Nº49 EDICIÓN VERANO 2020 49 ÁMBITOS REVISTA INTERNACIONAL DE COMUNICACIÓN ISSN: 1139-1979 E-ISSN: 1988-5733
3 ÍNDICE EDITORIAL PERSONAL ÁMBITOS Apresentação do monográfico. Abordagem qualitativa: olhares e práticas transdisciplinares nas ciências antropossociais Presentation of the monograph. Qualitative approach: transdisciplinary views and practices in anthroposocial sciences Ronaldo Nunes Linhares, António Pedro Costa 7-11 MONOGRAFICOS MONOGRAPHS Identidades femininas na rede: as crianças falam! Female identities on line: children can speak Marta Maria Azevedo Queiroz 12-31 Transição de cuidados de enfermagem: ISBAR na promoção da segurança dos doentes – revisão scoping Transition of nursing care: ISBAR in promoting patient safety – scoping review Ana Rita Esteves Figueiredo, Teresa Maria Ferreira dos Santos Potra, Pedro Ricardo Martins Bernardes Lucas 32-48 Integración de elementos cualitativos y cuantitativos en metodología observacional Integration of qualitative and quantitative elements in observational methodology M. Teresa Anguera, Angel Blanco-Villaseñor, José Luis Losada, Pedro Sánchez-Algarra 49-70 Atos educativos com oficines de ecografias: uma investigação otobiográfica Educational acts at echographie’s cineliers: an otobiographic research Silas Borges Monteiro, Anaise Avila Severo 71-87 Actuación de las políticas: política como texto y política como discurso Action of policies: policy as text and policy as discourse Mónica Rocío Barón 88-104
4 ÁMBITOS PERSONALES PERSONAL ÁMBITOS Un retrato de la cultura local a través del Periodismo cultural. Análisis comparado de Sevilla y Porto Alegre A portrait of the local culture through cultural Journalism. Comparative analysis of Seville and Porto Alegre Julieti-Sussi de Oliveira 105-120 ARTÍCULOS ARTICLES Microsociología del profesor universitario Microsociology of an university professor Antonio Fernández Vicente 121-135 La pobreza y el discurso de los mass media. Un estudio de la prensa local argentina Poverty and mass media ´s discourse. A study of the Argentine local press María del Rosario Sanchez, Silvia London 136-157 La comunicación no verbal en las elecciones andaluzas de 2018. Comparativa de Susana Díaz y Teresa Rodríguez en el debate de RTVE Non-verbal communication in the Andalusian municipal elections of 2018. Comparison of Susana Díaz and Teresa Rodríguez in the electoral RTVE debate María Hernández Herrarte, Patricia Zamora-Martínez 158-176 El infoentretenimiento en la televisión de pago, Movistar+ y el canal #0. El uso transmedia de sus contenidos de humor Infotainment on pay television, Movistar+ and channel # 0. The transmedia use of its humorous content Patricia Gascón-Vera 177-196 Metodología y formación docente cuestiones claves para la integración de las TIC en la educación Methodology and teacher training as a key issue for ICTs integration in Education Rebeca Suárez-Álvarez, Tamara Vázquez-Barrio, Teresa Torrecillas Lacave 197-215
5 RESEÑAS REVIEWS Aquelarre. Mujeres en la cultura de masas Coven. Women in mass culture Regla Ismaray Cabreja Piedra 216-220 Transición ecosocial y principios éticos en el periodismo: una guía para la comunicación de nuevas narrativas The Eco-social transition and ethical principles in journalism: a guide for the communication of new narratives Amanda Salazar Torres 221-225 Narrativas ecofeministas y mapa de transición ecosocial para medios de comunicación Eco-feminist narratives and ecosocial transition map for the media Ámal El Mohammadiane Tarbift 226-229
ÁMBITOS. REVISTA INTERNACIONAL DE COMUNICACIÓN Nº. 49. (2020) | © UNIVERSIDAD DE SEVILLA ISSN: 1139-1979 | E-ISSN: 1988-5733 Nº DOI: HTTPS :// DX . DOI . ORG /10.12795/A MBITOS Recibido: 23/04/2020 | Aceptado: 07/06/2020 Forma de citar: Borges Monteiro, S. & Avila Severo, A. (2020). Atos educativos com oficines de ecografias: uma investi-gação otobiográfica. Ámbitos. Revista Internacional de Comunicación 49, pp. 71-87. Doi: 10.12795/Ambitos.2020.i49.05 71 Atos educativos com oficines de ecografias: uma investigação otobiográfica Educational acts at echographie’s cineliers: an otobiographic research Dr. Silas Borges Monteiro, Universidade Federal do Mato Grosso, R. Quarenta e Nove, 2367 - Boa Esperança, Cuiabá - MT, 78060-900, Brasil. silasmonteiro@ufmt | Orcid: https://orcid.org/ 0000-0002-6130-920X Anaise Avila Severo, Universidade Federal do Mato Grosso. R. Quarenta e Nove, 2367 - Boa Esperança, Cuiabá - MT, 78060-900, Brasil.
[email protected] | Orcid: https://orcid.org/ 0000-0002-2715-139X DOI: https://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2020.i49.05 Resumo Este artigo apresenta resultados parciais de uma investigação desenvolvida no Brasil, na UFMT. A pesquisa fora realizada com estudantes do Ensino Médio em uma escola pública e outra privada confessional. Toma-se como referência o projeto filosófico elaborado por Jacques Derrida para estabelecer o que se denomina como investigação otobiográfica. Como conceito-método fundante, a investigação otobiográfica assume o limiar da vida-obra, vivências-escrituras. O afastamento entre vida e texto, comumente relacionado à experiência escolar, resulta em uma escrita encomendada pelas instâncias institucionais de controle, seja na figura do professor ou mesmo na do Estado avaliador. Embora tais produções atendam aos critérios públicos de escrita e composição, tal prática predominante cede a um discurso hegemônico pré-fabricado, dissolvendo, assim, a escritura como ato de criação e inscrição: a hipótese da pesquisa é de que projeção de filmes-conceitos, com
Atos educativos com oficines de ecografias: uma investi-gação otobiográfica Ámbitos. Revista Internacional de Comunicación | ISSN: 1139-1979 | E-ISSN: 1988-5733, Nº. 49. (2020) 72 narrativas não-lineares, podem criar espaços de escritura, constituindo um ato educativo. Para este trabalho foram analisadas 88 produções textuais de estudantes de ambas as escolas participantes, a partir do curta-metragem Alike — uma animação dirigida por Daniel Martínez Lara e Rafa Cano Méndez. Tais textos foram produzidos no que denominamos de Oficinas Cinemáticas de Ecografias (OCiE), viabilizadas por meio das formulações de Jacques Aumont (acerca do cinema, filme e teoria) e de Sandra Corazza com as Oficinas de Transcriação (OsT), como estratégia para investigação otobiográfica. A análise foi desenvolvida em três níveis, aqui denominados: heteronimia do estado, autonomia crítica e economia dos signos; a hipótese da pesquisa foi confirmada. Abstract The paper presents partial results of a research fulfilled in UFMT, Brasil. That research had been conducted to high school students from a public and a private school. Has been taken as reference the Jacques Derrida’s philosophical project, here called otobiographical investigation. As a founding concept-method, the otobiographical investigation assumes the threshold of life-work, scripture-experiences. The distance between life and text, commonly related to school experience, results in a writing commissioned by the institutional instances of control, whether in the figure of the teacher or even in the evaluating state. Although such productions meet the public criteria of writing and composition, such prevailing practice yields to a prefabricated hegemonic discourse, thus dissolving writing as an act of creation and inscription: the research hypothesis is that projection of concept films, with nonlinear narratives, they can create writing spaces, constituting an educational act. It had analyzed 88 texts of students from both participating schools, writing after short film Alike - an animation directed by Daniel Martínez Lara and Rafa Cano Méndez. These texts were elaborated at Kinematic Echography Ateliers, made possible through the formulations of Jacques Aumont (about cinema, film and theory) and Sandra Corazza with the Transcreation Workshops, as a strategy for otobiographic research. The analysis was developed at three levels, here named: state heteronomy, critical autonomy and sign economy; The research hypothesis was confirmed. Palavras-chave: educação, otobiografia, escrileitura, didática Keywords: education, otobiographie, reading-writing, didatic 1. UMA BREVE APRESENTAÇÃO Este trabalho apresenta alguns elementos oriundos de pesquisa financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) intitulada: Pode um filme-conceito ser um ato educativo? Criação de leitura e espectatura, texto e imagem, escritura e cinema. Desenvolvida pelo Grupo de Pesquisa Estudos de
Borges Monteiro, S. & Avila Severo, A. Ámbitos. Revista Internacional de Comunicación | ISSN: 1139-1979 | E-ISSN: 1988-5733, Nº. 49. (2020) 73 Filosofia e Formação (EFF), do Instituto de Educação da Universidade Federal de Mato Grosso, no Brasil, a pesquisa, que teve duração de três anos (entre 2017-2020), propõe a apresentação de curtas-metragens com o objetivo de convidar os espectadores a assumirem uma posição de espectatura. O critério de escolha dos curtas fora baseado a favor da não linearidade das narrativas conduzidas pelos diretores. Este tipo de produção cinematográfica opera como dispositivo no qual os espectadores tornam-se participantes ativos na possibilidade de exercitarem a criação de sentido a partir do enredo. Tais curtas, a partir das características postuladas, fomentaram sua conceituação no projeto como filme-conceito. Para tanto, tais filmes-conceito foram apresentados durante as Oficinas Cinemáticas (OfiCines). Estes espaços correspondem a situações concretas em instituições de ensino, aproximando-se da experiência didática, para operar as oficinas em espaços formais de educação. Nessa via, as OfiCines tratadas nesta pesquisa correspondem a um recorte: realizadas em duas escolas de Cuiabá (capital de Mato Grosso, Brasil) com estudantes concluintes do Ensino Médio em uma escola pública estadual e uma escola privada confessional. Tais distinções poderão ser adiante percebidas a partir da conceituação e dos elementos escolhidos para mapear tais atos educativos enquanto expressões presentes na formação. Vale ressaltar que, neste recorte, a grande maioria dos estudantes ficara situado entre dezesseis à dezoito anos — tal idade corresponde ao período comum para a integralização da Educação Básica no país. Ainda, a pesquisa desenvolvida pelo financiamento da CNPq buscara empreender como os limites discursivos forneciam potências aos atos educativos. Nesta ocasião, buscamos operar postulações com o ensejo de compreender por meio de quais princípios, generalidades ou, mesmo, por meio de quais critérios os estudantes participantes trataram o filme-conceito. Com tal perspectiva ensaiada, algumas questões foram elaboradas ainda em fase inicial — dado, também, a não conclusão do Projeto CNPq até à data para o 8º Congresso Ibero-Americano em Investigação Qualitativa (CIAIQ), realizado em Lisboa, Portugal, com trabalho intitulado Investigao otobiogrfica em criaes de leitura e espectatura1. Se algumas respostas foram testadas, a partir de questões que discorriam acerca da elaboração de quais elementos formativos possibilitaram tratar o filme-conceito enquanto um ato educativo, entendemos que se faz necessário compreender o que norteia a espectatura tal como um dos elementos deste processo. Ainda, buscamos discorrer como, a partir da disseminação de sentido de uma experiência cinematográfica espectral (cf. Derrida, 2012), um ato educativo envolve a questão da espectatura conceituado por Jacques Aumont (2008) e experenciada nos espaços sociais desviados que envolvem as OfiCines por meio do operador otobiográfico para analisar as Oficines de Ecografias. Fora adotado como procedimento de análise das produções neste contexto três movimentos de lei (nómos2) intitulados: Heteronomia do Estado, Autonomia Crítica e, por fim, Economia dos Signos. Enquanto procedimentos
Atos educativos com oficines de ecografias: uma investi-gação otobiográfica Ámbitos. Revista Internacional de Comunicación | ISSN: 1139-1979 | E-ISSN: 1988-5733, Nº. 49. (2020) 74 teórico-metodológicos para a conceituação em torno da analítica, aqui adotada, dos textos escriturados pelos estudantes, tomou-se, ainda, a escritura como um jogo imprescindível à prática de disseminação. 2. ESPECTATURA E COMUNICAÇÃO Para estabelecer a problemática deste trabalho é necessário, ao nosso juízo, uma palavra em torno do que compete ao termo comunicação. Se, no entendimento comum, a comunicação funciona como transporte de sentido de um emissor a um receptor, ainda que leve em consideração toda a complexidade que a isso designa, com as nuances dos limites da emissão, da recepção, dos ruídos, da necessidade do contexto e afins, este trabalho busca deslocar tal perspectiva. Com Derrida (1991), entendemos que o conceito de comunicação pode ter seu sentido comum golpeado filosoficamente a partir da disseminação. Tal conceito corresponde a uma prática desconstrutora para vinculação — e, caso se queira, veiculação — dos múltiplos sentidos presentes — e também ausentes — de um texto. Nessa via, a disseminação desorganiza a unidade sólida e identitária de um sentido único e enclausurado, viabilizando a compreensão dos signos enquanto um encadeamento de significantes adiados (cf. Derrida, 1973) e, portanto, como rastros ausentes de significação unitária. Assim, Derrida (1972) apresenta-nos a estrutura presente em torno do termo comunicação e de como esta é comumente retida. A partir daí, o autor fornece uma operação não essencializante para os movimentos em torno do que se queira enquanto comunicação. Contudo, precisamos partir, primeiramente, daquilo que entendemos com Saussure (2006): toda a questão que envolve o sistema linguístico propõe uma tradição que edifica a estruturação fechada do signo. Os resultados genealogicamente estabelecidos por Saussure, por meio de uma necessidade interna, exigem do significado a representação de uma imagem cujo encadeamento, obrigatoriamente, estabelece as relações com o fora, por meio daquilo que é tido enquanto significante, e toda a questão do signo é, no final das contas, uma designação na qual os acidentes externos da linguagem afetam o sistema interno dessa mesma língua. Dessa maneira, o que Saussure estabelece é um sentido imediato ao caráter dado pelo anúncio de algo. Ou seja, com Derrida (1991), entendemos que a autoridade originária do signo corresponde às exigências clássicas de um pressuposto metafísico e presente. Porém, os efeitos constituídos nessa produção originária em torno do próprio signo operam uma cisão, na qual o reenvio de um núcleo infinitivo e ativo do diferimento forja toda a diferença a partir de um rastro de sentido presente no significante. Quando este signo representa a coisa em si — uma coisa em si dada em uma temporalização presente —, ele solicita o subterfúgio ativo daquilo que tenta representar: a coisa em si, de um ente-presente, pois exige uma presença diferida, posto que aquilo que é significado, faz-se significante a partir de um ente-não-presente. Assim, toda a diferença ressoa não apenas um movimento do significado, mas uma certa forma de
Borges Monteiro, S. & Avila Severo, A. Ámbitos. Revista Internacional de Comunicación | ISSN: 1139-1979 | E-ISSN: 1988-5733, Nº. 49. (2020) 75 movência, na qual “o simples fato de mover, de se mover ou ser movido” (Derrida, 1991, p. 40) investe em uma mediação de entre: a indecidibilidade entre todo o ativo e todo o passivo que se deixa designar pela própria diferença de sentido. A comunicação, portanto, é aqui operada enquanto termo que busca, justamente, o espaçamento desta diferença dada no interior metafísico do signo e que, por sua vez, constitui-se na união entre o significado e o significante. Ainda, a partir de uma perspectiva não essencialista, entendemos que o ato de comunicar não diz respeito apenas ao transporte de uma proposição, tal qual fora inicialmente cogitada, mas diz daquilo que se quer. Isto é, a dispersão presente entre aquilo que se comunica de uma pessoa à outra, de um sujeito ao objeto, de um significado a um significante compreende um espaçamento no qual é possível tudo se dizer. É, portanto, justamente no interior, tanto quanto no exterior, dado entre os rastros, os espaçamentos e os desvios das forças ativas, reativas e médias de um signo que se faz possível tudo se querer-dizer (vouloir-dire). A comunicação, assim, quer-dizer de uma dispersão dada entre o interlocutor e o locutor, entre o remetente e o destinatário, entre o significado e o significante. Podemos dizer que, em Derrida, que toda linguagem, como toda escrita, em qualquer sistema de signos, inclusive a fala, o emissor, seja o falante, autor, escriturador, perde seu sentido de origem. No livro Gramatologia (p. 104), o filósofo francês se refere ao termo programa (pois tem no horizonte os dispositivos cibernéticos) como o resultado de uma composição, em tese, da relação convencional entre significante-significado. Um programa de computador, por exemplo, ou um programa de TV, como composições que desejam uma programática linear direta entre mensageiromensagem, programador-programa. Ora, sua posição será sustentada na compreensão de que um significado é, acima de tudo, outro significante. Deste modo, apenas artificialmente, pode-se recuperar uma fonte, uma origem. Para Derrida (1973), o contexto original foi esvaído: restam, apenas, traços. Qualquer grafema é um traço cortado de sua pretensa origem. O destinatário, feito em destinerrance, poderá lê-lo, vê-lo, ouvi-lo enxertando sua própria letra, som, palavra. Não haverá uma experiência pura de significado, como afirma Nietzsche, só haverá interpretações (cf. 7 [60], 2013). A relação entre diferentes suportes e inúmeros modos que permitem o processo de individuação estabelecidos a partir de movimentos da comunicação fazem pensar as oficinas enquanto uma aproximação teórica-metodológica com um ou mais atos educativos. Tal demanda permite questionar as oficinas desde sua estruturação. Nesta via, a fim de um encontro conceitual em torno da proposta estabelecida com a desconstrução derridiana, entende-se que Sandra Corazza fornece algumas outras invenções produtivas para o desdobramentos deste tema. Com Corazza (2011), as Oficinas de Escrileitura fornecem um andaime multivalente em torno do leitor, cuja coautoria comunica diretamente a relação dada com o texto escrito, valendo-se, ainda,
Atos educativos com oficines de ecografias: uma investi-gação otobiográfica Ámbitos. Revista Internacional de Comunicación | ISSN: 1139-1979 | E-ISSN: 1988-5733, Nº. 49. (2020) 82 Ainda que não tenhamos propriedade para falar do corpo administrativo, do corpo discente e do corpo docente das instituições nas quais as OCiE foram realizadas, entendemos que não se trata apenas de jogar com as solidariedades eminentes. A diferença de 14% dos pontos entre o público e privado unem uma espécie de hipotético que poderia ter função no combate do Estado no horizonte da ciência. Isto é, não se quer apenas postular a homogeneidade dos corpos unidos ou desunidos em uma luta em torno da equitação do discurso. Contudo, como estabelecemos os parâmetros nacionais de avaliação para a pontuação destes textos, entendemos que é evidente e mereceria, talvez, uma crítica em combate ao responsável que compromete as proposições apresentadas. Esta diferença não é aquilo que entendemos enquanto o próprio impossível cunhado pela filosofia derridiana, mas um signo estranhamente familiar de que há certa culpabilidade que compromete a questão do coletivo, ainda que “uma tal problemática nem sempre se reduz, e às vezes em absoluto já não se reduz, a uma problemática política centrada no Estado” (Derrida, 1999, p. 139), mas em formas aparentemente inter ou transestatais que comprometem as estruturas estatais e as finalidades da organização sistemática. Tais questões que tomam a abstração, por vezes epistemológica, do interior das estruturas — o que inclui também o sistema arquitetônico, a fundação das organizações e as tradições e afins acidentais — definem certa razão que orienta empiricamente as funções refenciais e variáveis que contextualizaram as OCiE. Com Derrida (2007), entendemos que a lei da heteronomia, ao cunhar a relação com o outro, implica na responsabilidade que pertence ao sistema das forças que escapam e nem poderiam ser controladas, contudo, precisam comprometer um envolvimento em torno das palavras, do termos e dos conceitos que parecem ter função de vontade e soberania daquilo que deveria ser, aparentemente, democrático. Nesta via, esta lei entende que é preciso investir na responsabilidade que questiona o contato com o outro — não necessariamente sujeito, mas corpo igualmente sabido, pois busca desconstruir a conjuntura do signo apreendido em sua forma (significante) e reprodutibilidade estável. 5.2. Autonomia Crítica A fim de contabilizar o conteúdo que fora produzido nos textos das OCiE, partimos do que Freire (2011) estabelece como autonomia. A partir da investigação, computou-se a maior recorrência dos termos utilizados pelos participantes, sendo “pai” e “filho” os mais frequentes nas escrituras de ambas as escolas. Porém, na escola privada, os participantes grafaram sessenta e oito vezes o termo “pai”, enquanto na escola pública, o termo “filho" fora o mais assíduo, aparecendo vinte e oito vezes. Assim, os textos de Buildyuudy (nome fictício escolhido pelo participante da OCiE da escola privada) e Arjoma H. Orez (nome fictício escolhido pelo participante da OCiE da escola pública) foram selecionados para demonstrar tal analítica.
Borges Monteiro, S. & Avila Severo, A. Ámbitos. Revista Internacional de Comunicación | ISSN: 1139-1979 | E-ISSN: 1988-5733, Nº. 49. (2020) 83 Buildyuudy escritura a partir de Alike (2015) um movimento que parece assumir autonomia em relação à figura do pater (pai, partido, patriarcado, patrão, estado: o outro identificado). A escritura fala do medo da absoluta identificação, sem crítica, de uma ordem instituída. Lamenta a ausência de um discurso em torno da e na escola. Ainda, Buildyuudy supõe um lugar no qual compreende sua presença em sociedade, porém a questiona e clama por uma discussão em torno do que é aparentemente negado. Arjoma H. Orez quer autonomia. Contudo, em movimento diferente do apresentado por Buildyuudy. Orez não se preocupa com a vida tal como ela é: repleta pela rotina do pai e ausente pela rotina do filho. Orez aceita a repetição na sua vida e entende que ela pode diferir; escritura, a partir de um si instituído, as possibilidades de seus instintos: indaga não ter tudo, feito Fausto, sob pena de Goethe, diante de Mefistófeles, dirigente dos destinos da terra. “Porque no posso ter os dois?”. O que Orez propõe não toma como questão o receio de se tornar o outro-preso-à-rotina, o outro: quer liberdade de dizer sim, ao som do martelo de Nietzsche. Eis as escrituras, respectivamente: É um texto que mexe com todos na sala, uma vez que muitos de nós, temos o medo de nos tornarmos como o pai. Muitas vezes nos pegamos pensando em como era bom ser criança, ou odiando nossa rotina e ao ver esse curta nos relacionamos, infelizmente, ao pai. Acho que é uma ótima reflexão e um momento em que podemos parar para pensar o que pode ser feito para que continuemos sempre como a criança ou “coloridos” e também acho que assuntos como esse (não cair na rotina, procurar a felicidade, ser autêntico) deveriam ser abordados mais frequentemente em sala — Buildyuudy, OCiE, 2018. O que é melhor para mim? Num mundo onde eu vivo, devo ser igual aos outros para me juntar a sociedade ou seguir os meus instintos, ser feliz? Quem eu realmente sou? Porque não posso ter os dois? Com Derrida (1973), entendemos que relação topológica a partir dos termos que empregam as filiações e genealogias assinam uma vontade de autonomia em relação tropológica as forças escrituradas. Isto é, a autonomia dos participantes é reiterada a partir de figuras que lhes pareçam enquanto maximizações de suas próprias vontades e o medo é aquilo que é próprio do topológico, ainda que seja dado a partir de uma relação tropológica: “o medo não tem contrário, ele é coextensivo a todo o campo das paixões […] e o medo é de início o medo do próprio corpo, pelo corpo próprio, pelo seu próprio corpo, ou seja, pela vida. A vida tem medo” (Derrida, 2016, p. 72-73). Assim, a relação estabelecida por medo do que espectatura estabelece uma escritura que corrobora o vivente com um medo que é seu, diante daquilo que constitui a si mesmo, pois a topologia da escritura forja tropologicamente a autonomia de corpos que estão se constituindo: o outro e o eu, o conteúdo (significado) do signo que baliza a estrutura latente.
Atos educativos com oficines de ecografias: uma investi-gação otobiográfica Ámbitos. Revista Internacional de Comunicación | ISSN: 1139-1979 | E-ISSN: 1988-5733, Nº. 49. (2020) 84 5.3. Economia dos Signos Esta última e terceira lei estabelecida discorre acerca da casa ocupada pelo signo. Com Heidegger (2000), uma das questões da linguagem gira em torno desta estar ocupada pela casa do ser. Isto é, a linguagem torna-se morada do ser. Assim, Heidegger (1988) cunha o Dasein, tal qual parte do ser, ainda que não seja seu presente, nem aquilo que o constitui, mas a possibilidade de descrevê-lo. Quer dizer, o Dasein é ao mesmo tempo aberto pelo ser tanto quanto é a sua abertura. A fim de evitar uma expressão que indicaria uma tradução daquilo que o ser é, Heidegger afirma que o ser acontece, pois ele se dá (Ereignet). Nesse sentido, preserva a nuance entre o próprio ser e o seu vivido, rompendo com a objetividade do ser, pois este é visto enquanto um ato genérico e sem substancialidade, executor de uma manifestação verbal e descritiva de ser acontecendo no tecido linguístico, no qual o seu gerúndio demanda a sua vivência: ainda que não escolha sua abertura, esta pertence ao ser, e a sua necessidade de abertura para os entes manifesta o próprio ente como pertencimento desse Dasein à abertura que constitui o Ereignet. Ao radicalizar a intuição parmênidica, Heidegger (2000) introduz um elemento perturbador ao pensamento, pois cede o lugar das preocupações em torno das instituições propriamente humanas para abrigar um tecido linguístico. Diante deste tecido linguístico, Derrida (2009) propõe que “quando o escrito está defunto como signo-sinal que nasce a linguagem” (Derrida, 2009, p. 15). Deste modo, o que Derrida (2007) reitera é que o jogo do triângulo linguístico deixa de ser de um signo ao outro para remeter-se ao si mesmo, a um signo ausente de sua significação, cuja a escritura suspende o movimento utilitário. Ainda que esta mesma escritura permaneça ocupada pelo transporte da informação, enquanto uma experiência e um rumo a sua destinação, destina-se constantemente em errância, em destinerrância [destinerrance], pois cria a oferta de sentido, dissemina a comunicação comum e (con)signa afetos imanentes daquilo que é próprio do texto, do querer-escriturar, do acontecimento da escritura enquanto tal: um espaçamento no qual os signos se tornam. Para demonstrar essa posição assumida neste texto, escolhemos um participante que escriturou a partir dos quatro curtas espectaturados. Com nome fictício Eu, o autor escriturou em cada curta, na ordem da exibição: “ não sei o que estou fazendo aqui”; “ainda não sei o que estou fazendo aqui”; “ hoje me dei conta que é primavera”; “digam à menina de azul que gostaria de beijá-la”. “Eu” brinca com o jogo dos signos, comunica que a casa deste jogo não deve economizar o seu querer-dizer. Este escrito-defunto como signo-sinal nasce como linguagem ao consignar afetos, pois “deixar a palavra ao furtivo é tranquilizar-se na différance, isto é, na economia” (Derrida, 2009, p. 281). Quer dizer, “Eu” clama em seu não-nome a presença de um não-presente em si, de uma espectatura que descola o significante do significado e dissemina o texto em sua manifestação mais especulável: o texto dissemina o si
Borges Monteiro, S. & Avila Severo, A. Ámbitos. Revista Internacional de Comunicación | ISSN: 1139-1979 | E-ISSN: 1988-5733, Nº. 49. (2020) 85 mesmo e outro em uma conjecturação de destinerrâncias. Resta saber a quem fora destinado os seus traços, a quem fora ecografado suas afecções e de onde adveio a poética de seus grafos. Ou, melhor: tudo isto é questão de rastro. 6. ALGUMAS CONSIDERAÇÕES Compreendemos que as OfiCines de Ecografia criaram sentidos a partir do espectaturado. Como é relevante das relações de afetação que nem todos sintomatizem em uma via homogênea as infinidades de um caso, pudemos dizer, com Aumont (1992), que a imagem fora produto tanto quanto fora movida no momento destas relações de afetação. Assim, uma relação criada entre o dentro e o fora da imagem, do texto e do si mesmo constituíram atos de aprendizado. Tais atos solicitaram aos filmes, ao momento e aos participantes que acionassem tudo aquilo que lhes coubesse a fim de inventar, fabular e ponderar sobre os curtas assistidos: neste tempo, neste recorte, os filmes foram tomados pelos próprios participantes como conceito, ainda que acidentais. Os procedimentos foram desenvolvidos a partir daquilo que definimos enquanto echographie. O termo empregado constitui a contração de neologismos cunhados por Derrida em torno dos rastros presentes no invisível: trace (Derrida, 2002), graphème e phonème (Derrida, 1973). Se a investigação otobiográfica buscara desafiar as coletas, os litígios dos dados em dispersão, o contratempo, dando-se desde as bordas, desde seu para além sem para além da palavra falada ou escrita, do traço e da cor, da imagem deserarquizada do signo, do sentido e da forma do significante, a ecografia oferece um triângulo sem-pose e sem-repouso. Assim, despojados de tudo aquilo que representa um tempo sem desafios, optamos pelo contra-tempo das OCi: uma ecografia que desconstrói o triângulo linguístico de duas partes e encarraga-se de oferecer uma opção não dialética. Os participantes das OCi, para além de toda a apódose, espectaturaram a pose e a oposição, mas no momento em que convidados a escriturar, rubricaram uma contra-assinatura de autoria na imagem dada a pensar e, na experiência da história da história, esta tese [thesis, nomos, setzung, gesetz] nos foi dada a criar: a lei como tema que não consiste em representar, ou mesmo apresentar, à luz da imagem, um espectral que poderia ser dito de outra maneira que não: sem-pose e sem-repouso (cf. Derrida, 2012). Os três nómos dados-a-pensar fomentaram, também, uma discussão em torno da espectatura enquanto uma possibilidade para mobilizar os atos educativos: parece que, para todos eles, uma lei pedagógica vigorava a investigação. Talvez esta lei pedagógica seja o caminho da lei que faz de uma oficina o desenvolvimento de um conjunto de afetações com auxílio das e nas vivências enquanto o próprio ato educacional. Uma possibilidade de pensar o que se quer quando diz sem-pose e semrepouso para o assistido e para os espectadores. Quer dizer, entendemos, com Derrida (1991), que toda a questão é autobiográfica, e por sê-la, envolve vida e morte em processo único, disperso e comunicável.
Atos educativos com oficines de ecografias: uma investi-gação otobiográfica Ámbitos. Revista Internacional de Comunicación | ISSN: 1139-1979 | E-ISSN: 1988-5733, Nº. 49. (2020) 86 Notas 1 Este trabalho contou com a participação de bolsistas de Iniciação Científica da Universidade Federal de Mato Grosso; são eles: Iris Clemente de Oliveira Bellato (http://lattes.cnpq.br/4018120581669988), Louise Gomes de Pinho (http://lattes.cnpq.br/5812615840678634), Mateus Moraes de Oliveira (http://lattes.cnpq.br/9343301278452146) e Matheus Bassan Alvino Brombim Lopes (http://lattes.cnpq.br/0911734042003411). 2 Agamben tratará a questão do nómos enquanto um campo do biopolítico na modernidade. Ao estabelecer uma genealogia dos governos e políticas, o autor conceitua o nómos em torno de biopolítico secreto que diagnostica uma crítica da realidade em seus aspectos estruturantes sobre o nexo existente entre poder político e vida nua. Tal contribuição da racionalidade política não será questão deste trabalho. Ver mais em AGAMBEN, G. (2010). Homo Sacer: poder soberano e vida nua I (H. Burgo, Trad.). Belo Horizonte: Editora UFMG. Referências Aumont, J. (1992) La imagen. (Antonio Lopez Ruiz, Trad.) Barcelona: Paidós Comunicación. ______. (2006). Le cinéma et la mise en scène. Paris: Armand Colin. ______. (2008). Pode um filme ser um ato de teoria?. Educação & Realidade, 33, 21-34. Barthes, R. (1979). Sade, Fourier, Loiola. (Maria de Santa Cruz, Trad.) Lisboa: Edições 70. ______. (2004). O rumor da língua. (M. Laranjeira, Trad.). 2 ed. São Paulo: Martins Fontes. Corazza, S. M. (2011). Caóides. In: MONTEIRO, Silas (Org.) (Coleção Escrileituras). Caderno de Notas 2: rastros de escrileituras. Canela: Ed. UFRGS, 13-17. ______. (2014). Introdução ao método biografemático. Em tese, 20, 3, set/dez, 48-65. Derrida, J. (1972). La Dissémination. Paris: Éditions du Seuil. ______. (1973). Gramatologia. (Miriam Schnaiderman & Renato Janini Ribeiro, Trad.). São Paulo: Perspectiva. ______. (1984). Otobiographies: l’enseignement de Nietzsche et la politique dun nom propre. Paris: Galilée. ____. (1991). Margens da filosofia. (J. Torres Costa, A. M. Magalhães, Trad.). Campinas: Papirus. ______. (1998). Ecografías de la televisión. (M. Horacio Pons, Trad.). Buenos Aires: Editorial Universitaria de Buenos Aires. ______. (1999). O olho da universidade. (Ignacio Antonio Neis & Ricardo Iuri Canko, Trad.).
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