scieee Science in your language
[pt] (orig)

Espaço do patrimônio em meio à profusão de notícias

Abstract

Na década de 1990, o governo da Bahia, Brasil, empreendeu a restauração do Centro Histórico de Salvador. O trabalho foi proposto na intenção de reabilitá-lo para impulsionar o turismo. Por conta disso, uma gentrificação foi promovida no conjunto colonial remanescente dos séculos 18 e 19, considerado Patrimônio da Humanidade. A imprensa, estimulada pela novidade da iniciativa de interromper o processo de arruinamento, passou a cobrir o evento. Neste artigo, o objetivo é mostrar como o jornal A Tarde acolheu a temática. Como base teórica, utilizamos noções de agendamento (McCombs, 2007), publicização (Habermas, 1984) e narrativa do fato (Sodré, 2009).

Read accessible full text

Espaço do patrimônio em meio à profusão de notícias

Author: Weinstein, Mary
Publisher: Ladecom, Facultad de Comunicación, Universidad de Sevilla
Year: 2014
Source: https://idus.us.es/bitstreams/ebacdae6-cc86-4a12-829a-b7e0344a7162/download
ESPAÇO DO PATRIMÔNIO EM MEIO À PROFUSÃO
DE NOTÍCIAS
Ma y Weins ein
Uni e sidade Es adual do Sudoes e da Bahia (Uesb)
ma yweins [email protected]
RESUMO: Na década de 1990, o go e no da Bahia, B asil, emp eendeu a es au ação
do Cen o His ó ico de Sal ado . O abalho oi p opos o na in enção de eabili á-lo pa a
impulsiona o u ismo. Po con a disso, uma gen i icação oi p omo ida no conjun o
colonial emanescen e dos séculos 18 e 19, conside ado Pa imônio da Humanidade. A
imp ensa, es imulada pela no idade da inicia i a de in e ompe o p ocesso de
a uinamen o, passou a cob i o e en o. Nes e a igo, o obje i o é mos a como o jo nal
A Ta de acolheu a emá ica. Como base eó ica, u ilizamos noções de agendamen o
(McCombs, 2007), publicização (Habe mas, 1984) e na a i a do a o (Sod é, 2009).
PALAVRAS-CHAVE: Gen i icação, Cen o His ó ico, imp ensa, agendamen o.
ABSTRACT: In he 1990s, he go e nmen o Bahia, B azil, unde ook he es o a ion o
he His o ic Cen e o Sal ado . The wo k was p oposed o ehabili a e i in o de o boos
ou ism. The e o e, a gen i ica ion occu ed on his si e o he 18 h and 19 h cen u ies
conside ed Wo ld He i age. The p ess, s imula ed by he no el y o he ini ia i e o s op
he p ocess o blas ing houses, co e ed he e en . In his a icle, he aim is o show how
he adi ional newspape A Ta de accep ed he heme. As a heo e ical basis, we use
no ions o agenda-se ing (McCombs, 2007), publicizing (Habe mas, 1984) and ac
na a i e (Sod é, 2009).
Keywo ds: Gen i ica ion, His o ic Cen e , p ess, scheduling.
1. INTRODUÇÃO
Nos anos 1990, o Cen o His ó ico de Sal ado , conjun o colonial o mado po casa ões
emanescen es dos séculos 18 e 19, mudou em pelo menos dois aspec os: pa e do seu
casa io oi es au ada, o que con ibuiu pa a e a da o p ocesso de deg adação em que
se encon a a; e a população mo ado a oi elocada pa a da luga a uma p ese ação
829
que inha como p incipal obje i o p omo e an o o u ismo quan o o p oponen e da
ação, o go e no do Es ado da Bahia.
A imp ensa local acompanhou o p ocesso dessas duas ans o mações e é a pa i des a
condição que o nosso obje o de análise é ap esen ado. Demons a emos que a
imp ensa agendou a inicia i a de es au a o Cen o His ó ico, e, po abela, o go e no
do Es ado, co espondendo à expec a i a de que a ação ob i esse epe cussão
midiá ica. Buscamos e idencia que, ao con ibui pa a a di ulgação da emp ei ada,
ab iu-se uma lacuna no diálogo público, uma ez que, inicialmen e, p e aleceu o
agendamen o com base p edominan emen e nos in e esses de di ulgação do go e no
e sem a co espondência equi a i a da ep esen ação dos mo ado es da á ea al o da
ecupe ação.
A cobe u a jo nalís ica ace ca da es au ação do Cen o His ó ico de Sal ado que a
mídia emp eendeu a pa i de 1992, quando o go e no iniciou o P og ama de
Recupe ação, se des aca no ho izon e jo nalís ico como o pe íodo de uma aje ó ia em
que um assun o é agendado e pe manece em discussão na es e a pública, embo a
passando po eelabo ações sucessi as no que se e e e aos seus a ibu os mais
e idenciados e ao seu enquad amen o.
Deb uçamonos especi icamen e sob e a a uação do jo nal A Ta de, que comple ou 101
anos, e sua abo dagem sob e o Cen o His ó ico no momen o de sua ecupe ação,
buscando con ex ualiza e obse a , no elenco de ma é ias publicadas, a o ma como a
emá ica do pa imônio oi acolhida e em que medida o jo nal ep oduziu o discu so
o icial em de imen o da ep esen ação dos mo ado es locais, con ibuindo pa a a
ab up a gen i icação que se e e i ou no local.
2. BREVE HISTÓRICO
O Cen o His ó ico, com suas edi icações dos séculos 19 e 20, oi ombado em 14 de
julho de 1959. A e a i icação e ampliação da á ea o am dec e adas em 1983, e a
classi icação des e espaço como Pa imônio da Humanidade se deu em 1985. Apesa
de odas essas pa en es o iciais e do sen ido que inha e p oduzia pa a populações
locais, a á ea so eu in enso p ocesso de deg adação ao longo da maio pa e do
século 20. Desde as décadas de 40 e 50, no ícias saíam nos jo nais dando con a das
condições dos seus casa ões e de ida das pessoas que ali habi a am. Ten a i as de
ecupe ação e am plei eadas, publicamen e, nos jo nais, po pe sonalidades di e sas,
e e o mas e am espo adicamen e anunciadas, começadas, pa alisadas e
830
abandonadas. A é que, na década de 90, iniciou-se uma ope ação que se ans o mou
em assun o cons an e na mídia egional e nacional, em deco ência da expec a i a
cons uída, em g ande pa e pelos p óp ios meios de comunicação, em o no do
sucesso que se islumb a a. Es a ecupe ação iniciada na década de 90 man ém-se
agendada a é hoje.
A his ó ia da ecupe ação do Cen o His ó ico p opos a pelo Go e no do Es ado da
Bahia começou em 1992, com a I E apa de um P og ama de Recupe ação. A inicia i a
oi p imei amen e di ulgada em uma en e is a do ipo ping-pong, em A Ta de, o maio
jo nal do Es ado, o de maio c edibilidade e popula idade, no mesmo ano. Há uma
década, es e mesmo p og ama de ecupe ação encon a-se em sua 7ª E apa. Go e nos
se sucede am, assim como os di ecionamen os de suas di e sas polí icas públicas.
En e an o, a condição do Cen o His ó ico pe maneceu necessi ando de especial
a enção pa a que o isco iminen e de de e io ação do conjun o não se conc e izasse.
Es e his ó ico que se segue, con endo in o mações sob e o sí io ecupe ado e sua
população, assim como a aje ó ia do jo nal A Ta de, pe mi e que sejam en endidas as
elações que se desen ol iam e que passa am a se desen ol e du an e o P og ama
de Recupe ação p omo ido pelo go e no do Es ado da Bahia e a cobe u a jo nalís ica
o e ecida. Es e his ó ico con ibui pa a a comp eensão da ques ão sociocul u al do
Cen o His ó ico.
2.1. Cen o His ó ico
O Cen o de Sal ado se man ém como es emunho da his ó ia. No início, o seu miolo,
o Pelou inho, e a p edominan emen e esidencial, p óximo à á ea adminis a i a da
P aça Municipal e come cial da Cidade Baixa, con o me o ganização di ada pelo p oje o
do a qui e o-mo , Miguel de A uda, azido de Po ugal pelo mes e Luis Dias, que
chegou com o p imei o go e nado -ge al do B asil, Tomé de Souza. A cidade começou
a se modi ica e a se econ igu a espacialmen e con o me c escia em população a
pon o de p o oca as p imei as p eocupações de Wande ley de Pinho com o pa imônio
his ó ico e cul u al. No começo do século 20, Pinho, um dos p ecu so es da conse ação
do pa imônio na capi al baiana, apon ou a i udes equi ocadas, ao menciona di e sos
impedimen os encon ados pa a a p o eção do pa imônio. Desde a adul e ação de
on es e p édios – “ on es públicas que se ebocam e e o mam, apando insc ipções e
queb ando co nijas; elhos sola es que se mu ilam; capelas e emplos que se deixam
ui (...)” (PINHO, 1990) -, a é a al a de ecu sos – “onde encon a emos undos pa a
cus ea despesas em conse a o que se ae a uinando ou anspo a e ab iga o que
se ae pe dendo?” (PINHO, 1990). Du an e as duas décadas seguin es ao discu so de
831
Pinho, o “p og esso demolido ” se alas a des uindo monumen os pelo B asil a o a, e
especialmen e em Sal ado , onde os jo nais acompanham os a os e ab em espaços
pa a a discussão pública:
Essa ideologia do p og esso, eduzida aos aspec os u banís icos da Cidade do
Sal ado , ai encon a seus sec á ios acas elados na imp ensa diá ia. Os
jo nais baianos i ão indiscu i elmen e colabo a na c iação de uma opinião
pública, não di emos a o á el ao u banismo demolido , mas pelo menos,
deslumb ada e anes esiada em elação ao mesmo. A dou inação enche á
páginas e páginas de á ios jo nais, nas p imei as décadas do século XX, odos
acen uadamen e de enso es das e o mas. Em 1912, não su gi ão p o es os e
ozes disco dan es, como em 1928 e 1933, e o ônus se á, mesmo de ce os
memb os da in eligência baiana, como e emos adian e, de ôo cego e
impensado amo ao “p og esso”, com o sac i ício iconoclas a de nossos
monumen os his ó icos (PERES: 2009: 38).
Em 1959, ano do ombamen o nacional, assim e a desc i o o Pelou inho po Mil on
San os, que az um ela ó io sob e as condições de deg adação social e a qui e ônica
da á ea. Ele elaciona os que i em sem ocupação de inida e desc e e o es ado de
misé ia daqueles que mo am nos qua os subdi ididos po “panos”, que ab iga am ês
a qua o pessoas, as mesmas que se iam a as adas du an e o p ocesso de ecupe ação
de que a amos. San os ia a imposição ju ídica que con ola a as condições na
o denação da cidade.:
O Pelou inho é uma ladei a-p aça, de o ma i egula , odeada po edi ícios dos
séculos 18 e 19, g andes casas nob es de dois e de ês anda es que se i am
como esidências a amílias icas, mas que hoje caí am em uínas. O in e esse
do es udo dessa p aça eside no a o de que ela se si ua no co ação mesmo da
á ea esgua dada pelos egulamen os que assegu am p o eção aos
monumen os his ó icos da cidade. Assim, ela ep esen a, a um só empo, um
exemplo da in luência dos alo es ju ídicos sob e os a os de es u u a u bana e
um exemplo de deg adação (SANTOS, 1959:165-66).
O pensamen o de San os sob e o Pelou inho, ambém, é publicado nos jo nais. Na
T ibuna da Bahia, na mesma época. “Há uma geog a ia de P os i uição?” (29/4/1959),
com o seguin e apoio explica i o: “A ‘limpeza’ da cidade elha – quando o p oblema não
é só policial – a i idade u bana em azão econômica – soluções exó icas não se em
pa a sanea a zona p oibida”.
Pouco depois da análise de San os (1959), sob e o Pelou inho, To es (1961) az uma
lis agem dos log adou os da Sé, en ando islumb a o des ino de cada um deles e, de
algum modo, in en a iando uas ao ci a seus nomes, alguns que já iam sendo
subs i uídos. In e essan e obse a que an o San os, quan o To es – es e ampliando a
á ea e e encial - e e em-se ao espaço em ques ão como “co ação da á ea
esgua dada” e “co ação da capi al”, dando-lhe a ideia de cen alidade e de p oximidade
a e i a (TORRES, 1961:25-26).
832
A ocupação dos demais bai os do Cen o An igo, ambém, começou a se ans o ma
quando, po ol a dos anos 70, localidades mais a as adas passa am a a ai an igos
esiden es de Naza é, Des e o, Campo da Pól o a, den e ou as. Na década de 80,
aumen ou o núme o de adep os das no as á eas esidenciais. T oca am-se as uas do
Cen o pelas da Pi uba, que se expandia, e, pouco depois, já p opicia a a o mação de
sub-bai os, como o do I aiga a, Pa que da Cidade e Caminho das Á o es. Os edi ícios
ago a mais al os e am cons uídos com playg ound, piscinas e quad as de espo es.
Enquan o isso, o Pelou inho e ci cun izinhança se deg ada am ainda mais po que
deixa am de exe ce a ação sob e as classes que pode iam sus en á-lo com impos os
e dignidade.
O p ocesso de deg adação da á ea do Pelou inho, á ea nob e da cidade, é o esul ado
da c ise econômica do século passado e do li e jogo das o ças econômicas na dinâmica
de ans o mação que condicionou o ipo especí ico de c escimen o da cidade, causando
a des alo ização das zonas de cons uções an igas. Essa des alo ização econômica
conduziu a almen e à des alo ização social, o çando a mobilidade cen í uga dos
mo ado es de maio es posses, e aumen ando a o ça de a ação sob e os g upos
si uados nos quad os mais baixos da hie a quia do sis ema de es a i icação social
(ESPINHEIRA, 1984:69).
A egião do Pelou inho passou a se ainda mais desdenhada pelas classes al a, média
e baixa, ao pe de as u ilidades que inha, quando deixou de se á ea esidencial e
come cial. Como consequência da al a de in e esse econômico ol ado pa a aquele
espaço, os seus a a i os a qui e ônicos se de e io a am ao deixa em de se
conse ados pelos pode es públicos e pelos p óp ios donos dos imó eis. Sal ado
op a a po um no o e di e en e modo de ida, que excluía o Cen o His ó ico, e,
sob e udo, o es igma iza a.
As p os i u as con e gi am pa a o Pelou inho, po um lado, a aídas pelas
condições sociais e econômicas da localidade, enquan o que, po ou o, aí se
es abelece am compelidas pela ação policial dos ó gãos enca egados dos
cos umes (ESPINHEIRA, 1984:70).
Po ezes, o sociólogo Gey Espinhei a se e e e aos jo nais como documen os que
e idencia am “o ca á e pa ológico dessa comunidade e da ação policial que aí se az
cons an e” (ESPINHEIRA, 1971:43). O sociólogo baiano conside a a a “análise dos
compo amen os di e gen es documen ados po no as jo nalís icas” um complemen o
pa a o seu “es udo explo a ó io”. Ele se e e e ao con eúdo dos jo nais como a “opinião
popula , aduzida pela imp ensa”, que pe mi e e i ica o g au de disc iminação social
(ESPINHEIRA, 1971:43).
833

A e- a i icação do ombamen o do Cen o His ó ico oco eu em 20 de ou ub o de 1983,
com insc ição no Li o do Tombo, em 19 de julho de 1984. A Folha de São Paulo saiu
com ma é ia um dia depois:
Foi ombado on em pelo Conselho Consul i o da Sec e a ia do Pa imônio
His ó ico de Sal ado , o Cen o His ó ico de Sal ado , uma á ea
ap oximadamen e de 750 mil me os quad ados, com ce ca de 60 mil imó eis e
28 monumen os que, no p óximo ano, ai se indicada à Unesco pa a se o na
pa imônio mundial da humanidade (Folha de São Paulo, 21/10/1983).
A Ta de publica, com chamada apenas ao pé da p imei a página, Sal ado econhecida
“Cidade Monumen o”, com on es o iciais: o p e ei o Manoel Cas o e o supe in enden e
do Se iço do Pa imônio His ó ico e A ís ico Nacional (Sphan), A y Guima ães.Hou e
chamada na capa do jo nal, e não manche e. Ou as seis ma é ias sob e pa imônio,
elacionadas e não elacionadas à classi icação de Pa imônio da Humanidade, se iam
publicadas ainda nes e mesmo mês. Apenas uma delas, sob e a es au ação da Ig eja
da Piedade e á chamada de capa. Ou seja, o Cen o His ó ico de Sal ado é
classi icado como Pa imônio da Humanidade e na capa do maio jo nal do es ado es e
acon ecimen o ende apenas uma chamada si uada ao pé da p imei a página, com o o
de 176cms2, e não manche e, mesmo dian e dos alo es-no ícias inedi ismo, no idade,
núme o de pessoas a e adas, p oximidade e c.
Fe nandes (2008:30) disco e sob e a sé ie de ci cuns âncias que o ja am o
es aziamen o do Cen o, no século 20. Ela menciona um no o modelo de expansão
u bana, deco en e da mudança de pad ão de c escimen o de Sal ado pa a uma lógica
indus ial-me opoli ana. Além do aumen o demog á ico, nos anos 50 a Pe ob as se
ins ala e começa a explo ação de pe óleo no Recônca o baiano. O Cen o Indus ial de
A a u nos anos 60, a implan ação do Pólo Pe oquímico de Camaça i na década de 70
e, no início dos anos 2000, os in es imen os inculados à indús ia au omobilís ica,
ambém em Camaça i, desloca a concen ação de abalhado es das p oximidades do
Cen o. “Essa no a lógica cons uída ao longo de 40 anos, se á ma cada po di e sas
ações in a-u banas que acele am ainda mais o p ocesso de pe da de i mo de
c escimen o da á ea cen al da cidade” (FERNANDES, 2008:30).
Como pudemos obse a a é aqui, as ma é ias eiculadas pelos jo nais apon am os
aspec os nega i os do Cen o His ó ico e a mo i ação pa a o ambien e deg adado
apon a a semp e na di eção da população que lá mo a a. Desde a década de 60,
es udos inham sendo ei os pa a p ese ação de conjun os ombados com o obje i o
de inc emen a o u ismo que mais a de i ia a se con i ma como polí ica.
834
2.2. A Ta de
Fundado po E nes o Simões Filho e em ci culação no Es ado da Bahia e em Se gipe,
o A Ta de pe deu a posição de mais endido jus amen e quando alcança a o seu
cen ená io. En e an o, ainda hoje, man ém-se como pe iódico de c edibilidade no
Es ado. Ao longo de sua his ó ia, o jo nal oi o de maio i agem e endagem. Essas
posições o am pe didas mui o como consequência de uma ees u u ação do seu
conco en e, o Co eio da Bahia, pe encen e à amília do inado e con o e ido
go e nado An ônio Ca los Magalhães, o qual oi o p oponen e da ecupe ação do
Cen o His ó ico, sí io que se e de mo i ação pa a es a análise sob e o obje o
jo nalís ico.
O Co eio, como passou a se chamado exa amen e pa a se a as a do espec o do seu
an igo p op ie á io, ado ou o o ma o be line , diminuiu d as icamen e o seu p eço ao
consumido e e o mulou a pad onização de suas ma é ias, que passa am a se cu as
e sin é icas, ocupando meno espaço nas páginas na publicação. Também, uma in ensa
campanha de ma ke ing passou a se eiculada no canal de TV pe encen e ao mesmo
g upo que edi a o Co eio.
No pe íodo em que o am publicadas as unidades jo nalís icas que compõem o co pus
empí ico des e abalho, o jo nal A Ta de e a o imp esso com maio popula idade e
endagem no me cado jo nalís ico local. Po meio de uma análise de con eúdo, cujo
eco e empí ico são as unidades jo nalís icas publicadas em A Ta de en e 1992 e
2002, desc e emos a aje ó ia do jo nal em sua abo dagem sob e a ecupe ação do
Cen o His ó ico.
3. ESPAÇO PÚBLICO E QUESTÕES TEÓRICAS
A es e a pública é o espaço de mediação onde se p onuncia o diálogo, p e ensamen e
a ado en e sociedade e go e no, en ol endo di e sos in e esses desde a
Mode nidade. A mídia é a in e mediação. Es a é uma con ingência que a e a a odos os
que con i em em comunidade. A imp ensa, como espaço p i ado que se p es a à
discussão pública, di ige-se aos públicos que consomem o que é p oduzido pelos meios
de comunicação e, ce amen e, aos que não. Po que a es e a pública implica em
con aminação na u al en e os que a compõem. A ecepção se expande, se amplia, ou
se eduz, como p essupõem as eo ias, pa icula men e, a da Agenda-Se ing
(McCOMBS, 2007), a qual u iliza a ideia de ans e ência en e agendas da mídia, do
público e a dos go e nos. Pa a que a ecepção se expanda, o assun o p ecisa se
835
agendado, e uma de e minada saliência, con o me os p ecei os de inidos po
McCombs (2007).
A ans e ência que oco e em consequência da in e ação en e agendas é a p óp ia
azão de se da eo ia. Pa imos do p essupos o de que a agenda da mídia in luencia a
agenda do público. En ão, nes e abalho, obse amos a agenda midiá ica a pa i da
cons a ação do seu agendamen o. Não nos a emos às di e enciações en e Agenda-
se ing e F aming, com e e ência aos seus a ibu os mais e idenciados e não ao seu
enquad amen o (WEAVER: 2007). Pa a chega mos a um segundo ní el da Agenda-
se ing, nos u ilizamos da iden i icação desses a ibu os. A nossa análise se de ém na
cons a ação do agendamen o, sem delimi a a in luência des e no público.
Habe mas desc e eu a mudança es u u al na es e a pública conside ando o jo nalismo
em sua capacidade de publiciza as mensagens, e ambém, analisou o seu papel. Há
uma sín ese da elação que se es abelece quando se em a imp ensa como eículo ú il
aos p opósi os nem semp e anunciados, mas, quase semp e, implíci os na in e ação da
ação polí ica:
A “cul u a” di undida a a és dos meios de comunicação de massa é pa icula men e
uma cul u a de in eg ação: ela in eg a não só in o mação e aciocínio, as o mas
publici á ias como as o mas li e á ias e bele ís ica psicológica pa a uma ocupação e
“ajuda de ida” de e minada pelo human in e es ; ela é su icien emen e elás ica pa a
ambém assimila , ao mesmo empo, elemen os da p opaganda, a é mesmo pa a se i
como uma espécie de supe -slogan que, caso ainda não exis isse, pode ia e sido
simplesmen e in en ado pa a ins de public ela ions do s a us quo /84ª/. A es e a
pública assume unções de p opaganda. Quan o mais ela pode se u ilizada como meio
de in lui polí ica e economicamen e, an o mais apolí ica ela se o na no odo e an o
mais apa en a es a p i a izada /85/ (HABERMAS, 1984:207-208).
E a no ícia acaba se o nando uma aliada de emp ei adas, legi imando a exis ência de
p odu os, quando os coloca em e idência e p opõe uma e lexão con o me p opósi os
de inidos pelo p óp io p oponen e do assun o.
A no ícia é mesmo uma o ma incipien e da ‘economia da a enção’ que e minou
ca ac e izando a mídia con empo ânea. É, assim, um p odu o – e ce amen e ca o,
conside ando-se o cus o a ual da sua p odução na es e a da g ande mídia – cuja
iden idade me cadológica se con igu a a pa i de meados do século XIX, no momen o
de ansição do publicismo ou ‘jo nalismo de opinião’ (ca ac e izado pela p odução
a esanal, pela pe iodicidade i egula e po ex os o emen e polêmicos) pa a a
‘imp ensa come cial’, o ganizada em bases indus iais, logo ol ada pa a um público
massi o, susce í el de sus en a g andes i agens e assegu a o luc o (SODRÉ: 2009,
25).
Po an o, é possí el p essupo que a mídia pode se o na uma aliada do agendamen o
p opos o po de e minados p oponen es ou pelo agendamen o p omo ido pelo go e no
ou pelo agendamen o do público, sendo es a, a mídia, di ecionado a da “economia da
836
a enção” mencionada pelo au o . Se ia o que os psicólogos sociais chamam “obje o da
a i ude” – algo pa a o qual a a enção do público é di igida. Es e en endimen o coincide
com a ideia de saliência desen ol ida po McCombs (2007).
4. A COBERTURA DO JORNAL
Den o do espec o empí ico de inido nes e abalho – que são as unidades jo nalís icas
publicadas en e o lançamen o do P og ama de Recupe ação e o seu qua o ano de
aplicação - em nenhuma ma é ia em A Ta de, nes e pe íodo, oi incluída a ques ão da
conco ência de pode es ou esponsabilidades sob e o Cen o His ó ico. Em unção do
ombamen o nacional do e e ido sí io, há uma poligonal em que p e alece a ju isdição
ede al. En e an o, odo o P og ama de Recupe ação oi idealizado e execu ado po
uma ins ância go e namen al di e sa, a do Es ado da Bahia.
A apidez com que a “ ecupe ação” oi ei a, o seu esul ado e a des e i o ialização dos
seus an igos mo ado es êm sido mo i o de es udos acadêmicos e ainda endem
desdob amen os na p óp ia mídia quando con on ados com o es ado em que se
encon a o mesmo espaço, hoje. A não dispu a em o no das esponsabilidades e
cuidados ace ca do Pa imônio Cul u al, en e o Ins i u o do Pa imônio His ó ico e
A ís ico Nacional (Iphan), esponsá el a ní el ede al, e o go e no local o nou-se um
exemplo de um con li o dissimulado, sem discussão explíci a na es e a pública.
Jo nalis icamen e, o episódio p opiciou a pa icipação da mídia como mediado a de
discussões que en ol iam in e esses dis in os – o do go e no do Es ado que que ia
u iliza a á ea pa a ca apul a o ma ke ing da sua ges ão e o dos an igos mo ado es que
não p e endiam se e acuados po con a da e alo ização da á ea. O go e no a a a a
ques ão como uma “ob a” capaz de ende o os e no o iedade, a pa i do
econhecimen o da sociedade, que que ia e o pa imônio do conjun o colonial
eabili ado ou ap ecia a a ideia de usa o Pelou inho como local de en e enimen o. Os
mo ado es, po sua ez, encon a am di iculdades pa a man e o di ei o de pe manece
na á ea.
A imp ensa, ainda que a dia e pon ualmen e, não se eximiu de mos a a si uação da
população na condição de p a icamen e ob igada a se ans e i do Cen o His ó ico pa a
ou as pa es da cidade, no que icou conhecido como “assepsia social”,um e mo usado
em um p ocesso iniciado pelo Minis é io Público Es adual. No seguin e echo do
abalho Desap op iação das memó ias indesejá eis: op essão e esis ência no Cen o
His ó ico de Sal ado , de Juliana Ne es Ba os e Vanessa Souza Pugliese, “aqui, mui o
837
inaugu ação. Nes e ano, aumen a o u ismo no Cen o His ó ico, como in o mou a
ma é ia “C esce o luxo u ís ico com boas p e isões pa a o u u o” (A TARDE,
01/12/1994:12), com duas on es – um di e o de ma ke ing da Bahia u sa e um ge en e
de ho el de luxo.
Em elação ao ano an e io , a quan idade de unidades jo nalís icas diminuiu
signi ica i amen e, de 166 pa a 100, uma queda de 39,7%. Mesmo assim, oi o ano em
que as ma é ias sob e o Cen o His ó ico de Sal ado o am pouco mais da me ade do
mon an e daquelas sob e o pa imônio his ó ico e cul u al em ge al. Es e e a o e cei o
ano desde que a ecupe ação inha sido iniciada. E a o segundo de inaugu ações. E,
ambém, o ano em que An onio Ca los Magalhães deixa ia o go e no pa a assumi uma
aga no Senado.
Em 1995, o am publicadas 212 ma é ias sob e o pa imônio his ó ico e cul u al.
Ap oximadamen e, apenas um e ço delas a a a do P og ama de Recupe ação e
ques ões associadas ao Cen o His ó ico de Sal ado . No ano an e io , mais da me ade
das ma é ias ela i as a pa imônio, o equi alen e a 53%, e a sob e a ecupe ação.
Po an o, em 1995, apesa de e ha ido uma quan idade maio de ma é ias sob e
pa imônio em ge al, hou e edução das que oca am especi icamen e na ecupe ação
e no Cen o His ó ico. O comé cio no Pelou inho passa a mo i a ma é ias que in o mam
a diminuição da equência de isi an es, p eços mais al os p a icados na á ea, e
dependência dos come cian es pela isi ação de u is as. E a Unesco a alia pesquisa
que indica que 22% dos que equen a am o Pelou inho mo a am nele.
6.- CONSIDERAÇÕES FINAIS
Não obs an e o in indá el agendamen o p omo ido pelos meios de comunicação, o qual
é pe cep i elmen e ans e ido pa a a agenda dos go e nos, o Cen o His ó ico segue
en en ando di iculdades de ges ão, as quais comp ome em a sua conse ação como
pa imônio his ó ico e a ís ico, e a sua lei u a como local que, pa a man e -se, p ecisa
se equen ado como qualque ou o, especialmen e nas cidades cujos cen os se
depa am com o es aziamen o, em deco ência da alo ização de no os espaços, mui os
dos quais p i ados que acabam po subs i ui os de adição.
Não só os mo ado es emanescen es, mas, ambém, os come cian es que se ins ala am
em suas edondezas, dependem de polí icas públicas e e i as que con ibuam com a
sua conse ação ou pa a que, pelo menos, e i em a in ensi icação da deg adação, há
mui o em cu so. Desde o início do P og ama de Recupe ação do Cen o His ó ico de
844

Sal ado , o assun o é con inuamen e agendado especialmen e pela mídia imp essa que
ci cula na capi al baiana, como se pode acilmen e cons a a e i icando o conjun o de
ma é ias publicadas con inuamen e, po di e sos eículos. No p esen e momen o, ainda
com a VII E apa de Recupe ação em cu so, os a ibu os mais equen es das ma é ias
eiculadas ol am a se os desabamen os e incêndios que êm oco ido nos casa ões
que in eg am a poligonal de inida pelo Ins i u o do Pa imônio His ó ico e A ís ico
Nacional (Iphan).
Ao con á io da equência espa sa que se e i ica a an es da cobe u a dessa
expe iência, as pau as sob e o pa imônio se mul iplica am du an es os p imei os anos
da ecupe ação e pe manecem e en ualmen e sendo publicadas, ago a com c i icas
eco en es di igidas à al a de e e i idade das medidas omadas em p ol do agonizan e
Cen o His ó ico. Essa pos u a subs i ui a cobe u a di ecionada apenas a si uações
con ingenciais.
Mais impo an e ainda é que a ques ão dos mo ado es do Cen o His ó ico, que no início
da ecupe ação oi elegada, en ou de ini i amen e na pau a. É ei e ada abe amen e
nos discu sos que se azem e e en es ao Cen o His ó ico de Sal ado a ques ão da
p esença de an igos ocupan es. Ou sob e a p esença de no os mo ado es.
Con adi o iamen e, ou os espaços da cidade co em o isco da gen i icação e o
p oblema é asamen e mencionado, como nas á eas do La go 2 de Julho, no San o
An ônio Além do Ca mo e a é na Ba a, que desde meados de 2013 i e a iminência de
uma g ande e o ma p opos a pelo pode municipal cujo go e nan e, ACM Ne o, é ne o
do go e nado da Bahia à época da chamada ecupe ação do Cen o His ó ico de
Sal ado . Recen emen e, no La go de São F ancisco, em en e à Ig eja e Con en o de
São F ancisco, que ambém se encon a em es ado de conse ação p ecá io, oi
inaugu ado um museu em homenagem ao ex-go e nado que lançou o P og ama de
Recupe ação do Cen o His ó ico.
7.- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
DEARING, J. W. e ROGERS, E. M.(1992): Communica ion Concep s 6: Agenda-se ing.
Thousand Oaks, Ca: Sage.
ESPINHEIRA, C. G. (1971): A comunidade do Maciel. Sal ado : Sec e a ia de Educação
e Cul u a/Fundação do Pa imônio A ís ico e Cul u al da Bahia.
___ (1984): Di e gência e p os i uição: uma análise sociológica da Comunidade
P os i ucional do Maciel. Sé ie Cul u a Baiana1. Rio de Janei o: Tempo B asilei o;
Sal ado : Fundação Cul u al do Es ado da Bahia.
845
ESTEVES, J. P (2003): Espaço Público e Democ acia. Lisboa: Edições Colib i.
___ (2003): A É ica da Comunicação e os Media Mode nos. Legi imidade e Pode nas
cidades complexas. 2ª Ed.. Lisboa: Fundação Calous e Gulbenkian.
FERNANDES, Ana. Cen o An igo de Sal ado : cen alidades em dispu a e desa ios à
ação. In: In ocul u a – Cen o An igo de Sal ado : uma egião em deba e. V. 1, n. 2 (ou .
2008). Sal ado : Sec e a ia de Cul u a do Es ado, Fundação Ped o Calmon Cen o de
Memó ia e A qui o Público da Bahia.
____ (2006): “P oje o Pelou inho: ope ação depo ação X ampliação dos di ei os”. Tex o
con ido no Cu so de Capaci ação – P og amas de eabili ação de á eas u banas
cen ais. Labo a ó io de Habi ação e assen amen os Humanos da FAU-USP e Lincoln
Ins i u e o Land Policy.
____ (2009): “P oje o Pelou inho: Ope ação depo ação X ampliação do di ei o”, Cu so
de Capaci ação – P og amas de eabili ação de á eas u banas cen ais.
h p://www.cidades.go .b /sec e a ias-nacionais/p og amas.u banos/biblio eca/
eabili acao -de-a eas- u banas-cen ais/
FIGUEIREDO FILHO. G. R. de (1984): A in luência do ecle ismo na A qui e u a Baiana.
Re is a do Pa imônio His ó ico e A ís ico Nacional. Rio de Janei o, n 19.
FORTUNA, C. (1997): Des adicionalização e imagem da cidade. O caso de É o a. In:
Cidade, Cul u a e Globalização. O g.: Ca los Fo una. Oei as: Cel a Edi o a.
GOMES, M. A. F e FERNANDES, A. (1995): Pelou inho: Tu ismo, Iden idade e
Consumo Cul u al. In: GOMES, Ma co Au élio A. de Filguei as (O g). Pelo Pelô: His ó ia,
Cul u a e Cidade. Sal ado : Edi o a da Uni e sidade Fede al da Bahia/ Mes ado em
A qui e u a e U banismo – Edu ba.
MATTOSO, Ká ia M. (1992): Bahia Século XIX. Uma p o íncia no Impé io. Rio de
Janei o: Edi o a No a F on ei a.
MCCOMBS, M. (2007): Se ing he Agenda. The Massa Media and Public Opinion.
Camb idge: Poli y.
McQUAIL, D. (1975): Communica ion, Aspec s o mode n sociology. Social P ocesses.
New Yo k: Longman G oup.
ROLNIK, R. (2004). O que é cidade? São Paulo: B asiliense.
SODRÉ, M. (2009): A na ação do a o, no as pa a uma eo ia do acon ecimen o.
Pe ópolis, RJ: Vozes.
TORRES, C. (1961). Bahia, Cidade ei iço. 2ª ed. Sal ado : Imp ensa O icial da Bahia.
PINHO, W. A (1990): Cole ânea de ex os his ó icos (ap esen ação Consuelo Ponde de
Sena). Sal ado : A es G á icas.
SANTOS, M. (1959): O Cen o da Cidade do Sal ado . Es udo de Geog a ia U bana.
B asil: Publicações da Uni e sidade da Bahia.
WEAVER, D. H. (2007). Though s, F ames and P iming, de Da id H. Wea e , in Jou nal
o Communica ion 57 (142-147) a h p://www.communica ioncache.
com/uploads/1/0/8/8/10887248/ hough s_on_agenda_se ing_ aming_and_p iming.pd
846
WEINSTEIN, M. (2011): O pa imônio cul u al na imp ensa da Bahia: en e o Cen o
His ó ico (anos 90) e a Vi ó ia (anos 2000). Tese de dou o amen o inédi a. Uni e sidade
Fede al da Bahia.
WOLF, M. (1987): Teo ias da Comunicação. T adução po : Ma ia Jo ge Vila de
Figuei edo. T adução de Teo ie delle Comunicazioni di Massa. Lisboa: Edi o ial
P esença.
Ma y Weins ein é g aduada em Comunicação/Jo nalismo, mes e em A es Cênicas e
dou o a em Cul u a e Sociedade pela Faculdade de Comunicação da Uni e sidade
Fede al da Bahia (U ba). T abalhou em ele isão (TV Bahia, Rede Globo) e jo nal (A
Ta de). A ualmen e, é p o esso a do Cu so de Comunicação Social/Jo nalismo, na
Uni e sidade Es adual do Sudoes e da Bahia (Uesb) e líde do G upo de Pesquisa
Jo nalismo e Pa imônio Cul u al.
847