Full text
A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica y Humanidades, año 17, nº 34. Segundo semes e de 2015.
Pp. 353-370. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 doi: 10.12795/a auca ia.2015.i34.16
Golpe, au o i a ismo e ansição: uma
análise compa a i a de B asil e Chile1
Coup d’É a , au ho i a ism and ansi ion: a
compa a i e analysis o B azil and Chile
Albe o Aggio2
Uni e sidade Es adual Paulis a,UNESP (B asil)
Recibido: 12-05-15
Ap obado: 08-06-15
Resumo
O a igo p ocu a ealiza uma analise compa a i a das his ó ias polí icas
do B asil e do Chile a pa i do momen o em que ambos os países so e am
up u as da o dem cons i ucional democ á ica, no B asil, em 1964 e no Chile,
em 1973. Inicia com uma discussão a espei o da u ilização da compa ação nos
es udos de his ó ia polí ica pa a de ini os pa âme os que o ien am a análise
compa a i a p opos a. Ap esen a um quad o in e p e a i o a espei o das
conjun u as que p ecede am os golpes de Es ado e, em seguida, disco e sob e as
p incipais ca ac e ís icas dos egimes au o i á ios que os sucede am, analisando
1 Esse ex o se iu de base pa a a exposição ealizada no III Encon o de Pesquisas em His ó ia (III
EPHIS) ealizado na FFCH da UFMG, em Belo Ho izon e, en e 27 e 30 de maio de 2014.
2 ([email p o ec ed]). P o esso Ti ula de His ó ia da Amé ica La ina con empo ânea
na UNESP, campus de F anca, Es ado de São Paulo/B asil. É his o iado o mado pela FFLCH -
USP (1982), onde ez Mes ado (1990) e Dou o ado (1996) em His ó ia Social. Realizou es udos
de pós-dou o amen o na Uni e sidade de Valencia (Espanha), en e 1997 e 1998, e na Uni e sidade
Roma3 (I ália), em 2010. Foi p o esso isi an e na Uni e sidade de San iago de Chile (USACH)
e na Uni e sidade de San iago de Compos ela (Espanha). Tem a igos publicados em e is as de
di e sos países, além de se a iculis a colabo ado do jo nal “O Es ado de São Paulo” (B asil). É
au o de “Democ acia e socialismo: a expe iência chilena” (Annablume, 2a. ed., 2002), “F en e
Popula , adicalismo e e olução passi a no Chile” (Annablume, 1999) e “Uma no a cul u a
polí ica” (Fundação As ojildo Pe ei a, FAP, 2008). É o ganizado de “G amsci: a i alidade de um
pensamen o” (UNESP, 1998), co-au o de “Polí ica e sociedade no B asil, 1930-1964” (Annablume,
2002), e co-o ganizado de “Pensa o Século XX” (UNESP, 2003) e “G amsci no seu empo” (FAP/
Con apon o, 2010) . Seu li o mais ecen e é “Um luga no mundo - ensaios de his ó ia polí ica
la ino-ame icana” (FAP/Con apon o, 2015). É colabo ado do si e G amsci e o B asil (www.g amsci.
o g) e memb o do Conselho de Redação da Re is a “Polí ica Democ á ica” edi ada pela Fundação
As ojildo Pe ei a (FAP).
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especialmen e as ans o mações que o am se ope ando em e mos econômicos,
sociais e polí icos. Segue com a análise dos p ocessos de ansição democ á ica e
de seus go e nos, no B asil, a pa i de 1985, e, no Chile em 1990. Po im, analisa,
compa a i amen e, o alcance bem como os impasses de ambas as expe iências
democ á icas.
Pala as-cha e: B asil, Chile, his ó ia polí ica compa ada, au o i a ismo,
democ acia.
Abs ac
This a icle aims o accomplish a compa a i e analysis o B azilian
and Chilean poli ical his o ies pa ing om he momen bo h coun ies
expe ienced b eaks in he democ a ic cons i u ional o de , in B azil, on
1964 and in Chile, on 1973. The a icle ini ia es abou he u iliza ion o
compa ison in poli ical his o y s udies in o de o de ine an in e p e a i e
boa d conce ning he conjunc u es ha p eceded he coups d’É a and,
hen, discuss abou he main cha ac e is ics o he au ho i a ian egimes,
analyzing especially he economic, social and poli ical ans o ma ions ha
we e occu ing. I con inues wi h he analyzes o he democ a ic ansi ion
p ocess and i s go e nmen s, in B azil, om 1985, and, in Chile, on 1990.
Las ly, i analyzes, compa a i ely, he each as he deadlocks o bo h
democ a ic expe iences.
Key-wo ds: B azil, Chile, Compa a i e Poli ical His o y,
Au ho i a ianism; Democ acy.
Nas p imei as paginas do seu li o sob e o golpe de Es ado de 1973 no Chile,
o esc i o Luiz Albe o Muniz Bandei a menciona um encon o oco ido em
1964 no qual ele e e a opo unidade de conhece Sal ado Allende. Con o me
sua na a i a, Allende isi ou o ex-p esiden e João Goula no apa amen o em
que ele i ia asilado em Mon e idéu pa a “p es a -lhe solida iedade, após o
golpe de Es ado oco ido no B asil, naquele ano [...]. Sal ado Allende, um
homem mui o a á el e anquilo, e a en ão o candida o à p esidência do Chile
da F en e de Acción Popula (FRAP), cons i uída pelo Pa ido Socialis a,
pelo Pa ido Comunis a e po pa idos meno es. Mos a a-se mui o con ian e
na i ó ia. Dizia que, no Chile, as Fo ças A madas e am legalis as, não
in e inham na polí ica e que lá ha ia uma adição de es abilidade” (Muniz
Bandei a, 2008:35). In elizmen e, o a icínio de Allende não se con i mou.
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Elei o em 1970, seu go e no não chega ia ao inal e, da mesma manei a que
João Goula , acabou sendo í ima de um golpe de Es ado no e anos depois
daquele encon o, em 1973.
Pa a além da menção a es e b e e con a o pessoal en e dois p esiden es da
República apeados do pode po golpes de Es ado, a his ó ia egis a di e sas
elações, inclusi e pessoais, en e di igen es polí icos do B asil e do Chile, que
não se ia o caso de mencioná-las aqui. Apenas a í ulo de exemplo pode-se
eco da o a o de que boa pa e dos exilados polí icos b asilei os encon a ia
asilo no Chile de Allende, no inicio da década de 1970, ugindo da in ensa
ep essão que se aba eu sob e os oposi o es ao egime mili a no B asil após
a dec e ação do A o Ins i ucional N. 5 (AI5), em dezemb o de 1968. Quando
sob e eio o golpe de Es ado de 1973, esses b asilei os i e am que en en a
um segundo exilio ao se em o çados a sai do país (AGGIO, 2008: 98-107).
Os dois golpes de Es ado – de ab il de 1964 no B asil e de se emb o
de 1973 no Chile –, o am di e en es em mui os pon os. En e an o, pode-
se dize que hoje já exis em alguns consensos a espei o da p esença no e-
ame icana em ambos os acon ecimen os, assim como o econhecimen o de
que essa p esença não se con igu ou como de e minan e dian e da espi al de
con adições in e nas. Há ambém econhecimen o quan o ao a o de que ambos
os golpes pode iam e sido e i ados, caso os a o es polí icos i essem ou o
compo amen o ou es i essem embasados numa cul u a polí ica democ á ica
mais sólida e his o icamen e consolidada.
His ó ia poli ica compa ada
An es de inicia a e lexão suge ida de se compa a B asil e Chile a
pa i dos golpes de Es ado e do que se seguiu, gos a ia de aze alguns
escla ecimen os sob e os eixos e o andamen o dessa exposição. Ainda que não
haja aqui a in enção de elabo a uma espécie de “ a ado eó ico” a espei o
dos dois en oques analí icos que se ão mobilizados, se ia p o ei oso que eles
ossem suma iamen e delineados.
O p imei o en oque é a análise compa a i a. A compa ação é pensada
aqui como um a i ício de e lexão que em nenhum sen ido de e se en endido
como a bi á io, an o mais em se a ando da Amé ica La ina que é, no undo,
um cons u o simbólico, essigni icado pe manen emen e con o me a iá eis
ideológicas, polí icas e ins i ucionais. Assim, o que se busca, sin e icamen e,
u ilizando-se da compa ação, é ilumina um obje o de es udo en e a ou o
p ocu ando es abelece analogias, semelhanças e di e enças en e duas (ou
mais) ealidades (D´Assunsão Ba os, 2007). Pela compa ação pode se
possí el obse a dois obje os ou ealidades dinâmicas em ans o mação
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e e i ica como os elemen os iden i icados a a és da compa ação ão, po
um lado, a iando em alguma di eção mais especí ica e, po ou o, insinuando
e delineando um conjun o e e en e, que ai sendo cons uído que pela
in es igação que pelas ins âncias do pensamen o c í ico. Assim, no caso
especi ico, a análise compa a i a possibili a en ão o ap o undamen o e ao
mesmo empo a alimen ação analí ica e e lexi a do que chamamos aqui de
cons u o simbólico. Vale menciona que, cada ez mais, a análise compa a i a
em ganhando espaço impo an e na pesquisa e nos es udos his ó icos la ino-
ame icanos ei os no B asil. Mesmo que ela não seja u ilizada de manei a
explici a nas ecen es pesquisas que se desen ol em no país, ela es á p esen e,
iluminando o en endimen o e a e lexão que se az dos p ocessos polí icos que
dema cam a con empo aneidade das sociedades la ino-ame icanas. Ao es uda
um obje o especi ico da his ó ia la ino-ame icana, o a i icio da compa ação
pe mi e que se ag egue alo ao exe cício de p odução his o iog á ica,
uma ez que o nosso obje i o é con ibui pa a a explicação da cons ução
dessas sociedades, de suas con adições, seus pionei ismos desa iado es, seu
pa adoxos, seus impasses e seus limi es.
O segundo en oque incula-se ao po encial in e p e a i o e explica i o
da his ó ia polí ica. Es a é uma dimensão da his o iog a ia que eeme giu de
manei a ino ado a nas úl imas décadas e que se i mou em sua especi icidade,
no bojo das ans o mações da his o iog a ia enquan o campo do conhecimen o.
En e an o, a his ó ia polí ica em, mui as ezes, se o nado um e eno
subsidiá io da his ó ia cul u al. Con o me a i mou Se ge Be s ein, “hoje os
his o iado es azem his ó ia cul u al”. Des a manei a, o campo da polí ica
acabou sendo ixado como um dos e i ó ios da his ó ia cul u al, que aliás passa
a se is o como o e i ó io o alizan e da p odução his o iog á ica. Es uda-se
mais as elações e p á icas de pode en endidas como obje os isolados, como
enômenos do social e do cul u al, do que as complexas, pa ciais, mo ediças
e incomple as dinâmicas e icissi udes da polí ica, que dão exp essão aos
a o es em suas con adições, o ien ando ou eo ien ando an o os p ocessos e
os sen idos como ambém o que é essencial na His ó ia. A í ulo de exemplo,
o concei o de cul u a polí ica oi, mui as ezes, omado como mani es ação
cul u al e menos como exp essão da dinâmica polí ica no campo das ideias e
do pensamen o. Nes e caso, a cul u a polí ica ao in és de se uma dimensão
a iculado a do polí ico passou a se pensada como um dado ou enômeno
susce í el de se abo dado ão somen e pela desc ição dos seus componen es,
dispensando-se a necessá ia in e p e ação dos p ocessos e mecanismos de
eo ganização dos sen idos e e o es na ida social, a demons a o luga
dos a o es, seus p o agonismos e ealizações, suas esponsabilidades, suas
con adições e seus limi es (Rosan allon, 2010). No undo, há uma his ó ia
polí ica que se az abdicando dos p oblemas his ó icos que ela engend a; em
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sín ese, “uma his o iog a ia sem p oblema his ó ico” (Vacca, 2009: 120).
O a gumen o que aqui se desen ol e se ol a, po an o, pa a a mobilização
da analise compa a i a no sen ido de que ela possa ilumina e nos ajuda a
cons ui uma in e p e ação undada na his ó ia polí ica dos acon ecimen os
e p ocessos que d ama icamen e o am i enciados an o no B asil quan o
no Chile desde as décadas de 1960 e 1970 e que i e am essencialmen e na
ques ão democ á ica o seu “p oblema his ó ico” essencial. Ensaia-se aqui
en ão uma pe spec i a me odológica que en ende a “compa ação como i al”,
como indica a G amsci (1999:426), “con an o que não seja ei a com base
em esquemas sociológicos abs a os”. O que se busca é coloca o p oblema
his ó ico da democ acia na Amé ica La ina no in e io de uma cha e de
lei u a que enha como p incipal e e ência uma análise di e enciada capaz
de “explica di e enças que ca ac e izam expe iências his ó icas di e sas em
elação a um quad o comum de p oblemas”, le ando em conside ação “suas
di e enciações in e nas e conexões” (VACCA, 2009: 120).
B asil e Chile: alguns pon os de compa ação
O nosso exe cício compa a i o en e B asil e Chile le a em con a
ob iamen e o a o de que os p ocessos polí icos co ela os que oco e am
nes es países a pa i dos golpes de Es ado não se dão exa amen e em pe íodos
simul âneos. Como se sabe, o B asil i enciou o golpe de Es ado de 1964 no e
anos an es do Chile (1973), os egimes au o i á ios nos dois países ambém não
o am simul âneos, no B asil de 1964 a 1988, e no Chile, 1973 a 1990.
Embo a enha du ado um pouco mais, o egime au o i á io b asilei o
não ca ega simbolicamen e a ma ca de ep essão e iolência con inuada que
o egime au o i á io impôs à sociedade chilena. Po essa azão, no Chile, a
memó ia da ep essão é mais cul i ada e desen ol ida em e mos públicos do
que no B asil. Com a supe ação do au o i a ismo, pe cebe-se que a p esença
do passado au o i á io é mais igo osa no Chile do que no B asil e há mui as
azões pa a isso, embo a aqui apenas se menciona as azões de algumas delas.
De qualque manei a, sin e icamen e, o pon o em comum en e os egimes
au o i á ios é que ambos ealiza am em suas sociedades ans o mações
p o undas em e mos es u u ais. Mas há mais do que isso: ambos egimes
au o i á ios consegui am, po algum momen o, es abelece uma es u u a
mui o ampliada de legi imidade social e polí ica que a li e a u a sob e o ema
em le ado pouco em conside ação. Há nes e caso pos u as ideológicas e
me odológicas que in luenciam nessa ap eciação e que p ecisam se supe adas,
como a i mam as pesquisado as Denise Rollembe g e Saman ha Viz Quad a :
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Em de e minados meios – mesmo acadêmicos – ainda sob e i e a c ença se-
gundo a qual a i ma a legi imidade de um egime au o i á io ou di a o ial, o
apoio de signi ica i as pa celas da sociedade, sob e udo quando se a a de ca-
madas popula es, é o mesmo que de endê-los. Como se a lu a polí ica con a o
au o i a ismo e a di adu a jus i icasse a de o mação da análise, da in e p e ação
e da in o mação. Não compa ilhamos dessas posições. A i ma que um i ano
oi amado po seu po o não signi ica conco da com a i ania, apoia suas ideias
e p á icas. Tampouco o alseamen o das elações da sociedade com o au o i-
a ismo de e se um ins umen o álido e ú il pa a comba ê-lo. Ao con á io.
Conhecê-las é o p imei o passo pa a ans o má-las. São os alo es e as e e -
ências, as cul u as polí icas que ma cam as escolhas, sinalizando elações de
iden idade e consen imen o, c iando consensos, ainda que sob o au o i a ismo.
Aliás, a de u pação da in o mação, do conhecimen o, não se ia ambém um a o
au o i á io? (2010:14).
Po im, nos caminhos pa a a ecen e democ a ização, os p ocessos polí icos
de ansição no B asil e no Chile podem se ca alogados suma iamen e como
“ ansições pac adas” en e as o ças de oposição e o egime au o i á io, com
uma in luência mui o g ande do egime an e io nas si uações democ á icas que
o am se es abelecendo a pa i de 1980 no B asil e na década seguin e no Chile;
ainda que seja impo an e menciona que a somb a do au o i a ismo no Chile
oi mui o mais densa do que no B asil. Mesmo assim, em ambos os países é
inques ioná el a alidade de cons ução da democ acia depois do au o i a ismo
e dos p ocessos de ansição, o que não signi ica deixa de coloca em discussão
a qualidade da democ acia exis en e an o no B asil quan o no Chile.
B asil: o golpe mili a de 1964
No B asil, o p esiden e João Goula oi depos o po uma coalizão de
o ças mili a es e ci is que dizia que e es au a a democ acia no país. E, de
a o, o p imei o discu so o icial do Ma echal Cas elo B anco, p imei o gene al-
p esiden e depois de 1964, oi no sen ido de es abelece a o dem polí ica,
suge indo que ele da ia posse ao u u o p esiden e que i ia a se elei o em
1965. En e an o, como se sabe, nada disso oco eu e o egime se impôs du an e
20 anos seguin es. Den e as jus i ica i as do golpe, o a gumen o mais isí el
oi o de que João Goula , do PTB e he dei o polí ico de Ge úlio Va gas, do qual
ha ia sido seu Minis o do abalho, a o ecia a esque da e ab ia passagem pa a
os comunis as “ oma em o pode no B asil”. E a no ó io, con udo, que Goula
não ealiza a um go e no com obje i os, p og amas e p á icas de ca á e
socialis a, embo a conduzisse de manei a mui o incisi a uma es a égia das
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“ e o mas de base”, den e elas, a e o ma ag á ia, pon o de discó dia in eg al
no seio das eli es poli icas.
Na conjun u a que ai do es abelecimen o do p esidencialismo,
em 1962, a é o golpe de Es ado, o que se iu oi a g ande di iculdade de
compa ibiliza e o mas econômico-sociais com a democ acia polí ica. As
medidas econômicas ado adas com o in ui o de e oma o c escimen o e
comba e a in lação malog a am com o acasso do Plano T ienal elabo ado
po Celso Fu ado, o nando impossí el concilia a con enção do gas o público
e o apelo ao “ape o dos cin os”. G ada i amen e, ag a a am-se as ensões
sociais, bem como o adicalismo e a pola ização en e o go e no e os se o es
con es ado es da polí ica de e o mas de endida po Goula . Nes e cená io,
an o a di ei a quan o a esque da passa am a de ende uma solução de exceção
pa a a si uação: a saída pelas a mas coloca a-se como o ho izon e polí ico
pa a ambos os lados. Pa a a di ei a, a democ acia in e essa a se osse ú il na
de esa de seus p i ilégios, mas se ia absolu amen e inú il se es es es i essem
ameaçados; pa a a esque da, além de p essiona pa a que o go e no aumen asse
a elocidade de implemen ação das e o mas, os quali ica i os subs an i os que
elas ca ega am e am imensamen e mais impo an es do que as o malidades
democ á icas. Como obse ou A gelina C. Figuei edo, no B asil daqueles anos,
o nou-se impossí el a cons ução de um comp omisso que combinasse e o -
mas e democ acia em um p oje o polí ico consis en e, po que democ acia e e-
o mas e am pe cebidas como obje i os polí icos con li an es. (...) [No pe íodo
Goula ] di e en es coalizões se o ma am em o no de cada um desses obje i-
os, es u u adas, na maio ia das ezes, em unção de um e em de imen o de
ou o. Em cada uma dessas conjun u as, di e en es a o es con ibuí am pa a
o acasso em se alcança um equilíb io acei á el en e eg as democ á icas
de compe ição polí ica e mudanças socioeconômicas” (Figuei edo, 1997:48;
Figuei edo, 1993).
Assim, o golpe de 1964 e o egime au o i á io que se ins alou em seguida
não podem se is os anali icamen e pela ó ica da a alidade. Especi icamen e,
o golpe de 1964 não pode se a ibuído, exclusi amen e, nem a aspec os
es u u ais da economia, omados como ine i á eis – uma ez que es es já
exis iam quando o golpe oi abo ado em 1961, no con ex o de implan ação
da al e na i a do pa lamen a ismo quando da enúncia de Jânio Quad os –,
nem a uma con on ação polí ica ine i á el, p o ocada po uma pode osa e
implacá el coalizão di ei a, eximindo-se os se o es nacionalis as e de esque da
de quaisque esponsabilidades po suas condu as e posicionamen os cada ez
mais up u ais.
Na conjun u a que p ecedeu ao golpe, as lide anças polí icas de esque da
e de di ei a adicaliza am cada ez mais seu discu so dando uma cla a
demons ação de que compa ilha am uma baixa con icção a espei o da
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democ acia exis en e no país. Ambos os lados, de a o, conspi a am con a a
democ acia ep esen a i a e p epa a am um golpe con a suas ins i uições: a
di ei a pa a impedi o a anço e a consolidação das e o mas; a esque da pa a
elimina os obs áculos que se an epunham a esse p ocesso e ao que ela imagina a
que pode ia i em seguida, em a o de seus p oje os e olucioná ios. Em
consequência, o golpismo, concepção e p á ica já a aigada na di ei a b asilei a,
i ia se combina d ama icamen e com a ausência de adição democ á ica
da esque da, le ando a uma con on ação que se ia a al pa a a democ acia
(Ca alho, 2001: 150/1).
Chile: o golpe mili a de 1973 e o egime au o i á io
No Chile, di e en emen e, Sal ado Allende oi depos o em se emb o de
1973 e, no discu so dos golpis as, es a a cla a a ideia de “sal a o Chile do
comunismo” e ins i ui uma no a o dem polí ica e social. O go e no que oi
de ubado e a decla adamen e socialis a e ealiza a e o mas nesse sen ido,
ainda que i esse man ido a legalidade democ á ica do país, como es a a
p e is o no p oje o da “ ia chilena ao socialismo” de endido pela Unidade
Popula (UP). Con udo, em unção dessas e o mas e da manei a como elas
o am ealizadas, ia dec e os do pode execu i o e não po meio de aco dos
no Pa lamen o, as con adições o am se aci ando e a pola ização acabou
po se sob epo a qualque ou a acionalidade polí ica, culminando an o na
deses abilização quan o na desins i ucionalização que le ou ao golpe (Aggio,
2012). O no á el é que o discu so dos golpis as no Chile assumiu o mesmo
om do discu so e olucioná io que azia a Unidade Popula , ins i uindo,
en e an o, um e o con á io: passa-se a pos ula uma con a e olução po
meio de mé odos e olucioná ios. O anseio não e a o e o no à democ acia
(embo a po algum momen o alguns se o es golpis as, especialmen e ci is,
enham ocalizado essa pe spec i a), mas a imposição de uma di adu a que
econs uísse o país. Como obse ou Tomás Moulian,
o egime mili a é a negação da Unidade Popula e ambém uma ealização
in e ida da sua ideia ma iz. Ap op ia-se de elemen os que se ha iam ins alado
no imaginá io social pela ação cul u al dela p óp ia: a ideia de uma c ise, da
necessidade de uma ‘g ande ans o mação’ e a alo ização de uma di adu a
enquan o ins umen o do bem (Moulian, 1993:288).
A pa i de 1973, e a undamen al pa a o no o egime supe a os esquemas
e os cená ios que ha iam ma cado a i ência polí ica dos chilenos a é en ão.
Numa pala a, e a p eciso sup imi a democ acia de um só golpe e anula-la
no imaginá io popula . A opção po esse caminho se ia impos a “de cima”,
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A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica y Humanidades, año 17, nº 34. Segundo semes e de 2015.
Pp. 353-370. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 doi: 10.12795/a auca ia.2015.i34.16
po um pode que assumi ia um pe il e olucioná io. O golpe de 1973 oi, em
suma, um a o ci ú gico de cancelamen o da polí ica en e os chilenos, o que
signi ica a dize que oi a sup essão da o ma pela qual a sociedade chilena
comp eendia-se a si mesma.
Pa a ealiza udo is o, o egime con ou com um apa a o ep essi o que
pe seguiu, o u ou e assassinou quem e a conside ado oposi o . Em seus
p imei os momen os, como se disse acima, a di adu a p ocu ou enca na o
in e so dos anseios e olucioná ios da UP e, pa adoxalmen e, oi a pa i de sua
negação que os chilenos ie am a conhece , de a o, o signi icado da pala a
e olução (Moulian, 1993). T a a a-se ago a de uma con a e olução: ha ia
me as de ans o mação adical a se em alcançadas, e não p azos. Em analogia
ao “socialismo eal” (da URSS e do Les e eu opeu), o que se es abeleceu
no Chile oi uma espécie de “libe alismo eal”: um capi alismo quase sem
egulações, apoiado num Es ado au o i á io sus en ado po mecanismos
ins i ucionais conse ado es (Ti oni: 1986).
O que eio a se es abelece no Chile depois de 1973 oi uma di adu a
cons uída a pa i de uma i edu í el pe sonalização do pode em o no do
Gene al Augus o Pinoche , sus en ada po meio de um egime au o i á io com
baixo ní el de ins i ucionalização. Nesse sen ido, o sis ema decisó io e de
p odução de leis, bem como as ins âncias o mais de delibe ação, esolução
e implemen ação das polí icas de Es ado e go e no passa am a se o emen e
cen alizadas na igu a de Pinoche , ese ando-se apenas espaços in o mais de
negociação com ep esen an es da sociedade, no adamen e do emp esa iado e
das o ças polí icas que apoia am o golpe (Huneeus, 2000).
Assim, em unção do desen ola dos acon ecimen os e das ações p á icas de
seus execu o es e apoiado es, o egime au o i á io chileno oi es u u ando sua
pe spec i a undacional que p ocu a a ec ia a sociedade e embasa-la sob e
no os pila es de sus en ação. O egime au o i á io encon a a legi imidade
pa a essa ope ação no diagnós ico de que a c ise que ha ia exigido o golpe
de Es ado e a esul ado do acasso da democ acia e do desen ol imen o
polí ico e i icado nas décadas an e io es. Po essa azão, os i o iosos em 11
de se emb o
p opuse am-se a da início a uma no a ase na his ó ia do país, pa a o qual
es abelece am me as mui o ambiciosas: elimina a pob eza, c ia as bases do
c escimen o econômico e implan a uma o dem polí ica dis in a da democ a-
cia ociden al po que a conside a am ágil dian e do ma xismo. Es a [no a o -
dem] se ia uma democ acia p o egida e au o i á ia, com plu alismo limi ado e
subme ida à u ela das Fo ças A madas, que a deixa iam uncionando quando
ol assem pa a os seus qua éis (Huneeus, 2000:624).
Em e mos econômicos, o obje i o de aze a economia ol a a c esce e
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de pode , se passa de uma di adu a a uma ce a o ma de democ acia e muda o
pessoal polí ico nos pos os de comando do Es ado. Mas não há uma mudança
do bloco dominan e ainda que se modi ique o modelo de dominação (Moulian,
1977: 145).
Cons angida pelos e ei os do ans o mismo nega i o, mesmo assim,
a ansição segui ia sua ma cha. No início da década de 1990, os espaços
polí icos se democ a izam e a dispu a passou a se concen a em dois polos:
a Conce ación, ag egando os pa idos de cen o-esque da – como o Pa ido
Socialis a e a DC – e a Alianza po Chile, a iculando as o ças adicionais
da di ei a com os neolibe ais – como a Reno ação Nacional (RN) e a União
Democ á ica Independen e (UDI).
Em elação às ou as ansições pa a a democ acia no con inen e la ino-
ame icano, especialmen e a b asilei a, o Chile i eu dois aspec os peculia es:
não he dou nenhuma c ise econômica do egime an e io e conseguiu elege
sucessi amen e qua o p esiden es pe encen es a Conce ación – a mesma
coalizão polí ica que ha ia de o ado a di adu a. A pa i de 1990, go e na am
o Chile Pa icio Aylwin, Edua do F ei, Rica do Lagos e Michele Bachele .
Os go e nos da Conce ación conduzi am com êxi o a in eg ação do Chile
ao p ocesso de globalização, o que ez a ança os aços de mode nidade
do país, como a melho ia do se o de se iços, a especialização da p odução
ag oindus ial pa a a expo ação, a despoluição, a ino ação e a di e si icação
emp esa iais. O c escimen o con ínuo da economia chilena nesses anos, a é
a c ise econômica mundial que ab iu o século XXI, oi no á el. As emá icas
sociais su ocadas du an e a di adu a o am econduzidas como a e as do
Es ado, ampliando a coesão social, ainda que as polí icas públicas dos go e nos
da Conce ación enham se e elado insu icien es.
No Chile, a manu enção de boa pa e dos encla es au o i á ios, pelo
menos a é 2005, acabou po ge a um pa adoxo: o egime democ á ico es á
consolidado, mas a p esença de Pinoche no imaginá io polí ico deixa a
sensação de que a ansição pe manece inconclusa. A imagem que ica do
Chile pós-Pinoche é a de uma “democ acia de má qualidade”, esul an e de
uma ansição mui o condicionada aos di ames do egime an e io , que impôs
um “ ans o mismo nega i o” ao andamen o polí ico, a asando em demasia
e o mas democ a izan es e obs aculizando e o mas sociais. Po essa azão,
o Chile pós-di adu a só conseguiu p oduzi “go e nos de negociação” e, com
eles, um “ e o mismo aco”.
Em sín ese, se hou esse a necessidade de es abelece alguns pon os na
compa ação que izemos aqui pode íamos dize que em elação aos golpes
de Es ado o que sob essai é a di e ença en e os golpes de Es ado de 1964,
no B asil e 1973, no Chile. Quan o aos egimes au o i á ios, B asil e Chile
i encia am egimes polí icos o malmen e dis in os, com es a égias
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hegemônicas ambém dis in as no sen ido de a ende em e ag upa em núcleos
di igen es e classes subal e nas. Mesmo assim, os egimes au o i á ios de
B asil e Chile p omo e am esul ados pon ualmen e semelhan es no que se
e e e às ans o mações sociais o ien adas no sen ido da libe ação do mundo
dos in e esses, da a i mação do indi idualismo e do consumismo. Po im,
em elação à conquis a da democ acia, o pionei ismo e a longa ansição do
B asil con as am com o encu amen o na ansição chilena, mas ambém com
a p esença mili a mais os ensi a no Chile do que no B asil. Enquan o o B asil
alcança elabo a consensualmen e uma no a Cons i uição, esse ainda é um
ema penden e no Chile, mesmo passados 25 anos. O “ ans o mismo posi i o”
no B asil, que pe mi iu o es abelecimen o de uma no a o dem cons i ucional,
inaugu ando uma no a ase, con as a com a apa en e up u a p o ocada pela
i ó ia da oposição no plebisci o de 1988 e com a i ó ia da es a égia do
“ ans o mismo nega i o” no Chile, que edunda ia numa si uação democ á ica
ei ada de condicionan es e cons angimen os.
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