scieee Science in your language
[pt] (orig)

“Não sem (o) norte”: a Amazônia colonial na recente seara historiográfica (1990-2020)

Abstract

O Estado do Maranhão e Grão-Pará compôs, de 1621 a 1772, junto com o Estado do Brasil,a América Portuguesa. Durante muito tempo, considerada umacolôniaperiféricae precária, ahistoriografia recente atentaàs especificidades da formação histórica da região,enquanto fronteira estratégicacom diversos grupos populacionais em intensa interação e mobilidade, com ênfase nos conhecimentos e agenciamentosdosindígenas.

Read accessible full text

“Não sem (o) norte”: a Amazônia colonial na recente seara historiográfica (1990-2020)

Author: Heinz Arenz, Karl
Publisher: Universidad de Sevilla
Year: 2021
DOI: 10.12795/Temas-Americanistas.2021.i47.03
Source: https://idus.us.es/bitstreams/a6d76f09-cbf1-400b-bd80-beef7e7f7d26/download
Ka l Heinz A enz
“Não sem (o) no e”: a Amazônia colonial na ecen e sea a
his o iog á ica (1990-2020)
Dossie
His o ia del B asil colonial: de las aíces his ó icas
al p oceso de concienciación y c isis (siglos XVI-XIX)
Núme o 47, diciemb e 2021, pp. 21-44
DOI: h ps://dx.doi.o g/10.12795/Temas-Ame icanis as.2021.i47.03
21
“NÃO SEM (O) NORTE”: A AMAZÔNIA COLONIAL NA RECENTE SEARA
HISTORIOGRÁFICA (1990-2020)
“NOT WITHOUT THE NORTH”: THE COLONIAL AMAZON IN RECENT
HISOTORIOGRAPHY (1990-2020)
Ka l Heinz A enz
Uni e sidade Fede al do Pa á
ORCID: 0000-0001-9500-3666
Resumo: O Es ado do Ma anhão e G ão-Pa á compôs, de 1621 a 1772, jun o com o Es ado
do B asil, a Amé ica Po uguesa. Du an e mui o empo, conside ada uma colônia pe i é ica
e p ecá ia, a his o iog a ia ecen e a en a às especi icidades da o mação his ó ica da egião,
enquan o on ei a es a égica com di e sos g upos populacionais em in ensa in e ação e
mobilidade, com ên ase nos conhecimen os e agenciamen os dos indígenas.
Pala as-cha e: Amazônia, indígenas, mobilidade
Abs ac : The S a e o Ma anhão and G ão-Pa á composed, om 1621 o 1772, oge he
wi h he S a e o B azil, Po uguese Ame ica. Long ime, seen as a pe iphe al and p eca ious
colony, ecen his o iog aphy pays a en ion o he speci ici ies o he egion’s his o ical
o ma ion, as a s a egic on ie wi h di e se popula ion g oups in in ense in e ac ion and
mobili y, wi h emphasis on he knowledge and agency o he indigenous peoples.
Keywo ds: Amazon, indigenous, mobili y
Ka l Heinz A enz
“Não sem (o) no e”: a Amazônia colonial na ecen e sea a
his o iog á ica (1990-2020)
Dossie
His o ia del B asil colonial: de las aíces his ó icas
al p oceso de concienciación y c isis (siglos XVI-XIX)
Núme o 47, diciemb e 2021, pp. 21-44
DOI: h ps://dx.doi.o g/10.12795/Temas-Ame icanis as.2021.i47.03
22
In odução
Na maio ia dos abalhos his o iog á icos sob e o B asil-Colônia, o No e não se
enquad a de o ma e iden e nos sis emas explica i os es abelecidos. Po isso, du an e mui o
empo, a egião oi a ada – ce amen e, não sem azão – como um caso à pa e, ao pon o de
pa ece uma exceção à adicional sequência a gumen a i a embasada no sis ema de
plan a ion ou no modelo cíclico dos p incipais commodi ies coloniais.
1
Po isso, já no início
da esc i a de uma his ó ia nacional, na década de 1830, a egião amazônica oi pouco
con emplada, pois as p imei as abo dagens ocaliza am na aixa li o ânea dos a uais
No des e e Sudes e.
2
Na segunda me ade do século XIX, a supos a al a de inse ção do No e
no conjun o nacional a é oi conside ada como esul ado de uma polí ica acassada de
desen ol imen o, aplicada numa egião pouco ou não explo ada, embo a de en o a de
imensas po encialidades econômicas.
3
Além disso, a co en e aciológica do Oi ocen os ez
com que as populações indígenas e mes iças da Amazônia, amplamen e majo i á ias na
egião, ossem comumen e designadas de “sil ícolas”, “inci ilizados”, “insolen es” ou
“p eguiçosos”. Po sinal, nesse clima in elec ual, no qual p edomina am as eo ias
pseudocien í icas que classi ica am os po os na i os como sociedades p imi i as, o esc i o
e jo nalis a pa aense José Ve íssimo é um dos p imei os a des aca o papel his ó ico de índios
e mes iços na o mação socioeconômica e cul u al de sua egião na al.
4
His o iado es e e nólogos es o ça am-se, a pa i dos anos 1940, pa a isa a
ele ância da Amazônia na cons ução do conjun o nacional. Os impac os da economia da
bo acha e dos in es imen os do go e no a guis a in lec i am nes a i ada his o iog á ica
1
As p incipais ob as de e e ência ace ca do B asil colonial, an o as “clássicas” como as mais ecen es, a am
a egião amazônica de o ma pon ual. Ve , en e ou os, Caio P ado J ., His ó ia econômica do B asil (São
Paulo: Ed. B asiliense, 1945); Fe nando An ônio No ais, Po ugal e B asil na c ise do An igo Sis ema Colonial
(1777-1808) (São Paulo: Hui ec, 1979); João F agoso, Ma ia Fe nanda Bicalho e Ma ia de Fá ima Gou êa
(o gs), O An igo Regime nos ópicos: a dinâmica impe ial po uguesa (século XVI-XVIII) (Rio de Janei o:
Ci ilização B asilei a, 2001); João F agoso e Ma ia de Fá ima Gou êa (o gs.), O B asil Colonial, 3 ols. (Rio
de Janei o: Ci ilização B asilei a, 2014).
2
F ancisco Adolpho de Va nhagen, His ó ia Ge al do B azil, Vol. 2 (Rio de Janei o/Mad i: E. e H.
Laemme /Imp ensa J. del Rio, 1857); Re is a do Ins i u o His ó ico e Geog á ico B asilei o (Rio de Janei o:
Ins i u o His ó ico e Geog á ico B asilei o, desde 1839). Acesso à coleção comple a do IHGB pelo si e:
h ps://www.ihgb.o g.b /publicacoes/a qui o- ihgb.h ml.
3
José Ve íssimo, “As populações indigenas e mes iças da Amazonia: sua linguagem, suas c enças e seus
cos umes,” Re is a do Ins i u o His ó ico e Geog á ico, L/1, (Rio de Janei o, 1887), pp. 295-390; João
F ancisco Lisboa, Ob as de João F ancisco Lisboa, Vol. 3 (São Luís: Typ. de B. de Ma os, 1865/1866); João
Lúcio de Aze edo, Os jesuí as no G ão-Pa á: suas missões e a colonização (Lisboa: Edi o a Ta a es Ca doso
& I mão, 1901).
4
José Ve íssimo, “As populações indigenas e mes iças da Amazonia”, pp. 297-320.
Ka l Heinz A enz
“Não sem (o) no e”: a Amazônia colonial na ecen e sea a
his o iog á ica (1990-2020)
Dossie
His o ia del B asil colonial: de las aíces his ó icas
al p oceso de concienciación y c isis (siglos XVI-XIX)
Núme o 47, diciemb e 2021, pp. 21-44
DOI: h ps://dx.doi.o g/10.12795/Temas-Ame icanis as.2021.i47.03
23
que ei indicou, implici amen e, a “quase-igualdade” do No e com as demais egiões do
país. Des a ei a, o polí ico amazonense A hu Céza Fe ei a Reis seguiu um iés polí ico-
adminis a i o, abo dando, em suas ob as, a a uação dos colonizado es po ugueses no ale
amazônico com ce o a ã posi i is a.
5
No en an o, a no a ó ica de cunho mais “iguali á io” não conseguiu subs i ui a
imagem de uma egião subdesen ol ida. Es a se pe cebe ainda nas p imei as e nog a ias
ace ca da ida co idiana e, embo a menos, da o mação his ó ica dos ibei inhos amazônicos.
Os an opólogos Edua do Gal ão e Cha les Wagley pesquisa am es a população
ma ginalizada numa ípica cidade in e io ana à ma gem do io Amazonas. Mesmo supe ando
uma esc i a de endência aciológica, suas densas desc ições deixam anspa ece ce a
nos algia ao po meno iza um uni e so u al que é is o como p es es a sucumbi an e o
a anço, supos amen e ine i á el, do “p og esso”.
6
Poucos anos depois, Celso Fu ado dá,
con o me a pe spec i a binômica da elação cen o-pe i e ia, ce a a enção ao No e na sua
análise sob e a o mação econômica do B asil.
7
Es a isão de uma egião em si uação de
ex emo subdesen ol imen o exógeno, esul ado do p ocesso de colonização, p edominou,
nas décadas 1960 a 1980, nas pesquisas ealizadas, em sua maio ia, nas á eas de economia,
sociologia e an opologia.
Fo am his o iado es no e-ame icanos que, no in ui o de comp eende melho os
impac os da colonização nas populações na i as da Amazônia, a en a am an o às
peculia idades é nico-sociais quan o às disposições ju ídico-adminis a i as. Assim, Ma hias
Kiemen, Da id Swee e John Hemming en oca am, a pa i de ângulos e em décadas
di e en es, os es o ços de inse i os indígenas no sis ema colonial median e egulamen os
legais e in e e ências iolen as.
8
5
A hu Céza Fe ei a Reis, A polí ica de Po ugal no alle amazônico (2ª ed.; Belém: SECULT, 1993).
Re e en e ao au o e suas ob as, e ambém Hélio Dan as, A hu Céza Fe ei a Reis: aje ó ia in elec ual
e esc i a da His ó ia (Jundiaí: Paco Edi o ial, 2015).
6
Edua do Gal ão, San os e isagens: um es udo da ida eligiosa de I á, Amazonas (São Paulo: Companhia
Edi o a Nacional, 1955); Cha les Wagley, Uma comunidade amazônica: es udo do homem nos ópicos (São
Paulo: Companhia Edi o a Nacional, 1957).
7
Celso Fu ado, Fo mação econômica do B asil (Rio de Janei o: Fundo de Cul u a, 1959). Inclusi e, o ópico
16 da ob a é dedicado a “O Ma anhão e a alsa eu o ia do im da época colonial”.
8
Ma hias Cha les Kiemen, The Indian policy o Po ugal in he Amazon egion, 1614–1693 (Washing on:
The Ca holic Uni e si y o Ame ica P ess, 1954); Da id G aham Swee , “A ich ealm o na u e des oyed:
The middle Amazon alley, 1640-1750” ( ese de dou o ado, Uni e si y o Wisconsin, Madison, 1974); John
Hemming Amazon F on ie : The de ea o he B azilian Indians (London: Macmillan, 1987).
Ka l Heinz A enz
“Não sem (o) no e”: a Amazônia colonial na ecen e sea a
his o iog á ica (1990-2020)
Dossie
His o ia del B asil colonial: de las aíces his ó icas
al p oceso de concienciación y c isis (siglos XVI-XIX)
Núme o 47, diciemb e 2021, pp. 21-44
DOI: h ps://dx.doi.o g/10.12795/Temas-Ame icanis as.2021.i47.03
24
Já no B asil, desde o inal dos anos 1980, den o do con ex o de um in e esse
c escen e pela his ó ia dos po os indígenas, á ias publicações ocaliza am ambém nas
populações na i as da Amazônia colonial numa pe spec i a ainda p edominan emen e
binômica. Assim, o an opólogo An onio Po o esc e eu sob e o po oamen o e a cul u a dos
indígenas que, nos séculos XVII e XVIII, i e am nos al o e médio cu sos do io Amazonas,
ab indo o caminho pa a a e nohis ó ia.
9
Na mesma época, o an opólogo Ca los de A aújo
Mo ei a Ne o en ou explica a c escen e disc iminação e in isibilização dos índios da
Amazônia desde a implemen ação das medidas ci iliza ó ias de Pombal em meados do
Se ecen os.
10
Alguns anos depois, já na década de 1990, a cole ânea de Manuela Ca nei o da
Cunha sob e os índios no B asil o nou-se uma e e ência pa a a No a His ó ia Indígena. A
ob a se des aca pela p eponde ância de con ibuições sob e a Amazônia, seja p é-colonial,
colonial ou pós-colonial.
11
En im, no embalo da Teologia da Libe ação que, naqueles anos,
es a a no seu auge, oi publicada uma cole ânea sob e a His ó ia da Ig eja na Amazônia, que
ambém con empla amplamen e a época colonial du an e a qual os eligiosos e am agen es
ulc ais.
12
É com esse mesmo in e esse em e isi a as expe iências coloniais, com os indígenas
como p o agonis as, que se iniciou, a pa i de 1990 ap oxima i amen e, uma no a sea a
his o iog á ica sob e a egião que, po con eniência, se começou en ão a designa de
Amazônia colonial. Ao mesmo empo, em mui as uni e sidades egionais e nacionais,
cu sos, o núme o de pesquisas e e en os ela i os ao pe íodo colonial do No e aumen ou
signi ica i amen e. Pa a isso con ibuí am não somen e polí icas públicas que acili a am o
acesso à academia, sob e udo o ing esso em ecém-c iados p og amas de pós-g aduação,
mas ambém uma maio acessibilidade às on es. Es as o am, num p imei o momen o,
disponibilizadas po meio de supo es ele ônicos (CDs) e, depois, median e a digi alização
de ace os a qui ís icos in ei os. O P oje o Resga e oi, nesse sen ido, uma inicia i a de
9
Di e sos abalhos do au o , esc i os nos anos 1980, o am jun ados em um olume único. Ve An onio Po o,
O po o das águas: ensaios de e no-his ó ia amazônica (São Paulo/Pe ópolis: EDUSP/Vozes, 1996).
10
Ca los de A aújo Mo ei a Ne o, Índios da Amazônia: de maio ia a mino ia (1750-1850) (Pe ópolis: Vozes,
1988).
11
Manuela Ca nei o da Cunha (o g.), His ó ia dos Índios no B asil (São Paulo: Companhia das Le as, 1992),
pp. 175-378.
12
Edua do Hoo nae (coo d.), His ó ia da Ig eja na Amazônia (Pe ópolis: Vozes/CEHILA, 1992), pp. 11-
261.
Ka l Heinz A enz
“Não sem (o) no e”: a Amazônia colonial na ecen e sea a
his o iog á ica (1990-2020)
Dossie
His o ia del B asil colonial: de las aíces his ó icas
al p oceso de concienciación y c isis (siglos XVI-XIX)
Núme o 47, diciemb e 2021, pp. 21-44
DOI: h ps://dx.doi.o g/10.12795/Temas-Ame icanis as.2021.i47.03
25
suma impo ância, pois sis ema izou as on es coloniais do A qui o His ó ico Ul ama ino
em Lisboa.
13
Além disso, a epublicação, espec i amen e, em 1990 e em 2004, de duas ul osas
on es missioná ias mos ou se ele an e pa a a pesquisa his o iog á ica. A p imei a é a
c ônica do pad e luxembu guês João Felipe Be endo , edigida no inal do século XVII,
poucos anos an es de sua mo e. A segunda é compos a po a ados esc i os po seu con ade
po uguês João Daniel, nos anos 1760 e 1770. Embo a ambas as ob as i essem sido
publicadas an e io men e pelo Ins i u o His ó ico e Geog á ico B asilei o, as no as edições
são as mais ci adas em p a icamen e odos os abalhos sob e a época colonial p oduzidos
nos úl imos anos.
14
O obje i o do p esen e a igo é, pois, conhece o complexo polied o do de i da
sociedade colonial al como anspa ece na ecen e e pujan e his o iog a ia amazônica. Es a
se dema cou, no deco e dos ês úl imos decênios, po pesquisas ocalizadas no nexo
inex icá el en e dois uni e sos sociais, econômicos e simbólicos ão di e en es quan o o
luso-ba oco e o(s) indígena-xamânico(s).
15
Po isso, não é su p eenden e que a pe spec i a
da His ó ia Conec ada e, den e dela, da No a His ó ia Indígena, pe passa quase odas as
in es igações ecen es, con ibuindo a issu a ês luga es-comuns que êm sido o jados
pelas his o iog a ias an e io es de acen uado ca á e binômico. Es es luga es-comuns
conce nem às on es, conside adas como e sões unila e ais dos colonizado es, aos espaços,
eduzidos à exube an e lo es a opical, e, en im, aos sujei os, enquad ados em ca ego ias
hie á quicas e é nicas ixas. Re omando, em seguida, es es luga es-comuns, co ejá-los-emos
com as no as pis as his o iog á icas.
13
A documen ação e e en e à Amazônia es á di idida en e as seções Pa á (1616-1833) e Ma anhão (1614-
1833), disponí eis no si e: h p:// esga e.bn.b /. Ve , ambém, Caio Césa Boschi, “P oje o Resga e: his ó ia e
a qui ís ica (1982-2014),” Re is a B asilei a de His ó ia, 38/78, (São Paulo, 2018), pp. 187-208.
14
João Felipe Be endo , C ônica dos Pad es da Companhia de Jesus no Es ado do Ma anhão (Belém:
Fundação Cul u al do Pa á Tanc edo Ne es/Sec e a ia de Es ado de Cul u a, 1990); João Daniel, Tesou o
descobe o no máximo io Amazonas (1757-1776), 2 ols. (Rio de Janei o/Belém: Con apon o/P e ei u a da
Cidade de Belém, 2004).
15
Quan o a conciso balanço his o iog á ico ecen e, e Ra ael Chambouley on e Pablo Ibáñez-Bonillo,
“Colonial Amazon,” Ox o d Recea ch Encyclopedia – La in Ame ican His o y (26 ab . 2019), pp. 1-29.
Disponí el em: h ps://ox o d e.com/la iname icanhis o y.

Ka l Heinz A enz
“Não sem (o) no e”: a Amazônia colonial na ecen e sea a
his o iog á ica (1990-2020)
Dossie
His o ia del B asil colonial: de las aíces his ó icas
al p oceso de concienciación y c isis (siglos XVI-XIX)
Núme o 47, diciemb e 2021, pp. 21-44
DOI: h ps://dx.doi.o g/10.12795/Temas-Ame icanis as.2021.i47.03
26
His ó ias conec adas
De a o, a sea a his o iog á ica ecen e sob e a Amazônia colonial es á inculada a
uma i ada na esc i a da His ó ia que emon a à década de 1980. Segundo F ançois Ha og,
a pesquisa his o iog á ica, des elando-se da ixação posi i is a e ma xis a no P og esso,
passou de uma isão p ospec i a pa a uma e ospec i a, in e essando-se em “aba ca o
caminho pe co ido, pa a comp eende onde ínhamos chegado e po quê”.
16
Assim, ambém
no caso da Amazônia colonial, es e caminho não es á sendo mais exclusi amen e pesquisado
como um aje o supos amen e p e açado, a pa i do anseio do desen ol imen o capi alis a
de g ande en e gadu a ou de uma abso ção comple a po um conjun o de a o es
hegemônicos, mas numa ó ica a en a à complexidade das elações sociocul u ais e à
di e sidade das a i idades socioeconômicas no passado. As in es igações ecen es ão,
po an o, pa a além das mac oca ego ias ixas (classe, sociedade, “ aça” ou me cado)
enquan o balizas he menêu icas, dando p io idade a concepções e con ex os mais p osaicos,
ou seja, menos in oluc ados em ideologias.
Também segundo Geo g Igge s, passou-se, com os gi os cul u al e linguís ico dos
anos 1980 e 1990, “de uma análise mac ossocial anônima e de um p ocesso mac ohis ó ico
umo a uma a enção sob e di e en es aspec os mac ohis ó icos ex aídos da ida co idiana
de homens no mais”.
17
Nes a linha se insc e e a his o y om below (“his ó ia is a de
baixo”), concei o o mulado po Jim Sha pe, com base em Edmund Thompson. Es a
endência es á sendo amplamen e ope acionalizada nas pesquisas ecen es ace ca do passado
dos po os indígenas e adicionais (quilombolas e ibei inhas) da egião amazônica,
enquan o “um meio pa a ein eg a sua his ó ia aos g upos sociais que podem e pensado
ê-la pe dido, ou não inham conhecimen o de sua his ó ia”.
18
Es e “olha de baixo” pe mi e pe cebe no as conexões en e agen es his ó icos. No
en an o, esc e e uma his ó ia conec ada sob e os dois séculos de colonização po uguesa na
16
F ançois Ha og, Regimes de his o icidade: p esen ismo e expe iências do empo (Belo Ho izon e: Au ên ica
Edi o a, 2013), p. 179.
17
Geo g Igge s, “Desa ios do século XXI à his o iog a ia,” His ó ia da His o iog a ia, 4, (Ou o P e o, 2010),
p. 108.
18
Jim Sha pe, “A his ó ia is a de baixo,” A esc i a da His ó ia: no as pe spec i as, o g. Pe e Bu ke, ad.
Magda Lopes (São Paulo: Edunesp, 1992), p. 59.
Ka l Heinz A enz
“Não sem (o) no e”: a Amazônia colonial na ecen e sea a
his o iog á ica (1990-2020)
Dossie
His o ia del B asil colonial: de las aíces his ó icas
al p oceso de concienciación y c isis (siglos XVI-XIX)
Núme o 47, diciemb e 2021, pp. 21-44
DOI: h ps://dx.doi.o g/10.12795/Temas-Ame icanis as.2021.i47.03
27
egião amazônica (1616-1822) é uma emp ei ada ambígua.
19
De um lado, a a e a pode
pa ece simples, po que as di e sas conexões en e os mundos do colonizado e do
colonizado são bem documen adas em um ul oso e a iado co pus de on es, do a an e bem
acessí eis (leis, consul as e ela ó ios de adminis ado es, c ônicas e ca a-ânuas de
eligiosos ou desc ições de iajan es). Esses documen os às ezes a é pe mi em ou i , em
suas linhas e en elinhas, a oz dos indígenas, o maio e mais impo an e con ingen e
populacional du an e odo o pe íodo colonial. Mas, de ou o lado, a a e a ambém demons a
se complexa, pois as pesquisas são ealizadas num campo de ensões en e a descons ução
do discu so colonial e a cons ução de uma na a i a que, sem ela i iza as condições
assimé icas ine en es à lógica colonial, a en a às múl iplas econ igu ações, adap ações e
mediações en e os di e sos sujei os. O g ande p oblema que se põe pa a o his o iado que
p ocu a esc e e uma his ó ia conec ada do pe íodo colonial com seus (des)encon os de
uni e sos cul u ais di e en es, é, apesa das p e ensões e planos o mulados pelos
colonizado es, a ausência de uma comp eensão mú ua e plenamen e compa í el en e os
agen es en ol idos. O desa io é, sob e udo, en ende de idamen e o in icado jogo de
in e esses de cada um.
20
As mudanças his o iog á icas e e be a am p o undamen e na His ó ia Indígena.
John Manuel Mon ei o, Ma ia Regina Celes ino de Almeida e Manuela Ca nei o da Cunha,
en e ou os, apon am, em suas ob as, pa a a econ igu ação das iden idades e modos de ida
dos indígenas du an e o pe íodo colonial”, azendo, inclusi e, e e ências às expe iências
amazônicas.
21
Mon ei o isa que as on es, sob e udo, “os ela os dos missioná ios abundam
em de alhes, não apenas ace ca das pe manências, mas ambém no que ange às
19
Quan o à a i mação de a esc i a da His ó ica Conec ada se ambígua, is o é simples e complexa, e Jean-
Louis Ma golin e Claude Ma ko i s, Les Indes e l’Eu ope: his oi es connec ées XVe-XXIe siècle (Pa is:
Gallima d, 2015), p. 744.
20
No caso da his o iog a ia amazônica, a ampli ude dos in e esses dos di e en es agen es sociais ica ób ia em
ecen es p oduções cole i as. Ve Dossiê “O A lân ico equa o ial”, o gs. Pa ícia Melo Sampaio e Mau o Ceza
Coelho, Re is a His ó ia (USP), 168, (São Paulo, 2013); Ra ael Chambouley on e José Al es de Souza Junio
(o gs.), No os olha es sob e a Amazônia colonial (Belém: Paka-Ta u, 2016).
21
John Manuel Mon ei o, “Tupis, apuias e his o iado es: es udos de His ó ia Indígena e do Indigenismo” ( ese
de li e docência, Depa amen o de An opologia, Uni e sidade Es adual de Campinas, Campinas, 2001); John
Manuel Mon ei o. Neg os da e a: índios e bandei an es nas o igens de São Paulo (São Paulo: Companhia
das Le as, 1994); Ma ia Regina Celes ino de Almeida. Me amo oses indígenas: iden idade e cul u a nas
aldeias coloniais do Rio de Janei o. Rio de Janei o: A qui o Nacional, 2003; ALMEIDA, Ma ia Regina
Celes ino de. Os índios na His ó ia do B asil. Rio de Janei o: FGV, 2010; Manuela Ca nei o da Cunha,
His ó ia dos Índios no B asil.
Ka l Heinz A enz
“Não sem (o) no e”: a Amazônia colonial na ecen e sea a
his o iog á ica (1990-2020)
Dossie
His o ia del B asil colonial: de las aíces his ó icas
al p oceso de concienciación y c isis (siglos XVI-XIX)
Núme o 47, diciemb e 2021, pp. 21-44
DOI: h ps://dx.doi.o g/10.12795/Temas-Ame icanis as.2021.i47.03
28
e o mulações do uni e so social e simbólico indígena, abalado pelas epidemias, pelos
deslocamen os espaciais e pela imposição da cosmologia c is ã”.
22
A onip esença dos sujei os indígenas é, como já apon amos, um aspec o que
ca ac e iza as on es coloniais edigidas na e sob e a egião amazônica. Es e a o se e le e
na his o iog a ia que, nos úl imas anos, se do ou de um pe il mul i elacional no que ange
aos po os o iginá ios. Mas, a dinâmica das His ó ias Conec adas ai mais longe, pois as
pesquisas es endem-se ambém à mac o egião pan-amazônica e ao espaço a lân ico,
a en ando às amplas edes de ci culação, o mais e in o mais, nas quais o Ma anhão e G ão-
Pa á es a a inse ido.
23
Além disso, desde os anos 1990, análises e in e p e ações
a queológicas es ão ganhando um in e esse c escen e na e lexão his o iog á ica. Os
abalhos de Anna Cu enius Roose el , Edua do Góes Ne es, Denise Schaan são a des aca
nesse sen ido.
24
Es a pe spec i a in e disciplina signi ica a inclusão da chamada p é-his ó ia
na his ó ia da egião amazônica e o econhecimen o de es ígios ma e iais como on es
ele an es pa a comp eendê-la mais a undo.
Fon es plu í ocas
Quan o às on es his ó icas p op iamen e di as, elas são di e sas, mas os esc i os
missioná ios ocupam um luga cen al.
25
Sob e udo duas ob as maio es, já e ocadas acima,
me ecem se a e iguadas de pe o, pelo a o de es a em en e as mais ci adas nas pesquisas
ecen es. A p imei a, a C ônica dos Pad es da Companhia de Jesus no Es ado do Ma anhão,
da au o ia de João Felipe Be endo ,
26
o e ece um amplo pano ama da colonização no
22
MONTEIRO, Tupis, apuias e his o iado es, p. 71.
23
Ve Dossiê “Amazônia e His ó ia global”, o gs. Ald in Figuei edo, Ra ael Chambouley on e José Luís Ruiz
Peinado-Alonso, Re is a Tempo, 23 (3), (Ni e ói: se .-dez. 2017).
24
Anna Cu enius Roose el , “The Amazon and he An h opocene: 13,000 Yea s o Human In luence in a
T opical Rain o es ,” An h opocene, 4, (Ams e dã, 2013), pp. 69-87; Edua do Góes Ne es, A queologia da
Amazônia (Rio de Janei o: Jo ge Zaha Edi o , 2006); Denise Schaan, “The Camu ins Chie dom: Rise and
De elopmen o Social Complexi y on Ma ajó Island, B azilian Amazon” ( ese de dou o ado, Uni e si y o
Pi sbu gh, 2004).
25
Quan o à esc i a jesuí ica nos séculos XVII e XVIII, e Célia C is ina da Sil a Ta a es, A esc i a jesuí ica
da his ó ia das missões no Es ado do Ma anhão e G ão-Pa á (século XVII), Ac as do Cong esso In e nacional
“Espaço A lân ico de An igo Regime: pode es e sociedades”, Lisboa, 2-5 no . 2005 (Lisboa: Faculdade de
Ciências Sociais e Humanas/Uni e sidade No a de Lisboa, 2005), pp. 1-9. Disponí el em: h p://c c.ins i u o-
camoes.p /eaa /coloquio/comunicacoes/celia_ a a es.pd .
26
Re e en e à aje ó ia de Be endo , e Ka l Heinz A enz, “Do Alze e ao Amazonas: ida e ob a do pad e
João Felipe Be endo (1625-1698),” Re is a Es udos Amazônicos, 5 (1), (Belém, 2010), pp. 25-78.
Ka l Heinz A enz
“Não sem (o) no e”: a Amazônia colonial na ecen e sea a
his o iog á ica (1990-2020)
Dossie
His o ia del B asil colonial: de las aíces his ó icas
al p oceso de concienciación y c isis (siglos XVI-XIX)
Núme o 47, diciemb e 2021, pp. 21-44
DOI: h ps://dx.doi.o g/10.12795/Temas-Ame icanis as.2021.i47.03
29
Seiscen os, is o a mul iplicidade de assun os a ados e e ocados nesse p ocesso.
27
Como
ou os documen os jesuí icos, ambém o o iginal des a c ônica oi, com mui a p obabilidade,
con iscado e le ado pa a Po ugal no con ex o da expulsão da Companhia de Jesus em 1759-
1760. José Honó io Rod igues p essupõe que o manusc i o se enha pe dido após 1854,
quando o poe a e e nóg a o ma anhense An ônio Gonçal es Dias (1823-1864) es a a
azendo le an amen os e copiando documen os ele an es em a qui os po ugueses,
enquan o in eg an e da Comissão Cien í ica de Explo ação en iada pelo go e no impe ial.
28
A p imei a e são imp essa da c ônica de Be endo oi publicada pelo Ins i u o
His ó ico e Geog á ico B asilei o (IHGB) em 1910, com base na cópia ei a po Gonçal es
Dias con o me a es a o p e ácio anônimo.
29
Es a e são oi, em seguida, po ês ezes
eedi ada; p imei amen e, em 1990, como ac-símile da edição do IHGB, pela Sec e a ia de
Cul u a do Es ado do Pa á – o exempla mais ci ado nas pesquisas – e, depois, pelas edi o as
É ica e do Senado Fede al, espec i amen e, em 2008 e 2010.
30
Es es a os demons am a
demanda po es a ob a his ó ica nas ês úl imas décadas.
O segundo esc i o, os a ados do ambém jesuí a João Daniel, in i ulados Tesou o
descobe o no máximo io Amazonas,
31
e e uma aje ó ia não menos complexa. Em 1757,
o au o , após dezesse e anos na egião amazônica, oi depo ado pa a a me ópole, onde icou
enca ce ado a é o seu alecimen o em 1776. Na p isão, Daniel edigiu es a ob a peculia que
di e e do pad ão de uma c ônica clássica. Embo a abo dasse ce os assun os no es ilo
edi ican e ípico dos missioná ios, o ca á e “na u alis a” p edomina cla amen e. De ce a
o ma, os a ados de Daniel assemelham-se aos esc i os de iajan es da segunda me ade do
27
João Felipe Be endo , C ônica dos Pad es da Companhia de Jesus no Es ado do Ma anhão. Be endo
é ambém au o de cinquen a e ês ca as o iciais edigidas em la im. T ês o am aduzidas e publicadas po
Ka l Heinz A enz, duas em po uguês e uma em ancês: Ka l Heinz A enz, “Une le e du pè e Jean-Philippe
Be endo de la Mission jésui e en Amazonie,” Hémech – Re ue d’His oi e luxembou geoise, 59,
(Luxembu go, 2007), pp. 273-308; “Agonia da Missão – uína do Es ado uma ca a do Pad e João Felipe
Be endo (1674),” Re is a de Es udos Amazônicos, IV, (Belém, 2009), pp. 145-164; “‘Não Saulos, mas
Paulos’: uma ca a do Pad e João Felipe Be endo da Missão do Ma anhão (1671),” Re is a de His ó ia
(USP), 168, (São Paulo, 2013), pp. 271-322.
28
José Honó io Rod igues, His ó ia da his ó ia do B asil, Vol. 1: His o iog a ia colonial (2ª ed.; São Paulo:
Companhia Edi o a Nacional, 1979), p. 291.
29
João Felipe Be endo , “C ônica dos Pad es da Companhia de Jesus no Es ado do Ma anhão,” Re is a do
Ins i u o His ó ico e Geog á ico, Rio de Janei o, LXXII/1, (Rio de Janei o, 1910), p. VII.
30
A eedição de 1990 já oi ci ada mais acima. Quan o as ou as, e João Felipe Be endo , C ônica dos
Pad es da Companhia de Jesus no Es ado do Ma anhão (Impe a iz: É ica Edi o a, 2008); João Felipe
Be endo , C ônica dos Pad es da Companhia de Jesus no Es ado do Ma anhão (B asília: Edi o a do Senado
Fede al, 2010).
31
João Daniel, Tesou o descobe o no máximo io Amazonas (1757-1776), 2 ols.
Ka l Heinz A enz
“Não sem (o) no e”: a Amazônia colonial na ecen e sea a
his o iog á ica (1990-2020)
Dossie
His o ia del B asil colonial: de las aíces his ó icas
al p oceso de concienciación y c isis (siglos XVI-XIX)
Núme o 47, diciemb e 2021, pp. 21-44
DOI: h ps://dx.doi.o g/10.12795/Temas-Ame icanis as.2021.i47.03
36
ancesa e holandesa ao no e, su gi am no as dinâmicas sociais e econômicas, que os
pesquisado es ca ac e izam como ans on ei iças. Es as dinâmicas impac a am di e amen e
nas edes, o as e ci cui os indígenas adicionais que, em mui os casos, econ igu a am-se,
possibili ando no as alianças, como mos am os es udos de Ca los Bas os, Siméia Lopes e
Adilson Júnio B i o.
58
Já numa pe spec i a mais ampla, F ancisma Alex Lopes de Ca alho
en oca as dinâmicas sociais nas egiões cen ais do con inen e, que incluí am a pa e
ociden al da bacia amazônica co ada pela linha delimi ado a que, ao menos o icialmen e,
sepa ou os domínios das co oas ibé icas.
59
Quan o à on ei a no Cabo No e, en e os a uais
Amapá e Guiana F ancesa, Ra ael Ale Rocha discu e a polí ica po uguesa no início do
século XVIII que isou inse i es e espaço de cons an e li ígio “em um con ex o impe ial”.
60
Rosa Ace edo e Flá io Gomes, como ambém Pablo Ibáñez-Bonillo e Ka l A enz, apon am
a on ei a luso- ancesa na Amazônia como zona de in enso ânsi o de pessoas e p odu os,
con o me as an agens que, dependendo das ci cuns âncias, um ou ou o lado o e ecia.
61
Os e mos “se ão”, “ on ei a” ou “in e io ”, conjugados com o concei o da
mobilidade, elucidam a dimensão social e, no caso dos indígenas, ambém simbólico dos
espaços amazônicos – e isso, desde bem an es da chegada dos eu opeus.
62
Ado ando es a
pe spec i a, as pesquisas ecen es di e em, assim, da his o iog a ia an eceden e que endeu
a es aca p incipalmen e o exo ismo ou a exube ância do espaço amazônico.
63
58
Ca los Augus o Bas os e Siméia de Naza é Lopes, “Come cio, con lic os y alianzas en la on e a luso-
española: capi anía de Río Neg o y p o íncia de Maynas, 1780-1820,” P ocesos – Re is a Ecua o iana de
His o ia, 41, (Qui o, jan.-jun. 2015), pp. 83-108; Adilson Júnio Ishiha a B i o, “Insubo dinados se ões: o
Impé io po uguês en e gue as e on ei as no no e da Amé ica do Sul – Es ado do G ão-Pa á, 1750-1820”
( ese de dou o ado, Depa amen o de His ó ia, Uni e sidade de São Paulo, 2016); Ca los Augus o Bas os e
Adilson B i o (eds.), En e ex emos: expe iências on ei iças e ans on ei iças nas egiões do io Amazonas
e do io da P a a – Amé ica La ina, séculos XVI-XX (Cu i iba: Edi o a CRV, 2018).
59
F ancisma Alex Lopes de Ca alho, Lealdades negociadas: po os indígenas e a expansão dos impé ios
ibé icos nas egiões cen ais da Amé ica do Sul (segunda me ade do século XVIII) (São Paulo:
Alameda/FAPESP, 2014).
60
Ra ael Ale Rocha, “‘Domínio’ e ‘posse’: as on ei as coloniais de Po ugal e F ança no Cabo No e (p imei a
me ade do século XVIII),” Tempo, 23 (3), (Ni e ói, 2017), pp. 528–545.
61
Rosa Elizabe h Ace edo Ma in e Flá io Gomes, “Recon igu ações coloniais: á ico de indígenas, ugi i os
e on ei as no G ão-Pa á e Guiana F ancesa (séculos XVII e XVIII),” Re is a de His ó ia (USP), 149, (São
Paulo, 2003), pp. 69-107; Pablo Ibáñez-Bonillo e Ka l Heinz A enz, “Uma co espondência ans on ei iça na
Amazônia colonial: a ca a do jesuí a Louis de Ville e de Caiena a seu con ade José Lopes em Belém (1733),”
Re is a His ó ia Unisinos, 23 (1), (São Leopoldo, jan.-ab . 2019), pp. 117-123.
62
Re e en e às múl iplas in e e ências humanas no ambien e na u al an es da chegada dos eu opeus, e
Cha les R. Clemen , Michael J. Heckenbe ge , Edua do G. Ne es e al., “The domes ica ion o Amazonia
be o e Eu opean conques ,” P oceedings o he Royal Socie y B, 282 (20150813), (Lond es, 2015), pp. 1-9.
Disponí el em: h ps:// oyalsocie ypublishing.o g/doi/ ull/10.1098/ spb.2015.0813.
63
Ve Neide Gondim, A in enção da Amazônia (São Paulo: Ma co Ze o, 1994).

Ka l Heinz A enz
“Não sem (o) no e”: a Amazônia colonial na ecen e sea a
his o iog á ica (1990-2020)
Dossie
His o ia del B asil colonial: de las aíces his ó icas
al p oceso de concienciación y c isis (siglos XVI-XIX)
Núme o 47, diciemb e 2021, pp. 21-44
DOI: h ps://dx.doi.o g/10.12795/Temas-Ame icanis as.2021.i47.03
37
Sujei os in e agen es
Os encon os e con a os oco idos no se ão e no li o al implica am sujei os mui o
he e ogêneos. Po con eniência, a his o iog a ia eco eu – e ainda eco e –, a e mos
gené icos e engloban es, como índios, missioná ios ou colonos, no in ui o de ca ego iza os
p incipais g upos de agen es en ol idos ou conce nidos. Mas, nos úl imos anos, os
pesquisado es es ão mais a en os às peculia idades de de e minados indi íduos e g upos,
isando e i a uma nomencla u a demasiadamen e ge al ou exônimos não mais ap op iados.
Obse a-se, assim, uma di e enciação mais cuidadosa quan o às pa icula idades dos po os
indígenas ou das o dens eligiosas, mas ambém dos mo ado es, mili a es e adminis ado es.
Não obs an e, a elação en e indígenas colonizados e eu opeus colonizado es con inua no
oco da g ande maio ia dos abalhos his o iog á icos mais ecen es; ce amen e menos numa
pe spec i a binômica, como apon ado mais acima, mas com maio a enção aos múl iplos
modos de mediação e negociação, sem ela i iza o ca á e assimé ico dos ínculos sociais.
Quan o às análises ace ca aos indígenas e suas complexas agências no empo
colonial, podemos des aca as seguin es endências. Pa a começa , no que ange aos
chamados “p imei os con a os”, as pesquisas mais no as se enquad am no campo da
e nohis ó ia, como a ese de Pablo Ibáñez-Bonillo sob e o complexo quad o socioé ncio em
o no do p ocesso da conquis a lusa do es uá io do io Amazonas ou o a igo de Ma k Ha is
sob e ela os de con a os no Quinhen os, em cujas en elinhas se pe cebem indícios de como
“supe a sepa ações cul u ais”.
64
Em seguida, a expe iência missioná ia que pôs g upos indígenas em con a o di e o
com di e sas o dens eligiosas con inua ocupando um luga cen al na his o iog a ia ecen e.
Esse a o não de e su p eende , is o que os aldeamen os es abelecidos pelos missioná ios
o am luga es p opícios pa a encon os e desencon os que impac a am nos ho izon es
simbólicos e nas p á icas sociocul u ais dos agen es en ol idos, an o indígenas quan o
pad es. C is ina Pompa ealça que “os es udos ealizados nos úl imos anos que en ocam as
elações en e índios e missioná ios êm p i ilegiando em suas abo dagens o olha his ó ico
64
Pablo Ibáñez-Bonillo, “La conquis a po uguesa del es ua io amazónico: iden idad, gue a, on e a (1662-
1654)” ( ese de dou o ado, Uni e sidad Pablo de Ola ide/Uni e si y o S . And ews, Se ilha, 2015); Ma k
Ha is, “Re isi ing i s con ac s on he Amazon 1500-1562,” Re is a Tempo, 23 (3), (Ni e ói, se .-dez. 2017),
pp. 509-527.
Ka l Heinz A enz
“Não sem (o) no e”: a Amazônia colonial na ecen e sea a
his o iog á ica (1990-2020)
Dossie
His o ia del B asil colonial: de las aíces his ó icas
al p oceso de concienciación y c isis (siglos XVI-XIX)
Núme o 47, diciemb e 2021, pp. 21-44
DOI: h ps://dx.doi.o g/10.12795/Temas-Ame icanis as.2021.i47.03
38
e a análise p ocessual como ins umen o me odológico”. Mais adian e, a an opóloga insis e
que, na análise das ações missioná ias e ( e)ações indígenas, “é p eciso acompanha , na
longa ou na b e e du ação, a dinâmica do encon o-choque en e ho izon es simbólicos
di e sos e a cons ução de no os uni e sos de signi icados ‘negociados’”.
65
Nes e sen ido, dian e da complexidade do ambien e in e cul u al engend ada pelos
encon os en e indígenas e eligiosos, o concei o da mediação cul u al, p opos o po Paula
Mon e o, o nou-se um ins umen o cen al de análise. Mediação ai além dos e mos
adicionais de explicação, como acul u ação, assimilação, sinc e ismo ou hib idismo, e dá
mais ealce ao “jogo con ingen e” das elações sociais e simbólicas de ca á e p ocessual e
ecíp oco. Uma lei u a nas en elinhas das on es missioná ias pe mi e, a é ce o g au,
comp eende como se p oduziu a c escen e “con e gência de ho izon es simbólicos” no
con í io de indígenas e eligiosos. Di e en e do adicional bina ismo an agônico “nós-eles”,
o concei o da mediação cul u al ocaliza nos múl iplos “códigos compa ilhados” que
pe mi em pensa o “ou o” e aze e en uais aco dos com ele. Assim, no caso dos índios, a
in e ação esul ou, a pa i de elemen os omen ados pelos missioná ios, em uma
( e)signi icação dos modos de ida adicionais e, ambém, da p óp ia iden idade é nica.
66
Des a e, o ambien e das missões oi p openso pa a o su gimen o dos chamados “índios
c is ãos”. Almi Diniz de Ca alho Júnio dá ên ase ao papel mediado dos neo-c is ãos
indígenas no p ocesso de con o mação da sociedade colonial amazônica,
67
cujos
descenden es são, em g ande pa e, os ibei inhos a uais.
No que se e e e às di e en es o dens e seus agenciamen os na Amazônia colonial,
B eno Machado dos San os e Ka l A enz analisam a ma can e a uação dos jesuí as den o da
complexa essi u a socioé nica da colônia.
68
O úl imo au o apon a a polêmica ace ca da
Companhia de Jesus que, du an e décadas, ma cou a his o iog a ia amazônica, endo
engend ado ês co en es: um p ó-jesuí ico, de cla o eo apologé ico; ou o an i-jesuí ico,
65
C is ina Pompa, “Pa a uma an opologia his ó ica das missões”, Deus na aldeia: missioná ios, índios e
mediação cul u al, o g. Paula Mon e o (São Paulo: Globo, 2006), p. 112.
66
Paula Mon e o, “Missioná ios, índios e mediação cul u al”, Deus na aldeia: missioná ios, índios e mediação
cul u al, o g. Paula Mon e o (São Paulo: Globo, 2006), pp. 9-29.
67
Almi Diniz de Ca alho Júnio , Índios c is ãos: pode , magia e eligião na Amazônia colonial (Cu i iba:
Edi o a CRV, 2017).
68
B eno Machado dos San os, Os jesuí as no Ma anhão e G ão-Pa á seiscen is a: uma análise sob e os
esc i os dos p o agonis as da Missão (Jundiaí: Paco Edi o ial, 2015); Ka l Heinz A enz, “Além das dou inas
e o inas: índios e missioná ios nos aldeamen os jesuí icos da Amazônia po uguesa (séculos XVII e XVIII),”
Re is a His ó ia e Cul u a, 3 (2), (F anca, 2014), pp. 63-88.
Ka l Heinz A enz
“Não sem (o) no e”: a Amazônia colonial na ecen e sea a
his o iog á ica (1990-2020)
Dossie
His o ia del B asil colonial: de las aíces his ó icas
al p oceso de concienciación y c isis (siglos XVI-XIX)
Núme o 47, diciemb e 2021, pp. 21-44
DOI: h ps://dx.doi.o g/10.12795/Temas-Ame icanis as.2021.i47.03
39
de cunho posi i is a; en im, um úl imo que, inspi ado pela Teologia da Libe ação, di e encia
en e uma supos a ase p o é ica e ou a “emp esa ial”.
69
Robe a Lobão Ca alho examinou a polêmica que a p esença da Companhia de
Jesus p o ocou en e os mo ado es, oscilando en e con on os abe os e coni ências
áci as.
70
Já ou os au o es de am a enção às o dens a é en ão pouco abalhadas pela
his o iog a ia, como Robe o Zahlu h de Ca alho Júnio sob e os anciscanos de San o
An ônio, conhecidos como “capuchos”, e os ca meli as, e F ede ik Luizi And ade de Ma os
sob e os anciscanos da Piedade.
71
Ra ael Chambouley on, Ra ael Ale Rocha e José Al es
de Souza Júnio abo dam a ede das missões, mais amplamen e, sob o p isma de seus
impac os na sociedade e na economia coloniais.
72
Além dos missioná ios, os desdob amen os das au o idades, an o na co e quan o na
colônia, pa a in eg a os indígenas no sis ema colonial es ão sendo, cada ez mais,
a e iguados. Um iés impo an e, nesse sen ido, é a análise c í ica da legislação que isou
egulamen a o s a us, a aquisição, os ipos, os p azos e as condições de abalho, como
ambém as medidas de “ci ilização” dos indígenas.
73
Assim, Ri a Heloísa de Almeida,
Ângela Domingues, Pa ícia Melo Sampaio [Al es de Melo] e Mau o Coelho analisa am o
Di e ó io dos Índios, p omulgado em 1757, sob o oco das dinâmicas sociais que as en a i as
69
A enz, “Além das dou inas e o inas”, pp. 64-65.
70
Robe a Lobão Ca alho, “‘A uina do Ma anhão’: a cons ução do discu so an ijesuí ico na Amazônia
po uguesa (1705-1759)” ( ese de dou o ado, P og ama de Pós-g aduação em His ó ia Social da Amazônia,
Uni e sidade Fede al do Pa á, Belém, 2018).
71
Robe o Zahlu h de Ca alho J ., “Espí i os inquie os e o gulhosos: os ades capuchos na Amazônia joanina
(1706-1751)” (disse ação de mes ado, P og ama de Pós-g aduação em His ó ia Social da Amazônia,
Uni e sidade Fede al do Pa á, Belém 2009); Robe o Zahlu h de Ca alho J ., “‘Domina homens e ozes’:
missioná ios ca meli as no Es ado do Ma anhão e G ão-Pa á (1686-1757)” ( ese de dou o ado, P og ama de
Pós-g aduação em His ó ia, Uni e sidade Fede al da Bahia, Sal ado , 2015); F ede ik Luizi And ade de Ma os,
“Os ‘F ades del Rei’ nos se ões amazônicos: os capuchos da Piedade na Amazônia colonial (1693-1759)”
(disse ação de mes ado, P og ama de Pós-g aduação em His ó ia Social da Amazônia, Uni e sidade Fede al
do Pa á, Belém, 2014).
72
Ra ael Chambouley on, “Os jesuí as e o ‘aumen o e conse ação’ do Es ado do Ma anhão e Pa á (século
XVII),” Clio – Sé ie Re is a de Pesquisa His ó ica, 27 (1), (Reci e, 2009), pp. 76-104; Ra ael Ale Rocha,
“Aldeamen os missioná ios no Es ado do Ma anhão e G ão-Pa á (1700-1750),” Re is a Habi us, 17 (2),
(Goiânia, jul.-dez. 2019), pp. 379-393; José Al es de Souza Junio , T amas do co idiano: eligião, polí ica,
gue a e negócios no G ão-Pa á do Se ecen os (Belém: ed.u pa, 2012).
73
Bea iz Pe one-Moisés, “Índios li es e índios esc a os: os p incípios da legislação indigenis a colonial
(séculos XVI a XVIII),” His ó ia dos índios no B asil, o g. Manuela Ca nei o da Cunha (São Paulo:
Companhia das Le as, 1992), pp. 115–132; Ma ia Eliane Al es de Souza e Mello, “O Regimen o das Missões:
pode e negociação na Amazônia Po uguesa,” Clio – Re is a de Pesquisa His ó ica, 27 (1), (Reci e, 2009),
pp. 48-55.
Ka l Heinz A enz
“Não sem (o) no e”: a Amazônia colonial na ecen e sea a
his o iog á ica (1990-2020)
Dossie
His o ia del B asil colonial: de las aíces his ó icas
al p oceso de concienciación y c isis (siglos XVI-XIX)
Núme o 47, diciemb e 2021, pp. 21-44
DOI: h ps://dx.doi.o g/10.12795/Temas-Ame icanis as.2021.i47.03
40
de eg a o a elamen o dos índios ao p oje o colonial-ci ilizado engend a am, a en ando
an o às esis ências quan o às negociações.
74
A aquisição de índios enquan o mão de ob a ão necessá ia pa a os di e sos
emp eendimen os coloniais es á no cen o de pesquisas que examinam as di e en es
expedições pa a o in e io (descimen os, esga es e gue as jus as). Assim, Ba ba a Somme ,
Massimo Li i Bacci, Fe nanda Bomba di, Camila Lou ei o ou Dysson Teles, des acam as
p á icas ealizadas legal ou ilegalmen e du an e es as campanhas, apon ando os agen es
en ol idos de o ma di e a, como os cunhamenas e capi ães, e indi e a, como ce os
adminis ado es.
75
Nes e con ex o, a ques ão da esc a idão dos indígenas, o icialmen e
condicionada po ce os c i é ios ilosó ico-ju ídicos, é um assun o cen al.
76
O mesmo ale
pa a aquela in ligida, de o ma indisc iminada, aos esc a izados a icanos, cuja p esença na
egião – embo a menos exp essi a, na época colonial, do que em ou as á eas da Amé ica
lusa – ganhou isibilidade po meio de es udos ecen es, como os de Flá io Gomes ace ca
dos mocambos es abelecidos po esc a os ugidos e esis en es no no e do Pa á.
77
Es e pe il de uma sociedade colonial al amen e dependen e da in eg ação dos
abalhado es indígenas e a icanos, como ambém dos modos de sua aquisição, se e le e
em dois campos essenciais da ida pública: a adminis ação e a economia. Cien es des a
dependência, go e nado es, con a ado es, p o edo es, ou ido es, capi ães, além de
e eado es e mo ado es no á eis, conco e am, em mui os casos, numa ama de ace badas
74
Ri a Heloísa de Almeida, O Di e ó io dos Índios: um p oje o de ci ilização no B asil do século XVIII
(B asília: Ed. UnB, 1997); Ângela Domingues, Quando os índios e am assalos: colonização e elações de
pode no no e do B asil na segunda me ade do século XVIII (Lisboa: CNCDP, 2000); Pa ícia Melo Sampaio,
Espelhos pa idos: e nia, legislação e desigualdade na colônia (Manaus: EdUA, 2012); Mau o Ceza Coelho,
Do Se ão pa a o Ma : um es udo sob e a Expe iência Po uguesa na Amé ica – o caso do Di e ó io dos
Índios (1750-1798) (São Paulo: Edi o a Li a ia da Física, 2016).
75
Ba ba a Somme , “Colony o he Se ão: Amazonian Expedi ions and he Indian Sla e T ade,” The Ame icas,
61 (3), (Washing on, 2014), pp. 401-428; Massimo Li i Bacci, “The Depopula ion o Uppe Amazonia in
Colonial Times,” Re is a de Indias, LXXVI (267), (Mad i, 2016), pp. 419–448; Fe nanda Ai es Bomba di,
“Pelos in e s ícios do olha do colonizado : descimen os de índios no Es ado do Ma anhão e G ão-Pa á (1680–
1750)” (disse ação de mes ado, Uni e sidade de São Paulo, 2014); Camila Lou ei o Dias, “L’Amazonie a an
Pombal: poli ique, économie, e i oi e” ( ese de dou o ado, Ecole des Hau es E udes en Sciences Sociales,
Pa is, 2014); Dysson Teles Al es, “O empo dos égulos do se ão: o con abando de índios na Amazônia
Po uguesa (1700-1750)” ( ese de dou o ado, Uni e sidade Fede al do Pa á, Belém, 2017).
76
Camila Lou ei o Dias, “Os índios, a Amazônia e os concei os de esc a idão e libe dade,” Es udos A ançados,
33 (97), (São Paulo, 2019), pp. 235-253.
77
Fla io dos San os Gomes, “A ‘Sa e Ha en’: Runaway Sla es, Mocambos, and Bo de s in Colonial
Amazonia, B azil,” Hispanic Ame ican His o ical Re iew, 82 (3), (Du ham, 2002), pp 469-498; Fla io dos
San os Gomes, “E nogénesis en las on e as en e B asil, Su inam y Guayana F ancesa, siglos XVII–XX: más
ap oximaciones,” An í eses, 4 (8), (Lond ina: 2011), pp. 631–644
Ka l Heinz A enz
“Não sem (o) no e”: a Amazônia colonial na ecen e sea a
his o iog á ica (1990-2020)
Dossie
His o ia del B asil colonial: de las aíces his ó icas
al p oceso de concienciación y c isis (siglos XVI-XIX)
Núme o 47, diciemb e 2021, pp. 21-44
DOI: h ps://dx.doi.o g/10.12795/Temas-Ame icanis as.2021.i47.03
41
compe ências po in luência, con o me mos am os abalhos de Ma cia Mello, Fabiano
Vilaça, Raimundo das Ne es Ne o e Vinícius Zúniga.
78
Também as í imas da Inquisição,
p o indas de odas as classes sociais e condições é nicas, es ão susci ando in e esse, pelo
a o de e ela em as múl iplas men alidades e he e odoxias igen es naquela sociedade
dis an e da me ópole.
79
Quan o à economia, es udos ecen es de Ra ael Chambouley on e idenciam, com
a enção aos di e en es agen es en ol idos, que a Amazônia não e a uma colônia ão p ecá ia
com uma p odução quase unicamen e cen ada na cole a de d ogas do se ão, como se
p esumia a é ecen emen e.
80
Alí io Ca doso mos a, que, já no início do século XVII, ha ia
en a i as da Co oa de implemen a na Amazônia uma “economia de on ei a”
di e si icada, isando ans e i pa a a egião as expe iências da p odução açuca ei a no
B asil e da explo ação de especia ias na Índia
81
. Mais a de, pa alelo ao ex a i ismo,
emp eendimen os ag ícolas de po e maio o am implan ados, sob e udo em sesma ias em
o no das p incipais cidades, Belém e São Luís. Pesquisas, ei as a pa i de egis os
come ciais, a qui ados na To e do Tombo em Lisboa, apon am que o cacau – an o o
“b a o”, cole ado no se ão, quan o o “manso”, cul i ado nas azendas – oi uma das
commodi ies mais en á eis, sendo come cializada em mui os países da Eu opa. De ce a
o ma, a egião amazônica desen ol eu, nas azendas e aldeamen os, um ca á e u al sui
gene is com uma conjugação das dinâmicas ex a i a e ag ícola.
82
Quan o ao abas ecimen o
78
Má cia Eliane Al es de Souza Mello, Fé e impé io: as Jun as das Missões nas conquis as po uguesas
(Manaus: EdUA, 2009), pp. 241-321; Fabiano Vilaça dos San os, O go e no das conquis as do No e:
aje ó ias adminis a i as no Es ado do G ão-Pa á e Ma anhão (1751-1780) (São Paulo: Annablume, 2011);
Raimundo Mo ei a das Ne es Ne o, “Em aumen o de minha azenda e do bem desses assalos”: a co oa,
a azenda eal e os con a ado es na Amazônia colonial (séculos XVII e XVIII) (Jundiaí: Paco Edi o ial, 2019);
Vinícius Zúniga de Melo. “Os di e o es de po oações: se iços e ansg essões no G ão-Pa á do Di e ó io dos
Índios (1757-1798)” (disse ação de mes ado, Uni e sidade Fede al do Pa á, Belém, 2016).
79
Yllan de Ma os. A úl ima Inquisição: os meios de ação e uncionamen o do San o O ício no G ão-Pa á
pombalino (1750-1773) (Jundiaí: Paco Edi o ial, 2012); Leila Al es de Ca alho, “Os Cade nos do P omo o :
O T ibunal do San o O ício no Ma anhão e G ão-Pa á (1640-1750)” (disse ação de mes ado, Uni e sidade
Fede al do Pa á, Belém, 2018).
80
Ra ael Chambouley on, Po oamen o, ocupação e ag icul u a na Amazônia colonial (1640-1706) (Belém:
Açaí, 2010), Ra ael Chambouley on, “Cacao, Ba k-clo e and Ag icul u e in he Po uguese Amazon Region,
Se en een h and Ea ly Eigh een h Cen u y,” Luso-B azilian Re iew, 51 (1), (Madison: 2014), pp. 1-35
81
Alí io Ca doso, “A conquis a do Ma anhão e as dispu as a lân icas na geopolí ica da União Ibé ica (1596-
1626),” Re is a B asilei a de His ó ia, 31 (61), (São Paulo, 2011), pp. 317-338; Alí io Ca doso, “Especia ias
na Amazônia po uguesa: ci culação ege al a lân ico no inal da mona quia hispânica,” Re is a Tempo, 21
(27), (Ni e ói, jun. 2015), pp. 116-133.
82
Ra ael Chambouley on, Ka l Heinz A enz e Vanice Siquei a de Melo, “Ru alidades indígenas na Amazônia
colonial,” Bole im do Museu Pa aense Emílio Goeldi – Ciências Humanas, 15 (1), (Belém, 2020), pp.1-22
[e20190027]; Ra ael Chambouley on e Ka l Heinz A enz, “Amazonian A lan ic: Cacao, Colonial Expansion

Ka l Heinz A enz
“Não sem (o) no e”: a Amazônia colonial na ecen e sea a
his o iog á ica (1990-2020)
Dossie
His o ia del B asil colonial: de las aíces his ó icas
al p oceso de concienciación y c isis (siglos XVI-XIX)
Núme o 47, diciemb e 2021, pp. 21-44
DOI: h ps://dx.doi.o g/10.12795/Temas-Ame icanis as.2021.i47.03
42
in e no, abalhos ecen es ealçam, com oco na impo ância da mão de ob a indígena, a
p odução de a inha de mandioca, o alimen o-cha e da egião, e a de peixe e sal, não menos
ele an es pa a o sus en o da população.
83
Além das a iadas o mas de inco po ação dos indígenas na sociedade e economia
egionais, as ans o mações que as p á icas coloniais p o oca am na demog a ia e nas
es u u as sociais de di e sos g upos indígenas, susci am o in e esse de pesquisado es. Fo a
as consequências desas osas das epidemias que a ingi am quase odos os g upos e po os
o iginá ios,
84
a o mação de no as hie a quias e a a iculação de polí icas indígenas,
median e adap ação e/ou negociação das lide anças adicionais, es ão sendo apon adas em
abalhos ecen es.
85
Ou os impac os analisados são os complexos p ocessos de
mes içagens, desde os p imó dios da colonização,
86
e a ampla di usão da Língua Ge al do
onco linguís ico upi.
87
A p esença c escen e de mes iços de ma iz indígena e a
and Indigenous Labou in he Po uguese Amazon Region (Se en een h and Eigh een h Cen u ies),” Jou nal
o La in Ame ican S udies, 53, (Camb idge, 2021), pp. 221-244.
83
Robe o Bo ges da C uz, “Fa inha de ‘pau’ e de ‘gue a’: os usos da a inha de mandioca no ex emo
No e (1722-1759)” (disse ação de mes ado inédi a, P og ama de Pós-g aduação em His ó ia Social da
Amazônia, Uni e sidade Fede al do Pa á, Belém, 2011); Ma ina Hung ia Nob e, “‘Pa a o go e no de sal e
ainhas e de índios’: as salinas e o pesquei o eal no Es ado do Ma anhão e Pa á (1640-1750)” (disse ação de
mes ado inédi a, P og ama de Pós-g aduação em His ó ia Social da Amazônia, Uni e sidade Fede al do Pa á,
Belém, 2017).
84
An ônio O a iano Viei a Júnio e Robe a Sauaia Ma ins, “Epidemia de sa ampo e abalho esc a o no
G ão-Pa á (1748-1778),” Re is a B asilei a de Es udos de População, 32 (2), (Rio de Janei o, mai.-ago. 2015),
pp. 293-311; Ra ael Chambouley on, Benedi o Cos a Ba bosa, Fe nanda Ai es Bomba di e Cláudia Rocha de
Sousa, “‘Fo midá el con ágio’: epidemias, abalho e ec u amen o na Amazônia colonial (1660-1750),”
His ó ia, Ciências, Saúde – Manguinhos, 18 (4), (Rio de Janei o, ou .-dez. 2011), pp. 987-1004.
85
Ra ael Rogé io Nascimen o dos San os, “Diz o índio ,,,”: polí icas indígenas no Vale Amazônico (1777-
1798) (Jundiaí: Paco Edi o ial, 2019); Ma cel Rolim da Sil a, “A colonização do mo ubixaba: a cons ução do
p incipala o indígena na Amazônia colonial (séculos XVII e XVIII)” (disse ação de mes ado, P og ama de
Pós-g aduação em His ó ia Social da Amazônia, Uni e sidade Fede al do Pa á, Belém, 2019); Da lan Rod igo
Sb ana, “A galha da iguei a b anca e o ca alho: al o ece do Ma anhão colonial a pa i das ep esen ações
a espei o dos che es upinambás (1603-1619)” (disse ação de mes ado, P og ama de Pós-g aduação em
His ó ia, Uni e sidade Fede al do Ma anhão, São Luís, 2017); Ra ael Ale Rocha, “A eli e mili a no Es ado do
Ma anhão: pode , hie a quia e comunidades indígenas (século XVII)” ( ese de dou o ado, Depa amen o de
His ó ia, Uni e sidade Fede al Fluminense, Ni e ói, 2013); Ra ael Ale Rocha, “Os índios o iciais na Amazônia
pombalina,” Temas Se ecen is as: go e nos e populações no Impé io Po uguês, o gs. And éa Do é e An onio
Cesa de Almeida San os (Cu i iba: UFPR/Fundação A auacá ia, 2008), pp. 95-107.
86
Ra ael Chambouley on e Ka l Heinz A enz, “‘Indiens ou Noi s, lib es ou escla es’: a ail e mé issage en
Amazonie po ugaise (XVIIe e XVIIIe siècles),” Ca a elle, 107, (Toulouse, 2016), pp. 15-29; Décio de
Alenca Guzmán, “Índios mis u ados, caboclos e cu ibocas: análise his ó ica de um p ocesso de mes içagem,
Rio Neg o (B asil, séculos XVIII e XIX),” Sociedades caboclas amazônicas: mode nidade e in isibilidade,
o gs. C is ina Adams, Rui Mu ie a e Wal e Ne es (São Paulo: Annablume, 2006), pp. 67-80.
87
Gab iel de Cassio Pinhei o P uden e, “En e índios e e be es: a polí ica linguís ica na Amazônia po uguesa
e a p odução de dicioná ios em língua ge al po jesuí as cen o-eu opeus (1720-1759)” (disse ação de mes ado
inédi a, P og ama de Pós-g aduação em His ó ia Social da Amazônia, Uni e sidade Fede al do Pa á, Belém,
2017); Cândida Ba os e Ru h Ma ia Monse a , “Fon es manusc i as sob e a Língua Ge al da Amazônia
Ka l Heinz A enz
“Não sem (o) no e”: a Amazônia colonial na ecen e sea a
his o iog á ica (1990-2020)
Dossie
His o ia del B asil colonial: de las aíces his ó icas
al p oceso de concienciación y c isis (siglos XVI-XIX)
Núme o 47, diciemb e 2021, pp. 21-44
DOI: h ps://dx.doi.o g/10.12795/Temas-Ame icanis as.2021.i47.03
43
pe manência de um idioma indígena sup aé nico, a Língua Ge al, são p o as – uma isí el
e ou a audí el –, da in ensa e in icada in e ação en e índios e eu opeus, além de a icanos,
na Amazônia colonial.
Conside ações inais
Podemos conclui que, den o das no as endências his o iog á icas, a len e de
in es igação sob e a Amazônia colonial é do a an e mul i ocal. Apesa de elações
ma cadamen e assimé icas e on es de eo unila e al, as his o iado as e os his o iado es
es ão lendo c i e iosamen e nas en elinhas, com a enção às complexas edes in e é nicas e,
mais ainda, aos in e esses pa icula es que, o a conco dan es, o a con li an es, conec a am
os di e sos agen es coloniais em seu co idiano. Esses sujei os es ão sendo is os não como
ocupan es de um ambien e labi ín ico e “sel agem”, mas habi an es de um espaço, ao qual
cada g upo implicado conseguiu da , con o me seus in e esses, um de e minado sen ido. Em
azão des as no as pe spec i as, ambém o a cabouço concei ual das pesquisas ganhou um
ca á e mul i ace á io, como indicam os e mos “negociação”, “ econ igu ação” ou
“mediação” que as embasam.
Fo a esse lado eó ico, emos ambém que le a em con a o p á ico. Assim, o acesso
mais di e o às on es po ia digi al, a abe u a de mui as ins i uições e p og amas de
pesquisa, a acilidade maio pa a di ulga e publica os esul ados das in es igações e a
in ensi icação do diálogo in e disciplina , sob e udo com a a queologia, a an opologia e a
linguís ica, deu à Amazônia colonial maio exp essi idade den o dos es udos sob e o B asil-
Colônia e, ambém, den o da His ó ia Global. Es a ex e nação dos deba es conjuga,
in e namen e, com uma c escen e “au oc onização” das pesquisado as e dos pesquisado es.
Se, du an e mui o empo, p edomina am es udiosos de ou as egiões b asilei as ou do
ex e io , ê-se ago a um núme o cada ez maio de in es igado as e in es igado es “da
e a”. De a o, nos úl imos in a anos, a imagem de uma colônia p edominan emen e
exó ica, p ecá ia e pe i é ica empalideceu, deixando anspa ece o quad o de uma sociedade
com agenciamen os e aciocínios p óp ios, o a em icção, o a em negociação, e conec ada
de múl iplas o mas ao mundo em sua ol a.
esc i as po jesuí as ‘ apui inga’ (século XVIII),” Con luência – Re is a do Ins i u o de Língua Po uguesa, 49
(2), (Rio de Janei o: 2015), pp. 236-254; José Ribama Bessa F ei e, Rio Babel: a his ó ia das línguas na
Amazônia (Rio de Janei o: EDUERJ, 2004).