Re is a C í ica de Ciências Sociais
124 | 2021
Núme osemi emá ico
T ans o ma o mundo pelo abalho, pela es é ica e
pela polí ica: uma análise de cole i os ea ais
como u opias eais
T ans o ming he Wo ld Th ough Wo k, Aes he ics and Poli ics: An Analysis o
Thea e Collec i es as Real U opias
T ans o me le monde à a e s le a ail, l’es hé ique e la poli ique : une
analyse des collec i s de héâ e comme u opies éelles
JoanaS.Ma ques
Ediçãoelec ónica
URL: h ps://jou nals.openedi ion.o g/ ccs/11669
ISSN: 2182-7435
Edi o a
Cen o de Es udos Sociais da Uni e sidade de Coimb a
Ediçãoimp essa
Da a de publição: 1 maio 2021
Paginação: 157-178
ISSN: 0254-1106
Re ê enciaele ónica
Joana S. Ma ques, «T ans o ma o mundo pelo abalho, pela es é ica e pela polí ica: uma análise de
cole i os ea ais como u opias eais», Re is a C í ica de Ciências Sociais [Online], 124 | 2021, publicado
a 26 maio 2021, consul ado a 26 maio 2021. URL: h p://jou nals.openedi ion.o g/ ccs/11669
JOANA S. MARQUES
T ans o ma o mundo pelo abalho,
pela es é ica e pela polí ica: uma análise
de cole i os ea ais como u opias eais
O p esen e a igo deb uça ‑se sob e os cole i os de a is as a pa i do enquad amen o
eó ico da ciência social emancipa ó ia de E ik Olin W igh . A análise compa a i a
de cole i os ea ais em Po ugal e no B asil e idencia o ca á e p ecá io do abalho
a ís ico, mas e ela ambém múl iplas esis ências a a és de di e en es dinâmicas
de o ganização e ação cole i a. A a és de dois es udos de caso p ocu a ‑se demons‑
a como alguns cole i os ea ais, al como p opos o po W igh , (1) elabo am um
diagnós ico e c í ica do mundo e do sis ema capi alis a, (2) imaginam e p ocu am
coloca na p á ica al e na i as “ iá eis” e (3) deb uçam ‑se sob e os obs áculos e as
possibilidades de ans o mação. O a gumen o cen al é que es es cole i os cons i uem
o ganizações emancipa ó ias que a iculam a sua linguagem a ís ica com no as o mas
de o ganização social e de p odução.
Pala as ‑cha e: B asil; emancipação; E ik Olin W igh ; es a i icação social; Po ugal;
ea o.
In odução
No a ual con ex o de me can ilização e p eca ização do abalho, o p esen e
a igo p ocu a deb uça -se sob e o mas con empo âneas de emancipação
social a pa i da análise dos cole i os de abalhado es -a is as, com des-
aque pa a os cole i os ea ais.1 T a a -se de um g upo de abalhado es
que é o emen e con on ado com i ências de p eca iedade, ao mesmo
empo que his o icamen e su ge pouco ep esen ado pelas o mas adicio-
nais de o ganização dos abalhado es, mas onde são obse á eis múl iplas
1 Ap esen am-se pa e dos esul ados da ese de Dou o amen o em Sociologia da au o a (Ma ques,
2016), desen ol ido na Uni e sidade de São Paulo, sob o ien ação do P o esso Ruy B aga e coo-
ien ação da P o esso a Luísa Veloso. Es e abalho oi inanciado po undos nacionais a a és
da FCT – Fundação pa a a Ciência e a Tecnologia no âmbi o da Bolsa de Dou o amen o com a
e e ência SFRH/BD/75745/2011.
Re is a C í ica de Ciências Sociais, 124, Maio 2021: 157-178
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esis ências e dinâmicas de o ganização e ação cole i a – um g upo, po an o,
onde podemos simul aneamen e obse a as mu ações em cu so no mundo
do abalho e o mas con empo âneas de emancipação.
Pa a comp eende es e obje o, desen ol emos um es udo compa a i o
com base em dois con ex os que conhecem, de o ma aguda, os p ocessos
con empo âneos de me can ilização e p eca ização do abalho e onde o
enómeno do cole i ismo assume con igu ações dis in as: B asil e Po ugal.
Nos anos 2000, os cole i os de a is as no B asil conquis a am á ias i ó ias
(como as leis de omen o à a i idade a ís ica com a do ação de um o ça-
men o p óp io), num mo imen o de c escen e o malização do abalho
a ís ico que acompanhou a endência e i icada na gene alidade do me -
cado de abalho b asilei o. Pelo con á io, em Po ugal, os a is as e seus
cole i os so e am de o as sucessi as, que se ag a a am no con ex o de
aus e idade (como a ex inção do Minis é io da Cul u a en e 2011 e 2015)
no sen ido de uma c escen e p eca ização. Mais ecen emen e, pe an e
no as conjun u as económicas e polí icas, e i ica -se uma mudança nos
sen idos desses p ocessos, pe mi indo uma e lexão mais ampla sob e as
ans o mações no mundo do abalho nos dois países, em esul ado das
mu ações do capi alismo a ní el global.
Empi icamen e, são analisados dois es udos de caso: um cole i o ea al da
cidade de São Paulo (B asil), na sua lu a po elações sociais e de p odução
mais equi a i as; e um cole i o ea al da cidade do Po o (Po ugal), na sua
esis ência ace ao con ex o de c ise e aus e idade. A pa i do enquad a-
men o da ciência social emancipa ó ia de E ik Olin W igh (2010), o a igo
a gumen a que es es cole i os ea ais cons i uem u opias eais, analisando-
-os à luz desse quad o eó ico. Da p eca ização à o ien ação pa a a ação,
na de esa do abalho (a ís ico) e no ques ionamen o do modelo económico
e social dominan e, es es cole i os de a is as p ocu am coloca em p á ica
no as elações sociais e de p odução não o ien adas pa a o me cado, e êm
sido pa e de um mo imen o mais as o de con es ação das polí icas de
aus e idade, con ibuindo assim pa a a cons ução de u opias eais.
1. Sob o legado das u opias eais
O P oje o U opias Reais, desen ol ido po W igh e pela sua equipa desde
o início dos anos 1990 e que culminou com a publicação da sua ob a semi-
nal em 2010, condensa um ap o undado abalho eó ico e empí ico sob e
ins i uições e p ocessos capazes de esboça al e na i as eais ao capi alismo
e às es u u as de pode , p i ilégio e desigualdade que o ca ac e izam.
W igh elabo a o quad o eó ico de uma ciência social emancipa ó ia, a qual
“p ocu a ge a conhecimen o cien í ico ele an e pa a o p oje o cole i o de
Uma análise de cole i os ea ais como u opias eais | 159
muda as á ias o mas de op essão humana” (W igh , 2010: 10; adução da
au o a), compo ando, po an o, um p opósi o cole i o e mo al na p odução
de conhecimen o no sen ido da emancipação social.
Esse enquad amen o é cons uído a pa i de ês a e as undamen ais
que guia am o p esen e es udo: elabo ação do diagnós ico e c í ica sis e-
má icos do mundo; conceção de al e na i as iá eis; e comp eensão dos
obs áculos, possibilidades e dilemas da ans o mação social. As u opias
eais enquan o p ocessos de “empode amen o social” podem se a i a-
men e cons uídas a a és de di e en es es a égias emancipa ó ias: desde
as isões que en endem que qualque aje ó ia pa a além do capi alismo
en ol e necessa iamen e uma u u a de ini i a; as es a égias in e s iciais
que concebem uma aje ó ia de mudança sus en ada sem qualque
momen o de ans o mação ab up a, p ocu ando c ia al e na i as o a
do Es ado e nas ma gens da sociedade capi alis a; e, ainda, as es a égias
simbió icas, que concebem o Es ado como e eno de lu a pa a a amplia-
ção do pode social.
Mui os cole i os de a is as, e os cole i os ea ais em pa icula , esul am
da associação olun á ia de pessoas da “sociedade ci il” e inco po am os
p incípios de pode social de inidos po W igh , baseados na capacidade
de o ganização pa a ação cole i a de á ios ipos. A uam no e eno das
mic o -u opias (Bou iaud, 2002), com po encial pa a ece uma eia de
esis ência cole i a (ou izoma, pa a u iliza um e mo ap op iado pelos
cole i os a ís icos, a pa i de Deleuze e Gua a i, 1995) e pa a ab i b echas
no p ocesso de ep odução social. A his ó ia e idencia múl iplos exemplos
de a is as que se jun a am em cole i os pa a lu a po pau as elacionadas
com abalho, es é ica e polí ica ( e S imson e Shole e, 2007).
2. T abalho a ís ico: p eca iedade, classe e o ganização cole i a
A his ó ia das a es pode se desc i a, como az Menge (2005), como um
p ocesso de desmemb amen o das a i idades a ís icas num núme o c es-
cen e de p o issões. Po um lado, obse a -se um p ocesso de especialização,
de di isão ho izon al do abalho baseada em di e en es expe ises, que é
on e de compe ição en e p o issões; po ou o lado, o p ocesso de di isão
e ical do abalho compo a desigualdades e elações de au o idade-
-subo dinação ( e ambém Becke , 2010).
A exis ência nes e se o de um as o “exé ci o a ís ico de ese a” e o
p ocesso de di e enciação no me cado de abalho a ís ico, com eno mes
desigualdades de sucesso e de emune ação, conduzem a uma apologia da
conco ência in e indi idual e a uma g ande ins abilidade labo al, in e -
mi ência e ausência de p o eções sociais. Es amos pe an e um conjun o
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de p ocessos de me can ilização e p eca ização do abalho que êm sido
ala gados à gene alidade dos abalhado es, incluindo segmen os adicio-
nalmen e mais es á eis (Cas el, 1998). Nes e sen ido, Menge (2005) de ende
que o a is a pode se is o como p ecu so de modalidades de hipe lexi-
bilidade no abalho, como se a a e osse um p incípio de e men ação do
capi alismo e o a is a uma igu a exempla do no o abalhado , uncional
à economia global.
Nes e con ex o, os p o issionais das a es, na sua mul iplicidade de
ca ego ias p o issionais e si uações na p o issão, ocupam um luga de classe
ambíguo. Po um lado, é possí el ala de um p ocesso de p ole a ização
do a is a, de inido como o aumen o do núme o de abalhado es sem
con olo sob e os meios de p odução e que dependem da enda da sua
o ça de abalho pa a sob e i e (Tilly, 1979; Benjamin, 1987). Po ou o
lado, o ac o de e em axas de abalho independen e supe io es às da
gene alidade da o ça de abalho,2 além de ele adas axas de desemp ego,
subemp ego e plu ia i idade (Menge , 2005), con igu am um p eca iado
a ís ico (Gill e P a , 2008; Bain e McLean, 2013). Reco endo à análise
de classes de W igh (1985), podemos a i ma que os a is as assumem
luga es con adi ó ios nas elações de classe, enquan o abalhado es
semiau ónomos que não de êm os meios de p odução e êm de ende a
sua o ça de abalho (sendo como al explo ados), mas possuem, con udo,
um ce o con olo sob e as suas a i idades p odu i as e á ios indicado es
de s a us social (como capi al cul u al e educacional).
Es e con ex o de lexibilidade e ausência de elações de abalho es á eis,
que ca ac e iza o abalho a ís ico e c escen emen e se es ende à gene-
alidade dos se o es de a i idade económica, desa ia a o ma de pensa o
abalho como luga de desen ol imen o de solida iedades e de o mação
de sujei os polí icos (Cas el, 2009), in ensi icando as di iculdades de sin-
dicalização, de acesso ao cole i o enquan o luga de lu a pela emancipa-
ção, de al o ma que os a is as adicionalmen e não e am incluídos no
mo imen o sindical. Con udo, abalhos mais ecen es desa iam es a isão,
ao demons a que o a ual p eca iado cons i ui uma o ça undamen al nas
lu as sociais da a ualidade ( e B aga, 2012; Soei o, 2015; A zeni e Ness,
2016). Assim, não obs an e as elações p oblemá icas ace ao mo imen o
2 Os dados ela i os aos dois con ex os em análise ão ao encon o de abalhos in e nacionais,
e elando a exis ência, no seio da população a i a, de axas de abalho independen e mais ele adas
en e os a is as, assumindo no B asil o alo de 31,9% nas a i idades elacionadas com a cul u a
ace a 20,7% do o al das a i idades p odu i as (IBGE, 2013) e em Po ugal 25,6% nas a i idades
elacionadas com a cul u a e 6,6% do o al das a i idades p odu i as (INE, 2011).
Uma análise de cole i os ea ais como u opias eais | 161
sindical adicional3 e em con aposição a abo dagens como as de Menge
(2005), ocadas exclusi amen e na p eca ização, o p eca iado a ís ico em
desen ol ido di e en es o mas de au o -o ganização cole i a e de a icula-
ção com os mo imen os de abalhado es p ecá ios e com lu as sociais mais
amplas. Veja -se, a í ulo de exemplo, a expansão, em Po ugal, do Sindica o
dos T abalhado es de Espe áculos, do Audio isual e dos Músicos (CENA-
-STE) e a sua a iculação com os mo imen os de abalhado es p ecá ios
po ugueses, que pode se analisado à luz da noção de “sindicalismo de
mo imen o social” (Wa e man, 1993), e o mo imen o A e con a a Ba bá ie,
no B asil, que conquis a a pionei a Lei Municipal de Fomen o ao Tea o
da cidade de São Paulo, a qual econhece a necessidade de sus en ação de
abalhos a ís icos não subme idos ao me cado (Cos a e Ca alho, 2008).
Nes e sen ido, o p eca iado (a ís ico) con ém em si o espe o de um
duplo mo imen o, que in eg a, po um lado, odas as o mas de abalho
(e ida) insegu as, ins á eis, lexí eis, p ecá ias e, po ou o lado, no as
o mas de sociabilidade, lu a polí ica e solida iedade que ul apassam os
modelos adicionais do pa ido polí ico ou do sindica o (Gill e P a , 2008).
3. Es a égia me odológica
A me odologia da in es igação in eg ou uma abo dagem inicial mais ex en-
si a com uma abo dagem quali a i a e in ensi a. Iniciamos a ap oximação
ao e eno empí ico a a és da análise de on es his ó icas, es a ís icas e
documen ais pa a con ex ualização e análise p elimina do abalho a ís-
ico no B asil e em Po ugal. Pos e io men e, p ocedemos ao le an amen o
ex ensi o de g upos e cole i os de a is as nos dois países, aos quais soli-
ci ámos o p eenchimen o de um ques ioná io pa a mapeamen o e análise
dos g upos na sua di e sidade.4
Com base nes a análise, op ou -se po seleciona os cole i os ea ais como
um caso singula de abalho a ís ico e de uma o ma especí ica de o ga-
nização do abalho, assen e na sua mu ualização: um cole i o de abalho.
Nes a e apa, ado ou -se uma abo dagem quali a i a a a és da obse ação
de di e sos cole i os, em di e en es momen os e con ex os (encon os,
seminá ios, es i ais, ensaios, ap esen ações públicas, o mações) e do ap o-
undamen o de dois es udos de caso (com base na ealização de en e is as
3 O sindica o b i ânico de p o issionais das a es pe o ma i as Equi y, com o igens em 1930, é um
dos poucos exemplos his ó icos de um sindica o que em como memb os cen ais abalhado es
con ingen es (Dean, 2012).
4 Responde am ao ques ioná io 247 g upos (150 do B asil e 97 de Po ugal), num o al de 924
ques ioná ios en iados.
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semies u u adas e análise documen al)5 que são o oco p imo dial da p e-
sen e análise: o cole i o paulis ano Dolo es Boca Abe a Meca ônica de
A es e o cole i o po uense Visões Ú eis. Em e mos empo ais, o oco da
análise si ua -se en e o inal dos anos 1990 e o ano 2015, pe íodo em que
se assis e à eclosão do enómeno dos cole i os con empo âneos (S imson
e Shole e, 2007), associado à consolidação de polí icas públicas se o iais.
A ealização do abalho de campo oi con on ada com alguns cons an-
gimen os no p ocesso de inse ção no e eno e com a di iculdade da sua
ope acionalização em dois campos dis in os e dois países dis an es, consi-
de ando as necessidades empo ais de econhecimen o eó ico e empí ico,
negociações e, sob e udo, o desa io de consegui conc e iza o abalho de
campo nos pe íodos planeados. Uma das es a égias u ilizadas no B asil oi
equen a um conjun o de cu sos e encon os pa icipados po di e en es
cole i os de a is as, os quais cons i uí am momen os cha nei a pa a a ina
a in es igação e enquan o po a de en ada no campo. Ou a es a égia oi,
semp e que possí el, an es de abo da os cole i os, assis i às suas p á icas,
em encon os, peças ou ou as a i idades.
Na ase de negociação pa a ob e a acei ação do cole i o em pa icipa
na in es igação, a ausência de espos as po pa e de alguns g upos oi eco -
en e, exigindo á ias en a i as, um ai ém que, mui as ezes, acabou po
não se conc e iza , ob igando a abandona alguns dos casos selecionados.
Mui os o am ambém os g upos e cole i os que eagi am posi i amen e,
nomeadamen e após esponde em ao ques ioná io de mapeamen o, o mu-
lando o con i e pa a os isi a e disponibilizando -se pa a colabo a na pa e
quali a i a da in es igação, ea i mando a impo ância da mesma.
4. Cole i os ea ais como u opias eais
Com base na p opos a de W igh (2010), os dois cole i os ea ais o am
analisados conside ando: (1) o seu diagnós ico e c í ica do mundo no qual
ope am; (2) as al e na i as que imaginam e p ocu am coloca na p á ica;
(3) o seu en endimen o dos obs áculos e possibilidades de ans o mação
social. Es as ês a e as o am analisadas com base no discu so dos cole i os
e seus ep esen an es, na sua ob a es é ica (Eagle on, 1976), nas suas opções
o ganiza i as e na sua mobilização social e polí ica.
5 Os documen os analisados incluí am documen ação p oduzida pelos dois cole i os (publicações,
si es, ídeos, olhas de sala das suas peças) e documen ação p oduzida sob e os mesmos ( epo agens
jo nalís icas, eses, e c.).
Uma análise de cole i os ea ais como u opias eais | 163
4.1. Dolo es Boca Abe a Meca ônica de A es
O cole i o Dolo es é in eg an e do mo imen o de “ ea o de g upo” paulis-
ano, ma cado pela sua o e poli ização. C iado no ano 2000, su ge como
esul ado da on ade de um g upo de qua o amigos, es udan es de jo na-
lismo e ea o, que i iam na pe i e ia (Zona Les e da cidade de São Paulo).
4.1.1. Diagnós ico e c í ica
Desde a sua o igem, os memb os do Dolo es sen iam as di iculdades de
quem es á na ma gem do cen o de p odução e não é de en o dos meios
de p odução. De aco do com um dos undado es, o Dolo es su ge com uma
ca ac e ís ica de con a -hegemonia:
[...] ousa aze a e, ea o, na pe i e ia, numa egião a as ada do cen o. Mas não
em pela negação pu a simples: “nós que emos se di e en es do cen o”. Não!
Vem pela incapacidade de en a no ci cui o do cen o, em pela exclusão mesmo.
A ecusa não é eó ica, a ecusa é ísica, ma e ial. Pa a da o sal o de en ende a ecusa
ísica, ma e ial, pa a da o sal o da p áxis, pa a ocê começa a en ende o que es á
acon ecendo, aí que em o Dolo es. (D2, em en e is a)6
Re le indo sob e a sua si uação de exclusão e a sua condição pe i é ica,
o cole i o decide a ua a pa i da pe i e ia paulis ana, simul aneamen e
po opção polí ica e po exclusão:
O g upo su ge com qua o pessoas escolhendo es a na pe i e ia po posicionamen o
polí ico e po impossibilidade de i e es a no cen o, ou seja, os en áculos da hege-
monia nos isga am, nos suga am. A gen e que ia i pa a o cen o, a gen e que ia i
pa a o cen o de pode , mas pela p óp ia dinâmica do capi al, pela p óp ia dinâmica
da exclusão, não cabia esse exceden e, esse exceden e de sonhos... (D2, em en e is a)
O cole i o desen ol e uma c í ica incessan e ao modo de p odução
capi alis a endo po base uma pe spe i a ma e ialis a dialé ica, a qual é
alice çada no es udo e na discussão de di e en es au o es, e na poli ização
no âmbi o de mo imen os sociais, como o Mo imen o dos T abalhado es
Ru ais Sem Te a (MST). Po ou o lado, esse diagnós ico do mundo no
qual se inse em es á ambém p esen e na ob a es é ica do cole i o, como se
pode cons a a a pa i da desc ição de uma das suas peças:
6 O nome das pessoas en e is adas oi anonimizado, usando-se apenas a le a inicial do cole i o
(“D” pa a Dolo es Boca Abe a Meca ônica de A es e “V” pa a Visões Ú eis) seguida de um
núme o a ep esen a cada uma delas.
164 | Joana S. Ma ques
Sujei a e sujei o pe i é ico, ocê es á P.U.T.O.? Nós ambém! Habi amos a pe i e ia
das cidades, luga es da lei sem lei, gen e exceden e. Ope amos na pe i e ia do sis ema,
a pe i e ia do abalho, a pe i e ia do conhecimen o, a pe i e ia do gozo, a pe i e ia
das polí icas públicas, a pe i e ia das a es, a pe i e ia da economia plane á ia, a pe i-
e ia do sis ema sola ! [...] Es amos subme idos à P os i uição Uni e sal do T abalho
O ganizado. Nosso discu so é Poesia U gen e Tocando o Osso. (T echo do espe áculo
P.U.T.O. do Cole i o Dolo es, CDC Ven o Les e, São Paulo, julho de 2015)
T a a -se de um diagnós ico que se e le e numa o e c í ica às ins i ui-
ções do Es ado, sindica os e eligião, enquan o ins umen os de dominação
cul u al, con o mismo social e subo dinação ao pode económico.
4.1.2. Al e na i as iá eis
“Dolo es Boca Abe a Meca ônica de A es, nome e sob e nome, somos nós.
Nós nume osos, c í icos, poli izando -se. Nós abalhado es da ida social e
azedo es de a e na ida poé ica que nos cons i ui como se social”, assim
se ap esen a o cole i o no seu si e.7 “Nos econhecemos como abalhado as
o ganizadas. Nos o ganizamos no sen ido de supe a a sociedade de classes”,
lê -se nou a secção do si e.8 Es amos pe an e um cole i o de abalhado es
que se exp essa po meio da a e, no sen ido de aze um ea o que exp ima
uma no a o ma de p odução, enquan o e amen a não apenas es é ica,
mas ma cadamen e polí ica.
Na lu a po um espaço p óp io, que su ge semp e como uma ques ão
u gen e pa a o desen ol imen o dos g upos ea ais, uma das al e na i as
pos as em p á ica pelo cole i o Dolo es oi a ocupação, em 2002, de um
an igo Cen o Despo i o Municipal (CDM), uma á ea pública abandonada,
onde o g upo pe manece a é hoje. A ocupação do espaço ep esen a a
ap op iação de um epe ó io dos mo imen os sociais b asilei os que lu am
po habi ação ou po e a.
A pa i da sua p eca iedade, mas ambém do seu posicionamen o
polí ico, o cole i o cons uiu no e eno do CDM um ea o de á o es
plan adas cole i amen e, azendo uma a quibancada, que se ia a base de
um dos concei os desen ol idos pelo cole i o – a a ena a bó ea – a a és do
qual e le e sob e a sua in e e ência no espaço, a en o à elação en e a e
7 Si e “Dolo es Boca Abe a: a e e polí ica”, consul ado a 15.01.2020, em h ps://www.dolo es
bocaabe a.o g.b /15-anos-de-dolo es.
8 Si e “Dolo es Boca Abe a: a e e polí ica”, consul ado a 15.01.2020, em h ps://www.dolo es
bocaabe a.o g.b /o-cole i o.
Uma análise de cole i os ea ais como u opias eais | 171
nós são de ac o ques ões e p eocupações que nos são comuns enquan o memb os
de comunidades, enquan o memb os de uma ge ação, de uma cidade, de um país,
de uma Eu opa, e c. [...] Também o nosso modo de abalha – ecusando a noção de
um líde , de uma isão única, co esponsabilizando odos os elemen os no esul ado
a ís ico inal, mas ambém abe o às con ibuições pa icula es que cada elemen o
pode aze ao p ocesso c ia i o. (V1, em en e is a)
Des e modo, o Visões Ú eis p opõe um ea o como espaço de mani es-
ação e de cidadania:
Nes e momen o [2014], sen e -se es e e o do po o que que muda as coisas e
que aze alguma coisa, ala -se mui o que é p eciso ou a e olução, que is o es á a
chega ao limi e, e as pessoas não pe cebem que há um espaço onde as ideias ci culam,
onde a ene gia é pa ilhada em empo eal com pessoas que es ão a pensa dessas
coisas, que é de ac o o ea o e as a es em ge al [...] É um espaço de ene gia cole i a
absolu amen e an ás ico. Eu acho que as pessoas ainda não êm a noção plena disso,
pensam mui o em en e enimen o, em i ali da umas ga galhadas, esquece as coisas
po um momen o, e não pensam no ou o lado, nessa cong egação das ene gias que
há nas mani es ações e ê -se que o po uguês, se hou e uma mani es ação, sal a pa a
a ua e g i a e le a ca azes e acha ma a ilhoso udo aquilo. Isso é o que acon ece
em pequena escala odos os dias nas salas de espe áculos, que é uma mani es ação
de pessoas que es ão jun as, cong egadas à ol a de ideias e sen imen os, umas a
conco da em, ou as a disco da em, ou as a ica em chocadas, a i em -se, seja o
que o . (V1, em en e is a)
O Visões Ú eis pa icipa ainda de di e en es es u u as onde se discu e e se
p omo e uma ação cole i a na á ea da polí ica cul u al e do abalho a ís ico.
Nes e âmbi o, o cole i o é memb o undado da Pla eia – Associação de
P o issionais das A es Cénicas, na qual alguns dos seus memb os êm ocu-
pado ca gos de di eção, e em colabo ado ambém em inicia i as do CENA-
-STE e da Associação de Comba e à P eca iedade – P ecá ios In lexí eis.
4.2.3. Dilemas da ans o mação
Um dos dilemas des acado pelo Visões Ú eis na sua expe iência de
cole i o diz espei o à i ência p á ica e ao comp omisso com o ideal de
cole i o:
Não oi semp e ácil in eg a ou os a is as na manei a como nós achá amos
que de íamos abalha , po que é cu ioso que as pessoas se ap oxima am de nós
po que que iam e essa libe dade c ia i a, de pode pa icipa num cole i o que
172 | Joana S. Ma ques
decide os espe áculos e não só ilus a a ideia de um di e o , que é esponde à
encomenda, digamos assim, com menos libe dade... As pessoas acaba am po se
ap oxima po que que iam essa libe dade, mas depois na e dade não inham a
ma u idade pa a acei a a libe dade, po que com a libe dade em a esponsabi-
lidade, ou co esponsabilização, e a capacidade de discu i ideias, lu ando pelas
uas, mas discu indo e acei ando a ideia inal que mo e o odo. (V1, em en e is a)
Sob e a emá ica do abalho cole i o, o Visões Ú eis c iou o espe áculo
T ans/missão (2015), que explo a as di iculdades de se o ganiza e agi
cole i amen e.
No mesmo sen ido, ou o obs áculo sen ido pelo cole i o p ende -se com
o en ol imen o da população nas suas p opos as. A pa i do momen o em
que conquis ou uma sede ixa, no bai o da Fon inha, no Po o, o Visões
Ú eis p ocu ou desen ol e uma elação de p oximidade com a comuni-
dade en ol en e a a és de di e en es ações e es o ços, que, no en an o,
se depa a am com a al a de adesão da população. Esses es o ços passa-
am pela ap oximação, em 2011, ao p oje o Es.Col.A – Espaço Cole i o
Au oges ionado do Al o da Fon inha, que ocupou uma an iga escola do
bai o e cons i uiu uma expe iência emblemá ica de au oges ão na cidade do
Po o, num pe íodo em que p oli e a am mo imen os de democ acia di e a
um pouco po odo o país. O p oje o Es.Col.A e as suas á ias a i idades
i e am uma in ensa adesão da comunidade local, de c ianças aos mais ido-
sos. A en a i a de ap oximação dos dois p oje os oi, con udo, a ada po
adiamen os sucessi os, bloqueios nas assembleias da Es.Col.A e, inalmen e,
pelo despejo do edi ício ocupado. Es e p ocesso, desc i o em de alhe po um
dos in eg an es do Visões Ú eis na sua ese de dou o amen o (Cos a, 2013),
ilus a as con adições com que os p oje os au oges ioná ios mui as ezes se
con on am na sua implemen ação p á ica, en e o en usiasmo inicial e a al a
de comp omisso, en e os obje i os cole i os e as mo i ações indi iduais,
en e as in enções e a sua ope acionalidade conc e a. No inal, oi po ia
ins i ucional, a a és da jun a de eguesia, que o Visões Ú eis conquis ou
a comunidade, implemen ando com sucesso o seu cu so de Pe o mance
em Comunidade, ealizado anualmen e desde 2012:
I ónico que i esse sido o Es ado a p o idencia , de o ma ápida e e icien e, a
mediação que não inha sido possí el, com o p oje o que se jus i ica a a si p óp io
como um bypass ao Es ado. Ainda assim, is o é só me ade da his ó ia. Po que ambém
é e dade que o Visões Ú eis só a ançou, de o ma decisi a, pa a os p ocessos de
mediação, com a população local, quando oi con on ado como o sucesso (apa en e
e inicial) da mediação da Es.Col.A. Foi a u opia – ali mais abaixo na ua – que nos
Uma análise de cole i os ea ais como u opias eais | 173
ez ac edi a que inha de se possí el, ca amba! [...] como izinho, que ambém ui,
é pa a mim impossí el não pa ilha um ascínio es é ico e polí ico pela comunidade
pi a a que ali es e e ins alada e pela sua capacidade pa a e e i amen e apon a no os
modos de pa icipação polí ica, nomeadamen e a a és de p á icas sociais e a ís icas.
Mas es e ascínio es é ico, com o exemplo, andou, pa a mim e du an e algum empo,
de mãos dadas com uma sensação de azio e inu ilidade, como se os pi a as se pe -
dessem numa celeb ação de si p óp ios e abandonassem as populações em nome das
quais o p oje o se que ia a i ma . (Cos a, 2013: 229 -230)
A ques ão do inanciamen o da sua a i idade cons i ui um ou o dilema
que ine i a elmen e con on a a i ência do cole i o. O apoio público po
ia da Di eção-Ge al das A es é o que possibili a que o g upo se desen ol a,
a é ce a medida, sem o cons angimen o da lógica do me cado, democ a-
izando o acesso à sua p odução a ís ica e pe mi indo uma pos u a c í ica
no seu aze a ís ico. Mas o cole i o eco e ambém a ou as on es pa a
p ossegui os seus múl iplos p oje os, ais como: cop odução de p oje os com
ou as en idades públicas ou p i adas; p og amas eu opeus; de o ma mui o
limi ada, ecei as deco en es da p es ação de se iços (bilhe ei a, cu sos e
o mações) ou enda pon ual de de e minados bens (como publicações);
e, ainda, mecena o, de o ma pon ual e mui o pouco signi ica i a.
Como es amos pe an e um g upo de abalhado es -a is as que i e
maio i a iamen e da sua a e, é obse á el uma maio necessidade de con-
o mação aos espe i os sis emas de ci culação e come cialização, sob e udo
quando abalham exp essamen e pa a da espos a à encomenda de um
“clien e”. Nesse sen ido, ao con á io da adicalidade do Dolo es, o Visões
Ú eis é um g upo pe ei amen e in eg ado no mundo das a es po uguês.
A sua a uação baseia -se, sob e udo, numa es a égia simbió ica de en ol-
imen o em lu as sociais a pa i de den o do sis ema, sendo c í icos em
elação a esse mundo, imaginando ou as possibilidades, desen ol endo
uma p odução a ís ica como a o de c í ica, cidadania e esis ência
cul u al, nomeadamen e ao opo -se às noções de a e como me cado ia e
mobilizando -se a i amen e na de esa dos di ei os dos abalhado es -a is as.
Conside ações inais
Es e abalho a gumen ou que os cole i os ea ais podem cons i ui u opias
eais, que a iculam a sua linguagem a ís ica com no as o mas de o gani-
zação social e de p odução ao mesmo empo que se inse em num campo
de o ças an agónicas, a uando simul aneamen e nas ma gens e no in e io
do sis ema hegemónico. Po um lado, o cole i o Dolo es a i a uma “es a-
égia in e s icial” na p ocu a es é ica e polí ica po al e na i as ao modo
174 | Joana S. Ma ques
de p odução capi alis a, a a és de uma maio e i ada das ins i uições,
a pa i das ma gens do capi alismo, a iculando a sua linguagem a ís ica
com no as o mas de o ganização social e de p odução, pau ando -se pelo
ideal da au oges ão como esis ência à alienação do abalho e isando a
cons ução de ou o modo de p odução. Po ou o lado, o cole i o Visões
Ú eis a i a uma “es a égia simbió ica” de en ol imen o na lu a con a-
-hegemónica den o do e eno do Es ado, p ocu ando um “comp omisso
posi i o” (W igh , 2010) en e as á ias o ças em jogo. Nes e sen ido,
apesa de assumi uma pe spe i a c í ica ace ao me cado, não deixa de
se a icula com es e, mui as ezes numa lógica de sob e i ência. Pau a -se
po p á icas democ á icas e pela a iculação com sujei os cole i os, como
associações e mo imen os sociais, no sen ido de alcança melho es elações
de edis ibuição a a és do Es ado. Po an o, exis e aqui um ní el de o ga-
nização e uma cons ução cole i a que isa ou os obje i os comuns, con a
o domínio da lógica me can il, pelo a anço dos di ei os sociolabo ais e da
cidadania em ge al, conside ando que a lu a con a -hegemónica não se az
abandonando o e eno ins i ucional, mas en ol endo -se nele, na mul ipli-
cidade de luga es onde a hegemonia é cons uída: económicos, legisla i os,
polí icos, cul u ais (Mou e, 2014).
Ambos os cole i os se a iculam o emen e em o no de uma lógica de
pode social, baseado na capacidade de mobilização olun á ia de pessoas
pa a ações cole i as de á ios ipos. A sua p ocu a es é ico -polí ica po
al e na i as ao modo de p odução hegemónico, alice çada em i ências
e p ocessos conc e os, o na as suas u opias eais. A sua conc e ização é,
con udo, a a essada po múl iplos desa ios: a necessidade de di isão do
abalho; os disposi i os in e io izados de hie a quização social e me -
can ilização; a necessidade de sob e i ência que e en ualmen e conduz
ao a as amen o do ho izon e inicial; as ensões que se colocam en e o
indi idual e o cole i o; a eação do pode económico con a a ampliação
do pode social.
Nes e sen ido, W igh de endia a combinação de uma plu alidade de
es a égias (de ipo in e s icial e simbió ico), numa conceção ampla de
emancipação que não se limi a ao empode amen o da classe abalhado a,
mas onde é possí el inclui uma as a gama de a o es cole i os ( inculados
a ques ões aciais, elações de géne o, seg egação u bana, abalhado es
p ecá ios, e c.).
Ao es a em e expandi em os limi es de possibilidades a a és da sua
a e, ao p oduzi em o seu abalho o a de uma lógica es i amen e me -
can il, simul aneamen e ga an indo a sua sob e i ência ma e ial, ainda
que de o ma p ecá ia, e ainda ao p omo e em a a iculação com ou os
Uma análise de cole i os ea ais como u opias eais | 175
abalhado es, com a comunidade e com lu as sociais mais amplas, os
cole i os de abalhado es -a is as con ibuem pa a o p oje o cole i o de
elimina as á ias o mas de op essão humana e explo a “ isões iguali á ias
democ á icas adicais” de um mundo social al e na i o.11
Re is o po So ia Sil a
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11 No momen o da e isão des e a igo, a pandemia da COVID-19 e ela a p eca iedade c ónica
do se o das a es, mas ambém a sua capacidade de o ganização cole i a na ei indicação de uma
polí ica pública pa a o se o , na c iação de sis emas de apoio mú uo, na pa ilha de ecu sos e no
comp omisso de “cuidado” en e o ganizações e p o issionais do se o . O legado de E ik Olin
W igh cons i ui um con ibu o undamen al pa a pensa e cons ui o mundo pós-COVID e o
espe o de um abalho digno, c iado e emancipado pa a odos.
176 | Joana S. Ma ques
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Joana S. Ma ques
Associação A3S | Cen o de In es igação e Es udos de Sociologia do ISCTE – Ins i u o Uni e si á io
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Rua da Vila inha, 876, 1.º D o, 4100 -512 Po o, Po ugal
Con ac o: [email p o ec ed]
ORCID: h ps://o cid.o g/0000 -0002 -6803 -1650
T ans o ming he Wo ld Th ough
Wo k, Aes he ics and Poli ics:
An Analysis o Thea e Collec i es
as Real U opias
This a icle ocuses on a is s’ collec i es
based on he heo e ical amewo k o E ik
Olin W igh ’s emancipa o y social science.
The compa a i e analysis o hea e collec-
i es in Po ugal and B azil highligh s he
p eca ious na u e o a is ic wo k, bu i
also e eals mul iple esis ances, h ough
di e en dynamics o collec i e o ganiza-
ion and ac ion. Th ough wo case s udies,
we demons a e how some hea e collec-
i es, as p oposed by W igh , (1) elabo a e
a diagnosis and c i ique o he wo ld and
he capi alis sys em, (2) imagine and y o
pu “ iable” al e na i es in o p ac ice and
(3) add ess he obs acles and possibili ies
o ans o ma ion. The cen al a gumen
is ha hese collec i es a e emancipa o y
o ganiza ions ha a icula e hei a is ic
T ans o me le monde à a e s le
a ail, l’es hé ique e la poli ique:
une analyse des collec i s de héâ e
comme u opies éelles
Dans ce a icle, on examine les collec i s
d’a is es à pa i du cad e héo ique des
sciences sociales émancipa ices d’E ik
Olin W igh . L’analyse compa a i e des
collec i s de héâ e au Po ugal e au B ésil
me en é idence la na u e p écai e du a-
ail a is ique, mais é èle égalemen des
ésis ances mul iples, à a e s di é en es
dynamiques d’o ganisa ion e d’ac ion
collec i e. À a e s deux é udes de cas,
on essaye de démon e commen ce ains
collec i s de héâ e, comme p oposé pa
W igh , (1) élabo en un diagnos ic e une
c i ique du monde e du sys ème capi a-
lis e, (2) imaginen e che chen à me e
en p a ique des al e na i es « iables »,
e (3) se concen en su les obs acles e les
possibili és de ans o ma ion. L’a gumen
178 | Joana S. Ma ques
language wi h new o ms o social and
p oduc ion o ganiza ion.
Keywo ds: B azil; emancipa ion; E ik
Olin W igh ; Po ugal; social s a i ica ion;
hea e .
cen al es que ces collec i s cons i uen des
o ganisa ions émancipa ices qui a iculen
leu langage a is ique a ec de nou elles
o mes d’o ganisa ion e de p oduc ion
sociales.
Mo s -clés: B ésil; émancipa ion; E ik Olin
W igh ; Po ugal; s a i ica ion sociale;
héâ e.