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Archivo Español de Arqueología, 2022, 95, e01 ISSN-L: 0066-6742 | eISSN: 1988-3110 https://doi.org/10.3989/aespa.095.022.01 Myrtilis durante o I milénio a. C.: uma leitura historiográfica* Myrtilis during the I Millenium BC: a Historiographical review Pedro Albuquerque Universidad de Sevilla, Uniarq (Universidade de Lisboa), Centro de Estudos Globais (Universidade Aberta) [email protected]; [email protected] ORCID iD: https://orcid.org/0000-0003-4800-7343 Ana Mateos-Orozco Universidad de Sevilla [email protected] ORCID iD: https://orcid.org/0000-0002-8778-5116 Enviado: 22-10-2020. Aceptado: 01-03-2021. Publicado online: 29-03-2022 Cómo citar este artículo / Citation: Albuquerque, P. y Mateos-Orozco, A. (2022). “Myrtilis durante o I milénio a. C.: uma leitura historiográfica”. Archivo Español de Arqueología, 95, e01. DOI: https://doi.org/10.3989/ aespa.095.022.01 RESUMO: O presente trabalho incide sobre a produção historiográfica relativa ao I milénio a. C. em Myrtilis (Mértola, Portugal) entre as primeiras fontes árabes e os trabalhos de Estácio da Veiga em 1877. Analisam-se fontes primárias, assim como bibliografia crítica sobre dados arqueológicos, fontes greco-latinas, falsas etimologias e numismas, que tratam a origem dos fundadores da cidade. Esta investigação permitiu sistematizar as fontes disponíveis para o estudo de Myrtilis e avaliar a evolução da representação do período pré-romano antes das primeiras prospecções arqueológicas neste território. Além disso, conclui-se que a maior parte das propostas apresentadas não sofreram alterações significativas até finais do século XIX, e que a escassez de contextos primários não permitiu responder a algumas questões que ainda hoje se colocam, nomeadamente a cronologia da primeira fase de ocupação. Palavras-chave: Mértola; Idade do Ferro; historiografia; falsas etimologias. ABSTRACT: The main goal of this paper is to provide an insight into the historiography of the 1st Millenium BC in Myrtilis (Mértola, Portugal) between the first Arabic sources and the works of Estácio da Veiga in 1877. We examine the scholar’s treatment of the archaeological record, classical sources, (false) etymologies, and coins, within the search for Myrtilis’ origins and first settlers in the primary sources. This study enabled us to systematize these sources and to analyse the evolution of the depiction of that period before the first archaeological surveys in this territory. We conclude that most of these statements did not change critically until the end of the 19th Century, and that the scarcity of primary archaeological contexts did not allow us to answer some questions, namely the chronology of the first human settlement in Myrtilis. * Este trabalho realizou-se no âmbito do Projecto “O Baixo e Médio Guadiana (sécs. VIII a. C. – I d. C.): Percursos de uma fronteira”, financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, I. P. (SFRH/BPD/110188/2015).
Pedro Albuquerque / AnA MAteos-orozco 2Archivo Español de Arqueología, 2022, 95, e01 | ISSN-L: 0066-6742 | eISSN: 1988-3110 | https://doi.org/10.3989/aespa.095.022.01 Keywords: Mértola; Iron Age; historiography; false etymologies. RESUMEN: El presente trabajo analiza la producción historiográfica relativa al I milenio a. C. en Myrtilis (Mértola) entre las primeras fuentes árabes y los trabajos de Estácio da Veiga en 1877. Se analizan fuentes primarias, así como bibliografía crítica sobre datos arqueológicos, fuentes grecolatinas, falsas etimologías y numismas, que tratan la identificación del origen de los fundadores de la ciudad. Esta investigación ha permitido sistematizar las fuentes disponibles para el estudio de Myrtilis y estudiar la evolución de la representación del periodo prerromano antes de las primeras prospecciones arqueológicas en este territorio. Se concluye, asimismo, que la mayor parte de las propuestas presentadas no cambiaron significativamente hasta finales del siglo XIX, y que la escasez de contextos primarios no había permitido responder a algunas cuestiones, tales como la cronología de la primera fase de ocupación. Palabras clave: Mértola; Edad del Hierro; historiografía; falsas etimologías. Copyright: © 2022 CSIC. This is an open-access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution 4.0 International (CC BY 4.0) License. 1. INTRODUÇÃO Escrever a história dos olhares sobre a antiga Myrtilis é uma tarefa que permite constatar de que modo o longo percurso histórico desta vila alentejana despertou o interesse de vários eruditos desde, pelo menos, o séc. XVI. É nesse século que surgem as primeiras tentativas de interpretação dos documentos disponíveis para a identificação dos seus fundadores, que por sua vez são o produto das interrogações destes autores sobre as fontes greco-latinas, a etimologia do topónimo Myrtilis, a epigrafia, as estátuas e as moedas. Considerou-se oportuno analisar com brevidade alguns manuscritos ou testimonia que antecedem os principais autores quinhentistas. Convém, desde já, dizer que esta herança não afectou, necessariamente, a transmissão de informações sobre Mértola, em parte devido aos interesses que moviam autores como, por exemplo, Al-Rāzī (século X). Na sua obra, tal como noutras, o nome da actual vila surge no contexto de uma descrição geográfica, faltando por isso informações sobre o seu passado mais além de uma breve menção a “construções antigas”. A isto junta-se o conjunto de autores cujas obras se conhecem por intermédio de textos posteriores (Laimundo de Ortega, Pedro Aládio, as Annotationes de António Pinheiro, etc.) e que, amiúde, foram questionadas na sua autenticidade. O presente trabalho constitui uma proposta de sistematização crítica do legado acumulado ao longo dos séculos sobre a antiguidade de Mértola, particularmente do I milénio a. C., correspondente, grosso modo, à Idade do Ferro e aos primeiros séculos de ocupação romana, onde se referem todos (ou quase todos, assumindo a priori que algum possa ter escapado à nossa investigação) os contributos para esta questão publicados antes da obra de Estácio da Veiga (1880). Genericamente, a pesquisa incidiu sobre fontes primárias medievais e modernas de carácter geográfico, corográfico e historiográfico, onde se refere a recepção das fontes clássicas que mencionam Mértola, assim como as várias leituras sobre a sua origem através de conjecturas sobre a etimologia do topónimo. Acrescenta-se, ainda, bibliografia crítica elaborada sobre aqueles textos em geral e sobre aspectos particulares que podem elucidar-nos sobre os motivos que conduziram à elaboração das propostas apresentadas entre o referido Al-Rāzī e Estácio da Veiga, com especial incidência no séc. XVI1. Considerou-se pertinente dividir este percurso em duas fases: na primeira, a produção bibliográfica apresenta dados de carácter meramente geográfico ou depende dos textos greco- -latinos e das especulações etimológicas; na segunda, inaugurada por André de Resende, privilegiam-se, além dos aspectos anteriores, os elementos materiais que constituem testemunho de ocupações antigas. Entre estes autores e 1877 não se registam novidades significativas ao nível dos temas de estudo, à excepção dos numismas de Myrtilis a partir de finais do séc. XVIII. Os trabalhos do último quartel do séc. XIX, pode dizer-se, encerram um ciclo interessante de leitu1 As transcrições dos textos são semi-diplomáticas, i.e., respeitam a ortografia original, embora se desenvolvam abreviaturas e se coloque pontuação para uma melhor compreensão.
Myrtilis durante el I mIlenIo a. C.: una leCtura hIstorIográfICa 3Archivo Español de Arqueología, 2022, 95, e01 | ISSN-L: 0066-6742 | eISSN: 1988-3110 | https://doi.org/10.3989/aespa.095.022.01 ras que se basearam tanto no legado clássico como nas fontes quinhentistas e que antecedem a investigação arqueológica propriamente dita. Julgou-se, não obstante, oportuno apresentar, no capítulo de discussão e considerações finais, o debate sobre a questão do topónimo (transversal a estas fases), assim como uma breve reflexão sobre as investigações do I milénio a. C. em Mértola depois de Estácio da Veiga. 2. DE AL-RĀZĪ A ANDRÉ DE RESENDE André de Resende não foi o primeiro a destacar a importância de Mértola e a sua antiguidade, embora seja evidente que não havia muito a acrescentar às escassas referências das fontes clássicas, que assinalam o estatuto de Myrtilis Iulia sob o domínio romano (Faria, 1995; 2001) e a sua posição no contexto das vias romanas de acordo com a informação proporcionada pelos itinerários (cf. Barreiros, 1561, p. 7). Estes textos foram utilizados por um famoso cronista cordovês, Al-Rāzī, que escreveu, na primeira metade do séc. X, uma obra intitulada Ajbar mulūk al-Andalus, que ficou conhecida como Crónica do Mouro Rasis (doravante, CR), cujo objectivo primordial era escrever a história do al-Andalus desde os tempos mais remotos. Apesar dos vários problemas que se apontam ao texto sobre o período pré-islâmico (Molina, 1982-1983) e até mesmo sobre a autenticidade da crónica (Catalán e De Andrés, 1974, p. X; Matesanz, 2004, p. 20 ss.), Al-Rāzī destaca a antiguidade de Pax Iulia e a sua relação com Júlio César ou Hércules (Lévi-Provençal, 1953, p. 48). Efectivamente, a CR chegou até nós através de uma tradução portuguesa, hoje perdida, ordenada por D. Dinis um pouco antes de 1315, terminus ante quem marcado pela morte do tradutor. O texto terá sido integrado na Crónica de 1344 (doravante, Cr1344), que por sua vez mantém uma estreita relação com a CR, com algumas interpolações. A Cr1344, por seu turno, foi refundida por volta de 1400, embora mantendo os dados geográficos da CR (Lavajo, 1991, pp. 127-139; Catalán e De Andrés, 1974, p. X ss.; Rei, 2001, p. 237 ss.). O texto diz o seguinte: “E Beja jaz em terra chãa e ha em seu termho vyllas y castellos, dos quaaes hũu he Mertolla que he o mais forte castello que ha em seu termho. E Mertolla jaz sobre o ryo de Odyana e he muy antigo Castello; e ha hy edifficios antigos” (Cr1344, Cap. 36 = CR, Cap. 26). Mértola (Mercola, Merçola segundo os manuscritos) é apresentada neste texto como um castelo sobranceiro ao Guadiana cuja antiguidade estava atestada por vestígios (“señales viejas” nos vários manuscritos) aí encontrados (CR, Cap. 26). Lévi-Provençal (1953, p. 88) traduz por “construções antigas” esta passagem, tal como no cap. 36 do manuscrito da Cr1344. Chama a atenção a ocupação intensa desta vila desde, pelo menos, a Idade do Ferro, como demonstra a sequência da área de expansão da Biblioteca de Mértola, onde não falta o desmantelamento de estruturas anteriores durante as fases islâmicas propriamente ditas (Palma, 2016). O texto de Al-Rāzī parece, assim, assinalar uma antiguidade indiciada por vestígios materiais, uma vez que nenhum texto clássico refere a fundação deste oppidum, e as adscrições de Ἰουλία Μυρτιλίς ao mundo turdetano, a par de Πὰξ Ἰουλία, por parte de Ptolomeu (Geo. 2.5.5), não deixam muito espaço de manobra, pelo menos no âmbito da hermenêutica das fontes. Por seu turno, o reaproveitamento de materiais mais antigos foi, mais tarde, salientado por André de Resende e Amador Arrais, possivelmente por observação directa (v. infra). Apesar desta constatação na CR, a aparente falta de interesse sobre o passado remoto de Mértola não contradiz os objectivos gerais da obra, mas contrasta com a importância da vila no período islâmico, como aliás tem vindo a ser demonstrado na copiosa bibliografia produzida nas últimas décadas pelo Campo Arqueológico de Mértola (CAM) sobre esta época. Em todo o caso, o texto destaca a capacidade defensiva que terá motivado a escolha deste lugar e permite entrever a importância do castelo (Ḥiṣn) no contexto do território de Beja. Outros autores posteriores assinalam, sem mais pormenores, esta característica, entre outros, Al-Idrisi (1100-1165), Yāqūt (1179-1229) ou Ibn Al-Abbar (1199-1260) (Gómez, Macias e Torres, 2007, p. 121; Gómez et al., 2009, p. 409; Ἀbd al- -Karīm, 1974, p. 295; Machado, 1997, pp. 22-23; Rei, 2005) (Tab. 1). Estas obras, de cariz geográfico, não anularam o contributo da CR para a manutenção e consolidação da tradição tubalista e dos antigos povoadores da Península Ibérica. Mais tarde, os autores cristãos deram continuidade a este discurso que tinha início no Dilúvio e nas personagens do Antigo Testamento. Assim, na senda aberta pelas Chronica Maiora de Isidoro de Sevilha (CR, Cap. 64 ss.; Molina, 1982-1983), estes textos suplantaram as grandes referências históricas do passado clássico, i.e., a Guerra de Tróia e a fundação de Roma, substituindo-a pelo passado bíblico e pela história régia (Caballero, 2004, p. 399; Matesanz, 2004, p. 19). Nesta crónica, o passado pré-islâmico adquire a mesma importância histórica do período islâmico, gerando um discurso único no qual se integram as diferentes culturas que habitaram o solo peninsular (Catalán e De Andrés, 1974, p. XXIX ss., CI; Lavajo, 1991, p. 130 ss.). Ao mesmo tempo, a CR parece ocul-
Pedro Albuquerque / AnA MAteos-orozco 4Archivo Español de Arqueología, 2022, 95, e01 | ISSN-L: 0066-6742 | eISSN: 1988-3110 | https://doi.org/10.3989/aespa.095.022.01 tar, nas suas entrelinhas, vestígios de tradições mais antigas, relacionadas com os Cartagineses (Matesanz, 2002). A ausência de particularismos da história local (mais comum na historiografia seiscentista) justifica- -se, portanto, pelas preocupações destas crónicas no sentido de produzir um discurso histórico de âmbito “nacional”. No entanto, deve dizer-se que a escrupulosa compilação de Elices Ocón (2017, pp. 204, 231) permite confirmar que as menções a Mértola não são abundantes e que, além disso, a maioria destes textos diz respeito aos períodos romano e tardo-antigo. Mais tarde, no séc. XV, al-Himyari refere-se a Martula e Mirtula, assim como aos mencionados vestígios antigos do núcleo urbano. Destacou, igualmente, as ruínas de uma fortaleza que seria, para o autor, da época de César Qalysan (Cláudio ou Diocleciano) (García Sanjuán, 2003, p. 138) num lugar denominado Marsa Hasim que foi identificado em Castro Marim (Coelho, 1989, pp. 56-57) e Sines (Macias e Lopes, 2012, p. 307). A sua proximidade em relação a Mértola e junto à costa pode indicar que dita “costa” pode ser fluvial e não marítima, o que incita a um maior aprofundamento no estudo desta importante passagem. Em todo o caso, al-Himyari destacou, igualmente, o potencial defensivo da fortaleza de Mértola. Este, por sua vez, foi representado no início do século XVI por Duarte de Armas, “debuxador” encarregue de avaliar e desenhar o estado das fortalezas fronteiriças portuguesas entre 1509 e 1510, por ordem de D. Manuel (Castelo Branco, 2006). Estes desenhos (Fig. 1) permitem ter uma ideia aproximada do modo como seria a vila nos inícios do século XVI, bem como do tipo de embarcações que, nesse momento, chegariam ao porto mertolense. O trabalho deste autor não é, porém, relevante para as reflexões aqui expostas. Autor Título (edições consultadas) Referência a Mértola Menção de vestigios antigos Anónimo Dirk bilad al-Andalus (M. Penelas) X Yakut Mu’djan al-Buldan (F. Wüstenfeld) X Ibn Idari Al-Bayan al-Mugrib (F. Fernández González) X Al-Ya’qubi Kitāb al-buldān (M.J. de Goege) Al-Istajri Al-Masalik wa al-Mamalik (M.J. de Goege) Al-Muqadasi Ahsan al-taqasim finma’rifat al-aqalim (A. Miquel) Ibn Hawqal Kitab surat al-ard (J.H. Kramers e G. Wiet; M.J. Romaní Suay) X Al Himyari Kitab al-Rawd al-Mitar (P. Maestro González) X X Al-Rāzī Ajbar Muluk al-Andaluz (D. Catalán e M.S. De Andrés) X X Al-Bakri Kitab al-Masalik Wa-l-Mamlik (E. Vidal) AlQazwini Atar al-Bilad (F. Roldán) Al Qalqasandi Subh al-A’safi Kitabad al-Insa (L. Seco de Lucena) Al Idrissi Sifat al-Magrib wa l’Andalus (R. Dozy; M.J. de Goeje) X Ibn Hayyan Muqtabis (M.M. Antuña) Tabela 1. Autores árabes que tratam a Península Ibérica e referências a Mértola (elaboração própria). Figura 1. Duas perspectivas de Mértola segundo Duarte d’Armas (1510). Disponível online em https://digitarq.arquivos.pt/ details?id=3909707 (cons. 7/10/2020).
Myrtilis durante el I mIlenIo a. C.: una leCtura hIstorIográfICa 5Archivo Español de Arqueología, 2022, 95, e01 | ISSN-L: 0066-6742 | eISSN: 1988-3110 | https://doi.org/10.3989/aespa.095.022.01 É pertinente assinalar de passagem a questão da procura das raízes nacionais que moldou a historiografia quinhentista e que motivou a apropriação de personagens e paisagens da Antiguidade como fonte de legitimação. Neste contexto, a transcrição e impressão dos textos de Plínio, Estrabão, Ptolomeu, Mela, entre outros, constituiu uma oportunidade para proceder à identificação, no terreno, das paisagens aí mencionadas, assim como para relacionar personagens da Antiguidade com esses lugares, dando assim origem às primeiras corografias modernas (Albuquerque e Ferrer, 2019, com bibliografia). Em muitos casos, o horror vacui provocado pela ausência de fontes que demonstrassem a antiguidade de um lugar ou, simplesmente, o mencionassem, conduziu a outras leituras que nos interessam particularmente. Referimo-nos, concretamente, às “falsas etimologias” que se baseavam, exclusivamente, em semelhanças fonéticas, mas que tinham um papel de enorme transcendência e relevância no discurso histórico. Basta referir, a título de exemplo e sem pretensão de exaustividade, os nomes das vetustas dinastias espanholas (Ibero, Brigo, etc.) do falso Beroso ou Ânio de Viterbo, a identificação de cidades como Setúbal com o suposto primeiro povoador da Península Ibérica, Tubal, ou mesmo o famoso mito de fundação de Lisboa por Ulisses (entre outros, Arrais, 1589, pp. 54-55). Importa, pois, salientar que estas falsas etimologias serviram, em várias ocasiões, para defender a relação entre um lugar e o(s) seu(s) suposto(s) fundador(es). Para o caso que se analisa no presente trabalho, o texto que se segue cita a opinião de uma das personalidades mais relevantes da intelligentsia do reinado de D. João III (1521-1557), D. António Pinheiro (Brito, 1597, fl. 145v-146) ou Antonius Pini/ Pino Portodemaeo. Este filho de Porto de Mós referiu-se, numas “advertências de mão que fez de cousas antigas deste Reino” (ibid., fl. 91; Machado, 1741, p. 356), a uma possível origem tíria (i.e., cartaginesa) de Mértola: … & querendo os Tyrios renovar naquela cidade a memoria de sua pátria, lhe chamarão Myrtiri, ou Mirtyris, diruandolhe o nome desta dicção, Myr, que segundo aponta o Bispo Pinheiro, quer dizer em lingoa Tira, cousa nova, & de Tyro sua primeira patria, de modo, que tanto val Mirtyris, como Tyro a noua. Muitos annos depois se lhe mudou corruptamente huma letra, & lhe chamarão Myrtilis, & agora Mertola (Brito, 1597, fl. 145v-146). Uma leitura das passagens em que as “advertências” ou “annotationes” são usadas por Brito na Monarchia permite afirmar, com relativa segurança, que a etimologia fazia parte das inquietações de Pinheiro na reconstituição das “coisas antigas” do território ibérico em geral. Assim, o etnónimo Pesuro (Plin., NH 4.35; Alarcão, 2005) teria uma origem lusitana (“pashur”, “cobarde”), tal como o topónimo Yria, identificado perto de Santiago de Compostela, que significaria “esquadrão” ou “exército de guerra” (Brito, 1597, fls. 91 e 111). Murgi seria, por seu turno, um topónimo da “antiga língua de Espanha” que deu origem a Burgos, do mesmo modo que Hermínios (“ásperos” ou “intratáveis”) (ibid., fl. 323). Por último, Évora e Elvas associavam-se e etnónimos (Evorones e Helvécios), o que provaria uma origem celta destas importantes cidades alentejanas (ibid., fl. 286). A referência à “lingoa tyria” constitui um desafio aliciante no sentido de identificar nas entrelinhas destas leituras o estudo das línguas semitas, em particular do Hebraico, durante o séc. XVI, tanto em Portugal como em Paris. Parece, nesse sentido, interessante pensar que o mencionado antropónimo bíblico Pashur (Ne. 10.3, etc.) pode ter sido conhecido de Pinheiro, o que remeteria para o significado da referência a uma antiga língua falada em solo português. Esta discussão foi mantida, mais tarde, na Origem da Lingoagem Portugueza de Nunes de Leão (1606, pp. 1-16) e estava em sintonia com as teorias sobre os primeiros povoadores da Península Ibérica, como o já mencionado Tubal, assim como com a ideia de que o Hebraico era a prima lingua mundi, da qual derivariam outras, como, aliás, está patente no relato da Torre de Babel2. Para responder às várias questões suscitadas por estes apontamentos em torno a um texto desaparecido, assim como para desentranhar das entrelinhas dos documentos do (e sobre o) douto portomosense informações relevantes para esta discussão, é de todo o interesse analisar parte do seu percurso intelectual, sobretudo nos vários momentos em que a sua sabedoria foi requerida para o exercício de cronista real. Entre 1527 e 1540, Pinheiro adquiriu uma sólida formação clássica e teológica em Paris como bolseiro enviado por 2 Em Portugal, o Hebraico começou a fazer parte dos programas de Santa Cruz de Coimbra por volta de 1538, seis anos depois da impressão de um léxico, hoje perdido, de Grego e Hebraico (Paiva, 1532; Anselmo, 1926, p. 120, nº 445; Rodrigues, 1973, pp. 16-17), com o objectivo de incrementar a cultura do Clero e a formação de futuros missionários por parte de D. João III (Rodrigues, 1973, p. 3 ss.; Matos, 1950, pp. 32-33), num contexto em que esta língua assumia papel relevante entre os eruditos e eclesiásticos (Beato, 2020). Além-fronteiras, este estudo estava já bastante consolidado em cidades como Paris (p. ex., Gesner, 1540, com reflexões sobre vários idiomas, entre eles o Fenício e, justamente, a sua relação com o Hebraico; Postel, 1552; cf. Matos, 1950, p. 112 ss.).
Pedro Albuquerque / AnA MAteos-orozco 6Archivo Español de Arqueología, 2022, 95, e01 | ISSN-L: 0066-6742 | eISSN: 1988-3110 | https://doi.org/10.3989/aespa.095.022.01 D. João III e, munido desses conhecimentos, exerceu docência no Colégio parisiense de Santa Bárbara, fundado por Diogo de Gouveia Sénior (cf. Matos, 1950; Dias, 1969; Pereira, 1997, p. 339; Cardoso, 1997, p. 126. Graes, 2008; André, 2009). Assinou várias obras impressas e manuscritas e é recordado, com razão, como homem “doutíssimo na Lingoa Latina, e […] consumado nas Letras Divinas, e Humanas” (Figueiredo, 1817; Machado, 1741, p. 356; Farinha, 1784, 1785; Cardoso, 1997). Os comentários ao Livro III de Quintiliano (1538), assim como a tradução do Panegírico de Plínio-o-Jovem e um manuscrito (produzido entre 1541 e 1543) com uma lição de gramática e oratória latinas (Gómez Iglesias, 1949; Pereira, 1997, p. 333), são testemunho eloquente da vocação com que regressou, por ordem real, a Portugal em 1540. Já em solo pátrio, Pinheiro substituiu Damião de Góis, que nesse momento enfrentava alguns problemas com a Inquisição (Kopcke, 1838; Viterbo, 1895; 1899; 1900; Serrão, 1972, pp. 192-193; Cardoso, 1997, pp. 125-126). Este regresso constituiu um passo decisivo para a consolidação do seu percurso como eclesiástico e como personagem relevante da corte (Machado, 1741, pp. 353-356) Gómez Iglesias, 1949, p. 25 ss.). Mas, como afirmou com acerto J. V. Serrão, “o palaciano vencera para sempre o cronista” (1972, p. 193), i.e., não chegou a concretizar os projectos historiográficos de que fora incumbido, devendo ainda destacar-se o facto de ele próprio se ter manifestado a favor de ser escolhido para esta nobre tarefa numa carta redigida, possivelmente antes de 1550, ao Conde de Castanheira (Viterbo, 1899, pp. 432-434). Nesse ano, D. João III nomeia-o, em carta régia, cronista do reino: A quantos esta minha carta virem faço saber que avendo eu respeito aas vertudes, letras, bondade, saber e discrição do doctor Antonio Pinheiro, meu preguador e capelão, e confiando delle que em tudo o em que o encarregar me seruira muy inteiramente, e como delle confio, por todos estes respeitos e por folguar de lhe fazer grala e merce, tenho por bem e me praaz de lhe fazer merce do carreguo de meu coronista (Viterbo, 1900, p. 173; Cardoso, 1997, p. 126). A exigência de rigor das informações coligidas, ou mesmo “por ser mais inclinado a outros estudos, ou per ter o trabalho por grande”, levaram a que o rei preterisse o trabalho de Pinheiro a favor de João de Barros para a realização da crónica de D. Manuel (D. de Góis, apud Viterbo, 1895, p. 495). Em 1558, Damião de Góis voltou a abraçar este projecto por ordem do Cardeal D. Henrique, publicando-o oito anos depois (Góis, 1566). Faltava, porém, a Crónica do Piedoso, para a qual Pinheiro se encontrava a compilar informações em 1570 e 1572, segundo duas cartas, uma do rei a solicitar documentos da Torre do Tombo a D. de Góis, e outra da rainha, D. Catarina, a D. António Pinheiro (Viterbo, 1900, pp. 173-175). Finalmente, em 1573, “era a vez do Cardeal Infante se dirigir ao cronista a exigir que acabasse a Crónica de D. João III” (Serrão, 1972, p. 193). Compreende-se, pois, a razão pela qual se afirma que Pinheiro não foi especialmente prolífico como historiador (Viterbo, 1899, p. 429 ss.; 1900; Serrão, 1972, p. 186 ss.), o que leva a questionar quais terão sido os motivos da redacção das “advertências”, que com isto se juntariam aos mencionados documentos recolhidos pelo autor (Viterbo, 1899, pp. 173-175; Serrão, 1972, pp. 192-195)3. Embora não saibamos ao certo se estas informações seriam, ou não, incluídas na sua Crónica, as conjecturas etimológicas de Pinheiro referidas por Brito poderiam, igualmente, ser cotejadas com o pensamento de Quintiliano (Pereira, 20002001). Este, nas Instituições Oratórias (1.6. 28-31), fornece algumas pistas para o estudo da etimologia. Poderíamos acrescentar, igualmente, as Etimologias de Isidoro de Sevilha, que constituem um testemunho eloquente desta estratégia de representação do passado (Blikstein, 1978, p. 115; Villaseñor, 2003, p. 12; Harley, 2014). Estes aspectos devem ser, porém, tratados noutro lugar. O que foi exposto até este momento permite tecer algumas considerações em torno do papel das línguas sagradas (Hebraico, Grego e Latim) entre os eruditos portugueses no séc. XVI, e em particular na formação de indivíduos como A. Pinheiro. A importância da prima língua mundi poderia explicar o interesse por eti3 Apesar da riqueza documental do estudo de J. V. Serrão (1972, p. 186 ss.), não se comenta a referência que faz Brito a Pinheiro. Poder-se-ia questionar se estes apontamentos faziam, ou não, parte dos materiais coligidos para a Crónica, mas não há qualquer informação a este respeito, explícita ou implícita, quer nos documentos já publicados, quer na bibliografia crítica. De qualquer modo, uma carta de Pinheiro ao Conde da Castanheira reflecte, com a eloquência que o caracteriza, como o autor via o ofício de historiador e o conteúdo ideal de uma crónica: “E lembrame que fazendome V.S. merce de nestas e algumas outras cousas ouuir meu indiscreto parecer, tambem concedia que se não podia de todo desculpar a negligencia dos príncipes passados, que, multiplicando os oficiaes da camara e da fazenda, cargo de sua fama entregaram a hum só e nam com muito exame, fazendo modo de socessam no que deuia ser eleiçam escolhimento, quanto mais que auendo de mandar digerir e ordenar diferentes coronicas, humas dos feytos illustres para o universo mundo, outras para exemplo dos príncipes vindouros” (apud Viterbo, 1899, pp. 422-433).
Myrtilis durante el I mIlenIo a. C.: una leCtura hIstorIográfICa 7Archivo Español de Arqueología, 2022, 95, e01 | ISSN-L: 0066-6742 | eISSN: 1988-3110 | https://doi.org/10.3989/aespa.095.022.01 mologias que parecem ir ao encontro da construção da imagem de uma nação cujas raízes recuavam aos tempos bíblicos (Leão, 1606, p. 8; cf. Franco, 2000; Brito, 1597). No caso que nos ocupa, é possível identificar uma referência implícita às comparações entre línguas que serviriam como ponto de partida para estudar as remotas origens das nações e territórios concretos (Percival, 1986, p. 28; cf. Kessler-Mesguich, 1996; Demonet, 2009), destacando-se o influente trabalho de S. Bochart, que chegou a propor uma origem semita para o corónimo Britannia (Albuquerque e Ferrer, 2019, p. 38 ss., com bibliografia). Terá este conhecimento alguma relação com a proposta apresentada pelo erudito de Porto de Mós? Não nos parece possível, na ausência das Annotationes, dar uma resposta segura a esta pergunta, embora se deva considerar, a título hipotético, que este interesse pelas línguas em si mesmas pode estar vinculado à própria retórica, campo no qual Pinheiro se formou e afirmou. Porém, à falta de dados mais concretos sobre o porquê de esta atribuição da fundação de Mértola a uma iniciativa “luso-cartaginesa”, pode dizer-se que este eclesiástico inaugurou um debate que se mantém até à actualidade, não obstante as diferenças das abordagens mais actuais, e ao qual se juntaram outras interpretações que teremos oportunidade de comentar. A figura de André de Resende, que estudou, igualmente, em Paris (1527-1529) (Matos, 1950, p. 68; cf. Carneiro, 2019, pp. 17-18), é incontornável nesta reflexão, uma vez que o uso que fez da epigrafia e da observação de restos construtivos, complementando- -o com a interpretação das fontes clássicas, constitui uma novidade no panorama que temos vindo a descrever. Pode dizer-se que este interesse foi decisivo para que Amador Arrais, em 1589, assinalasse a epigrafia de Mértola no terceiro dos seus Diálogos, inspirado noutros textos resendianos. Note-se que esta obra é anterior à impressão de De Anquitatibus Lusitaniae, o que leva a que tenhamos escolhido ano da morte de Resende, 1573, para analisar a próxima fase da nossa leitura historiográfica. 3. DE ANDRÉ DE RESENDE A ESTÁCIO DA VEIGA Mírtilis, a quem chamamos Mértola, situada sobre o rio Guadiana, está cheia de grande número de monumentos da antiguidade como cipos, colunas e estátuas que Godos e Mouros, por serem uns e outros de inteligência perfeitamente bárbara, utilizaram largamente para reparar as muralhas em vez de pedra de alvenaria (Resende, 1593, p. 179; trad. Fernandes e Pinho, 2009). A 1 de Outubro de 1533, Resende expôs, numa carta endereçada ao Cardeal D. Afonso, alguns motivos que o levaram a valorizar a epigrafia como fonte histórica (Fernandes e Pinho, 2009, p. 70) e que fizeram parte da incansável recolha para uma obra magna que só foi dada ao prelo vinte anos depois da sua morte (Resende, 1593). É nesta que o autor disserta sobre as fontes clássicas que mencionam a cidade e que lhe permitem associar, definitivamente, Myrtilis a Mértola (do mesmo modo que A. Ortelius) (Fig. 2), assim como sobre diversos elementos materiais que testemunhariam um passado grandioso, nomeadamente as estátuas e as epígrafes, num tom de lamento revelador da sua sensibilidade, diríamos hoje, arqueológica, formada e consolidada nos círculos eruditos europeus (Fernandes e Pinho, 2009, p. 5 ss.). É com este pensamento que Resende valorizou e discutiu a informação “étnica” de Ptolomeu sobre a origem turdetana de Beja e Mértola. Discutiu também, de forma eloquente, nas epístolas a Vaseu, a questão de Pax Iulia e Pax Augusta, contrariando uma identificação – aliás bastante difundida – da última cidade com Badajoz e que está presente no Chronicon do destinatário das suas cartas (Pereira, 1988, pp. 220-221). Assinalou ainda que Beja estaria entre os Celtas, reproduzindo a informação de Estrabão sobre Pax Augusta (Str. 3.2.15)4. Sobre a localização de Myrtilis, deve ainda abrir-se um parêntesis para assinalar a personalidade de A. Ortelius, que procurou cartografar algumas paisagens da Antiguidade, nomeadamente da velha Hispania, num contexto em que este tema não fazia parte dos interesses genéricos dos eruditos peninsulares. Assim, poucos anos antes da publicação das Antiguidades da Lusitânia, Ortelius identificou, em Synonymia Geographica (1576) e no mapa de Hispania Veteres Descriptio (1586), várias cidades da Antiguidade da Península Ibérica a partir, principalmente, das fontes clássicas (Albuquerque e Ferrer, 2019, p. 28 ss.). No léxico de 1576, o cartógrafo de Antuérpia baseou-se unicamente na informação de Francisco Tarafa, que refere o estatuto da civitas de Iulia Myrtilis ao tratar a figura de César (Tarafa, 1553, p. 53). No entanto, como bem assinalou E. da 4 Str. 3.2.15. Veja-se, a este respeito, o texto da História de Portugal, de Fernão de Oliveira/ Fernando Oliveira (c. 1507-1582), escrito em torno de 1580, fl. 3-4. Encontra-se em preparação a edição da obra completa deste autor. Cf. Franco, 2000. A respeito de Resende, Oliveira comenta o seguinte: “Évora cidade também é bem antiga. De cuja antiguidade <em nossos dias escreveu> mestre André de resende natural dela, e homem havido por mui lido, e amigo de antiguidades, e curioso de ler pedras romanas: <porém> porque tinha o entendimento duro, como as mesmas pedras, não se sabia desapegar delas: e cuidava, que em Roma se comprendiam todas as antiguidades” (fl. 12-12v).
Pedro Albuquerque / AnA MAteos-orozco 8Archivo Español de Arqueología, 2022, 95, e01 | ISSN-L: 0066-6742 | eISSN: 1988-3110 | https://doi.org/10.3989/aespa.095.022.01 Veiga (1880, p. 49), corrigiu a localização de Mértola proporcionada por Ptolomeu no Theatrum Orbis Terrarum, colocando-a na margem direita do Guadiana e junto à desembocadura da Ribeira de Oeiras (Ortelius, 1584, p. 15-16; o referido mapa de 1586, reproduzido na Fig. 2, não apresenta este último pormenor). O trabalho de Resende em Mértola prima, como se pode constatar, pela inovação e por ser um testemunho eloquente de uma nova forma de construir a imagem do passado nacional, regional e local com base em vestígios materiais, em boa medida inspirado pelo caminho aberto, cerca de um século antes, por Biondo (Rebelo, 1982, p. 87; Albuquerque e Ferrer, 2019, pp. 20-22). É essa sensibilidade que o leva a lamentar o facto de os habitantes de Mértola permitirem “que levassem dali oito ou dez estátuas, escavadas da terra, artisticamente esculpidas, mas sem cabeça. Admite-se que as cabeças fossem de bronze e inseridas nos corpos e que tivessem mesmo sido arrancadas para outro uso” (Resende, 1593, p. 179, trad. Fernandes e Pinho, 2009; cf. Cardoso, 2006, p. 319). O pensamento do humanista português, nomeadamente no que diz respeito à localização de Pax Iulia, à epigrafia como fonte histórica e ao seu conhecimento das fontes revelado nas Antiguidades de Évora, foi justamente assinalado na obra de Amador Arrais: “Andre de Resende varão de muita erudição, liurou das treuas da ignorancia, com sua graue historia, sua nobre pátria, não indigna de tal aluno” (Arrais, 1589, fl. 86v). Arrais era, igualmente, eclesiástico, tendo-se iniciado nessa carreira aos 15 anos (1545) como carmelita calçado (Almeida, 1974, pp. XI-XII). Estudou Teologia no Colégio do Carmo em Coimbra e desenvolveu, até 1586, uma importante carreira eclesiástica, sem descurar a construção de um profundo conhecimento das letras clássicas (entre outros, Machado, 1741, pp. 122-124; Silva, 1858, pp. 52-53). Os Diálogos de Frei Amador Arrais tiveram duas edições, uma em 1589 e outra, revista e aumentada, em 1604. Esta contém alguns acrescentos, não só na quantidade dos diálogos (7 na primeira, 10 na segunda), mas no conteúdo de algumas passagens, entre elas a que ilustra o pensamento do autor em relação a Myrtilis5. Este aspecto reveste-se de bastante interesse, uma 5 O capítulo 7 desse diálogo foi dedicado aos municípios de direito latino conhecidos em solo português, a saber, Évora, Mértola e Alcácer do Sal. O facto de Resende ter analisado as antiguidades da primeira cidade inibiu Arrais de se deter muito nela: “remitouos a sua historia, trilhada per mãos de toda Hespanha” (1589, fl. 86v). Figura 2. A. Ortelius, Hispaniae veteris descriptio (1586). Exemplar depositado na Biblioteca Nacional de Portugal. Disponível online em http://purl.pt/30653/service/media/pdf (cons. 31/08/2020).
Myrtilis durante el I mIlenIo a. C.: una leCtura hIstorIográfICa 9Archivo Español de Arqueología, 2022, 95, e01 | ISSN-L: 0066-6742 | eISSN: 1988-3110 | https://doi.org/10.3989/aespa.095.022.01 vez que, na primeira versão, Arrais refere estátuas e uma epígrafe que continha o nome Myrtilus, com um interesse, diríamos, resendiano (antes, obviamente, de 1593, ano de publicação das Antiguidades; sobre este nome, cf. Isidoro de Sevilla, Etimologias 13.16.8), assim como a proposta de que o nome teria origem grega. A segunda versão contém já uma actualização da informação, citando explicitamente Resende (1593) e, implicitamente, Pinheiro ou, mais provavelmente, Brito (Arrais, 1604, fl. 113-113v; compare-se com id., 1589, fl. 56v-57): Mertola se chamava Iulia Myrtilis, & he conhecida pola pescaria dos solhos, que sam os suillos, como proua Resende contra o parecer de Rondelecio. Duram inda em Mertola columnas6; estatuas, & mármores com letreiros Romanos, dos quaes os bárbaros assi Godos, como Mouros, no reparo dos muros, arcos, torres, & pontes vsauam, pondoas por alicerces, & fundamentos, conforme seus bárbaros engenhos. Em meu tempo nos fundamentos da misericordia desta Villa se acharão sinco, ou seis estatuas de mármores, que eu vi; & vendoas me alembrou o verso de Virgilio, em que pronosticou que aueria entre Romanos imaginarios, & estatuarios tam excelentes em sua arte, que nas pedras cortarião imagens tanto ao natural, como se foram cousas viuas. Stabunt & parij lapideS Spirantia Signa7 Huma dellas era de molher, e tam bem laurada, & galharda, que representaua â maravilha a nobreza, & gentileza da pessoa, a que foi dedicada. A qual me fez um gustoso spectaculo dos trajos, que usavão as Romanas nobres. Tinha sua roupa te os pês com muitas prégas muito bem compostas, cingida por debaixo dos peitos (que algum tanto se enxergavão) com um cordão torcido da grossura de hum dedo, e tinha no meo do peito dous nôs cegos, com dous cabos iguaes, que decião para baixo. Tinha seu roupão muito fraldado tè os pès, posto nos hombros, & com a mão direita tinha recolhida grande parte delle, e o lançada sobre a esquerda do cotovello tè a mão com gentil arte. Este nome Myrtilis parece grego, como nos ficarão outros muitos, por ventura do tempo de Olysses. Nam falta quem diga ser phaeniceo, & que Myrtiris é o mesmo que Tyro a nova, fundada pelos Tyros, & Phaeniceos, 6 Nota à margem: “Lib. 2 Antiq. Lusit. Pag. 55” 7 VERG., G. 3.34. que apportarão na Lusitania. Myrtilo se chamou hum filho de Mercurio, e eu vi em Mertola, em uma sepultura Romana, o nome de Myrtilus. Já em finais do séc. XVI, Bernardo de Brito (1597) dedicou o Capítulo 14 do segundo livro da Monarchia Lusitana à fundação de Mértola, fazendo eco não só da etimologia proposta por António Pinheiro, como também de outros autores cujas obras se encontram, na actualidade, desaparecidas. Entre essas obras está o enigmático manuscrito de Antiquitatibus Lusitaniae, do pacense Laimundo de Ortega, supostamente escrito em 878 e depositado na biblioteca do Mosteiro de Alcobaça (Machado, 1742, p. 1), assinalado por Brito como uma das suas principais fontes (Rego, Andrade e Alves, 2004, p. XIX). Segundo se depreende da leitura da Monarchia, Laimundo valorizou a presença cartaginesa na Península Ibérica e elaborou uma lista de reis muito semelhante à de Beroso (Brito, 1597, p. 6; Fernandes, 2007, p. 122). Em 1596, Nicolás Antonio questionou a verdadeira existência deste manuscrito, defendendo que se tratava de uma invenção (Álvarez, 2017, p. 189), mas Barbosa Machado procurou argumentar no sentido contrário, afirmando que outros tiveram contacto de visu com este documento. A este junta-se Pedro Aládio, autor que terá escrito, em c. 1234, um manuscrito intitulado De Sacrificiis antiquis Lusitanorum que foi citado unicamente por Brito (cf. Machado, 1742, pp. 1-2 e 550). Chama a atenção o facto de Brito se basear nesta fonte, muito possivelmente inventada, para dar um interessante protagonismo aos Cartagineses, não só na descoberta das costas peninsulares nos périplos de Hanão e Himilcão (1597, fl. 115-117v), mas também nos vários episódios em que esta comunidade e os portugueses se uniram sob os auspícios de Hércules (ibid., f. 136v; Fernandes, 2007, p. 142) p. ex. na fundação de cidades. No que diz respeito a este aspecto, além de Braga, o autor assinalou que os Cartagineses fundaram uma cidade junto de Alvor, denominada Portus Hannibalis (Mela 3.7; Brito, 1597, fl. 120; cf. Resende, 1593, pp. 88 e 185) e Lagos (Brito, 1597, fl. 136v-137). Baseando-se, novamente, em Laimundo, defendeu que, em 318 a. C., os Tírios, em parceria com os Portugueses, fundaram Mértola na sequência da fuga de população tíria para Cartago e daí para Utica e Península Ibérica. O autor resume deste modo a participação “luso-tíria” em Myrtilis: Aceitada esta condição [de igualdade no governo da nova fundação] se puserão mãos na obra, com tanta diligencia dos Tyrios, & gosto dos Portugue-
Pedro Albuquerque / AnA MAteos-orozco 16 Archivo Español de Arqueología, 2022, 95, e01 | ISSN-L: 0066-6742 | eISSN: 1988-3110 | https://doi.org/10.3989/aespa.095.022.01 Demonet, M.-L. (2009). “La langue primitive des débuts de la conscience linguistique europeénne en France”. En: Soares, N. N. C. e López Moreda, S. (coords.), Génese e Evolução da ideia de Europa, Vol. 5, Idade Média e Renascimento. Coimbra: Imprensa da Universidade, pp. 147-170. Dias, J. S. S. (1969). A política cultural na época de D. João III. 2 vols. Coimbra: Instituto de Estudos Filosóficos. Elices Ocón, J. (2017). El pasado preislámico en alAndalus: fuentes árabes, recepción de la antigüedad y legitimación en época omeya (ss. VIII-X). Tesis doctoral inédita, Madrid. Fabião, C. (1987). “Ânforas romanas republicanas de um depósito de Mértola no Museu Nacional de Arqueologia e Etnologia”. O Arqueólogo Português, série IV, 5, pp. 125-148. Fabião, C. 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