MÁQUINAS DE SUBJETIVAÇÃO, CAPITALISMO DE VIGILÂNCIA E
ALGORITMOS: UMA APROXIMAÇÃO DESDE O CASO BRASILEIRO1
SUBJECTIVATION MACHINES, SURVEILLANCE CAPITALISM AND
ALGORITHMS: AN APPROACH FROM THE BRAZILIAN CASE2
Salles, Edua do B. C.
PUCRS, Po o Aleg e, B asil
[email p o ec ed]
Ama al, Augus o Jobim
PUCRS, Po o Aleg e, B asil
[email p o ec ed]
Resumo: Sob o big da a e os algo i mos escondem-se complexas ecnologias de pode que compõem a
acionalidade neolibe al, e que almejam p e e e condiciona o compo amen o cole i o an o pa a a
manu enção da o dem quan o pa a a p odução de ecei as econômicas. O abalho obje i a analisa o
capi alismo de igilância, a ex ação e ca ego ização de emoções e aços psíquicos a pa i dos dados, ações
e pad ões compo amen ais pa a o exe cício de pode , comp eendendo como se p oduzem essas máquinas de
subje i ação, e de que manei a os desejos podem se manejados pa a de e minados ins polí icos. Po im, o
con ex o b asilei o encon a-se numa posição de des aque pa a es e es udo, p incipalmen e após as úl imas
eleições p esidenciais e as a uais es a égias u ilizadas pelo go e no Bolsona o.
Pala as-cha e: máquinas de subje i ação, capi alismo de igilância, eleições, Bolsona o, B asil
Abs ac : Unde big-da a and algo i hms lu k he complex echnologies o powe ha make up neolibe al
a ionali y, and which aim o p edic and condi ion collec i e beha io o he main enance o o de and he
p oduc ion o economic e enues. The pape aims o analyze su eillance capi alism, he ex ac ion and
ca ego iza ion o emo ions and psychic ai s om he da a, ac ions and beha io al pa e ns o he exe cise
o powe , unde s anding he unc ioning o hese subjec i a ion machines, and how desi es can be channeled
o ans o med o economic o poli ical pu poses, ha is, how hese s a egies o powe wo k, esona e, and
p oduce. Finally, he B azilian con ex is in a p ominen posi ion o his s udy, especially a e he la es
elec o al dynamics in 2018 and he cu en p ac ices o he Bolsona o go e nmen .
Key wo ds: subjec i a ion machines, su eillance capi alism, elec ions, Bolsona o, B azil
1 O p esen e abalho oi ealizado com apoio da Coo denação de Ape eiçoamen o de Pessoal de Ní el Supe io –
B asil (CAPES) – Código de Financiamen o 001.
2 This s udy was inanced in pa by he Coo denação de Ape eiçoamen o de Pessoal de Ní el Supe io – B asil
(CAPES) – Finance Code 001.
Ac as del III Cong eso In e nacional Mo e.ne sob e Mo imien os Sociales y TIC
14 y 15 de no iemb e de 2019 – Uni e sidad de Se illa, COMPOLITICAS
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1. In odução
Tem sido di ícil le a condição b asilei a. A o en e de acon ecimen os que se aco o elam en e absu dos e
pe e sidades, di as e p a icadas, pelo go e no Bolsona o quase não deixa ôlego pa a espi a . Nos
p imei os quinze dias de maio de 2019, o desma amen o na Amazônia oi o maio da úl ima década. O
desmon e da polí ica ambien al do país, le ada a cabo pelo dis ópico Minis é io do “Meio Ambien e”, só não
oi maio de ido às denúncias de o ganizações ambien alis as que epe cu i am in e nacionalmen e. O
Google T ends, que ca ego iza os e mos mais pesquisados no mundo, indica que no mês de agos o de 2019 a
“Amazônia” a ingiu o seu ápice his ó ico de in e esse global (T ends, 2019). Enquan o isso, o go e no
b asilei o du ida de cien is as, ques iona os dados de seus p óp ios ó gãos e acusa as ONGs de p opaga em
men i as (G andelle, 2019).
Sem esquece que o emblemá ico caso da mo e de Ma ielle não deixa á se assomb a o clã. Nes e ano
descob iu-se que amilia es do policial suspei o de ma a a pa lamen a ca ioca Ma ielle F anco abalha am
no gabine e do ilho do p esiden e e possuíam elação de p oximidade com a amília Bolsona o (Ca a
Capi al, 2019). Além disso, os supos os assassinos saí am do mesmo condomínio onde mo a o p esiden e,
endo um dos po ei os a i mado em depoimen o que, ao en a , o suspei o disse que ia à casa do “Seu Jai ”
(Guima ães e al., 2019).
Em 307 dias como p esiden e, Bolsona o deu 456 decla ações alsas ou dis o cidas (Cunha e al., 2019). É
p a icamen e uma me alhado a de imp opé ios (Demo i, 2019). Além das men i as p opagadas quase que
dia iamen e pelo che e da nação, a suspei a de en ol imen o no assassina o de Ma ielle F anco pa ece não
abala seus apoiado es, senão os em ei o se aglu ina mais ainda en o no da conspi ação do es ablishmen
con a o “ abalho do Jai ”. Não obs an e, pa a além de lamen a as misé ias da polí ica b asilei a, como oi
possí el a i ó ia de Bolsona o?
Inicialmen e, não é possí el enxe ga o caso b asilei o descompassado do con ex o global, em que as
ecnologias de p e isão e modulação do compo amen o em ganhado p eponde ância nos cená ios elei o ais.
Inclusi e pa a pode en ende o quad o em ou os con ex os, é p eciso acla a o uncionamen o dessa
máquina de subje i ação neolibe al que unciona pa a molda opiniões e compo amen os.
Bolsona o é mais um e ei o de es a égias mui o bem delineadas em igu as como S e e Bannon. Não à oa
ê-lo auxiliado na i ó ia elei o al e que ainda man enha conside á el p oximidade (Za emba, 2018). Mais
uma jogada no complexo abulei o geopolí ico cons uído com as mesmas écnicas emp egadas nas
campanhas pelo B exi e na eleição de T ump. O mé odo conhecido mundialmen e a pa i do caso
Camb idge Analy ica consis e na exp op iação de dados pessoais dos usuá ios e cons ução de pe is
compo amen ais po meio de con as nas edes sociais, os quais podem se classi icados pa a melho
pe suadi ou sujei a a inclinação polí ica. Já há pis as conc e as da u ilização desse mé odo na campanha
elei o al de Bolsona o (Ba ocal, 2018).
Com a de o a de Sal ini na I ália e de Mac i na A gen ina, uma açodada análise pode ia a i ma que o
modelo se esgo ou. Con udo, dian e da plas icidade de suas o mas, essa máquina de subje i ação pode se
eo ien ada e emp egada em ou os sen idos, bas ando-lhe ajus a os luxos de in o mações de en ada e de
saída. Po isso, ais écnicas não se esgo am nas eleições, as quais são apenas uma exp essão do enômeno.
A é po que Bolsona o é exp essão de algo que semp e ci culou na sociedade b asilei a, acos umada com uma
nec opolí ica his o icamen e, po ém ago a desa e gonhada e mui o mais le al.
Ao nosso in e esse, cabe essal a que as eleições b asilei as de 2018, al ez de modo inédi o, o am
ma cadas pela o e in luência da in e ne na o mação da opinião do elei o . Isso se de e ao c escimen o de
sua u ilização como meio de comunicação, sob e udo como ma ke ing polí ico, o declínio do p o agonismo
da adiodi usão, da imp ensa esc i a e mesmo ele isi a. Pode-se dize que os b asilei os são a icionados
pelas mídias sociais digi ais. Com ce ca de 209 milhões de habi an es e 147 milhões de elei o es, o país
con abiliza ce ca de 127 milhões de con as a i as no Facebook, quan idade in e io apenas à Índia, Es ados
Unidos e Indonésia. Po ou o lado, o Wha sApp, que cons i ui meio de comunicação p e e encial en e os
b asilei os, possui mais de 130 milhões de usuá ios (Valen e, 2019). Assim, com o auxílio eno me das
ope ado as de celula a a és da popula ização de paco es de dados e a “g a uidade” de acesso às p incipais
pla a o mas sociais, nada su p eenden e o impac o que es e ambien e e e em pa cela conside á el dos
elei o es.
A in e ne pe mi iu que no os a o es pa icipassem da polí ica, diminuiu as ba ei as à c iação de con eúdo e
dinamizou o papel da audiência. Sabe-se que, enquan o nas mídias adicionais a in o mação e a p oduzida e
ansmi ida apenas em um sen ido com papéis mais es á icos, nas no as mídias sociais qualque um es á
habili ado a o na -se p odu o e ansmisso de con eúdo, que é i adiado em odos os sen idos. O usuá io
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passa a in e agi cons an emen e, com a possibilidade de compa ilha e al e a o con eúdo ecebido, ab indo
espaço pa a a ele ância e a expansão das chamadas “ ake news”.
Du an e a campanha elei o al b asilei a de 2018, a di usão de men i as dis a çadas de no ícias se alas ou po
meio do Wha sApp (Beni es, 2018). Iden i icou-se a a uação conce ada e o gânica de milha es de pessoas na
p odução e compa ilhamen o de ma e ial com a in enção de comba e a “g ande mídia endenciosa”. A
c ip og a ia o nou-se aliada da disseminação das mensagens na maio ia des es aplica i os.
Assim, a p odução e di usão de in o mações mig a am das mãos dos eículos jo nalís icos adicionais e em
passado ao con ole dos p odu o es de con eúdo. A ans o mação dessas dinâmicas comunicacionais, de
alguma manei a, no B asil, pode se um a o impo an e pa a explica a chamada “pola ização polí ica” que
omou con a do deba e após os desdob amen os das mani es ações de 2013 (Gallego, 2018). Assim, o
mic odi ecionamen o de anúncios pa a nichos de audiência, a cons ução de edes de apoio e o dispa o de
mensagens em massa azem pa e de no as écnicas de ma ke ing impensá eis em ou a época no B asil.
O ap o undamen o dis o em con ex o b asilei o icou cla o quando, após as eleições, descob iu-se que
emp esá ios inham comp ando paco es de dispa o em massa de mensagens no Wha sApp con a os
ad e sá ios de Bolsona o. Apesa da p á ica cons i ui c ime, cen enas de milhões de mensagens o am
dispa adas sem que, a é hoje, alguém enha sido punido (Mello, 2018).
A u ilização da in e ne como espaço p i ilegiado dos deba es polí icos ambém em pe mi ido que o uso de
obôs e con as alsas causem imp essões equi ocadas sob e o ambien e polí ico. Pa a an o, os in e essados
podem simula a au en icidade e a espon aneidade humanas pa a ampli ica a isibilidade ou popula idade de
de e minados emas ou ma é ias. Com o aumen o da “ ele ância” da ques ão, os usuá ios são conduzidos à
a ena polí ica com uma alsa imp essão sob e a impo ância dos emas. São p oduzidas subje i idades a
pa i de agenciamen os suspei os umo à massi icação e pad onização de modos de expe iencia o mundo.
2. Máquinas de subje i ação e capi alismo de igilância
Conhecida é a pe spec i a de D&G. Somos máquinas de máquinas, com seus acoplamen os e conexões.
Somos odos b icolagens, luxos que se a a essam. “O seio é uma máquina que p oduz lei e, e a boca, uma
máquina acoplada a ela. A boca do ano éxico hesi a en e uma máquina de come , uma máquina anal, uma
máquina de ala , uma máquina de espi a ”. Toda máquina es á, inicialmen e, em elação a um luxo
ma e ial con ínuo que ela co a. Em suma, oda máquina é co e de luxo em elação àquela que se conec a e,
ao mesmo empo, p odução de luxo en e àquela conec ada a ela (Deleuze, Gua a i, 2010).
Pa a Deleuze e Gua a i udo é p odução, mo imen o. Os se es humanos ambém azem pa e desse luxo de
junção e sepa ação de peças. Esse mo imen o con ínuo se expande, se con ai, se a anja, se desa anja,
semp e p oduzindo algo. Essa lógica ambém de ine o inconscien e, que não pa a de p oduzi e se
p oduzido. A subje i idade p oduz e é p oduzida incessan emen e po meio de agenciamen os, encon os e
luxos cole i os de enunciação. Os p ocessos de subje i ação su gem pelo a a essamen o, o ção, co e e
ligação en e di e sas linhas. Não há um sujei o p on o, acabado, nem mesmo um in e io , mas luxos que se
c uzam po odos os lados, e cujo co e, acoplamen o e associação esul am em uma subje i idade semp e em
ans o mação.
Assim, quando nos e e imos a máquinas de subje i ação, nos e e imos a um sis ema que co a, in e ompe
e sepa a luxos com o obje i o de p oduzi uma subje i idade pad onizada, con olada. Uma máquina que
p oduz subje i idade.
Os algo i mos que hoje p e endem go e na co ações e men es, azendo-nos sen i a necessidade de es a mos
semp e conec ados, a ualizados, po meio de disposi i os digi ais não podem se comp eendidos o a da
acionalidade neolibe al. São mobilizados po um modo de p oduzi subje i idades, agencia emp esá io de
si em um con ex o de conco ência gene alizada, em que nossa ágo a é cons uída po in o mações ge idas
po suas pla a o mas.
Máquinas de subje i ação com seus agenciamen os mul iplicados e ma e ializados dia a dia. Modos de anda ,
es i , ala e ama que ci culam de manei a hegemônica. Sé ies que dispa am em di e sas di eções e
conduzem es a égias p on as a con ola as possibilidades de des ios singula es.
A p emência da lógica conec i a p i ilegia um ipo de luxo adi i o, se ializado que os mais di e sos
âmbi os do neolibe alismo sabe mui o bem maneja . São p á icas exe cidas de modo ela i amen e dispe so
em um cená io mul i ace ado de na u alização e dis ibuição da a enção. Sob o big da a escondem-se
complexas ecnologias de pode que compõem a acionalidade neolibe al, e que almejam p e e e
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condiciona o compo amen o cole i o an o pa a a manu enção da o dem quan o pa a a p odução de ecei as
polí icas.
Há, po an o, uma ans o mação em nossos egimes de isibilidade. Ve e se is o muda am de signi icado.
As in ensidades, i mos e sen idos da p odução e ci culação da in o mação dão ou o signi ican e a essa
noção. As p á icas de exposição na in e ne , ia ino ações ecnológicas cons an es, p oduzem no as
opologias en e público e p i ado, in imidade e sociabilidade, in e io idade e ex e io idade. A p o usão de
pla a o mas digi ais de compa ilhamen o e o papel das edes sociais em nossa sociedade não podem se
es udados desga ados desses con ex os e condições.
É ácil econhece a impo ância da e lexão ecnologia pa a a sociedade. Já não i emos desplugados des es
disposi i os ou impac ados po eles. Es amos pe manen emen e conec ados, ge ando e compa ilhando dados
e in o mações po meio de aplica i os e se iços “g a ui os”, con ian es de que o luxo de in o mações que
ci cula no cibe espaço cons i ui uma mão de ia dupla, que o domínio pe manece sob nossas mãos. Sob o
luxo de comunicações digi al há um imenso sis ema de as eamen o e ca ego ização de dados que se e
mui o além das es a égias de publicidade.
Não há a o de comunicação nes e cená io neu o ou desin e essado. A pla a o ma que e o e ece
g a ui amen e acesso a seus aplica i os pa a além de ende seus p odu os, em ealidade, além de con ence -
e a comp a , pode acilmen e ende as in o mações que cada um ge ou. No caso obje i o de se iços como
Gmail, Facebook, Ins ag am e Wha sApp, a supos a g a uidade é a es a égia pa a o eal in e esse
co po a i o: a ex ação e classi icação de dados pessoais pa a come cializá-los pa a os mais di e sos ins,
desde a publicidade a é o con ole. O compo amen o co idiano na in e ne es á baseado na cole a, egis o e
classi icação de in o mações.
Como ais se iços es ão inse idos den o de um con ex o de ( e)p odução neolibe al, eles possuem á icas
especí icas. T a am-se de ques ões singula es. A Google cole a quan idades inimaginá eis de in o mações
ace ca de odos os seus usuá ios pa a con e ê-los em ecu sos, is o é, cada pessoa ans o ma-se em ma é ia
p ima de uma máquina algo í mica in o me capaz de acumula e ca ego iza cada ez mais dados. A Google
age dessa manei a po que o se iço de ex ação e ca ego ização de dados em al íssimo po encial luc a i o
(Pei ano, 2019). A in enção, po an o, não é melho a nossas idas, mas ob e a maio quan idade possí el de
in o mações sob e os usuá ios pa a, em seguida, come cializa ais dados ou o e ece se iços p oje ados de
aco do com as p e e ências pa icula es das pessoas.
Não se a a de na a i a apocalíp ica ou dis ópica. Pode-se aze uma simples expe iência a a és de
qualque sma phone: ins ale um na egado To e en e acessa o Google Sea ch. Como a conexão pelo To
bloqueia os as eado es, apaga cookies e e i a que e cei os moni o em a sua conexão, o na-se mais di ícil
pa a que o Google ex aia in o mações do usuá io. Em consequência, mui as ezes o se iço não ap esen a
esul ados da busca. A jus i ica i a ap esen ada pelo Google é o “ á ego incomum” indo da ede do
usuá io. “Incomum” po que na e a da anspa ência e do ex a i ismo de dados, busca po p i acidade é
causa de suspeição.
Ques ões como es as não são no idades, mas são undamen ais pa a comp eende o p oblema. A Google não
apenas con ola os ês se iços ele ônicos mais u ilizados do mundo (Gmail, And oid e Ch ome), mas a sua
pla a o ma de buscas (Sea ch) o nou-se uma espécie de in e mediá io en e os usuá ios da in e ne e a
p óp ia ede: a maio pa e dos usuá ios deixou de acessa os si es pelo seu ende eço pa a buscá-lo pela
Google, que age como uma cen al ele ônica edi ecionando as buscas pa a os ende eços co esponden es.
Com a in eg ação da ba a de ende eços dos na egado es com as e amen as de busca, p a icamen e odos
os acessos em páginas web acabam sendo edi ecionados, inc emen ando seus bancos de dados e de me a-
dados, que cole am e ca ego izam os compo amen os dos usuá ios. Po isso, o Google Sea ch o nou-se o
ende eço da web mais acessado não apenas no B asil, mas no mundo in ei o (Alexa, 2019).
No âmago desse ipo de ecnologia de pode es á o as eamen o. P a icamen e oda a ação humana ende a
deixa as os, ma cas, pegadas, em g aus di e en es de isibilidade, du abilidade, agmen a iedade ou
iden i icabilidade. Con udo, pa a se as o é imp escindí el ha e ma e ialidade su icien e pa a que o as o
seja iden i icado. Uma pegada na a eia é um as o com pouca du abilidade. Quando a amos de as os
digi ais, não se pode deixa de p oduzi-los. É possí el que o es ígio seja menos ou mais explíci o, mas ele
semp e su ge, g aças ao ca á e mnemônico, a qui ís ico, a esso ao esquecimen o, das máquinas que
compõe o cibe espaço. Qualque ação na web - clica , na ega , busca , baixa - deixa as o mais ou menos
passí el de se cap u ado, iden i icado e ecupe ado. Apesa de nem odo as o se iden i icá el, os as os
digi ais são pe sis en es, acilmen e ecupe á eis e são mul i o mes, cons i uídos em á ios ní eis: um as o
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digi al pode con e egis os em á ios ní eis, insc i os em cookies, beacons, en e ou os mecanismos
as eado es.
A sé ie Wha hey know lançada em 2010 pelo Wall S ee Jou nal documen a no os usos da ecnologia de
as eamen o e analisa o que signi ica o aumen o da igilância pa a os consumido es e a sociedade. A
epo agem mos a a g ande quan idade de as eado es das na egações de usuá ios nos cinquen a si es mais
popula es da in e ne na época: o si e dic iona y.com possuía 234 ipos di e en es de as eado es (Angwin,
2019). Mais ecen emen e, o Yale P i acy Lab publicou de alhes sob e sua pesquisa ace ca de as eado es
embu idos em á ios aplica i os da Google Play S o e, como Ube , Tinde e Spo i y. Os pesquisado es
descob i am que os p o issionais de ma ke ing es ão aumen ando a igilância u ilizando-se de Wi-Fi,
Blue oo h e, em alguns casos, de som ul assônico inaudí el pa a o ou ido humano, a im de as ea a
localização geog á ica dos usuá ios em empo eal (Yale Law School, 2017).
As p á icas de igilância não se di igem apenas a populações e espaços supos amen e pe igosos ou suspei os:
qualque luga pode se al o p i ilegiado de moni o amen o, pa a os mais dis in os p opósi os come ciais,
publici á ios, adminis a i o, secu i á io, a e i o. A p oli e ação de no os sis emas ecnológicos apenas
ag a a o quad o já cons a ado, o nando-o mais complexo. Pa a comp eensão desse cená io, são necessá ios
no os es o ços concei uais e me odológicos.
Esse ex a i ismo de dados ambém az uso da ansiedade humana pa a e ina suas écnicas de igilância. A
no i icação push dos si es e aplica i os pa a celula exe ce um papel impo an e como écnica pe suasi a
pa a ans o ma o que pensamos e azemos. Cons uídos pa a c ia hábi os e encan a as men es, ais
e amen as em a i adas po pad ão pa a nos a isa de udo, como quando chega um e-mail, mensagem,
no ícia, comen á io, likes, con i es de amizade, no os seguido es, ani e sá ios dos amigos, o e as de
emp ego, descon os de comida, e udo que se possa imagina . A nossa ansiedade é a i ada e inc emen ada
pela apa en e u gência de a os ins an âneos, exigindo-nos a enção: somos impulsionados a ui a p imei o,
comen a p imei o, cu i p imei o. E a demo a pa a isualiza ou esponde uma mensagem no Wha sApp
causa uma insupo á el sensação de descon o o. Não se admi e a desconexão ou a demo a nes e con ex o de
p o unda ansiedade.
Essas no i icações push nos ale am cons an emen e que ou as coisas es ão acon ecendo naquele ins an e em
di e sas pa es do mundo, aumen ando a sensação de ansiedade e de incapacidade pa a p ocessa an a
in o mação. Pa a man e -nos ag egados às pla a o mas, essas no i icações ado am ícones em ons ib an es,
colo idos, que p ome em ecompensas imedia as e a agam a cu iosidade, como uma no a solici ação de
amizade, uma no a cu ida ou uma no a mensagem. Não é di ícil que essas ecompensas sejam ope adas po
bo s, que cu em e comen am pos s e o og a ias au oma icamen e. Com base no compo amen o p e é i o do
usuá io, é possí el p e e o momen o pe ei o pa a que as no i icações sejam inc emen adas pa a ob e
maio es axas de in e ação.
Os bo s são mais comuns do que pa ecem – e são essenciais ao uncionamen o da in e ne como
conhecemos. Eles o ganizam as in o mações em buscado es, espondem usuá ios e au oma izam
p ocedimen os. Apon a-se que 65,1% de odo o á ego da in e ne é ope acionalizado po bo s (Incapsula,
2019). Con udo, eles ambém podem se i pa a segui pessoas, in e agi em deba es, publica con eúdos e
ala anca deba es públicos de modo a i icial – dis o cendo a pe cepção que emos do ambien e.
No caso b asilei o, um es udo p elimina sob e o pe il dos seguido es dos en ão p é-candida os à p esidência
do B asil no Twi e , ealizado em 2018, demons ou que “mais de 1 milhão de obôs seguem os p é-
candida os e em mui os casos seguem mais de um simul aneamen e” e que “ odos os candida os possuem um
pe cen ual conside á el de seus seguido es compos o po con as au oma izadas” (In e ne Lab, 2019a).
O p oblema dos bo s é que eles êm capacidade de adicaliza o pensamen o dos usuá ios e causa alsas
pe cepções sob e a popula idade de uma pessoa ou ema. Com a au oma ização dos comen á ios, os
con eúdos são ge ados em escala massi a, inc emen ando a sensação de ansiedade e di iculdade de abso ção
da in o mação. A adicalização do discu so polí ico pode se e i icada nos índices de denúncias de iolência
online. A ONG Sa e ne con abilizou em ou ub o de 2018 mais que o dob o de eclamações, com no á el
ac éscimo em ca ego ias como xeno obia, sob e udo con a no des inos (2.369%); homo obia (350%) e
acismo (218%) (In e ne Lab, 2019b).
Po ou o lado, o pull o e esh, p esen e em alguns aplica i os como o Facebook e o Tinde , ep oduz a
écnica das máquinas caça-níquel pa a, se indo como ga ilho, p esen ea mo-nos de empos em empos com
p êmios. A inal, os aplica i os pode iam mos a no os con eúdos de manei a au omá ica, sem se necessá io
p essiona pa a a ualiza . Mui os deles, inclusi e, e am assim (Pei ano, 2019). Con udo, ao exigi que o
usuá io puxe a “ala anca” pa a e o que em de no o na “linha do empo”, os aplica i os causam no usuá io
Ac as del III Cong eso In e nacional Mo e.ne sob e Mo imien os Sociales y TIC
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a sensação de que ele es á no con ole, que o dedo pode in lui no esul ado, e que o “p êmio” es á logo ali,
depois do p óximo clique. Além disso, os me adados sob e o compo amen o do usuá io são ex aídos de
manei a mais obje i a, já que desse modo pode-se a e i a quan idade de cliques e quais con eúdos hou e
in e ação.
O sc oll in ini o ambém é ou o uque in e essan e pa a man e o usuá io em anse, semp e conec ado. Nós,
se es humanos, não nos compo amos bem en e à abundância de algo que nos aleg a. Não que emos que
cesse aquilo que nos deixa elizes (Pei ano, 2019). O exemplo da comida é pa icula men e ilus a i o.
Quan o maio o p a o de comida, mais a pessoa come, independen e da sensação de saciedade. As edes
sociais êm ado ado écnicas pa ecidas ao ado a a ela in ini a, as quais semp e mos am no ícias, mensagens
ou o og a ias no as, em um incessan e loop de con eúdo ap esen ado sob medida. A ba ei a é a ba e ia do
apa elho ou o cansaço do usuá io – o que ie p imei o.
O seques o da a enção ope ado po essas écnicas inje adas po uma dinâmica neolibe al nos subme e a uma
sensação de anse onde o empo apa en emen e en a em suspensão. Não há passado nem u u o, apenas o
p esen e pe manen e e imedia o. Ins au a-se uma espécie de his e ia in o ma i a, looping que combina
exci ação imagé ica e no i icações. Quando nos damos con a, pe demos á ias ho as em en e a ela do
compu ado ou do celula . Somos a ingidos po uma espécie de pa alisia hipnó ica, e quan o mais
in o mações consumimos, mais ulne á eis e deso ien ados icamos.
Po ás desses mecanismos es ão os algo i mos, os quais são p og amados, modelados, ins uídos com
desígnios p e iamen e delimi ados. Podem se concei uados como o inas compu acionais capazes de
ap ende pad ões. P ocedimen os compu acionais c iados po humanos, na u almen e, cujo alo indicado na
en ada p oduz algum alo de saída. Po an o, podem os algo i mos ans o ma in o mação em mais
in o mação ou p oduzi in o mação sob e a in o mação. Pa a que uma in o mação i e ou a in o mação,
bas a que de e minado luxo de dados se ans o me em ou o. Enquan o esc e e-se es e abalho, o edi o de
ex o ins alado no compu ado ope a po meio desse ipo de algo i mo, que pe mi e ans o ma os comandos
do eclado em ep esen ação g á ica. Essa é a sua o ma mais básica, que oma ce as decisões a pa i de
uma o dem p og amada de códigos e ins uções p é ias.
Po ou o lado, pa a ge a in o mação sob e a in o mação é necessá io p ocessá-la po meio de lógicas
es a ís icas, as quais ab angem eo ias p obabilís icas que explicam a equência de de e minados e en os
pa a modela a sua alea o iedade e ince eza com obje i o de es ima e p e e o u u o. Fazendo uso desse
ipo de algo i mo é que o compu ado consegue iden i ica quan as ezes p essiono uma ecla, quais são os
si es que mais acesso ou em quais luga es da cidade es i e – pa a, em seguida, modela seu uncionamen o
de aco do com as p e e ências do usuá io. Não são comandos li es de qualque in encionalidade. Pelo
con á io, obje i am pe qui i a habi ualidade, e os modos de agi an e io idades. É a mesma acionalidade
que undou a es a ís ica como ciência ol ada à o mulação de polí icas públicas e necessidades es a ais.
Con udo, as máquinas não explicam nada, é p eciso analisa os agenciamen os cole i os dos quais elas azem
pa e. E pa a isso, hoje em dia, é p eciso comp eende a acionalidade neolibe al.
Emp eendido pelo neolibe alismo, esse modus ope andi não é apenas ol ado aos assun os de Es ado,
obje i a ambém p e e e modi ica o compo amen o indi idual pa a ans o má-lo em me cado ia, à
disposição de in e esses es a ais ou co po a i os, polí icos ou não. Pa a an o, a Big Tech az uso de écnicas
de pode neolibe ais que explo am a libe dade indi idual escamo eando a eal in enção dessas ecnologias
(Pei ano, 2019). O usuá io o nece “li emen e” os seus dados pessoais na expec a i a de ecebe
g a ui amen e se iços pe sonalizados. Os se iços desse capi alismo digi al apa en emen e cump em al
p omessa ao se molda em à cada usuá io, con udo, ocul am a elação econômica que os man ém, is o é, a
publicidade, condicionamen o do compo amen o humano e sob e udo p odução de dados p omo ida pela
exp op iação e alienação de in o mações pessoais.
Essa écnica de pode pouco é a e ada po egimes ju ídicos, e não pode se desa i ada simplesmen e po
egulação ou mais acesso a in o mações em e mos e condições dos se iços. Ela explo a jus amen e o
p oje o de libe dade que se ab iga no âmago do ímpe o neolibe al. A limi ação do Es ado ambicionada pelos
libe ais clássicos con e eu-se em uma no a o ma de submissão, mui o mais e icien e e indisce ní el. A
coe ção ago a incide biopsicopoli icamen e como ob igação ao máximo desempenho, e iciência e sucesso.
Esse sujei o do desempenho ac edi a se li e, enquan o se explo a olun a iamen e, sem que ninguém lhe
p ecise ob iga . O neolibe alismo cump e com a p omessa comunis a de elimina a explo ação alheia da
classe abalhado a ans o mando cada ope á io em se o e senho de si e azendo do in e io psíquico de
cada pessoa o palco da lu a de classes. Tal ez po is o so amos an o de pa ologias psíquicas como
dep essão, ansiedade e sínd ome do esgo amen o p o issional: quem acassa não culpa a sociedade ou o
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sis ema, mas esponsabiliza a si p óp io, en e gonhando-se. Não há esis ência possí el po que a ag essão, o
incon o mismo, di ige-se ao âmago de cada um (Han, 2014).
Shoshana Zubo (2019) o e ece um en oque especial pa a analisa es a si uação. Enxe ga a no idade do
a ual es ágio do capi alismo não especi icamen e na elação coe ci i a que obje i a domina , con ola e
disciplina os abalhado es, pe spec i a já con ida na ob a de Ma x. Con udo, Zubo essal a a igilância
p op iamen e como a base de uma eo ia ab angen e do capi alismo, iden i icando a igilância como cha e
do seu egime econômico.
Apon a que a digi alização gene alizada em pe mi ido que as co po ações de ecnologia da in o mação
enham um c escen e e gigan esco pode . Pa indo das a madilhas de as eamen o dos na egado es da
in e ne aos celula es, elógios, geladei as, aspi ado es de pó, ele iso es, lâmpadas, en e ou os i ens di os
“in eligen es”, esse se o econômico cons i uiu um modelo de negócio baseado na ex ação de dados digi ais.
C i ica a ex ação de dados como uma me a iolação à p i acidade é, pa a Zubo (2019), um e o analí ico
que demons a a incapacidade de comp eende o quad o ge al. A escala do p oblema é mui o maio , po que
es á em jogo uma e dadei a ans o mação do mundo. E, logicamen e, os gigan es do se o não i ão se
a epende e eo ien a suas p á icas pa a a p o eção da p i acidade. Há uma impossibilidade p á ica disso
oco e que diz espei o à p óp ia es u u a de uncionamen o do a ual egime econômico, escondida po
uques e ó icos e polí icos sedu o es.
O a gumen o cen al é que o capi alismo de igilância cons i ui uma “no a espécie” de capi alismo, na qual
os luc os su gem da igilância unila e al do compo amen o humano, is o é, o capi alismo oi ans o mado e
ago a cons i ui uma no a lógica de acumulação, cujo obje i o é moni o a a condu a dos indi íduos median e
a ex ação de dados e, assim, p e e e modi ica compo amen o alheio, ge ando ecei a e con ole de
me cado. Pa a Zubo (2019), o uso de se iços digi ais como Google, Facebook e Ins ag am ans o ma os
usuá ios em ma é ia-p ima. A expe iência humana é aduzida em dados que alimen am p odu os e se iços
digi ais, las eados na p e isão compo amen al. Eles ex aem os dados ao meno cus o possí el. A ba alha
pelo domínio do me cado dá-se jun o à ma é ia-p ima. Quan o maio o a quan idade de pessoas despejando
as os compo amen ais no sis ema, maio é a capacidade desse se o desen ol e no as e amen as e
maximiza os seus luc os.
A Google é a que melho e a a es a ase do capi alismo, não se a ando de uma simples conquis a
ecnológica. Pa a ope a a desap op iação de dados compo amen ais é necessá ia uma combinação de
es a égias cuidadosamen e emp egadas nos âmbi os da polí ica, economia, adminis ação, di ei o,
comunicação e c. Isso, cla o, não su ge da noi e pa a o dia. P imei o é necessá io a incu são, depois a
habi uação e, po im, a adap ação. Além disso, os capi alis as da igilância se p eocupam em localiza no as
on es g a ui as de ma é ia p ima, ga an indo a pe pe uidade do seu esquema. Tan o é que o p imei o
p incípio econômico do capi alismo de igilância é o impe a i o de ex ação. Po isso, emp esas como a
Google ou a Mic oso es ão em di e sos ipos de a i idades que, a p incípio, pa ecem não elacionadas. Em
comum, odos os se iços êm a possibilidade de con ibui e colabo a pa a o aumen o dos bancos de dados,
seguindo na lógica ex a i is a de in o mação (Zubo , 2019).
Ou o pon o impo an e é que o p odu o almejado não são os “dados” p op iamen e, mas os “modelos de
p e isão”. Po isso, o dado b u o, não mine ado, pouco em a dize sob e o sujei o, e ampouco possui al o
alo come cial. É necessá io o ganizá-lo e ca ego izá-lo de uma manei a capaz de indica a p e isão
compo amen al. É isso que essas emp esas azem mui o bem. O escândalo da Camb idge Analy ica é
especialmen e ilus a i o: os pad ões compo amen ais dos elei o es o ganizados a a és das pla a o mas
e a am p e e ências e modos de compo amen o pa a di igi a p opaganda a um se o especí ico, cujo o o,
po exemplo, ainda não es a a o almen e decidido. É um mé odo ex emamen e en á el pa a jus i ica o seu
emp ego no dia-a-dia em la ga escala.
Po an o, os p oblemas sociais deco en es do capi alismo de igilância ão mui o além da iolação à
p i acidade e não se a am de me os uques de compu ado ope ados po écnicos neu os a ás das elas.
São ecnologias mui o bem o ques adas que obje i am seques a a a enção do usuá io. Como elas podem
se di ecionadas em di e sos sen idos – incluindo pa a inalidades polí icas elei o ais – emos assis ido uma
ans o mação no cená io polí ico de modo inédi o. O B asil é um exemplo e iden e de como ecnologias
como es as podem ope a noci amen e.
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3. O caso b asilei o
A medioc idade como modelo polí ico es abelecido no B asil a ual pode bem se ep esen ada pela
capacidade que em o a ual go e no de co po i ica o que há de pio em cada um de nós. Bolsona o assumiu
a boçalidade e a ulga idade como es a égia polí ica, ademais os en ando a igno ância de modo i uoso.
Sen e-se au o izado a espalda discu sos de ódio e eo ias conspi a ó ias com comple a des aça ez (Ama al,
2019). Nesse om, já indagou em om jocoso ao Minis o da Jus iça se ele a ia um “ oca- oca” com o
Minis o do Meio Ambien e; ez chaco a com o amanho do pênis de um u is a de ascendência asiá ica e, ao
ala sob e a imagem do B asil no ex e io , ez apologia ao u ismo sexual dizendo “quem quise i aqui
aze sexo com uma mulhe , ique à on ade” (Ga cia, 2019). Se ia cômico se não osse ágico, e não
es i éssemos com a maio lo es a do mundo ao mesmo empo queimando.
Apesa de Bolsona o e T ump possuí em semelhanças no discu so apa en emen e “an issis ema” e
coincidi em na capacidade de ala /esc e e ( wi a ) sem eios, Bolsona o di e e de T ump po não
pe ence à eli e e, mesmo endo sido Depu ado Fede al po ês décadas, nunca ocupou papel de des aque
en e seus pa es. Sua i ó ia ep esen a li e almen e a consag ação do “homem sem a ibu os” que jamais
sonhou ascende a es a posição. O bolsona ismo, ademais, é mais he e ogêneo que a “Al -Righ ” no e-
ame icana ou mesmo i aliana. Pa a além do discu so an issis ema, há aqui uma mul iplicidade de us ações
e desespe anças, en ec uzadas po uma mo al c is ã conse ado a de om e angélico-emp eendedo . Além
disso, há um echaço às e o mas sociais que ge ou uma ce a pe da de p i ilégios de classe e uma nos algia
de um empo mais o denado, com papeis sociais mais de inidos, que emon a à época da di adu a mili a ,
sob e udo na men e das ge ações mais elhas (Ama al, 2019).
O B asil pa ece me gulhado numa espécie de “boçalidade do mal”. Elabo ado po Eliane B um, es a ideia
elaciona-se com a u ilização das edes sociais e a possibilidade de conhece mos o “eu mais p o undo”, a
“ e dade mais in ínseca” de cada b asilei o: com isso, “descob imos o que cada um de a o pensa sem
nenhuma mediação ou eio. E descob imos que a ba bá ie ín ima e co idiana semp e es e e lá”. Mui os
o gulham-se de seu ódio e da igno ância de endendo o ex e mínio de quem pensa di e en e, em uma
su p eenden e eedição de mo imen os ex emis as do século passado (B um, 2015).
Quando B um esc e ia sob e “boçalidade do mal”, em 2015, o ambien e p opício pa a o o alecimen o de
Bolsona o já es a a dado. Dali a é 2018 se mul iplicou e se ma e ializou. Os bolsona is as não apenas se
acos uma am a aze is a g ossa en e às iolências do co idiano, mas g ande pa e da população b asilei a
ambém, po ou o lado, p e e iu acen ua apenas o ca ica o da si uação e não le á-la a sé io. Essa po ção
an es acuada iu-se enco ajada, em alguma medida, pela ascensão de Bolsona o como possibilidade polí ica.
“Excluídos das eli es in elec uais, p essionados a se ´poli icamen e co e os´ po que ou os sabe iam mais
do que eles, idicula izados na sua macheza o a de época, assomb ados po mulhe es a é mesmo den o de
casa, eagem. Como se sen em acos, eagem com o ça desp opo cional”. Isso que dize que esses
elei o es não que em alguém melho que eles na p esidência, mas alguém que lhes pa eça semelhan e em
suas piadas sem g aça e ases de e ei o. Bolsona o lhes de ol e o pode , a o dem do que é no mal (B um,
2019b).
Não esqueçamos que, em que pese enha sido uma amálgama de sen imen os díspa es que alimen a am a
e e escência desse mo imen o, oi o ambien e das edes sociais aquele al ez mais p opício pa a que as
pessoas i essem seus descon en amen os seques ados a a és da ápida p oli e ação de ake news. Não oi à
oa os apoiado es de Bolsona o g i ando “Wha sApp! Wha sApp! Facebook! Facebook!” du an e a ce imônia
de posse (Maia, 2019). A é hoje o p esiden e segue iel às pla a o mas, azendo p onunciamen os diá ios pelo
Facebook, compa ilhando “memes” ago a ins i ucionais e ecusando-se a a ende a imp ensa adicional.
Con udo, a p odução de no ícias alsas não cessou com a sua eleição como já e e imos ao início. Ele
ecen emen e publicou nas edes sociais que a MWM, a Honda e a L’O eal echa iam suas áb icas na
A gen ina e ans e i iam suas ope ações pa a o B asil de ido a eleição de Fe nández naquele país, candida o
ligado à esque da. Após as emp esas di ulga em no as desmen indo o anúncio do p esiden e, a pos agem oi
apagada, e o po a- oz da P esidência eio a público dize que o p esiden e “se equi ocou” na pos agem
(P aze es, 2019).
O caso b asilei o é um exemplo iquíssimo pa a a análise da no a o ganização de pode , p incipalmen e no
que ange ao uncionamen o dos algo i mos em edes sociais num ambien e de capi alismo de igilância.
Dian e da agilização do mínimo a cabouço de segu idade social emanescen e nas ins i uições do Es ado
b asilei o e dian e da pe da da c edibilidade do Legisla i o e do Judiciá io, Bolsona o p i ilegia o con a o
di e o com o seu elei o po meio das edes sociais, comen ando e espondendo mensagens em ansmissões
ao i o. Os algo i mos que go e nam o ambien e digi al o jam uma “democ acia” – em que igu as como
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Ma k Zucke be g uncionam como ges o es ocul os, es abelecendo e es ando eg as opacas – cujos e ei os
são imedia os e sen idos po milhões de pessoais na ab icação de subje i idades.
Man endo o discu so eloquen e e in imidado con a seus oposi o es, Bolsona o c ia e adminis a no as e
pe pé uas c ises, mediado digi almen e. A al a de comp omisso com a e dade mos a como sua na a i a é
cons uída sob medida. Nessa a e a, é mais ú il insinua que o G eenpeace é o esponsá el pela poluição de
óleo no ma b asilei o do que e e i amen e in es iga o oco ido (Romano, 2019). Com uma na a i a
delibe adamen e cons uída em ons pa anoides, aliado ao uncionamen o de pla a o mas digi ais que
man ém ambém mili a men e, modo de go e no p eso a bolhas in o macionais que ep oduzem dados
inco e os e eo ias conspi a ó ias, em sido possí el que o go e no Bolsona o man enha-se no on e das
gue as híb idas.
A c ise polí ica no Chile, as queimadas na Amazônia ou a con aminação de nossas p aias po óleo não en am
na pau a, senão de modo conspi a ó io. Os assun os es a ais de em se mo idos na di eção de anga ia
adesão, e idos em cu idas nas edes sociais. Isso pouco em a e com alguma banalidade, mas com
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