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O ISLÃ E O SISTEMA ESCOLAR
NO MARROCOS PRÉ-COLONIAL
Vicen e Llo en Bedma *
m ápidos aços que nos eco dem as in luências cul u ais an-
e io es ao pe íodo p é-colonial ma oquino, que a cul u a be -
be e au óc one do Mag eb ecebeu, é impo an e assinala as
con ibuições, em dis in os g aus, ealizadas po g egos, ca agineses,
omanos, ândalos, á abes, u cos o omanos, espanhóis1 e anceses2.
Con udo, o am os á abes que deixa am a ma ca mais o e, po que não
só coloniza am es es e i ó ios e com eles es abelece am o es laços
come ciais, mas ambém os a abiza am e islamiza am, dando-lhes sua
p óp ia eligião e, em g ande pa e, seu idioma, o á abe. Ainda hoje,
podemos obse a sua ma ca em qualque pa e. E es a cons i ui um
componen e essencial da cul u a ma oquina, sem a qual se ia impossí-
el comp eende sua ealidade educa i a.
O icialmen e, a a abização da zona e e início quando El Hasan
E
*P o esso da Uni e sidade de Se ilha. T adução de Ma ia Eugênia San os.
1As in luências cul u ais p o enien es da Península Ibé ica i e am um peso especí ico consi-
de á el. Du an e séculos, a dominação á abe no Al-Ándalus p opiciou equen es e u í e as
elações cul u ais hispano-ma oquinas, que paula inamen e o am diminuindo com o declínio
muçulmano na Península. Foi en ão, quando dois cole i os expulsos da Espanha le a am
pa a o Ma ocos seu ace o cul u al, que, de uma o ma ou de ou a, compa ilha iam com os
au óc ones. Re e imos-nos aos judeus expulsos em 1492 e aos muçulmanos depo ados po
Felipe III (1609-1614).
2Sem alcança a eno me ele ância da cul u a e cos umes á abes, a in luência ancesa e e
uma indubi á el ascendência na sociedade ma oquina e, po ex ensão, em seu âmbi o educa-
cional. Enquan o, po ou o lado, as epe cussões coloniais espanholas no no e do país i e-
am escassa incidência no pos e io desen ol imen o do sis ema educacional do Ma ocos.
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Ben Noamán el Gasani, depois de conquis a o e i ó io que co es-
ponde a ualmen e ao Ma ocos, p omulgou um dec e o, no ano de 698,
no qual es abeleceu o á abe como língua o icial, si uação que a o eceu
uma inicial islamização do país, que se ia execu ada com a ajuda de
al aquis3 azidos do O ien e. Du an e os séculos XI, XII e XIII, com a
chegada das ibos á abes4 p o enien es do O ien e, e e início um no o
e amplo pe íodo de a abização que não icou ci cunsc i o somen e ao
âmbi o das cidades, alcançando ambém as zonas u ais.5
Concen ando no e eno essencialmen e educa i o, cen a emos
nossa a enção nas di e en es ins i uições educa i as que su gi am ao
longo da his ó ia no Ma ocos, essal ando a es ei a elação en e a
eligião muçulmana e o ensino o iginal, pa a, em seguida, aze o mes-
mo com o ensino judaico e as á ias modalidades educa i as desen ol-
idas no Ma ocos pelos eu opeus.
Os p incípios e ideais da ci ilização á abe-muçulmana cons i uí-
am os pila es sob e os quais, inicialmen e, se es abeleceu o ensino o igi-
nal ou islâmico. De a o, an o no pe íodo p é-colonial como pos e io -
men e, as escolas co ânicas desempenha am um impo an íssimo papel
no sis ema escola . Desde a sua o igem, es a am in imamen e ligadas à
eligião muçulmana e à sociedade onde se desen ol iam, des acando sua
independência do pode polí ico e sua al a de es u u a ins i ucional.
As escolas co ânicas se expandi am desde a A ábia pelas egiões
conquis adas, sucessi amen e, pelas dinas ias Omeya e Abasida, che-
gando a cons i uí em-se ealidades consolidadas. Num p imei o mo-
men o, desen ol e am-se nas mad asas,6 no malmen e si uadas nas
adjacências das mesqui as u banas, e nas zaouïas,7 que se es endiam ao
3Especialis as, dou o es ou sábios em ju isp udência islâmica.
4Es as ibos beduínas, o iginá ias da Sí ia, A ábia e Iêmen, e am os “Banú Hilâl”, “Banú
Ma‘qil” e os “Banú Sulaym”.
5Pa a ap o unda a emá ica: William Ma çais, “Commen l’A ique du No d a é é a abisée I.
L’a abisa ion des ille”, Annales de l’ins i u d’E udes O ien ales d’Alge , n. 4 (1938), pp. 1-21;
William Ma çais, “Commen l’A ique du No d a é é a abisée. II. L’a abisa ion des campagnes,
Annales de l’ins i u d’E udes O ien ales d’Alge ”, n. 14 (1956), pp. 5-17.
6Escolas des inadas ao es udo do Islã, no malmen e limi adas a uma mesqui a u bana.
7Cen os educa i os des inados ao ensino da eligião e a ce o p oseli ismo gue ei o, chegan-
do a ealiza labo es p óp ios de monas é ios, escolas e pousadas.
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âmbi o u al, c iando seu p óp io espaço acadêmico. Es es ensinamen-
os o am alcançando popula idade e p es ígio, an o que, com o passa
do empo, chega am aos cen os de educação supe io , como a Uni e -
sidade Qua aouiyine,8 c iada em Fez com base em ou as uni e sidades
á abe-islâmicas, como as do Cai o e Tunísia.
T adicionalmen e, os alunos meno es assis iam às escolas
co ânicas (ku âb ou m’sids),9 onde ecebiam uma o mação islâmica
baseada no Co ão e ap endiam o á abe a a és da esc i a e da eci ação.
Ap endiam a le e a esc e e , semp e nes a o dem. A memo ização, a
mnemônica e, em algumas ocasiões, o cas igo ísico e am as écnicas e
es a égias pedagógicas habi uais.
De a o, a memo ização do Co ão ealiza a-se sem nenhuma ex-
plicação adicional.10 Inicialmen e, ensina a-se a le e a esc e e , o o-
g a ia, calig a ia e c., pa a mais a de passa ao es udo e comp eensão
do Co ão.11
As escolas co ânicas cons i uí am um espaço educa i o no qual
o indi íduo se socializa a a a és da ep odução e ansmissão do sis e-
ma de alo es adicionais na cul u a e na sociedade do Ma ocos. Po -
an o, inham uma unção essencialmen e eligiosa e social. Po meio
de uma igo osa disciplina, inculca am ipos e modos de elações ami-
lia es e sociais impe an es em seu e i ó io. Em mui os casos, es e ipo
de ensino ali ia a o secula abandono a que es a a subme ida a in ân-
cia, da mesma o ma que c ia a nos cidadãos um sen imen o de iden i-
icação e pe encimen o a Umma islâmica (Sociedade islâmica).
As escolas co ânicas das cidades e am pob es como a sociedade,
seus locais e ma e ial escola deixa am mui o a deseja . Habi ualmen-
e, a sala de aula consis ia num espaço si uado nas dependências de uma
8Te e sua o igem no ano 859 (o 245 na c onologia islâmica), quando Fá ima Al Fih iya c iou
um cen o educa i o anexo a mesqui a de mesmo nome, que e olui ia a é se con e e em
uni e sidade.
9Os cen os onde es es ensinamen os e am minis ados no mundo a ábe-islâmico o am denomi-
nados ku âb, ainda que no Ma ocos ambém enham icado conhecidos com o nome de m’sid.
10 Helen Nolan, “Qu anic Schools in Mo occo: Agen s o P ese a ion and Change” (Tese de
Dou o ado, Uni e sidade de Pi sbu gh, 2000), p. 118.
11 Al-Had ami Ibn Khaldun, Taij Ibn Khaldun, Bei u : Da Al-Ki ab Al Lubnani, 1981, . XIV,
pp. 1038-39.
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mesqui a ou em suas adjacências. No âmbi o u al, e am ainda mais
humildes, po ezes, as aulas e am minis adas em uma jaima12 debaixo
de uma á o e, ou na p óp ia mesqui a. O p o esso ( kih)13 e a o es-
ponsá el pela educação e pessoa mui o espei ada, cuja emune ação
ica a a ca go, no malmen e, dos pais dos alunos ou da comunidade
muçulmana.
O ensino não inha ca á e o icial, nem o p o esso ado cons i uía
um co po docen e es a al, nem seque o Makhzen14 in e inha no egime
in e no dos cen os escola es, que e am o almen e p i ados ou comuni-
á ios, dependendo de cada comunidade local. Os docen es inham g an-
de au o idade sob e seus alunos, des u ando de um conside á el espei o
po pa e dos memb os da sociedade em que i iam. E am con a ados
pelo sheij (xeque) do luga , ou po assembleia ibal se desempenhassem
seu abalho em alguma zona u al. Tinham uma escassa o mação que se
eduzia a conhecimen os do Co ão e uma o mação básica ela i a às
ciências eligiosas. Po ou o lado, lhes e am exigidas ce as qualidades
pessoais, como e uma ida digna em sua comunidade e uma pe sonali-
dade equilib ada.15 No malmen e, a é ea disciplina que impunham ia
acompanhada de cas igos ísicos.16 Os alunos mais no á eis chega am a
se conside ados discípulos de seu p o esso , adqui indo, des a o ma,
ce a au o idade e no o iedade en e seus companhei os.
Quando as c ianças inham cinco anos inicia am seus es udos
nos m’sid, con inuando-os a é os dez anos de idade. Os p o esso es e am
emune ados pelo habús17 ou pelos pais, que paga am po seus se iços
a é com especia ias. A maio ia dos alunos inaliza a a sua o mação
12 Tenda de campanha usada pelos po os nômades ou do dese o.
13 F equen emen e conhecidos como olba nas zonas u ais e aquis nas cidades.
14 O signi icado do ocábulo Makhzen, que em ca á e polissêmico, en endemos como o pode
polí ico e socioeconômico que impe a a no conglome ado de cole i os ibais que po oa am
o Ma ocos, que ce amen e pode íamos quali ica como pode á ico. No pe íodo p é-coloni-
al, designa a a “casa eal” do Es ado do Impé io Che i iano. Rachidia Che i i, Le Makhzen
poli ique au Ma oc. Hie e aujou d’hui, Casablanca: A ique-O ien , 1988.
15 Al Ja ab, Al-Mada is Al-Ilmia Al-A ika. Mohammedia: Asociación Adu, Tomo I, p.36.
16 Kili o Abdel a ah, “Ré ol e au Msid”, Le e In e na ional, n. 3 (1991), pp. 32-4.
17 O habús e a uma das mais impo an es o mas de p op iedade no di ei o muçulmano e admi-
nis a a as doações ei as po pa icula es e seu usu u o. Os bens pe encen es à comunidade
e am adminis ados po um eligioso muçulmano que não inha pe missão pa a endê-los
nem ansmi i-los em he ança.
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acadêmico- eligiosa com essa idade. Alguns deles p osseguiam seu ca-
minho acadêmico, en e os dez e qua o ze anos, es udando ob as como
Al iya e Aya umía nas mad asas, mesqui as e con a ias. Es e no o
ní el educa i o, que, de algum modo, pode ia se assemelha ao ensino
secundá io,18 con inua a endo seu epicen o no ensino do Islã. A G a-
má ica á abe, os hadices,19 o Co ão e c., e am analisados e es udados, e
mui os dos alunos e am iniciados na mís ica. Con udo, só os mais p i i-
legiados podiam assis i à Uni e sidade Qua aouiyine e consegui a
pe missão pa a ensina , denominada al-alamia. 20
Ap o undando-se ainda mais no âmbi o educa i o, obse amos
como já nos séculos VIII e IX os conhecimen os baseados no Co ão,
ansmi idos pelos aquis, e am insu icien es, mo i o pelo qual o am
in oduzidas uma sé ie de mudanças a im de p opo ciona melho ia na
in e p e ação dos ex os sag ados e ap o unda a e lexão sob e os mes-
mos, supe ando, na medida do possí el, o ensino memo ís ico e c iando
escolas ju ídicas. 21
Com os almo á ides (1060-1147) e os almohades (1147-1248),
o am c iadas as zaouïas, que, como já ci ado, nada mais e am do que
cen os educa i os des inados ao ensino da eligião e ce o p oseli ismo
gue ei o, chegando a ealiza abalhos p óp ios de monas é ios, esco-
las e alojamen os, que sem dú ida a ua am em de imen o da o mação
in elec ual que ambém se da a nelas. Com o emi Abu Yuse (1258-
1286), es es cen os passa am a albe ga os iajan es e as au o idades
es angei as que isi a am o Ma ocos.
Jeanne René Po ie , his o iado ancês especialis a em emas
do Mag eb, desc e eu as zaouïas de o ma cla a e concisa:
Uma zaouïa é o cen o eligioso, polí ico e adminis a i o de uma con-
a ia sob e a qual eina um ma abu, ou mo abi o, assesso ado pelos
18 Ahmed Moa assime, “Éduca ion e i iné ance: en e le passé e l’ac uali é”, Re ue Tie s-Monde,
n. 135 (1993), p. 586.
19 São b e es ela os que compilam pala as do P o e a, di os, consen imen os, ei os.
20 Abdallah La oui, Les o igenes sociales e cul u elles du na ionalisme ma ocain (1830-1920),
Casablanca: Cen e Cul u el A abe, 1977, pp. 191-201.
21 Michaux Bellai e, “L’enseignemen indigéne au Ma oc”, Re ue du Monde Musulman, . XV
(1911), pp. 440-1.
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seus moqaddem ( igá ios) que êm odo o pode sob e os khouan (com-
panhei os). Os p esen es e as esmolas, que são cada dia mais abundan-
es, se em pa a a manu enção i egula des e cle o, po isso, nes as
escolas co ânicas e casas de hóspedes qualque um podia busca e ú-
gio e compa ilha o cuscuz co idiano. 22
Com os almohades, cons i uiu-se um nacionalismo ma oquino e
o be be e oi impos o como língua o icial. Con udo, po mo i os de
ca á e eligioso, o á abe con inuou a se a língua eicula nos es udos.
As aljamas23 e os ka a ib24 se con e e am nos cen os educa i os mais
conhecidos, sem menosp eza as mad asas, que, naquele momen o, es-
a am sendo cons uídas em Ceu a, Tánge , Fez e Ma akech.25
Um século mais a de, com Abu Inan (1351-1357), p oduzi am-
se acon ecimen os de ca á e educa i o dignos de se em essal ados.
Abu Inan dispôs pa a a biblio eca da Uni e sidade de Qua aouiyine
mais de dois mil manusc i os e pe mi iu a au onomia das zaouïas. Es a
medida a o eceu, undamen almen e, a chegada dos c en es muçulma-
nos e a a enção que se dispensa a aos nume osos indigen es, impulsio-
nando a sua p oli e ação. Também acon ece am mudanças na inalida-
de, obje i os e con eúdos dos seus ensinamen os, con e endo-as em
cen os onde se ensina a o so ismo, a alquimia e c. Com o empo, as
zaouïas se consolida am e adqui i am uma me ecida ama de ebeldia
em elação ao pode cen al. De manei a que o desgos o e oposição dos
emi es não pude am espe a , e eles eagi am cons uindo e man endo
mad asas de o ien ação islâmica o odoxa.26
No século XVI, su giu um mo imen o de manu enção de suas
adições, dian e da incipien e pene ação cul u al es angei a. No sécu-
lo XVII, sua impo ância aumen ou conside a elmen e, an o em ela-
ção à in luência polí ica, adqui ida a a és da eligião, como conquis-
ando um signi ica i o con ole nos múl iplos e i ó ios. Es a si uação
22 Jeanne René Po ie , His oi e du Saha a. Pa is: Nou elles Edi ions La ines, 1974, pp. 215-16.
23 Mesqui a, às ezes, as mais impo an es.
24 Plu al de ku âb (escolas co ânicas).
25 Mohamed Al-Mannuni, Hada i Al-Muwahhidin. Casablanca: Sebou, 1989, pp. 16-24.
26 Pa a ap o unda o ema: Abdela i Agnouche, His oi e poli ique du Ma oc. Pou oi -Légi imi és-
Ins i u ions, Casablanca: A ique O ien , 1987.
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p opiciou um o e egionalismo, o que p o ocou di e sas disposições
de Mulay Ismail pa a desen ol e uma polí ica de uni icação eligiosa
que en aquecesse o pode polí ico dos ma abus, undando no as zaouïas
p óximas ao pode que con a ia am a in luência das an e io es.
Apesa des as en a i as, no século XVIII, algumas zaouïas con-
inua am esis indo ao pode cen al, que as op imia cada ez mais,
en ando limi a seu pode e es ingi seu abalho ao âmbi o es ei a-
men e eligioso. Con udo, não cessa am os al os e baixos e, no inal do
século, Mulay Suliman aumen a ia de no o sua in luência.
As mad asas, ou mede sas, e am ins i uições dedicadas exclusi-
amen e ao ensino, undamen almen e ao es udo do Co ão, que, a exem-
plo do O ien e, o am ins au adas no Ma ocos a pa i do século XIII,
adqui indo um ca á e mais eológico que as zaouïas e limi ando-se às
g andes cidades. Desde en ão a é o século XIV, cons i uí am-se em um
ins umen o u ilizado pela dinas ia dos me iníes (1248-1465) pa a o -
ma os u u os ges o es do es ado, no á ios, p o esso es e imãs, ao em-
po em que a o eciam sua manu enção no pode . Com os me iníes, não
só Fez, capi al in elec ual do Ma ocos, con ou com um sis ema educa i o
mon ado em o no da Uni e sidade Qua aouiyine, mas ambém em ou-
as cidades, como Ma akeche, Meknes e Sale, o am cons uídas
mad asas des inadas a o ma u u os ges o es do es ado e man e o
pode es abelecido, cen os educa i os que, com o en aquecimen o
daquela dinas ia, chega am a goza de uma ela i a independência.
No malmen e, os alunos i iam em egime de in e na o, em um edi ício
es u u ado sob e um pá io in e io pa a onde da am os qua os que o
cons i uíam. Seu abalho com o alunado e sua abe u a ao meio u al
p opicia am u í e os in e câmbios en e o campo e a cidade, da mes-
ma o ma que p omo e am ce a democ a ização educa i a. Enquan o
isso, com o passa do empo, as zaouïas consolida am-se como ins i ui-
ções de acolhida pa a pob es e iajan es.
A islamização e a aquisição de cul u a e am a i idades que não
es a am, de o ma alguma, di e enciadas, pelo con á io, signi ica am
o mesmo, já que a segunda inha um es ei o ca á e eligioso. Tan o é
assim que o habús e a o esponsá el pela educação que se minis a a
nas mad asas e pelos gas os que implica am a sua manu enção.
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T adicionalmen e, nos países muçulmanos, as escolas co ânicas,
as mad asas e as zaouïas e am man idas po undações eligiosas e pelo
pode es abelecido, de aco do com a elação que se inham com es e.
Ainda que as mad asas, o icialmen e no Ma ocos, não ossem inanci-
adas pelo pode polí ico pa a e i a hos ilidades eligiosas, as au o ida-
des polí icas e a comunidade in e inham, sim, na sua cons ução e
manu enção.
Des a o ma, o balua e do sis ema escola ma oquino limi ou-
se à cidade de Fez, mais p ecisamen e à mencionada Uni e sidade
Qua aouiyine. Seus ensinamen os e am ao mesmo empo conco en es
e complemen a es aos minis ados nas zaouïas, já que implica am uma
maio especialização e um ní el mais ele ado de conhecimen os.
Em algumas egiões, as con a ias eligiosas,27 ela i amen e in-
dependen es do pode polí ico, ambém cons i uí am um a o de de-
sen ol imen o cul u al, con ando com cen os escola es p óp ios. Con-
udo, mais p ecisamen e, podemos a i ma que o sis ema escola
ma oquino se es ingia à cidade de Fez e à sua uni e sidade. Pos e i-
o men e, oi ampliado a é Ma akech, cuja uni e sidade, Ibn Yousse ,
cons i uiu-se no epicen o educa i o da egião.
Apesa de se em minis adas disciplinas como a g amá ica á abe,
a lógica, a e ó ica, as adições, na ealidade os ensinamen os sob e o
Islã, sua legislação e ju isp udência e am conside ados os melho es, e
não es a a dú ida da sua p imazia sob e os demais. Ainda que ambém
ossem ensinadas ou as disciplinas menos elacionadas com o Islã, como
his ó ia, belas a es, ma emá ica, medicina, as onomia e c.
Seus p o esso es i e am g ande in luência na ida da cidade e
do país. Não só chega am a se especialis as em di ei o – consul ados
em casos p oblemá icos – mas ambém adqui i am o papel de conse-
lhei os espi i uais. Tamanha e a a conside ação que po eles inha o
pode es abelecido, que con ola a sua designação.28
27 As con a ias e am cong egações enca egadas da bene icência e das ob as de ca idade da sua
comunidade.
28 Em 1924, a Uni e sidade Qua aouiyine con a a com 172 ulemas ( eólogos muçulmanos),
sendo 141 ulemas p op iamen e di os e 31 assimilados. Paul Ma y, Le Ma oc de demain,
Pa is: Publica ions du Comi é de l’A ique F ançaise, 1925, pp. 15-6.
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Mui as das lacunas educa i as que, no âmbi o u al, e em meno
quan idade no u bano, inha o ensino mode no o am a enuadas po es a
modalidade educa i a, si uação que, de uma o ma ou ou a, pe du a á
a é a a ualidade. E a educação minis ada po p o esso es com pouca o -
mação e baixo ní el cul u al, mas pa adoxalmen e mui o espei ados.
Com os me iníes, a Uni e sidade Qua aouiyine alcançou um g an-
de p es ígio e um impo an e papel na sociedade ma oquina. Com o -
es in luências de p o esso es p o enien es da Península Ibé ica, ece-
bia os ilhos de g andes p op ie á ios e icos come cian es. E am cu sa-
das ca ei as adminis a i as, ju ídicas e eligiosas po meio do ap o-
undamen o nas ciências islâmicas, o mando os u u os al os ca gos do
uncionalismo. En e os séculos XV e XVIII, p oduziu-se uma eação
eligiosa e as in e e ências do pode es abelecido ce cea am es es es u-
dos. Inclusi e em um dahi 29 p omulgado pelo sul ão Mohammed ben
Abdellah (1757-1790) indica a, com e iden e cla eza, quais ma é ias
inham que se ensinadas e quais não. As que de iam se es udadas se
es ingiam ao Co ão e a sua in e p e ação, assim como aos ex os ela-
i os ao Islã e a língua á abe. Os que que iam es uda ma é ias como
iloso ia, his ó ia, lógica, li os ex emis as, de iam es udá-las em suas
casas, sozinhos ou com amigos, já que seu ensino nas mesqui as e a
cas igado. Es a p oibição se man e ia nos sul ana os seguin es. A in lu-
ência do pode polí ico no sis ema escola oscila a ao longo dos em-
pos. Vemos, assim, como du an e o sul ana o de Mulay Hassan (1873-
1894), o ensino supe io so eu uma o e in luência desse pode . 30
A inalidade do ensino o iginal, nes e pe íodo, se cen a em o -
ma uma eli e in elec ual des inada à manu enção do sul ana o, onde
inham espaço an o os memb os das amílias a is oc á icas como os
u u os emp egados do Makhzen.
Pa alelamen e ao ensino o iginal, desen ol e am-se dois no os
ipos de ensino, a que nos e e i emos a segui .
29 Dec e o p omulgado pelas au o idades ma oquinas.
30 Nes e pe íodo, a Uni e sidade Qua aouiyine e seus anexos con a am com uns mil alunos
(400 em Fez e 600 em ou as cidades. Ma y, Le Ma oc de demain, p. 317.
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A modo de conclusão
Em p imei o luga , chama a a enção como, em seus p imei os empos, o
Islã expandiu-se a a és da o ça mili a , enquan o o pode polí ico apoi-
a a-se na é. Pa adoxalmen e, no Ma ocos do século XX, como em
ou os países do Mag eb, oco eu o con á io: oi a é que a o eceu o
pode . Nes e país, como no es o do mundo islâmico, o Co ão oi o
g ande impulso das a i idades educa i as egulamen adas, ensina e
di undi a eligião islâmica ca ac e iza am-se como duas a i idades
ine en es ao Islã.
Uma das pos u as mais di undidas en e os muçulmanos oi aquela
de endida po Ibn Khaldun, quando a i ma a que “Na casa dos muçul-
manos, a ciência po excelência é a da eligião”.47 A pessoa que adqui e
conhecimen os enob ece sua alma, o sabe é conside ado mais um be-
ne ício mo al que in elec ual. Ainda mais, pa a mui os, a educação de
uma pessoa em início ao nasce , quando seu pai lhe eci a a o ação
adhan48 em um ou ido e a igamah 49 no ou o, pa a que es as pala as
sag adas sejam as p imei as que escu e. As di iculdades que algumas
ciências encon am con as am com o luga p e e encial concedido ao
di ei o, especialmen e nos e e imos à impo ância que, desde o século
XIII, alcançou o di ei o maleki a no no e da Á ica.
As escolas co ânicas muda am mui o pouco ao longo dos sécu-
los. Sua me odologia, disciplina e didá ica pa ecem não muda com o
passa do empo. A lei u a li e al do Co ão se une a um conse ado ismo
que alcança an o o âmbi o pedagógico como o social. 50
Du an e o pe íodo p é-colonial, a ques ão escola encon a a-se
o a dos in e esses do Makhzen. Independen emen e de ques ões pon u-
ais, ais como as ajudas concedidas à Uni e sidade Qua aouiyine, a imensa
maio ia dos cen os escola es i ia à cus a da gene osidade dos muçul-
manos com o una, e não da adminis ação pública. Ensina a-se a le e a
47 Ibn Khaldun, Muqaddimah, Pa is: Imp ime ie Impé iale (1863-1868), . I, p. 37.
48 Chamado que se az desde as mesqui as pa a con oca aos iéis pa a a o ação.
49 É o segundo chamado pa a a o ação, ei o logo após o início des a.
50 Abdella i Felk, “Con ibu ion à une analyse des appo s en e le champ socio-cul u el e le
sys ème d’enseignemen dans le Ma oc p écolonial”, A ad is, n. 7 (1984), p. 18.
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esc e e o Co ão, e as demais ciências gi a am em o no de uma espécie
de eologia do Co ão. Enquan o isso, anceses e espanhóis explo a am
as iquezas ma oquinas com o consen imen o do Makhzen.
Não gos a íamos de conclui sem essal a como a população
au óc one, de ca á e eminen emen e ag opecuá io, insubo dinada ao
sul ão, echaça a e ao mesmo empo consen ia e e a cúmplice das po-
ências eu opeias. An es da chegada da no a o dem de i ada do P o e-
o ado, no Ma ocos não exis ia uma o ganização municipal como se
conhece a ualmen e, sal o na cidade de Fez, onde se con a a com de-
e minados se iços municipais. Habi ualmen e, as cidades es u u a am-
se em ês bai os: a kasba,51 a medina, ou cidade p op iamen e di a, e o
mel-lah, ou bai o heb eu. Assim, p a icamen e a o alidade dos se i-
ços u banos e a man ida com os bens do habús. O ensino, a jus iça, a
bene icência e, na u almen e, o cul o eligioso e am sus en ados econo-
micamen e pelo habús a a és das endas de i adas dos seus bens.
Quando acon eceu a in asão colonial ancesa e espanhola no
Ma ocos, es e e i ó io encon a a-se dominado po ibos i ais en e
si. O sis ema escola ca ac e iza a-se po sua elação com o Islã e pelas
eno mes desigualdades en e as egiões, po oados e esidências u ais.
Não conheceu e o ma alguma ao longo dos séculos, ao con á io, se-
guia uncionando al e qual Ibn Khaldun o ha ia desc i o no século
XIV. O es opiado, insu icien e e dispe so sis ema escola não e a mais
que a imagem da si uação polí ica semi eudal exis en e, a que, de uma
o ma ou de ou a, o Makhzen inha subme ido g ande pa e das ibos.
O an iquado ensino exis en e encon a a-se imp egnado pela eligião
muçulmana e dis anciado de qualque indício de e o ma, con udo, es a
si uação p edispunha a c iação de ou os ipos de ensinos, como o
is aeli a e o eu opeu pa a os es angei os.52 Nes e conglome ado
educa i o, podia-se dis ingui ês ipos de ensino: o ensino o iginal ou
islâmico, o is aeli a e o eu opeu.
51 An igo bai o adminis a i o e mili a cons i uído po uas es ei as e i egula es.
52 Tendo em con a que, já em 1674, os missioná ios anciscanos espanhóis inham c iado uma
escola em Fez onde minis a am uma educação elemen a compa ibilizando-a com uma ação
ca ólica. José Ma ía López, “T adición hispano-escola en Ma uecos”, Re is a P og eso, n.
1 (1934), p. 5.
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A plu alidade de in e esses en e ibos e con a ias, exis en e em
ins do século XIX, aumen ou a congêni a debilidade do sul ana o, o -
nando-o al o das po ências es angei as. Na Con enção In e nacional
de Mad i (1880) oi concedido ao Ma ocos o a amen o de nação mais
a o ecida. Decisão e o çada com a A a de Algeci as (7 de ab il de
1906), cujo p eâmbulo a i ma
a o dem, a paz e a p ospe idade não eina ão no Ma ocos se não hou-
e e o mas baseadas sob e o íplice p incípio da sobe ania do sul ão,
da in eg idade des es es ados [signa á ios] e da libe dade econômica
sem nenhuma i egula idade.
Nas páginas pos e io es da a a, ou o ga-se às po ências es an-
gei as o di ei o de in e i nos assun os in e io es do Ma ocos. Com o
ad en o das po ências es angei as,53 e a adicional conco ência dos
pode es de ca á e eudal si uados no Ma ocos, oi ainda mais o e-
men e omen ada uma polí ica dominada pela con usão, que a e ou ne-
ga i amen e um sis ema educa i o já em cla a eg essão e es ancamen o,
incluindo a p es igiada Uni e sidade Qua aouiyine.54
Uma ez i mado o T a ado de Fez, a F ança acabou com a di e -
sidade de pode es locais e ins au ou o P o e o ado, pondo im à si ua-
ção an e io e iniciando um pe íodo colonial quando subs i ui ia ce o
g au de con usão no sis ema de ensino. Con udo, nem de den o nem de
o a do sis ema educa i o, as au o idades me opoli anas desen ol e-
am em sua colônia uma democ a ização libe al, al e qual exis ia na III
República, mas se dedica am, sob e udo, a “p o ege ”, em bene ício
p óp io, os ma oquinos.
Conco damos com o sociólogo ancês Émile Du kheim, quando
analisando as bases da es abilidade social, chama a a enção pa a a es-
53 F ança e I ália assinam um aco do espei ando a mú ua libe dade de ação no Ma ocos e
T ipoli ânia. F ança e Ingla e a aco dam (em 06 de ab il de 1904) não in e e i nas ações da
Ingla e a no Egi o e da F ança no Ma ocos. Mais a de, em 03 de ou ub o de 1904, a Espa-
nha ade e a es e aco do, acili ando a pos e io assina u a do T a ado do P o e o ado F ancês
(em Fez, em 30 de ma ço de 1912). F ança e Alemanha aco dam, em 04 de no emb o de
1911, a libe dade de ação pa a a F ança no Ma ocos e pa a Alemanha no Congo.
54 Abdallah La oui, Les o igines sociales e cul u elles du na ionalisme ma ocain (1830-1912),
Pa is: Edi F ançois Máspe o, 1977, pp. 191-2.
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ei a elação en e educação e sociedade. Pa a ele, a a és da educação
se p oduz uma in eg ação do indi íduo na sociedade, de modo que es e
ende a ep oduzi as es u u as sociais exis en es. Assim, a sociedade,
po meio da imposição de alguns modelos, pau as de compo amen o e
alo es assegu a a sua con inuidade e pe pe ua ce a homogeneidade
en e as ge ações.55 Além disso, conside amos a eligião como um com-
ponen e essencial da ida social, a a és da qual a p óp ia sociedade
di iniza a si mesma.
Tex o ecebido em 20/08/2010 e ap o ado em 13/12/2010
Resumo
No Ma ocos, como no es o do mundo muçulmano, o Islã oi o g ande p omo-
o de a i idades educa i as egulamen adas. Du an e o pe íodo p é-colonial,
as escolas não e am in e essan es pa a Makhzen. Pa a além de ques ões especí-
icas, ais como auxílio à Uni e sidade Qua aouiyine, a g ande maio ia das
escolas i ia da gene osidade dos muçulmanos icos e da adminis ação públi-
ca. Os alunos o am ensinados a le e esc e e o Co ão. Toda a ciência gi a a
em o no de uma espécie de eologia do Co ão. Enquan o isso, as escolas ju-
daicas e eu opeias o am desen ol idas, enquan o os colonizado es anceses
e espanhóis explo a am as iquezas ma oquinas com o consen imen o do
Makhzen.
Pala as-cha e: Islã - Ma ocos - escola - p é-colonial - Co ão
Abs ac
In Mo occo, as elsewhe e in he Muslim wo ld, Islam was he g ea p omo e
o educa ional ac i i ies in schools. Du ing he p ecolonial pe iod, he school
issue was no in e esan o he Makhzen (poli ical powe ). Apa om speci ic
issues such as aids o he Qua aouiyine Uni e si y, he majo i y o schools
li ed o he gene osi y o Muslims wi h o une and Public Adminis a ion. I
was augh o ead and w i e he Ko an and he o he sciences had also i s
o igin in he Ko an. Meanwhile, Jewish and Eu opean schools we e de eloped,
while F ench and Spanish colonize s exploi ed Mo occan esou ces wi h he
consen o Makhzen.
Keywo ds: Islam - Mo occo - school - p ecolonial - Ko an
55 Emile Du kheim, Educa ion e sociologie, Pa is: PUF, 1966, p. 190.
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