A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 26, nº 57.
Te ce cua imes e de 2024. Pp. 91-112. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2024.i57.04
Huizinga, udo é “play” ou de como
udo, a inal, pode se “ also-play”: alguns
p oblemas
Huizinga, e e y hing is “play” o how
e e y hing, a e all, can be “ alse-play”: a
ew p oblems
Paulo An unes1
Cen o de É ica, Polí ica e Sociedade (CEPS-Uminho,
Po ugal)
ORCID: h ps://o cid.o g/0000-0002-3603-0127
Recibido: 09-01-2024
Acep ado: 18-06-2024
Resumo
O p esen e a igo ai conside a alguns p oblemas da ob a de Huizinga,
Homo Ludens, onde oi p opos o o a o social “play” como cons an e e base da
ci ilização humana, en im, que “ udo é play”. A c í ica e á em con a pa e dos
p incipais a gumen os aí ap esen ados, o que esul a na análise do que se conside a
se uma con usão concep ual en e “play” e “game”, ou “ludicidade” e “jogo”; uma
con adição en e os p óp ios e mos do au o aquando de uma compa ação en e
um supos o “play” do passado e o que en ende se o do p esen e; e um engagemen
que se co- elaciona com os dois pon os an e io es. Com es e aje o, a hipó ese
huizingiana de um “ also-jogo” ambém de e ica escla ecida.
Pala as-cha e: Con lação, Cul u a, Eli ismo, Pue ilidade, Se iedade.
1 ([email p o ec ed]) In es igado in eg ado no Cen o de É ica, Polí ica e Sociedade
(CEPS), Uni e sidade do Minho. Pós-doc. inanciado pelo p oje o explo a ó io O In e esse
Público. Uma In es igação Polí ico-Filosó ica/The Public In e es . A Poli ico-Philosophical
In es iga ion (EXPL/FER-ETC/1226/2021; doi.o g/10.54499/CEECINST/00157/2018/CP1643/
CT0004), associado ao CEPS, 2024. Dou o em Filoso ia (bolsei o FCT: SFRH/BD/116938/2016)
pela Faculdade de Le as da Uni e sidade de Lisboa (FLUL), 2021. Memb o da Associação de
Filoso ia do Despo o em Língua Po uguesa (AFDLP).
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Abs ac
This a icle will conside some p oblems wi h Huizinga’s wo k, Homo Ludens,
in which he social ac o “play” was p oposed as a cons an and he basis o human
ci ilisa ion, in sho , ha “e e y hing is play”. The c i ique will ake in o accoun
some o he main a gumen s p esen ed he ein, esul ing in an analysis o wha is
conside ed o be a concep ual con usion be ween “play” and “game”, o “ludici y”
and “game”; a con adic ion be ween he au ho ’s own e ms when compa ing a
p esumed “play” o he pas wi h wha he conside s o be ha o he p esen ; and
an engagemen ha is co- ela ed wi h he wo p e ious poin s. Wi h his pa h, he
Huizingian hypo hesis o a “ alse play” should also be cla i ied.
Keywo ds: Con la ion, Cul u e, Eli ism, Pue ili y, Se iousness.
Ci iliza ion o-day is no longe played, and e en whe e i s ill seems o
play i is alse play – I had almos said, i plays alse, so ha i becomes
inc easingly di icul o ell whe e play ends and non-play begins. This
is pa icula ly ue o poli ics.
Huizinga (1949, p. 206)
In i s pu es exp essions, schola ship – o play o any o he opic –
occu s because people wish o unde s and he wo ld and he ex en
o human capabili y. […] so s udies o play ha e been esponses o
con empo a y conce ns and commi men s.
Hen icks (2015, p. 5)
1. B e e ap esen ação
O p esen e a igo ai conside a c i icamen e alguns aspe os da ob a de
Johan Huizinga (1872-1945) 2, Homo Ludens, acei e como a ob a undado a
do mode no es udo do(s) jogo(s) (Nguyen, 2017, p. 2), onde, po meio de
uma ese, no mínimo, “imagina i a” (Hen icks, 2006, p. 10), oi p opos o o
a o social “play” como cons an e e base da ci ilização humana. En im, de
ce a manei a, que “ udo é jogo”, ou o em na o igem.
A nossa p eocupação não se ai de e exclusi a nem p incipalmen e na
omnip esença da ca ego ia “play”, mas a pa i daí con a-se a ança pa a o
que nos pa ece se pa e dos p incipais p oblemas do ex o e que não êm
deixado de aze escola.
2 Es e pensado do século xx ainda é o his o iado nee landês mais lido e es udado, endo sido
p o esso de His ó ia na Uni e sidade de G oningen en e 1905 e 1915 e na Uni e sidade de Leyden
desde 1915 (Geyl, 1961, p. 231).
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Huizinga, udo é “play” ou de como udo, a inal, pode se
“ also-play”: alguns p oblemas
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An es de lá chega mos, omemos as seguin es ês no as, sem des enda
o essencial, elacionadas espe i amen e com cada um dos ês pon os que
ão a es udo.
O “play” em pa a o his o iado dos Países Baixos uma o igem “pu a”
que pe passa a sua o malidade pa a as di e sas a i idades humanas, desde
as a es à polí ica, à gue a, e aos demais a o es socias. Se á nas c ianças
que se ap esen a mais límpido, sem a mediação dos adul os, dado que es a
mediação pode aze do “play” um “ also-play”, como pa a o au o acon ece
na época con empo ânea ( e i icá el desde a p imei a insc ição que encima
o nosso ex o3).
Es e decai do “play” ambém se associa a uma “se iedade” que
começa a a oma con a da sociedade 4, se ia o caso da p o issionalização
do despo o ou da pe da de “ ai play” na polí ica. P. ex., nes a deixa am-
se os modos de con enda alegadamen e sadios que e iam exis ido desde o
século x iii pa a ás, sob e udo no es ilo pa lamen a .
O pessimismo (1949, p. 191 ss.) que daí se ai ex ai – que po ezes
assume ons quási-apocalíp icos – ap esen a uma elação mui o especial
com o seu con ex o: Huizinga esc e ia em plena ascensão nazi na Alemanha,
e en o que o angus ia a, ao mesmo empo que epudia a, ao jei o da al a-
oda, a pa icipação das massas na ida quo idiana 5.
Mas Huizinga não ence a es a aje ó ia eó ico-polí ica sem
empecimen o concep ual, digamos assim, e é es e que nos ai guia nas
p óximas páginas. Com e ei o, a pa i de uma pa e das suas p incipais
ideias, a ás supe icialmen e ocadas, seguem-se esumidamen e os
ês momen os pa a exposição e c í ica, o que amos conside a uma
con usão concep ual en e “play” e “game”, ou “ludicidade” e “jogo”; uma
con adição en e os p óp ios e mos do au o aquando de uma compa ação
en e o “play” (sob e udo como é is o em e as ociden ais) no passado e
no p esen e; e um engagemen polí ico-ideológico que se co- elaciona com
os ou os dois pon os 6. Com is o, a hipó ese huizingiana de um “ also-
3 Ago a aduzida: «[a] ualmen e, a ci ilização já não se joga e, mesmo onde pa ece joga , é um
also jogo [ alse play] – eu quase inha di o, joga also de modo que se o na cada ez mais di ícil
dis ingui onde acaba o jogo e começa o não-jogo [non-play]. Is o é pa icula men e e dade no que
espei a à polí ica».
4 «Nunca uma época se omou a si p óp ia com uma se iedade mais po en osa. A cul u a deixou
de se “jogada” [played]». - «Ne e had an age aken i sel wi h mo e po en ous se iousness. Cul u e
ceased o be “played”» (Huizinga, 1949, p. 192).
5 Aí, no pe cu so seguido pelos eu opeus, encon a-se, segu amen e, o que o le ou a elogia o que
conside a a uma ce a “ingenuidade” ame icana na polí ica em elação à Eu opa (1949, pp. 207-208).
6 No que espei a sob e udo à nossa p eocupação com es e úl imo pon o, al ez nos encon emos
mais p óximos, con udo, sem emula o p oje o, da análise de Su on-Smi h (1997, p. 3), au o cuja ob a
se deb uça a sob e “os undamen os ideológicos das eo ias do jogo” ( he ideological unde pinnings
o play heo ies). Ou os au o es (DaCos a, 2014) ambém êm ele ado a impo ância de se pensa a
elação en e a ideologia e o despo o, os jogos, e c.
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jogo”, o ou o lado da moeda ao qual emos de i , ambém de e ica mais
bem escla ecida.
É empo de i mos a jogo.
2. “Play”, e imologia e “se iedade”: sob e uma con usão concep ual
Se emos concisos na exposição do que é o en endimen o de “play”
do nosso au o , a é po que não é apenas sobejamen e conhecido (ainda que
econheçamos que nem semp e seja consul ado na academia), como em sido
abo dado já po á ias ezes no campo da iloso ia (p. ex., Eco, 1985; Du lo,
1997, pp. 35-46; e Ke chum, 2018) 7.
Mui o apidamen e, podemos se in ei ados da sua noção de “play” po
es a passagem inaugu al:
O JOGO [play] é mais an igo do que a cul u a, pois es a, po mais
inadequadamen e de inida que seja, p essupõe semp e a sociedade humana,
e os animais não espe a am que o homem lhes ensinasse o seu jogo. [...] a
ci ilização humana não ac escen ou nenhuma ca ac e ís ica essencial à ideia
ge al de jogo (Huizinga, 1949, p. 1) 8.
Com es e exce o em pa icula , e a ob a no ge al, Huizinga p ocu a a
des aca uma dimensão cul u al humana que quase odos os ou os au o es
menosp eza am (seja concedido o seu mé i o), a que implica a p edisposição
pa a o “play” – como se pe cebe, mais ex enso do que apenas b incadei a,
ec eação ou ludicidade – en endendo-o an e io (e p opiciado ) à ci ilização e
igualmen e p esen e nou os se es i os.
No que conce ne a uma ab angência do “play” na humanidade, con i ma-se o
es o ço do au o , en e os capí ulos IV e X, pa a ap esen a a “ju isdição”, a “gue a”, a
“a e” (cénica, musical, e c.), a “li e a u a”, o “conhecimen o”, a “ciência”, a “polí ica”,
a “mi opoiese”, a “ iloso ia” e a “poesia” como pa e ou undadas po aquele.
Mas es e “play” é mais p op iamen e de inido como es ando den o de
ce os limi es ixos de empo e de luga , de aco do com eg as li emen e
acei es, ob iga ó ias, ixas e de o ma o denada. Ou seja, o au o az es ende
a um “play” endencialmen e mais espon âneo, uma dimensão o mal menos
espon ânea e mais elacionada com o jogo (game) “ins i uído”.
7 Não obs an e a alha -se caminho, aconselhamos a lei u a das páginas 11 a 20 de Hen icks (2006)
pa a uma sín ese mui o bem conseguida, e na u almen e mais ampla do que a nossa b e e exposição,
do se encon a de undan e no p imei o capí ulo de Huizinga (1949), conjugado com algumas ques ões
da es an e ob a.
8 «PLAY is olde han cul u e, o cul u e, howe e inadequa ely de ined, always p esupposes
human socie y, and animals ha e no wai ed o man o each hem hei playing. […] human
ci iliza ion has added no essen ial ea u e o he gene al idea o play».
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“ also-play”: alguns p oblemas
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Te ce cua imes e de 2024. Pp. 91-112. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2024.i57.04
Como se en e ê pelo elenco, os p oblemas com a p opos a de lei u a
his ó ico-cul u al de Huizinga começam quando se ins ala a con usão en e
es as duas dimensões da p á ica, en enda-se, humana. A con usão pa en eia-
se quando o au o , em bom po uguês, mis u a “alhos com bugalhos”, i. e.,
quando mis u a “play” com “game” 9, quando a “b incadei a”, o “jogue ea ”, a
“ludicidade”, e c., açamba cam a o alidade des e, do que é no malmen e mais
ins i ucionalizado, e endencialmen e eduzido às suas eg as ( a a-se de uma
p oblemá ica o malis a que amos deixa pa a ou o es udo).
Huizinga não dis ingue em nenhuma passagem en e o que pode se um e
ou o. Se o ex o o iginal alemão andou às ol as com “spiel” (jogo), a e são
inglesa u iliza quase semp e “play”, mesmo quando se espe a a “game” 10. Já
a adução po uguesa que consul ámos u iliza quase semp e “jogo” (Huizinga,
2003), al como ai apa ece na p óp ia e são nee landesa: «[s]pel is oude dan
cul uu » (1950, p. 28), cuja pala a pa a “jogo” colhe e iden es semelhanças
com a alemã (Spiel is ӓl e als Kul u , 1938, p. 9) 11.
E não é que o au o não econheça momen os de uma di e ença, pois ai
ap esen a o que é a sepa ação de “play” e “game” em quase odas as línguas
de ele o, desde o g ego an igo, ao sânsc i o, ao chinês, ao japonês, ao á abe
e heb eu, inclusi e ao algonquino (língua ame índia), só que, pe an e es a não
in eg ação dos e mos, con as a a língua que acabou po os in eg a , o la im,
cujo e mo “ludus” (lúdico), de “lude e”, aba ca dos jogos in an is, à ec eação,
aos concu sos, às ep esen ações li ú gicas e ea ais, aos jogos de aza , e assim
po dian e (1949, p. 35).
Não obs an e o que conside a um ace o la ino, Huizinga (1949, p. 36)
é le ado a lamen a que es e aspe o não enha passado pa a as línguas que o
segui am, acabando po se subs i uído po um de i a i o de “jocus”, ainda do
9 Eco (1985, pp. 292-293), chama a a enção pa a a mis u a de uma pe o mance que pode á i de
um ipo de “joga -se” com o “jogo” que no malmen e é mais abs a o.
10 E às ezes é o e e so, espe a-se po “play” e apa ece “game”: «[a] p o a [con es ] em
odas as ca ac e ís icas o mais e a maio pa e das ca ac e ís icas uncionais de um jogo». - «[ ]
he con es has all he o mal and mos o he unc ional ea u es o a game» (Huizinga, 1949,
p. 48). Não é que não possamos en ende que a “p o a” ou “compe ição” assim se possam
enquad a , mas o au o p e ende man e o que conside a a unidade en e o “con es ” e o “play”, e
aqui á-lo a a és do e mo “game”.
11 Ap o ei amos pa a aqui o escla ecimen o que é ei o pelo adu o da ob a de Sui s (2017, pp. 7-8
n.), cuja ad e ência de ia se mais ezes emulada em ex os que ap esen am as mesmas di iculdades:
«[o] e bo o play não em uma equi alência pe ei a em po uguês, dado que é ambíguo en e
di e sos ipos de ac i idade que, oda ia, êm em comum o aspec o lúdico da acção (pode signi ica
“joga ”, “ oca ” um ins umen o, “b inca ”, e c.). Assim, o lei o de e e em men e es a ambiguidade,
pa a se o ien a , à medida que, em cada si uação especí ica, enhamos de op a po aduzi play o a
po “lúdico”, “ac o lúdico”, “joga ”, “b inca ”, “jogue ea ” ou po qualque cons ução que se ajus e
melho ao caso e o ne o ex o mais comp eensí el». Num sen ido não mui o dis an e a é podemos
dize que a p óp ia adução po uguesa de Homo Ludens denuncia a con usão: «[ ]oda a ob a [Homo
Ludens] i e da polissemia da pala a “jogo”, que se á u ilizada semp e que possí el, ainda que, po
ezes, se imponha o ecu so a pala as como “b inca ”, “ oca ” e ou as do mesmo campo semân ico»
(Huizinga, 2003, p. 17 n.).
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Te ce cua imes e de 2024. Pp. 91-112. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2024.i57.04
la im, mais associado ao g acejo e ao gozo, o qual, segundo ele, já não cap a ia
a mesma amplidão de sen ido 12.
A despei o do in e esse que possa e um deba e e imológico, às páginas
an as podemo-nos des ia , como julgamos e acon ecido com o au o , e deixa
de pe cebe que a língua, as pala as como são u ilizadas e comp eendidas,
e le em um modo de ida e uma sociabilidade que az de i a um modo
de comunicação. Que dize , não é po uma língua se exp essa de uma
de e minada manei a ace ca do “play” que az des e o que é, pois es e se á
alguma coisa que pode se melho ou mais mal exp essa, e a língua ai-se
adap ando e ap oximando (quando não se a as a).
Huizinga a é pode e is o p esen e, mas pe de-se um pouco nos labi in os
e imológicos 13. Uma ez pe dido, ou a das ques ões que nos pa ece que o le ou
a não ace a ealmen e no pon o oi o descu a do uso me a ó ico pa a a maio
pa e dos seus exemplos, quando de ia simplesmen e op a pelo escla ecimen o
de uma dimensão dis in a en e o “play” e o “game”, não deixando ambos de se
c uza (no mínimo, es as duas dimensões de em se is as como dois conjun os
que, ep esen ados po um diag ama de Venn, se in e se am) 14. É e dade que
o indica uma ou ou a ez, mas quase semp e pa a dize que a sepa ação do
“play” da cul u a é que se o na alegó ica e não pa a indica que a sua ex ensão
à quase o alidade dos e en os cul u ais é que pode se uma me á o a.
É imos e alego ias à pa e, o p oblema é mesmo concep ual, i. e., de
“ eo ia do jogo”. No seu caso, ei e amos, ele ap esen a uma conceção que não
em bem assen ado do que es á a ala (en enda-se, ainda assim, que o p oblema
não é necessa iamen e um p oblema “lógico” ou me amen e de ini ó io,
pois nem semp e uma concep ualização apu ada aduz-se numa eo ia com
co espondência eal, embo a ajude).
É, po isso, que se é egula men e con on ado com compa ações en e o
jogue ea das c ianças, ou a b incadei a (play) des as, e uma pa ida de xad ez,
en enda-se, de um “game”, “jogo”, e passagens como es a acabem po não
12 S eine (2003, pp. 9 e 12) des aca os echos huizingianos sob e es e assun o como o que pa ece
e ei o eme gi nele o “ ilólogo do indo-eu opeu”, mas ambém, sem pejo na aspe eza, ap esen a as
suas incu sões linguís icas e e imológicas como “p óp ias de um amado ”.
13 Po isso, icamo-nos po aqui: há um bom mo i o pa a a e olução das línguas no sen ido de,
man endo a exis ência de “play” (lúdico, como p e e imos en ende ), da isibilidade e des aque a
“joga /jogo”, “spielen/spiel”, “joue /jeu”, “juga /juego”, e c., como no passado, nou as línguas, se
dis inguiu as duas dimensões, que no inglês “play” ou “ o play” podem-se con undi caso não se
ecupe e (ou p oposi adamen e se exclua) a pala a “game”. É cla o que os p oblemas, depois, podem
se ou os, po exemplo, al a pode conjuga qualque coisa como “ludica ”. Es a ques ão é ele an e
po que é no malmen e pelo inglês que melho se dis ingue cada um des es concei os, uma ez que as
ou as línguas êm endido pa a a iações de joga pa a “ o play”, e en am em di iculdades quando
que em ala de “play” num sen ido “lúdico”, “ ec ea i o”, e c. (p. ex., Tekinbas; Zimme man, 2004,
p. 72; e Hu ka, 2019, p. 17). Huizinga usou “play”, mas não delimi ou minimamen e a sua u ilização.
14 Eis um exemplo, a p opósi o dos “dilemas” se i em pa a es uda o compo amen o humano: «[o]
s jogos são, a inal, um espelho da p óp ia ida» (Deulo eu, 2010, p. 40, e, pa a maio ap o undamen o
da ques ão do “jogo” ou do “joga ” e da “me á o a”, Hen io , 1989).
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Huizinga, udo é “play” ou de como udo, a inal, pode se
“ also-play”: alguns p oblemas
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su p eende : «[a] a ena, a mesa de ca as, o cí culo mágico, o emplo, o palco,
o ec ã, o campo de énis, o ibunal de jus iça, e c., são odos, na sua o ma e
unção, pa ques de jogos […]» (Huizinga, 1949, p. 10) 15.
Se apelida es e exe cício de “con usão” pa ece pouco muni icen e com
o au o , ejamos como ele (1949, p. 31) inclui o “agón” (dispu a), do g ego,
no malmen e associado à compe ição e ao ipo de “game” que se pode espe a , p.
ex., de uns jogos olímpicos, den o da es u u a o mal do “play”, assemelhando
a sua unção a um “ es i al”: ou udo é “compe ição” ou oda a compe ição é
es a. Mais à en e ambém ai dize (1949, p. 55) que o agonís ico é mais
incado na cul u a chinesa do que na g ega e com isso p e ende p o a que
aí ambém se expõe mais e iden emen e o ca á e lúdico (ludic cha ac e ),
acabando, no apon amen o, po con lui “ludicidade” e “game” (onde coloca
e en os como a a essia de um io, a subida de uma mon anha, co a lenha ou
apanha lo es…) com maio ob iedade, pois já não se a a apenas de “play”.
O agonís ico e o an i é ico, no “play”, es ão dados desde o início (Huizinga,
1949, p. 75), es e é an e io à ci ilização e imp egna-se em inúme os exemplos
his ó icos daqueles elemen os 16, desde os gladiado es no coliseu ao po la ch,
dispu a indígena ame icana po ezes bas an e iolen a, ou seja, além de “play”
e “game” con luí em, ainda se podem con lui com a c ueldade 17.
Não obs an e a con lação (con la ion, Ca lson, 2011, pp. 75 e 81-84) dos
concei os em causa, Huizinga ambém ope a a dis inções, só não é a que emos
p opugnado. E.g., o au o ensaia (1949, pp. 44-45) uma oposição (ainda que
pouco con incen e) en e “play” e “ea nes ” (se iedade) ou “wo k” ( abalho),
en endendo que o p imei o é posi i o, e, o segundo, nega i o: o signi icado
de “ea nes ” de ine-se e esgo a-se pela negação de “play”, como “não joga ”,
e pouco mais. O signi icado de “play”, po ou o lado, não é de modo algum
de inido ou esgo ado pelo ac o de se chamado de “não-ea nes ” ou “não
sé io” (no se ius).
15 «The a ena, he ca d- able, he magic ci cle, he emple, he s age, he sc een, he ennis cou ,
he cou o jus ice, e c., a e all in o m and unc ion play-g ounds […]». Mais à en e a pança ai
engo dando, e os exemplos a olumam-se: «[o] el ado, o campo de énis, o abulei o de xad ez e a
malha de pa imen o não se dis inguem o malmen e do emplo ou do cí culo mágico». - «The u ,
he ennis-cou , he chessboa d and pa emen -hopsco ch canno o mally be dis inguished om he
emple o he magic ci cle» (Huizinga, 1949, p. 20). O “cí culo mágico” co esponde ao momen o,
o a da ealidade habi ual, em que os en ol idos ade em e es ão no “play”.
16 S eine (2003, p. 9) ai indica que se p essen e nes as passagens a in luência de “o nascimen o da
agédia” nie zscheana, de 1872, a p opósi o dos “elemen os agónicos” que se en endem aí p esen es
no c escimen o da ci ilização.
17 O psicólogo Bu gha d (2005, pp. 385-389) acei a-o pe ei amen e, inspi ado po um desaba o
de Da win, disse a sob e o “play” pode se c uel. Já um au o ecen e, Ebe le (2014, p. 228), cuja
publicação su ge numa suges i a e is a ame icana – Ame ican Jou nal o Play –, mesmo acei ando
em pa e uma linhagem huizingiana na abo dagem do ema, não deixa de e e i que a: «[…] aleg ia
ingida de c ueldade não é b incadei a [play]». – «[…] glee inged wi h c uel y is no play». C ., ainda,
Caillois, 1958: passim, que abo da á á ias ezes a iolência e o agón, e Eco, 1985, p. 294, que ai
comen a p ecisamen e o a o ame índio e e ido.
98 Paulo An unes
A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 26, nº 57.
Te ce cua imes e de 2024. Pp. 91-112. ISSN 1575-6823 e-ISSN 2340-2199 h ps://dx.doi.o g/10.12795/a auca ia.2024.i57.04
Pa a o nee landês, o “play” é uma coisa em si e, como al, é de uma o dem
supe io à “se iedade”, uma ez que es a p ocu a exclui o jogo, enquan o o
jogo pode mui o bem inclui a se iedade (na e dade, o “não-jogo” de e á
se o opos o – p enunciando-se a alsidade –, a “se iedade” ainda não o é
o almen e)18. No p óximo pon o amos e um pouco melho como é que es a
ques ão se desen ol e.
Compos o o apa a o, o que imos iden i icando como “con usão
concep ual” p a icamen e se au op omo e quando o p óp io au o admi e que
de ine melho a ideia de “play” como “uma unção do jogo (play) – a unção
lúdica (ludic unc ion), de ac o” (1949, p. 28) 19. A inal de con as, em que é que
icamos em e mos e imológicos e sé ios? Pa a não e oca e mos cul u ais que
e am o que no undo es a a em causa. É de um “play” incipien e e p imei o ou
de um “game” o malizado que se a a?
Es a con usão i á a con ibui pa a uma con adição em Homo Ludens
(deixando pa a ou o abalho o que há de con adi ó io en e um “play” odo-
aba can e e o seu p óp io o malismo, en e ou os aspe os). Po sinal, Huizinga
começa a con adize -se quando, mais à en e, começa a ap o unda es es
mesmos dados como pa e o mal de um “ also-jogo”: o que oi ou pode e
sido is o como “play”, p epa a-se pa a deixa de o se .
3. Do passado e do p esen e do “play”: a con adição huizingiana
Depois de expo odos os a o es sociais como “play”, Huizinga ai a ança ,
no capí ulo xii, com o ma e ial que jus i ica o seu pessimismo. Nes e espaço o
au o ai analisa as si uações que no passado se iam “play” (especialmen e
em ma é ia “despo i a”), mas ago a – no seu empo e a despei o da si uação
an e io – ou já não exis iam, ou exis indo, já não o e am, ou en ão e am “ alse-
play” (que se con unde com o “não-play”, eco de-se a epíg a e).
18 Aqui, Huizinga ap oxima -se da lei u a de Gua dini (1919, p. 151), eólogo alemão que,
inclusi e, a p opósi o da elação en e o “play”, o “ abalho” e a “se iedade”, ema a que “não se a a
de abalho, mas de jogo”. Ha emos de ol a a isa a sua compa ibilidade com es e au o .
19 A nossa posição ica mais bem compos a, com pa icula con eniência, se acei a mos – nem que
seja p o iso iamen e, pois nou o espaço ha emos de a deixa pelo caminho – a de inição de Sui s
(1978, p. 124) pa a “lúdico”: «[…] x es á a joga se e só se x i e ei o uma ea ec ação empo á ia
pa a a i idades au o élicas de ecu sos p ima iamen e a e ados a ins ins umen ais». - «[…] x is
playing i and only i x has made a empo a y ealloca ion o au o elic ac i i ies o esou ces p ima ily
commi ed o ins umen al pu poses», o que des apa com especial e idência o ac o de nem udo o que
é do âmbi o da ludicidade, pode se “jogo”, sob e udo se se i e em con a de que es e não é semp e
au o élico, às ezes nem mesmo na sua o malidade. A ques ão pode ica a umada com a seguin e
adenda, ace ca do que se pode a a ealmen e o des elo huizingiano: «[…] o in e esse de Huizinga
pelas ac i idades lúdicas, pelo homem nas suas ho as es i as, pe sis iu» (S eine , 2003, p. 8), ou
seja, mais uma ez o “jogo” não se pode con undi o almen e com a ludicidade, ou um “play” mais
gene icamen e omado, pois, como en endido, nem odo o jogo é ep esen an e de uma “ho a es i a”.
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Huizinga, udo é “play” ou de como udo, a inal, pode se
“ also-play”: alguns p oblemas
A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 26, nº 57.
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Huizinga (1949, pp. 195-196) in oduz a ideia de que «[…] o o neio,
com a sua encenação al amen e d amá ica e os seus ado nos a is oc á icos,
di icilmen e pode se conside ado um despo o [spo ]» 20, o que dis ingue o
ipo de e en os con empo âneos dos an e io es. Is o acon ece mesmo quando
dan es ele a é conside a a o ea o como uma o ma de “play”, passando ago a
a en ende que quando um “ o neio”, que dan es ambém e a quase “play pu o”,
se “d ama iza”, acaba a pe de a sua dimensão de “play”, quando, a é de aco do
com a sua p óp ia conceção ala gada, de e ia es a a ganha uma dimensão
suplemen a . Is o pa a não ala das a iações que a pala a cen al – “play” –
oi omando ao longo da ob a, endo passado nes as páginas a “spo ”.
Ainda a p opósi o do despo o, um dos seus p incipais p oblemas pode
se encon ado esumidamen e nes e exce o: «[...] o nou-se p o ano, “não
sag ado” [unholy] em odos os sen idos e não em qualque ligação o gânica
[o ganic connec ion] com a es u u a da sociedade, mui o menos quando
p esc i o pelo go e no» (1949, pp. 197-198) 21. A no a ace a despo i a
a aca a a dimensão i ualis a (li ú gica) do “play” que o au o iden i ica a
na base da ci ilização, a ligação da es u u a eligiosa de associação e c ença
de inha a. Face à expe iência mais imedia a, pode-se a i ma que, mais uma
ez de aco do com a sua p óp ia conceção, a “p o anidade” não de e ia pe de
o “play”, al ez es e apenas se laicizasse como as es an es á eas da sociedade,
e o p oblema de Huizinga e a não o acei a 22.
Po conseguin e, não é casual quando o au o (1949, p. 197) exclui o
despo o p o issional do âmbi o do “play”, á-lo po que o en ende como pa e
de uma “ea nes ” já não compa í el com es e. Ao in és, a nosso e , es a
condição de jogo – a p o issional – se ia pe ei amen e compa í el com uma
noção de “jogo” que se pe cebesse não con luída com uma lúdica 23.
20 «Now he ou namen , wi h i s highly d ama ic s aging and a is oc a ic embellishmen s, can
ha dly be called a spo ».
21 «[…] spo has become p o ane, “unholy” in e e y way and has no o ganic connec ion wha e e
wi h he s uc u e o socie y, leas o all when p esc ibed by he go e nmen ».
22 Já Caillois (1958, p. 150,1), ao deba e Huizinga, acei a pe ei amen e a secula ização que
pa a es e pa ece se pa e do p oblema, senão o p incipal: «[o] espí i o do jogo é essencial à cul u a,
[…] A sua unção social mudou, não a sua na u eza. A ans e ência e a deg adação que so e am
despoja am-nas do seu signi icado polí ico ou eligioso. Mas es a dep eciação só e elou, ao isolá-la,
o que con inham den o de si, que não e a ou a coisa senão a es u u a do jogo». - «Lesp i de jeu
es essen iel à la cul u e, […] Leu onc ion sociale a changé, non pas leu na u e. Le ans e , la
dég ada ion qu’ils on subie, les on dépouillés de leu signi ica ion poli ique ou eligieuse. Mais ce e
déchéance n’a ai que é éle , en l’isolan , ce qu’ils con enaien en eux qui n’é ai ien d’au e que
s uc u e de jeu».
23 Re omando a ques ão da con usão, es e é mais um dos sin omas, pois quando ele opõe o
despo o mode no ao jogo medie al de ia en ende a sua elação como a de um an epassado e o
seu desen ol imen o, em ez de uma con aposição absolu a. Fomos da com o mesmo p econcei o
em Caillois (1958, p. 36,4): «[q]uan o aos p o issionais […], [es es] não se de em enca a como
jogado es, mas como indi íduos em o ício. Quando jogam, é a ou o jogo qualque » - «Quan aux
p o essionnels […], il es clai qu’ils ne son pas en ceci joueu s, mais hommes de mé ie . Quand ils
jouen , c’es à quelque au e jeu», asse ção que ai ao cúmulo de dis ingui po comple o o mesmo
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sen imen o de supe io idade do au o , que expunha o seu acin e po uma
democ acia ala gada, e á o seu zéni e no seguin e agmen o (1949, p. 205):
Vimos g andes nações pe de em oda a hon a, odo o sen ido de humo , a p óp ia
ideia de decência e de ai play. Es e não é o luga pa a in es iga as causas,
o c escimen o e a ex ensão des a bas a dização mundial da cul u a; a en ada
de massas semieducadas no á ego in e nacional da men e, o elaxamen o da
mo al e a hipe o ia da écnica desempenham, sem dú ida, um g ande papel 38.
A “pue ilidade” é, assim, um chapéu que alguém (Huizinga ga an idamen e)
do al o da sua “ o e de ma im” p ocu a es i a quem não se ajus e a uma
de e minada manei a de pensa , e e en ualmen e p a ica , o “play”, digno das
mais al as classes, apesa de um en aizamen o p imi i o 39.
Assim se cos u a o engagemen que sob essai en elinhas em Homo
Ludens, com um eli ismo, pela ia do “p i ilégio” (quando menos, mais do
que pol ilhado po um pessimismo 40, é-o po um ipo de saudosismo po ezes
di ícil de cala em elação à e a p é-mode na – “a ida medie al es a a eple a
de jogos”, 1949, p. 179, melancoliza a 41), a pa i do qual o seu om conse ado
ambém se az pe cebe em algumas passagens 42. O que não que dize que um
38 «We ha e seen g ea na ions losing e e y sh ed o honou , all sense o humou , he e y idea
o decency and ai play. This is no he place o in es iga e he causes, g ow h and ex en o his
wo ld-wide bas a diza ion o cul u e; he en y o hal -educa ed masses in o he in e na ional a ic
o he mind, he elaxa ion o mo als and he hype ophy o echnics undoub edly play a la ge pa ».
Passagens como es a a é o colocam em linha com os “ eó icos da eli e”, como Pa e o, Mosca e
Michels, ainda em oga no seu empo e in luen es em di e sos mo imen os, mui as ezes pessimis as,
eu opeus. En e ou as coisas, eles na u aliza am a di isão en e massas e eli e. Ainda que uma
ligação, en e o au o e es es eó icos, não enha sido es abelecida pelos seus c í icos (no a 32), há
ideias que são cons i u i as: o go e no po uma eli e, ou oliga quia, é ine i á el como uma “lei de
e o” (Michels, 1911, pp. 377-392).
39 Romein (apud Geyl, 1961, p. 256) ambém denuncia como Huizinga endia a ala con inado na
anquilidade do seu p óp io es udo.
40 Poe icamen e sin e izado po S eine (2003, p. 10): «Homo Ludens echa com uma no a de
is eza: as nin as e os pas o es já não dançam».
41 Nou as pala as, Geyl (1961, p. 236) indica-o como um “passado idealizado”. Mas podemos
mui o bem es abelece um pa alelo com o ipo de “saudosismo” que igo ou na o ma de um
mo imen o es é ico em Po ugal, a é pe o dos anos de 1920, al ez Huizinga só não acompanhasse
a emá ica ácica, ou possamos subs i ui “ ácico” po “play”: «[e]u c eio num des ino messiânico da
minha aça, e sin o, po isso, Saudade. […] É p eciso que o po o, sin e izado numa éli e, encon e nela
os seus ins in os ácicos con e idos em conscien es ideias de inidas, o ien ado as de uma no a acção
polí ica e social» (Pascoaes apud Ba a a-Mou a, 1998, p. 202).
42 Se imo-nos do seguin e pa a o ilus a : «[a]ssim, o século XIX é is o pelo seu pio lado. Mas
as g andes co en es do seu pensamen o, independen emen e da o ma como e am is as, e am odas
inimigas do a o lúdico na ida social. Nem o libe alismo nem o socialismo lhe de am qualque
alimen o». - «Thus he 19 h cen u y seen om i s wo s side. Bu he g ea cu en s o i s hough ,
howe e looked a , we e all inimical o he play- ac o in social li e. Nei he libe alism no socialism
o e ed i any nou ishmen » (Huizinga, 1949, p. 192). O que não deixa de se cu ioso, no mínimo, que
um dos seus compa io as, Nieuwenhuys (1969, pp. 140-141; Ke chum, 2018), mili an e de esque da,
enha e i ado uma “u opia” a pa i do que chama a – inspi ado po Huizinga – de o “mundo do homo
ludens”, do se humano jogado , capaz de se i pa a uma “no a Babilónia”. Tal ez i esse c uzado a
sua lei u a de Homo Ludens com ou os ex os de Huizinga, pois de ou os ex os – p. ex., He s ij de
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Huizinga, udo é “play” ou de como udo, a inal, pode se
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pon o de is a socialmen e engajado seja um p oblema em si, o “obje i ismo”
absolu o é um exe cício assaz di ícil (ou impossí el) de conc e iza , mas
a ques ão p ende-se em como a sua pe spe i a não oi decla ada e no modo
como in luiu (mais uma ez p opendendo pa a a con adição e a é con usão) no
con eúdo, e.g., não ica in ei amen e cla o que ipo de elação a “pue ilidade”
pode e com a “se iedade”.
5. Des alda da bandei a axad ezada: no as inais
Chegados aqui, podemos concede que Huizinga (1949, p. 208) não es a a
in ei amen e ce o de que o “play” osse acaba de ez, dado que a “ alsidade”
do jogo não o impedia o almen e. Mas, na mesma medida em que ala gou
(con undiu) os c i é ios, ambém se expôs a uma con adição na sua análise
compa a i a, e elando o seu en iesamen o posicional 43.
É po que o au o con unde o “play” com o “game” que con adiz o
p imei o, especialmen e quando se depa a, en e ou as ques ões, com o
despo o mode no, “sé io” e massi icado, e o opõe ao seu ideal de “play”, e
á-lo decisi amen e a pa i de uma de e minada dis-posição social. Quando,
e dadei amen e, es á semp e a ala do mesmo, da ludicidade ine en e (a uma
pa e) das elações in e pessoais humanas em sociedade, com mais ou menos
“game”, obscu ecida po um ipo de “play” odo-aba can e, que não des inça
o obje o de uma me á o a sob e o p óp io (ao que se pode aplica a in uição, se
algo é udo, logo, se á nada) 44.
De pouco se e ao au o acei a o desen ol imen o his ó ico-cul u al
ans o ma i o, p ocessual, quando acaba po de ende uma noção de “play”
que de e ia e suspendido esse desen ol imen o, ainda pa a mais na sua o ma
a is oc a izada.
Fal ou-lhe pe cebe ambém que a a i ude pe an e o “play”, o modo de es a
e de di e são não em semp e os mesmos p o agonis as, nem as mesmas o mas
Middeleeuwen (1919), al ez a sua ob a mais amosa, mais a de aduzida pa a inglês, The Waning
o he Middle Ages (1924) – seguem-se in uições como es a, mas depois abandonadas pelo p óp io,
que omamos de emp és imo: «[…] o jogo cul u al é a o ma assumida, ace à p essão económica não
esol ida, pela mis i icação ideológica das classes hegemónicas, que p oje am num ideal (ludicamen e
i í el) a pe eição que enunciam a ealiza no conc e o social». - «[…] il gioco cul u ale è la o ma
che assume, di on e alla p essione i isol a dell’economico, la mis i icazione ideologica delle classi
egemoni che p oie ano in un ideale ( i ibile ludicamen e) la pe ezione che inunciano a ealizza e
nel conc e o sociale» (Eco, 1985, p. 290).
43 Em pa e, é is o que Tekinbas e Zimme man (2004, p. 75) p e endem elucida quando indicam
que a gene alidade inclusi a da de inição de Huizinga é a sua maio aqueza, não dis ingue, en e
“play” e “game” e que alguns elemen os da sua p opos a es ão “in imamen e ligados à agenda
ideológica” de Homo Ludens.
44 Es as ques ões en elaçam-se com uma dimensão “me a ísica”, especula i a, que amos p e e i
discu i nou o espaço, com maio de alhe.
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de se , ainda quando a “ ec eação” e o “jogo” possam se idên icos. Toda ia,
o que pa ece se ce o é que o ipo de “play” que Huizinga p e ende essal a ,
não apenas pode encon a um aço desde empos a caicos a é à bu ona ia
a is oc á ica, pelo menos a é ao século x iii, como se man ém depois disso,
em ez de (não ão) es anhamen e se pe de quando as “massas” começam
a “joga ” o mesmo “jogo”. Sabe-se que es as umas ezes desequilib am o
abulei o, ou as, equilib am, mas quase semp e p o ocam o a emesso do di o
po pa e daqueles que exaspe am pela sua pa icipação, e es e pode á se um
exemplo disso – lemb emos como o coloca a, alando de uma “bas a dização
mundial da cul u a” 45.
Apesa de udo, o nosso obje i o não oi exclusi amen e polí ico (ou
ideológico), só que a polí ica pa ece es a em su dina do p incípio ao im
da ob a huizingiana, e isso me eceu o nosso empenho analí ico e c í ico. A
es e espei o podemos ecupe a a segunda epíg a e, a a és da qual o au o
que a edige lemb a a – jus amen e enquan o comen a a Huizinga – que
“os es udos sob e o jogo êm sido espos as a p eocupações e comp omissos
con empo âneos” 46, e, inclusi e, como o nosso au o ale a a pa a as
ques ões ace ca de um declínio do “play” se em “pa icula men e e dade
no que espei a à polí ica”.
Po ce o, não se a ou somen e de denuncia o ca á e eli is a, com os
con o nos iden i icados, e que é an as ezes esquecido 47, e se a ques ão não
pode se colocada como a de um “não-jogo” ou “ also-jogo” apenas com os
a aiais assen es em Homo Ludens – a inal, nem udo o que exis e hoje pode
se “ also-play” – 48, ambém não se pode undi concei os de na u eza eal
di e sa ou pa cialmen e conjugá el, nem passa a e um e en o es u u ado
45 Tal como o insuspei o Eco (1985, p. 298) indica, com Ma x e a possí el o abalho desmasca a
as eg as do jogo da me cado ia-dinhei o, mas em nenhum momen o Huizinga se ap oximou des e
ipo de análises ou me á o as. E e i amen e, ele (1936, p. 17) en endia a e olução como uma
“ameaça” lançada pelo Ma xismo.
46 Não deixando de se elucida i a a p imei a pa e da ci ação, ago a igualmen e aduzida: «[n]as
suas exp essões mais pu as, o es udo – do jogo ou de qualque ou o ema – oco e po que as pessoas
desejam comp eende o mundo e a ex ensão da capacidade humana».
47 Es e ipo de exe cício de “ol ido” apa ece em á ias lei u as, além da que já imos na no a 41,
e.g., encon a-se em Russell e al. o que nos assoma como ac í ico – no sen ido de uma exposição
à supe ície do ma e ial, sem ques iona pelos seus undamen os –, acabando po se acei a o
en endimen o huizingiano sob e a elação en e o “play” e a “ iloso ia” (Huang; Ryall, 2018, p. 81);
Skwe es (2017, pp. 7-9) ap esen a semelhan e desempenho quando p ocu a ecupe a e elaciona o
homo ludens com a ilmog a ia ame icana; e nem ale a pena ap o unda como o nee landês oi ão
in luen e nos mo imen os a ís icos que p ocu a am escapa ao homo abe , sendo o su ealis a uns
dos p incipais, ou como a é os si uacionis as se deixa am inspi a pelo homo ludens (Pede son, 2021,
pp. 39, 41 e 73).
48 É acilmen e pe cebí el que nem udo é “play” ou seque “game”, mas c emos que, pa a
e ei os elacioná eis com o que pode não se “play”, ou que se ap esen a como al, se á mais álida
a de inição de “pseudojogo” (Deulo eu, 2010: p. 63) do que a de “ also-jogo”, pois en ende-se
imedia amen e assumido que se a a de algo que se az passa po “play”, sem “pseudo” acusações de
uma “se iedade” ou a ibuições a uma “pue il pos u a”, e ainda menos com in enções odo-aba can es.
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po eg as em odo o lado (passe o o malismo, só pa a e ei os de uma dis inção
ins an ânea) 49. Aqui, a ou-se, ou ossim, de um exe cício de e isi ação pa a
acla a /decla a que o “game” es á bem i o en e nós, o “play” igualmen e e
odos os campos em que ambos se c uzam. Com e ei o, não se á como Huizinga
o en endia.
Em ema e, a ancando do seu con ex o um agmen o de Eco (1985, p.
288), es amos con ic os de que «[…] Homo Ludens é uma p omessa suge ida e
não o mulada, além de que não man ida» 50, po quan o ainda que nem udo seja
c i icá el e supe á el, podendo apa ece passim algo que man enha alidade
concep ual e p á ica, no essencial, a “ eo ia (especula i a) do jogo” huizingiana
e á de colapsa pe an e os p oblemas que omos le an ando (nem que seja po
ele não aze uma eo ia do jogo, mas uma eo ia do compo amen o lúdico, ao
que um equi ocado “play” não se exime 51). Cabe a quem se in e essa pelo ema
(de p e e ência, in e disciplina men e 52) e- o mula o que seja e o mulá el,
des-eli iza , mais do que p ome e .
49 Fica o nosso comp omisso de ol a mos ao ema pa a expo mos com o me ecido de alhe uma
noção de “play” e “game” que não se ique essencialmen e pela ecusa da sua con lação absolu a, ou,
aqui e ali e sin e izando, iden i ique o p imei o mais com um momen o social es u u ado, e o segundo
com a ec eação, a b incadei a, e c.
50 «[...] Homo ludens è una p omessa sugge i a e non o mula a, ol e che non man enu a [...]».
51 P ecisamen e a p opósi o do nosso au o : «[n]ão se a a de uma eo ia do jogo, mas de uma
eo ia do compo amen o lúdico». - «Non a una eo ia del gioco, ma una eo ia del compo amen o
ludico», (Eco, 1985, p. 291).
52 Com a sal agua da de que não se apela ao que Hen icks (2006, p. 4) denuncia quando e e e que
os académicos escu am uns e ou os com mui a a enção nos encon os in e disciplina es, mas depois
ol am pa a os seus p óp ios pa adigmas, ao in és, escu a-se o seu apelo pa a uma sín ese conjun a.
110 Paulo An unes
A auca ia. Re is a Ibe oame icana de Filoso ía, Polí ica, Humanidades y Relaciones In e nacionales, año 26, nº 57.
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