scieee Open visual document viewer

Sofística e retórica no Górgias de Platão

Lopes, Daniel R. N.

Abstract

O presente artigo tem como intuito elucidar a distinção entre sofística e retórica no diálogo Górgias de Platão, a partir da asserção enigmática de Sócrates de que “sofistas e rétores se diluem em uma mesma coisa e com relação às mesmas coisas devido à sua contiguidade” (465c4-5). Para tal fim, abordaremos, no primeiro momento, a genealogia dos termos gregos sophistikē e rhētorikē na literatura grega supérstite, buscando mostrar que as noções de “sofística” e “retórica”, tal como as entendemos de um modo geral hoje, são frutos da operação platônica-aristotélica de delimitação de um tipo de pensamento e prática pedagógica em oposição à “filosofia”. No segundo momento, passaremos à análise dos diálogos platônicos, mais especificamente o Górgias e o Protágoras, em que essas duas noções se encontram em processo de delineamento teórico. A ideia geral é a de que a retórica seria parte integrante da educação sofística representada em Platão paradigmaticamente pela figura de Protágoras, entendida como instrumento necessário para a atuação nos espaços de deliberação coletiva (Conselho e Assembleia), ao passo que, no caso de Górgias, a retórica, e mais especificamente a espécie judiciária, se apresenta como o fim mesmo de sua proposta pedagógica, e não como instrumento para uma formação moral e intelectual mais ampla – ou seja, o ensino da arte política, identificada com a própria virtude moral no diálogo Protágoras

Full text

A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 22, nº 44. Segundo semes e de 2020. Pp. 303-324. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2020.i44.14 So ís ica e Re ó ica no Gó gias de Pla ão1 Sophis y and Re ho ic in Pla o’s Go gias Daniel R. N. Lopes2 Uni e sidade de São Paulo (B asil) Recibido: 23-09-19 Ap obado: 16-06-20 Resumo O p esen e a igo em como in ui o elucida a dis inção en e so ís ica e e ó ica no diálogo Gó gias de Pla ão, a pa i da asse ção enigmá ica de Sóc a es de que “so is as e é o es se diluem em uma mesma coisa e com elação às mesmas coisas de ido à sua con iguidade” (465c4-5). Pa a al im, abo da emos, no p imei o momen o, a genealogia dos e mos g egos sophis ikē e hē o ikē na li e a u a g ega supé s i e, buscando mos a que as noções de “so ís ica” e “ e ó ica”, al como as en endemos de um modo ge al hoje, são u os da ope ação pla ônica-a is o élica de delimi ação de um ipo de pensamen o e p á ica pedagógica em oposição à “ iloso ia”. No segundo momen o, passa emos à análise dos diálogos pla ônicos, mais especi icamen e o Gó gias e o P o ágo as, em que essas duas noções se encon am em p ocesso de delineamen o eó ico. A ideia ge al é a de que a e ó ica se ia pa e in eg an e da educação so ís ica ep esen ada em Pla ão pa adigma icamen e pela igu a 1 As aduções de odas as passagens são de minha au o ia: as do Gó gias e do Mênon de Pla ão (Lopes, 2011) i e am como ex o-base a edição de John Bu ne (Pla onis Ope a, Tomus III. Ox o d: Ox o d Classical Tex s, 1968); a da República de Pla ão, a edição de S. R. Slings (Pla onis Republicam. Ox o d: Ox o d Classical Tex s, 2003); a do Con as os So is as de Isóc a es, a edição de G. Ma hieu & É. B émond (Isoc a e. Discou s, ol. 1. Pa is: Les Belles Le es, 1963); e a da Re ó ica de A is ó eles, a edição de W. D. Ross (A is o elis A s Rhe o ica. Ox o d: Ox o d Classical Tex s, 1959). 2 ([email p o ec ed]) É p o esso dou o de Língua e Li e a u a G ega do Depa amen o de Le as Clássicas e Ve náculas (DLCV) da Faculdade de Filoso ia, Le as e Ciências Humanas (FFLCH) da Uni e sidade de São Paulo (USP). É au o dos li os Gó gias de Pla ão (Ed. Pe spec i a, 2011) e P o ágo as de Pla ão (Ed. Pe spec i a, 2017), e em se dedicado aos es udos sob e psicologia mo al em Pla ão (“Mo al psychology in Pla o’s Go gias”, Re is a de Filoso ia An iga, . 11, pp. 1-39, 2017), e sob e a his ó ia do pensamen o é ico-polí ico g ego (“O limi e da democ acia: o p oblema da i ania do pon o de is a psicológico em He ódo o e no Édipo Rei d Só ocles”. In: Sebas iani, B.; Leão, D.; Sano, L.; Soa es, M.; We ne , C. (o g.). A Poiesis da Democ acia. 1ed. Coimb a: Imp ensa da Uni e sidade de Coimb a, 2018, . p. 325-352). ORCID: h ps://o cid.o g/0000-0001-9818-8977 304 Daniel R. N. Lopes A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 22, nº 44. Segundo semes e de 2020. Pp. 303-324. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2020.i44.14 de P o ágo as, en endida como ins umen o necessá io pa a a a uação nos espaços de delibe ação cole i a (Conselho e Assembleia), ao passo que, no caso de Gó gias, a e ó ica, e mais especi icamen e a espécie judiciá ia, se ap esen a como o im mesmo de sua p opos a pedagógica, e não como ins umen o pa a uma o mação mo al e in elec ual mais ampla – ou seja, o ensino da a e polí ica, iden i icada com a p óp ia i ude mo al no diálogo P o ágo as. Palab as-cla e: Filoso ia, Re ó ica, So ís ica, Democ acia. Abs ac This essay aims a elucida ing he dis inc ion be ween sophis y and he o ic in Pla o’s Go gias s a ing om Soc a es’ enigma ic con en ion ha “sophis s and he o s a e mixed up in he same a ea and abou he same hing, since hey a e so close o each o he ” (465c4-5; I win’s ansla ion). To his end I will discuss, i s ly, he genealogy o he G eek wo ds sophis ikē and hē o ikē in he emaining G eek li e a u e, a emp ing o show ha he mode n no ions o “sophis y” and “ he o ic” in a b oad sense de i e om a Pla onic-A is o elian ope a ion o delimi a ing a special kind o hough and pedagogical ac i i y in opposi ion o “philosophy”. Secondly, I will analyze some passages o Pla o’s Go gias and P o ago as in which hese wo no ions a e being heo e ically de ined. The gene al idea pu sued in his essay is ha he o ic in eg a es he sophis ic educa ion ep esen ed pa adigma ically by P o ago as as a necessa y means o he ci izen o ake pa in he delibe a i e ins i u ions o a democ a ic ci y (Counsel and Assembly), whe eas in he case o Go gias he o ic – and mo e speci ically, he judicia y species – consis s in he end i sel o his pedagogical ac i i y, and no as a means o a wide mo al and in ellec ual educa ion – ha is o say, he eaching o poli ical a , iden i ied wi h mo al i ue in Pla o’s P o ago as. Key-wo ds: Philosophy, Rhe o ic, Sophis y, Democ acy. 1. Aspec os genealógicos dos e mos sophis ikē e hē o ikē Na segunda pa e do Gó gias, Sóc a es ap esen a a Polo sua concepção de “ e ó ica” como uma pseudoa e (mais especi icamen e, como uma espécie de adulação [kolakeia]) em espos a à p e ensão de Gó gias de de ini-la como uma a e [ ekhnē] do discu so conce nen e a ques ões de jus iça e injus iça, em con o midade com as exigências es ipuladas po Sóc a es pa a a delimi ação 305 So ís ica e Re ó ica no Gó gias de Pla ão A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 22, nº 44. Segundo semes e de 2020. Pp. 303-324. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2020.i44.14 do obje o de seu conhecimen o. Em seu p imei o longo discu so no diálogo (464b-466a), Sóc a es az a seguin e ponde ação: SOC: […] En ão, pa a que eu não me es enda em um longo discu so, desejo dize a ocê como dizem os geôme as (pois al ez já me acompanhe): a indumen á ia es á pa a a ginás ica, assim como a so ís ica [sophis ikē] es á pa a a legislação [nom ohe ikē], e a culiná ia pa a a medicina, assim como a e ó ica [ hē o ikē] pa a a jus iça [dikaiosunē]. Toda ia, salien o, há po na u eza al di e ença, mas, de ido à sua con iguidade, so is as e é o es se diluem em uma mesma coisa e com elação às mesmas coisas, e não sabem o que aze de si mesmos, ampouco os demais homens, o que aze deles. (465b6-c7; meus i álicos) {ΣΩ.} […] ἵν’ οὖν μὴ μακρολογῶ, ἐθέλω σοι εἰπεῖν ὥσπερ οἱ γεωμέτραι – ἤδη γὰρ ἂν ἴσως ἀκολουθήσαις – ὅτι ὃ κομμωτικὴ πρὸς γυμναστικήν, τοῦτο σοφιστικὴ πρὸς νομοθετικήν, καὶ ὅτι ὃ ὀψοποιικὴ πρὸς ἰατρικήν, τοῦτο ῥητορικὴ πρὸς δικαιοσύνην. ὅπερ μέντοι λέγω, διέστηκε μὲν οὕτω φύσει, ἅτε δ’ ἐγγὺς ὄντων φύρονται ἐν τῷ αὐτῷ καὶ περὶ ταὐτὰ σοφισταὶ καὶ ῥήτορες, καὶ οὐκ ἔχουσιν ὅτι χρήσονται οὔτε αὐτοὶ ἑαυτοῖς οὔτε οἱ ἄλλοι ἄνθρωποι τούτοις. Nesse quad o das qua o a es ela i as à alma e ao co po e de suas co esponden es pseudoa es ( e abaixo), encon amos a menção a um p oblema que ainda pe manece mo i o de con o é sia nos es udos con empo âneos sob e os so is as3: em que medida so ís ica e e ó ica se dis inguem e se elacionam?4. Os es emunhos an igos são apa en emen e insa is a ó ios em suas explicações pa a al con usão. Em seu comen á io ao Gó gias de Pla ão (14.10), o neopla ônico Olimpiodo o, ao analisa a passagem acima, conside a que a indumen á ia e a culiná ia, na medida em que são simulac os [eidōla] ela i os ao co po, não se con undem po que são disce nidos pela alma; se ossem disce ní eis pelo co po, ambém elas se con undi iam. No caso dos simulac os [eidōla] ela i os à alma, uma ez que é a p óp ia alma a disce ni-los e a se a e ada po eles, ele se limi a a ei e a o p oblema com uma pe gun a e ó ica: “como a alma pode ia disce ni a e ó ica e a so ís ica uma ez subjugada e esc a izada?”. A explicação encon ada nos escólios do 3 O ce ne do p oblema, que nos eme e di e amen e à passagem do Gó gias ci ada acima, é esumido da seguin e manei a po Gu h ie, na in odução ao olume dedicado aos so is as de sua His ó ia da Filoso ia G ega ( ol. 8): (1971: 44) “É um exage o dize , como equen emen e em sido di o, que os So is as não inham nada em comum a não se o a o de que eles e am p o esso es p o issionais, nenhum e eno comum nas ma é ias que ensina am e na men alidade que essas p oduziam. Ao menos uma ma é ia odos eles p a ica am e ensina am em comum: e ó ica ou a a e do logos”. A posição mais ex ema de endida po alguns es udiosos como Douglas J. S ewa , C. J. Classen e Geo ge Kennedy (apud Schiappa, 2003: 54-55), é eduzi a so ís ica ao ensino de e ó ica. Pa a uma isão ge al do p oblema e uma p opos a de ea aliação do escopo do ensino so ís ico, e Schiappa, 2003: 54-58. 4 Sóc a es se e e e ao mesmo p oblema em ou a passagem do diálogo, ao dize que “o so is a e o é o são o mesmo, ou mui o p óximos e semelhan es” (520a7-8). 306 Daniel R. N. Lopes A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 22, nº 44. Segundo semes e de 2020. Pp. 303-324. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2020.i44.14 Gó gias, po sua ez, segue uma pe spec i a semelhan e, embo a median e uma a gumen ação mais enigmá ica: a causa da con usão en e so ís ica e e ó ica não se de e exa amen e à na u eza dessas a i idades enquan o ais, que são cla amen e disce ní eis, mas à condição anímica dis o cida an o de so is as e é o es, quan o dos indi íduos que buscam dis ingui ais a i idades com base nessa con usão anímica de so is as e é o es; em ou as pala as, o engano ge ado po essa dis o ção anímica nesses dois ní eis acaba po con amina o p óp io obje o a se disce nido – a so ís ica e a e ó ica5. Ambas as e sões, po an o, undamen am-se na dualidade co po-alma que pe meia oda a passagem do ex o pla ônico, buscando o e ece assim uma explicação de ca á e epis emológico pa a o p oblema. Embo a o aspec o epis emológico seja ce amen e ele an e, ele é apenas pa e da ques ão. O obje i o des e a igo, po an o, é jus amen e o e ece uma espos a mais comp eensi a ao p oblema da dis inção en e so ís ica e e ó ica, ainda que ci cunsc i a à análise da ques ão no diálogo Gó gias, com apoio de alguns aspec os eó icos do P o ágo as. Pa a al im, é p eciso escla ece p e iamen e alguns pon os ela i os à genealogia dos e mos cen ais en ol idos – sophis ikē e hē o ikē – e de seus co ela os de modo a si ua his o icamen e o p oblema, pois as noções de “so ís ica” e “ e ó ica” são legados, po assim dize , do pensamen o de Pla ão e A is ó eles. O céleb e a igo publicado po Edwa d Schiappa em 1990 (Did Pla o coin hē o ikē? The Ame ican Jou nal o Philology, Vol. 111, No. 4), um di iso de águas nos es udos sob e e ó ica no mundo g ego, chamou a a enção pa a o a o de que não há oco ências do e mo hē o ikē e/ou co ela os na li e a u a supé s i e do séc. V a.C. (Eu ípides, A is ó anes, He ódo o, os agmen os dos chamados “so is as”, Dissoi Logoi); e mesmo na li e a u a do séc. IV a.C. onde se iam espe adas ais oco ências, como no caso da ob a de Isóc a es e da Re ó ica a Alexand e a ibuída a Anaxímenes de Lâmpsaco, a equência desses e mos e seus co ela os é a a, exceção ei a a Pla ão e A is ó eles6. Pa a Schiappa, podemos assumi com segu ança que, se não oi Pla ão quem cunhou o e mo hē o ikē, é ao menos ce o que ele e a ela i amen e no o na época de composição do diálogo Gó gias7. Po conseguin e, ao menos do pon o de is a linguís ico, não pode íamos ala nem mesmo de “ e ó ica” p op iamen e di a 5 Pie i, 1991: 370-371. 6 Thomas Cole (The O igins o Rhe o ic in Ancien G eece. The John Hopkins Uni e si y P ess, 1991) pa e do mesmo p incípio de Schiappa pa a p opo que a li e a u a do séc. V e começo do séc. IV, denominada “ e ó ica” pela isão adicional sob e as o igens da e ó ica na G écia, de e se en endida an es como p o o e ó ica. O a gumen o-cha e é o mesmo de Schiappa: o econhecimen o da e ó ica como disciplina, que coincide com a in enção do e mo hē o ikē, se de e a Pla ão e, pos e io men e, a A is ó eles, os esponsá eis po “es abelece as ca ego ias básicas e as de inições que, aqui como em qualque luga , passa am a se imposi i as na an iguidade e pa a além dela” (1991: 2-3). 7 Schiappa, 1990: 469-470; Schiappa, 2003: 48. 307 So ís ica e Re ó ica no Gó gias de Pla ão A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 22, nº 44. Segundo semes e de 2020. Pp. 303-324. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2020.i44.14 an es de sua delimi ação, em oposição a ou as o mas de discu so, no seio no pensamen o ilosó ico do séc. IV a.C.8 O mesmo pode se di o a espei o do e mo sophis ikē: é no ó io que Pla ão cunhou inúme as pala as com o su ixo g ego -ikē pa a designa “a a e de” ao se e e i a a i idades pa icula es, como emos sob e udo no So is a, e se não oi ele quem emp egou pela p imei a ez sophis ikē pa a designa “a a e do so is a”, seja lá o que isso quei a dize , o seu uso e a ce amen e ecen e na língua g ega9. Uma busca ele ônica no Thesau us Linguae G aecae e ela que não há oco ências do e mo sophis ikē na li e a u a supé s i e an e io a Pla ão e A is ó eles10, o que suge e, de modo semelhan e ao caso de hē o ikē, que o e mo passa a se emp egado de manei a ma cada pelo pensamen o ilosó ico pa a designa , em linhas ge ais, um ipo de pensamen o e p á ica pedagógica opos os ao que se delinea á como “ iloso ia” nas ob as desses au o es. Esse pon o ganha ele o quando le amos em conside ação a semân ica do p óp io e mo sophis ēs (“so is a”), do qual sophis ikē de i a. A p incípio, sophis ēs, da mesma aiz de sophia (“sabedo ia”) e sophos (“sábio”), e a emp egado no séc. V a.C. pa a se e e i a di e sos ipos de indi íduos que e am epu ados como sábios: os poe as (Pínda o, Ís micas 5.28), os adi inhos (He ódo o, His ó ias 2.49), os músicos (Ésquilo, F . 314), os chamados “Se e Sábios” (He ódo o, His ó ias 1.29), os in es igado es da na u eza (Hipóc a es, De P isca Medicina 20.1-6).11 O uso do e mo nesses casos em uma cono ação posi i a, quali icando 8 Schiappa & Timme man sin e izam o p oblema da seguin e o ma (2010: 10-11): “An es da cunhagem do e mo hē o ikē, logos e a o e mo-cha e ema izado nos ex os e agmen os ge almen e a ibuídos à his ó ia da eo ia e ó ica do séc. V a.C. Os ex os e agmen os conce nen es ao logos suge em di e enças impo an es na manei a em que a a e do discu so oi concei ualizada an es e depois da in enção de hē o ikē. An es da cunhagem de hē o ikē, as a es e bais e am en endidas como menos di e enciadas e mais holí icas em escopo do que elas o am no séc. IV a.C.; o ensino e einamen o associados ao logos não açam uma linha acu ada en e as me as da busca pelo sucesso e da busca pela e dade, como é o caso quando e ó ica e iloso ia o am de inidas como disciplinas dis in as.” 9 Schiappa o e ece in a exemplos de pala as e minadas em -ikē deno ando “a a e de” que, segundo o LSJ, apa ecem pela p imei a ez em Pla ão, mais especi icamen e no Gó gias, Eu idemo e So is a (2003: 60, n. 18). De aco do com Pie e Chan aine (É udes su le ocabulai e g ec. Pa is: Klincksieck, 1956, 97-171), a quem Schiappa eco e como supo e pa a sua in e p e ação, dos mais de 350 e mos em -ikos em Pla ão, mais de 250 não são encon ados em ex os an e io es. 10 Uma busca ele ônica no TLG acusa ês oco ências de sophis ikē em agmen os de au o es an e io es a Pla ão (Ésquilo, An i on e e T asímaco), mas que conce nem an es ao uso do e mo pelos au o es do pe íodo helenís ico e impe ial que nos lega am ais agmen os (F ínico, Filós a o e Filodemo, espec i amen e) – ou seja, não apa ece no ex o p op iamen e di o dos au o es que epo am. Eis as e e ências dos agmen os: (i) Ésquilo (Die F agmen e de T agödien des Aischylos, Ed. Me e, H.J. Be lin: Akademie–Ve lag, 1959. Te alogy 31, play A, agmen 307b, line 2: βekke . 1073); (ii) An i on e (Die F agmen e de Vo sok a ike , ol. 2, 6 h edn., Ed. Diels, H., K anz, W. Be lin: Weidmann, 1952, Rep . 1966. F agmen 44a, line 2); (iii) T asímaco (Die F agmen e de Vo sok a ike , ol. 2, 6 h edn., Ed. Diels, H., K anz, W. Be lin: Weidmann, 1952, Rep . 1966. F agmen 7a, line 4). 11 Ke e d 1981: 24-25. Ve ambém Gu h ie 1971: 27-34; Schiappa 2003: 3-12. He ódo o se e e e ambém a Pi ágo as como um sophis ēs (His ó ias, 4.95.2). 308 Daniel R. N. Lopes A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 22, nº 44. Segundo semes e de 2020. Pp. 303-324. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2020.i44.14 uma compe ência especí ica sob e um ce o campo do sabe que dis ingue a igu a do sophis ēs dos homens comuns. Sendo assim, o sen ido p imei o de sophis ēs conse a em si a a inidade semân ica com os e mos co ela os sophia e sophos, como obse a o p óp io Pla ão na ala da pe sonagem Hipóc a es no P o ágo as: “eu conside o que [o so is a] é, como o p óp io nome indica, o conhecedo das coisas sábias” (ἐγὼ μέν, ἦ δ’ ὅς, ὥσπερ τοὔνομα λέγει, τοῦτον εἶναι τὸν τῶν σοφῶν ἐπιστήμονα, 312c5-6). A noção ma cada de “so is a” como um me cená io do sabe , como “mes e de i ude” ou “educado dos homens”, que se á cons i uída paula inamen e nos diálogos pla ônicos como o an ípoda do “ ilóso o”, ambém não apa ece de manei a pa en e na li e a u a supé s i e do séc. V e início do séc. IV a.C. O caso mais emblemá ico é o da comédia As Nu ens de A is ó anes, encenada em 423 a.C.: embo a o juízo comum da c í ica con empo ânea seja de que Sóc a es é ep esen ado pelo comedióg a o como “ ilóso o da na u eza” e “so is a”, uma análise ilológica a en a do ex o mos a que as oco ências do e mo sophis ēs e de e mos compos os de sophis ēs na peça não se coadunam com a noção gené ica da igu a do “so is a” em Pla ão, delineada pa adigma icamen e na Apologia (19e-20c), como elucida emos abaixo. São apenas qua o oco ências, sendo que só uma delas é emp egada pa a quali ica a pe sonagem cômica de Sóc a es: me eō osophis ēs ( . 360), que signi ica li e almen e “sábio em assun os ela i os aos co pos celes es”; na passagem, o e mo é usado pa a designa an es o in e esse desses in elec uais po ques ões as onômicas do que p op iamen e o o ício de educado da ju en ude, sen ido esse que se ia mais p óximo à noção gené ica de “so is a” nos diálogos pla ônicos. Além disso, o e mo pa ece se emp egado sem uma cono ação necessa iamen e pejo a i a, pois isa apenas a desc e e o supos o in e esse de in elec uais, ais como “Sóc a es” e “P ódico” ( e e idos nominalmen e na passagem), po essa á ea especí ica do conhecimen o cien í ico em pleno desen ol imen o naquela época12. 12 A p imei a oco ência do e mo sophis ēs na peça se dá pela boca de Sóc a es no e so 331, e e indo-se a “adi inhos de Tu i, p o issionais de medicina, cabeludos p eguiçosos com anéis e unhas ei as, en o ado es de co os di i âmbicos e as ônomos cha la ões” ( . 331-334). A despei o da di iculdade de p ecisa mos os e e en es especí icos dessas di e en es classes de “sábios”, o e mo sophis ēs é aplicado ainda no sen ido gené ico de “um indi íduo do ado de um sabe especí ico que os dis ingue dos homens comuns”. As ou as duas oco ências de sophis ēs na peça são emp egadas, po sua ez, pa a quali ica Fidípides ( . 1111) e Es epsíades ( . 1310a): a p imei a apa ece na oz do “Discu so F aco” (iden i icado com o “Discu so Injus o”), depois de ence o agōn con a o “Discu so Fo e” (iden i icado com o “Discu so Jus o”), pa a designa a compe ência écnica que Fidípides es á p es es a adqui i com as suas lições (i.e. “ap ende a ala bem”, c . . 1143); a segunda apa ece na oz do Co o, pa a designa a espe eza de Es epsíades ao en a se sa a injus amen e dos dois c edo es que exigiam o pagamen o das dí idas con aídas po ele e pelo ilho. Nos dois casos, há cla amen e um juízo nega i o associado ao sabe adqui ido po Fidípides e Es epsíades no “pensa ó io”, uma ez que ele é p a icado em is a de ins mo almen e censu á eis (po ex. . 1131-1153; 1303-1320). Toda ia, ainda assim as duas oco ências do e mo se aplicam an es ao “p odu o” da educação o e ecida pelo 309 So ís ica e Re ó ica no Gó gias de Pla ão A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 22, nº 44. Segundo semes e de 2020. Pp. 303-324. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2020.i44.14 Tal ez a oco ência de sophis ēs com o sen ido mais p óximo daquele emp egado po Pla ão es eja em Tucídides, mesmo sendo mui o di ícil de p ecisa as condições e o pe íodo de composição da His ó ia da Gue a do Peloponeso, seja de suas pa es seja da ob a como um odo ( inal do séc. V e início do séc. IV a.C.). No céleb e Deba e sob e Mi ilene, Tucídides a ibui a Cléon, o polí ico mais in luen e na época do acon ecimen o (427 a.C.), um discu so em que ep eende o p aze da massa pelo deba e polí ico, que coloca a os p óp ios in e esses de A enas em segundo plano, compa ando seu compo amen o ao dos “espec ado es dos so is as” (sophis ōn hea ais, 3.38.7), a única oco ência do e mo sophis ēs na ob a do his o iado 13; a a-se p o a elmen e de uma alusão às exibições e ó icas dos so is as, e e idas no diálogos pla ônicos pelo e mo epideixis e/ou co ela os14. Esses aspec os genealógicos, po an o, são su icien es pa a mos a que quando abo damos o ema “ e ó ica” e “so ís ica” no Gó gias es amos lidando com uma ob a em que essas p óp ias noções es ão sendo delineadas no in e io do pensamen o pla ônico. E idência suplemen a disso é que, com exceção ei a aos diálogos Gó gias e Fed o, em que a e ó ica é um ópico eó ico cen al em discussão, encon amos apenas uma oco ência de uma exp essão co ela a de hē o ikē nos diálogos de Pla ão ( o hē o ikon eidos, Polí ico 304e1). No caso de sophis ikē e/ou co ela os, além do Gó gias apenas o Eu idemo, o P o ágo as e o So is a azem oco ências do e mo no sen ido de “a a e do so is a” ou simplesmen e “so ís ica”, jus amen e nos con ex os a gumen a i os em que Pla ão es á delimi ando eo icamen e esse ipo especí ico de “sabe ” e/ ou p á ica pedagógica em oposição à iloso ia al como ele a concebia15. 2. Sophis ikē e hē o ikē nos diálogos pla ônicos Nessa pe spec i a his ó ica do p oblema, é um elemen o bas an e ele an e o a o de Pla ão coloca na oz da pe sonagem P o ágo as a seguin e a i mação: “assumo que sou so is a [sophis ēs] e educado dos homens” (ὁμολογῶ τε σοφιστὴς εἶναι καὶ παιδεύειν ἀνθρώπους, P o ágo as, 317b4-5); assim como na de Gó gias, que ele se ap esen a aos homens como é o [ hē ō ]16, na “pensa ó io” de Sóc a es, do que àquele que é esponsá el po esse ipo de ensinamen o (no caso, a pe sonagem Sóc a es). Po an o, essas duas oco ências de sophis ēs em As Nu ens ambém não se coadunam exa amen e com a noção gené ica de “so is a” em Pla ão. 13 Ho nblowe , 1991: 427. 14 Pla ão, Gó gias 447a6, 447b2, 447b8, 447c3, 447c6, 449c4; Hípias Meno 363a2, 363c2, 363d2, 364b4-5, 364b8; Hípias Maio 282b7, 282c4, 282c7, 286b4-5; P o ágo as 320b8-c7; Eu idemo 274d2, 274d6, 274d7, 275a4, 275a5. Ve ambém A is ó eles, Re ó ica I 1358b2-8. 15 Sob e o léxico pla ônico e e en e à so ís ica e à e ó ica, e Des Places, 1970: 451, 459-460. 16 Como obse a Schiappa (1999: 156), o e mo [ hē ō ] apa ece apenas uma única ez em Home o (Il. 9.443) e em uma insc ição legal da ada po ol a de 445 a.C. As demais oco ências apa ecem nas 310 Daniel R. N. Lopes A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 22, nº 44. Segundo semes e de 2020. Pp. 303-324. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2020.i44.14 medida em que a a e que ele conhece e p ome e ensina é a e ó ica [ hē o ikē] (Gó gias, 449a5-6). Ademais, em nenhuma passagem do diálogo P o ágo as é quali icado como é o 17, assim como Gó gias nunca é e e ido exp essamen e como so is a no diálogo homônimo. É como se Pla ão es i esse selecionando essas duas igu as his ó icas como ep esen an es pa adigmá icos em sua ob a do que ele de ini á como “so ís ica” e “ e ó ica”, espec i amen e. No en an o, o quad o eó ico não é ão simples assim, pois no Fed o Pla ão az e e ência a “li os esc i os sob e a a e dos discu sos” (τά γ’ ἐν τοῖς βιβλίοις τοῖς περὶ λόγων τέχνης γεγραμμένοις, 266d5-6) e ci a nominalmen e Tísias, Gó gias, Teodo o, P ódico, Hípias, E eno, Polo, P o ágo as e T asímaco, o que implica que odas essas igu as ambém ensina am, em ce a medida, “ e ó ica”, al como de inida no Gó gias e ediscu ida pos e io men e no Fed o. De modo simila , ao esboça o que se ia a sua noção gené ica de “so is a” na Apologia (19e-20c), Pla ão se e e e nominalmen e a Gó gias, Hípias e E eno, mas não menciona P o ágo as18. Segundo essa ca ac e ização, os so is as e am es angei os, p o enien es de di e en es pa es do mundo helênico, que se di igiam a A enas pa a o e ece aos jo ens de amílias icas um no o modelo de educação, cujo im e a o ná-los excelen es na i ude [a e ē] que conce ne aos homens em oca de uma de e minada emune ação19. Mais um ez, po an o, as noções de “so ís ica” e “ e ó ica” pa ecem se con undi no in e io do pensamen o pla ônico, como salien ado na passagem do Gó gias ci ada acima. Concen emo-nos, en e an o, na igu a de Gó gias pa a en a mos elucida o p oblema e busca mos uma delimi ação mais cla a dessas duas noções. Embo a Gó gias seja elencado na Apologia como um dos so is as que p o essam ensina a i ude aos jo ens median e emune ação (19e-20c), no diálogo Mênon, po ou o lado, a pe sonagem homônima essal a o a o de Gó gias, di e en emen e de ou os “so is as”, p ome e ensina somen e a a e do discu so: ob as de A is ó anes, Eu ípides e Tucídides; Ésquilo, Só ocles e He ódo o, con udo, jamais emp egam o e mo. A conclusão de Schiappa, com base em ou os es udos, é que “ hē ō eme ge no inal do séc. V a.C. como o e mo que deno a uma classe especial de polí icos que discu sa com equência nos ibunais e na Assembleia”. No Gó gias, é o designa aquele indi íduo que supos amen e conhece a a e e ó ica, e que, po essa azão, é capaz an o de ensiná-la a ou as pessoas quan o de a ua di e amen e nas ins âncias que eque em pe suasão de uma audiência, especialmen e nos ibunais e na Assembleia (Dodds, 1959: 194; Ha ison, 1964: 191-192). 17 A não se indi e amen e, quando Sóc a es compa a o longo discu so de P o ágo as em de esa da ensinabilidade da i ude (321c-328d) aos discu sos de o ado es [dēmēgo oi] e é o es [ hē o es] em espos a a algum ipo de ques ionamen o (328e6-329a1; 329a4). 18 Gó gias ambém é quali icado exp essamen e como “so is a” no Hípias Maio (282b5). Pa a uma discussão especí ica sob e a classi icação de Gó gias como so is a em Pla ão, e Ha ison (1964). 19 Ve ambém Pla ão, Gó gias 519c-d; Mênon 95b-c; República VI 492a-493d Isóc a es, Con a os So is as 5-6. 311 So ís ica e Re ó ica no Gó gias de Pla ão A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 22, nº 44. Segundo semes e de 2020. Pp. 303-324. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2020.i44.14 SOC: E en ão? Esses so is as, os quais são os únicos a p o essa em al coisa, lhe pa ecem se mes es de i ude? MEN: De Gó gias, Sóc a es, ap ecio sob e udo is o: ocê jamais ou i ia dele al p omessa, pois ele i quando ou e os ou os p ome e em al emp esa; ele julga que de e o na as pessoas p odigiosas no discu so [legein … deinous]. (95b9-c4) {ΣΩ.} Τί δὲ δή; οἱ σοφισταί σοι οὗτοι, οἵπερ μόνοι ἐπαγγέλλονται, δοκοῦσι διδάσκαλοι εἶναι ἀρετῆς; {ΜΕΝ.} Καὶ Γοργίου μάλιστα, ὦ Σώκρατες, ταῦτα ἄγαμαι, ὅτι οὐκ ἄν ποτε αὐτοῦ τοῦτο ἀκούσαις ὑπισχνουμένου, ἀλλὰ καὶ τῶν ἄλλων καταγελᾷ, ὅταν ἀκούσῃ ὑπισχνουμένων· ἀλλὰ λέγειν οἴεται δεῖν ποιεῖν δεινούς. Isso se coaduna com o que encon amos no Gó gias. A pe sonagem Cálicles apa ece como an i ião de Gó gias em A enas (447b), e a ibui g ande alo à e ó ica como meio pa a ob e sucesso na ida polí ica na democ acia a eniense (484d). Ao se e e i aos so is as, con udo, mani es a ce o desp ezo: SOC: […] É p o á el que an o os polí icos de achada quan o os so is as sejam os mesmos. Pois os so is as, apesa de se em sábios em ou os assun os, inco em no seguin e absu do: a i mam que são mes es de i ude, mas acusam equen emen e seus discípulos de come e em injus iças con a eles quando os p i am de salá ios e não lhes es i uem ou a ecompensa, embo a enham ob ido sucesso po causa de suas lições. E o que se ia mais i acional do que es e a gumen o, de que homens que se o na am bons e jus os, que i e am a injus iça a ancada pelo mes e e a jus iça pos a no luga , come e em injus iça com aquilo que não possuem mais? Isso não lhe pa ece absu do, meu amigo? […] Não escu a, en ão, coisas do gêne o daqueles que a i mam educa os homens em is a da i ude? CAL: Sim. Mas o que ocê di ia sob e homens sem mé i o? (519c2-d5; 519e7- 520a2) {ΣΩ.} […] κινδυνεύει γὰρ ταὐτὸν εἶναι, ὅσοι τε πολιτικοὶ προσποιοῦνται εἶναι καὶ ὅσοι σοφισταί. καὶ γὰρ οἱ σοφισταί, τἆλλα σοφοὶ ὄντες, τοῦτο ἄτοπον ἐργάζονται πρᾶγμα· φάσκοντες γὰρ ἀρετῆς διδάσκαλοι εἶναι πολλάκις κατηγοροῦσιν τῶν μαθητῶν ὡς ἀδικοῦσι σφᾶς [αὑτούς], τούς τε μισθοὺς ἀποστεροῦντες καὶ ἄλλην χάριν οὐκ ἀποδιδόντες, εὖ παθόντες ὑπ’ αὐτῶν. καὶ τούτου τοῦ λόγου τί ἂν ἀλογώτερον εἴη πρᾶγμα, ἀνθρώπους ἀγαθοὺς καὶ δικαίους γενομένους, ἐξαιρεθέντας μὲν ἀδικίαν ὑπὸ τοῦ διδασκάλου, σχόντας δὲ δικαιοσύνην, ἀδικεῖν τούτῳ ᾧ οὐκ ἔχουσιν; οὐ δοκεῖ σοι τοῦτο ἄτοπον εἶναι, ὦ ἑταῖρε; […] Οὐκοῦν ἀκούεις τοιαῦτα λεγόντων τῶν φασκόντων παιδεύειν ἀνθρώπους εἰς ἀρετήν; {ΚΑΛ.} Ἔγωγε· ἀλλὰ τί ἂν λέγοις ἀνθρώπων πέρι οὐδενὸς ἀξίων; Pa ece implíci o que Cálicles não enha Gó gias aqui em men e, que se ap esen a como é o e se diz mes e de e ó ica no diálogo, e sim aqueles 318 Daniel R. N. Lopes A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 22, nº 44. Segundo semes e de 2020. Pp. 303-324. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2020.i44.14 mais especi icamen e à Assembleia, como a éplica de Sóc a es a P o ágo as deixa cla o: pa a obje a à ensinabilidade da a e polí ica e, po conseguin e, ao p óp io o ício do so is a, Sóc a es ap esen a dois a gumen os empí icos, sendo um deles ela i o aos p ocedimen os delibe a i os da Assembleia democ á ica: enquan o que em assun os conce nen es às a es pa icula es (ex.: cons ução de edi ícios, de naus, e c.) as decisões em Assembleia se dão com base nos conselhos de especialis as naquela ma é ia, não há especialis as quando as decisões polí icas conce nem à adminis ação da cidade, pois odos os cidadãos pa icipam igualmen e das delibe ações em assembleia (319b-d); isso se ia e idência de que não exis e a e polí ica enquan o al. No caso do P o ágo as, po an o, o so is a é ap esen ado como “mes e de a e polí ica”, p on amen e iden i icado como “mes e de i ude”, o que nos eme e àquela de inição gené ica encon ada na Apologia (19e-20c), como e e ido acima. Mas aqui encon amos uma quali icação pa a a supos a a e do so is a: ela em como im a o mação de indi íduos ap os a a ua em nos espaços democ á icos de delibe ação cole i a, e a oma boas decisões [eubouliai] nesse âmbi o. A menção explíci a a Pé icles como exemplo pa adigmá ico de cidadão i uoso (319e), bem como a p esença na cena de seus dois ilhos, Pá alo e Xan ipo, como p e ensos discípulos de P o agó as (315a), indicam cla amen e que a inalidade da educação so ís ica é, em úl ima ins ância, o ma homens polí icos pa a a uação nas ins âncias delibe a i as de uma cidade democ á ica al como A enas. Mais especi icamen e, a p óp ia asse ção “pa a que es eja ap o ao máximo a agi e discu sa ” (duna ō a os kai p a ein kai legein, 319a1- 2; meus i álicos) pa ece se uma alusão de Pla ão à quali icação de Pé icles na ob a do his o iado Tucídides, quando es e a i ma que Pé icles “e a, naquele empo, o homem mais impo an e, o mais capaz pa a agi e discu sa ” (legein e kai p a ein duna ō a os, 1.139.4-5; meus i álicos). Em suma: P o ágo as p o essa, em úl ima ins ância, a o na os jo ens homens polí icos enomados e bem-sucedidos ais como Pé icles. E nes a o mulação encon amos a in e secção com o Gó gias: ao dize “ o na -se capaz ao máximo pa a agi e discu sa ” (319a1-2), P o ágo as salien a os dois equisi os básicos, no con ex o de uma democ acia, pa a o homem polí ico: se bem sucedido não apenas em suas ações no âmbi o público, mas ambém compe en e pa a discu sa e pe suadi seus concidadãos, is o que as decisões conce nen es ao in e esse comum de e iam passa pelo c i o da Assembleia. Ou seja, se P o ágo as se p opõe a o ma homens polí icos pa a τινὸς βουλεύεται, ἀλλ’ ὑπὲρ αὑτῆς ὅλης, ὅντινα τρόπον αὐτή τε πρὸς αὑτὴν καὶ πρὸς τὰς ἄλλας πόλεις ἄριστα ὁμιλοῖ, IV 428c11-d3). De modo semelhan e, He ódo o quali ica Temís ocles com os a ibu os sophos e kai euboulos (“sábio e p uden e”), jus amen e po que suas delibe ações sob e a es a égia a se ado ada na ba alha de Salamina con a os pe sas (480 a.C.) o am bem sucedidas (VII 110.1), ainda que po ezes median e ações dolosas. Sob e a de inição de euboulia em A is ó eles, e É ica Nicomaqueia VI.9 1142a31-b33. 319 So ís ica e Re ó ica no Gó gias de Pla ão A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 22, nº 44. Segundo semes e de 2020. Pp. 303-324. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2020.i44.14 a ua em na democ acia, isso eque necessa iamen e ce o einamen o pa a o desen ol imen o de uma compe ência “ e ó ica”, ainda que o p óp io e mo hē o ikē não seja emp egado no diálogo pa a quali ica esse aspec o, po assim dize , da educação so ís ica. Nesse sen ido, o ensino de a e polí ica p o essada po P o ágo as eque , ainda que não elucidado no con ex o a gumen a i o do P o ágo as, o ensino de e ó ica, mas uma e ó ica ol ada p incipalmen e pa a as ins âncias de delibe ação cole i a de uma cidade democ á ica (Conselho e Assembleia), e não especi icamen e pa a sua aplicação nos ibunais de jus iça, con o me aquele mo imen o de es ei amen o do escopo da e ó ica ope ado po Sóc a es no con on o com Gó gias discu ido acima. Po an o, pode íamos dize que a e ó ica se ia pa e in eg an e da educação so ís ica ep esen ada em Pla ão pa adigma icamen e pela igu a de P o ágo as, en endida como ins umen o necessá io pa a a a uação na es e a polí ica democ á ica, mais especi icamen e nos espaços de delibe ação cole i a (Conselho e Assembleia). Já no caso de Gó gias, a e ó ica se ap esen a como o im mesmo de sua p opos a pedagógica, e não como ins umen o pa a uma o mação mo al e in elec ual mais ampla – ou seja, o ensino da a e polí ica, iden i icada com a p óp ia i ude mo al. De a o, há uma sob e alo ização da e ó ica judiciá ia no Gó gias em elação à p á ica o a ó ia no âmbi o delibe a i o democ á ico, especialmen e na p imei a seção do diálogo, em que a pe sonagem homônima é cons angida pela inqui ição soc á ica a especi ica o obje o de conhecimen o da e ó ica median e a analogia com as ou as a es – ou seja, o jus o e o injus o. Toda ia, como expos o acima, é igualmen e cla o que a concepção sob e o pode [dunamis] da e ó ica a ibuído po Pla ão à pe sonagem Gó gias anscende os limi es de sua aplicabilidade nos ibunais, e se es ende não apenas ao domínio delibe a i o (452e), como a qualque ou o âmbi o em que se equei a pe suasão, desde que o discu so seja p o e ido a uma audiência e caiba a ela a decisão inal sob e o assun o em ques ão (457a-b). 4. Conclusão Sendo assim, podemos ago a esponde à ques ão inicial: em que medida so ís ica e e ó ica se dis inguem e se elacionam? Em que sen ido o so is a e o é o são ão p óximos a pon o de se con undi em? Tendo como pon o de pa ida os aspec os genealógicos discu idos na in odução, e cien es de que as p óp ias noções de “so ís ica” e “ e ó ica” são cons uções ope adas no in e io dos pensamen os pla ônico, podemos chega às seguin es conclusões a pa i da análise do Gó gias e do P o ágo as. Em p imei o luga , as igu as de Gó gias e P o ágo as nos diálogos pla ônicos compa em das ca ac e ís icas 320 Daniel R. N. Lopes A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 22, nº 44. Segundo semes e de 2020. Pp. 303-324. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2020.i44.14 ge ais do “so is a” desc i as pa adigma icamen e na Apologia (19e-20c): são es angei os de passagem po A enas, inham como público os jo ens de amílias icas e ensina am median e emune ação. En e an o, no que ange aos ins das p opos as pedagógicas de cada um deles, Gó gias não é ap esen ado como mes e de i ude [a e ē] al como P o ágo as, mas simplesmen e como hē ō , como mes e de e ó ica [ hē o ikē], aço peculia salien ado an o no Gó gias quan o no Mênon. Em segundo luga , embo a in imamen e associadas, a so ís ica em um escopo mais amplo do que a e ó ica, na medida em que é ap esen ada no Gó gias como a pseudoa e ela i a à legislação – ou seja, uma a i idade cujo im é p epa a os indi íduos pa a se en ol e em com os p ocedimen os de delibe ação cole i a em uma democ acia, que lida com as leis e as no mas de condu a que egulam as elações en e os cidadãos e isam ao bem comum. No P o ágo as, a noção de euboulia (i.e. oma boas decisões no in e esse da cidade) como ma é ia da educação p o ago iana eme e jus amen e ao domínio delibe a i o, iden i icada p on amen e po Sóc a es com a a e polí ica, e pos e io men e, com a p óp ia i ude mo al. A e ó ica, en endida em sen ido gené ico como “a í ice da pe suasão” (Gó gias, 453a)28, apa ece en ão como uma a i idade subsidiá ia à so ís ica, na medida em que é median e o exe cício do discu so pe suasi o que a polí ica democ á ica se ealiza a, sob e udo no con ex o da Assembleia. Em ou as pala as: se o in ui o de P o ágo as e a o ma indi íduos ap os a a ua em nos espaços de delibe ação cole i a de uma democ acia, a e ó ica enquan o “a í ice da pe suasão” cons i ui uma condição necessá ia pa a al im, de modo que algum einamen o em a gumen ação pe suasi a de e ia aze pa e de seu cu ículo educacional, ainda que não p ecisado po Pla ão no P o ágo as29. Daí se segue ou o p oblema: como esse quad o se coaduna com a de inição es i a de e ó ica no Gó gias (455a)? Pois, como discu ido acima, Pla ão a ibui a Gó gias uma concepção de e ó ica enquan o a e gené ica dos discu sos, que em a capacidade de a a de modo pe suasi o qualque ema desde que di igido a uma audiência igno an e do assun o em ques ão a quem cabe ia a decisão inal; no en an o, ao se subme ida ao esc u ínio soc á ico ela acaba sendo ci cunsc i a ao domínio especí ico da jus iça e da injus iça, po an o à p á ica o a ó ia nos ibunais de A enas – o que se á classi icado po 28 No sen ido em que A is ó eles de ine e ó ica: “a capacidade de obse a , em cada caso, os meios possí eis de pe suasão” (δύναμις περὶ ἕκαστον τοῦ θεωρῆσαι τὸ ἐνδεχόμενον πιθανόν, Re ó ica, I 1355b25-26); “a e ó ica, po assim dize , pa ece se capaz de obse a o que é pe suasi o a espei o do assun o dado, e po essa azão dizemos que consis e em uma a i idade écnica sem um gêne o pa icula de obje o delimi ado” (ἡ δὲ ῥητορικὴ περὶ τοῦ δοθέντος ὡς εἰπεῖν δοκεῖ δύνασθαι θεωρεῖν τὸ πιθανόν, διὸ καί φαμεν αὐτὴν οὐ περί τι γένος ἴδιον ἀφωρισμένον ἔχειν τὸ τεχνικόν, Re ó ica I 1355b31-34). 29 Sob e a e ó ica como meio pa a a a e polí ica, e Gu h ie (1971: 38-39). 321 So ís ica e Re ó ica no Gó gias de Pla ão A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 22, nº 44. Segundo semes e de 2020. Pp. 303-324. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2020.i44.14 A is ó eles na Re ó ica como a espécie judiciá ia (I, 1358b20-28). Ainda assim, no p óp io Gó gias Pla ão econhece amiúde que a p á ica e ó ica anscende o âmbi o judiciá io e se es ende igualmen e ao delibe a i o, como é salien ado exp essamen e po Gó gias (452e) e admi ido aci amen e po Sóc a es du an e a discussão com Cálicles, quando Pé icles, Temís ocles, Címon e Milcíades são idos como exemplos de g andes é o es da his ó ia da democ acia a eniense (po an o, em is a de suas a uações na Assembleia)30. Esse mo imen o de es ei amen o e ala gamen o do escopo da e ó ica no in e io de um mesmo con ex o a gumen a i o e, po conseguin e, sua con luência com a so ís ica é consequência do a o de Pla ão concebê-las como a i idades não- écnicas, que se imiscuem nas a es genuínas que lhes se iam co esponden es, dando a apa ência de se em aquilo que não são: como são simulac os [eidōla]31, imagens dis o cidas e enganado as da legislação e da jus iça, é na u al que seus limi es não sejam obje i amen e de e miná eis e endam po an o a se con undi . Esse aspec o epis emológico da ques ão ajuda ia a explica po que Gó gias, embo a conceba a e ó ica como a e gené ica dos discu sos, acaba assen indo em sua ci cunsc ição ao domínio da jus iça e da injus iça: a analogia en e a e ó ica e as demais a es exige uma delimi ação p ecisa do obje o de seu conhecimen o, condição sine qua non pa a que qualque a i idade seja conside ada uma ekhnē, ainda que sua aplicabilidade seja mais ex ensa; eduzi-la ao domínio da jus iça não implica que, do pon o de is a p á ico, a e ó ica, enquan o “a í ice da pe suasão”, não possa se ú il em ou os con ex os discu si os, seja no âmbi o polí ico (Assembleia e Conselho), seja no âmbi o p i ado (como no caso do exemplo mencionado po Gó gias, em que ele con ence o pacien e ecalci an e de seu i mão, He ódico, a se subme e a um a amen o médico, o qual se ecusa a a acei á-lo com base apenas nos a gumen os a e idos pelo conhecedo da ma é ia em ques ão, ou seja, o médico; c . 456b-c). Pa alelamen e ao a gumen o epis emológico, há um aspec o his ó ico, po assim dize , que nos ajuda a comp eende o p oblema de delimi ação do escopo da e ó ica no Gó gias. Pa a al im, ejamos uma passagem do discu so Con a os So is as de Isóc a es, compos o p o a elmen e po ol a de 390 a.C.32, que ambém az menção ao ensino de e ó ica pelos so is as no séc. V a.C.: Os demais so is as são aqueles que ie am an es de nós e que as chamadas A es ousa am esc e e , os quais não de emos deixa passa incólumes às censu as: eles p ome e am ensina a discu sa no ibunal [dikazes hai], selecionando o que há de mais deplo á el nas exp essões (o que e a pa a se di o pelos 30 Como e e ido an e io men e, no p ocesso de e u ação de Gó gias Sóc a es amplia o escopo do discu so e ó ico: não só o jus o e o injus o, mas ambém o bem e o mal, o belo e o e gonhoso (459c-e, 461b). 31 c . 463d2, 463e4. 32 Mi hady & Too, 2000: 61. 322 Daniel R. N. Lopes A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 22, nº 44. Segundo semes e de 2020. Pp. 303-324. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2020.i44.14 in ejosos, e não pelos de enso es de al educação), ainda que essa a i idade, na medida em que pode se ensinada, possa se ú il an o aos discu sos judiciá ios [ ous dikanikous logous] quan o a odos os demais discu sos. (13.19-20; meus i álicos) Λοιποὶ δ’ ἡμῖν εἰσὶν οἱ πρὸ ἡμῶν γενόμενοι καὶ τὰς καλουμένας τέχνας γράψαι τολμήσαντες, οὓς οὐκ ἀφετέον ἀνεπιτιμήτους· οἵτινες ὑπέσχοντο δικάζεσθαι διδάξειν, ἐκλεξάμενοι τὸ δυσχερέστατον τῶν ὀνομάτων, ὃ τῶν φθονούντων ἔργον ἦν λέγειν ἀλλ’ οὐ τῶν προεστώτων τῆς τοιαύτης παιδεύσεως, καὶ ταῦτα τοῦ πράγματος, καθ’ ὅσον ἐστὶ διδακτὸν, οὐδὲν μᾶλλον πρὸς τοὺς δικανικοὺς λόγους ἢ πρὸς τοὺς ἄλλους ἅπαντας ὠφελεῖν δυναμένου. Isóc a es essal a o a o de que as o igens do ensino e ó ico na G écia es ão in imamen e associadas às p á icas discu si as nos ibunais. De modo simila , Pla ão no Fed o, ao se e e i aos p imei os esc i os de seus an ecesso es designados gene icamen e de A es (que usualmen e são conside ados como os p imei os esc i os sob e “ e ó ica”, ainda que o e mo ainda não osse usualmen e emp egado no séc. V a.C.), e idencia que a inalidade desse ipo de einamen o écnico e a, sob e udo, sua aplicação nos p ocessos judiciá ios33. Toda ia, Isóc a es econhece cla amen e que sua u ilidade anscende os limi es dos ibunais e se es ende a ou as es e as que eque em pe suasão, especialmen e o que no Con a os So is as ele denomina discu sos polí icos [poli ikoi logoi] (13.9). De o ma análoga, é o que emos g osso modo a ado no Gó gias: se é necessá io delimi a um obje o especí ico do conhecimen o e ó ico, en ão o jus o e o injus o co esponde iam de modo mais ap op iado ao âmbi o p imo dial de aplicação do discu so pe suasi o, embo a a compe ência p omo ida pela e ó ica, enquan o a í ice da pe suasão, osse igualmen e ú il em ou as es e as de discu so, especialmen e no âmbi o delibe a i o. 33 Pla ão, Fed o 266d-267d. 323 So ís ica e Re ó ica no Gó gias de Pla ão A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 22, nº 44. Segundo semes e de 2020. Pp. 303-324. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2020.i44.14 Bibliog a ia: Bellido, A. M. (1996). So is as - Tes imonios y F agmen os. Mad i: Ed. G edos. Be e sluis, J. (2000). C oss-Examining Soc a es: a De ense o he In e locu o s in Pla o’s Ea ly Dialogues. Camb idge: Camb idge Uni e si y P ess. Cole, T. (1991). The O igins o Rhe o ic in Ancien G eece. London: John Hopkins Uni e si y P ess. Des Places, E. (1970). Lexique. In: Pla on, Oeu es Complè es, omes XIV e XV, Pa is: Socié é d’Édi ion “Les Belles Le es”. Dodds, E. R. (1990). Pla o: Go gias. A Re ised Tex . Ox o d: Cla endon P ess. Fussi. A. (2006). Re o ica e Po e e: Una Le u a del Go gia di Pla one. Pisa: Edizioni ETS. Ho nblowe , S. (1991). A Commen a y on Thucydides. Vol. I. Ox o d: Cla endon P ess. Gu h ie, W. K. C. (1971). The Sophis s. Camb idge: Camb idge Uni e si y P ess. Ha ison, E. L. (1964). Was Go gias a Sophis ? Phoenix, Vol. 18, No. 3 (Au umn), pp. 183-192. I win., T. (1979). Pla o. Go gias. Ox o d: Cla endon P ess. Jackson, R.; Lycos, K. & Ta an , H. (1998). Olympiodo us. Commen a y on Pla o’s Go gias. Leiden: B ill. Kennedy, G. (1994). A New His o y o Classical Rhe o ic. New Je sey: P ince on Uni e si y P ess. Ke e d, G. B. (1991). The Sophis ic Mo emen . Camb idge: Camb idge Uni e si y P ess. Lopes, D. R. N. (2011). Gó gias de Pla ão. São Paulo: Edi o a Pe spec i a. Miha dy, D. C. & TOO, Y. L. (2000). Isoc a es I. Aus in: Uni e si y o Texas P ess. Pie i, S. N. (1991), Pla one. Go gia. Napoli: Lo edo Edi o e. Plochmann, G.k. & Robinson, F..E. (1988). A F iendly Companion o Pla o’s Go gias. Ca bondale and Edwa ds ille: Sou he n Illinois Uni e si y P ess. Roochnik, D. (1995). Soc a es’ Rhe o ical A ack on Rhe o ic. In: GONZALEZ, F. (ed.). The Th id Way: New Di ec ions in Pla onic S udies. Lanham Md.: Rowman & Li le ield Publishe s Inc., pp. 81-94. Schiappa, E. (1990). Did Pla o Coin Rhe o ike? Ame ican Jou nal o Philology 111, n. 4, pp. 457-470. __________ (1999). The Beginnings o Rhe o ical Theo y in Classical G eece. Yale: Yale Uni e si y P ess. 324 Daniel R. N. Lopes A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 22, nº 44. Segundo semes e de 2020. Pp. 303-324. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2020.i44.14 __________ (2003). P o ago as and Logos. A S udy in G eek Philosophy and Rhe o ic. - Sco , D. (2006). Pla o’s Meno. Camb idge: Camb idge Uni e si y P ess. Timme man, D.; Schiappa, E. (2010). Classical G eek Rhe o ical Theo y and he Disciplining o Discou se. Camb idge: Camb idge Uni e si y P ess. Zingano, M. (2017). A is ó eles. E hica Nicomachea V 1-15: T a ado da Jus iça. São Paulo: Ed. Odysseus.