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Por um prisma histórico na sociologia da imprensa, recordando Robert Park

Carvalheiro, José Ricardo

Abstract

Valorizando o conhecimento de teorias e autores clássicos na história da comunicação, este artigo revisita Robert Park pelo prisma do historicismo que caracteriza o seu pensamento acerca da imprensa e examinando, em particular, o texto “A história natural do jornal”, publicado há cem anos, em 1923. Ao propor uma articulação fundamental entre história e teoria social e ao ser, em simultâneo, pioneiro a colocar a comunicação no centro da análise, este sociólogo da Escola de Chicago merece um lugar de relevo na história dos estudos históricos sobre os media. Nascido no século XIX, a sua própria biografia, jornalística e académica, se entrelaça significativamente com as mudanças sociais da época.

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Revista internacional de Historia de la Comunicación ISSN: 2255-5129 © Universidad de Sevilla POR UM PRISMA HISTÓRICO NA SOCIOLOGIA DA IMPRENSA, RECORDANDO ROBERT PARK For a historical approach in the sociology of the press, remembering Robert Park Recibido: 15-10-2022 Aceptado: 8-2-2023 José Ricardo Carvalheiro Universidade da Beira Interior, Portugal [email protected] 0000-0003-3917-5230 RESUMO Valorizando o conhecimento de teorias e autores clássicos na história da comunicação, este artigo revisita Robert Park pelo prisma do historicismo que caracteriza o seu pensamento acerca da imprensa e examinando, em particular, o texto “A história natural do jornal”, publicado há cem anos, em 1923. Ao propor uma articulação fundamental entre história e teoria social e ao ser, em simultâneo, pioneiro a colocar a comunicação no centro da análise, este sociólogo da Escola de Chicago merece um lugar de relevo na história dos estudos históricos sobre os media. Nascido no século XIX, a sua própria biografia, jornalística e académica, se entrelaça significativamente com as mudanças sociais da época. PALAVRAS CHAVE Imprensa, Robert Park, sociologia histórica, comunicação, jornalismo. ABSTRACT Valuing the knowledge about classical theories and scholars in communication history, this article revisits Robert Park by underlying the historicism in his thought about the press and by examining especially the text “The natural history of the newspaper”, published one hundred years ago, in 1923. By proposing a fundamental articulation between history and social theory and, at the same time, placing communication at the core of his analysis, this prominent Chicago School sociologist deserves a special place in the history of historical studies on the media. Born in the 19th century, his own biography intertwines meaningfully with social changes in journalism and society. KEYWORDS Press, Robert Park, historical sociology, communication, journalism. RESUMEN Valorando el conocimiento de las teorías clásicas y de los autores de la historia de la comunicación, este artículo retoma a Robert Park subrayando el historicismo de su pensamiento sobre la prensa y examinando, en particular, el texto “La historia natural del periódico”, publicado hace cien años, en 1923. Al proponer una articulación fundamental entre historia y teoría social y siendo, al mismo tiempo, pionero en situar la comunicación en el centro del análisis, este sociólogo de la Escuela de Chicago merece un lugar destacado en la historia de los estudios históricos de los medios. Nacido en el siglo XIX, su propia biografía, periodística y académica, se entrelaza significativamente con los cambios sociales de su época. PALABRAS CLAVE Prensa, Robert Park, sociologia histórica, comunicación, periodismo. Como citar este artículo: CARVALHEIRO, J. R. (2023): “Por um prisma histórico na sociologia da imprensa, recordando Robert Park”, en Revista Internacional de Historia de la Comunicación, (20), pp. 127-145. https://dx.doi.org/10.12795/RIHC.2023.i20.08 Por um prisma histórico na sociologia da imprensa, recordando Robert Park José Ricardo Carvalheiro https://dx.doi.org/10.12795/RIHC.2023.i20.08 ISSN: 2255-5129 2023 20 127-145 128 1. Introdução Em termos históricos, o sociólogo Robert Ezra Park (1864-1944) é, em si próprio, uma figura relevante nos estudos em comunicação, apesar de essa vertente do seu trabalho no seio da sociologia ser habitualmente obscurecida pela notabilidade do seu legado nos estudos urbanos, da imigração e das relações raciais. A relação de Park com o campo comunicacional foi rica e multímoda. Na juventude assistiu por dentro, enquanto repórter e editor, à transformação dos jornais norte-americanos em verdadeiras publicações para as massas das metrópoles e ao movimento de construção de um jornalismo duplamente ancorado no mercado e no profissionalismo, que a partir dos Estados Unidos viria a tornar-se um modelo globalmente hegemónico na prática jornalística do século XX. Depois, já na maturidade, Robert Park tornou-se um protagonista da corrente sociológica denominada Escola de Chicago, contribuindo para institucionalizar academicamente essa então jovem ciência social nos Estados Unidos, introduzindo inovações a nível metodológico e atuando de modo pioneiro ao colocar as questões comunicacionais no centro da teoria social, dando particular atenção aos jornais. Entre o conjunto dos seus textos que incidem na comunicação, o ensaio “A história natural do jornal” pode, por sua vez, ser visto como um marco na abordagem histórica da imprensa e também como um incentivo, ainda que em esboço embrionário, para uma sociologia histórica dos media. De forma muito significativa, o olhar epistemológico de Park também nos parece ter sido um dos primeiros entre os cientistas sociais a vislumbrar a imprensa simultaneamente como produto da História e como agente da História. Como escreveu o historiador britânico dos media Tom O’Malley, “foi lento o reconhecimento por parte dos académicos de que os mass media e a comunicação eram elementos omnipresentes nas sociedades dos séculos XIX e XX e que, como tal, deviam transitar das margens para o centro da investigação histórica” (O’Malley, 2010: 155). Se noutras latitudes esse reconhecimento só se deu na segunda metade do século XX, Robert Park não padeceu desse vagar e, mesmo que não tenha chegado a pôr em prática um programa de investigação histórica, pelo menos advogou-o e esboçou um punhado de questões com grande potencial de fecundidade. Neste artigo, depois de traçarmos um retrato, necessariamente sucinto, de Robert Park em termos biográficos e epistemológicos, propomo-nos situar as suas ideias sobre a comunicação e a imprensa e, em particular, recuperar o artigo “A história natural do jornal”, a propósito do centenário da sua publicação, em 1923, no American Journal of Sociology.1 Cem anos depois, reexaminar este ensaio e articulá-lo com passagens de outros textos do autor não é um mero 1. Ao longo deste texto traduzimos para português os títulos dos artigos de Park, assim como os excertos que citamos das suas obras. As traduções, feitas a partir dos textos originais, são da nossa responsabilidade. Os títulos originais constam nas referências bibliográficas. Por um prisma histórico na sociologia da imprensa, recordando Robert Park José Ricardo Carvalheiro https://dx.doi.org/10.12795/RIHC.2023.i20.08 ISSN: 2255-5129 2023 20 127-145 129 assinalar da efeméride. Argumentamos que, além de se tratar de um dos autores que primeiro notaram a função constitutiva e estruturante da comunicação na sociedade, também dirigiu à imprensa um olhar que, ao contrário de isolá-la ou compartimentá-la como objeto de estudo, indaga as relações do jornalismo com a economia, a política, a literatura e a cultura popular. Por outro lado, a visão deste sociólogo nascido no século XIX propõe uma articulação fundamental entre história e teoria social, e nesse sentido contraria uma tendência, que se instalou no século XX, para a marginalização da história do seio de áreas disciplinares como a sociologia da comunicação e os estudos mediáticos, ao mesmo tempo que nos estudos históricos que têm por objeto os meios de comunicação parece subsistir uma certa sub-teorização que levou, por exemplo, o historiador Chris Daly a apontar a falta de teoria na história do jornalismo americano (Daly, 2009). Pensamos que revisitar Robert Park ainda pode servir de inspiração hoje, embora também não possa deixar de se notar uma série de insuficiências e visões datadas de que os seus textos enfermam. 2. Robert Park no seu contexto histórico Na obra de Park são identificáveis 14 textos em que a comunicação ou a imprensa surgem como tema central ou como objeto de relevante elaboração conceptual.2 Esses textos podem ser distinguidos em três grupos: 1. Aqueles que se dedicam a uma teorização e classificação do processo comunicacional, integráveis no interesse do autor pelo vasto tópico então referido como “comportamento coletivo”: é o caso de alguns capítulos e excertos de Introdução à Ciência Sociológica, manual elaborado por Park (e o seu jovem colega Ernest Burguess) que teve a primeira edição em 1921 e se tornaria na principal referência para o ensino da Sociologia norte-americana nas décadas seguintes; é o caso também do artigo “Reflexões acerca da comunicação e da cultura” (1938); e, numa instância diferente, a sua tese de doutoramento, “A massa e o público” (1904). 2. As passagens de textos sobre o fenómeno urbano em que Park confere protagonismo à imprensa, nomeadamente excertos do artigo “A Cidade: Propostas para a investigação do comportamento humano em ambiente urbano” (publicado em 1915 e depois, em versão mais completa, em 1925) e o artigo “A urbanização medida pela circulação de jornais” (1929); 2. Existem outros textos com alusões aos media, mas mais secundariamente. Segundo Berganza Conde, “é difícil encontrar um único artigo ou ensaio de Park em que não dedique pelo menos uma frase ou um parágrafo a falar de comunicação ou de alguma das suas formas: a imprensa, as notícias e a opinião pública” (Berganza Conde, 2000: 73). Por um prisma histórico na sociologia da imprensa, recordando Robert Park José Ricardo Carvalheiro https://dx.doi.org/10.12795/RIHC.2023.i20.08 ISSN: 2255-5129 2023 20 127-145 130 3. Os textos cuja atenção principal vai para a imprensa e o jornalismo: em primeiro lugar as abordagens propriamente históricas, com destaque para “A história natural do jornal” (1923), seguida do artigo, com natureza diferente, “Revisão da literatura: O Jornal Americano” (1927), que é uma recensão dos estudos sobre a história da imprensa nos EUA; previamente àqueles, inserem-se também aqui dois textos em que a perspetiva histórica não deixa de estar presente: o artigo “Imprensa de língua estrangeira e progresso social” (1920) e o livro A Imprensa Imigrante e o seu Controlo (1921); por fim, os textos tardios em que Park procura rearticular as notícias com uma série de outras questões sociológicas: o artigo “As notícias como forma de conhecimento” (1940), a introdução que escreveu para o livro, da sua pupila Helen Hughes, As notícias e a estória de interesse humano (1940), o artigo “As notícias e o poder da imprensa” (1941) e o artigo “O moral e as notícias” (1941); Se os últimos artigos foram escritos na fase final da vida e já com o autor retirado da Universidade de Chicago, note-se que os primeiros também só surgem quando Park tem mais de 50 anos. Na verdade, Robert Park foi uma figura paradoxal. Nunca se distanciou da atitude de repórter nem de um estilo jornalístico, mas inaugurou um olhar científico sobre o jornalismo numa época marcada por visões moralistas da imprensa. Era politicamente um conservador, mas estudou com simpatia os grupos migrantes e trabalhou longamente em organizações negras do Sul nos anos que intermediaram entre o trabalho jornalístico e a carreira universitária. Praticamente só escreveu textos dispersos e foi acusado de ter um pensamento fragmentário e inconsequente, mas tornou-se o académico mais influente para a afirmação da sociologia nos Estados Unidos nas primeiras décadas do séc. XX, mesmo tendo entrado na carreira só aos 49 anos. Pode ser considerado o primeiro sociólogo da comunicação, mas não chegou sequer a nota de rodapé na generalidade dos estudos mediáticos durante muitas décadas após a II Guerra Mundial. Algo que distinguia Park da maior parte dos colegas académicos na época em que chegou à Universidade de Chicago era o facto de a sua vivência lhe dar um conhecimento inabitual do contexto social (Chapoulie, 2001: 94-101). Essa familiaridade com a vida exterior às paredes da academia permitiu-lhe traçar programas de pesquisa em que os estudantes eram enviados para o terreno, como uma espécie de repórteres sociais, para recolherem dados sobre a cidade, os grupos étnicos, as greves ou os marginais. O próprio Park acompanhava alguns estudantes, ou dava-lhes indicações preciosas, tirando partido do conhecimento que tinha dos meandros da cidade. Aconselhava-os também acerca dos métodos e instruía-os para tomarem notas acerca de tudo o que pudessem observar. No geral, foi a inspiração parkiana que deu origem à reputada escola de Chicago e é possível considerar que “entre a escola de Chicago (…) e o passado jornalístico de Park não há nenhum divórcio nem qualquer rutura epistemológica” (Grafmeyer e Joseph, 1990: 7). O próprio Park declarou que via o sociólogo como uma espécie de super-repórter, com mais precisão do que o jornalista e capaz de captar a realidade social de longo prazo para além da superfície dos acontecimentos (ibidem). Este pendor explica a sua vontade de desenvolver uma etnografia urbana, transpondo para a sociedade moderna as técnicas próximas da antropologia. Por Por um prisma histórico na sociologia da imprensa, recordando Robert Park José Ricardo Carvalheiro https://dx.doi.org/10.12795/RIHC.2023.i20.08 ISSN: 2255-5129 2023 20 127-145 131 outro lado, a inspiração jornalística de Park também custou algumas críticas à sua obra, por vezes considerada uma sociografia de carácter impressionista (Matthews, 1977: 108) ou acusada de inconsistência analítica e formal em textos ensaísticos cujo encadeamento de ideias por livre associação descura a sistematicidade e o grau de precisão dos conceitos (Chapoulie, 2001: 103-104). Também a sua tendência para traçar conclusões com base em dados empíricos pouco detalhados ou a aversão a dedicar-se a métodos quantitativos mais sofisticados (Turner, 1967: xviii, xx) podem ser imputadas a um legado dos hábitos jornalísticos. Criado no ambiente prático de uma família dedicada ao comércio grossista de mercearias em Red Wing, pequena cidade do Midwest à beira do rio Mississípi, Robert Park não tinha especial predileção pela especulação abstrata e era sobretudo movido por uma grande curiosidade e vontade de compreender o que se passava no mundo. A sua educação superior foi feita na Universidade do Michigan, em Ann Arbor, Detroit, onde estudou filosofia e alemão e onde encontrou aquele que seria uma das suas principais influências intelectuais, o jovem professor John Dewey. Entre aluno e professor, que tinham apenas cinco anos de diferença, desenvolveu-se uma amizade duradoura e Park absorveu o interesse de Dewey na comunicação como força integradora da sociedade (Matthews, 1977: 5). Mas no fim dos estudos derivou com naturalidade para a vida prática. Sem vontade de abraçar o negócio familiar, e precisamente na época de maior expansão da imprensa, tirou partido da vontade dos jornais em recrutarem jovens instruídos cujo trabalho ajudasse a atrair leitores. Ao ingressar no Minneapolis Journal em 1887, passou a ganhar a vida observando e descrevendo o folclore urbano. O profissionalismo que daria autonomia ao corpo de jornalistas, bem como o cânone noticioso e ‘objetivo’, estavam ainda em fase de formação nos Estados Unidos, mas a organização empresarial dominava já o funcionamento da imprensa mesmo em estados como o Minnesota. O trabalho no Minneapolis Journal, um diário centrado na conurbação das “cidades gémeas” de Minneapolis e St. Paul, proporcionou ao jovem Park, então com 23 anos, os primeiros contactos com a vida interna de um jornal moderno e, ao mesmo tempo, com o pulsar quotidiano do fenómeno citadino. Um cenário marcado pelos fluxos migratórios – o Minnesota triplicou a população entre 1870 e 1890 –, pela transformação urbana e pela mobilidade – as “cidades gémeas” eram, na década de 1880, um importante nó de transporte fluvial pelo Mississípi e de tráfego ferroviário na ligação Este-Oeste. A carreira de repórter ocupou Park durante uma década e levou-o a trabalhar em diversos jornais de grandes cidades (Matthews, 1977; Chapoulie, 2001). Em 1891 deixou o Minnesota para ingressar no Detroit Tribune e no ano seguinte mudou-se para Nova Iorque, a grande metrópole americana e nessa época o habitat mais fervilhante para o jornalismo nos Estados Unidos. Entre os muitos jornais que então se publicavam em Nova Iorque havia já grandes diários populares com circulação de massas, destacando-se o New York World, desde 1883 sob a direção de um judeu de origem húngara que havia migrado para os EUA com 17 anos chamado Joseph Pulitzer, e o New York Journal, que em 1895 seria comprado pelo magnata William Randolph Hearst. Por um prisma histórico na sociologia da imprensa, recordando Robert Park José Ricardo Carvalheiro https://dx.doi.org/10.12795/RIHC.2023.i20.08 ISSN: 2255-5129 2023 20 127-145 132 Robert Park tornou-se repórter do Journal, que considerou o jornal mais sensacionalista em que trabalhou. Foi encarregue de cobrir os fait-divers de uma jurisdição policial, mas também se dedicava a percorrer as ruas da metrópole em busca de outros casos de ‘interesse humano’ (Chapoulie, 2001: 94; Matthews, 1977: 9). A conjugação de efervescência e diversidade urbanas com a industrialização das notícias na América fez com que a experiência jornalística de Park correspondesse ao momento de ascensão do beat reporter, o jornalista que cobre intensivamente uma área criando com as fontes uma relação que visa a produtividade. Ao mesmo tempo, era a fase de florescimento das edições de domingo, um formato com reportagens e anúncios comerciais que tinha uma lógica distinta da cadência noticiosa. Park também escreveu peças de domingo para o New York World, jornal onde a fórmula de Pulitzer se baseava numa boa cobertura das notícias ‘sérias’ combinada com abordagens inéditas de crimes, escândalos, calamidades. Estas peças apelavam ao interesse do público não só pelo tipo de acontecimentos, que os repórteres procuravam ativamente, mas também pela forma detalhada como passaram a descrevê-los, convocando a curiosidade dos leitores (Sloan, 1991: 199). Aos 30 anos, o Park jornalista decidiu regressar ao Midwest, mudando-se primeiro para o Detroit News como editor das notícias de cidade, e depois para o Chicago Journal, onde ficaria até encerrar a carreira jornalística, em 1897. Erguida do nada em 1830 até atingir 2 milhões de habitantes no início do século XX, Chicago era uma cidade em transformação acelerada nos aspetos físicos e humanos, onde a noção orgânica do corpo urbano se terá tornado aguda para o futuro sociólogo, que também bebera das visões organicistas e evolucionistas de Herbert Spencer e Auguste Comte nas lições de John Dewey. A sua própria biografia terá reforçado essa influência e filiou-o numa geração de teóricos sociais ainda fundamentalmente focada nas consequências das grandes transformações societais ligadas à industrialização, à urbanização, à secularização. A mutação das pequenas comunidades para os novos quadros sociais de interdependência em grande escala não era uma ideia abstrata para quem fazia esse trajeto pessoalmente e observava o aparecimento de novos bairros, novas populações, novas instituições e novos “tipos”. A origem social não produziu nunca em Park uma nostalgia da pequena comunidade, mas terá contribuído para fixar o seu olhar num paradigma sociológico que buscava mecanismos de coesão e de reconfiguração comunitária no complexo universo metropolitano. O jornalismo já não suprimia a insatisfação do seu espírito inquieto e foi na esperança de compreender a realidade mais profundamente, e em particular para estudar as consequências das notícias no público, que Park regressou tardiamente à condição de estudante de filosofia e psicologia em Harvard (Chapoulie, 2001; Matthews, 1977). Aí recolheu outras influências marcantes através de William James e do pragmatismo, adquirindo uma fundamentação epistemológica com que rejeitaria o positivismo e os métodos behavioristas na ciência social e que o levaria a adotar uma abordagem subjetivista da ação, aproximando-o da corrente que via nas relações sociais uma natureza interativa não predeterminada estruturalmente e que concebia a sociedade como sustentada pela formação de sentidos partilhados e pela dimensão simbólica. O pragmatismo ter-lhe-á também proporcionado uma luz particular sobre Por um prisma histórico na sociologia da imprensa, recordando Robert Park José Ricardo Carvalheiro https://dx.doi.org/10.12795/RIHC.2023.i20.08 ISSN: 2255-5129 2023 20 127-145 133 a visão evolucionista, imprimindo uma ênfase nos processos de mudança gradual, ajustamento e continuidade levados a cabo por obra das interações sociais (Hardt, 2008: 51). Outra base fundamental para a ideia de sociedade como interação seria colhida junto de Georg Simmel a partir de 1899, quando Park viajou para a Alemanha e frequentou as suas aulas em Berlim, mas acabando por apresentar a tese de doutoramento A Massa e o Público no departamento de Filosofia da Universidade de Heidelberg, em 1904. Inspirações da sociologia “formal” simmeliana, como a ideia de que a circulação impessoal de objetos simbólicos é própria de agrupamentos com uma certa dimensão, são reconhecíveis em variadíssimas formulações de Park, como ao contrapor a natureza das interações na pequena comunidade, onde “uma impressionante quantidade de informação pessoal flutua entre os indivíduos”, com a cidade, que se caracteriza pela ausência dessa “massa de informação” (Park, 1915: 607). Porém, de novo insatisfeito com a sua produção científica e inseguro quanto ao seu capital académico, Park recusou uma oportunidade para experimentar o ensino oferecida por Albion Small, que dirigia o departamento de Sociologia em Chicago. Em vez disso, deu outra guinada biográfica aos 40 anos, voltando a distanciar-se do mundo universitário e passando a trabalhar primeiro com a Associação para a Reforma do Congo e depois com um instituto para a promoção da população negra nos Estados Unidos. Seria a reputação granjeada como especialista em questões raciais que lhe valeria novo convite para ensinar na Universidade de Chicago, que por fim aceitou, já em 1913. 3. A ideia de comunicação em Robert Park Park trilhou, a partir de então, um caminho influente na academia, que o levaria até presidente da American Sociological Association em 1925. Mas, se não parece fácil situar o seu pensamento numa única corrente teórica, a ideia de comunicação que emerge dos seus escritos radica sobretudo na própria conceção de sociedade mais como fluxo e processo do que como estrutura, o que terá resultado tanto de várias das suas influências intelectuais, de Simmel aos pragmatistas, como terá sido devedora da própria experiência de repórter, observador que mergulhava no quotidiano volátil e variegado da metrópole e que dela adquiriu uma noção ao mesmo tempo de fenómeno geográfico e de complexo de forças em interação. Também próximo da corrente interacionista, Park vê na comunicação, em primeiro lugar, um processo que se dá entre indivíduos com um self, ou seja, com um ponto de vista e consciência de si. Por isso sublinha que não cabe nesta categoria a mera estimulação entre indivíduos, dado que a comunicação envolve interações em que existe interpretação e reciprocidade. Esta noção, típica do interacionismo simbólico, tem desde logo implicações no modo como Park considera o jornal, pois é devido ao carácter recíproco da comunicação que as notícias geram “uma tensão” no público, sendo “notícias vivas” e não “factos inertes” (Park, 1940a: 677). Esta tensão não é vista como dizendo respeito apenas a cada indivíduo de per se, mas a uma corrente ou atmosfera que se dá no seio do público, ou seja, ela é produzida pela reciproci- Por um prisma histórico na sociologia da imprensa, recordando Robert Park José Ricardo Carvalheiro https://dx.doi.org/10.12795/RIHC.2023.i20.08 ISSN: 2255-5129 2023 20 127-145 134 dade entre os seus membros a propósito de um foco de atenção comum (cf. Park, 1938: 196; 1941b: 369). Não havendo nada que faça “viver” mais as notícias do que serem recordadas e repetidas pelas pessoas, isto é, interpretadas e comunicadas nos círculos interpessoais, parece claro que, para Park, o jornal é sobretudo uma forma de interação social, característica de um determinado contexto social e histórico, mais do que um objeto material. No quadro que traçou acerca da interação, o lugar do jornal e das notícias só pode ser entendido dentro da sua ideia de comunicação, que Park não considera a única forma de interação social, uma vez que ela coexiste com outras formas, nomeadamente com a competição (cf. Park, 1938: 191-196). A comunicação como forma específica de interação é caraterizada também por um segundo aspeto primordial: ao contrário da competição – em que os processos adaptativos funcionam segundo o princípio da individuação –, a comunicação funciona “primeiramente como um princípio integrador e socializador” (ibidem: 195). Neste ponto, a principal inspiração intelectual é Dewey, em cujo pensamento se baseia a ideia de que a comunicação é a forma de interação geradora de entendimento entre os componentes individuais de um grupo social, sendo, para Park, aquilo que “faz girar uma teia de hábitos e expectativas mútuas que dão cimento” às instituições sociais e, em suma, aquilo que dá corpo a uma “ordem moral” que possibilita a própria existência de uma sociedade enquanto “unidade cultural” (ibidem: 191-192). Park usa o conceito de ordem no sentido sociológico de padronização e estabilização de formas sociais (problema crucial dos sociólogos “clássicos”, a contas com profundas mudanças societais) e reconhece a existência de dois tipos de ordem, que se complementam e que assentam, precisamente, nas duas formas de interação apontadas: a ordem simbiótica ou ecológica, que se baseia no princípio da competição e que predomina nos mundos do comércio e da política; e a ordem moral ou cultural, assegurada pela comunicação, e que se traduz num fundo de costumes, convenções e senso comum (cf. Park, 1938: 194). A ordem moral ou cultural, e por isso também os processos comunicativos, são fundamentais na produção de formas de “controlo social” (designação usada por Park para referir os mecanismos organizadores dos comportamentos coletivos) que enquadram e modificam a ordem ecológica assente na competição. Nos contextos urbanos, onde abundam interações secundárias e indiretas, a imprensa moderna – e sobretudo a imprensa de massas, mais inclusiva – é, na ótica de Robert Park, uma instituição que funcionará como fator de integração na medida em que “continuar a falar-nos de nós próprios”, ou seja, na medida em que, em primeiro lugar, garanta a existência de uma teia comunicativa num sistema social alargado e, em segundo lugar, que contribua para a produção “moral” de convenções e costumes coletivamente reconhecidos e que permitam um fundo de entendimento: “Temos de conhecer, de alguma maneira, a nossa comunidade e os nossos assuntos com a mesma intimidade com que os conhecíamos no mundo aldeão” (Park, 1923: 278). A noção comunicacional em Park está, portanto, duplamente radicada na ideia de constituição processual da sociedade por meio das interações e na ideia de que essa constituição comunicativa é coesiva na sua própria natureza, perspetiva epistemológica que obviamente marginaliza os aspetos conflituais e as questões de poder ao nível comunicacional (remeten- Por um prisma histórico na sociologia da imprensa, recordando Robert Park José Ricardo Carvalheiro https://dx.doi.org/10.12795/RIHC.2023.i20.08 ISSN: 2255-5129 2023 20 127-145 135 do-os para o âmbito da competição “ecológica”, que se verifica nas esferas da política e do mercado). É certo que Park considera a comunicação como potencial intensificadora da competição e produtora de conflito quando põe em contacto indivíduos ou grupos previamente isolados, mas em última instância a interação comunicativa tende sempre para uma gradual aproximação e entendimento (Park, 1938: 195). No fundo, é ela que torna possível o coletivo e social (Turner, 1967: xxviii). Por estas razões, pode considerar-se que a sociologia de Robert Park tem na comunicação a sua palavra-chave (Subtil e Garcia, 2010: 228), mas também que a sua ideia de sociedade permeada pela comunicação encara esta como “um processo intangível e não-material, que não pode ser reificado” e que, portanto, não é possível observar, descrever e avaliar com instrumentos metodológicos de curto alcance (Jagmohan, 2008: 138), mas que, pode acrescentar-se, não dispensa, por outro lado, uma perspetiva com profundidade histórica. 4. A perspetiva histórica sobre a imprensa A mesma conceção processual de sociedade, como algo constituído por um permanente e dinâmico tecido de interações, é o que acaba também por fundamentar “a ênfase crucial na história” (Turner, 1967: xxi) em que Park embebe a sua análise social. Isso é totalmente explícito em relação à imprensa, com as suas transfigurações: “para entendê-la temos de vê-la numa perspetiva histórica” (Park, 1923: 276). Mas esta perspetivação histórica feita pelo sociólogo de Chicago contém várias dimensões, que estão contidas em A história natural do jornal e são complementadas noutros textos. Em primeiro lugar, é uma visão macro em que tentava situar os jornais num quadro de inteligibilidade em relação à transformação de fundo que foi classicamente formulada como uma passagem dos contextos de comunidade para os de associação, ou das formações sociais tradicionais para as modernas. Nesse sentido, Park estava sobretudo interessado em compreender as razões fundamentais para os jornais serem como eram e detetar o seu papel numa nova “ordem”. Em segundo lugar, adotava uma perspetiva de articulação entre as mudanças na imprensa e outros fenómenos e campos sociais também em transformação. A mais nuclear dessas articulações é com o fenómeno da urbanização (e da metropolitanização), mas também com os partidos políticos, com os mecanismos de mercado, com o tipo de linguagem e com outras formas de cultura popular. Tratava-se, no fundo, de inserir a imprensa de forma crucial numa teoria da mudança social, colocando-a no cerne da compreensão sociológica da modernidade. A teorização de Park, fundamentalmente assente nas interações comunicativas, produz uma visão totalmente distinta do quadro conceptual que era o da teoria da sociedade de massas e da suposta instauração de uma atomização social. Por um prisma histórico na sociologia da imprensa, recordando Robert Park José Ricardo Carvalheiro https://dx.doi.org/10.12795/RIHC.2023.i20.08 ISSN: 2255-5129 2023 20 127-145 142 de forma tão concisa e atual quanto possível”) é exemplo do uso de uma fonte histórica de meados do século XIX para ilustrar a tese de que se mantêm certas homologias funcionais por detrás da mutabilidade nas formas da imprensa, e que “os incidentes pitorescos ou românticos” tratados no jornal metropolitano pelo seu “interesse humano” e simbólico são, de certo modo, um prolongamento dos mecanismos comunicativos que produzem o “controlo social” na aldeia (cf. Park, 1923: 277-278). O artigo de Park não contém, todavia, indicações de datas e fontes, abstém-se de precisar cronologicamente as referências e mistura alusões ou materiais de épocas distintas sem o fundamentar, numa série de insuficiências que, malgrado tratar-se de um texto ensaístico, não deixam de configurar problemas metodológicos no plano histórico. O texto também não empreende uma tentativa rigorosa de periodização, um dos pilares teóricos da historiografia (Daly, 2009). Em seu lugar, aponta uma série de tipos em sequência histórica (primeiros jornais, jornais partidários, imprensa independente, imprensa sensacionalista), mas cujas supostas etapas são temporalmente vagas ou grosseiras, e com pouca propensão para discernir entre critérios sociológicos (pequena comunidade vs. metrópole) e critérios históricos (o jornal de tipo “antigo”; o jornalista “dos velhos tempos”). O autor de “A história natural do jornal” poderá também ser incluído entre os teóricos que tendem a reduzir o processo histórico a uma mera transformação da sociedade tradicional em moderna; e sem identificarem propriamente um mecanismo transformador de um tipo de sociedade noutro (Hobsbawm, 2010: 140-141). Por todas estas razões, torna-se mais lícito considerar Park como mentor de uma sociologia histórica da imprensa11 do que fautor de uma história social dos media, se dermos ao conceito de história social o sentido rigoroso da prática investigativa que começava, igualmente na década de 1920, a ser conduzida em França pela escola dos Annales. Não deixa, porém, de haver pontos de contacto, pois também os Annales pretenderam aproximar os dois campos e Fernand Braudel (já em 1959) criticava paralelamente, por um lado, a fixação dos estudos sociais no presente e o seu desdém pela história (e, ainda mais, uma “ciência da comunicação” que formulava “estruturas quase intemporais”), mas também, por outro lado, censurava a autolimitação de uma certa história que era simples relato de acontecimentos (Braudel, 1982: 19). Na sociologia histórica da imprensa esboçada por Park prevalece a procura sociológica de regularidades e padrões, mas com o teor histórico sempre presente na identificação de mudanças concomitantes entre contextos e instituições, e o facto de a investigação histórica do autor de Chicago ser pouco rigorosa não diminui a importância de, há um século atrás, a ter invocado e utilizado como fator fundamental para a compreensão dos media por parte das ciências sociais. 11. Como de facto foi apontado por James Carey, que considerou Park o primeiro autor de uma sociologia histórica devotada aos mass media, lamentando que esta fosse muito escassa ao longo do século XX, apesar de os meios de comunicação serem instituições centrais nas sociedades modernas (Carey, 1982). Por um prisma histórico na sociologia da imprensa, recordando Robert Park José Ricardo Carvalheiro https://dx.doi.org/10.12795/RIHC.2023.i20.08 ISSN: 2255-5129 2023 20 127-145 143 6. Notas conclusivas Robert Park foi um dos últimos herdeiros diretos de uma sociologia clássica em que pontificava a perspetiva (macro-)histórica e, ao mesmo tempo, foi um dos primeiros a colocar a comunicação e as suas mediações no centro da teoria social. Na década de 1920, essa aliança entre reminiscência (o ponto de vista histórico, que se estava a tornar serôdio no campo sociológico) e pioneirismo (a lente comunicacional, que ainda mal emergia nas ciências sociais) permite encará-lo hoje como um nó de originalidade historicamente situado, mas também como um autor estimulante para uma sociologia histórica dos media com pertinência para os nossos dias. A sociologia começara, em boa medida, por especulações históricas como as de Comte e Spencer, mas nos inícios do século XX, após Durkheim, a generalidade dos sociólogos afastaram-se dos grandes esquemas históricos e da própria consideração da história, virando-se para o estudo sistemático do presente e para abordagens mais abstratas que almejavam a afirmação científica da disciplina (Tilly, 1988: 703-704). Mas a proeminente participação de Robert Park neste processo de legitimação académica nunca envolveu o extirpar da abordagem histórica, contra a corrente que então traçava divisões entre a história e a sociologia. A partir da década de 1960 as duas disciplinas reaproximaram-se, acabando Pierre Bourdieu por afirmar que “a separação entre sociologia e história é desastrosa e totalmente desprovida de justificação epistemológica: toda a sociologia devia ser histórica, e toda a história sociológica” (Bourdieu e Waquant, 1992: 90). Um destacado sociólogo defensor dessa aproximação, Philip Abrams, negou que a própria atenção concreta aos eventos devesse ser prerrogativa apenas dos historiadores, sustentando que “um acontecimento é onde a ação e a estrutura se encontram” (Abrams, 1982: 192). Curiosamente, após a sociologia se ter reaproximado da história, o seu interesse pela comunicação parece ter diminuído, deixando a proeminência do estudo dos media, desde finais do século XX, a outras disciplinas (Waisbord, 2016: 1171), com a subárea da sociologia histórica a não ter chegado a incorporar grandemente as questões comunicacionais.12 Enquanto Robert Park já foi proposto como figura fundadora para a sociologia dos media nos Estados Unidos, devido ao seu lugar na história da área (Jacobs, 2009), o objetivo deste artigo é recuperar o seu legado de há cem anos como estímulo para uma sociologia histórica do jornalismo e dos media. 12. Pelo menos nas suas instâncias mais institucionalizadas, como a revista Journal of Historical Sociology (criada em 1980), que, até hoje, apenas publicou 3 artigos cujos títulos remetem para o estudo da comunicação. No Handbook of Historical Sociology (2003) nenhum capítulo é dedicado à comunicação ou aos media. Não deixa, porém, de haver autores que aliam a abordagem histórica a um ângulo sociológico no estudo do jornalismo, como são os casos, em Portugal, de Joaquim Fidalgo (O Jornalista em Construção, 2003) ou de Fernando Correia e Carla Baptista (Jornalistas do Ofício à Profissão, 2007). Por um prisma histórico na sociologia da imprensa, recordando Robert Park José Ricardo Carvalheiro https://dx.doi.org/10.12795/RIHC.2023.i20.08 ISSN: 2255-5129 2023 20 127-145 144 Como defendeu Bourdieu, ao invés de se opor reprodução e transformação social, devemos olhar para as relações entre as estruturas sociais e as mudanças históricas nos seus quadros empíricos específicos – suspeitando, pelo contrário, da “filosofia social” e do pensamento teleológico presente em alguma sociologia com ângulos macro-históricos pouco fundamentados (Bourdieu e Wacquant, 1992: 91-92). O trabalho de Park neste domínio não serve de inspiração porque seja modelar. Mas, precisamente porque enferma de alguns problemas de consistência histórica sem que isso anule a sua valiosa epistemologia histórico-sociológica, pode representar ao mesmo tempo um estímulo e um alerta. Apesar da sua linguagem vívida e saborosa, “A história natural do jornal” padece de leituras teoricamente datadas, mas vale sobretudo pela ideia de que uma sociologia dos media deve necessariamente ser histórica. Principalmente em épocas, como a da atual “digitalização”, em que as transformações empíricas parecem evidentes e profundas, mas tendem a carecer de um olhar diacrónico devidamente fundamentado. Referencias bibliográficas ABRAMS, P. (1982): Historical Sociology, Ithaca, Cornell University Press. BERGANZA CONDE, M. R. (2000): Comunicación, opinión pública y prensa en la sociologia de Robert E. Park, Madrid, Centro de Investigaciones Sociológicas. BOURDIEU, P. e WACQUANT, L. (1992): An Invitation to Reflexive Sociology, Cambridge, Polity Press. BRAUDEL, F. 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