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História indígena no Brasil independente: da ameaça do desaparecimento ao protagosnismo e cidadania diferenciada

Baniwa, Gersem

Abstract

O indígena brasileiro sempre foi uma parte constitutiva do processo de formação territorial, social e política do Brasil e sua conformação sociocultural, econômica e geopolítica não pode ser compreendida sem considerar as populações aqui estabelecidas desde milhares de anos, com suas formas de organização sociocultural e domínio territorial. Os povos indígenas contribuíram com as riquezas de suas terras, com seus conhecimentos milenares e com seu suor e sangue para a construção da nação brasileira. Este exercício narrativo da história indígena no Brasil também é um exercício de autonomia do pensar indígena, enquanto sujeito de sua história e de seu destino, desmentindo a visão tradicional de sua passividade frente ao processo de conquista e construção do Brasil.

Full text

A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 25, nº 51. Te ce cua imes e de 2022. Pp. 263-290. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2022.i51.12 His ó ia indígena no B asil independen e: da ameaça do desapa ecimen o ao p o agosnismo e cidadania di e enciada Indigenous His o y in Independen B azil: F on The Th ea O Disappea ance To P o agonism And Di e en ia ed Ci izenship Ge sem Baniwa1 Uni e sidade de B asília (B asil) ORCID: h ps://o cid.o g/0000-0002-5222-9339 Recibido: 30-04-2022 Acep ado: 26-05-2022 Resumo O indígena b asilei o semp e oi uma pa e cons i u i a do p ocesso de o mação e i o ial, social e polí ica do B asil e sua con o mação sociocul u al, econômica e geopolí ica não pode se comp eendida sem conside a as populações aqui es abelecidas desde milha es de anos, com suas o mas de o ganização sociocul u al e domínio e i o ial. Os po os indígenas con ibuí am com as iquezas de suas e as, com seus conhecimen os milena es e com seu suo e sangue pa a a cons ução da nação b asilei a. 1 ([email p o ec ed]). Dou o em An opologia Social e p o esso associado da Uni e sidade de B asília (UnB). É au o das ob as: O índio b asilei o: o que ocê p ecisa sabe sob e os po os indígenas no B asil de hoje (B asília: Minis é io da Educação; Sec e a ia de Educação Con inuada, Al abe ização e Di e sidade; LACED/Museu Nacional, 2006); Educação pa a manejo do mundo: en e a escola ideal e a escola eal no Al o Rio Neg o (Rio de Janei o: Con a-Capa; Laced, 2013); Educação Escola Indígena no século XXI: encan os e desencan os (Rio de Janei o: Mó ula; Laced, 2019); De Ge sem Baniwa pa a as pessoas que sonham um ou o B asil in Ca as pa a o Bem Vi e (Sal ado : Bo o-co -de- osa li os a e e ca é / Pa alelo 3S, 2020); Sabe es indígenas e esis ência linguís ica in Suleando concei os em linguagens: decolonialidades e epis emologias ou as (Campinas-SP: Pon es Edi o es, 2022); (Re)conexão com a ances alidade como o ma de esis ência e supe ação da c ise ci iliza ó ia da pós-mode nidade des ai ada in Campo minado: c ise, abalho e saúde no B asil em empos de pandemia da co id-19 (Sis ema ização das no mas elei o ais: eixo emá ico VII: pa icipação polí ica dos g upos mino izados. – B asília: T ibunal Supe io Elei o al, 2022). 264 Ge sem Baniwa A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 25, nº 51. Te ce cua imes e de 2022. Pp. 263-290. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2022.i51.12 Es e exe cício na a i o da his ó ia indígena no B asil ambém é um exe cício de au onomia do pensa indígena, enquan o sujei o de sua his ó ia e de seu des ino, desmen indo a isão adicional de sua passi idade en e ao p ocesso de conquis a e cons ução do B asil. Pala as-cha e: po os indígenas; his ó ia indígena; B asil indígena; cidadania indígena. Resumen The B azilian indigenous has Always been a cons i u i e pa o he p ocess o e i o ial, social and poli ical o ma ion o B azil and i s sociocul u al, economic and geopoli ical con o ma ion canno be unde s ood he e o housands o yea s, wi h hei o ms od sociocul u al o ganiza ion and domain e i o ial. Indigenous peoples con ibu ed wi h he iches o hei lands, wi h hei millena y knouledge and wi h hei swea and blood o he B azilian na ion. This na a i e exe cise o indigenous his o y in B azil is salso one exe cise in he au onomy o indigenous hinking, as a subjec o i s his o y and des iny, belying he adi ional iew o i s passi i y in he ace o he p ocesso o conques and cons uc ion o B azil. Palab as-cla e: indian people, indigenous his o y, indigenous B asil, indigenous ci izenship. In odução Es e esc i o indígena a a de uma na a i a his ó ica sob e os po os indígenas do B asil an es e depois da in asão po uguesa. A na a i a pa e do p essupos o de que só é possí el comp eende o indígena de hoje a pa i de sua longa e milena his ó ia, mui o an es do con a o com os colonizado es eu opeus. O esc i o em como obje i o con ibui pa a diminui o silêncio, a in isibilidade e a i ele ância dos sujei os indígenas na his ó ia o icial do B asil. Mais do que isso, busca con apo às na a i as o iciais equi ocadas, p econcei uosas ou delibe adamen e in en adas pa a jus i ica a iolência e o genocídio p a icados. É necessá io desnuda a injus iça his ó ica come ida con a os indígenas eduzidos a cole i idades in e io izadas, igno adas e excluídas pela his ó ia o icial e condenados à posição subal e na na sociedade nacional e a uma posição cul u almen e ossilizada no espaço e no empo. O c escimen o demog á ico, o p o agonismo c escen e e a p esença indígena cada ez maio dos po os indígenas na ida da sociedade nacional e global, con a iam o discu so de 265 His ó ia indígena no B asil independen e: da ameaça do desapa ecimen o ao p o agosnismo e cidadania di e enciada A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 25, nº 51. Te ce cua imes e de 2022. Pp. 263-290. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2022.i51.12 desapa ecimen o, de incapacidade e de u ela indígena e cedem luga à no as possibilidades de cidadania e de elação com o Es ado e com a sociedade. Os 200 anos do B asil Independen e ep esen am um mis o de pesadelos sociohis ó icos e ci iliza ó ios ep esen ados pelas en a i as de ex inção dos po os indígenas e de luzes de espe anças azidos pela Cons i uição Fede al de 1988 ao econhece o di ei o de con inua em i endo con o me suas cul u as, adições, línguas e sis emas de conhecimen os. As sociedades indígenas milena es No início ha ia apenas uma bolinha de ped a no espaço. Nada mais ha ia ao edo . Hekwapi Ienipe (C iança-Uni e so) en ão começou a p ocu a a e a. En iou a g ande pomba su suwa pa a encon a e a. Ao encon a , colocou a e a na bolinha. E a a p imei a e a da C iança-Uni e so. Depois ez o sol subi acima da no a e a. Como ele es a a ão só, saiu à p ocu a de pessoas e di igiu-se pa a o umbigo do uni e so, um luga chamado Hipana. Lá ele ou iu os sons dos p imei os ances ais saindo do bu aco. Os an epassados saí am um po um (inclusi e, an epassados dos b ancos) e a cada um ele des inou um pedaço de e a. Depois, ob e e a noi e de um pequeno ces o echado. O sog o dele (espí i o dono da noi e) ha ia pedido que o ces o osse abe o somen e quando chegasse em casa. Mas ele, Nhampe ikuli, ab iu o ces o no meio do caminho. Ao ab i um pouquinho, a noi e saiu cob indo o mundo in ei o em escu idão. Nhampe ikuli icou sen ado acima de uma á o e, espe ando pelo e o no do sol. Ele e os pássa os espe a am a é que o sol ol ou en ando pela po a do céu a les e. Quando o dia ol ou a aia , os pássa os começa am a can a . E a o início de um no o dia, de um no o uni e so – hekwapi (W igh 2014, p. 194). Assim começa a his ó ia do po o Baniwa, po o do qual sou memb o. Uma ci ilização milena que se desen ol e há pelo menos 12 mil anos no seu e i ó io adicional, si uado ao longo do io Içana, a luen e do io Neg o. À semelhança do po o Baniwa, os ou os po os indígenas do B asil e de oda Amé ica possuem e conhecem as his ó ias de suas ci ilizações milena es. Cada po o ecebeu seu e i ó io pa a i e e conhece-o com nome p óp io. A Amé ica, enquan o e i ó io ances al dos po os indígenas, ecebe di e en es denominações, de aco do com a língua e his ó ia de c iação de cada po o, ais como Abya Yala (mais conhecido pela maio ia dos po os), Pachamama (signi ica “Mãe Te a”, pa a os po os dos Andes), I i Mo aei (po o Gua any). Cada po o ecebeu p imo dialmen e capacidades pa a cons ui seu sis ema p óp io de comunicação po meio das linguagens aladas, i ualizadas, g a adas (esc i a, desenhos, pe ógli os) e símbolos. Essas di e sas o mas de linguagem são usadas pa a comunicação en e os humanos e des es com os se es e espí i os da na u eza e do Cosmos. 266 Ge sem Baniwa A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 25, nº 51. Te ce cua imes e de 2022. Pp. 263-290. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2022.i51.12 Cada po o ambém ecebeu o ien ações, conhecimen os, ecnologias e eg as pa a o bem i e pessoal e cole i o. O po o Baniwa, po exemplo, ecebeu a écnica da za aba ana com uso de cu a e e do a co e lecha pa a sup i suas necessidades de alimen ação po meio da caça e da pesca, além de as o conhecimen os sob e plan as medicinais, i uais de cu a de doenças e de o ien ações sob e alo es e p á icas sociais de p omoção da solida iedade, hospi alidade, pa ilha, cole i idade, condições básicas pa a boa i ência pessoal e con i ência amilia e comuni á ia. Os i uais de iniciação ou de passagem da in ância pa a a ida adul a são p ocessos pedagógicos mui o e e i os pa a a ansmissão desses p incípios e alo es. De posse dessas capacidades, os po os indígenas cons uí am suas ci ilizações em seus e i ó ios, desen ol endo complexos sis emas de conhecimen os, sociocul u ais, pedagógicos, polí icos, econômicos e eligiosos. A o alidade e a memó ia são pode osas e amen as de con inuidade desses sabe es e aze es ances ais. A ances alidade indígena é uma conexão e in e ação com a dinâmica do mundo p imo dial que possibili a a i ência con inuada dos p incípios e alo es dos p imei os empos do mundo e da humanidade. Es e ico mosaico i o de g ande di e sidade cul u al e ci iliza ó io oi encon ado no con inen e pelos p imei os in aso es eu opeus no inal do século XV e início do século XVI, de mais de 5000 e nias que ala am mais de 2500 línguas, somando mais de 112 milhões de pessoas habi ando a Amé ica (Dene an 1976:3). No e i ó io hoje conhecido como B asil, es ima-se que nes e mesmo pe íodo, i iam mais de 10 milhões de indígenas, de mais de 1400 po os ou e nias e mais de 1300 línguas aladas. São po os, sociedades ou ci ilizações que ep esen am cul u as, línguas, conhecimen os e c enças únicas. É possí el que o con ingen e populacional osse mui o maio , uma ez que somen e os Gua ani ep esen a am pelo menos 1 milhão de pessoas à época da in asão po uguesa e a Amazônia e a habi ada po pelo menos 8 milhões de na i os. Os po os indígenas são sociedades au óc ones das Amé icas que desen ol e am e con inuam desen ol endo ci ilizações complexas, au ônomas e al amen e sus en á eis, cujas his ó ias não acaba am, po que con inuam i as e cada ez mais en aizadas na sociedade de hoje. Essas sociedades humanas c ia am e desen ol e am sis emas polí icos com g andes impé ios, cidades- es ados, mona quias, democ acias e cacicados. Mui as dessas ci ilizações alcança am o apogeu de desen ol imen o e a sua decadência mui o an es da chegada dos eu opeus ao con inen e po di e sas causas his ó icas, desde gue as in e ibais, al as densidades populacionais, escassez de alimen os causadas po agédias ecológicas, epidemias, limi ações na u ais e ciclos climá icos (Faus o 2010). Ou as o am dizimadas pelos in aso es eu opeus. 267 His ó ia indígena no B asil independen e: da ameaça do desapa ecimen o ao p o agosnismo e cidadania di e enciada A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 25, nº 51. Te ce cua imes e de 2022. Pp. 263-290. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2022.i51.12 As iden idades, línguas, cul u as e conhecimen os indígenas êm conse ado suas singula idades em meio ao mundo globalizado, sem isolamen o. Conse am o papel socializado e educado da amília, da comunidade, do po o, dos anciãos. Valo izam, ansmi em e aplicam suas sabedo ias e alo es ances ais, espei ando a na u eza, on e de odo conhecimen o. As cul u as indígenas ambém exp essam os g andes alo es uni e sais, às suas manei as. Nas solenidades das es as e dos i uais, no e inamen o e beleza das es imen as, na pin u a co po al, na educação comuni á ia dos ilhos, na concepção sag ada do e i ó io, da na u eza e do cosmos, elas mani es am a consciência ances al, his ó ica, mo al, es é ica, é ica, eligiosa e social. A di e sidade de isões de mundo e dos modos de o ganização da ida, são ansmi idos de pais pa a ilhos e de ge ação pa a ge ação. As expe iências empí icas e eó ico- e lexi as do co po e do espí i o são as o ças que mo em o caminho milena dos po os ame índios. A e i o ialidade indígena a ua como um es ado de espí i o da exis ência e os i os e as memó ias his ó icas como e e ências de iden idade e da consciência humana e sociocósmica. Pesquisas a queológicas e elam que an es da chegada dos eu opeus, a egião da Flo es a Amazônica o a habi ada po milhões de pessoas, pe encen es a ci ilizações al amen e o ganizadas e a ançadas, p o a da exis ência de uma his ó ia milena do homem na i o nas Amé icas explo ando a lo es a de manei a al amen e sus en á el. Uma c iação impo an e oi a e a p e a que se dis ibui ao longo dos Rios Madei a, Amazonas, Neg o e Tapajós e os geogli os (desenhos geomé icos ei os sob e o solo em g andes dimensões) encon ados na egião do Ac e e do Amazonas que pa a se em ei os oi necessá ia uma quan idade g ande de pessoas pa a consegui esca a as o mas geomé icas. As ob as de e a, como campos d enados, campos ele ados ag ícolas, lagos a i iciais pa a manejo de peixes, ale as geomé icas udo isso implica a g ande o ganização de abalho (Ne es 2006). A sociedade de Ma ajó é conside ada uma das mais complexas e a ançadas. Como a ilha é go e nada pela água, so e cons an es inundações. En e an o, po se plana, essa sociedade, pa a se adap a c iou mo os a i iciais onde ha ia e a i me du an e a época da chu a, que du a ce ca de cinco ou seis meses. Nessas á eas o am encon adas algumas das ce âmicas mais elabo adas da Amé ica do Sul, indícios de uma sociedade o ganizada, a ançada e com o es adições cul u ais (Toniolo 2015). A ocupação da egião Amazônica começou há mais de 11 mil anos, mas os pesquisado es ac edi am que o apogeu acon eceu pouco an es dos eu opeus chega em ao B asil, po ol a de 1.400. A abundância de alimen o le ou ao aumen o populacional e alguns líde es assumem posições impo an es pa a a o ganização da p odução. Algumas amílias passa am a domina á eas, es abelecendo cacicados (g upos o ganizados sob a che ia de um cacique). Os 268 Ge sem Baniwa A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 25, nº 51. Te ce cua imes e de 2022. Pp. 263-290. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2022.i51.12 á ios cacicados es abelecem elações de alianças e ocas e passam a aze pa e de edes egionais de comé cio com ou os po os (Schaan 2015). Em á ios luga es da Amazônia exis iam po oados in e ligados po sis emas de es adas. No Al o Xingu, no Ac e, San a ém e Bel e a, es es po oados e am in e ligados a g andes dis âncias. Em San a ém, o cacicado apajônico exe cia in luência sob e comunidades localizadas a 754 quilôme os de dis ância. A cul u a ma ajoa a se espalhou po uma á ea de 20 mil quilôme os quad ados. Essas comunidades oca am ma é ias p imas e p odu os manu a u ados. Exis iam ei as e locais de encon o pa a ocas (Schaan 2015). Uma população ap oximadamen e de 6 milhões de habi an es conseguiu i e na egião p o ocando um impac o mínimo. Os indígenas que mo am na Amazônia hoje ainda são as pessoas que sabem ge encia melho aquela á ea de manei a sus en á el. São os que de êm o conhecimen o e conseguem en ende a lo es a melho . Eles sabem, po exemplo, que se caça ou pesca ce as espécies in ensi amen e, pode le á-las à ex inção. Eles de ubam a ma a pa a cons uções, maneja am ios, mudando os cu sos que, oda ia, po oco e em de o ma manejada po meio de ciclos geog á icos não le a am à dese i icação (Schaan 2015). Uma das g andes limi ações da Amazônia semp e oi o solo pob e, com poucos nu ien es. Po isso as ci ilizações na i as i e am à ideia de p oduzi a e a p e a, al e ando a química do solo e ans o mando essa e a no que hoje é conside ada a mais é il do mundo. Algumas comunidades do Xingu ainda dominam essa écnica, que consis e em desca a o lixo o gânico em alas mis u ado a ca ão e es os de ce âmica queb ados. O lixo e o ca ão o mam uma decomposição mui o ica e a ce âmica o na o solo esponjoso, dando a opo unidade pa a a e a espi a e se ep oduzi (Toniolo 2015). Cien is as dos qua o can os do mundo en am ep oduzi a e a p e a, já que essa se ia uma solução mundial pa a o p oblema da al a de alimen os. Mas ac edi a-se que a composição química do solo da Amazônia não pode se ep oduzida. Há mic oo ganismos únicos ali, que não podem se ep oduzidos a i icialmen e. In elizmen e, mui o do conhecimen o das ci ilizações an igas mo eu com elas, quando o am dizimadas (Toniolo 2015). As sociedades indígenas do con a o Da pe spec i a dos po os o iginá ios da Amé ica a his ó ia con ada o icialmen e sob e os 522 anos de B asil es á baseada em mui as in e dades c iadas pelos colonizado es pa a a ende seus in e esses geopolí icos e de aco do com suas cosmo isões e sis emas sociocul u ais. Pa a os po os o iginá ios o que acon eceu em 22 de ab il de 1500 na egião de Po o Segu o na Bahia 269 His ó ia indígena no B asil independen e: da ameaça do desapa ecimen o ao p o agosnismo e cidadania di e enciada A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 25, nº 51. Te ce cua imes e de 2022. Pp. 263-290. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2022.i51.12 oi uma in asão po uguesa ao e i ó io de 1.600 po os habi an es na i os, seguido de decla ação de gue a com ins de ex e mínio a esses 1600 po os o iginá ios que ainda não acabou. Quando Ped o Ál a es Cab al desemba cou nas Te as dos Tupi e dos Gua ani es es es a am habi ando o li o al e se bene iciando de um nicho ecológico abundan e de peixes, a a ugas, moluscos, c us áceos e sal, p o eínas imp escindí eis pa a a alimen ação. Em 1500, os Tupi ocupa am uma pa e impo an e da zona cos ei a comp eendida a ualmen e en e o Cea á e a Cananéia (São Paulo) e os Gua any domina am a aixa li o ânea en e a ilha de Cananéia e a Lagoa dos Pa os no Rio G ande do Sul, além de impo an es egiões no in e io (Cou o 1998). Em sín ese, odo o e i ó io a ualmen e conhecido como B asil es a a habi ado po mais de 1600 po os na i os o iginá ios o alizando mais de 12.000.000 de pessoas, alan es de 1400 línguas. As ideias p econcei uosas sob es os po os na i os c iados e p opagados pelos po ugueses inham obje i o de jus i ica a esc a idão e o ex e mínio desses po os ab indo caminho pa a a usu pação de suas e as e das iquezas na u ais nelas exis en es. Isso oco eu após as descobe as de iquezas nessas e as, uma ez que quando do p imei o desemba que dos po ugueses nas e as b asilei as, as p imei as imagens e am di e en es e posi i as, como desc e e Pe o Vaz de Caminha em 1500, e e indo-se se aos na i os encon ados compa ados aos habi an es do Ja dim do Éden (Be encou , 1992;41) “gen e boa e boa simplicidade” e gen e de “bons co pos e bons os os, como a bons homens” (Oli ei a e F ei e 2006: 26). A necessidade de encon a jus i ica i as ci iliza ó ias, mo ais e eligiosas pa a ex e mina os na i os le ou os colonizado es a ins umen aliza em undamen os c is ãos e nocên icos, o a desumanizando-os o a in e io izando suas cul u as, línguas e sabe es, p opagando ideias p econcei uosas de p á icas que se iam bá ba as, an ic is ãs e an i-ci ilização, ais como pagãos, an opó agos, canibais, deg edados, degene ados e ou as. Tais es e eó ipos passa am a jus i ica a esc a idão, as “gue as jus as”, os massac es, o genocídio e o holocaus o dos po os na i os. O ex e mínio dos po os au óc ones das Amé icas oi o maio holocaus o dos úl imos cinco séculos da Humanidade, pois, o am ex e minados p óximos de 100 milhões de pessoas nos p imei os ês séculos da colonização eu opeia. Somen e no B asil, es ima-se que o am ex e minados mais de 8 milhões de indígenas de 1300 po os nesse pe íodo pa a ga an i os in e esses econômicos dos colonos e impo a supe io idade cul u al, ci iliza ó ia e eológica da sociedade colonial. A legislação sob e “gue as jus as”, o iginá ia do di ei o de gue a medie al (Thomas, 1982) oi ins umen alizada no século XIV em Po ugal, uma dou ina que au o iza a a Co oa e a Ig eja a decla a em gue a aos pagãos. 270 Ge sem Baniwa A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 25, nº 51. Te ce cua imes e de 2022. Pp. 263-290. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2022.i51.12 Os colonizado es usa am o impedimen o ao comé cio e à expansão do p oje o e i o ial colonial como a gumen o adicional pa a ais decla ações de “gue as jus as” con a os po os indígenas. É mui o chocan e pensa como em nome de Deus e da ci ilização come e- se amanha ba ba idade, c ueldade, iolência, c ime e pecado. A pe seguição às adições, aos i uais e aos pajés ou xamãs indígenas inham como undamen o e jus i ica i a o imaginá io medie al da lu a c is ã con a ei icei os e b uxas. O canibalismo associado às p á icas demoníacas, jus i ica am a necessidade de uma in e enção humanizado a, sal ado a, disciplinado a e ci iliza ó ia. Os in e esses econômicos dos colonos e os in e esses econômicos e geopolí icos (conquis a e domínio de no as e as) da Co oa Po uguesa sela am o des ino dos po os indígenas a pa i da in asão, subme idos a oda so e de iolência e ex e mínio. A esis ência dos po os indígenas Mesmo dian e de b u al iolência bélico-mili a impos a pelos colonizado es aos po os indígenas, es es semp e esis i am de di e en es o mas, o ganizando con ede ações de esis ência, emboscadas aos colonos, e ol as, a aques a ilas e azendas, suicídios, messianismos, ecusa ao abalho, sabo agens, dese ções, ugas de aldeamen os e ca i ei os, a i ude de nunca con ia em b anco e alianças ou colabo ações es a égicas com espanhóis, holandeses e anceses pa a se p o ege em, p incipalmen e em momen os de desespe o causado pelas epidemias e gue as. Na maio ia das ezes os indígenas apenas se de endiam de a aques dos colonos e en a am negocia exaus i amen e as condições da paz e da assalagem. No século XVII a e ol a indígena mais conhecida oi a de Aju icaba. Os po ugueses ha iam a ançado sob e a egião do ale do Rio Neg o, na Amazônia em busca de mão-de-ob a pa a a cole a de p odu os e pa a expandi as on ei as e i o iais do impé io e come cializa esc a os indígenas. Huiubene, uxaua Manao que man inha ínculo come cial com os po ugueses oi mo o de ido a desen endimen os come ciais. Em 1723, Aju icaba, seu ilho, decidiu inga a mo e de seu pai. A as ou as aldeias indígenas dos po oados po ugueses e comandou a aques a a és de emboscadas. Dian e disso, a Co oa Po uguesa en iou dois Regimen os de T opa de Gue a e Resga es pa a comba e e ex e mina os índios Manao. As aldeias indígenas do Rio Neg o o am bomba deadas du an e dois anos ma ando os habi an es. Mais de 40 mil indígenas o am mo os, além do ex e mínio do po o Manao. Ap isionado com cen enas de ou os índios Manao, Aju icaba ebelou-se a caminho da p isão em Belém, mo endo 271 His ó ia indígena no B asil independen e: da ameaça do desapa ecimen o ao p o agosnismo e cidadania di e enciada A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 25, nº 51. Te ce cua imes e de 2022. Pp. 263-290. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2022.i51.12 a ogado ao se a i a no Rio Neg o pa a escapa dos po ugueses (Oli ei a e F ei e 2006:56). Na p imei a me ade do século XVII oco e am di e en es o mas de esis ência do po o Gua ani en ol endo os jesuí as e os T in a Po os das Missões. A expansão do abalho missioná io de jesuí as espanhóis na egião sul do B asil le ou à c iação de um sis ema de eduções de índios Gua ani ou “missiones” ou “ educciones”. A pa i de 1628 os bandei an es paulis as passa am a a aca e des ui essas missões, como consequência de desen endimen o en e jesuí as e colonos quan o à u ilização da mão-de-ob a indígena. Milha es de índios mo e am nos comba es e du an e a ma cha o çada dos ap isionados em di eção a São Paulo. Mas na egião sul do B asil, as bandei as paulis as o am de o adas pelos Gua ani, inicialmen e em 1638, na ba alha de Caasapaguaçu e em 1641 na ba alha de Mbo o é (Oli ei a e F ei e 2006: 57). No os con li os oco e am no início do séc. XVIII, dian e do expansionismo po uguês em di eção à bacia do io da P a a. Em 1750 oi es abelecido o T a ado de Mad i de e minando pe mu a dos e i ó ios espanhóis dos Se e Po os das Missões com o e i ó io po uguês da colônia do San íssimo Sac amen o (Que edo 1993). A pa i de en ão, os jesuí as espanhóis de iam ans e i as missões pa a o no o e i ó io espanhol. Mas a maio ia dos Gua ani e ol ou-se quando soube do en ol imen o da Co oa espanhola no esbulho de suas e as e passa am a se o ganiza mili a men e pa a en en a po ugueses e espanhóis. A “gue a gua aní ica” desen ol eu-se a a és de pequenas esca amuças du an e cinco anos, a é que as o ças gua ani, che iadas pelo capi ão Sepé Tia aju, en en a am os exé ci os cas elhanos e po ugueses em e e ei o de 1756. Sepé Tia aju oi mo o no passo de Caiboa é, onde mais de 1.500 índios o am massac ados (Holanda 1970). Na a ualidade oco em ou as o mas di e si icadas de esis ência e al e idade sociocul u al, ais como: au onomia e p o agonismo das aldeias, po os e o ganizações indígenas, o alecimen o do mo imen o indígena a iculado a i o e c ia i o, mobilizações, ma chas, acampamen os2, ocupações de espaços, o ganização e pa icipação polí ica, au onomias e no e i o iais, p odução a ís ica e acadêmica, p oje os p óp ios de educação, saúde e au ossus en ação, ap op iação e uso de mídias e ou os meios de comunicação, in e ação com a opinião pública nacional e in e nacional, acionamen o cons an e do Minis é io Público e do Pode Judiciá io e pa icipação a i a da ida nacional. 2 En e 04 e 14 de ab il de 2022 oi ealizado em B asília o 18º Acampamen o Te a Li e (ATL) que euniu mais de 8000 indígenas de mais de 200 po os. 278 Ge sem Baniwa A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 25, nº 51. Te ce cua imes e de 2022. Pp. 263-290. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2022.i51.12 pe igosas nas lo es as ou como se o ien a nas expedições ealizadas. Em odas as expedições emp eendidas pelos colonizado es es a am os na i os como guias e p es ado es de se iços, assim como aliados na expulsão de ou os in aso es es angei os ou como mão de ob a nas en es de expansão ag ícola ou ex a i is a (Luciano 2006:216) Hoje é acei o o icialmen e o a o de que o po o b asilei o é o mado pela junção de ês aças: a indígena, a b anca e a neg a. Mas não oi somen e no aspec o biológico que os índios con ibuí am pa a a o mação do po o b asilei o, mas p incipalmen e do pon o de is a cul u al, começando com a p óp ia língua po uguesa que acabou inco po ando á ias pala as, concei os e exp essões de línguas indígenas. Há cen enas de nomes de luga es (Iguaçu, I aquaquece uba, Pa anapanema), de cidades (Manaus, Cu i iba, Cuiabá) de pessoas (Ubi a an, Tupinambá, Raoni), de uas e a é de emp esas (A iação Xa an e, Emp esa Xingu). Os índios, a a és de sua o e ligação com a lo es a, descob i am nela uma a iedade de alimen os, como a mandioca (e suas a iações como a a inha, o pi ão, a apioca, o beiju e o mingau), o caju e o gua aná, u ilizados a é hoje na alimen ação. Esse conhecimen o em elação às espécies na i as é u o de milha es de anos de conhecimen o da lo es a. Desen ol e am o cul i o de cen enas de espécies como o milho, a ba a a-doce, o ca á, o eijão, o oma e, o amendoim, o abaco, a abóbo a, o abacaxi, o mamão, a e a-ma e, o gua aná e ou os. Os conhecimen os culiná ios dos po os indígenas es ão p esen es na ida dos b asilei os. Ou o legado dos po os indígenas são os seus milena es conhecimen os medicinais. Alguns es udiosos es imam que os índios do B asil já chega am a domina uma ci a de mais de 200.000 espécies de plan as medicinais. A medicina adicional possui um alo incalculá el com po enciais pa a no as descobe as sob e os mis é ios da na u eza e da ida e que podem ep esen a soluções pa a mui os males que hoje a ligem a Humanidade e os homens da ciência mode na. Não é g a ui o o aumen o da a i idade de biopi a a ia em e as indígenas, p a icada po pesquisado es cien is as do mundo in ei o, po que sabem das iquezas que cons i uem as cul u as indígenas em elação aos seus ecu sos na u ais (Luciano 2006: 218. Fo am os indígenas da Amé ica que domina am, ao longo de séculos ou mesmo de milênios, conhecimen os sob e os p odu os anes ésicos, que hoje são undamen ais pa a os p ocessos ci ú gicos p a icados pela medicina mode na. Os Baniwa dominam essa écnica há mui o empo, sendo o p incipal ins umen o de caça e de gue a. Os índios Ashaninka e ou os po os indígenas do Ac e são exímios conhecedo es de plan as alucinógenas, como a ayawaska, ecen emen e pa en eada po emp esas no e-ame icanas, obje o de dispu as ju ídicas po di ei os de p op iedade in elec ual cole i a dos po os indígenas (Luciano 2006: 219.) 279 His ó ia indígena no B asil independen e: da ameaça do desapa ecimen o ao p o agosnismo e cidadania di e enciada A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 25, nº 51. Te ce cua imes e de 2022. Pp. 263-290. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2022.i51.12 Exis em ambém as iquezas es a égicas que se encon am nos e i ó ios indígenas, dos quais eles são gua diões e de enso es. A p incipal delas é a megabiodi e sidade exis en e em suas e as, que ep esen am 13% do e i ó io b asilei o p ese ado. Fo os de sa éli e mos am que as e as indígenas são ilhas de lo es as e des odeadas po pas os e cul i os de monocul u as. Es a não é apenas uma iqueza dos índios, mas de odos os b asilei os, na medida em que são lo es as que con ibuem pa a ameniza os desequilíb ios ambien ais do plane a nos empos a uais (Luciano 2006: 219). Os índios semp e o am conside ados ap os pa a abalhos ma í imos, mui os sendo a egimen ados pelas Fo ças A madas pa a pa icipa de inúme os comba es, como oi con a o Pa aguai. Em algumas egiões da on ei a amazônica, jo ens indígenas o mam maio ia nas co po ações mili a es, elogiados e econhecidos pelos seus comandan es po suas habilidades di e enciadas nas a e as e exe cícios diá ios. Os po os indígenas con ibuí am pa a a con o mação e de esa das on ei as do B asil. É o caso dos po os Macuxi e Wapichana, chamados no século XVIII de mu alhas do se ão (Cunha 1994: 125). O Ba ão de Rio B anco e Joaquim Nabuco undamen a am na p esença des es po os e nas suas elações com os po ugueses a ei indicação b asilei a na dispu a de limi es com a en ão Guiana inglesa. Manuela Ca nei o da Cunha econhece que da pe spec i a da jus iça his ó ica, é e gonhoso se con es a a con eniência de po os indígenas po oa em as on ei as amazônicas que eles ajuda am a conquis a , consolida e das quais con inuam sendo gua diões (Cunha1994: 125). Po im, os po os indígenas b asilei os cons i uem ainda uma iqueza cul u al in ejá el pa a mui os países e con inen es do mundo. São 305 po os é nicos alando 275 línguas. 305 po os é bem mais que as 234 e nias exis en es em odo o con inen e eu opeu. São poucos os países que possuem amanha di e sidade sociocul u al e é nica. Po udo isso, o B asil e o mundo p ecisam olha com mais a enção e espei o aos po os indígenas, não como í imas, mas como po os que, além de he dei os de his ó ias e de ci ilizações milena es, ajuda am e con inuam ajudando a esc e e e a cons ui a his ó ia do B asil e do plane a com seus modos de pensa , ala e i e (Luciano 2006:219). Os po os indígenas hoje: en e somb as, espe anças e sonhos Os inais da década de 1970 ep esen a am um pe íodo ico, p incipalmen e no que diz espei o às mobilizações indígenas desde os ní eis locais e egionais a é as g andes mobilizações do início da década de 1980 em a o dos di ei os indígenas, no p ocesso cons i uin e. Fo am ealizadas mobilizações, encon os e assembleias indígenas, como espaços de in e câmbios en e aldeias e po os. 280 Ge sem Baniwa A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 25, nº 51. Te ce cua imes e de 2022. Pp. 263-290. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2022.i51.12 Ao se conhece em, pe cebe am que não e am poucos e que a iculados e mobilizados, pode iam ganha mais o ças pa a en en a os p oblemas e desa ios comuns, en ão, passa am a a ua de o ma conjun a e coo denada em busca de seus di ei os, p incipalmen e o di ei o à e a. Os encon os e assembleias le a am à o mação de uma en e indígena em de esa dos seus di ei os cole i os, ao mesmo empo em que e am iden i icadas necessidades e es a égias de cada po o, o mando a base conc e a do mo imen o e das lu as indígenas. Seguiu-se o su gimen o de nume osas o ganizações e associações indígenas aldeãs, é nicas, pan-é nicas, locais, egionais, nacionais, e in e nacionais, de ca ego ias p o issionais, de gêne o e de es udan es. O c escimen o do núme o de o ganizações indígenas é ão exp essi o que se em 1970 não ha ia nenhuma o ganização indígena econhecida, em 2001 elas já e am em núme o de 347 somen e na Amazônia Legal (Baniwa 2019). Essas o ganizações ouxe am à luz e à lu a, no as lide anças indígenas (p o esso es, pedagogos, agen es de saúde, agen es ambien ais, en e mei os, e c), que passa am a a ua como in e locu o es com o Es ado e com as o ganizações não go e namen ais. Elas assumi am cada ez mais o p o agonismo da lu a e o ça am uma e isão no papel e na elação com o Es ado. As o ganizações indígenas o mam a ualmen e uma ede de en idades, es a égias e inicia i as que u ilizam odos os meios polí icos, comunicacionais e ecnológicos disponí eis pa a de ende os di ei os indígenas. Pa a isso, as lide anças dessas o ganizações pe co em o país e o mundo, ocupando ibunas impo an es como as da ONU e da OEA. Uma das causas da ascensão das o ganizações indígenas oi a necessidade de eação con a à polí ica de emancipação dos índios. Mas o que consolidou a exis ência legal dessas o ganizações oi a Cons i uição Fede al de 1988, ao econhece a capacidade ci il dos índios e de suas o ganizações sociais e polí icas. A pa i da pa icipação polí ica e do p o agonismo de lide anças indígenas, polí icas públicas especí icas pa a os po os indígenas o am c iadas e implemen adas p incipalmen e nas á eas de saúde e educação, polí icas es as o ien adas po no os concei os e me odologias na busca po supe ação da elha polí ica indigenis a u ela e in eg acionis a. A c escen e pa icipação polí ica dos po os indígenas, embo a não enha sido su icien e pa a elimina a p á ica u ela do Es ado b asilei o – ainda p esen e em ó gãos do go e no – em di e si icado e dinamizado essa elação, p opiciando o su gimen o de p og amas e de p oje os go e namen ais ino ado es (Luciano 2006:224). A p incipal consequência do o alecimen o das lu as indígenas capi aneadas pelo mo imen o indígena o ganizado no B asil é a supe ação p o isó ia do an asma do desapa ecimen o dos po os indígenas, do pon o de is a demog á ico. O c escimen o médio da população indígena b asilei a 281 His ó ia indígena no B asil independen e: da ameaça do desapa ecimen o ao p o agosnismo e cidadania di e enciada A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 25, nº 51. Te ce cua imes e de 2022. Pp. 263-290. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2022.i51.12 nos úl imos 20 anos oi de 3,0% ao ano, o que ep esen a uma e i a ol a his ó ica pós-con a o e p oje a um u u o p omisso e o imis a do pon o de is a é nico-demog á ico. As conquis as e i o iais ambém êm sido exp essi as, alcançando as e as indígenas 13% da á ea o al do B asil e 22% da á ea o al na Amazônia Legal. Da pe spec i a ambien al, a ele ância dessas e as é incalculá el, mas ainda pouco alo izada pelo Es ado e pela sociedade nacional. Exemplos de ou as conquis as impo an es do mo imen o indígena con empo âneo: a) Di ei os conquis ados na Cons i uição de 1988. b) Ra i icação da Con enção 169 / OIT em 2004. c) Pa icipação polí ica: eleição de uma Depu ada Fede al em 2018, de p e ei os, ice-p e ei os e e eado es. d) P og amas e polí icas especí icas na educação e saúde; e) 100 mil indígenas (10% da população indígena do país) na educação supe io e mais de 300 mil na educação básica (30% da população indígena do país). A possibilidade de econs ução de p ocessos au ônomos de ida nos seus e i ó ios é um no o alen o pa a o p esen e e o u u o dos po os indígenas no B asil. Um dos elemen os cen ais pa a a e e i ação desse desejo é o início de á ios p oje os cole i os de au oges ão e i o ial em cu so po meio dos Planos de Ges ão Te i o ial e Ambien al (PGTA) que es ão impulsionando o p ocesso de econs ução da au onomia, que na p á ica, con inuou acon ecendo en e á ios po os indígenas do B asil, mesmo após a ins alação do Es ado b asilei o. Os po os indígenas êm se cons i uindo em sujei os de seu p óp io des ino, azendo ale seus di ei os cole i os, cob ando dos go e nos, po meio de suas o ganizações ep esen a i as, a cons i uição de um Es ado di e en e, um Es ado que possibili e a igualdade de condições de ida pa a odos os b asilei os, indígenas e não indígenas. P opõem a ans o mação do Es ado uni á io e homogêneo em Es ado plu al, o qual possibili e em seu in e io a exis ência e o desen ol imen o de espaços de au onomia e de in e dependência jus os e equi a i os pa a os po os indígenas que não podem segui excluídos da ida polí ica, econômica e cul u al do país. Pa a isso, esses po os con am a ualmen e com con ênios in e nacionais e leis nacionais, ais como a Con enção 169 da OIT, a i icada pelo B asil em 2004 e que de e mina que os índios des e país sejam econhecidos como po os, e a Cons i uição Fede al de 1988, que assegu a a inclusão dos di ei os cole i os dos po os indígenas, en e ou os impo an es di ei os (Luciano 2006). Mas, a his ó ia não é linea nem p e isí el. Com o golpe pa lamen a que i ou o Pa idos dos T abalhado es da P esidência da República em 2017 e com a ascensão ao pode do a ual go e no, o u u o dos po os indígenas, ol ou ao pa ama de ince ezas, ameaças e iolência. Os di ei os indígenas es ão sendo sis ema icamen e cassados, des uídos e negados à luz do dia pelo go e no. Vol a am os empos somb ios e iolen os semelhan es “às gue as jus as”. A espe ança azida pela Cons i uição Fede al 282 Ge sem Baniwa A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 25, nº 51. Te ce cua imes e de 2022. Pp. 263-290. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2022.i51.12 de 1988 pa ece en aquece . Há semelhança do que es á acon ecendo ago a com os empos da di adu a mili a , nos anos 1970, quando os go e nos mili a es, imbuídos de uma concepção desen ol imen is a – B asil G ande – dizima am po os indígenas que se encon a am no caminho e ousa am esis i às suas mega ob as de abe u a de es adas, hid elé icas, ga impos, mine ação, ag onegócio, pos os mili a es e ou as en es expansionis as, dizimando milha es de po os indígenas. O ela ó io da Comissão da Ve dade indica que pelo menos 8000 indígenas o am mo os assassinados pelos go e nos mili a es na Amazônia Legal. “O índio não pode de e o desen ol imen o”, dizia em 1971, o gene al do exé ci o Bandei a de Mello, na época p esiden e da FUNAI (Baniwa 2019: 244). Passa am-se quase dois séculos do pe íodo das “Gue as Jus as” e 50 anos do início da di adu a mili a , po ém, a concepção desen ol imen is a que ê os índios como es o o, empecilho e obs áculo pe manece i a. Os a gumen os p a icamen e são os mesmos: a necessidade de ga an i o domínio sob e as e as e suas iquezas e le a o p og esso e a ci ilização aos po os colonizados conside ados sem ci ilização e sem cul u a ou mesmo não humanos. Aqueles que esis em em abandona suas e as ou que con apõem aos in e esses do go e no de em se emo idos, po que os in e esses da nação es ão acima de odos. (Baniwa 2019). Ameaças ins i ucionais mais eminen es es ão elacionadas a in es idas legisla i as no Cong esso Nacional, denominadas pelos po os indígenas de “pau a an i-indígena” ou “paco e da mo e”. T a am-se de dois P oje os de Leis que podem se ap o ados a qualque momen o: um que a a do Ma co Tempo al pa as as dema cações de e as indígenas e ou o que a a da abe u a de e as indígenas pa a a explo ação mine al. A p opos a do ma co empo al ami a em uma posição bem a ançada na Câma a dos Depu ados po meio do P oje o de Lei 490/2007 (PL 490) e es á em julgamen o inal no Sup emo T ibunal Fede al (STF) a pa i de um pedido de ein eg ação de posse mo ido pelo Es ado de San a Ca a ina con a o po o Xokleng e con a a FUNAI. Tan o a possí el ap o ação do PL 490 no Cong esso Nacional quan o o julgamen o da ques ão no pode judiciá io p eocupam mui o os po os indígenas, p incipalmen e a pa i de 2019, quando o STF decidiu que o julgamen o da ma é ia de e e “ epe cussão ge al”, ou seja, a decisão omada se i á de base pa a a esolução de dispu as semelhan es que su gi em no u u o ou que es ejam em causa. O ma co empo al põe em jogo o econhecimen o ou a negação do mais undamen al dos di ei os dos po os indígenas: o di ei o à e a. Em sín ese, de um lado, a chamada ese do Indigena o, uma adição legisla i a que em desde o pe íodo colonial, que econhece o di ei o dos po os indígenas sob e suas e as, como um di ei o o iginá io, ou seja, an e io ao p óp io Es ado. 283 His ó ia indígena no B asil independen e: da ameaça do desapa ecimen o ao p o agosnismo e cidadania di e enciada A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 25, nº 51. Te ce cua imes e de 2022. Pp. 263-290. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2022.i51.12 A Cons i uição Fede al de 1988 em igo segue essa adição e ga an e aos indígenas “os di ei os o iginá ios sob e as e as que adicionalmen e ocupam”. Do ou o lado, há uma p opos a es i i a que p e ende limi a os di ei os dos po os indígenas às suas e as, ao ein e p e a a Cons i uição com base na ese do “ma co empo al”, a i mando que os po os indígenas só e iam di ei o à dema cação das e as que es i essem sob suas posses no dia 05 de ou ub o de 1988 (dia da p omulgação da a ual Cons i uição Fede al), ou que naquela da a es i essem sob dispu a ísica ou judicial comp o ada. Os po os indígenas e seus aliados conside am a ese injus a e pe e sa pois legaliza e legi ima as iolências a que o am subme idos a é a p omulgação da Cons i uição Fede al de 1988, em especial du an e a di adu a mili a e que suas his ó ias, idas e exis ências milena es não começam em 1988. A ese igno a o a o de que a é 1988, os po os indígenas e am u elados do Es ado e não inham au onomia pa a lu a , ju idicamen e po seus di ei os. O p óp io Es ado aplicou a imanhas de p essão, op essão e iolência pa a expulsa e desloca po os indígenas de suas e as adicionais. Além disso, há a si uação dos po os indígenas isolados, ainda não econhecidos pelo Es ado, mas que es ão em es udo, um p ocedimen o demo ado em unção da polí ica de não con a o delibe ado. Se o ma co empo al o ap o ado, mui as e as de po os indígenas isolados não se ão econhecidas, pois seque se sabe onde eles es ão. O PL 191/2020, conhecido como PL da mine ação e e sua ami ação ap o ada em Regime de U gência pelo plená io da Câma a dos Depu ados em ma ço de 2022. A p opos a isa egulamen a a explo ação mine al em e as indígenas e de ou as ob as e a i idades conside adas de in e esse e ele ância pública. A ualmen e, mesmo com a mine ação p oibida em e as indígenas, em mui as delas, há inúme as in asões de ga impei os que p a icam a i idades de mine ação de o ma ilegal, iolen a e c iminosa, sob a omissão, coni ência ou mesmo apoio e incen i o explici o do go e no. Tais p á icas são e dadei os pesadelos e d amas i idos dia iamen e pelos po os indígenas. O cená io mais c uel es á acon ecendo na e a do po o Yanomami, onde es ima-se mais de 20 mil ga impei os a uam ilegalmen e, impondo e o e ba ba idade ao po o yanomami com cenas de iolência ex ema en ol endo c ianças yanomami sendo iolen adas e es up adas e sendo sugadas po d agas e maquiná ios pesadas dos ga impei os. É inadmissí el essa ba ba idade em pleno século XXI e na igência dos Di ei os Humanos. A a i idade mine al p a icada no B asil, em ge al, acele a a des uição do meio ambien e, a deses u u ação sociocul u al, des ói as economias locais, além de acumula as os de des uição socioambien al po onde passa. 284 Ge sem Baniwa A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 25, nº 51. Te ce cua imes e de 2022. Pp. 263-290. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2022.i51.12 Con i e ao sonho de ou o B asil Independen e An es de conclui es e esc i o, compa ilho mensagens especiais elabo adas po mim em o ma de uma ca a (em p imei a pessoa cole i a) di igida aos que sonham B asil no auge da pandemia e publicada na cole ânea Ca as pa a o Bem Vi e (Xucu u-Ka i i e Cos a 2020), po en ende que his ó ia é mais do que na a i a, é sen imen o, é emoção, é a i ude, é isão e, sob e udo, consciência de si mesmo, do empo e do mundo em que se i e e con i e. Um exe cício de pensa um B asil e dadei amen e Independen e e G ande. O B asil, es a e a gene osa, hospi alei a, ica, biodi e sa semp e oi o be ço de nossas ci ilizações e de nossas exis ências. Po isso somos seus gua diões, cuidado es e de enso es. É um luga sag ado de nossa ances alidade e espi i ualidade. Nunca oi um luga sem dono e sem habi an e. Po isso ninguém em o di ei o de i aqui abusa dela, des uí-la e usá-la de qualque jei o e a qualque cus o pa a ob e luc o ácil e c iminoso. Mui a gen e chegou de ou os luga es dis an es e desconhecidos po nós, acolhemos e ap endemos a con i e : neg os, b ancos, ama elos. Ap endemos a con i e baseando-nos na pedagogia da in e ap endizagem, da solida iedade e da ecip ocidade. Mas, ie am ambém pessoas más in encionadas, e logo, começa am a implan a e p a ica a os de mui a iolência, c ueldade, ba ba idade e injus iça con a nossos po os. Assim, es a e a do Bem Vi e , da “Hekwape Ienepe3, da “Y y ma ã e’y”4 da Pachamama5, da Aby-Yala6, passou a se e a de c ises, de ódio, de acismo, de agédias, epidemias, pandemias, p agas, desas es e nec opolí icas. Essa gen e má nos ouxe à si uação em que i emos hoje: empos da ba bá ie, da hipoc isia eligiosa, da iolência a mada, da igno ância, da men i a, da alsidade, do ap o undamen o do indi idualismo e do egoísmo, da al a de solida iedade e de esponsabilidade. Nes e pe íodo de mui a is eza e do , causada pelo adoecimen o e mo es de nossos sábios e sábias, gua diãs e gua diões de sabe es milena es e g andes mes es e mes as esponsá eis pela ansmissão de conhecimen os especializados únicos às ge ações mais no as, alece am. Assim, icamos mais empob ecidos, mas não menos c ia i os e esis en es. Nes e p o undo es ado de lu o ans o mamos nosso dia a dia de lu o em lu a pe manen e! O go e no nos pe segue, igno a nossos di ei os cons i ucionais e aqueles in e nacionalmen e pac uados. Nossas e as es ão sendo in adidas po madei ei os, ga impei os, azendei os, di igen es de ig ejas e missioná ios. 3 “Hekwape Ienepe” é a C iança-Uni e so, o uni e so ( e a) p imo dial na Cosmologia Baniwa. 4 Y y ma ã e’y”, Te a Sem Males (sem ome, sem gue a, sem doença) na cosmologia Gua ani. 5 Em Quechua, Pacha é uni e so, mundo, empo e mama é mãe – Te a Mãe. 6 Abya Yala em Kuna (ou Guna) é e a madu a, e a i a, e a em lo escimen o, e a de sangue i al. 285 His ó ia indígena no B asil independen e: da ameaça do desapa ecimen o ao p o agosnismo e cidadania di e enciada A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 25, nº 51. Te ce cua imes e de 2022. Pp. 263-290. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2022.i51.12 Nossas comunidades e nossos e i ó ios es ão sendo ce cados e as ixiados. As ameaças pa em de odas as di eções. O p incipal (des)go e nan e nos indigna e a on a com suas pala as e pensamen os cheios de ódio e maldade: “O índio é cada ez mais um se humano como nós” “Condenados a i e como p é-his ó icos” “Que em se que nem nós” “São como animais em zoológicos” “Pena que a ca ala ia b asilei a não enha sido e icien e quan o a ame icana, que ex e minou os índios”. In elizmen e, ais pensamen os e pala as o ensi as e c iminosas ganham ou as men es e almas acas, igno an es e maldosas que as ep oduzem e as usam como mo i ação ou mesmo como jus i ica i a pa a a pe pe uação da iolência, do ódio e do acismo con a os po os indígenas, ex e nalizadas po meio de ases como essas que comumen e ou imos nas uas, nos espaços públicos, nas escolas, nas uni e sidades, nas ig ejas: “Chega na aldeia e ma a odo mundo. Ex e mina essa aça”. “Tem que echa a aldeia pa a esses índios não en a em nem saí em”. “Isso aí é índio, não é gen e, não”. “Eles não êm cul u a nem eligião”. Po isso de emos nos indigna , esis i e lu a con a udo o que es á acon ecendo de mal em nosso país. Nosso obje i o p incipal de e se semp e celeb a a nossa exis ência, homenagea os pa en es que nos o am a ancados pela doença e pela polí ica de mo e do go e no e, ao mesmo empo, eno a nosso comp omisso com a con inuidade da nossa lu a his ó ica pelos nossos di ei os, pelas nossas idas e po nossas exis ências. De emos nos insu gi con a odas as o mas de iolência à ida, con a as ameaças aos nossos di ei os indi iduais e cole i os, con a a imposição cul u al e eligiosa, a disc iminação, o acismo, o epis emicídio, o ecocídio e a omissão do Es ado na dema cação das e as, na a enção à saúde, na educação, na p o eção dos bens ma e iais e cul u ais dos po os indígenas. De emos ea i ma semp e nossa disposição de soma o ças com os demais se o es da sociedade b asilei a que lu am pela ga an ia dos di ei os humanos, sociais e econômicos, pela democ acia, pela libe dade de pensamen o e li e exp essão do espí i o e pela implemen ação do p oje o de Bem Vi e no mundo, do espei o à Mãe Te a e no cuidado da nossa Casa Comum. De emos man e nossa indignação e nosso incon o mismo pe manen e pelos mais de oi o mil e ezen os indígenas assassinados pela di adu a mili a en e 1964 e 1985 e pelas o mas c uéis que o ça am a pa icipação indígena nas suas sujei as e c imes impe doá eis p a icadas no comba e, o u a e 286 Ge sem Baniwa A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 25, nº 51. Te ce cua imes e de 2022. Pp. 263-290. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2022.i51.12 assassina os dos gue ilhei os do A aguaia. Quan a maldade, desumanidade, hipoc isia de c is ãos. De emos ea i ma que não ab i emos mão do di ei o sob e nossas e as, que são sag adas, inaliená eis, indisponí eis e imp esc i í eis; que segui emos i mes na lu a pela dema cação das e as indígenas que al am se dema cadas; que nos man e emos em ale a con a os in aso es das nossas e as e em de esa dos po os isolados. Não ao ma co empo al. Não à mine ação em e as indígenas. De emos nos inspi a e ac edi a em nossas sabedo ias ances ais pa a o ien a um i e humano em ha monia com a cosmogênesis, baseada na equi alência de cul u as e cosmo isões, na nossa sabedo ia de in imidade e pa icipação no uncionamen o do mundo na u al; na sabedo ia das mulhe es em uni conhecimen o do co po com o da men e, da alma com o do espí i o, a in uição com a azão, a consciência com o conhecimen o in elec ual. De emos cons ui espaços humanos e sociais mais acolhedo es, jus os, a e nos, e sus en á eis mais humanos e humanizado es. De emos i e e exis i como a i ude de esis ência. De emos nos inspi a e nos guia pela pedagogia da na u eza e nas pedagogias ances ais que nos ensinam, des a ez po meio da pandemia, que somos se es sujei os a pe das, so imen os, ince ezas, do es, ini udes, incomple udes, azões pelas quais omos b indados com a capacidade de esiliência, esis ência, p e enção, in e ação, a e o, cuidado, solida iedade, é, o ça sociocósmica, mas sob e udo, com a humildade e espei o en e à Mãe Na u eza. Nunca de emos esquece o ale a polí ico: “O op esso não se ia ão o e se não i esse com ele, memb os dos op imidos”. O ale a ão eal e a ual indica nossa p incipal missão. Quando e emos a G ande Aliança dos Po os O iginá ios? Quando e emos a G ande Aliança dos Po os Colonizados e Op imidos? C emos que chega á. E a pa i des a G ande Aliança ambém e emos um B asil G ande! Ou o B asil! De odos os B asilei os! Mas, que BRASIL INDEPENDNTE E LIVRE sonhamos? Ce amen e, um B asil Independen e e G ande da Cons i uição que ga an e ao po o se plu ilíngue, plu icul u al, plu ié nico e democ á ico. Um país amo oso com seus po os e espei oso com ou os po os, com menos desigualdade, e com mais compa ilhamen o cul u al, linguís ico, polí ico, econômico e espi i ual. Sonhamos B asil que espei a nossos ideais de ida inspi ados em nossos mais elhos, na nossa ances alidade de Bem Vi e , na ecip ocidade en e as pessoas, na cole i idade, na solida iedade, na con i ência com ou os se es da na u eza, no p o undo espei o pela e a e no uso cole i o do que ela o e ece. Sonhamos B asil que comp eenda, econheça e espei a nosso e i ó io, espaço onde i emos, luga sag ado e cheio de signi icados, de espi i ualidades, 287 His ó ia indígena no B asil independen e: da ameaça do desapa ecimen o ao p o agosnismo e cidadania di e enciada A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 25, nº 51. Te ce cua imes e de 2022. Pp. 263-290. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2022.i51.12 de alo es e de conhecimen os ge ados ao longo da his ó ia que o ien am a nossa exis ência, sendo imp escindí el pa a a ep odução ísica e cul u al e a segu ança do p esen e e do u u o de nossos po os. Que comp eenda e espei a que somos po os indígenas, cole i idades descenden es dos po os o iginá ios do con inen e ame icano, que nos dis inguimos no conjun o da sociedade e en e nós com iden idades e o ganizações p óp ias, cosmo isões e epis emologias especí icas e especial elação com os e i ó ios que habi amos e a na u eza a quem pe encemos. Temos consciência de que o nosso u u o enquan o po os es á di e amen e associado à ga an ia e à go e nança cole i a dos nossos e i ó ios. Sonhamos B asil que nos acei e como somos e como que emos con inua sendo, com a abe u a dos nossos espí i os, com nossos espí i os li es, esis en es e esilien es, com nossas almas limpas, pob es de iquezas ma e iais, mas icos de bondades, alo es, sabedo ias, pensamen os li es, li e e lexão, c í ica, c ia i a, ans o mado a e p o unda capacidade de comp eende e i e a ica di e sidade de mundos. Po im, sonhamos um B asil Independen e e Sus en á el e pa a isso con inua emos, jun o com Ail on K enak e Da i Kopenawa, segu ando o céu e adiando o im do mundo, como ize am nossos an epassados des e os p imei os empos, sonhando mui os mundos, odos os mundos possí eis: mundo das lo es as, mundo dos ios, mundo dos ma es, mundo dos lagos, mundo das mon anhas, mundo dos en os, mundo dos o ões, mundo dos aios, mundo dos espí i os, mundo dos animais, mundos subaquá icos, mundos sub e âneos, mundos dos céus, mundo das es elas, mundos p imo diais, mundo dos humanos homens e mulhe es, mundo dos mundos, mundos do Bem Vi e . En im, o sonho do B asil Independen e e G ande dos b asilei os, índios e não índios. Conside ações inais Apesa de mais de cinco séculos de en a i as de ex e mínio, os po os indígenas con inuam i os no B asil e no mundo, conscien es da si uação his ó ica pós-con a o. Semp e pacien es, esilien es e esis en es, se alimen am das suas ances alidades imemo iais; celeb am suas conquis as e i ó ias passadas e p esen es e p oje am se u u o desejá el, sem esignação. Du an e os séculos de con a o com os po os eu opeus, os po os indígenas não o am apenas í imas da colonização. Eles ambém coloniza am os colonizado es com suas cul u as, alo es, sabe es e aze es. P o agoniza am in e casamen os com não indígenas. P o agoniza am ei os his ó icos ma can es pa a o B asil e pa a o Mundo. Há quem ac edi a (eu ac edi o) que os po os indígenas inspi a am os ideais da Re olução F ancesa. Vá ias lide anças