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Princípio compositivo: sobre o seu propósito no processo de projecto arquitectónico

Sena Augusto, Marta Isabel

Abstract

Como se conforma um projecto de arquitectura? Qual é o papel do princípio compositivo no processo de um projecto? Como se deduz um princípio compositivo da problemática projectual? De que modo este princípio organizador da forma, que contém todo o desenvolvimento morfológico potencial, define os elementos que entram na composição, o seu comportamento e a sua relação com os outros elementos?; De que modo contribui para a coerência das partes individuais no todo e fazê-las permanecer dentro da mesma família formal?; como se desenvolve morfologicamente um princípio compositivo até chegar à composição final? e como se avalia e valora um princípio compositivo? Estas são as questões principais abortadas neste ensaio que trata o princípio compositivo dentro do processo de projecto arquitectónico. O objectivo do princípio compositivo é analisado com apoio na analogia da uma composição musical onde o tema principal vem esclarecido e reforçado com as várias variações ao tema que conformam a inteira composição. O sistema de elementos e regras do princípio composicional é comparável às regras e peças de um jogo. O processo de desenvolvimento do princípio compositivo está ligado ao método de tentativa e erro apoiado de importantes principais mecanismos cognitivos como a atenção selectiva. Por último são analisados os critérios de avaliação da adequação do princípio compositivo à problemática projectual.

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|| 173 || RESUMO Como se conforma um projecto de arquitectura? Qual é o papel do princípio compositivo no processo de um projecto? Como se deduz um princípio compositivo da problemática projectual? De que modo este princípio organizador da forma, que contém todo o desenvolvimento morfológico potencial, define os elementos que entram na composição, o seu comportamento e a sua relação com os outros elementos?; De que modo contribui para a coerência das partes individuais no todo e fazê-las permanecer dentro da mesma família formal?; como se desenvolve morfologicamente um princípio compositivo até chegar à composição final? e como se avalia e valora um princípio compositivo? Estas são as questões principais abortadas neste ensaio que trata o princípio compositivo dentro do processo de projecto arquitectónico. O objectivo do princípio compositivo é analisado com apoio PRINCÍPIO COMPOSITIVO: SOBRE O SEU PROPÓSITO NO PROCESSO DE PROJECTO ARQUITECTÓNICO Sena Augusto, Marta Università Roma Tre, Departamento de Arquitectura, Roma, Italia martasenaaugu[email protected] ASTRÁGALO. Cultura de la Arquitectura y de la Ciudad, 30 (2022). ISSNe: 2469-0503 Attribution-NonCommercial-ShareAlike. Article https://dx.doi.org/10.12795/astragalo.2022.i30.10 Received: 06/06/2022 Approved: 09/10/2022 na analogia da uma composição musical onde o tema principal vem esclarecido e reforçado com as várias variações ao tema que conformam a inteira composição. O sistema de elementos e regras do princípio composicional é comparável às regras e peças de um jogo. O processo de desenvolvimento do princípio compositivo está ligado ao método de tentativa e erro apoiado de importantes principais mecanismos cognitivos como a atenção selectiva. Por último são analisados os critérios de avaliação da adequação do princípio compositivo à problemática projectual. Palavras-chave: Princípio compositivo, projecto de arquitectura, composição, abstração, síntese. ABSTRACT How is an architectural project formed? What is the role of the compositional principle in the PRINCÍPIO COMPOSITIVO: SOBRE O SEU PROPÓSITO NO PROCESSO DE PROJECTO ARQUITECTÓNICO 174 || ASTRAGALO Nº 30 | Septiembre, September, Setembro 2022 | article | ISSN 2469-0503 process of a project? How can a compositional principle be deduced from the design problematic? How does this organising principle of form, which contains all the potential morphological development, define the elements that enter into the composition, their behaviour and their relation with the other elements?; how does it contribute to the coherence of the individual parts in the whole and make them remain within the same formal family?; how is a compositional principle developed morphologically until it reaches the final composition? and how is a compositional principle evaluated and valued? These are the main questions addressed in this essay that deals with the compositional principle within the architectural project process. The aim of the compositional principle is analysed using the analogy of a musical composition in which the main theme is clarified and reinforced by the different variations on the theme that make up the whole composition. The system of elements and rules of the compositional principle is comparable to the rules and pieces of a game. The process of developing the compositional principle is linked to trial and error supported by important cognitive mechanisms such as selective attention. Finally, the criteria for evaluating the appropriateness of the compositional principle to the design problem are analysed. Keywords: Compositional principle, architectural project, composition, abstraction, synthesis. RESUMEN ¿Cómo se conforma un proyecto arquitectónico? ¿Cuál es el propósito del princpio compositivo en el proceso de un proyecto? ¿Cómo se puede deducir un principio compositivo de la problemática del proyecto? ¿Cómo define este principio organizador de la forma, que contiene todo el potencial de desarrollo morfológico, los elementos que entran en la composición, su comportamiento y su relación con los demás elementos?; ¿cómo contribuye a la coherencia de las partes individuales en el conjunto y hace que se mantengan dentro de la misma familia formal?; ¿cómo se desarrolla morfológicamente un principio compositivo hasta llegar a la composición final? y ¿cómo se evalúa y valora un principio compositivo? Estas son las principales cuestiones que se abordan en este ensayo que trata del principio compositivo dentro del proceso del proyecto arquitectónico. El objetivo del principio compositivo se analiza utilizando la analogía de una composición musical en la que el tema principal se aclara y se refuerza mediante las distintas variaciones sobre el tema que conforman la totalidad de la composición. El sistema de elementos y reglas del principio compositivo es comparable a las reglas y piezas de un juego. El proceso de desarrollo del principio compositivo está vinculado al método de ensayo y error apoyado por importantes mecanismos cognitivos como la atención selectiva. Por último, se analizan los criterios de evaluación de la adecuación del principio compositivo a la problemática proyectual. Palabras clave: Principio compositivo, proyecto arquitectónico, composición, abstracción, síntesis. Marta Sena Augusto || 175 https://dx.doi.org/10.12795/astragalo.2022.i30.10 INTRODUÇÃO Cada novo projecto coloca o mundo num estado de incompletude resultante de requisitos de várias ordens. Essa incompletude pode ser resolvida através da formulação de uma problemática adequada. Através da pesquisa e organização de dados, a incompletude começa a dar lugar à base teórica da problemática projectual. Essa base teórica dará lugar a premissas e princípios gerais que, através de uma série de encadeamentos lógicos, conduzem a uma nova organização espaço-temporal. Construir uma problemática de projecto não significa apenas identificar necessidades, mas também minimizar os conflitos entre necessidades. No início, o problema pode ser formado a partir dos elementos do lugar ou das partes individuais de um programa funcional, ao qual se acrescentam os fluxos e as relações de ligação entre as várias partes. Em seguida, é realizada uma análise crítica e qualitativa de cada parte do programa no contexto específico do espaçotemporal. As contingências físicas, históricas, culturais, geográficas, etc. e as relações que o projecto irá estabelecer com o seu ambiente são acrescentadas ao problema até que a complexidade da construção deste problema comece a poder ser sintetizada e conceptualizada. Deduzir um princípio compositivo da problemática projectual é uma etapa indispensável do processo de concepção de um projecto de arquitectura. Este processo envolve um profundo conhecimento da problemática de projecto e a visão de uma ideia- -arquétipo que guiará o processo de decisão do princípio compositivo. Toda a exploração morfológica sugerida por uma ideia-arquétipo parte de uma imagem mental que é a representação morfológica das sensações ou percepções que provêm ou são estimuladas pela realidade circundante ou pelo conjunto de memórias que formam algo novo. Encontramos, por exemplo, o arquétipo da cadeira na beira do penhasco em Can Lis de Jørn Utzon em Maiorca. Na Can Liz não há barreiras que nos impeçam de cair do penhasco. A Can Lis não é uma varanda, nem um sofá. É uma cadeira na falésia! Uma cadeira incomoda, das de ferro ou de madeira, porque na Can Lis o penhasco continua a ser penhasco, não foi transformado numa comoda e segura varanda como é suposto ser uma casa (tanto que a família Utzon, quando nasceram os filhos, mudaram-se para a Can Feliz – essa sim uma casa-sofá virada para uma paisagem que escorre para o mar). Também há casas com mais do que um arquétipo como é o caso Farnsworth House de Mies Van Der Rohe, construída nas margens do Rio Fox, num terreno que é frequentemente inundado pelas cheias do rio. Nessa altura a ideia- -arquétipo da casa é uma jangada! mas no resto do tempo o seu arquétipo é uma manta de pic-nic que nos permite habitar no meio da natureza, das arvores, até por cima da neve. Encontramos também arquétipos que são extensões morfológicas do terreno como se o ideal fosse viver ali sem construir, como no caso da Casa Kaufmann de Frank Lloyd Wright na Pensilvânia, que evoca o ideal de viver entre as lajes de pedra da cascata, sendo a casa, morfologicamente, a continuação vertical da cascata. Outro exemplo é a Villa de Curzio Malaparte em Capri, que completa o topo do penhasco, dando-nos a possibilidade de subir até à parte mais alta e viver dentro do penhasco. PRINCÍPIO COMPOSITIVO: SOBRE O SEU PROPÓSITO NO PROCESSO DE PROJECTO ARQUITECTÓNICO 176 || ASTRAGALO Nº 30 | Septiembre, September, Setembro 2022 | article | ISSN 2469-0503 multaneamente à geração de premissas e princípios gerais mediante experiências e observações. Deste modo as hipóteses, mas também as premissas e os dados da problemática projectual são testadas para chegar à solução arquitectónica mais adequada a satisfazer a incompletude inicial. Ao longo do processo, o problema começa literalmente a tomar forma e as imagens mentais dispersas dão lugar a representações gráficas, plásticas e verbais cada vez mais claras. Cada nova decisão implica a revalidação das decisões anteriores num processo de ajustamento em direcção a uma solução inesperada. O processo de projecto é caracterizado pela reflexão dentro da acção é a incerteza sobre o resultado final e a margem de liberdade dentro do sistema de elementos e de regras estabelecidas pelo princípio compositivo que explica, em parte o prazer que o projecto suscita. Nas seguintes páginas iremos aprofundar o papel do princípio compositivo no processo de um projecto; como se deduz um princípio compositivo da problemática proO princípio compositivo é a fórmula que permite a transposição, à realidade, da ideia-arquétipo. Ao contrário do arquétipo que não é gerador de forma, o princípio compositivo é como o DNA do projecto que gera estrutura e corpo. Mas não é nem simples nem imediato deduzir um princípio compositivo dos dados do problema arquitectónico. Há muitos obstáculos cognitivos que dificultam o processo. Deduzir dos dados de um problema um adequado princípio compositivo implica disponibilidade para usar o pensamento crítico, confiança em processos de investigação fundamentados, abertura na avaliação de diferentes visões do mundo, disponibilidade para considerar alternativas e opiniões, objectividade na avaliação do raciocínio, consciência no confronto com os próprios preconceitos ou estereótipos, ponderação na formulação ou modificação dos próprios juízos e a perseverança para reconsiderar e reexaminar todas as decisões projectuais. Quando se explora o princípio compositivo as hipóteses de nova organização espaço-temporal são experimentadas siFig. 1. Maquetas de princípio compositivo de areia (esquerda) e de papel (direita) da Casa do Infinito, Alberto Campo Baeza, Projecto:2012.Construção:2014. Source: © Alberto Campo Baeza Marta Sena Augusto || 177 https://dx.doi.org/10.12795/astragalo.2022.i30.10 jectual; de que modo o princípio compositivo define os elementos formais que entram na composição e as regras de relação e de variação desses elementos; de que modo o princípio compositivo contribui para a coerência e integração das partes individuais no todo; como se processa o desenvolvimento morfológicamente de um princípio compositivo até chegar à composição final e como se avalia o princípio compositivo. Fig. 2. Vista a entrada e terraço da Casa do Infinito, Alberto Campo Baeza, Projecto:2012.Construção:2014. Foto: Javier Callejas. Source: © Alberto Campo Baeza © Javier Callejas A DEDUÇÃO DO PRINCÍPIO COMPOSITIVO: ENTRE A SÍNTESE E A ABSTRACÇÃO A interdependência entre os aspectos do problema, entre problema e solução e o facto de cada decisão afectar a validade de decisões já tomadas, porta-nos a enquadrar o processo de reflexão-acção do projecto de arquitectura no método dedutivo. O verbo “deduzir”, deriva do latim «deducere» (Castiglione et al. 2007, deducere) que combina «de» com «ducere» que significa «conduzir de um sítio a outro», e simultaneamente «subtrair, tirar». Estas duas definições resumem o processo de projecto arquitectónico: a partir das premissas e princípios gerais retirados da problemática arquitetónica, avança-se para um resultado que inclua as partes num todo coerente. Deste modo, o processo de projecto corresponde a um processo de sintetização. A síntese deriva etimologicamente do latimsynthesis (Castiglione et al. 2007, sintesi), que significa conjunto, e do grego súnthesi, que significa composição,combinação,junção. Na Lógica (Fedele 2000, sintesi), a síntese designa o método de demonstração em que se começa das premissas e se segue para os resultados, das causas para as consequências, das partes para o todo. O processo de síntese projectual procura atingir uma resposta única e exclusiva da problemática projectual. Para tal, simultaneamente ao processo de síntese ocorre um processo de abstração. Platão mostrou que a matemática se baseia no pensamento abstracto uma vez que os conceitos matemáticos são elaborações do inte- PRINCÍPIO COMPOSITIVO: SOBRE O SEU PROPÓSITO NO PROCESSO DE PROJECTO ARQUITECTÓNICO 178 || ASTRAGALO Nº 30 | Septiembre, September, Setembro 2022 | article | ISSN 2469-0503 lecto. Também para Aristóteles, o pensamento abstracto era baseado no funcionamento mental, onde a razão apreende a essência de algo. Esta capacidade de discernir sobre as relações ocultas entre componentes é o fundamento do pensamento científico. Isto leva à formulação da hipótese, a definição de uma metodologia de abordagem e a elaboração de conclusões fundamentadas. O termo abstracção vem do verbo abstrair, que significa tirar algo de outra coisa ou separar algo de outra coisa (Zingarelli 1999, astratto). Isto significa que o acto de abstracção é um processo intelectual convergente que começa com o conhecimento de dados individuais e, ao excluir aspectos particulares e acidentais, chega à formulação de um conceito universal. Este processo mental leva a uma aprendizagem profunda de um fenómeno ou situação e está ligado à questão da formação de ideias gerais, uma vez que permite ao pensamento separar um elemento geral de uma percepção, imagem ou conceito complexo. Susanne Langer, no seu livro «Sentimento e forma» define abstração do seguinte modo: «Uma abstracção é (...) um conceito que actua como um nome comum para todos os conceitos subordinados e liga todos os conceitos relacionados como um grupo, campo ou categoria» (Langer 1953, 90). Os diferentes conceitos de abstracção coincidem em dois aspectos: por um lado, a exclusão de dados desnecessários e, por outro, o processo de generalização de conceitos e de exploração de modelos. A eliminação do supérfluo para simplificar e centrar a atenção envolve o acto de remover algo, enquanto que o processo de descartar uma ou mais propriedades de um objecto complexo envolve a concentração nos outros. A abstracção no processo projectual é o processo de generalização de conceitos que nos permite identificar as premissas operacionais a partir das quais se pode explorar a coerência na complexidade. Isso explica porque na dedução de um princípio compositivo o pensamento abstracto seja um importante mecanismo mental. O pensamento abstracto, necessário para a obtenção de um princípio compositivo, deriva do processo de síntese relacional entre os planos sintagmático e sistemático de um problema arquitectónico. A nível sistemático, procuram-se relações ideais, categorias, hierarquias, a estrutura do sistema. A nível sintagmático, as qualidades espaciais são investigadas e as diferentes formas são colocadas como hipótese para integrar espacialmente todos os elementos do problema. As possibilidades de desenvolvimento morfológico para alcançar a solução arquitectónica irão ser determinadas nestes dois planos. PRINCÍPIO COMPOSITIVO: VERSUS UMA NOVA ORDEM ESPAÇOTEMPORAL O projecto conduz de um estado de coisas para outro, de uma programação espacial para outra programação espacial através de um processo de abstacção e de síntese do estado de coisas inicial. Durante o processo de projecto são identificados os dados heterogéneos de um problema e estes são sintetizados e abstraídos, através do raciocínio dedutivo apoiado na reflexão-acção. Relacionar fragmentos dispersos e distantes num todo coerente é o principal objectivo do princípio compositivo. Segundo o arquitecto Louis Kahn «O espírito do princípio é, de todas as coisas, o momento mais maravilhoso, porque no princípio é a semente de tudo o que se vai seguir. Uma coisa é incapaz de ter um começo Marta Sena Augusto || 179 https://dx.doi.org/10.12795/astragalo.2022.i30.10 a menos que contenha tudo o que dela possa alguma vez nascer. Esta é a característica do princípio, caso contrário não há princípio – é um falso princípio» (Kahn 1959, 58). A partir do momento em que se deduz um princípio composicional este representa a latência de uma forma que dará corpo a uma nova ordem espaço-temporal. A nível sintagmático, o princípio da composição define o conjunto de elementos ou técnicas necessárias. A um nível sistemático, o princípio da composição define as regras de interacção entre os elementos propostos e os existentes e as técnicas necessárias. A partir daqui a composição desenvolve-se segundo os elementos e regras estabelecidas pelo princípio de composição. Tendo em conta todos os dados do problema arquitectónico, a criação de um sistema de elementos formais e das regras de variação desses elementos é semelhante à construção de um jogo com as suas regras e peças. Tal como salienta o linguista Holandes Johan Huizinga: «o jogo é (...) uma tentativa de substituir a confusão normal da existência comum por situações perfeitas (...). De uma forma ou de outra, o jogador foge do mundo fazendo dele outro» (Huizinga 1992,3). O princípio compositivo define um tipo de jogo, no sentido da palavra que se refere ao conjunto de elementos e de regras de relação e variação desses elementos, necessários para um determinado jogo: existem jogos de cartas, jogos de xadrez, jogos de dominó. Não é possível jogar dominó com peças de xadrez ou xadrez com cartas. O objectivo e a finalidade do princípio compositivo é dar coerência ao todo e permanecer dentro do mesmo sistema espaço-temporal, apesar da especificidade das partes individuais. O jogo assenta na hipótese de que tudo pode ser posto em quesionamento. O jogo propicia a libertação do universal dentro de um espaço finito, a libertação da liberdade dentro da obrigação, a libertação da lei dentro da arbitrariedade da regra. O jogo é constituído por regras, que criam ordem e introduzem no caos quotidiano um parêntese de perfeição temporária e limitada. A regra do jogo é imanente a um sistema restrito. Descreve-o sem o transcender. Dentro do sistema, a regra é imutável. O jogo, tal como o princípio compositivo, é um escravo das próprias regras de relação e variação dos elementos. O princípio compositivo pressupõe, portanto, a ideia de uma totalidade completa e fechada, concebida para funcionar no seu próprio sistema. A meta-comunicação do jogo serve para criar pontes entre a fantasia e a realidade onde acções fictícias simulam acções reais. Neste sentido o jogo criado na etapa da dedução do princípio compositivo é um jogo que contém o acesso a um mundo imaginário (a ideia-arquétipo), a preposição de uma própria ordem espaço-temporal, a simultânea determinação e liberdade dentro de um sistema de elementos e regras. O princípio da composição envolve o princípio da construção. A estrutura material informa e cumpre o princípio compositivo e assume importância estética, uma vez que a técnica de construção é a operação material intrínseca ao princípio compositivo. A forma é entendida como estrutura formal que envolve as partes portadoras de carga e as partes não portadoras como um todo do mesmo organismo. O princípio compositivo vem denominado, por alguns autores, como conceito arquitectónico se bem que, muitas vezes, o termo PRINCÍPIO COMPOSITIVO: SOBRE O SEU PROPÓSITO NO PROCESSO DE PROJECTO ARQUITECTÓNICO 180 || ASTRAGALO Nº 30 | Septiembre, September, Setembro 2022 | article | ISSN 2469-0503 conceito também se refere à ideia-arquétipo. O termo conceito vem do latim conceptus: acção de conter, acto de receber, conclusão, fruto, feto, pensamento. O termo na sua etimologia é o recipiente e, ao mesmo tempo, é a origem de algo. É algo que carrega consigo um passado e um futuro. Como afirma Herbert Spencer «Tudo procede de uma homogeneidade indefinida e incoerente para uma heterogeneidade definida e coerente» (Spencer 2009,397). Por exemplo, o princípio compositivo da Casa do Infinito do Campo Baeza poderia ser descrito como um paralelepípedo da altura da duna (cerca de doze metros), apoiado na praia e encastrado na duna, com aberturas regulares nos três lados verticais visíveis e aberturas irregulares no lado horizontal (onde se encontra a entrada). A maquete de areia indica-nos a ambição de contruir com esse material ou similar. De facto, foi usada a pedra de travertino. O princípio de composição da Can Lis de Jørn Utzon poderia ser descrito como cinco pavilhões independentes paralelos ao bordo irregular do penhasco, virados para o mar e de costas para a estrada de acesso. O princípio compositivo da Casa Kaufmann de Frank Lloyd Wright na Pensilvânia poderia ser descrito como lajes escalonadas e destacadas de pedra empilhadas umas sobre as outras, recriadas em betão armado acima da cascata, pedra local e vidro preenchendo o vazio entre elas. A Casa de Farnsworth de Mies Van Der Rohe poderia ser descrita como: um paralelepípedo com lados transparentes levantados do chão. O princípio compositivo da Casa em Los Vilos do atelier SANAA, pode ser descrito como uma superfície ondulada e alongada no mar que só toca o terreno no lado de terra e eleva-se do terreno à medida que avança para o mar. Estas descrições pretendem encerrar de uma forma simples o princípio de composição, colhendo os elementos e o sistema do seu potencial de gerador de forma e abrindo-se a múltiplas possibilidades de desenvolvimento morfológico para chegar a uma proposta de projecto. O DESENVOLVIMENTO MORFOLÓGICO DO PRINCÍPIO COMPOSITIVO: ENTRE O TEMA E AS VARIAÇÕES Como vimos na secção anterior, o princípio compositivo é basicamente um conjunto de elementos e um sistema de regras de variação e relação desses elementos, em que é permitido um certo grau de controle, espontaneidade e improvisação. Neste sentido o princípio compositivo assemelha-se ao tema principal da música, o seu desenvolvimento morfológico – livre dentro dos limites das regras e elementos determinados pelo princípio compositivo –corresponde à experimentação de variações sobre o tema– como no jazz, finalmente, a composição arquitetónica corresponde à forma musical completa na qual o tema foi interpretado em formas alteradas ou acompanhado de diferentes maneiras. No processo de projecto, após identificar um ou mais princípios compositivos, começase a desenvolver morfologicamente de cada um deles para testar a sua adequação e coerência ao problema de projecto. O desenvolvimento morfológico de um princípio compositivo oscila entre as partes individuais e a visão do todo. Cada alteração nas partes exigirá a verificação da coerência do todo. Neste sentido, podemos explicar o princípio compositivo na arquitectura da mesma forma que Webern se refere expli- Marta Sena Augusto || 181 https://dx.doi.org/10.12795/astragalo.2022.i30.10 citamente à teoria de Goethe de Urpflanze para explicar o princípio da variação na música: «“As raízes não são nada mais do que o caule, o caule não é nada mais do que a folha, a folha não é nada mais do que a flor: variações do mesmo pensamento” (Webern 1960,90)» (Giovannone 2010, 25) . Também Leoncilli Massi explica a relação do todo e das partes do seguinte modo: «cada variação ou iteração e repetição de conceitos corresponde à conquista de um valor anteriormente desconhecido, graças à clarificação progressiva da ideia inicial» (Leoncilli Massi 2002, 12). O princípio da composição pode ser considerado como uma hipótese morfológica que configura as estruturas espaciais para as quais é possível, através da sua realização, perseguir a totalidade das intenções do projecto. Segundo o compositor italiano Leoncilli Massi: «Variar é inventar o novo; é dar forma à ideia de espaço, é construir harmonia espacial sem interromper a circularidade da “mimese” compositiva da variação, sem nunca deixar as pistas sobre as quais se desenvolvem os campos pré-constituídos, se não com o risco de dissolução. Variar é compor» (Leoncilli Massi 2002, 214). Assim sendo, o sistema de regras do princípio compositivo deve admitir um certo grau de controlo, espontaneidade e improvisação. A composição das partes da forma, tal como nas variações musicais, deve ser livre dentro dos limites das regras e elementos determinados pelo princípio compositivo. O musicólogo Ottó Károlyi define o princípio da variação como «baseado numa série de repetições em que os elementos contrastantes são as próprias variações”. Na música, a parte ‘conhecida’, ou seja, o tema, permanece mais ou menos inalterada enquanto que a parte ‘desconhecida’ corresponde a formas de variar o tema, geralmente empregando mudanças melódicas, rítmicas, harmónicas e coloristas. Normalmente, o tema é claramente indicado no início da série de variações e seguido das “elaborações”, as variações» (Károlyi 1998, 124). As variações tendem a preservar a informação do princípio compositivo. O arquitecto e compositor Giovanni Giannone, no seu livro Arquitectura e Música, citando o compositor austríaco Anton Webern, salienta que a palavra canon –o princípio da escrita polifónica– da disciplina musical, foi adoptada a partir da escultura e da arquitectura grega, onde designa o sistema de “proporção das partes”. Assumindo, deste modo, a importância da relação de dependência entre o todo e as partes e «a importância fundamental do princípio da repetição para uma maior compreensibilidade» (Webern 1960,41). O desenvolvimento morfológico do princípio compositivo, em arquitectura, implica que o desenvolvimento respeite as regras e elementos determinados pelo proprio princípio compositivo e que o conjunto tenda a uma unidade coerente. O princípio constitui também uma memória –armazenamento e classificação– de esquemas de acção que delimitam as possibilidades de articulação morfológica de acordo com a ocasião. À semelhança do que acontece na música entre as variações e o tema principal, na concepção arquitectónica cada variação –que acontece quando o princípio compositivo se adequa às singulares partes do programa– requer a verificação da coerência do todo. Neste sentido, um elemento estranho ao princípio compositivo irá destoar na composição como uma nota errada. No entanto, um princípio de composição com regras claras permite a exis-