Oraçam funebre
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OR AC AM FVNEBRE àüf àtffe (J 0 O R. P. D. R afael bl v t eav ClerigoRc- '' guiar Theatinoda Diuina Prouidencia , na Sanea Cafa da Mifericordia deita Cidade de Lisboa. NdS exe/jtiias Annudcs DO sereníssimo reyde portvgal D- MANOEL de glorioía memória. OFFE R E CIE A Ao Exceli 0 10 S ° ‘ Marqvezde Fronte i R A , do s Coi)felhosd’E(hdo, & Guerra ,&c. M DC. LXXII. Com teias as lietnças ncccjfatias.
1 A O E X C E L L m ° SENHOR D lOAM MASCARENHAS MARQVEZDE FRONTEIRA, DOS Confcl hcsde Bftado, & Guerra de Sua Alteza, &. Ve edor de fua Real fazenda, &c. $ta Oraçao fúnebre, diffe nas exequias , que a fanta Cafa da Mifericordia celebra todos os annos , deuota, & agradecida a o Serenijjimo Rey Dom Manoel de gloriofa memória feu fundador, como nam teue a dita de V. Excellencia a ouuir, bufca por meio da eflampa ade V. Ex¬ cellencia a poder ler, alem de fer muito Í u/lo , que pois V. Excellencia eleoeo o orador degejfe tambema OraçamopatTQ-
"trociniode V. Excelleucia,pois[ocoeHe poder a ter a ejlima } que defmerecepollo feu Autor } . q u e espera com eftudos maü auentejados bufcarfelifmente ofa - uor de V. Excellencia y a quem Deos mar de muitos amos ■■ do Conuenio da o diuina Erouidenáa em 3. de Eeuereiro de 672, Seruo de V. Excellencia. D. Rafael BlvteaV Clérigo Regular Theatino da diu* 1 ^ Promdencia.
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cs golpes dauamofer, 3c as feridas a vida, nam eram capazes para immortalizarem os homens: mal aconfelhada ambiçam, cujos trofeos cederão todos de fantafticos às injurias dotempo., quando de prefamidos queriam lograr as prerogatiuas da Erernidadei as Pirâmides em que ao viuo ferepreíentam as façanhas dos Reys, lam os coraçoens dos fubditos > as famílias fam as aruores, em que com a fucceílam das geraçoens florece a fua lembrança, 3c os entendimentos fam os templos, em que de continuo fe adoram as memórias da íuagrandeza, 3c as imagens das íuas virtudes : Meítas Pirâmides animadas, 3c neíles templos racionacs, viue hoje fobre iodas os Reys de Portugal ( fe nam quere¬ mos dizer íobre todos os Monarcas do mundo) o SereniílitnoReyDom Manoel, & fem embargo de qne a morte o roubou aos noflbs olhos, ha mais de hum feculo, bem íe pode inferir do exccíTiuo dasnoíTasfaudades, nam menos que da Etimolo¬ gia do feu nome, que ainda eftá com noíco, Em - rnanucl, idtft^nobifcumDcus. A palauia Manoel, no Hebraico vai canto,' como dizer. Deus eflá com nofeo, por onde fe os Reys fam os D.eofes da terra, quem nam coíeíTará eftar ainda com nofeo efta terrena Deidade, pois permanece na noffa lembrança com ram viua j-eprefenraçam, que he comrnurnente chamado por antonomafiaoRey de gloriofa memória, en* comia
7 eomio authorizado pellas palauras do Profeta, que m e deu o thema deita fúnebre oraçaó, Vocabitttrno - tnzncjus Emmaniíel , nobifcum Deus* Os mai> Ínclitos Varoens (fe bem aduertirdes) defme ntem na morte as cxcellencias dò nome que tiuerao navida; Abel quer dizer cidade, fbfiasfogp, Ezechias fortaleza, mas na morte ficou eft* cidade fem moradores, efte fogo fem ardor, &efta fortaleza fem forças *, do mefmo modo vemos que os Maximilianos no fé pulcro faô pequenes, que os Hbnoriosfao vis, os Pompéos fem pompa* &os Auguftos fem mageftade;em conclufáo todos osReys defmencem no occaío os nomes que alcá* Çirao no naçimento. Nao aííim o incomparaucl Monarca, a cuja gloria dedica hoje eftafanta Ca¬ ía o piadoíò defta acçao, pois o gloriofo nome de Manoel lhe compete na morte nao menos que na vida-, Manoel [ comojadiífe] quer dizer Deos eftà com noíco, & quem nao vè çlaramence, que tfte Dcos da terra eftà com noíco ainda depois dc morto , pois perpetua nas noífas lembran ças a vida. Emtres templos fe venera hoje a pieíença defta * terrena Deidade, no templo da memória, no temd plodo coraçaó^ no templo do entendimento; nas memórias de todos viue hojeelRèy Dom Manoel parao aíTombroy noscoraçoensparao fentimento, & nos entendimentos para o defengano; oaííbm* bo nacc das façanhas com queíeaílinalounavi' day^
8 da y originafc o íentimento das perdas que teüe Portugal na Tua morte , & o deíengano íe acha no irreparauel eclipíede tao íoberana mageftade ; no templo da memória tem eiRey Dom Manoel huma prefençagloriofa, pois occafiona aííombros, no templo do coraçao humaprcíença luótuofa > pois caufa fentimentos, & no templo do enten¬ dimento huma preíença doófcrinal, pois prega de- (enganos, Confideremos as tres prefenças defta terrena De idade nos tres templos, que determino dc leuãtar á fua gloria nas tres partes defte Panegírico fu> neral, Vjcdbitur nomen ejiis EmmAüutl > Errtmaniicl y id efl , nobijcum D<w. 1, P A R T E. TkT o téploda memória viue e iRey D. M anoel l^i paraosaflombros, porque tudo na vida delRey D. Manoel foraó exceífos. He doufíina de rZvin S - T h ,° m a s ’ & SÇ ra J m£ncc de todas as eícolas do Ethic» moral,que a virtude íe erige trono no meio de dous ctf.io. extremos; reina a liberalidade entre a prodigalida¬ de & a auareza: domina a iuftiçaentre o ibor, ôe a rroxidaó, & triunfa a fortaleza entre as delcófianps da couardia, & os arrcjos da temeridade; eílc he o elttlo da virtude, apartar os homens dos ex¬ tremos , para os afaftar dos vicios, mas porque os pro-
prodígios nao feguem o eftilo do comum, para cjuefoífe elRey Dom Manoel o prodigio dos Mo¬ narcas, fe vniram emelRey Dom Manoel os ex¬ ternos j primeiramente vniofe a morte com a vida, porque a morte das muitas pefloas Reaes , que o precediam lhe deu o Reino, & elle ao Reino deu a vida : deu elRey Dom Manoel a vida ao Reino de Portugal, porque lbe deu o augmento, que os H.einos íó viuem quando fe augmentam > & quan¬ do nao, degeneram. ^ Acho na íiloíofia a proua defta propoíiçao, ne¬ nhuma coufa no mundo he permanente, porque nenhuma he cabalmente perfeita *, tudo nas criatu¬ ras (ao progreílos ou perdas, vidas ou mortes, nac imentos } ou occafosjfó Deoshe eífenci a l m e n t cim- ^ ^ jfiudauel ( diz Auguftinho ) porque sò Deos he de rtafur^ infinitamente perfeito, em Deos nam pode ha- Emtat. u er perdas, porque nada o offende , nem progreí- Ids porque tudo poíTue, onde aílim comoaimmu- ^bilidade, he attributo de Deos, aílim he pro¬ priedade eflencial do mundo, a mudança; Vio ac o b a Deos encoftado a huina efeada, vidi Domt - n ^m innixum JcaU , & no mefmo tempo íelhe^repreíèntarao muitos Anjos, que por elíaandauaolo- ^ ^ oindo , & decendo, Vtdi Angelos a feendentes , & de] . ce *dente} \ notai, eftaua Deosimmouel,& pellocotr ari 0 > andauam os Anjos em perpetuo mouimen- J°, que os Anjos faó criaturas > & as^criaturas p o r^
\6 moriahurna Eftatua, em que com admiraçam de todos, íe diuife a vniao deftesdous contráriostao opoftos, com quefe aflinalou na vida, guerra, &c piedade : 5c para efte effeito , tomo em primeiro lugar a cabeça de lano com dous roftos, hum de mancebo, & outro de velho , verfehao nos brios do primeiro asviótorias da Igreja, 5c nas rugas do legundo as ruinas da Gentilidade •, o bronze daquelle famoío Altar fabricado por Salamao,ferà o me¬ tal, com que lhe formarei o peito, que íe elRey Dom Manoel desbaratou com os bronzes a impie¬ dade, entronizou a piedade nos Altares; para a compofiçaò dos braços, parto pello meio a colu¬ na de fogo, qne guiou aos Iíraeútas, que íe como columnafuftentou a Igreja, como fogo abrazou a Mourama; com humamao empunhara a efpada,& na outra moftrarà as íete Eftrellas, que o Anjo do Apocalipfe trazia na mao direita, a efpada como inftrumemo dasviótorias, ôc as fete Eftrellas como r 4poc. i . íimbolo dos Sacramentos, Sacramentum feptem StcU IkYum quffd vidifti in dextera , darlheei por cetro a prodigiofa vara, com que Moyfes abria , 5c fechaua os mares, pois domando com fuasfiotas o O- ceano, aos infiéis occafionou naufrágios, 5c aos fieis triunfos; para formar ospes, tomo aquellas duas columnas, com que Hercules pos termo ao curfo da fuanauçgaçao , pois pondo elRey Dom Manoel com as armas o non plus vlxra às prouas
3o valor, poz também çom o zelo aos prôgreífos da Infidelidade , o non plus vltra : Serão finalmente o mar, & a terra, a baíe defta Eftarua, quefe o Anjo , a quem vio Sao Ioao , tinha hum pé no mar, & outro na terra, no meíino tempo, que elRey Dom Manoel íogeitou aterra aos CÍiriítaos, fomergio aos Infiéis em hum mar deíangue*, Viua logo elRey Dom Manoel no templo da me¬ mória para os aíTombros, pois tudo nefta terrena Deidade forao extremos; <vocat?iwrnomen ejus Em - Manuel 3 Emmanuel , id tfl , nohifcum Deus , II. PARTE. Emos admirado no templo da memória ás façanhas do noffo Rey , abrafe agora para deíafogo da nofia dor o templo do coraçao. A morte que tem poder para defterrar os homens do mundo , nao tem poder para defterrar dos cora- Çoens o fentimento, permanecem apefar defta th r ana as magoas, continuab as lagrimas, perfeuerao as faudades , &: nunca mais viuos eftao no mundo °s Heroes , do que quando os chora mortos o mundo. Grande proua defta verdade a de Abíabo j vendoíè Abíalao íem filhos, ôc ícm fuccefbò,( vnico meio com que os mortacs fe fazem eternos) determinou para deixar alguma lembran¬ ça de Ci , de fabricar o fepulcro em que o hauiao C de
t.8 enterrar, non bttíeo filium, hoc erit monimentttm nomints mcr, hà cafo maisadmiraueb vera Abía-i u>mh m n " a ^ r ' r afèpultara, para íe affegurar a vida, buícar no hoípicio das íombras, o Oriente da íua. <«a 4b gloria , & no dèpofito das fuas cinzas , o theíouro ^ bnmortalidade! oh ! naó eftranheis o cafo,queria fw']fe4rclt Ablàl ó eternizar a íua lebrançamos coraçoésdos triüfkaiZ: v i n dou r o s , & para efte efifdto,naó achcurneio mais efficaz do que a fabricade humíepulcro ; non ftatwm babco filium, Eu , dizia Abfalam , já naó poífo vi- —fuer na poíleriJade dos filhos, roas bempoflõ amexi!Hi»a»t da viucr nosfeniimentos da poíteridade , St ja qae fiitfe fc[ulr< jj as . efperanças de deixar fucceflbres dos meus c - mm ' Eftados, farei, com que deixe aos meus Eílados,, fííudades ;• à viíta deite meufepulcro, deípeitaríeha a memória do meu nome , & íe chorarem os , deícendemes a minha morte, ferà para mim cada coraçaó hum. trono, em que cornarei areinar.cada fufifiro fera, hum obíequio, & cada lagrima hum, ínburo , , . n onhAio filium, bocerit mámcntum.nom* ”^Mas que vans foraó as efperanças de ABfalaro,, pois nem, teus filhos , que rep.araíTem a íua mortali¬ dade, nem defeendentes, qüe chorallem a íua mor¬ te i Scpellocontrario, que bem fundada heagloriadoSereniííimo Rey Dom Manoel, pois deixou a Poitugal tantas imagens fuas, quantos craó os íeus filhos, & tantasfaudades aomundo, quantaseraó as • fuas;-
19 tuas virtudes: Efcreue Athenco daquelíe íamofo Rey de Lidia, chamado Giges, que' leuantara á T h c ^. i U foa efpoía hum maufoleo de hum a tam exceffiua altura, que íe podia facilmente ver de todas as par¬ tes do Reino, &: cu , íe me fora poííiuelj fabri¬ cara hoje ao noíTo inuiéliíFimo Monarca hum íepulcro , que fe deícobriífe das quatro partes do mundo, da Afia no Oriente, da África no meio dia , da America no Occidente , ôc da Europa no Settcntriao A viltadefte real maufoleo , derrete¬ ria a Afia as íuas pérolas em lagrimas, & efqueçidado valor dos íeus diamantes, empregaria na eftimaç . 16 deftas cinzas, o icu cuidado ; a África íè retiraria para o interior dos íèus defertos, &corao lamentauel ecco das fuas queixas, retumbaria o mais profundo das cauernas ■ , tornaiiaa America a fe efeonder aos noífos olhos em demoftraçam de fentida, & obrigaria até a barbaridade dos feus habitadores a conceber ternuras, & admitir íàiidades : chorariao finalmente todos os Reinos da Europa as memórias do noílb Rey , em agradeci¬ mento de feus benefícios, & fe nao os vejo proftrados diante deííe voífò tumulo , ò glorioío Moriarca , vejo, que eítao adorando fobre os altares da fama, os reíplandores da voífa virtude. Lembraie Caflella que quando rebellada ao Emperador Carlos V. vos elegeo por feu Rey v defprezaftes a grandeza daíuacoroa, manifeftanc Cij do
10 do com efta acçao, que hum Princepe, que tudo deuiaao valor da fuaefpada, nao fazia caio dos Reinos, que lheofferecia a fortuna. Agradeceuos a Republica de Veneza o poderofo loccorro dos quatro mil foldados, & trinta velas, que lhe mandaftcs contra os infultos dos Turcos, que sò da interpofiçaodo voíTo braço inuenciuel, fe podia efperar o eclipfe das Luas Otomanas*, Attribue Ro¬ ma aos primores do voílo zeio, a emenda dos feus coftumes, pois.auifando por voífos Embaixado¬ res a o.Papa Alexandre fexto do deícuidocom q« e íè viuia naquellaMetropoli da Chriftandade, refrea* fies :a liberdade dos vicios, admirandofe o Vatica¬ no, dequetiueffc Portugal hum Rey nao menos capaz de reformar a Igreja, que de conquiftaro mundo. Mas que viuos íao os fentimentcs, que te ficarao pella morte de lium tao grande Rey, 6. Portugal, fendo que por grande que feja o excefío - da tua dor, nao íe poderá nunca igualar com a grandeza da tua perda j Sabes que grandes danos cauía a hum Reino, a morte de hum bom Prince-' pe ? a morte de hum Princepe bom, he huma tao » grande perda , que sòaprefença de Deos, he ca¬ paz para a reftaurar, proua ? fy. Eftaua Moyfes com Deos na monte Sinai em dilatados colloquios delicioíámente enleuado, quando o pouo de Ifrael, perdidas já as efperaiiçfs de o tomar a ver, tratou com Arao da eleiçãode-
de hum riouo Rey ; fite nobis Deos , qui nos pr<ece- Sxul dmt , Myyjt enim knic * viro ncfcimus quid acciderit „ I * là que Moyfes deixou o gouerno , queremos, di¬ zem os ífraelitas, que em íeu íugar os Deofes nos gouernem foc nobis Deos qui nosprtcedm ; pois por¬ que hao de ter qualidades diuinas os íucceíTores de Moyíes?& para que heempenhaoosthefourosdadH uindade na reftaurnçao da perda de hu homé ? Reípondo corn o Abulenfe^ra Moy fes hü Princepe tao cabal, & tao pei feito , que nao hauendo entre os homens, quem podeíTe fuftituir os feus talentos, sódaprefença toda fuafalca niendus , Vifum direólorem haberepoterantmfi Deus efjet ; Aprende da¬ qui ô Portugal que inuereffido eífas na conferuaçAo do Priacepe,que te gouernà^ vê junramente, que juftasfabasfaudades defteRey, que choras» que so Deos he capaz para compenfar a perda de Princepes perfeitos, fac nobis Deos qui nosprúcedant. Mas que muito que feja neceííaria a prefença da Diuindade para refazer os danos % que caufou a morte delRey Dom Manoel, quando elRey Dom Manoel participou na vida os maiores ■ attributos da Diuindade; os maiores attributos da Diuinda¬ de ( fallo em ordem as obras ad extra ) os maiores Atributos da Diuindade, fao a Omnipotência, ôc ^ Mifericordia, a Omnipotência na criaçao do • ' Giij ruLin¬ de Deos íe. podia eíperaroíupnme- , mlliis talisvc Moyfes VidebdtHr inne- AbuU cyfo fttit eis\ mod mllum fitffieientein
mundo , òí a Mifericordia na redempçam dos ho 2 mens. Refplandecerao em elRey Dom Manoel eftcs dons attributos, a Omnipotência pella moltidao dos templos que erigio, & a Miíericordia pellos empregos defta fanta Caía que fundou. Va¬ mos ao primeiro *, diz Filo Hebreo no liuro fegudo da Monarquia,que Deos íabricou o mundo a modo de hum templo, o que parece entendeo S. Paulo , chamando templo ao homem , que nao iie outra coufaquehum pequeno mundo, nefcitis (juia templum Dei ejlis ? A eíte grande templo do Mundo ferue o Empireo de facrario, o Sol,& a Lua dealampadas.., os montes de Altares, as Eíírellas deveilas, as intclligencias de roiniílros, asauesde muíicos, o Homem de Sacerdote , os animaes de Midi mas, o Ceo de tedo , & a terra de pauimen- . to; logo , fe humamefma coufafao o mundo , ôe hum templo, digamos que elRey Dom Manoel fabricou mais decincoenta mundos, porque ? por¬ que edificou mais de cincoenta templos, que af» Cm como o mundo he hum grande templo, aífim cada templo he hum pequeno mundo; Eis aqui o como elRey Dom Manoel imitou a Deos no attributo da Omnipotência, a gloria que alcançou em o ter imitado no attributo da Mifericordia , he ainda maior. Affirma p Profeta Rey, que o attributo da Mifericordia he íuperior a todos os attributos da Di-
Diuindade, mifirationes ejus fuper omnia opera ejüs } & dà Santo Hilário a razao , ideopraflat catem ope - nbus mfiericodia , quia magnifica ejus operatio , Vir tu tis fia eft , mifericordta vero e)us^ vfits alienus , todqs os mais attributos de Deos fao créditos da íua glo¬ ria , a fimplicidadeheo credito da fua natureza, a independenciaheo credito do.feu poder,& a eternidade he o credito da fua duraçao, mas oattributo da Miíericordia, he o remedio da noffa miferia , & he acçaó muito mais glorio fa, remedear as miferias alheas, que oftenraros luftres da própria grádeza, por onde diíTe Sao Ioao Chrifoftomo , que a virtude da Mifericordia era para o ora* dor o maior aflumpto dos louuores de hum Princep t^fi quis P rincipem laudare njelletfiibilei ade o de - corum adjcribetr aujue mifericordiam. Perdoainos pois, mifericordiofo Princepe, fe deixamos todas as memórias da vofla grandeza , para celebrarmos' ió os triunfos da vofla piedade; admiremíe outros das continuas viótorias que aícançaftes em ambos os Emisferios , o zelo com que íundaftes efta íanta Caía da Miíericordia, he o vnico emprego da nofla admiraçao-, que muito maior bem refukaao mundo , do amparo dosOrphaos, que daxonquifia dos Reinos, do enterro dos mortos, que da VaíTalagem dos viuos, & da vifita de pobres, encubertos que dodefeubrimenro de nouos mundos, toihcrationes ejw fuper omnia opera ejits.* Tfalrüm M4- S. HiU, rim m Pfalm* j 4 4 *
2.4 Mas fe a Mifericordia he muito para celebra¬ da nos Princepes, também he muito para agrade¬ cida nos vaííalos} á diuina Mifericordia, & nam á Omnipotência diuina, ou a qualquer dos mais attributos promete Dauid eternos agradecimétos, Tfdm, 18 Mifericordias Domíniin Atermm cantabo j labeis por¬ que ? porque Dauid íe conhecia mais obrigado à diuina Milericordia , do que a nenhum dos attri¬ butos diuinos, òc o que exccífiuamente obriga, sò em htfma eternidade fe paga, Mifericordias Domni in&mmm cantabo ; efta a meu ver, he a razao, porque entre tantas Igrejas, que edificou elRey Dom Manoel, sò efta íe lhe mollra neftas annuaes exequias eternamente agradecida, que no meírrio lugar, em que efte piadofo Princepe competio com a diuina Milericordia, razao eia, fe lhe preparaífe hum agradecimento, que competiíTe com a diuina Eternidade, Mifcricordias Domini ia Aternií cantabo. A morte mais fentida,que houue no mu¬ do, foi a do innocente Abel, pois íegundoo A- bulenfe, feus paysa chorarao pello efpaço de cé annos, &íe no fim delles fufpenderaò finalmente as lagrimas, & diuertirao as penas, mais de cento, & quarenta, &noue annos ha, que efta fanta Caía lufpira pello feu Rey com taò viuaslaudades, que no mefmo tempo , que o chora morto aos fen¬ didos, o reíúícita nos coraçoés *, morreo elRey D. Manoel huma sò vez ao mundo, mas nace todos os
annos ao fentimento , fi , eíle tumulo , he o berço que lhe fornia a noífa dor , efles panos iao asmatilhas, eílas fachas que ardem, fao os^Aftros que íiefte fúnebre nacimento predominao, & fe he verdade [ como nao duuido ] pois o affirma Santo Epiphanio que o fepulcro do Profera Daniel efta Saxftm feito com tam rara architedura , que nao sò nao enuelhece com o correr dos annos, mas antes ta Daqual prodigiofo Femz cohtinuamenre íe renoua, rcnouafe também todos os annos a pompa deite fúnebre apparato, que era bem deuido ao Femz dos Monarcas, o Feniz dos fé pulcros, yòcMur nomtn ejas Emrtunüd . Ernmamd , id ejl , nobiÇcum Deus. III. PARTE. F i n a l m e n t e viue elRey Dom Manoel no tem¬ plo do entendimento para os defenganos, pois achamos noeclipfe defte Sol,o remédio da noíla cegueira , & debaixo deíle tumulo, o au¬ ge da noíla fortuna. O maior auge, que fe pode imaginar de fortuna, he chegar hum homem a fer Rey, & para chegarm c s a eíle pon¬ to de grandeza, baíta que coníideremos neílas cin¬ das, o fim > em que haò de vir a parar todas as grandezas, que o homéem fe conhderandomortal, de eferauo fe faz Rey, &c em fe eíquecendo da morte, de Rey fe faz eícrauo. Foi Adam o D P r i -
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