REVISTA ANDALUZA DE ANTROPOLOGÍA
NÚMERO 21: PERSPECTIVAS ANTROPOLÓGICAS SOBRE EL ESTUDIO DE LA CAZA RECREATIVA
ANTHROPOLOGICAL PERSPECTIVES ON RECREATIONAL HUNTING
DICIEMBRE DE 2021
ISSN 2174-6796
[pp. 103-122]
h ps://dx.doi.o g/10.12795/RAA.2021.21.06
CAÇA E CONSERVAÇÃO NO PANTANAL BRASILEIRO: O
CASO DA ONÇA-PINTADA
HUNTING AND CONSERVATION IN THE BRAZILIAN
PANTANAL: THE CASE OF THE JAGUAR
Felipe Süssekind
Pon i ícia Uni e sidade Ca ólica do Rio de Janei o
RESUMO
O pon o de pa ida pa a es e a igo é um b e e ela o de iagem ao Pan anal do Ma o
G osso do Sul, no B asil, a uma azenda que ab iga a um canil especializado na cap u a
de onças-pin adas pa a es udos cien í icos. Um luga onde a pecuá ia coexis e com o
eco u ismo e com p oje os de conse ação da biodi e sidade. O diálogo en e o ma e ial
e nog á ico que ap esen o e alguns egis os e documen os disponí eis sob e a his ó ia
da azenda e ela di e en es camadas das elações egionais com as onças, con as ando
o animal conside ado noci o no passado com a espécie ameaçada que a ualmen e é
oco do in e esse conse acionis a. O obje i o é e le i sob e con as es e composições
possí eis en e a i idades ligadas à biologia da conse ação e cos umes ligados ao modo
de ida pan anei o, endo como pon o de pa ida uso de cães a ejado es pa a cap u a de
animais em es udos cien í icos
Pala as-cha e: Caça; Conse ação; Onça-pin ada; Pan anal; Coexis ência humano-
auna; Cães de caça.
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ABSTRACT
The s a ing poin o his a icle is a b ie epo o a ip o he Pan anal o Ma o G osso
do Sul, B azil, o a a m ha was home o a kennel specialized in cap u ing jagua s
o scien i ic s udies. I is a place whe e li es ock a ming coexis s wi h eco ou ism
and biodi e si y conse a ion p ojec s. The dialogue be ween he e hnog aphic
ma e ial I p esen and some a ailable eco ds and documen s abou he his o y o he
a m e eals di e en laye s o egional ela ions wi h jagua s, con as ing he animal
conside ed ha m ul in he pas wi h he endange ed species ha is cu en ly he ocus o
conse a ion in e es . The objec i e is o e lec on possible con as s and composi ions
be ween ac i i ies ela ed o conse a ion biology and ac i i ies ela ed o he Pan anal
adi ional way o li e, ega ding he use o hun ing echniques wi h hounds o cap u e
animals in scien i ic s udies
Keywo ds: Hun ing; Conse a ion; Jagua ; Pan anal; Human-wildli e coexis ence;
Hounds.
INTRODUÇÃO
Em ma ço de 2006, depois de alguns con a os ia e-mail, iz uma p imei a iagem ao
Pan anal pa a conhece um p oje o de conse ação desen ol ido pelo Ins i u o Onça-
Pin ada (IOP) no Município de Aquidauana, no Ma o G osso do Sul1. O p oje o e a
sediado na Es ância Caiman, azenda de 57 mil hec a es onde a c iação de gado coexis e
com o eco u ismo e com di e en es a i idades ol adas pa a a conse ação da ida
sel agem. Pan anal é nome que se dá, no B asil, ao bioma compos o pelas planícies
alagá eis da bacia do io Pa aguai, no ex emo oes e do país. Reconhecido pela eno me
biodi e sidade, a a-se de uma egião conside ada pela Unesco como Pa imônio
Na u al Mundial e Rese a da Bios e a. Pa a a conse ação da onça-pin ada (Pan he a
onca), em pa icula , o Pan anal é uma á ea c í ica na medida em que ab iga um dos
úl imos g andes emanescen es populacionais de uma espécie al amen e ameaçada pela
p essão an ópica no e i ó io b asilei o2.
1. O Ins i u o Onça-Pin ada, com sede em Goiás, oi undado po Leand o Sil ei a e Anah Te-
eza de Almeida Jácomo em 2002. h p://jagua .o g.b /.
2. A espécie é quali icada como “quase ameaçada” pela União In e nacional pa a a Conse ação
da Na u eza, e “ ulne á el” pela lis a e melha do Ins i u o B asilei o do Meio Ambien e.Ve , a
esse espei o: h ps://www.icmbio.go .b /po al/images/s o ies/biodi e sidade/ auna-b asilei a/
a aliacao-do- isco/ca ni o os/on%C3%A7a-pin ada_Pan he a_onca.pd .
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O IOP in es iga a ques ões elacionadas à die a, ao uso do e i ó io e ou os aspec os
do compo amen o das onças3 nes a egião, a pa i p incipalmen e de equipamen os de
ádio- eleme ia e a madilhas o og á icas. A cap u a de no os animais pa a colocação de
cola es de ádio mobiliza a não só a equipe do p oje o, mas ambém oda a comunidade
da azenda. Vi encia de pe o uma en a i a de cap u a signi icou, pa a mim, na ocasião,
uma iniciação meio ab up a ao abalho de campo pa a minha ese de dou o ado, na qual
p ocu a ia abo da a conse ação da onça-pin ada de uma pe spec i a an opológica.
Fazendas com milha es de cabeças de gado se es endem po quase odo o Pan anal,
e a Es ância Caiman ab iga a um ebanho com ce ca de 34 mil cabeças de gado em
2006, no momen o em que isi ei a azenda. A p odução de gado de co e é o mo o
de oda a economia pan anei a, ligada a uma das indús ia mais o es do ag onegócio
no B asil, a indús ia da ca ne bo ina. A escala indus ial da p odução da pecuá ia
con as a a, en e an o, com a simplicidade da pequena comunidade u al. Um sis ema
conec ado ao capi alismo indus ial de g ande escala em icção com os cos umes e
p á icas locais4. Os mo ado es da Es ância Caiman –incluindo aquei os e suas amílias,
adminis ado es, écnicos, mo o is as e odo o pessoal ligado ao eco u ismo– i iam em
pequenas comunidades conec adas po es adas e ia ádio. Além da sede, onde ica a a
ila p incipal, ha ia na azenda ou o qua o pequenos núcleos amilia es, ou “ e i os”,
cada um deles esponsá el po uma pa e do gado da azenda5.
Fui ap esen ado ao Ins i u o Onça Pin ada po duas pesquisado as ligadas à medicina
e e iná ia, Ma iana Fu ado e Cyn ia Kashi aku a. Um dos aspec os do p oje o de
pesquisa na azenda en ol ia o es udo da in e ação en e animais domés icos e sil es es
a pa i da ansmissão do as eamen o de doenças in ecciosas, o que dependia da cole a
de amos as biológicas das onças. Uma cap u a es a a sendo p epa ada po elas, e no
dia seguin e à minha chegada acompanhei a equipe do p oje o ao Canil Jagua e ê, no
qual e am c iados cães especializados em segui o as o das onças-pin adas. A caçada
p a icada no Pan anal é baseada no uso de cães a ejado es, “oncei os”, e pude pe cebe
3. O e mo não ma cado “onça” se e e e, em ge al, no B asil, à onça-pin ada (Pan he a onca).A
pala a “jagua ”, usada mais a amen e no po uguês, em o igem em idiomas indígenas
upi-gua ani, alados no B asil em ou os países sul-ame icanos. Éu ilizada na maio pa e
das Amé icas, inclusi e nos países alan es do inglês, mas cu iosamen e não no B asil, onde
p e alece o e mo “onça”, de o igem eu opeia. Sob e os mui os nomes popula es pa a designa a
espécie, e o abalho de Papa e o (2017).
4. F icção’ oi o e mo usado po Anna Tsing (2005) pa a desc e e a passagem do local ao
global, ou a in e conexão en e os luxos do capi al e as ecologias egionais.
5. Um e i o é um local a as ado da sede da azenda compos o po casas de mo ado es e, em
ge al, um ce cado, ou “manguei o”, onde se abalha com o gado, além de galpões, es ábulo e
ou as ins alações usadas pa a o abalho u al.
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logo de saída que a con e são des es –assim como de aquei os e an igos caçado es–
em agen es conse acionis as e a um assun o que en ol ia a essigni icação de alguns
cos umes adicionais.
1. CAPTURA
O caminho a é o Re i o No o, a 15 km da sede, oi pe co ido na caminhone e do
adminis ado da azenda, que a p incípio não ez mui a ques ão de se simpá ico.
“An opólogo? Têm mui o an opólogo aí pa a de ende os índios, mas nenhum pa a
de ende o azendei o”, me disse. Depois disso, en e an o, conco dou em da um
depoimen o pa a a minha pesquisa. Falando sob e o canil, comen ou que “an igamen e
um bom cacho o oncei o alia in e cabeças de gado, quando e a cacho o bom mesmo,
mes e”. Con ou em seguida que o a ô dele inha indo do Rio G ande do Sul pa a o
Pan anal. “Naquele empo inha mui a onça. E o gado e a c iado sem ce ca, udo no laço
e no be an e”. Po im ez uma e e ência ao “bagual”, o gado em es ado e al, “b abo”,
que exis ia na azenda no passado. O es a u o do gado bagual, como eu i ia cons a a mais
a de, e a ambíguo. Se po um lado ele podia se e e ido como um índice de abandono,
ou “a aso”, po ou o podia se uma on e de a i mação da iden idade pan anei a, uma
p o a de co agem lemb ada com nos algia.
A pequena ila do Re i o No o e a o mada po um conjun o de casas em o no de um
g ande cu al, ou “manguei o”, onde se abalha com o gado. Tinha dezoi o mo ado es
quando es i e lá, incluindo adul os e c ianças. Um ebanho de mais de dez mil cabeças
es a a sob os cuidados dessa pequena comunidade amilia . O manguei o é onde os
animais do ebanho são con ados, acinados, ma cados e pesados, sendo a p odução da
azenda come cializada pa a açougues e igo í icos nas cidades p óximas de Mi anda e
Aquidauana.
O abalho com o gado, con o me me explica am, é di idido em unções. O p aiei o é
quem cuida das casas e do ma e ial de mon a ia; o opei o, em ge al o mais no o do
g upo, é quem sai cedo pa a euni os animais de mon a ia (a “ opa”), “o p imei o a
aco da e o úl imo a do mi ”. O salgado de coxo pe co e a azenda colocando sal e
nu ien es pa a o gado. O campei o, po sua ez, é aquele que abalha à ca alo, na lida
diá ia com o ebanho. O capa az é o esponsá el pelo e i o e um dos campei os mais
elhos é o enca egado, o segundo no comando. A esposa do capa az é a esponsá el
pela “can ina”, localizada em um salão anexo à cozinha da casa do casal, onde aquei os
e ou os uncioná ios da azenda, assim como pesquisado es e guias de u ismo, azem
suas e eições.
Assim como di e en es ipos de aquei os, há ambén di e en es ipos de gado. Uma
de acas lei ei as, que p oduzem pa a o consumo in e no,
pe alguns bois “sinuelos”, usados pa a conduzi a boiada, i em nas pequena quan idade
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p oximidades das casas dos mo ado es. Es e gado manso é econhecido indi idualmen e,
“ em a é nome”. O gado de co e, po ou o lado, c iado em uma escala cen enas de ezes
maio , é nume ado e ica dis ibuído em lo es pelas in e nadas da azenda, di idido em
classes de idade. A azenda come cializa em ge al os no ilhos, enquan o man ém as
no ilhas. O aba e semanal e a ca neação, ei os pelos p óp ios aquei os, são pa e da
o ina em luga es como o Re i o No o. Pa a o consumo in e no, são aba idas as “ma ulas”,
escolhidas en e as acas que não p oduzem mais.
O gado é alimen o, mas ambém o nece ma é ia-p ima pa a u ensílios como a alha de
mon a ia, ou a “guampa” ei a de chi e, usada pa a se oma o ma e gelado, o “ e e é”.
Um dos a ibu os mais impo an es de um aquei o, po ém, é a habilidade com o laço,
o que ale an o pa a os laçado es quan o pa a os a esãos. A ab icação do laço é um
p ocesso que começa com p epa ação do cou o, passando pelo co e em o ma o espi al,
a é chega no ançado, que é a pa e mais di ícil. Um bom laço é mui o alo izado. Dizem
que “o laço é a a ma do campei o”. Há pequenas compe ições in e nas com equência,
e campei os de oda a egião ep esen am as azendas onde abalham em aquejadas
como as o ganizadas pelo Clube do Laço, na cidade de Mi anda, en ol endo p êmios em
dinhei o e p es ígio espo i o.
No Re i o No o, os mo ado es casados i iam com suas amílias em casas cedidas pela
azenda, enquan o os sol ei os mo a am em uma cons ução maio , o “galpão”, onde
ica a ambém a base de campo do Ins i u o Onça-Pin ada. Es a úl ima, onde iquei
hospedado, incluía acomodações pa a pesquisado es e um pequeno labo a ó io com o
equipamen o e a es u u a básica pa a o abalho de campo.
Os animais de es imação dos mo ado es o am banidos da Es ância Caiman a pa i do
momen o em que a á ea se o nou Re úgio Ecológico, em 1985. Duas décadas depois, o
esul ado e a que animais sel agens como lobinhos, amanduás, emas e queixadas e am
is os com equência, além de nume osos bandos de capi a as e jaca és. A exceção
em elação à p esença dos cães na azenda e a o Canil Jagua e ê. Compos o de uma
es u u a cobe a, di idida em baias e conec ada a uma á ea ex e na ce cada, o canil
ab iga a exempla es de oxhounds, bloodhounds e coonhounds, alguns impo ados dos
EUA. Os nomes dos cacho os –Zagaia, Be an e, Bugio, en e ou os– aziam e e ência
às adições locais, sendo os dois úl imos ligados ao la ido, ou “ba ua ”, ca ac e ís ico
das aças de caça. O único “mes e”, no en an o, e a um pequeno i a-la a, “impo ado de
uma azenda izinha”, chamado de Mes inho. O que azia dele um mes e, disse am-me,
e a o a o de que segui ia apenas o as o da onça, e de nenhum ou o animal.
A p imei a en a i a de cap u a que p esenciei acon eceu dois dias depois dessa isi a
ao canil. A caminhone e do p oje o pa iu de manhã bem cedo, com a cacho ada na
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caçamba, depois do a iso de que um aquei o ha ia localizado um beze o p edado pela
onça. Uma pa e da equipe seguiu à ca alo. Eles con a am com a ajuda de um azendei o
izinho com expe iência em caçadas, que ia numa segunda caminhone e. Eu e um
es agiá io do p oje o, ambém ecém chegado, omos a isados de que não pode íamos
acompanha-los, en ão passamos a manhã na base de campo ou indo as no ícias pelo
ádio. Assim icamos sabendo que chega am a “acua ” a onça em de e minado momen o,
mas no inal ela acabou escapando.
O elino cos uma subi em uma á o e quando ce cado pelos cacho os, onde se
o na um al o ácil pa a o caçado humano a mado. Mas ao in és disso, es e inha se
emb enhado no “ca andazal”, um ma o echado e cheio de espinhos, de onde en en ou
seus pe seguido es. Uma onça acuada no chão –no “sujo”, como dizem– é uma si uação
ex emamen e pe igosa. O esul ado oi que o cão líde , Mes inho, icou e ido, com
co es na al u a das cos elas. “Foi unhada. Se a onça mo de , ela ma a”, comen ou Cyn ia,
a e e iná ia, enquan o limpa a e su u a a os e men os.
No inal da a de, acompanhei os in eg an es do p oje o –além das duas pesquisado as,
um écnico em zoologia e um es agiá io– a é o galpão onde os aquei os gua da am os
ape echos de mon a ia. Eles es a am eunidos em oda pa a oma o e e é, e a con e sa
e a animada pelos acon ecimen os do dia. “Não subiu”, comen ou um dos aquei os.
“Essas onça daqui são b aba, ica no ca agua azei o”, obse ou o écnico do p oje o.
Um dos mo ado es mais an igos do e i o, seu Vicen e, o enca egado, con a a alguns
“causos” que o am ecebidos com mui as isadas.
Rep oduzo um deles a pa i das minhas no as. A his ó ia começa com um homem (um
azendei o?) que chama um caçado pa a i a ás de uma onça. Os cacho os encon am
uma “ba ida” e seguem no as o da onça. O caçado segue a ás deles. Mas o homem ica
pa a ás, espe ando sozinho. Só que a onça, espe a, inha odeado e ol ado pa a pe o
de onde ele inha icado espe ando. Dis aído pelo ba ulho dos cacho os, o sujei o não
inha is o a onça subindo numa á o e al a logo a ás dele. Logo depois, ou e o ba ulho
do caçado indo na sua di eção com os cacho os, mas acha que ela em na en e e, na
uga, escala a mesma á o e al a. Quando o caçado chega e olha p a cima, ê o homem e
a onça na mesma á o e. E ala: “não p ecisa pega ela sozinho aí em cima não, deixa que
eu a i o aqui de baixo”. Nisso, o cab a ê a onça em cima dele e, com o sus o, despenca
lá de cima, olando “ ei o um qua i” pelo chão. A cacho ada, achando que é um bicho,
pa e p a cima e acaba com ele an es que o caçado possa aze nada.
Todos i am bas an e da his ó ia. E a uma p o ocação bem humo ada aos in eg an es
do p oje o, ende eçada p incipalmen e ao écnico de campo, Edua do F ei as, apelidado
de Negão. Os campei os se di e iam e implica am com ele, que po sua ez exage a a
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na alen ia com que inha en en ado a onça mais cedo. Meu comen á io, ano ado na
época, oi que as elações que os aquei os inham com os in eg an es do p oje o e am
uma ans o mação daquelas que inham, no passado, com os caçado es. En a am em
con a o quando acha am as os ou animais aba idos, acompanha am e pa icipa am
das caçadas (ou cap u as), e po aí ai. Re e iam-se aos pesquisado es como quem “mexe
com onça”, assim como eles mesmos “mexem com o gado”.
Desde as p imei as cap u as de onças no âmbi o de p oje os cien í icos no Pan anal, o
mé odo adicional da caçada com cães mos ou-se o mais e icaz6. O ema, po ém, é
con o e so. Em a igo sob e os mé odos de campo pa a o es udo das onças, Fu ado
e ou os obse am que “é impo an e se conside a que a caçada de onças-pin adas é
p oibida na maio pa e dos países onde a espécie oco e e a con a ação de caçado es e
cães de caça iola p incípios legais e é icos” (Fu ado e al., 2008: 41-42).
A con o é sia diz espei o, po an o, ao a o de que as onças o am his o icamen e
pe seguidas e eliminadas po azendei os a a és de caçado es e do uso de cães, e em
mui os luga es con inuam sendo, apesa da p oibição. Mas ao mesmo empo, como imos,
esses mesmos cães podem se decisi os pa a o es udo das onças. Um cacho o mes e
é conhecido po as ea apenas onças e nenhum ou o animal. Mas se ainda hoje um
cacho o desse pode se alo izado como uma o ma de elimina as oncas, no con ex o
de um p oje o conse acionis a ele podia se en endido como um aliado, um mediado
que c ia as condições pa a o uso das e amen as de eleme ia e GPS, undamen ais pa a
a pesquisa de campo. O Canil Jagua e ê e a uma expe iência singula nesse sen ido.
2. A MIRANDA ESTÂNCIA E SEUS CAÇADORES
“Nessa egião, a u ma já es á mais p a p o ege mesmo”, a i ma o S . Zé Ca los, capa az
do Re i o No o, em um egis o em ídeo de ma ço de 2006. “Eles abalham com esse
p oje o, em a p o eção dela. E nós ajudamos essa u ma aí. Todo mundo se empenha,
ajuda”. Ele é um senho com cabelo g isalho e um bigode p e o ino que acen ua os aços
indígenas. Pe gun o se o pessoal da azenda não ica cha eado quando a onça pega um
beze o. “O pa ão não liga não, diz p a deixa ela aí”. Depois de passa adian e a guampa
do e e é, conclui: “Um dia ela enjoa de come ”7.
6. Na úl ima década, o mé odo com a madilhas de laço o nou-se mais comum e subs i uiu, em
mui os casos, o uso de cães nas pesquisas com onças-pin adas.
7. O pa ão, no caso, é o emp esá io paulis a Robe o Klabin. A azenda oi pionei a no
Eco u ismo e, desde 1985, é um e úgio ecológico onde são desen ol idos uma sé ie de p oje os
conse acionis as.
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Seu Zé Ca los con a ainda que chegou com dezesse e anos na “Companhia”, a azenda
que deu o igem à Es ância Caiman, “bem an es dela se di idida”. “E naquela época o
pessoal ma a a mui a onça?”, pe gun o. “Ma a a. Tinha caçado da azenda mesmo
p a ma a . O se iço dele e a só esse. E a chamado Celes ino. Faleceu já. Quando icou
p oibido, aí ele oi saindo, abalhou de con ado de gado depois ambém. E a homem
de con iança do Majo ”.
A his ó ia da Mi anda Es ância é um ico es emunho do p ocesso de colonização da
egião sul do Pan anal, como mos a o abalho dos his o iado es Ceza Bene ides e Nanci
Leonzo (1999). C iada po in es ido es ingleses em 1912 pa a a p odução de ca ne em
sis ema de cha que, ca ne seca pa a se enla ada, TheMi anda Es ância Company Limi ed,
a “Companhia”, chegou a ocupa uma á ea de inac edi á eis 219.506 hec a es (Bene ides
e Leonzo, 1999: 25), p a icamen e o dob o do amanho do município do Rio de Janei o.
Em 1952, a azenda oi comp ada po emp esá ios b asilei os a pa i do mo imen o
conhecido como “Ma cha pa a o Oes e”, o p ocesso de nacionalização emp eendido pelo
p esiden e Ge úlio Va gas (ibidem: 148-149). O caçado ao qual seu Zé Ca los se e e e
é Celes ino P udêncio da Sil a, conhecido como “bug e Celes ino” (ibidem: 131), um
pe sonagem ma can e na his ó ia da azenda. O majo é o majo Al edo Ellis Ne o,
desc i o pelos his o iado es como “um bandei an e mode no” (ibidem: 18), que oi o
adminis ado da p op iedade a é os anos 1970.
Ou os pe sonagens que azem pa e da his ó ia da Mi anda Es ância são dois biólogos:
Pe e C awshaw e Howa d Quigley. En e 1980 e 1984, eles desen ol e am na azenda
um p oje o pionei o na á ea da Biologia da Conse ação, en ol endo moni o amen o de
onças-pin adas em ida li e. Coo denado inicialmen e po Geo ge Schalle , o céleb e
na u alis a no e ame icano, o p oje o e a u o de uma pa ce ia en e a New Yo k
Zoological Socie y, a ual Wildli e Conse a ion Socie y (WCS), o Ins i u o B asilei o de
Desen ol imen o Flo es al (IBDF), ó gão ambien al b asilei o na época, e a Fundação
B asilei a pa a a Conse ação da Na u eza (FBCN) (C awshaw, 2006).
A p imei a base de campo de Geo ge Schalle no Pan anal, implan ada numa á ea izinha
ao que é hoje o Pa que Nacional do Pan anal Ma o-G ossense8, ha ia sido in iabilizada
pelo con li o en e c iado es de gado e os elinos, e a pesquisa chegou à Mi anda Es ância
em 1980. Schalle e e que deixa o Pan anal nessa época e ouxe Howa d Quigley pa a
subs i ui-lo (Schalle , 2007). Já sob esponsabilidade de C awshaw e Quigley, o p oje o
encon ou na azenda as condições necessá ias pa a sua implemen ação: uma pos u a
8. C iado em 1981 e adminis ado pelo Ins i u o Chico Mendes de Conse ação da Biodi e sidade
(ICMBio)
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conse acionis a consolidada, apoio da comunidade local e uma boa in aes u u a pa a
as a i idades de campo, incluindo acomodações, es adas, animais de mon a ia e pis a
de pouso (C awshaw, 2006).
Um dos g andes desa ios pa a a conse ação do jagua no Pan anal, en e an o, e a o
a amen o his o icamen e dispensado à espécie no con ex o da pecuá ia adicional. No
ela ó io inal do p oje o, esc i o pa a o en ão IBDF, C awshaw e Quigley a i mam:
“A é 1966, a azenda Mi anda Es ância con a a a caçado es p o issionais pa a
diminui o núme o de elinos e a sua p edação no gado. Um desses caçado es
ma ou, em um pe íodo de 8 anos (1959-1966), 68 pin adas e 275 pa das, apenas
na á ea da azenda” (C awshaw e Quigley, 1984).
Os biólogos se e e em aqui ao mesmo caçado mencionado pelo capa az, Celes ino,
com quem con i e am na Mi anda Es ância. Ele e a econhecido como um “zagaiei o”,
e mo ese ado aos an igos caçado es na i os do Pan anal. Filho de uma índia bo o o
e de um homem b anco de Cuiabá, o Bug e Celes ino é um pe sonagem que eme e a
um empo no qual a caçada de onças na azenda e a uma a i idade egula . “Zagaia”
é o nome que se dá a um ipo de lança usada no passado pa a caçadas de onças, e os
zagaiei os são lemb ados com equência quando os mo ado es do Pan anal se e e em
aos empos an igos9.
Não cheguei a conhece pessoalmen e seu Celes ino, que aleceu em 2005, um ano an es
da minha isi a à azenda. Mas i e a opo unidade, em 2008, de egis a um depoimen o
do s . Ge úlio dos San os, gen o dele, que ambém inha sido uncioná io da Mi anda
Es ância, a i mando o seguin e:
“Ele [Celes ino] ap endeu com o sog o dele, mui o empo a ás, quando e a
sol ei o ainda. Diz que inha um di ado assim, que pa a casa com a ilha dele
inha que pega uma onça na zagaia. Ele gos a a dela, aí e e que enca a o elho
e pega a onça”.
A pa i de um abalho baseado em le an amen o bibliog á ico sob e o g upo indígena
Gua ó, que habi a a no passado o al o io Pa aguai e o São Lou enço, Oli ei a (1996)
e e e-se a uma elação semelhan e en ol endo sog o-gen o. A caçada de onça, diz o
9. Inspi ado em pa e pelas iagens de Guima ães Rosa ao Pan anal, o con o “Meu io o Iaua e ê”,
de 1961, az como pe sonagem um zagaiei o de o igem indígena que ai “desonça ” uma egião
des inada à c iação de gado. Uma his ó ia de ans o mação na qual a ma ginalidade da he ança
indígena se a icula com um mo imen o de de i animal.
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Ap endi isso no pe íodo em que es i e na Es ância Caiman, quando um desses po cos
oi a is ado du an e a en a i a de cap u a da onça e aba ido po um uncioná io da
azenda. Depois disso oi le ado pa a a can ina pa a se se ido na e eição o e ecida
aos mo ado es e isi an es no dia seguin e. Vale lemb a que a azenda e a um e úgio
ecológico, sendo que os animais na i os e am o g ande a a i o pa a o u ismo. Com
exceção da caçada com cães pa a cap u a das onças, a caça e en ual ao po co-mon ei o
e a a única pe mi ida na p op iedade.
Quando se e e e ao caso do po co e à sus en abilidade do modelo de caça adicional,
Reinaldo Lou i al az a seguin e essal a:
“Com elação às espécies daninhas, as análises de em se in e p e adas com
cuidado. As onças-pin adas já o am p a icamen e eliminadas da egião [a Nhe-
colândia]. As pa das, po sua ez, so em pe seguição (...) equen e no Pan anal”
(1997: 162).
De a o, a caça po e aliação à p edação do gado é, a é hoje, apon ada como uma das
maio es ameaças pa a as onças no Pan anal, onde exis e há mui os anos uma p á ica
egula de caça en ol endo a eliminação sis emá ica dos p edado es. Desde os an igos
sa a is a é os dias a uais, se cons i uiu uma écnica especí ica en ol endo as habilidades
combinadas dos cães a ejado es e dos caçado es humanos. Nesse sen ido, quando
pensamos nas possibilidades de coexis ência humano- auna, é signi ica i a, e bas an e
singula , a expe iência en ol endo a colabo ação dos de caçado es na i os e de cães de
caça em p oje os conse acionis as.
CONCLUSÕES
A pa i do abalho ei o na Mi anda Es ância, C awshaw e Quigley con i ma am que
o gado e a uma on e de alimen o egula , e não espo ádica, pa a as onças-pin adas
nes a egião do Pan anal (C awshaw e Quigley, 1984). A disponibilidade de bo inos e a
mui as ezes maio , em e mos de biomassa, do que da soma de odas as ou as espécies
que aziam pa e da die a das onças, o que azia do gado o alimen o mais abundan e
localmen e pa a a espécie. Não po acaso, desde essa época, a necessidade de lida com
aqueles que eem a onça como uma ameaça e a busca de um modelo pa icipa i o êm
sido aspec os undamen ais nas discussões sob e a conse ação da espécie no Pan anal
(Mo a o e al., 2006; Ca alcan i, 2010). Além da busca po um diálogo com os p odu o es
u ais, a a és de wo kshops e ou os encon os, há nesse campo uma cla a demanda po
es udos sob e a pe cepção local, que êm ganhando impo ância ao longo das úl imas
décadas.
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Quinze anos depois da minha p imei a expe iência no Pan anal, com a qual comecei es e
a igo, a si uação das onças na egião pe manece di ícil. Os p oje os conse acionis as
ce amen e mi iga am con li os e ouxe am no as p á icas, mas seu alcance é limi ado.
Com a in ensi icação da p odução, a caça ainda é comum na maio pa e da egião. Mas
no os p oblemas impo an es su gi am pa a a conse ação. O Pan anal es á en en ando
g andes incêndios a cada es ação seca nos úl imos anos, e ei o somado das mudanças
climá icas, do desma amen o e da sabo agem do sis ema de p o eção ambien al pelo
go e no b asilei o a ual. Tudo isso ge a um quad o bas an e somb io em e mos de
conse ação, não só pa a as onças, mas pa a o bioma como um odo.
P ocu ei abo da aqui a essigni icação de ce as p á icas adicionais de caça no in e io
de p oje os conse acionis as, incluindo aí o uso de cães em cap u as cien í icas e o
con as e en e o animal noci o e a espécie ameaçada. A pa i de uma adição que
emon a aos caçado es-na u alis as do início do século XX, pude ca ac e iza um modo
de elação com a onça-pin ada que con as a com os pa adigmas a uais, es abelecidos
desde a en ada em cena dos p oje os conse acionis as na egião.
A caça, seja ela de inida em e mos cul u ais seja em e mos u ili á ios, é uma ealidade
que pe sis e e com a qual a pe spec i a conse acionis a p ecisou necessa iamen e
lida . Em ce os casos, como imos, inclusi e inco po ando e sub e endo-a. Nesse
sen ido, pa a ema iza os con as es e linhas de con inuidade en e p á icas de caça e de
conse ação ligadas à onça-pin ada, o ema do con li o humano- auna pa ece limi ado.
Ele é an es de um con ex o de e e uação en e ou os, os quais incluem ambém alianças
e o mas de colabo ação.
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