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Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 22, nº 44. Segundo semestre de 2020. Pp. 303-324. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2020.i44.14 Sofística e Retórica no Górgias de Platão1 Sophistry and Rethoric in Plato’s Gorgias Daniel R. N. Lopes2 Universidade de São Paulo (Brasil) Recibido: 23-09-19 Aprobado: 16-06-20 Resumo O presente artigo tem como intuito elucidar a distinção entre sofística e retórica no diálogo Górgias de Platão, a partir da asserção enigmática de Sócrates de que “sofistas e rétores se diluem em uma mesma coisa e com relação às mesmas coisas devido à sua contiguidade” (465c4-5). Para tal fim, abordaremos, no primeiro momento, a genealogia dos termos gregos sophistikē e rhētorikē na literatura grega supérstite, buscando mostrar que as noções de “sofística” e “retórica”, tal como as entendemos de um modo geral hoje, são frutos da operação platônica-aristotélica de delimitação de um tipo de pensamento e prática pedagógica em oposição à “filosofia”. No segundo momento, passaremos à análise dos diálogos platônicos, mais especificamente o Górgias e o Protágoras, em que essas duas noções se encontram em processo de delineamento teórico. A ideia geral é a de que a retórica seria parte integrante da educação sofística representada em Platão paradigmaticamente pela figura 1 As traduções de todas as passagens são de minha autoria: as do Górgias e do Mênon de Platão (Lopes, 2011) tiveram como texto-base a edição de John Burnet (Platonis Opera, Tomus III. Oxford: Oxford Classical Texts, 1968); a da República de Platão, a edição de S. R. Slings (Platonis Republicam. Oxford: Oxford Classical Texts, 2003); a do Contas os Sofistas de Isócrates, a edição de G. Mathieu & É. Brémond (Isocrate. Discours, vol. 1. Paris: Les Belles Lettres, 1963); e a da Retórica de Aristóteles, a edição de W. D. Ross (Aristotelis Ars Rhetorica. Oxford: Oxford Classical Texts, 1959). 2 ([email protected]) É professor doutor de Língua e Literatura Grega do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas (DLCV) da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP). É autor dos livros Górgias de Platão (Ed. Perspectiva, 2011) e Protágoras de Platão (Ed. Perspectiva, 2017), e tem se dedicado aos estudos sobre psicologia moral em Platão (“Moral psychology in Plato’s Gorgias”, Revista de Filosofia Antiga, v. 11, pp. 1-39, 2017), e sobre a história do pensamento ético-político grego (“O limite da democracia: o problema da tirania do ponto de vista psicológico em Heródoto e no Édipo Rei d Sófocles”. In: Sebastiani, B.; Leão, D.; Sano, L.; Soares, M.; Werner, C. (org.). A Poiesis da Democracia. 1ed. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2018, v. p. 325-352). ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9818-8977
304 Daniel R. N. Lopes Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 22, nº 44. Segundo semestre de 2020. Pp. 303-324. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2020.i44.14 de Protágoras, entendida como instrumento necessário para a atuação nos espaços de deliberação coletiva (Conselho e Assembleia), ao passo que, no caso de Górgias, a retórica, e mais especificamente a espécie judiciária, se apresenta como o fim mesmo de sua proposta pedagógica, e não como instrumento para uma formação moral e intelectual mais ampla – ou seja, o ensino da arte política, identificada com a própria virtude moral no diálogo Protágoras. Palabras-clave: Filosofia, Retórica, Sofística, Democracia. Abstract This essay aims at elucidating the distinction between sophistry and rhetoric in Plato’s Gorgias starting from Socrates’ enigmatic contention that “sophists and rhetors are mixed up in the same area and about the same thing, since they are so close to each other” (465c4-5; Irwin’s translation). To this end I will discuss, firstly, the genealogy of the Greek words sophistikē and rhētorikē in the remaining Greek literature, attempting to show that the modern notions of “sophistry” and “rhetoric” in a broad sense derive from a Platonic-Aristotelian operation of delimitating a special kind of thought and pedagogical activity in opposition to “philosophy”. Secondly, I will analyze some passages of Plato’s Gorgias and Protagoras in which these two notions are being theoretically defined. The general idea pursued in this essay is that rhetoric integrates the sophistic education represented paradigmatically by Protagoras as a necessary means for the citizen to take part in the deliberative institutions of a democratic city (Counsel and Assembly), whereas in the case of Gorgias rhetoric – and more specifically, the judiciary species – consists in the end itself of his pedagogical activity, and not as a means to a wider moral and intellectual education – that is to say, the teaching of political art, identified with moral virtue in Plato’s Protagoras. Key-words: Philosophy, Rhetoric, Sophistry, Democracy. 1. Aspectos genealógicos dos termos sophistikē e rhētorikē Na segunda parte do Górgias, Sócrates apresenta a Polo sua concepção de “retórica” como uma pseudoarte (mais especificamente, como uma espécie de adulação [kolakeia]) em resposta à pretensão de Górgias de defini-la como uma arte [tekhnē] do discurso concernente a questões de justiça e injustiça, em conformidade com as exigências estipuladas por Sócrates para a delimitação
305 Sofística e Retórica no Górgias de Platão Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 22, nº 44. Segundo semestre de 2020. Pp. 303-324. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2020.i44.14 do objeto de seu conhecimento. Em seu primeiro longo discurso no diálogo (464b-466a), Sócrates faz a seguinte ponderação: SOC: […] Então, para que eu não me estenda em um longo discurso, desejo dizer a você como dizem os geômetras (pois talvez já me acompanhe): a indumentária está para a ginástica, assim como a sofística [sophistikē] está para a legislação [nomtohetikē], e a culinária para a medicina, assim como a retórica [rhētorikē] para a justiça [dikaiosunē]. Todavia, saliento, há por natureza tal diferença, mas, devido à sua contiguidade, sofistas e rétores se diluem em uma mesma coisa e com relação às mesmas coisas, e não sabem o que fazer de si mesmos, tampouco os demais homens, o que fazer deles. (465b6-c7; meus itálicos) {ΣΩ.} […] ἵν’ οὖν μὴ μακρολογῶ, ἐθέλω σοι εἰπεῖν ὥσπερ οἱ γεωμέτραι – ἤδη γὰρ ἂν ἴσως ἀκολουθήσαις – ὅτι ὃ κομμωτικὴ πρὸς γυμναστικήν, τοῦτο σοφιστικὴ πρὸς νομοθετικήν, καὶ ὅτι ὃ ὀψοποιικὴ πρὸς ἰατρικήν, τοῦτο ῥητορικὴ πρὸς δικαιοσύνην. ὅπερ μέντοι λέγω, διέστηκε μὲν οὕτω φύσει, ἅτε δ’ ἐγγὺς ὄντων φύρονται ἐν τῷ αὐτῷ καὶ περὶ ταὐτὰ σοφισταὶ καὶ ῥήτορες, καὶ οὐκ ἔχουσιν ὅτι χρήσονται οὔτε αὐτοὶ ἑαυτοῖς οὔτε οἱ ἄλλοι ἄνθρωποι τούτοις. Nesse quadro das quatro artes relativas à alma e ao corpo e de suas correspondentes pseudoartes (ver abaixo), encontramos a menção a um problema que ainda permanece motivo de controvérsia nos estudos contemporâneos sobre os sofistas3: em que medida sofística e retórica se distinguem e se relacionam?4. Os testemunhos antigos são aparentemente insatisfatórios em suas explicações para tal confusão. Em seu comentário ao Górgias de Platão (14.10), o neoplatônico Olimpiodoro, ao analisar a passagem acima, considera que a indumentária e a culinária, na medida em que são simulacros [eidōla] relativos ao corpo, não se confundem porque são discernidos pela alma; se fossem discerníveis pelo corpo, também elas se confundiriam. No caso dos simulacros [eidōla] relativos à alma, uma vez que é a própria alma a discerni-los e a ser afetada por eles, ele se limita a reiterar o problema com uma pergunta retórica: “como a alma poderia discernir a retórica e a sofística uma vez subjugada e escravizada?”. A explicação encontrada nos escólios do 3 O cerne do problema, que nos remete diretamente à passagem do Górgias citada acima, é resumido da seguinte maneira por Guthrie, na introdução ao volume dedicado aos sofistas de sua História da Filosofia Grega (vol. 8): (1971: 44) “É um exagero dizer, como frequentemente tem sido dito, que os Sofistas não tinham nada em comum a não ser o fato de que eles eram professores profissionais, nenhum terreno comum nas matérias que ensinavam e na mentalidade que essas produziam. Ao menos uma matéria todos eles praticavam e ensinavam em comum: retórica ou a arte do logos”. A posição mais extrema defendida por alguns estudiosos como Douglas J. Stewart, C. J. Classen e George Kennedy (apud Schiappa, 2003: 54-55), é reduzir a sofística ao ensino de retórica. Para uma visão geral do problema e uma proposta de reavaliação do escopo do ensino sofístico, ver Schiappa, 2003: 54-58. 4 Sócrates se refere ao mesmo problema em outra passagem do diálogo, ao dizer que “o sofista e o rétor são o mesmo, ou muito próximos e semelhantes” (520a7-8).
306 Daniel R. N. Lopes Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 22, nº 44. Segundo semestre de 2020. Pp. 303-324. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2020.i44.14 Górgias, por sua vez, segue uma perspectiva semelhante, embora mediante uma argumentação mais enigmática: a causa da confusão entre sofística e retórica não se deve exatamente à natureza dessas atividades enquanto tais, que são claramente discerníveis, mas à condição anímica distorcida tanto de sofistas e rétores, quanto dos indivíduos que buscam distinguir tais atividades com base nessa confusão anímica de sofistas e rétores; em outras palavras, o engano gerado por essa distorção anímica nesses dois níveis acaba por contaminar o próprio objeto a ser discernido – a sofística e a retórica5. Ambas as versões, portanto, fundamentam-se na dualidade corpo-alma que permeia toda a passagem do texto platônico, buscando oferecer assim uma explicação de caráter epistemológico para o problema. Embora o aspecto epistemológico seja certamente relevante, ele é apenas parte da questão. O objetivo deste artigo, portanto, é justamente oferecer uma resposta mais compreensiva ao problema da distinção entre sofística e retórica, ainda que circunscrita à análise da questão no diálogo Górgias, com apoio de alguns aspectos teóricos do Protágoras. Para tal fim, é preciso esclarecer previamente alguns pontos relativos à genealogia dos termos centrais envolvidos – sophistikē e rhētorikē – e de seus correlatos de modo a situar historicamente o problema, pois as noções de “sofística” e “retórica” são legados, por assim dizer, do pensamento de Platão e Aristóteles. O célebre artigo publicado por Edward Schiappa em 1990 (Did Plato coin rhētorikē? The American Journal of Philology, Vol. 111, No. 4), um divisor de águas nos estudos sobre retórica no mundo grego, chamou a atenção para o fato de que não há ocorrências do termo rhētorikē e/ou correlatos na literatura supérstite do séc. V a.C. (Eurípides, Aristófanes, Heródoto, os fragmentos dos chamados “sofistas”, Dissoi Logoi); e mesmo na literatura do séc. IV a.C. onde seriam esperadas tais ocorrências, como no caso da obra de Isócrates e da Retórica a Alexandre atribuída a Anaxímenes de Lâmpsaco, a frequência desses termos e seus correlatos é rara, exceção feita a Platão e Aristóteles6. Para Schiappa, podemos assumir com segurança que, se não foi Platão quem cunhou o termo rhētorikē, é ao menos certo que ele era relativamente novo na época de composição do diálogo Górgias7. Por conseguinte, ao menos do ponto de vista linguístico, não poderíamos falar nem mesmo de “retórica” propriamente dita 5 Pieri, 1991: 370-371. 6 Thomas Cole (The Origins of Rhetoric in Ancient Greece. The John Hopkins University Press, 1991) parte do mesmo princípio de Schiappa para propor que a literatura do séc. V e começo do séc. IV, denominada “retórica” pela visão tradicional sobre as origens da retórica na Grécia, deve ser entendida antes como protorretórica. O argumento-chave é o mesmo de Schiappa: o reconhecimento da retórica como disciplina, que coincide com a invenção do termo rhētorikē, se deve a Platão e, posteriormente, a Aristóteles, os responsáveis por “estabelecer as categorias básicas e as definições que, aqui como em qualquer lugar, passaram a ser impositivas na antiguidade e para além dela” (1991: 2-3). 7 Schiappa, 1990: 469-470; Schiappa, 2003: 48.
307 Sofística e Retórica no Górgias de Platão Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 22, nº 44. Segundo semestre de 2020. Pp. 303-324. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2020.i44.14 antes de sua delimitação, em oposição a outras formas de discurso, no seio no pensamento filosófico do séc. IV a.C.8 O mesmo pode ser dito a respeito do termo sophistikē: é notório que Platão cunhou inúmeras palavras com o sufixo grego -ikē para designar “a arte de” ao se referir a atividades particulares, como vemos sobretudo no Sofista, e se não foi ele quem empregou pela primeira vez sophistikē para designar “a arte do sofista”, seja lá o que isso queira dizer, o seu uso era certamente recente na língua grega9. Uma busca eletrônica no Thesaurus Linguae Graecae revela que não há ocorrências do termo sophistikē na literatura supérstite anterior a Platão e Aristóteles10, o que sugere, de modo semelhante ao caso de rhētorikē, que o termo passa a ser empregado de maneira marcada pelo pensamento filosófico para designar, em linhas gerais, um tipo de pensamento e prática pedagógica opostos ao que se delineará como “filosofia” nas obras desses autores. Esse ponto ganha relevo quando levamos em consideração a semântica do próprio termo sophistēs (“sofista”), do qual sophistikē deriva. A princípio, sophistēs, da mesma raiz de sophia (“sabedoria”) e sophos (“sábio”), era empregado no séc. V a.C. para se referir a diversos tipos de indivíduos que eram reputados como sábios: os poetas (Píndaro, Ístmicas 5.28), os adivinhos (Heródoto, Histórias 2.49), os músicos (Ésquilo, Fr. 314), os chamados “Sete Sábios” (Heródoto, Histórias 1.29), os investigadores da natureza (Hipócrates, De Prisca Medicina 20.1-6).11 O uso do termo nesses casos tem uma conotação positiva, qualificando 8 Schiappa & Timmerman sintetizam o problema da seguinte forma (2010: 10-11): “Antes da cunhagem do termo rhētorikē, logos era o termo-chave tematizado nos textos e fragmentos geralmente atribuídos à história da teoria retórica do séc. V a.C. Os textos e fragmentos concernentes ao logos sugerem diferenças importantes na maneira em que a arte do discurso foi conceitualizada antes e depois da invenção de rhētorikē. Antes da cunhagem de rhētorikē, as artes verbais eram entendidas como menos diferenciadas e mais holíticas em escopo do que elas foram no séc. IV a.C.; o ensino e treinamento associados ao logos não traçam uma linha acurada entre as metas da busca pelo sucesso e da busca pela verdade, como é o caso quando retórica e filosofia foram definidas como disciplinas distintas.” 9 Schiappa oferece trinta exemplos de palavras terminadas em -ikē denotando “a arte de” que, segundo o LSJ, aparecem pela primeira vez em Platão, mais especificamente no Górgias, Eutidemo e Sofista (2003: 60, n. 18). De acordo com Pierre Chantraine (Études sur le vocabulaire grec. Paris: Klincksieck, 1956, 97-171), a quem Schiappa recorre como suporte para sua interpretação, dos mais de 350 termos em -ikos em Platão, mais de 250 não são encontrados em textos anteriores. 10 Uma busca eletrônica no TLG acusa três ocorrências de sophistikē em fragmentos de autores anteriores a Platão (Ésquilo, Antifonte e Trasímaco), mas que concernem antes ao uso do termo pelos autores do período helenístico e imperial que nos legaram tais fragmentos (Frínico, Filóstrato e Filodemo, respectivamente) – ou seja, não aparece no texto propriamente dito dos autores que reportam. Eis as referências dos fragmentos: (i) Ésquilo (Die Fragmente der Tragödien des Aischylos, Ed. Mette, H.J. Berlin: Akademie–Verlag, 1959. Tetralogy 31, play A, fragment 307b, line 2: βekker. 1073); (ii) Antifonte (Die Fragmente der Vorsokratiker, vol. 2, 6th edn., Ed. Diels, H., Kranz, W. Berlin: Weidmann, 1952, Repr. 1966. Fragment 44a, line 2); (iii) Trasímaco (Die Fragmente der Vorsokratiker, vol. 2, 6th edn., Ed. Diels, H., Kranz, W. Berlin: Weidmann, 1952, Repr. 1966. Fragment 7a, line 4). 11 Kerferd 1981: 24-25. Ver também Guthrie 1971: 27-34; Schiappa 2003: 3-12. Heródoto se refere também a Pitágoras como um sophistēs (Histórias, 4.95.2).
308 Daniel R. N. Lopes Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 22, nº 44. Segundo semestre de 2020. Pp. 303-324. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2020.i44.14 uma competência específica sobre um certo campo do saber que distingue a figura do sophistēs dos homens comuns. Sendo assim, o sentido primeiro de sophistēs conserva em si a afinidade semântica com os termos correlatos sophia e sophos, como observa o próprio Platão na fala da personagem Hipócrates no Protágoras: “eu considero que [o sofista] é, como o próprio nome indica, o conhecedor das coisas sábias” (ἐγὼ μέν, ἦ δ’ ὅς, ὥσπερ τοὔνομα λέγει, τοῦτον εἶναι τὸν τῶν σοφῶν ἐπιστήμονα, 312c5-6). A noção marcada de “sofista” como um mercenário do saber, como “mestre de virtude” ou “educador dos homens”, que será constituída paulatinamente nos diálogos platônicos como o antípoda do “filósofo”, também não aparece de maneira patente na literatura supérstite do séc. V e início do séc. IV a.C. O caso mais emblemático é o da comédia As Nuvens de Aristófanes, encenada em 423 a.C.: embora o juízo comum da crítica contemporânea seja de que Sócrates é representado pelo comediógrafo como “filósofo da natureza” e “sofista”, uma análise filológica atenta do texto mostra que as ocorrências do termo sophistēs e de termos compostos de sophistēs na peça não se coadunam com a noção genérica da figura do “sofista” em Platão, delineada paradigmaticamente na Apologia (19e-20c), como elucidaremos abaixo. São apenas quatro ocorrências, sendo que só uma delas é empregada para qualificar a personagem cômica de Sócrates: meteōrosophistēs (v. 360), que significa literalmente “sábio em assuntos relativos aos corpos celestes”; na passagem, o termo é usado para designar antes o interesse desses intelectuais por questões astronômicas do que propriamente o ofício de educador da juventude, sentido esse que seria mais próximo à noção genérica de “sofista” nos diálogos platônicos. Além disso, o termo parece ser empregado sem uma conotação necessariamente pejorativa, pois visa apenas a descrever o suposto interesse de intelectuais, tais como “Sócrates” e “Pródico” (referidos nominalmente na passagem), por essa área específica do conhecimento científico em pleno desenvolvimento naquela época12. 12 A primeira ocorrência do termo sophistēs na peça se dá pela boca de Sócrates no verso 331, referindo-se a “adivinhos de Turi, profissionais de medicina, cabeludos preguiçosos com anéis e unhas feitas, entortadores de coros ditirâmbicos e astrônomos charlatões” (vv. 331-334). A despeito da dificuldade de precisarmos os referentes específicos dessas diferentes classes de “sábios”, o termo sophistēs é aplicado ainda no sentido genérico de “um indivíduo dotado de um saber específico que os distingue dos homens comuns”. As outras duas ocorrências de sophistēs na peça são empregadas, por sua vez, para qualificar Fidípides (v. 1111) e Estrepsíades (v. 1310a): a primeira aparece na voz do “Discurso Fraco” (identificado com o “Discurso Injusto”), depois de vencer o agōn contra o “Discurso Forte” (identificado com o “Discurso Justo”), para designar a competência técnica que Fidípides está prestes a adquirir com as suas lições (i.e. “aprender a falar bem”, cf. v. 1143); a segunda aparece na voz do Coro, para designar a esperteza de Estrepsíades ao tentar se safar injustamente dos dois credores que exigiam o pagamento das dívidas contraídas por ele e pelo filho. Nos dois casos, há claramente um juízo negativo associado ao saber adquirido por Fidípides e Estrepsíades no “pensatório”, uma vez que ele é praticado em vista de fins moralmente censuráveis (por ex. vv. 1131-1153; 1303-1320). Todavia, ainda assim as duas ocorrências do termo se aplicam antes ao “produto” da educação oferecida pelo
309 Sofística e Retórica no Górgias de Platão Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 22, nº 44. Segundo semestre de 2020. Pp. 303-324. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2020.i44.14 Talvez a ocorrência de sophistēs com o sentido mais próximo daquele empregado por Platão esteja em Tucídides, mesmo sendo muito difícil de precisar as condições e o período de composição da História da Guerra do Peloponeso, seja de suas partes seja da obra como um todo (final do séc. V e início do séc. IV a.C.). No célebre Debate sobre Mitilene, Tucídides atribui a Cléon, o político mais influente na época do acontecimento (427 a.C.), um discurso em que repreende o prazer da massa pelo debate político, que colocava os próprios interesses de Atenas em segundo plano, comparando seu comportamento ao dos “espectadores dos sofistas” (sophistōn theatais, 3.38.7), a única ocorrência do termo sophistēs na obra do historiador13; trata-se provavelmente de uma alusão às exibições retóricas dos sofistas, referidas no diálogos platônicos pelo termo epideixis e/ou correlatos14. Esses aspectos genealógicos, portanto, são suficientes para mostrar que quando abordamos o tema “retórica” e “sofística” no Górgias estamos lidando com uma obra em que essas próprias noções estão sendo delineadas no interior do pensamento platônico. Evidência suplementar disso é que, com exceção feita aos diálogos Górgias e Fedro, em que a retórica é um tópico teórico central em discussão, encontramos apenas uma ocorrência de uma expressão correlata de rhētorikē nos diálogos de Platão (to rhētorikon eidos, Político 304e1). No caso de sophistikē e/ou correlatos, além do Górgias apenas o Eutidemo, o Protágoras e o Sofista trazem ocorrências do termo no sentido de “a arte do sofista” ou simplesmente “sofística”, justamente nos contextos argumentativos em que Platão está delimitando teoricamente esse tipo específico de “saber” e/ ou prática pedagógica em oposição à filosofia tal como ele a concebia15. 2. Sophistikē e rhētorikē nos diálogos platônicos Nessa perspectiva histórica do problema, é um elemento bastante relevante o fato de Platão colocar na voz da personagem Protágoras a seguinte afirmação: “assumo que sou sofista [sophistēs] e educador dos homens” (ὁμολογῶ τε σοφιστὴς εἶναι καὶ παιδεύειν ἀνθρώπους, Protágoras, 317b4-5); assim como na de Górgias, que ele se apresenta aos homens como rétor [rhētōr]16, na “pensatório” de Sócrates, do que àquele que é responsável por esse tipo de ensinamento (no caso, a personagem Sócrates). Portanto, essas duas ocorrências de sophistēs em As Nuvens também não se coadunam exatamente com a noção genérica de “sofista” em Platão. 13 Hornblower, 1991: 427. 14 Platão, Górgias 447a6, 447b2, 447b8, 447c3, 447c6, 449c4; Hípias Menor 363a2, 363c2, 363d2, 364b4-5, 364b8; Hípias Maior 282b7, 282c4, 282c7, 286b4-5; Protágoras 320b8-c7; Eutidemo 274d2, 274d6, 274d7, 275a4, 275a5. Ver também Aristóteles, Retórica I 1358b2-8. 15 Sobre o léxico platônico referente à sofística e à retórica, ver Des Places, 1970: 451, 459-460. 16 Como observa Schiappa (1999: 156), o termo [rhētōr] aparece apenas uma única vez em Homero (Il. 9.443) e em uma inscrição legal datada por volta de 445 a.C. As demais ocorrências aparecem nas
310 Daniel R. N. Lopes Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 22, nº 44. Segundo semestre de 2020. Pp. 303-324. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2020.i44.14 medida em que a arte que ele conhece e promete ensinar é a retórica [rhētorikē] (Górgias, 449a5-6). Ademais, em nenhuma passagem do diálogo Protágoras é qualificado como rétor17, assim como Górgias nunca é referido expressamente como sofista no diálogo homônimo. É como se Platão estivesse selecionando essas duas figuras históricas como representantes paradigmáticos em sua obra do que ele definirá como “sofística” e “retórica”, respectivamente. No entanto, o quadro teórico não é tão simples assim, pois no Fedro Platão faz referência a “livros escritos sobre a arte dos discursos” (τά γ’ ἐν τοῖς βιβλίοις τοῖς περὶ λόγων τέχνης γεγραμμένοις, 266d5-6) e cita nominalmente Tísias, Górgias, Teodoro, Pródico, Hípias, Eveno, Polo, Protágoras e Trasímaco, o que implica que todas essas figuras também ensinavam, em certa medida, “retórica”, tal como definida no Górgias e rediscutida posteriormente no Fedro. De modo similar, ao esboçar o que seria a sua noção genérica de “sofista” na Apologia (19e-20c), Platão se refere nominalmente a Górgias, Hípias e Eveno, mas não menciona Protágoras18. Segundo essa caracterização, os sofistas eram estrangeiros, provenientes de diferentes partes do mundo helênico, que se dirigiam a Atenas para oferecer aos jovens de famílias ricas um novo modelo de educação, cujo fim era torná-los excelentes na virtude [aretē] que concerne aos homens em troca de uma determinada remuneração19. Mais um vez, portanto, as noções de “sofística” e “retórica” parecem se confundir no interior do pensamento platônico, como salientado na passagem do Górgias citada acima. Concentremo-nos, entretanto, na figura de Górgias para tentarmos elucidar o problema e buscarmos uma delimitação mais clara dessas duas noções. Embora Górgias seja elencado na Apologia como um dos sofistas que professam ensinar a virtude aos jovens mediante remuneração (19e-20c), no diálogo Mênon, por outro lado, a personagem homônima ressalta o fato de Górgias, diferentemente de outros “sofistas”, prometer ensinar somente a arte do discurso: obras de Aristófanes, Eurípides e Tucídides; Ésquilo, Sófocles e Heródoto, contudo, jamais empregam o termo. A conclusão de Schiappa, com base em outros estudos, é que “rhētōr emerge no final do séc. V a.C. como o termo que denota uma classe especial de políticos que discursa com frequência nos tribunais e na Assembleia”. No Górgias, rétor designa aquele indivíduo que supostamente conhece a arte retórica, e que, por essa razão, é capaz tanto de ensiná-la a outras pessoas quanto de atuar diretamente nas instâncias que requerem persuasão de uma audiência, especialmente nos tribunais e na Assembleia (Dodds, 1959: 194; Harrison, 1964: 191-192). 17 A não ser indiretamente, quando Sócrates compara o longo discurso de Protágoras em defesa da ensinabilidade da virtude (321c-328d) aos discursos de oradores [dēmēgoroi] e rétores [rhētores] em resposta a algum tipo de questionamento (328e6-329a1; 329a4). 18 Górgias também é qualificado expressamente como “sofista” no Hípias Maior (282b5). Para uma discussão específica sobre a classificação de Górgias como sofista em Platão, ver Harrison (1964). 19 Ver também Platão, Górgias 519c-d; Mênon 95b-c; República VI 492a-493d Isócrates, Contra os Sofistas 5-6.
311 Sofística e Retórica no Górgias de Platão Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 22, nº 44. Segundo semestre de 2020. Pp. 303-324. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2020.i44.14 SOC: E então? Esses sofistas, os quais são os únicos a professarem tal coisa, lhe parecem ser mestres de virtude? MEN: De Górgias, Sócrates, aprecio sobretudo isto: você jamais ouviria dele tal promessa, pois ele ri quando ouve os outros prometerem tal empresa; ele julga que deve tornar as pessoas prodigiosas no discurso [legein … deinous]. (95b9-c4) {ΣΩ.} Τί δὲ δή; οἱ σοφισταί σοι οὗτοι, οἵπερ μόνοι ἐπαγγέλλονται, δοκοῦσι διδάσκαλοι εἶναι ἀρετῆς; {ΜΕΝ.} Καὶ Γοργίου μάλιστα, ὦ Σώκρατες, ταῦτα ἄγαμαι, ὅτι οὐκ ἄν ποτε αὐτοῦ τοῦτο ἀκούσαις ὑπισχνουμένου, ἀλλὰ καὶ τῶν ἄλλων καταγελᾷ, ὅταν ἀκούσῃ ὑπισχνουμένων· ἀλλὰ λέγειν οἴεται δεῖν ποιεῖν δεινούς. Isso se coaduna com o que encontramos no Górgias. A personagem Cálicles aparece como anfitrião de Górgias em Atenas (447b), e atribui grande valor à retórica como meio para obter sucesso na vida política na democracia ateniense (484d). Ao se referir aos sofistas, contudo, manifesta certo desprezo: SOC: […] É provável que tanto os políticos de fachada quanto os sofistas sejam os mesmos. Pois os sofistas, apesar de serem sábios em outros assuntos, incorrem no seguinte absurdo: afirmam que são mestres de virtude, mas acusam frequentemente seus discípulos de cometerem injustiças contra eles quando os privam de salários e não lhes restituem outra recompensa, embora tenham obtido sucesso por causa de suas lições. E o que seria mais irracional do que este argumento, de que homens que se tornaram bons e justos, que tiveram a injustiça arrancada pelo mestre e a justiça posta no lugar, cometerem injustiça com aquilo que não possuem mais? Isso não lhe parece absurdo, meu amigo? […] Não escuta, então, coisas do gênero daqueles que afirmam educar os homens em vista da virtude? CAL: Sim. Mas o que você diria sobre homens sem mérito? (519c2-d5; 519e7- 520a2) {ΣΩ.} […] κινδυνεύει γὰρ ταὐτὸν εἶναι, ὅσοι τε πολιτικοὶ προσποιοῦνται εἶναι καὶ ὅσοι σοφισταί. καὶ γὰρ οἱ σοφισταί, τἆλλα σοφοὶ ὄντες, τοῦτο ἄτοπον ἐργάζονται πρᾶγμα· φάσκοντες γὰρ ἀρετῆς διδάσκαλοι εἶναι πολλάκις κατηγοροῦσιν τῶν μαθητῶν ὡς ἀδικοῦσι σφᾶς [αὑτούς], τούς τε μισθοὺς ἀποστεροῦντες καὶ ἄλλην χάριν οὐκ ἀποδιδόντες, εὖ παθόντες ὑπ’ αὐτῶν. καὶ τούτου τοῦ λόγου τί ἂν ἀλογώτερον εἴη πρᾶγμα, ἀνθρώπους ἀγαθοὺς καὶ δικαίους γενομένους, ἐξαιρεθέντας μὲν ἀδικίαν ὑπὸ τοῦ διδασκάλου, σχόντας δὲ δικαιοσύνην, ἀδικεῖν τούτῳ ᾧ οὐκ ἔχουσιν; οὐ δοκεῖ σοι τοῦτο ἄτοπον εἶναι, ὦ ἑταῖρε; […] Οὐκοῦν ἀκούεις τοιαῦτα λεγόντων τῶν φασκόντων παιδεύειν ἀνθρώπους εἰς ἀρετήν; {ΚΑΛ.} Ἔγωγε· ἀλλὰ τί ἂν λέγοις ἀνθρώπων πέρι οὐδενὸς ἀξίων; Parece implícito que Cálicles não tenha Górgias aqui em mente, que se apresenta como rétor e se diz mestre de retórica no diálogo, e sim aqueles
318 Daniel R. N. Lopes Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 22, nº 44. Segundo semestre de 2020. Pp. 303-324. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2020.i44.14 mais especificamente à Assembleia, como a réplica de Sócrates a Protágoras deixa claro: para objetar à ensinabilidade da arte política e, por conseguinte, ao próprio ofício do sofista, Sócrates apresenta dois argumentos empíricos, sendo um deles relativo aos procedimentos deliberativos da Assembleia democrática: enquanto que em assuntos concernentes às artes particulares (ex.: construção de edifícios, de naus, etc.) as decisões em Assembleia se dão com base nos conselhos de especialistas naquela matéria, não há especialistas quando as decisões políticas concernem à administração da cidade, pois todos os cidadãos participam igualmente das deliberações em assembleia (319b-d); isso seria evidência de que não existe arte política enquanto tal. No caso do Protágoras, portanto, o sofista é apresentado como “mestre de arte política”, prontamente identificado como “mestre de virtude”, o que nos remete àquela definição genérica encontrada na Apologia (19e-20c), como referido acima. Mas aqui encontramos uma qualificação para a suposta arte do sofista: ela tem como fim a formação de indivíduos aptos a atuarem nos espaços democráticos de deliberação coletiva, e a tomar boas decisões [eubouliai] nesse âmbito. A menção explícita a Péricles como exemplo paradigmático de cidadão virtuoso (319e), bem como a presença na cena de seus dois filhos, Páralo e Xantipo, como pretensos discípulos de Protagóras (315a), indicam claramente que a finalidade da educação sofística é, em última instância, formar homens políticos para atuação nas instâncias deliberativas de uma cidade democrática tal como Atenas. Mais especificamente, a própria asserção “para que esteja apto ao máximo a agir e discursar” (dunatōtatos kai prattein kai legein, 319a1- 2; meus itálicos) parece ser uma alusão de Platão à qualificação de Péricles na obra do historiador Tucídides, quando este afirma que Péricles “era, naquele tempo, o homem mais importante, o mais capaz para agir e discursar” (legein te kai prattein dunatōtatos, 1.139.4-5; meus itálicos). Em suma: Protágoras professa, em última instância, a tornar os jovens homens políticos renomados e bem-sucedidos tais como Péricles. E nesta formulação encontramos a intersecção com o Górgias: ao dizer “tornar-se capaz ao máximo para agir e discursar” (319a1-2), Protágoras salienta os dois requisitos básicos, no contexto de uma democracia, para o homem político: ser bem sucedido não apenas em suas ações no âmbito público, mas também competente para discursar e persuadir seus concidadãos, visto que as decisões concernentes ao interesse comum deveriam passar pelo crivo da Assembleia. Ou seja, se Protágoras se propõe a formar homens políticos para τινὸς βουλεύεται, ἀλλ’ ὑπὲρ αὑτῆς ὅλης, ὅντινα τρόπον αὐτή τε πρὸς αὑτὴν καὶ πρὸς τὰς ἄλλας πόλεις ἄριστα ὁμιλοῖ, IV 428c11-d3). De modo semelhante, Heródoto qualifica Temístocles com os atributos sophos te kai euboulos (“sábio e prudente”), justamente porque suas deliberações sobre a estratégia a ser adotada na batalha de Salamina contra os persas (480 a.C.) foram bem sucedidas (VII 110.1), ainda que por vezes mediante ações dolosas. Sobre a definição de euboulia em Aristóteles, ver Ética Nicomaqueia VI.9 1142a31-b33.
319 Sofística e Retórica no Górgias de Platão Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 22, nº 44. Segundo semestre de 2020. Pp. 303-324. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2020.i44.14 atuarem na democracia, isso requer necessariamente certo treinamento para o desenvolvimento de uma competência “retórica”, ainda que o próprio termo rhētorikē não seja empregado no diálogo para qualificar esse aspecto, por assim dizer, da educação sofística. Nesse sentido, o ensino de arte política professada por Protágoras requer, ainda que não elucidado no contexto argumentativo do Protágoras, o ensino de retórica, mas uma retórica voltada principalmente para as instâncias de deliberação coletiva de uma cidade democrática (Conselho e Assembleia), e não especificamente para sua aplicação nos tribunais de justiça, conforme aquele movimento de estreitamento do escopo da retórica operado por Sócrates no confronto com Górgias discutido acima. Portanto, poderíamos dizer que a retórica seria parte integrante da educação sofística representada em Platão paradigmaticamente pela figura de Protágoras, entendida como instrumento necessário para a atuação na esfera política democrática, mais especificamente nos espaços de deliberação coletiva (Conselho e Assembleia). Já no caso de Górgias, a retórica se apresenta como o fim mesmo de sua proposta pedagógica, e não como instrumento para uma formação moral e intelectual mais ampla – ou seja, o ensino da arte política, identificada com a própria virtude moral. De fato, há uma sobrevalorização da retórica judiciária no Górgias em relação à prática oratória no âmbito deliberativo democrático, especialmente na primeira seção do diálogo, em que a personagem homônima é constrangida pela inquirição socrática a especificar o objeto de conhecimento da retórica mediante a analogia com as outras artes – ou seja, o justo e o injusto. Todavia, como exposto acima, é igualmente claro que a concepção sobre o poder [dunamis] da retórica atribuído por Platão à personagem Górgias transcende os limites de sua aplicabilidade nos tribunais, e se estende não apenas ao domínio deliberativo (452e), como a qualquer outro âmbito em que se requeira persuasão, desde que o discurso seja proferido a uma audiência e caiba a ela a decisão final sobre o assunto em questão (457a-b). 4. Conclusão Sendo assim, podemos agora responder à questão inicial: em que medida sofística e retórica se distinguem e se relacionam? Em que sentido o sofista e o rétor são tão próximos a ponto de se confundirem? Tendo como ponto de partida os aspectos genealógicos discutidos na introdução, e cientes de que as próprias noções de “sofística” e “retórica” são construções operadas no interior dos pensamentos platônico, podemos chegar às seguintes conclusões a partir da análise do Górgias e do Protágoras. Em primeiro lugar, as figuras de Górgias e Protágoras nos diálogos platônicos compartem das características
320 Daniel R. N. Lopes Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 22, nº 44. Segundo semestre de 2020. Pp. 303-324. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2020.i44.14 gerais do “sofista” descritas paradigmaticamente na Apologia (19e-20c): são estrangeiros de passagem por Atenas, tinham como público os jovens de famílias ricas e ensinavam mediante remuneração. Entretanto, no que tange aos fins das propostas pedagógicas de cada um deles, Górgias não é apresentado como mestre de virtude [aretē] tal como Protágoras, mas simplesmente como rhētōr, como mestre de retórica [rhētorikē], traço peculiar salientado tanto no Górgias quanto no Mênon. Em segundo lugar, embora intimamente associadas, a sofística tem um escopo mais amplo do que a retórica, na medida em que é apresentada no Górgias como a pseudoarte relativa à legislação – ou seja, uma atividade cujo fim é preparar os indivíduos para se envolverem com os procedimentos de deliberação coletiva em uma democracia, que lida com as leis e as normas de conduta que regulam as relações entre os cidadãos e visam ao bem comum. No Protágoras, a noção de euboulia (i.e. tomar boas decisões no interesse da cidade) como matéria da educação protagoriana remete justamente ao domínio deliberativo, identificada prontamente por Sócrates com a arte política, e posteriormente, com a própria virtude moral. A retórica, entendida em sentido genérico como “artífice da persuasão” (Górgias, 453a)28, aparece então como uma atividade subsidiária à sofística, na medida em que é mediante o exercício do discurso persuasivo que a política democrática se realizava, sobretudo no contexto da Assembleia. Em outras palavras: se o intuito de Protágoras era formar indivíduos aptos a atuarem nos espaços de deliberação coletiva de uma democracia, a retórica enquanto “artífice da persuasão” constitui uma condição necessária para tal fim, de modo que algum treinamento em argumentação persuasiva deveria fazer parte de seu currículo educacional, ainda que não precisado por Platão no Protágoras29. Daí se segue outro problema: como esse quadro se coaduna com a definição estrita de retórica no Górgias (455a)? Pois, como discutido acima, Platão atribui a Górgias uma concepção de retórica enquanto arte genérica dos discursos, que tem a capacidade de tratar de modo persuasivo qualquer tema desde que dirigido a uma audiência ignorante do assunto em questão a quem caberia a decisão final; no entanto, ao ser submetida ao escrutínio socrático ela acaba sendo circunscrita ao domínio específico da justiça e da injustiça, portanto à prática oratória nos tribunais de Atenas – o que será classificado por 28 No sentido em que Aristóteles define retórica: “a capacidade de observar, em cada caso, os meios possíveis de persuasão” (δύναμις περὶ ἕκαστον τοῦ θεωρῆσαι τὸ ἐνδεχόμενον πιθανόν, Retórica, I 1355b25-26); “a retórica, por assim dizer, parece ser capaz de observar o que é persuasivo a respeito do assunto dado, e por essa razão dizemos que consiste em uma atividade técnica sem um gênero particular de objeto delimitado” (ἡ δὲ ῥητορικὴ περὶ τοῦ δοθέντος ὡς εἰπεῖν δοκεῖ δύνασθαι θεωρεῖν τὸ πιθανόν, διὸ καί φαμεν αὐτὴν οὐ περί τι γένος ἴδιον ἀφωρισμένον ἔχειν τὸ τεχνικόν, Retórica I 1355b31-34). 29 Sobre a retórica como meio para a arte política, ver Guthrie (1971: 38-39).
321 Sofística e Retórica no Górgias de Platão Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 22, nº 44. Segundo semestre de 2020. Pp. 303-324. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2020.i44.14 Aristóteles na Retórica como a espécie judiciária (I, 1358b20-28). Ainda assim, no próprio Górgias Platão reconhece amiúde que a prática retórica transcende o âmbito judiciário e se estende igualmente ao deliberativo, como é salientado expressamente por Górgias (452e) e admitido tacitamente por Sócrates durante a discussão com Cálicles, quando Péricles, Temístocles, Címon e Milcíades são tidos como exemplos de grandes rétores da história da democracia ateniense (portanto, em vista de suas atuações na Assembleia)30. Esse movimento de estreitamento e alargamento do escopo da retórica no interior de um mesmo contexto argumentativo e, por conseguinte, sua confluência com a sofística é consequência do fato de Platão concebê-las como atividades não-técnicas, que se imiscuem nas artes genuínas que lhes seriam correspondentes, dando a aparência de serem aquilo que não são: como são simulacros [eidōla]31, imagens distorcidas e enganadoras da legislação e da justiça, é natural que seus limites não sejam objetivamente determináveis e tendam portanto a se confundir. Esse aspecto epistemológico da questão ajudaria a explicar por que Górgias, embora conceba a retórica como arte genérica dos discursos, acaba assentindo em sua circunscrição ao domínio da justiça e da injustiça: a analogia entre a retórica e as demais artes exige uma delimitação precisa do objeto de seu conhecimento, condição sine qua non para que qualquer atividade seja considerada uma tekhnē, ainda que sua aplicabilidade seja mais extensa; reduzi-la ao domínio da justiça não implica que, do ponto de vista prático, a retórica, enquanto “artífice da persuasão”, não possa ser útil em outros contextos discursivos, seja no âmbito político (Assembleia e Conselho), seja no âmbito privado (como no caso do exemplo mencionado por Górgias, em que ele convence o paciente recalcitrante de seu irmão, Heródico, a se submeter a um tratamento médico, o qual se recusava a aceitá-lo com base apenas nos argumentos aferidos pelo conhecedor da matéria em questão, ou seja, o médico; cf. 456b-c). Paralelamente ao argumento epistemológico, há um aspecto histórico, por assim dizer, que nos ajuda a compreender o problema de delimitação do escopo da retórica no Górgias. Para tal fim, vejamos uma passagem do discurso Contra os Sofistas de Isócrates, composto provavelmente por volta de 390 a.C.32, que também faz menção ao ensino de retórica pelos sofistas no séc. V a.C.: Os demais sofistas são aqueles que vieram antes de nós e que as chamadas Artes ousaram escrever, os quais não devemos deixar passar incólumes às censuras: eles prometeram ensinar a discursar no tribunal [dikazesthai], selecionando o que há de mais deplorável nas expressões (o que era para ser dito pelos 30 Como referido anteriormente, no processo de refutação de Górgias Sócrates amplia o escopo do discurso retórico: não só o justo e o injusto, mas também o bem e o mal, o belo e o vergonhoso (459c-e, 461b). 31 cf. 463d2, 463e4. 32 Mirhady & Too, 2000: 61.
322 Daniel R. N. Lopes Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 22, nº 44. Segundo semestre de 2020. Pp. 303-324. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2020.i44.14 invejosos, e não pelos defensores de tal educação), ainda que essa atividade, na medida em que pode ser ensinada, possa ser útil tanto aos discursos judiciários [tous dikanikous logous] quanto a todos os demais discursos. (13.19-20; meus itálicos) Λοιποὶ δ’ ἡμῖν εἰσὶν οἱ πρὸ ἡμῶν γενόμενοι καὶ τὰς καλουμένας τέχνας γράψαι τολμήσαντες, οὓς οὐκ ἀφετέον ἀνεπιτιμήτους· οἵτινες ὑπέσχοντο δικάζεσθαι διδάξειν, ἐκλεξάμενοι τὸ δυσχερέστατον τῶν ὀνομάτων, ὃ τῶν φθονούντων ἔργον ἦν λέγειν ἀλλ’ οὐ τῶν προεστώτων τῆς τοιαύτης παιδεύσεως, καὶ ταῦτα τοῦ πράγματος, καθ’ ὅσον ἐστὶ διδακτὸν, οὐδὲν μᾶλλον πρὸς τοὺς δικανικοὺς λόγους ἢ πρὸς τοὺς ἄλλους ἅπαντας ὠφελεῖν δυναμένου. Isócrates ressalta o fato de que as origens do ensino retórico na Grécia estão intimamente associadas às práticas discursivas nos tribunais. De modo similar, Platão no Fedro, ao se referir aos primeiros escritos de seus antecessores designados genericamente de Artes (que usualmente são considerados como os primeiros escritos sobre “retórica”, ainda que o termo ainda não fosse usualmente empregado no séc. V a.C.), evidencia que a finalidade desse tipo de treinamento técnico era, sobretudo, sua aplicação nos processos judiciários33. Todavia, Isócrates reconhece claramente que sua utilidade transcende os limites dos tribunais e se estende a outras esferas que requerem persuasão, especialmente o que no Contra os Sofistas ele denomina discursos políticos [politikoi logoi] (13.9). De forma análoga, é o que vemos grosso modo tratado no Górgias: se é necessário delimitar um objeto específico do conhecimento retórico, então o justo e o injusto corresponderiam de modo mais apropriado ao âmbito primordial de aplicação do discurso persuasivo, embora a competência promovida pela retórica, enquanto artífice da persuasão, fosse igualmente útil em outras esferas de discurso, especialmente no âmbito deliberativo. 33 Platão, Fedro 266d-267d.
323 Sofística e Retórica no Górgias de Platão Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política, Humanidades y Relaciones Internacionales, año 22, nº 44. Segundo semestre de 2020. Pp. 303-324. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 https://dx.doi.org/10.12795/araucaria.2020.i44.14 Bibliografia: Bellido, A. M. (1996). Sofistas - Testimonios y Fragmentos. Madri: Ed. Gredos. Beversluis, J. (2000). Cross-Examining Socrates: a Defense of the Interlocutors in Plato’s Early Dialogues. Cambridge: Cambridge University Press. Cole, T. (1991). The Origins of Rhetoric in Ancient Greece. London: John Hopkins University Press. Des Places, E. (1970). Lexique. In: Platon, Oeuvres Complètes, tomes XIV et XV, Paris: Société d’Édition “Les Belles Lettres”. Dodds, E. R. (1990). Plato: Gorgias. A Revised Text. Oxford: Clarendon Press. Fussi. A. (2006). Retorica e Potere: Una Lettura del Gorgia di Platone. Pisa: Edizioni ETS. Hornblower, S. (1991). A Commentary on Thucydides. Vol. I. Oxford: Clarendon Press. Guthrie, W. K. C. (1971). The Sophists. Cambridge: Cambridge University Press. Harrison, E. L. (1964). Was Gorgias a Sophist? Phoenix, Vol. 18, No. 3 (Autumn), pp. 183-192. Irwin., T. (1979). Plato. Gorgias. Oxford: Clarendon Press. Jackson, R.; Lycos, K. & Tarrant, H. (1998). Olympiodorus. Commentary on Plato’s Gorgias. Leiden: Brill. Kennedy, G. (1994). A New History of Classical Rhetoric. New Jersey: Princeton University Press. Kerferd, G. B. (1991). The Sophistic Movement. Cambridge: Cambridge University Press. Lopes, D. R. N. (2011). Górgias de Platão. São Paulo: Editora Perspectiva. Mihardy, D. C. & TOO, Y. L. (2000). Isocrates I. Austin: University of Texas Press. Pieri, S. N. (1991), Platone. Gorgia. Napoli: Loffredo Editore. Plochmann, G.k. & Robinson, F..E. (1988). A Friendly Companion to Plato’s Gorgias. Carbondale and Edwardsville: Southern Illinois University Press. Roochnik, D. (1995). Socrates’ Rhetorical Attack on Rhetoric. In: GONZALEZ, F. (ed.). The Thrid Way: New Directions in Platonic Studies. Lanham Md.: Rowman & Littlefield Publishers Inc., pp. 81-94. Schiappa, E. (1990). Did Plato Coin Rhetorike? American Journal of Philology 111, n. 4, pp. 457-470. __________ (1999). The Beginnings of Rhetorical Theory in Classical Greece. Yale: Yale University Press.
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