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ASTRÁGALO. Cul u a de la A qui ec u a y de la Ciudad, 33-34 (2023). ISSNe: 2469-0503
A ibu ion-NonComme cial-Sha eAlike. A icle
h ps://dx.doi.o g/10.12795/as agalo.2023.i33-34.12
Recei ed:10-04-2023 | App o ed: 22-08-2023
HISTÓRIAS DE LUTA, HISTÓRIAS DE MULHERES: RELATOS
DE LIDERANÇAS PELA REGULARIZAÇÃO FUNDIÁRIA DO
BAIRRO VALE VERDE, JUIZ DE FORA - MG / HISTORIAS DE
LUCHA, HISTORIAS DE MUJERES: RELATOS DE MUJERES
LÍDERES POR LA REGULARIZACIÓN DE TIERRAS EN EL
BARRIO VALE VERDE, JUIZ DE FORA - MG / STRUGGLE
STORIES, WOMEN’S STORIES: REPORTS OF LEADERS
FOR LAND REGULARIZATION IN THE VALE VERDE
NEIGHBORHOOD, JUIZ DE FORA - MG
Glaucy Hellen He dy Fe ei a Gomes
glauc[email p o ec ed] 0000-0001-6400-6493
Uni e sidade Fede al do Rio de Janei o, Ins i u o de Pesquisa e
Planejamen o U bano e Regional, Rio de Janei o, B asil
Ma iana Camillo San ’ana
camilloma i[email p o ec ed] 0009-0006-4912-492X
Uni e sidade Fede al do Rio de Janei o, Ins i u o de Pesquisa e
Planejamen o U bano e Regional, Rio de Janei o, B asil
Ma iana Domina o Ab ahão Cu y
ma iana.cu [email p o ec ed] 0009-0006-4912-492X
Uni e sidade Fede al de Juiz de Fo a, Fac. de A qui e u a e U banismo, Juiz de Fo a,
e Uni e sidade Fede al de Viçosa, P og ama de Pós-G aduação em A qui e u a
e U banismo, Viçosa, B asil
RESUMO
A his ó ia o icial da con o mação dos e i ó ios es á consolidada a pa i de documen os,
egis os, li os, bem como se ê e a ada em espaços públicos, edi ícios e monumen os. Mas,
como disse Wal e Benjamin, essa é uma his ó ia dos encedo es sob e os encidos, po an o
esses são os elemen os que p omo em a manu enção de es u u as sociais baseadas na
dominação de um po o sob e ou o. Embo a essa his ó ia enha de e minado uma in isibilidade
às mulhe es e um u o da sua cons ução a i a dos espaços, no a-se a a és de uma elei u a
eminis a dos p ocessos de egula ização undiá ia, a p esença massi a das mulhe es
encabeçando esses mo imen os sociais. Dian e disso, es e es udo busca p omo e uma pesquisa-
egis o, endo como obje o de es udo o mo imen o de lu a po mo adia no bai o Vale Ve de,
his ÓRias de lu a, his ÓRias de mulheRes: Rela os de lideRanças pela RegulaRiZaçÃo undiÁRia…
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em Juiz de Fo a (MG). Po meio de uma pesquisa documen al sob e o ema, somada a duas
en e is as com lide anças comuni á ias - Dona Izau a e Balbina - discu e-se a p oblemá ica das
elações sociais de gêne o nos p ocessos his ó icos de ei indicação de mo adia e egula ização
undiá ia, e a dinâmica de apagamen o das mulhe es p esen es nessa lu a. A ap esen ação dessas
na a i as, com o oco em suas his ó ias de ida du an e e após o mo imen o, e idencia as
condições ainda mais d amá icas das di iculdades do acesso à e a e mo adia enquan o mulhe , e
ambém, as ba ei as impos as pela sua condição eminina à cons ução de uma con inuidade na
ida pública e polí ica. Busca-se ambém com esse abalho, u iliza do espaço de di ulgação
acadêmica, pa a egis a a memó ia e as his ó ias de ida dessas mulhe es.
Pala as-cha e: His o iog a ia eminis a; Cidades e memó ia; Gêne o; Regula ização undiá ia; Di ei o
à cidade.
RESUMEN
La his o ia o icial de la con o mación de e i o ios se consolida a pa i de documen os, egis os,
lib os, y se e e a ada en espacios públicos, edi icios y monumen os. Pe o, como dijo Wal e
Benjamin, es una his o ia de los ganado es ace ca de los pe dedo es, y po es o son los elemen os
que p omue en el man enimien o de es uc u as sociales basadas en la dominación de un pueblo
sob e o o. A pesa de es a his o ia de e mina una in isibilización de las muje es y un obo a su
cons ucción ac i a de los espacios, pe cibimos, a a és de una elec u a eminis a de los p ocesos
de egula ización ag a ia, la p esencia masi a de muje es al en e de mo imien os sociales. F en e
a eso, es e es udio p omo e una in es igación- egis o a pa i de la lucha po i ienda en el ba io
Vale Ve de, en Juiz de Fo a (MG). A a és de una in es igación documen al, además de dos
en e is as a líde es comuni a ias - Doña Izau a y Balbina - discu imos las elaciones sociales de
géne o en los p ocesos his ó icos de ei indicación habi acional y egula ización de ie as y las
dinámicas de bo ado de las muje es en es a lucha. La p esen ación de es as na a i as, con un
en oque en sus his o ias de ida du an e y después del mo imien o, esal a las condiciones
d amá icas pa a accede a la ie a y la i ienda como muje , así como las ba e as impues as po su
condición emenina en la cons ucción de una con inuidad en la ida pública y polí ica. Es e abajo
busca u iliza la di ulgación académica pa a egis a la memo ia y las his o ias de ida de ellas.
Palab as cla e: His o iog a ía eminis a; Ciudades y memó ia; Géne o; Regula ización undiá ia; De e-
cho a la ciudad.
ABSTRACT
The o icial his o y o he con o ma ion o e i o ies is consolida ed om documen s, eco ds,
books, as well as seen po ayed in public spaces, buildings and monumen s. Bu , as Wal e
Benjamin said, his is a s o y o he winne s o e he lose s, he e o e hese a e he elemen s ha
p omo e he main enance o social s uc u es based on he domina ion o one people o e ano he .
Al hough his his o y has de e mined an in isibili y o women, and a he o hei ac i e
cons uc ion o spaces, i is no ed h ough a eminis eading o land egula iza ion p ocesses, he
massi e p esence o women a he head o hese social mo emen s. Conside ing his eali y, his
s udy seeks o p omo e a esea ch- eco d, using as a ieldwo k he s uggle o housing in he Vale
glaucy hellen he dy e ei a gomes, ma iana camillo san ’ana y ma iana domina o ab ahão cu y
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Ve de neighbo hood, in Juiz de Fo a (MG). Th ough documen a y esea ch on he subjec , in
addi ion o wo in e iews wi h communi y leade s - Dona Izau a and Balbina - we discuss he issue
o social gende ela ions in he his o ical p ocesses o housing claims and land egula iza ion, and
he dynamics o e asu e o women p esen in his igh . The p esen a ion o hese na a i es, wi h
a ocus on hei li e s o ies du ing and a e he mo emen , highligh s he e en mo e d ama ic
condi ions o di icul ies in accessing land and housing as a woman, as well as he ba ie s imposed
by hei emale condi ion on he cons uc ion o a con inui y in public and poli ical li e. This
esea ch seeks o eco d he memo y and li e s o ies o hese women and use he academic sphe e
o dissemina ion.
Keywo ds: Feminis his o iog aphy; Ci ies and memo y; Gende ; Land egula iza ion; Righ o he ci y.
1. INTRODUÇÃO
As dispu as po e a e mo adia são lu as eco en es que acompanham a p óp ia his ó ia do B asil,
endo se in ensi icado com o p ocesso de u banização no país, a pa i da década de 1930. Mesmo
endo um in e essan e a cabouço ju ídico que ampa e a dis ibuição iguali á ia da e a, ide a
consag ação da mo adia digna como di ei o undamen al na Cons i uição Fede al (BRASIL, 1988),
a egulamen ação do uso da e a em p ol do bem es a cole i o es á assegu ado pelo Es a u o da
Cidade (BRASIL, 2001) e, mais ecen emen e, a Lei Fede al de Regula ização Fundiá ia (BRASIL,
2017), a lu a de populações ulne á eis pa a ga an i esse di ei o ainda é á dua, con i endo cons-
an emen e com a iolência e as emoções o çadas. Em Juiz de Fo a (MG) desde 1950, há egis os
de mo imen os de ocupações in o mais, mas as p imei as egula izações undiá ias só se inicia am
na década de 1980, endo um cená io an e io ambém ma cado pela iolência das emoções e
desocupações.
Po ou o lado, a lu a pela mo adia, mobilizada p incipalmen e po meio de ocupações de e as
e imó eis ociosos, e ela um p ocesso de cons ução da his ó ia e da memó ia cole i a a a és da
p odução u bana. Ao ala de memó ias Michael Pollak con as a memó ias cole i as e indi iduais a
pa i da noção das “memó ias enquad adas” (Pollak 1989, 9), de endendo que o consenso his ó ico
e a manu enção de es u u as sociais e ins i ucionais se dão di e amen e a pa i das his ó ias e
lemb anças cole i as que, po sua ez, êm um supo e ma e ial nas cidades, espaços públicos,
documen os o iciais, en e ou os. Sob uma pe spec i a eminis a, Ma ia Odila Dias (Dias 2019)
en ende a con inuidade dessas es u u as como p ese ação, igualmen e, de um sis ema his ó ico de
dominação masculina que se apoia ambém sob e a cul u a social pa a jus i ica sua supe io idade.
Vislumb ando um cená io de up u a e econs ução da his ó ia, essa au o a p opõe uma no a he -
menêu ica his o iog á ica, e icamen e eminis a, onde a documen ação do co idiano, das his ó ias
i idas, possibili e a eme gência “não apenas da his ó ia da dominação masculina, mas, sob e udo,
os papéis in o mais, as imp o isações, as esis ências das mulhe es” (Dias 2019, 358).
Nes e abalho i emos abo da o p ocesso his ó ico de egula ização undiá ia oco ido no
bai o Vale Ve de, da cidade de Juiz de Fo a (MG), na década de 1990. A escolha do Vale Ve de se dá,
en e ou as pa icula idades, pelo a o de que as lide anças que encabeça am essa lu a se em odas
mulhe es. En endendo que as mulhe es êm um papel his ó ico e cen al na dispu a e i o ial e que
são ambém a maio ia da população a e ada pela ausência de mo adia digna, busca-se desen ol e
his ÓRias de lu a, his ÓRias de mulheRes: Rela os de lideRanças pela RegulaRiZaçÃo undiÁRia…
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uma pesquisa- egis o das memó ias de algumas das lide anças ainda i as, u ilizando espe-
cialmen e o ecu so da his ó ia o al como mé odo pa a azê-lo (F ei as 2006). Ao comp eende que
a lu a pela mo adia emp eendida po essas mulhe es se cos u a a pa i de seus co idianos, de onde
eme ge a necessidade de ugi dos aluguéis e conquis a a casa p óp ia, buscamos um caminho de
pesquisa que pe mi isse a econs i uição das expe iências de ida, das suas lemb anças e memó ias
pessoais sob e a lu a pelo Vale Ve de, omando pa ido da ealização de en e is as com duas das
lide anças esponsá eis pela egula ização do bai o, p e endendo não somen e con a uma pa e
his ó ica do local, mas, ambém, egis a as elações imb icadas en e a ida dessas mulhe es e
p óp ia o mação desse e i ó io.
Nesse sen ido, uma pesquisa quali a i a baseada nas aje ó ias sociais (Gonçal es, Lisboa
2007) dessas mulhe es se ez necessá ia especialmen e po se a a de uma Comissão compos a
majo i a iamen e po mulhe es neg as e pob es. O luga da mulhe neg a oi discu ido am-
plamen e po eminis as neg as como Lélia Gonzalez (Gonzalez 1988, 2019) e Bea iz Nascimen o
(Nascimen o 2019) desde a década de 1980, ao imb ica aça e gêne o pa a comp eende que as
mulhe es neg as b asilei as se encon a am em si uações especialmen e ulne á eis nas es e as
sociais, polí icas e econômicas. Pa icula men e quando ecem c í icas à p odução de conhecimen o
somen e pela ia da lu a de classes ou de gêne o, igno ando as pa icula idades das dinâmicas de
op essão sob e as populações neg as, p incipalmen e pa a as mulhe es neg as, as au o as en endem
que essa p odução do sabe não somen e lhes nega a humanidade, mas, sob e udo, a possibilidade
de e a sua ealidade conhecida, “insis indo em esquecê-las” (Gonzalez 2019, 246). Sendo assim,
en endemos que ensiona a his o iog a ia a pa i das alas dessas mulhe es, egis ando o seu
p o agonismo na o mação do e i ó io, o na-se uma impo an e es a égia discu si a de e-
memo ação, mas ambém de oposição à noção hegemônica de mulhe , mui as ezes colocada de
manei a i e le ida pelo eminismo libe al e das mulhe es b ancas.
A pa i de uma pe spec i a his o iog á ica eminis a (Dias 2019), buscamos con ibui pa a
a documen ação desse p ocesso his ó ico da lu a pela mo adia e pela egula ização undiá ia de
Juiz de Fo a sem que, pa a isso, sejam apagadas as con ibuições das mulhe es, sua pa icipação
polí ica undamen al na a iculação dos mo imen os e a suas p óp ias complexidades subje i as. A
posição c í ica eminis a islumb a, ambém, não gene aliza a iden idade eminina dessas agen es
na his ó ia, de modo que possam su gi , dos ela os cole ados, a di e sidade e mul iplicidade do
se mulhe . Ap o ei amos es e espaço de comunicação cien í ica pa a egis a a na a i a dessas
mulhe es sob e a sua pa icipação na lu a e como hoje, após décadas, islumb am a his ó ia i ida,
en endendo que “o mo imen o da his ó ia pe passa o co idiano descob indo ângulos de es udo
imp e isí eis, elabo ando conhecimen os no os” (Dias 2019, 362).
2. O DIREITO À CIDADE TEM ROSTO DE MULHER
A dispu a pela e a é um con li o his ó ico e exis e de o mas dis in as em odos os egis os de
sociedades humanas. A ei indicação po dis ibuição iguali á ia do solo e dos ecu sos na u ais
pa a que odas e odos possam se capazes de habi a e p oduzi os bens necessá ios pa a sua sob e-
i ência, p o oca con li os sociais con a as cons an es en a i as de monopolização e cen alização
da e a nas mãos de poucos. A ins i uição do sis ema capi alis a, jun amen e com a o mação dos
Es ados nacionais e a u banização c escen e, consolidou o papel da e a no cen o do pode polí ico
glaucy hellen he dy e ei a gomes, ma iana camillo san ’ana y ma iana domina o ab ahão cu y
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e econômico aci ando as dispu as sociais em o no da ei indicação pela e o ma ag á ia e u bana
(Mo issawa 2001). Du an e a ansição do pe íodo eudal pa a o capi alismo, o am inúme as as
e ol as do campesina o con a as cons an es en a i as de p i a ização das e as comunais e dos
meios de p odução pelos senho es eudais (Fede eci 2017).
No caso de países com his ó ico de colonização como o B asil, a in ensidade das dispu as
pela e a oi ainda maio . Desde o p imei o con a o dos colonizado es eu opeus com as e as
de Pindo ama, hou e con li os com po os o iginá ios pa a ga an i a pilhagem dos ecu sos e a
posse das e as em a o da explo ação me can il. A his ó ia do B asil é, po an o, ma cada pelo
con li o undiá io desde a sua undação. Se en e 1500 e 1900 essa dispu a se ca ac e iza a p in-
cipalmen e pela posse da e a, ei indicando a e o ma ag á ia e o im dos la i úndios, com a
in ensa indus ialização e u banização do país a pa i da segunda me ade do século 1900, essa
ei indicação passa a assumi ambém a o ma de lu as u banas, demandando p incipalmen e po
melho es condições de habi ação e o acesso à mo adia u bana de qualidade pa a as camadas mais
pob es da população. Vale des aca a aje ó ia de mo imen os o ganizados como o Mo imen o
dos T abalhado es Sem Te a (MST) e do Mo imen o dos T abalhado es Sem Te o (MTST) que são
mundialmen e econhecidos pela sua capacidade de a iculação, o ganização e lu a pelo acesso à
e a no país (Tanezini 2009; Boulos 2012).
Mas quem lu a pela e a e pelo e o? Com a di usão dos es udos de gêne o e das c í icas
eminis as às di e sas á eas do conhecimen o, essa pe gun a em-se e elado undamen al pa a a
comp eensão não só das dinâmicas do con li o undiá io, mas ambém da op essão e dominação
pa ia cal sob e os co pos das mulhe es. As mulhe es êm um papel his ó ico e cen al na dispu a
e i o ial, endo em is a que as elações en e a iolência, o ce camen o e a ep essão exis en es
em o no da despossessão e i o ial, azem pa e da mesma lógica de ep odução do capi al que
aplica o con ole, o subjugo e a espoliação aos seus co pos (Fede eci 2017; Bha acha ya 2019). A e-
sis ência das mulhe es con a a esc a ização, a op essão, o genocídio, a miscigenação o çada e sem
c ase das suas e as es ão en elaçadas às dispu as e i o iais, sendo essa uma dinâmica ma can e
da lu a de classes que assume o mas dis in as em dis in os cená ios, mas que, em subs ância,
pe manece igual.
As aje ó ias das lu as emininas nos e i ó ios, p incipalmen e nas cidades, semp e
o am negligenciadas pelas igu as masculinas que, em di e sas na a i as, ecebem os lou os em
de imen o daquelas que, de a o, pa icipam e nu em a i amen e as ei indicações po ans-
o mações u banas, inclusi e como lide anças (IBDU 2017). No campo da a qui e u a e u banismo,
po exemplo, a his ó ia de Robe Ven u i e Denise Sco B own o nou-se um ma co po des ela
os mecanismos desse p ocesso de in isibilização (Adame 2016). O pensamen o hegemônico que
pe meia a p odução do espaço u bano di a as eg as daquilo se á con ado e is o nas cidades, e as
o ças dominan es se es abelece am a pa i de uma pe spec i a pa ia cal que encon ou no modo
de p odução capi alis a seu maio aliado.
A his ó ia u bana conhecida é um con o dos encedo es, uma e são excluden e que e idencia
na a i as dominan es e negligencia a di e sidade de g upos e de elações sociais que ensionam o
modo como as cidades se desen ol e am. Ees ando os ambien es u banos imp egnados de símbolos
e signos his ó icos, não é di ícil pe cebe e idências que ce i icam a exclusão das mulhe es das
na a i as que con am essas his ó ias. Os nomes dados aos locais públicos, es á uas e monumen os
cons i uem um conjun o simbólico de elemen os que, seja quan i a i amen e ou quali a i amen e,
cos u am uma e são na a i a de cidade pau ada sob e os co pos masculinos, b ancos e icos.
his ÓRias de lu a, his ÓRias de mulheRes: Rela os de lideRanças pela RegulaRiZaçÃo undiÁRia…
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Rei indicações popula es ecen es êm lu ado po um luga de con a na a i a his ó ica, ocupando,
ce cando, queb ando, pixando, incendiando e a é emo endo obje os emblemá icos dos espaços
públicos. As es á uas de Bo ba Ga o e de Ped o Ál a es Cab al o am al os de p o es os no B asil,
assim como a es á ua de Edwa d Cols on, na Ingla e a, e do Rei Leopoldo II, na Bélgica (Cu y,
Ci ale 2022).
Pa a Hen i Le eb e (Le eb e 1991), o co idiano é uma es e a cen al da ida humana, mas
ambém o espaço onde oco em os p ocessos de dominação e alienação, p incipalmen e quando
subme ido à es u u a capi alis a, onde a agmen ação da ida e a mono onia a e am as expe iências
diá ias das pessoas. Apesa disso, ele de ende a econquis a do co idiano como um e eno de lu a,
onde as pessoas possam exe ce sua c ia i idade, imaginação e pa icipação a i a na cons ução
de uma sociedade mais jus a e emancipada. Nesse sen ido, o di ei o à cidade (Le eb e 2001) não
se ia apenas di ei o de e acesso ísico e indi idual aos espaços u banos, mas ambém de pa icipa
a i amen e na cons ução e ans o mação desses espaços, en endendo o co idiano u bano como o
luga ideal onde a lu a po emancipação e ans o mação social de e ia oco e . Nessa comp eensão
le eb iana de di ei o à cidade como sinônimo do di ei o à ida, es uda o ambien e u bano de e
conside a as lógicas sociais que molda am as ins i uições a pa i do en endimen o de classe e de
p op iedade. Dessa manei a, as ins i uições se e elam como edes de pode que de e minam o
modo como as cidades se ão p oduzidas e nes es espaços (polí ico, eligioso, mili a , sindicais, e c..)
as mulhe es são mino ia, em co po e oz (Le eb e 2001), mas ainda que suas aje ó ias sociais e
suas idas co idianas enham sido in isibilizadas e apagadas pelas es u u as de pode que con am
a his ó ia das cidades, “as mulhe es es i e am e es ão p esen es na dinâmica des e p ocesso de de-
sen ol imen o da cidade” (Gonzaga 2011, 73).
Em Juiz de Fo a, cidade minei a onde se passa es a pesquisa, um impo an e p ocesso de
epa ação his ó ica em ganhado des aque nos úl imos anos. A his ó ia da mulhe esc a izada Roza
Cabinda impulsionou um p oje o de di e sos cole i os eminis as pa a homenagea as mulhe es
com papéis sociais ele an es na cidade. Esse p oje o an o az à ona a memó ia esquecida da
esc a idão em Juiz de Fo a, quan o e o ça po meio da ep esen a i idade de Cabinda, a lu a de
an as ou as mulhe es à ma gem da his ó ia da cidade. A homenagem, que começou em 2018,
ecebeu a alcunha de “an imedalha Roza Cabinda”1, em con apon o ao Mé i o Comendado
Hen ique Hal eld, ou a hon a ia c iada em 1973. Hal eld oi um engenhei o alemão e é conside ado
o p incipal nome no mi o undado da cidade enquan o Cabinda oi uma mulhe neg a esc a izada
po ele, que p ecisou lu a judicialmen e po sua libe ação, mesmo endo os ecu sos inancei os
necessá ios pa a comp a sua al o ia (Cu y, Ci ale 2022).
Ainda hoje a memó ia de Hen ique Hal eld em p esença massi a insc i a na cidade, es-
pecialmen e na á ea cen al. O sob enome Hal eld emp es a nomencla u a a di e sos espaços
públicos, e o p óp io Hen ique é homenageado com um bus o localizado na p aça mais impo an e
da cidade que, cu iosamen e, ambém ca ega seu sob enome, o Pa que Hal eld. Essa cons ução
simbólica em o no do nome de Hal eld nos espaços u banos, diz espei o à sua celeb ação an o
como o engenhei o que ab iu es adas, quan o como o g ande doado de e as pa a a cidade,
1 Ao se c iada pelos mo imen os eminis as da cidade, a medalha oi idealizada como uma “an imedalha” po se opo di e a-
men e ao Mé i o Comendado Hen ique Hal eld. Após a sua ins i ucionalização e a con inuidade anual da p emiação, a hon a-
ia passou a se econhecida apenas po “Medalha Roza Cabinda”. Veja mais sob e a his ó ia da c iação da medalha em: h ps://
ibunademinas.com.b /no icias/cidade/07-03-2018/mulhe es-lu am-pelo- econhecimen o-de-sua- o ca-de- abalho.h ml.
glaucy hellen he dy e ei a gomes, ma iana camillo san ’ana y ma iana domina o ab ahão cu y
h ps://dx.doi.o g/10.12795/as agalo.2023.i33-34.12 225
um benemé i o incen i ado do p og esso. Rosali Hen iques (Hen iques 2015) apon a que o
engenhei o alemão, ec u ado pa a abalha pelas o ças me cená ias de Dom Ped o I, não en-
iqueceu com abalho, mas a pa i da comp a de e as com miné io de e o e, p incipalmen e, do
casamen o. O segundo casamen o endeu-lhe mui as e as que se iam de p op iedade de Cândida
Ma ia Ca lo a, he dei a da amília Tos es, mas que o am ansmi idas do sog o di e o pa a o gen o
(Hen iques 2015; Geno ez 1996). Os nomes dos homens Tos es e Hal eld sinalizam di e sos dos
açados u banos de Juiz de Fo a, mas di icilmen e se encon a e e ência à Cândida ou Roza nas
uas e p aças da cidade, demons ando a lógica de aze a memó ia a pa i do apagamen o e u o
da p esença de mulhe es, a ingindo, ambém, as cons uções his ó icas ela i as aos mo imen os
e o ganizações sociais de lu a pela mo adia e pela egula ização undiá ia.
Rela ó io ecen e e ela que o dé ici habi acional no B asil é p o undamen e a a essado pelas
ques ões de gêne o e aça, endo em is a que um dos pe is de amília que mais c esce é o “mo-
nopa en al com ilhos”, g upo o mado majo i a iamen e po mulhe es neg as che es de amília e
que es ão posicionadas abaixo da linha da pob eza (FJP 2022). Num con ex o de p eca iedade de
abalho, eminização da pob eza e di iculdades no acesso à e a e à habi ação, as mulhe es, p in-
cipalmen e as p e as e pa das, são a maio ia na composição dos mo imen os de lu a po mo adia
(Gonzaga 2011; Helene 2019; I ikawa 2019) o que não signi ica dize que sejam as p o agonis as
das na a i as desses mo imen os, ou que as suas demandas sejam cen ais pa a a o ganização das
es a égias.
Segundo Helene (Helene 2019) a inse ção do deba e eminis a nos mo imen os de lu a pela
mo adia é um enômeno ecen e, mui o puxado po ações pa a comba e e e adicação da iolência
domés ica e de gêne o den o das o ganizações, mas que ainda es á longe de angencia ques ões
sob e a impo ância his ó ica das mulhe es na cons ução das mobilizações. São equen es os
ela os sob e his ó ias de mulhe es, em si uação de ulne abilidade, que abalha am incansa-
elmen e pa a ga an i o di ei o a uma mo adia digna pa a sua amília. São elas que mobiliza am
ações, mo imen a am pessoas, pa icipa am de euniões e desen ol e am odo o supo e ne-
cessá io a é a e e i ação da ga an ia do di ei o, mas, ao inal do p ocesso, são os ma idos, os ilhos
ou mesmos polí icos en ol idos que sobem ao palco e são lau eados (Al onsin 2006; Gonzaga 2011;
Mon ei o, Medei os, Nasciu i 2017).
No con ex o de Juiz de Fo a, essa dinâmica não é di e en e. Ao es uda os mo imen os sociais
no en o no do p ocesso de ei indicação po egula ização undiá ia e acesso à e a em dois
bai os popula es da cidade - o Vale Ve de e o Milho B anco II - Ma iana San ’Ana (San ’Ana 2021)
demons a a o e p esença de mulhe es na lide ança de ambos os mo imen os, ao mesmo empo
em que as homenagens e os capi ais polí ico e social (Bou dieu 2007) deco en es da conquis a
do di ei o, o am ecolhidos po e eado es, uncioná ios públicos e ou os ep esen an es,
odos homens. Dian e dessa dinâmica de apagamen o, é undamen al que possamos inco po a
na a i as pa a que os di e sos g upos sociais enham a de ida no o iedade po suas pa icipações
his ó icas na cons ução das cidades. E é po isso que, pa a es e abalho, emp eendemos a a e a
de egis a quali a i amen e as his ó ias e na a i as de duas mulhe es en ol idas no p ocesso
de egula ização do bai o Vale Ve de. En endemos que, ao egis a mos as his ó ias da lu a pela
mo adia, a pa i da pe cepção das líde es sob e si mesmas, e le indo sob e os seus in e esses,
obje i os, anseios e sen imen os, possam se ab i issu as nas na a i as já consolidadas sob e a
imagem e o co po de quem lu a pelo di ei o à cidade.
his ÓRias de lu a, his ÓRias de mulheRes: Rela os de lideRanças pela RegulaRiZaçÃo undiÁRia…
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3. REGULARIZAÇÃO FUNDIÁRIA NO BAIRRO VALE VERDE: MULHERES EM
BUSCA DE UM LAR
Pa a a a da egula ização undiá ia do bai o Vale Ve de, nos ale emos do abalho de
San ’Ana (San ’Ana 2021), endo em is a o en oque dado às ques ões écnicas, his ó icas e
subje i as des e mo imen o de lu a pela e a e pela mo adia. A a enção dada ao oco ido no
Vale Ve de, se dá não somen e po abo da a egula ização de um g ande lo eamen o popula
e seu mo oso p ocesso de consolidação, mas ambém pelo p o agonismo das mulhe es du an e
odo o p ocesso e que seguiu pa a além das lu as em busca do di ei o à mo adia digna, dando
con inuidade a um abalho de consolidação comuni á ia, de cidadania e dignidade, e p omoção
de a e, laze e cul u a. Des aca-se o a o de que, ecen emen e, duas mo ado as do Vale Ve de
o am homenageadas com a Medalha Roza Cabinda em dis in os anos. Em 2018, ano de es eia
da p emiação, Ma ia Helena Falcão (in memo iam), undado a do p oje o Mu i ão da Meninada
do Vale Ve de, 2 oi homenageada, e em 2021 duas mulhe es do bai o o am homenageadas,
sendo elas: Ma ia de Fá ima da Sil a, líde comuni á ia, e e ência na ealização de p oje os
sociais, em abalhos com a população ca ce á ia e na dis ibuição de ces as básicas, e Ma ia
Inês Dias B aga, mo ado a do bai o que desen ol e impo an e abalho jun o ao Mu i ão da
Meninada (T ibuna de Minas 2021).
Também é in e essan e pon ua que a pesquisa de campo desen ol ida po San ’Ana, oi
ealizada sem in e mediação de nenhum mo ado ou da associação comuni á ia, cap ando desde o
início o econhecimen o dessas mulhe es na memó ia da população local. Em abo dagens ei as aos
anseun es e mo ado es do bai o, a maio ia ci a a o nome de pelo menos uma das cinco mulhe es
en ol idas na p incipal “Comissão”3: Izau a Augus a de Nascimen o de Paula, Ma ia Euzébia
Del ino (in memo iam), Ma ia dos Anjos Ma ins Co nélio (in memo iam), Ve a Ma ia da Sil a
e Balbina Ba bosa dos San os4. Os ela os concedidos pelos en e is ados à pesquisa de San ’Ana
(San ’Ana 2021) o am peças essenciais na cons ução da his ó ia do bai o, endo em is a que
os documen os encon ados nos se o es da P e ei u a Municipal de Juiz de Fo a (PJF), além de
incomple os - e po ezes incoe en es - e am insu icien es pa a o en endimen o da o mação do
e i ó io e o con ex o especí ico dessa comunidade. Po al a de documen ação que a es e o i-
cialmen e ac edi a-se, median e os depoimen os cole ados, que o p ocesso de egula ização do Vale
Ve de oco eu en e 1993 e 2007 (San ’Ana 2021).
É impo an e des aca que já no ano 2000, a p aça p incipal do bai o passou a se de-
nominada como P aça Ma ia Euzébia Del ino, em homenagem à essa mulhe que compôs a
Comissão e a uou o emen e em mo imen os comuni á ios e de lu a pela mo adia na cidade,
indo a alece no ano 2000 (PJF, 2000). Ma ia Euzébia oi uma pessoa ão impo an e pa a o
2 O Mu i ão da Menina é um p oje o social iniciado pela educado a Ma ia Helena Falcão, que inha como obje i o o e ece aulas
de e o ço escola pa a as c ianças do bai o Vale Ve de. No começo, sem local de inido, as aulas acon eciam nas casas do bai o.
Hoje, já consolidado, o p oje o em sede na Casa da Cidadania, e a ai c ianças pa a di e sas a i idades educacionais e cul u ais.
3 “Comissão” oi o nome dado à o ganização de pessoas que o am eunidas desde o início da lu a pelo lo eamen o no Vale
Ve de e a é o inal da egula ização. E, como a é hoje os(as) mo ado es se e e em ao g upo dessa manei a, ambém usa emos
esse e mo com le a maiúscula, ao longo do ex o, semp e que es i e mos ci ando es a comissão em especí ico.
4 Respec i amen e Dona Izau a, Ma ia Euzébia, Ma ia mãe da Bia, Dona Ve a (ou Ve a do Zé Ma ia) e Balbina, como são
comumen e conhecidas pela comunidade do Vale Ve de e demais amilia es, amigos(as) e edes de con a o. Apon amos aqui
seus nomes e sob enomes como o ma de egis o his o iog á ico, mas ao longo do abalho i emos nos e e i a elas pelas
denominações às quais são econhecidas e lemb adas.
glaucy hellen he dy e ei a gomes, ma iana camillo san ’ana y ma iana domina o ab ahão cu y
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bai o que a sua biog a ia, jun o de uma o o, segue e e nizadas no mu al do cen o comuni á io
local, a Casa da Cidadania (Fig.1).
A p imei a ocupação pa a ins de mo adia no Vale Ve de não oco eu exa amen e no mesmo
local onde hoje é o bai o. Mo ado es da imediação do e eno decidi am p omo e ocupações
em á eas de e a azias nos bai os Sag ado Co ação de Jesus e Cidade No a, ambos em um aio
de ap oximadamen e 1,5 Km do local a ual. As amílias que inicia am a mobilização busca am
al e na i as pa a ugi dos al os cus os com aluguel e sana a di iculdade de encon a mo adia
adequada às suas necessidades. Du an e a en e is a concedida pa a es e abalho, Dona Izau a
ela ou seu caso emblemá ico: mig ando de ou a cidade com a amília, compos a po 12 pessoas,
disse que não conseguia aluga um imó el decen e po que nenhum loca á io que ia acei a en ega
o imó el a uma amília ão nume osa. A quan idade de amílias em si uação semelhan e se e ela
ambém quando ela a i ma que, quando a ocupação oi iniciada, e am apenas 12 amílias, mas no
momen o em que a PJF iniciou as negociações com a comunidade já o aliza am 64 amílias.
Apesa de não ha e egis os o iciais, os ela os o ais apon am que du an e um longo
pe íodo oco e am euniões en e a Comissão, a Emp esa Regional de Habi ação de Juiz de
Fig.1. Mu al da Casa da
Cidadania (Vale Ve de)
con endo uma pequena
biog a ia e o o de Ma ia
Euzébia Del ino. Fon e:
Ace o pessoal, e /2023.
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Balbina: Foi uma coisa assim, uma lu a mui o á dua e mui as ezes, na época que o
Biel, a gen e conseguiu, a gen e que eu digo é a a és da gen e, do po o do Vale Ve de, a
gen e conseguiu elege ele ês ezes.
As pe cepções de ambas sob e o p ocesso de egula ização são ma cadas pela insa is ação com
o desc édi o e os con li os, as di iculdades em concilia a o ina de abalho e a p esença na lu a, mas
ambém as amizades e a solida iedade encon ada nas ou as mulhe es pa icipan es.
Dona Izau a: Eu abalha a no colégio, mas com o meu g upo às ezes eu podia
pedi uma olga lá, mas na cozinha eu não podia pedi po que não inha quem subs-
i uísse. En ão g aças a Deus, quem caminhou mais oi as meninas [da Comissão] que
a a jun o comigo sus en a a ‘Dona Izau a não eio, po isso, que ela abalha’... Mas o
meu ma ido… a é daqui ele ala assim ‘p a que que ocê ez essa lu a, essa comunidade
aqui?’ eu alo ‘ Zé onde em gen e, em p oblema, onde que não em?’. O p oblema é
nosso!
Balbina: Eu saía do [ abalho] às ezes eu pedia a minha che e, se eu podia sai
mais cedo. Po que eu la ga a às cinco da a de. Aí ela me libe a a, eu chega a em cima
da ho a, a eunião já inha começado, mas eu chega a. E eu es a a semp e dando meus
pulinhos (...) Lida com o po o. É aquela his ó ia, não ac edi a, não le a ocê a sé io. Eu
de es o essa his ó ia, chegou on em e que sen a na janela. (...). Mas nessa época das
euniões semp e inha um con li o. E eu sou mui o desa o ada, eu não sou a ogan e,
sou desa o ada mesmo. (...) Ou a coisa, o lo e já a a designado, p a icamen e so eado,
os nomes... aí inha ocê com a sua ia, sua p ima, sua a ó: ‘ela em que en a po que é
minha pa en e’. Gen e, não é assim!
Um pon o de des aque é o impac o da amília em acili a ou não a p esença dessas mulhe es
na lide ança dos mo imen os. Se, pa a Izau a, a al a de apoio da amília e os cons an es con li os
com o ma ido o am decisi os pa a mina , paula inamen e, a con inuidade da sua pa icipação na
ida pública da comunidade, pa a Balbina é a ausência de memb os amilia es di e os que impac a
na sua eclusão ao ambien e p i ado, p incipalmen e após o alecimen o de amigas e o a as amen o
de ou os memb os. A idade e a pandemia da COVID-19 ambém o am a o es que in ensi ica am
a eclusão pa a ambas.
Dona Izau a: Eu i e COVID, ai que p eguiça que eu ô… depois disso eu o ão
p eguiçosa que esse so á aqui me ê o dia in ei o. Eu ô nessa si uação, não sei se é do
COVID, não sei se é da idade, não sei do que é. Mas a minha o ina é só ica em casa
mesmo, p imei o eu não enho lei u a, po que quando a pessoa em lei u a, chamam p a
aze uma coisa, chama p a aze ou a, mas eu enho essa di iculdade… e nessa idade
que eu ô, eles me deixam em paz. (...) Não me conside o mais uma lide ança do bai o,
não pa icipo, não a uo… po causa disso, que a amília não dá opo unidade… se eles
dessem eu a a i me, po que eu sei que abaixo de Deus é nós mesmos que emos que
aze as coisas.
Balbina: Às ezes as pessoas me con idam p a i , ainda essa semana inha uma
es a boa p a eu i ali no campo, meu ilho ez uma es a. Meu ilho que eu digo é o que eu
conside o. Eu não i e ânimo p a i , ele icou mui o magoado. Mas assim, eu não aguen o
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e ou a coisa: eu não me sin o mais... assim, como que ala? Não me sin o mais a on ade
p a a no meio dos ou os. Eu me olho e eu me ejo, eu ejo uma pessoa assim...mui o...
Aquela Balbina que se a uma a, ai no meu gua da oupa p a e o an o de oupa
boni a que eu enho. Bo a a uma oupa daquela, pen ea a o cabelo. Nem cabelo mais eu
o a umando! Nunca mais iz uma unha.. Sabe aquele desleixo?
4.3. PERCEPÇÕES DO CONTEXTO ATUAL, RELAÇÃO COM O BAIRRO E A COMUNIDADE
Quando ques ionadas sob e as suas pe cepções sob e suas pe cepções a uais sob e o bai o e a
sua a ual elação com a comunidade, Dona Izau a e Balbina apon am os seus descon en amen os.
As duas ela am sen i is eza com os umos omados pelo c escimen o deso denado do bai o,
con a iando odo o abalho empenhado po elas e pela Comissão ao desenha , na época da egu-
la ização, o planejamen o e a des inação de cada á ea.
Dona Izau a: A coisa que eu mais que ia e a que não izesse uma casa po cima da
ou a aqui. Que o lo e osse p a uma casa, a P e ei u a pediu isso p a nós. As minhas
colegas pe gun a am p o Cus ódio [p e ei o na época] se podia aze , mas eu não
conco dei. Aqui mudou mui o… po que eu sou is e com o po o, aqui não é luga de
aze casa p a aluga (...) não podia e supe me cado aqui, isso me abo ece mui o.
Balbina: Mui a coisa que oi di o aqui, não oi cump ido. Tá endo onde á esse
moço ali [apon a pa a um caseb e na ua]? Ali e a p a aze ho a! O plano, o p oje o, e a
p a se ho a comuni á ia. Po isso esse lado não oi so eado p a ninguém. Já in adi am
essa pa e duas ezes e aí não pode né minha ilha? Eu pago meu impos o. Já alei com
ele [mo ado do caseb e] bem desa o ada ‘ ocê só á aí po que a gen e deixa’.
A isão de Dona Izau a e Balbina di e e quando pe gun amos o que mudou na ida delas após
o en ol imen o com a egula ização do Vale Ve de. Enquan o Balbina demons a sua sa is ação de
e uma casa, Izau a já não se sen e ão con en e. Ficou ní ido, du an e oda a con e sa, que pa a
Dona Izau a, a sua lu a semp e oi pelo bai o in ei o, um p oje o cla o de comunidade e de ida
em comum.
Dona Izau a: Eu acho que não mudou não [a ida dela], po que a coisa que eu mais
que ia e a que não izesse uma casa po cima da ou a aqui. Que o lo e osse uma casa,
a P e ei u a pediu isso p a nós (...) Meu ma ido em a maio cha eação daqui, ele ica
mui o cha eado mas eu não ico não, eu digo ‘meu ilho eu ô beleza aqui’. Po que eu sou
eliz de mo a aqui? Po que não oi só p a mim.
Balbina: Só de sabe eu chego ali naquele po ão, pego a minha cha e, ab o a minha
po a. Es ou ab indo a po a da minha casa, não é da po a da casa que eu alugo, isso não
em pala a. E olha, ocê iu o amanho de udo, não em... eu mando le an a o dedo
quem bo ou um p ego aqui de g aça. Paguei odo mundo.
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5. CONCLUSÃO
Segundo Dias, “as ilhas pelas quais op amos es uda o co idiano de em ab i no os caminhos
no mapa dos nossos conhecimen os”. (Dias 2019, 362). Buscamos, com es e abalho, ilha um
pe cu so de pesquisa que possibili asse c ia issu as nas na a i as his ó icas hegemônicas e egis a
a memó ia de sujei as his ó icas a pa i de si e suas p óp ias expe iências. Ao con on a mos as
na a i as o icialmen e documen adas, com as con ações o ais que sob e i em ao empo, apa ecem
as di e enças, con adições, p á icas, cos umes… es a égias de sob e i ência co idiana, comumen e
so e adas pela his ó ia hegemônica jun amen e com as igu as à ma gem do pode .
En endemos que a u ilização de nomes de uas e espaços públicos como supo es pa a
memó ias sub e âneas (Pollack 1989), apesa de impo an e, po si só, em sido pouco educa i a
e pouco colabo am pa a gua da a his ó ia po ás de pe sonalidades ma ginalizadas no sis ema de
dominação. Um exemplo disso é o caso da P aça Ma ia Euzébia, no Vale Ve de. A his ó ia de Ma ia
Euzébia é passada de o ma majo i a iamen e o al e local, po an o, a sua memó ia como pe so-
nalidade e a i is a es á mais bem egis ada na pequena biog a ia com o o que es á pendu ada no
painel da Casa da Cidadania (Fig.1), do que no dec e o municipal que egis a seu nome em p aça
pública (PJF 2000), onde, de a o, não há nenhuma linha dedicada a esgua da a po ência de Ma ia
Euzébia. Nesse sen ido, é undamen al sauda a impo ância dos mo imen os de esga e his ó ico e
de celeb ação do p esen e, impe ados po inicia i as eminis as como a da Medalha Roza Cabinda,
ensionando as na a i as hegemônicas e c iando igu as lou á eis pa a o u u o a pa i de ou as
p emissas.
Os mo imen os de lu a pela e a e pela mo adia ambém são impo an es agen es de ans-
o mação dos e i ó ios, p oduzindo espaços u banos a pa i de uma ou a dinâmica de ida, de
co idiano, de o ganização do abalho e das p óp ias elações. Po isso, es uda esses mo imen os
é ab i no as janelas de uma documen ação his ó ica mais di e sa da expe iência humana. A alsa
na u alidade da ligação en e as mulhe es e o espaço domés ico em sido de alhadamen e explicada
pelas eo ias eminis as sob e a di isão sexual do abalho (Fede eci 2017) e a sua elação com o
espaço habi acional das mo adias e das cidades (Gonzaga 2011). Desse modo, os impac os da al a
de mo adia e do aumen o do cus o de ida, p incipalmen e aqueles ligados ao p eço da e a como
o aluguel, a ingem de manei a signi ica i a as mulhe es, p incipalmen e aquelas em si uação de
ulne abilidade econômica e social. Pa a essas mulhe es, lu a pela mo adia nessas ci cuns âncias
não é is o como aze pa e de um mo imen o polí ico, mas sim ei indica melho es condições de
ida e de acesso a di ei os básicos pa a si e pa a a sua comunidade.
Mas po mais que as mulhe es sejam o p incipal co po p o edo dessa lu a, as elações desiguais
de gêne o, sob e udo quando in e seccionadas à condição de subal e nidade colocada pela a-
cialidade (Gonzalez 1988; 2019; Nascimen o 2019), impac am di e amen e nas condições de pa -
icipação da o ganização dos mo imen os e, ambém, de con inua em a i as poli icamen e depois
que as p incipais ei indicações do mo imen o são alcançadas. A pa i das na a i as de Dona
Izau a e Balbina sob e o p ocesso de egula ização do Vale Ve de pudemos pe cebe as complexidades
en ol idas nesse luga de lide ança comuni á ia, cos u ando o mas de sociabilidade amilia es, de
abalho e de izinhança que dessem con a da conjun u a de lu a po um obje i o comum cole i o.
Ao mesmo empo, é possí el e os ensionamen os en e o luga espe ado dessas mulhe es, a pa i
da conciliação da lu a an o com o abalho o mal, quan o com as demandas ep odu i as e a e i as
do ambien e amilia , que mui as ezes o am obs áculos pa a a sua ação polí ica.
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É impo an e ambém egis a como a o ganização cole i a e a pa icipação a i a das mulhe es
nos espaços públicos e polí icos comuni á ios podem se es a égias undamen ais pa a coibi e agi
sob e si uações de iolência domés ica e de gêne o. Tan o Dona Izau a quan o Balbina ela am
que, quando es a am mais p esen es nos meios comuni á ios e sociais do bai o, colabo a am em
di e sos momen os pa a comba e casos de iolências, assédios e impo unação con a as mulhe es,
mas que o a as amen o da ida cole i a, e a eclusão cada ez maio ao ambien e domés ico, se
a as am das no ícias bem como das possibilidades de ação. Como nos disse Dona Izau a, “eu ejo
o po o ala ..., mas eu não enho mais pa icipação... se eu i esse pa icipação eu ala a, se eu isse eu
ala a. P a gen e sabe dessas coisas em que e pa icipação”.
Po im, apegamo-nos a his o iog a ia eminis a de Ma ia Odila Lei e (Lei e 2019) e de-
endemos que a in es igação do co idiano como locus de emancipação (Le eb e, 1991), e o egis o
das lemb anças e das memó ias das mulhe es, ompe com dico omias e luga es comuns da his ó ia
da dominação, ao mesmo empo em que c iam issu as na a i as sob e as sujei as, ampliando ho-
izon es polí icos pa a os eminismos.
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BREVE CV
Glaucy Hellen He dy Fe ei a Gomes. A qui e a e U banis a e Especialis a em Relações de Gêne o
e Sexualidades pela Uni e sidade Fede al de Juiz de Fo a (UFJF), e Mes anda em Planejamen o
U bano e Regional pelo Ins i u o de Pesquisa e Planejamen o U bano e Regional da Uni e sidade
glaucy hellen he dy e ei a gomes, ma iana camillo san ’ana y ma iana domina o ab ahão cu y
h ps://dx.doi.o g/10.12795/as agalo.2023.i33-34.12 239
Fede al do Rio de Janei o (IPPUR/UFRJ). A ua como pesquisado a no Núcleo de Pesquisa em Gêne o,
Espaço e Polí icas Públicas (NUGEPP-IPPUR/UFRJ), desen ol endo pesquisas que elacionam epis-
emologias e me odologias c í icas eminis as à a qui e u a, u banismo e planejamen o u bano.
Foco de pesquisa nas emá icas de gêne o, di ei o à cidade, polí icas públicas e espaço u bano.
Ma iana Camillo San ’Ana. A qui e a e U banis a, Mes e em A qui e u a e U banismo pela
Uni e sidade Fede al de Viçosa, Especialis a em Di ei o U banís ico e Ambien al pela Pon i ícia
Uni e sidade Ca ólica de Minas Ge ais (PUC Minas) e Dou o anda em Planejamen o U bano e
Regional pelo Ins i u o de Pesquisa e Planejamen o U bano e Regional da Uni e sidade Fede al do
Rio de Janei o (IPPUR/RJ). A ua como pesquisado a no Labo a ó io de Es udos das T ans o mações
do Di ei o U banís ico (LEDUB-IPPUR/RJ) e ambém é ep esen an e do Ins i u o dos A qui e os
do B asil- Núcleo Zona da Ma a e Ve en es no Conselho Municipal de Habi ação de Juiz de Fo a
(CMH/JF). A ua nas emá icas de polí icas de habi ação social, ges ão pública de á eas de social
in e esse especial e egula ização undiá ia.
Ma iana Domina o Ab ahão Cu y. A qui e a e U banis a, Mes e em U banismo pelo P og ama
de U banismo da Uni e sidade Fede al do Rio de Janei o (PROURB/UFRJ), e dou o anda pelo
P og ama de A qui e u a e U banismo da Uni e sidade Fede al de Viçosa (PPGau/UFV). É
p o esso a adjun a da Faculdade de A qui e u a e U banismo da Uni e sidade Fede al de Juiz de
Fo a (FAU/UFJF) e pesquisado a do Labo a ó io DOMVS, con ibuindo com es udos ace ca das
elações pessoa-ambien e, com ên ase na c iança e na mulhe , e pesquisas no âmbi o da cidade,
co elacionando memó ia e gêne o, a pa i de emas como di ei o à cidade e pa imônio cul u al.