a ual pano ama de globalização ecnológica e linguís ica,
uma língua que não seja de comunicação não pode á esis i -- não há o ma
de sob e i e no mundo a ual sem se o na uma língua das edes sociais. O
ac o de exis i uma língua de comunicação nas edes sociais que é mais
simples az com que es a se o ne mais apela i a aos não- alan es pa a a
que e em ap ende , o que ajuda a pe pe ua a mesma ao longo do empo.”
4. Conclusão: o melho caminho pa a a sob e i ência espe ada
Con i mando o quad o men al em que a concebe, pa a Sa amago (como pa a uma
g ande a ia dos po ugueses—bas a e mui a da a gumen ação an iaco do o og á ico),
o u u o da língua po uguesa depende sob e udo de Po ugal:
a en e p incipal da lu a pela sob e i ência da língua po uguesa es á no
p óp io país de o igem: se nele se pe de , há mui as p obabilidades de que
enha a pe de -se nos ou os luga es do mundo que a alam. Não esqueçamos
que as línguas se ce cam umas às ou as, não esqueçamos que a língua inglesa
as ce ca a odas e a odos nos ce ca.
35
35
José Sa amago, “Uma língua que não se de ende, mo e”, h ps://cibe du idas.isc e-
iul.p /ou os/an ologia/uma-lingua-que-nao-se-de ende-mo e/745 2003. (Consul ado em 7/11/2018)
168
Com odo o espei o que um p émio Nobel de Li e a u a me eça, em que se acei a
a e idência de que, elizmen e, a língua po uguesa é mui o mais do que a língua de
Po ugal. Como já oi ap esen ado na Tabela 1, calcula-se que no im des e século o peso
dos po ugueses, en e os alan es da língua po uguesa, se á menos de 2%! Se osse
apenas pelos núme os, o po uguês só esidualmen e é que podia se conside ado a língua
dos po ugueses. Po an o, é capaz de se um pouco megalómano pensa que, como diz
Sa amago, a “sob e i ência da língua po uguesa es á no p óp io país de o igem”.
Também es á; mas não apenas, nem sob e udo.
O po uguês não se pode e ou compo a como uma e dadei a língua
in e nacional como o inglês (ou mesmo o espanhol), já que di icilmen e unciona como
língua comum en e pessoas que não a possuem como língua ma e na. Mas pode e -se
como língua polinacional ou mul inacional
36
, como língua global
37
, cujo alo
geopolí ico não lhe em apenas do núme o de alan es, mas sob e udo de se uma língua
usada em a iados e es a égicos locais do globo. Po isso mesmo, não az qualque
sen ido pensa no u u o e sob e i ência do po uguês num quad o men al, como az
Sa amago, que inclua apenas a ala dos po ugueses. Quem assegu a á o u u o e a
sob e i ência da uma língua com um passado cul u al mui o me i ó io não é esse
passado, mas as po encialidades geog á icas e populacionais (geopolí icas) que p ome e
no u u o. É igualmen e o ac o de essas po encialidades indicia em se uma língua de
pode económico. Mas em ambém que se uma língua de ciência
38
de molde a alia a
dimensão u ili á ia à dimensão de p es ígio que qualque uma das g andes línguas de e
e .
Pa a odas es as dimensões, o po uguês em de acompanha os desa ios que a
sociedade de comunicação e in o mação digi al implica. É nes e plano que se joga mui o
do u u o de odas as g andes línguas que quei am e um papel com signi icado na e a da
comunicação e in o mação digi al e da In eligência A i icial.
Po isso, o po uguês em de se uma das línguas de Big Da a, possibili ando
abalha com cada ez maio es quan idades de in o mação analisá el
36
José Teixei a, (S/D). “Decálogo de clichês mais ou menos enganado es sob e a língua po uguesa” (em
p ocesso de publicação)
37
José Teixei a, (O g.) O po uguês como língua num mundo global - P oblemas e po encialidades.
Cen o de Es udos Lusíadas da Uni e sidade do Minho, B aga, 2016, (ISBN: 978-989-755-209-0);
José Teixei a, “De odas as línguas se pode e o ma : O Po uguês e as línguas globais”, in Ba oso,
Hen ique (2018). O Po uguês na Casa do Mundo, Hoje. Edi o a Húmus, 2018, pp. 133-153.
38
José Teixei a, “Po uguês, língua de ciência?” in José Teixei a, 2016, O po uguês como língua num
mundo global - P oblemas e po encialidades. Cen o de Es udos Lusíadas da Uni e sidade do Minho,
B aga, 2016b, pp. 175-190. (ISBN: 978-989-755-209-0) h p://hdl.handle.ne /1822/43639
169
compu acionalmen e. Hoje não é possí el pensa no p esen e de uma língua sem acau ela
o espe i o u u o, sob e udo de uma língua como o po uguês, dispe sa pelo globo e que
es á sujei a a a iadas ensões de di e gência, só e i á eis pela sua solidi icação (não
necessa iamen e uni o mização), p ocesso pa a o qual as e amen as in o má icas se
a igu am imp escindí eis.
Já chega, em ez de uma polí ica de língua ealis a, de loas de mui o amo à
língua po uguesa que ão e semp e ao seu passado glo ioso e a Pessoa ou Camões.
Como odos os se es i os em mo imen o, uma língua que olhe demasiado pa a o
passado deixa de e os eais obs áculos que se lhe ap esen am pela en e. E um dos
obs áculos pa a a sob e i ência da língua po uguesa, enquan o língua global, pode se ,
pa a mui os po ugueses, o ainda não e em pe cebido que o po uguês se á cada ez
menos apenas a língua dos po ugueses e cada ez mais a língua de mui os ou os
po os; se á não apenas a língua de um passado li e á io, mas de um u u o em que a
comunicação não dispensa a in o mação digi al. E, ao con á io do que Sa amago
pensa a, são es as dimensões as que mais ajuda ão na de esa pe an e as ou as que a
ce cam, po que, como econhecia o Nobel da li e a u a “hoje, uma língua que não se
de ende, mo e”. Po isso, a melho o ma de de ende o po uguês de hoje al ez seja
en a pe cebe o que em de se o po uguês de amanhã.