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Investigaciones Geográicas, Boletín del Instituto de Geografía, UNAM ISSN 0188-4611, núm. 88, 2015, pp. 45-59, dx.doi.org/10.14350/rig.44092 Efeitos da desertiicação na composição de espécies do bioma Caatinga, Paraíba/Brasil Recibido: 29 de enero de 2014. Aceptado en versión inal: 21 de enero de 2015. Bartolomeu Israel Souza* Rafael Menezes** Rafael Cámara Artigas*** * Departamento de Geociencias, Universidade Federal da Paríba, Brasil. E-mail: [email protected]; menezes_ [email protected] ** Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas (Zoologia), Universidade Federal da Paraíba, Cidade Universitária, s/n, Castelo Branco, João Pessoa, Paraíba, Brasil. E-mail: menez[email protected] *** Departamento de Geografía Física y Análisis Geográico Regional, Universidad de Sevilla, Calle San Fernando No. 4, 41004, Sevilla, España. Cómo citar: Souza, B. I., R. Menezes, R. Cámara A. (2015), “Efeitos da desertiicação na composição de espécies do bioma Caatinga, Paraíba/Brasil”, Investigaciones Geográicas, Boletín, núm. 88, Instituto de Geografía, UNAM, México, pp. 45-59, dx.doi. org/10.14350/rig.44092. Resumo. A desertiicação é reconhecida como uma das principais ameaças a zonas de clima seco em todo mundo. No Brasil, esse fenômeno tem atingido especialmente o bioma Caatinga, para o qual ainda existe pouca informação acerca de suas consequências na composição lorística. O presente trabalho objetivou avaliar este efeito em sítios inseridos em três municípios da Paraíba (Nordeste, Brasil). Sítios de amostragem foram previamente selecionados por imagens de satélite usando a técnica IVDN, seguido de um levantamento vegetacional in locu (método transecto) abrangendo ambientes não-desertiicados e desertiicados. Análises univariadas (teste U) e multivariadas (nMDS) foram usadas a veriicar diferenças nas variáveis vegetacionais e demonstrar padrões de dissimilaridades entre os ambientes contrastantes, respectivamente. A riqueza e diversidade de plantas diferiram signiicativamente entre os ambientes. O nMDS identiicou três grupos de plantas: i) espécies associadas a áreas não-desertiicadas (Anadenanthera columbrina, Bauhinia cheilantha e Tabebuia impetiginosa), ii) espécies relacionadas a áreas desertiicadas (Aspidosperma pyrifolium, Jatropha molissima, Mimosa tenuilora e Pilosocereus gounellei) e iii) espécies presentes nos dois tipos de ambientes (Croton sonderianus, Piptadenia stipulacea e Poincianella pyramidalis). Os resultados apontaram que a desertiicação desencadeou mudanças severas na composição lorística da Caatinga, indicando também que as intervenções humanas foram determinantes no estabelecimento dos diferentes ambientes. Palavras-chave: Ambientes desertiicados e não-desertiicados; Floresta Tropical Sazonalmente Seca; comunidade de plantas.
46 ][ Investigaciones Geográicas, Boletín 88, 2015 Bartolomeu Israel Souza, Rafael Menezes e Rafael Cámara Artigas Desertiication effects on the species composition of the Caatinga biome, Paraíba/Brazil - afeta direta e indiretamente mais de 1 bilhão de pessoas; - mais de 100 países sofrem com esse processo; - são perdidos cerca de seis milhões de hectares de terra arável e produtiva todos os anos em função desse tipo de degradação; - cerca de ¼ da superfície terrestre sofre de degradação e erosão dos solos advindas da desertiicação; - o solo arável por pessoa diminuiu de 0.32ha, em 1961-1962, para 0.21ha em 1997-1999, esperando que diminua para 0.16ha em 2030. O Brasil tem acompanhado as discussões mundiais sobre a questão da desertiicação desde o seu início, sendo um dos países signatários da ConINTRODUÇÃO Terras de clima seco em todo o mundo vêm sofrendo um progressivo processo de degradação ambiental, o qual, principalmente a partir da década de 1970, passou a ser conhecido internacionalmente como desertiicação. Por deinição formal, este tipo de degradação ocorre exclusivamente nas zonas de clima árido, semiárido e subúmido seco, em função das variações climáticas e das atividades humanas, atingindo os solos, os recursos hídricos, a vegetação, a biodiversidade e a qualidade de vida da população (CCD, 1995). Atualmente, os dados conhecidos sobre a desertiicação revelam a gravidade desse problema já que, entre outras características (Roxo, 2006): Abstract. Desertiication is recognized as the land degradation in arid, semiarid, and dry sub-humid zones, as a result from multiple anthropogenic impacts such as unsustainable natural resources management and land-use. In this context, the plant cover displays a crucial role due its capacity of soil protection against both terrestrial runof and high rates of rain iniltration. In Brazil, the desertiication has reached mainly the Seasonally Dry Tropical Forest (STDF) biome, natively known as Caatinga, in which the major drivers are related to the historical severe deforestation and livestock expansion. In face of this alarming scenario, there is no or few information about direct efects driven by desertiication, particularly those related to the loristic composition of afected areas or afected potentially areas. Herein, the aim was to assess the desertiication efects on vegetation composition within three sites in the Brazilian semiarid zone. In order to ensure unbiased comparisons, the three sampling sites presented similar topographical, pedological and climate conditions, localized at distinctive municipality from Paraíba State, Northeastern region, Brazil. In each site, two contrasting situations were sampled, - desertiied and non-desertiied environments. hese environments were previously selected though satellite images, using the NDVI technique, for identiication of vegetation biomass level. In ield, the loristic composition was surveyed by transect method, covering a patch of 50m x 4m delimitated with metric tape. In these perimeters, it was identiied the specie and botanical family of each plant, richness (S) and abundance (N) of tree with DBH ≥ 10 cm. Posteriorly, it was calculated the Shannon’s "diversity (H’) and Piellou´s evenness (J’) by Primer" software (open access). Non-parametric univariate (U test) and multivariate (nMDS) analysis were performed to verify diferences in the vegetational variables (S, N, H’ and J’) and to demonstrate dissimilarities patterns (relative abundance) for the contrasting environments, respectively. In total, twenty-six plant species were identiied, belonging to thirteen families. Of this set, seventeen species (65%) were exclusive of non-desertiied areas and only two species were exclusive of desertiied areas. U test showed that the both richness and diversity of plants species difered signiicantly between the two analyzed environments. Using a subset of 10 species most common in two environments, the nMDS discriminated three groups of plants: i) species associated to non-desertiied areas (Anadenanthera columbrina, Bauhinia cheilantha and Tabebuia impetiginosa), ii) species related to desertiied areas (Aspidosperma pyrifolium, Jatropha molissima, Mimosa tenuilora and Pilosocereus gouneleii) and iii) species with high density in both environments (Croton sonderianus, Piptadenia stipulacea e Poincianella pyramidalis). Dominant species in the non-desertiied areas are restricted to the environments better preserved of Caatinga, which cannot to support strong degradation condition, whereas the species most common in the desertiied areas are recognized as pioneer for the biome. Occurring to the two environments, such species harbors high capacity of settlement to the either impacted or preserved environments coupled to a strong resistance and resilience to disturbance (e.g. log and burn). Finally, the results obtained pointed out that the desertiication triggered pervasive changes on the vegetational components (richness and diversity) and loristic composition of the Caatinga biome, suggesting also that human-induced disturbances were determinants to the establishment of the diferent environments. Key words: Non-desertiied and desertiied environments; Seasonally Dry Forest; Plant communities.
Investigaciones Geográicas, Boletín 88, 2015 ][ 47 Efeitos da desertiicação na composição de espécies do bioma Caatinga, Paraíba/Brasil venção Internacional de Combate à Desertiicação e à Seca, em 1994. Mesmo assim, somente em 2004 concluiu o seu Programa de Ação Nacional de Combate à Desertiicação e Mitigação dos Efeitos da Seca/PAN-Brasil. Em relação à distribuição desse tipo de degradação no país, o Ministério do Meio Ambiente (MMA) elaborou no ano 2004 um mapeamento das áreas susceptíveis à desertiicação (ASDs), servindo este de base para o desenvolvimento de Políticas Públicas que tenham o objetivo de combater o processo onde ele exista, assim como evitar a sua ocorrência em áreas ainda não atingidas. As ações desse programa governamental estão concentradas nas zonas de clima semiárido e subúmido seco da região Nordeste do país e uma pequena parte do norte do estado de Minas Gerais, na região Sudeste, onde domina o Bioma Caatinga (classiicada internacionalmente como um tipo de Floresta Tropical Sazonalmente Seca – STDF, conforme Oliveira Filho et al., 2006; Pennington et al., 2000; Prado, 2000), além do noroeste do estado do Espírito Santo (região Sudeste), perfazendo uma superfície total de 1 338.076 km², onde vivem 31 663 671 pessoas, em 1 482 municípios (BRASIL, 2004). Apesar do quadro alarmante descrito anteriormente, como um relexo da falta de conhecimento sobre a estrutura e funcionamento da Caatinga (Pinheiro et al., 2013), um quadro real sobre o quanto foi alterado desse bioma até o momento ainda não foi deinido (Castelletti et al., 2005). Levando em consideração a hipótese de que na Caatinga tivéssemos antes da colonização européia lorestas secas bem mais desenvolvidas em quantidade e diversidade, comparando ao que temos dominando atualmente (Coimbra-Filho e Câmara, 1996), pensando em ações efetivas para a recuperação desses ambientes, torna-se fundamental comparar as áreas relativamente bem preservadas ainda existentes com as que foram perturbadas, para que se possa detectar se houve mudanças na composição das espécies vegetais, como já foi identiicado em outras lorestas secas no mundo (Murphy e Lugo, 1986; Gentry, 1995; Medina, 1995) e, a partir daí, desenvolver ações melhor orientadas. Apesar da insuiciência de dados mais precisos, Sá et al. (2004) destacam o Estado da Paraíba como aquele que apresenta os mais graves problemas gerados pela desertiicação no Brasil, tendo como causa principal as modiicações seculares que vem atingindo as comunidades vegetais relacionadas ao Bioma Caatinga. Padrões similares são encontrados em outras regiões de clima seco do mundo, apresentando como consequência a perda de cobertura e riqueza nas comunidades de plantas (Hanai e Ouled-Belgacen, 2006; Whitford, 1995), afetando também os solos com a diminuição da proteção contra o escoamento, redução na iniltração e nutrição bioquímica (Papanastasis et al., 2003). Em se tratando da Paraíba, o desmatamento excessivo que vem ocorrendo na Caatinga é ainda mais preocupante em função da riqueza vegetal existente ser muito pouco conhecida (Araújo et al., 2005). Com base no exposto, o objetivo desse trabalho foi identiicar e avaliar a composição de espécies vegetais na Caatinga em áreas não-desertiicadas e desertiicadas, aspectos ainda carentes de muitas informações quando se trata das pesquisas desenvolvidas no Brasil sobre esse tipo de degradação. MATERIAIS E MÉTODOS Área de estudo e critérios de seleção Esta pesquisa foi desenvolvida em áreas dos municípios de Maturéia, São João do Tigre e Soledade (Figura 1), localizados na parte semiárida da Paraíba. Os critérios para seleção dos municípios e das áreas de estudo foram baseados nas características naturais dominantes e no uso e ocupação das terras. As áreas amostradas estão inseridas em uma zona onde a pluviosidade média é de cerca de 600 mm/ano, com período chuvoso concentrado nos meses de fevereiro à maio, apresentando forte variação ao longo do tempo e do espaço. As temperaturas médias são de 27º C, o que torna o déicit hídrico presente a maior parte do ano. Os solos dominantes são do tipo Neossolo Regolítico, pouco profundos (menos de 1 m), arenosos, moderadamente ácidos, com boa reserva de minerais primários, baixos conteúdos de matéria orgânica e nitrogênio que decrescem com o uso (Cunha et al., 2010).
48 ][ Investigaciones Geográicas, Boletín 88, 2015 Bartolomeu Israel Souza, Rafael Menezes e Rafael Cámara Artigas O uso e ocupação das terras nesses municípios, a exemplo do que domina nessa parte do Brasil, está fundamentado secularmente na agricultura (principalmente de subsistência), pecuária extensiva (particularmente caprina) e extrativismo vegetal (notadamente a produção de lenha e carvão vegetal), em propriedades que vem diminuindo de tamanho ao longo da história, devido as sucessivas divisões por questões de herança entre os familiares. Esse conjunto de fatores faz com que parte dos municípios analisados tenha seus territórios atingidos pela desertiicação, embora também apresentem algumas áreas com bons níveis de preservação da Caatinga e uso sustentável dos solos (Souza, 2011). Vale ressaltar a importância das áreas analisadas estarem localizadas em municípios distantes entre si (mínimo de 130 km) o que, em termos de desenho amostral, evita efeitos negativos relacionados à pseudoreplicação e/ou autocorrelação espacial (Hurlbert, 1984; Legendre, 1993). Em cada município foi selecionada como amostragem da situação encontrada uma condição de preservação e outra de degradação (chamadas aqui como “não-desertiicadas” e “desertiicadas”). Essa distinção de ambientes foi baseada na maior ou menor densidade da cobertura vegetal, inicialmente a partir de observações em imagens de satélite. Para tanto, foram utilizadas imagens do satélite Landsat5, disponibilizadas no site do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). As datas das imagens foram 19/07/2007 para o município de São João do Tigre, 22/04/2010 para o município de Soledade e 28/08/2010 para o município de Maturéia, por serem períodos próximos ao ano de realização do trabalho (2011) e também pelo material disponível no site não apresentar cobertura de nuvens que pudesse comprometer a análise feita. Para identiicar as áreas com maior e menor densidade de cobertura vegetal, as imagens de satélite foram submetidas a uma análise de índices de vegetação, as quais são relacionadas a parâmetros biofísicos da cobertura vegetal, como biomassa e área foliar, optando-se pelo Índice de Vegetação de Diferença Normalizada (NDVI), a mais frequenteFigura 1. Localização dos municípios onde foi desenvolvido o trabalho. Colômbia Bolívia Chile Argentina Paraguai Uruguai Peru Venezuela Brasil Guiana Guiana Francesa Suriname 70º0'0"W 0º0'0" 10º0'0"S 20º0'0"S 30º0'0"S 60º0'0"W 50º0'0"W 40º0'0"W 0 1 300650 km Paraíba Rio Grande do Norte Ceará SOLEDADE SÃO JOÃO DO TIGRE MATURÉIA 0 10050 Km Legenda Brasil Municípios de Estudo Região Nordeste Municípios Paraibanos Geographic Coordinate Systems South American Datum 1969 38º0'0"W 37º0'0"W 36º0'0"W 35º0'0"W 6º0'0" 7º0'0"S 80º0'0"S PERNAMBUCO
Investigaciones Geográicas, Boletín 88, 2015 ][ 49 Efeitos da desertiicação na composição de espécies do bioma Caatinga, Paraíba/Brasil mente utilizada nesses tipos de trabalho (Ponzoni e Shimabukuro, 2007). Para essa fase foi utilizado o software ARCGIS 10.2. Também foi averiguado se nas áreas selecionadas as características de preservação e degradação estavam dessa forma há pelo menos 20 anos, com base em relatos da população que habitava o seu entorno. A adoção desse procedimento procurou assim seguir o que a CCD (1995) deine como degradação da terra, onde uma das questões cruciais diz respeito à série temporal da aquisição de dados, evitando assim a categorização de uma paisagem dita como desertiicada baseada somente em uma situação momentânea. Coleta dos dados O levantamento lorístico foi realizado ao longo do ano 2011, ocorrendo nas áreas selecionadas através de transectos, com dimensões de 50m x 4m, delimitados por ita métrica. Dentro do perímetro de cada transecto, foi quantiicada a abundância (N) e riqueza (S) das espécies arbustivas e arbóreas com Diâmetro a Altura do Peito (DAP) maior ou igual a 10cm e identiicadas suas respectivas famílias botânicas. Tratamento e análise dos dados Com base nas medidas de abundância e riqueza de plantas amostradas in situ, foram incorporadas duas variáveis da diversidade alfa: a diversidade de Shannon (H’) e a equitabilidade de Piellou (J’). Ambos os índices foram calculados pelo programa Primer versão d"(http://primer-e.com). Para o índice de diversidade de Shannon, valores menores que 1 representam baixa diversidade, enquanto os maiores que 3 indicam elevada diversidade. Já o índice de equitabilidade abrange valores entre 0, onde temos uma comunidade dominada por algumas espécies, a 1, onde temos uma comunidade equitativa na proporção de espécies (Magurran, 2004). Procedimentos não-paramétricos foram usados para veriicar tanto diferenças quanto padrões de similaridades nas comunidades de plantas entre as áreas não-desertiicadas e desertiicadas. Assim, testes de Mann-Whitney (testes U) foram realizados a im de veriicar diferenças nas médias das variáveis vegetacionais (N, S, H’ e J’) entre os dois ambientes (Zar, 1999). Em adição, um Escalonamento Multidimensional Não-Métrico (nMDS), através do coeiciente de Bray-Curtis, foi aplicado para sumarizar a dimensionalidade dos dados e criar um diagrama 2D mostrando como as variáveis estão espacialmente agrupadas (Kruskal, 1964). A medida utilizada para essa análise foi a abundância relativa (N%) das espécies de plantas sob cada ambiente. Valores de stress obtidos pelo teste indicam graus de similaridades (ou dissimilaridades), com elevados índices mostrando comunidades sobrepostas, enquanto baixos valores indicam comunidades segregadas. A im de evitar ruídos estatísticos, foi feita uma seleção das espécies que melhor caracterizaram as comunidades de plantas das áreas não-desertiicadas e desertiicadas, conforme orientam Legendre e Legendre (1998). Nesta seleção, espécies ocorrentes em apenas um município fora 2m excluídas. Assim, um subconjunto de dez espécies (≈ 74% do total amostrado) foi selecionado para análise de nMDS. As análises estatísticas foram calculadas pelo software livre R (pacotes Stat e Ecodist), adotando nível de signiicância (valor p) menor que 0.05 para rejeição da hipótese nula. RESULTADOS O IVDN apontou diversas áreas com alto e baixo nível de biomassa, concebendo-as, respectivamente, como equivalentes a ambientes não-desertiicados e desertiicados. Com base nesse quadro geral e no reconhecimento dessas paisagens em campo, foram estabelecidas as áreas onde ocorreram os levantamentos de vegetação, conforme pode ser observado na Figura 2. Considerando os dois ambientes em conjunto, foram identiicadas 26 espécies de plantas, pertencentes a 13 famílias (Quadro 1). Deste número, 17 espécies (≈ 65%) foram exclusivas das áreas não-desertiicadas. Apenas duas espécies (Croton echioides e Pilosocereus gounellei) ocorreram exclusivamente nas áreas desertiicadas. Nos dois ambientes as espécies mais abundantes foram Mimosa tenuilora e Croton sonderianus (Figura 3), enquanto as famílias dominantes foram Fabaceae e Euphorbiaceae.
50 ][ Investigaciones Geográicas, Boletín 88, 2015 Bartolomeu Israel Souza, Rafael Menezes e Rafael Cámara Artigas Quadro 1. Lista de espécies de plantas com medidas de abundância absoluta e relativa (em parênteses) identiicadas nos ambientes não-desertiicados e desertiicados, nos municípios analisados Família/Espécie Acrônimos Ambientes Não-Desertiicados: Abundância absoluta e relativa Ambientes Desertiicados: Abundância absoluta e relativa Maturéia Soledade São João do Tigre Maturéia Soledade São João do Tigre ANACARDIACEA Myracroduon urundeuva Allemão MYRURU 1 (1.03) 4 (4.82) - - - - APOCYNACEAE Aspidosperma pyrifolium Mart. ASPPYR - 3 (3.61) - - 4 (5.00) 8 (21.05) ARECACEAE Syagrus cearenses Noblik SYACEA - - 4 (8.33) - - - BIGONONIACEAE Tabebuia impetiginosa (Mart. ex DC) Standl. TABIMP 1 (1.03) - 8 (16.67) - - - Figura 2. IVDN dos municípios analisados, destacando em núme-ros as áreas desertiicadas (1, 3 e 5) e não-desertiicadas (2, 4 e 6) onde foram efetuados os levantamentos de vegetação. Legenda Delimitação dos Estados Municípios Paraíbanos Municípios do Estudo Baixo Alto IVDN Locais de Amostragem 38º0'0"W 37º0'0"W 36º0'0"W 35º0'0"W 6º0'0" 7º0'0"S 80º0'0"S Ceará Rio Grande do Norte Paraíba SOLEDADE SÃO JOÃO DO TIGRE MATURÉIA 0 80 160 km PERNAMBUCO Geographic Coordinate Systems South American Datum 1969
Investigaciones Geográicas, Boletín 88, 2015 ][ 51 Efeitos da desertiicação na composição de espécies do bioma Caatinga, Paraíba/Brasil Quadro 1. Continuação Família/Espécie Acrônimos Ambientes Não-Desertiicados: Abundância absoluta e relativa Ambientes Desertiicados: Abundância absoluta e relativa Maturéia Soledade São João do Tigre Maturéia Soledade São João do Tigre BOMBACACEAE Ceiba glaziovii (Kuntze) K. Schum. CEIGLA - - 3 (6.25) - - - Pseudobombax marginatum PSEMAR 1 (1.03) 4 (4.82) - - - - BURSERACEAE Commiphora leptophloeos (Mart.) J. B. Gillett CONLEP 1 (1.03) 1 (1.20) - - - - CACTACEAE Cereus jamaracu DC CERJAM 3 (3.09) - - - - - Pilosocereus gounellei (Weber) Byles & G. D. Rowley PILGOU - - - - 2 (2.50) 4 (10.53) Pilosocereus pachycladus F. Ritter PILPAC - 3 (3.61) - - - 2 (5.26) CAPPARACEAE Capparis lexuosa (L.) L. CAPFLE 13 (13.40) - - - - - COMBRETACEAE Combretum leprosum Mart. COMLEP 26 (26.80) - - - - - EUPHORBIACEAE Croton echioides Baill. CROECH - - - - 3 (3.75) - Croton sonderianus Mull. Arg. CROSON 5 (5.15) 47 (56.63) 2 (4.17) 1 (3.33) 43 (53.75) - Jatropha molissima (Pohl) Baill. JATMOL 1 (1.03) 1 (1.20) - - 1 (1.25) 4 (10.53) Manihot glaziovii Mull. Arg. MANGLA 7 (7.22) 14 (16.87) - - - - FABACEAE Anadenanthera colubrina (Vell.) Brenam ANACOL 4 (4.12) 2 (2.41) 6 (12.50) - - - Bauhinia cheilantha (Bong.) Steud BAUCHE 10 (10.31) - 2 (4.17) - - - Caesalpinia ferrea Mart. ex Tul. CAEFER - - 4 (8.33) - - - Dioclea sp. DIOsp. 2 (2.06) - - - - -
52 ][ Investigaciones Geográicas, Boletín 88, 2015 Bartolomeu Israel Souza, Rafael Menezes e Rafael Cámara Artigas Quadro 1. Continuação Não-desertificado Desertificado 70 60 50 40 30 20 10 0 ANACOL ASPPYR BAUCHE CAEFER CAPFLE CEIGLA CERJAM COMLEP CONLEP CROECH CROSON DIOsp. ENTCON HELBAR JATMOL MANGLA MIMTEN MYRURU PILGOU PILPAC PIPSTI POIPYR PSEMAR SYACEA TABIMP XIMAME Abundância relativa (N%) Figura 3. Média (± Erro-Padrão) da abundância relativa (N%) das espécies de plantas registradas nos ambientes não-desertiicados e desertiicados. Acrônimos são descritos no Quadro 1. Família/Espécie Acrônimos Ambientes Não-Desertiicados: Abundância absoluta e relativa Ambientes Desertiicados: Abundância absoluta e relativa Maturéia Soledade São João do Tigre Maturéia Soledade São João do Tigre Enterolobium contortisiliquum (Vell.) Morong ENTCON - - 1 (2.08) - - - Mimosa tenuilora (Wild.) Poir. MIMTEN - - - 24 (80.00) - 20 (52.63) Piptadenia stipulacea (Benth.) Ducke PIPSTI 7 (7.22) 1 (1.20) 3 (6.25) 5 (16.67) 1 (1.25) - Poincianella pyramidalis Tul POIPYR - 3 (3.61) 5 (10.42) - 26 (32.50) - MALVACEAE Helicteres baruensis Jacq. HELBAR 15 (15.46) - - - - - OLACACEAE Ximenia americana L. XIMAME - - 10 (20.83) -- - Total 97 83 48 30 80 38 Todas as variáveis vegetacionais mostraram maiores valores nos ambientes não-desertiicados (Quadro 2). Apesar de não signiicativa, a abundância de espécies de plantas apresentou um aumento de cerca de 35% no grupo não-desertiicados. Quanto a equitabilidade, as comunidades de plantas dos ambientes não-desertiicados indicaram uma distribuição relativamente homogênea, enquanto os desertiicados tendenciaram a dominância de algumas espécies. As variáveis que melhor representam a perda das características de uma comunidade (riqueza e diversidade) mostraram diferenças signiicativas entre os ambientes contrastantes. O grupo nãodesertiicado registrou mais que o dobro da riqueza de espécies em relação ao desertiicado. Em adição,
Investigaciones Geográicas, Boletín 88, 2015 ][ 53 Efeitos da desertiicação na composição de espécies do bioma Caatinga, Paraíba/Brasil o índice de diversidade atingiu proporções similares à riqueza, quando comparados os dois ambientes. O nMDS registrou baixo valor de stress (0.10) mostrando que a composição de espécies de plantas difere substancialmente entre os ambientes estudados, como pode ser graicamente visualizado através do diagrama de ordenamento (Figura 4). Os dois primeiros eixos principais do nMDS identiicaram três grupos de plantas. Escores positivos indicaram as espécies de plantas associadas a ambientes nãodesertiicados (Anadenanthera colubrina, Bauhinia. cheilantha e Tabebuia impetiginosa), enquanto que os escores negativos representaram as espécies relacionadas às áreas desertiicadas (Aspidosperma pyrifolium, Jatropha molissima, Mimosa tenuilora e Pilosocereus gounellei). Já o grupo das espécies que foram comuns aos dois ambientes ocupou um espaço mais abrangente, apresentando escores tantos positivos como negativos para os dois eixos (Croton sonderianus, Piptadenia stipulacea e Poincianella pyramidalis). DISCUSSÃO A desertiicação é um processo que vem desencadeando sérias mudanças na estrutura de comunidades de plantas (Whitford, 1995), embora poucos trabalhos tenham avaliado em termos quantitativos e qualitativos essa questão, sobretudo no Brasil. Neste sentido, destacamos que a presença ou ausência de espécies pode ser uma ferramenta poderosa no que diz respeito aos bioindicadores de qualidade ambiental (Krogh et al., 2002). Além disso, o conhecimento das espécies colonizadoras de áreas antropizadas é uma ferramenta importante para orientar estratégias de reabilitação e recuperação das mesmas, assim como possibilitar avaliações qualiquantitativas de áreas em recuperação ambiental (Nappo et al., 2000; Tabarelli e Vicente, 2004)). Em se tratando deste trabalho, as famílias dominantes para os dois ambientes analisados foram Fabaceae e Euphorbiaceae, o que corrobora com os antigos relatos de Cabrera e Willink (1973) e Sarmiento (1975) sobre a importância destas famílias nas formações xeróilas na América do Sul. No Brasil em especíico, Fabaceae é considerada a família mais diversa na Caatinga (Cardoso e Queiroz, 2010). Stress = 0.10 CROSON POIPYR ANACOL TABIMP ASPPYR PILGOU JATMOL BAUCHE PIPSTI MIMTEM Eixo 1 -0.4 -0.2 0.0 0.2 0.4 Eixo 2 -0.4 -0.2 0.0 0.2 0.4 Figura 4. Escalonamento multidimensional não-métrico (nMDS) usando um subconjunto de dez espécies de plantas mais representativas dos ambientes não-desertificados (símbolo ), desertiicados (símbolo ) e comuns aos dois ambientes (símbolo ). Acrônimos são descritos no Quadro 1. Quadro 2. Teste U comparando os componentes da comunidade de plantas registradas nos dois ambientes. As variáveis são representadas como Média ± Erro-Padrão. Níveis p representam diferenças signiicativas Variáveis Ambientes Teste U Não-Desertiicados Desertiicados U p Abundância (N) 76.00 ± 14.57 49.33 ± 15.51 0 0,12 Riqueza (S) 13.00 ± 1.15 5.00 ± 1.15 1 0,04 Diversidade (H’) 1.99 ± 0.23 1.02 ± 0.21 1 0,04 Equitabilidade (J’) 0.78 ± 0.08 0.54 ± 0.10 0 0,12