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Pintura, Fotografia e Cinema: as imagens cinematográficas e as referências picturais no tratamento da cor e da luz

Abstract

Resumo Nesta comunicação abordamos dois aspectos em que a influência da Pintura, com séculos de existência, mais se fez sentir no Cinema: as formas de utilizar a cor e a luz (muitas vezes relacionadas), nas quais têm um papel decisivo os directores de fotografias, em articulação com os realizadores e departamentos artísticos. No entanto, o cinema teve ao seu dispor, desde o início, técnicas da cor que lhe eram específicas, que foram em seguida abandonadas.

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Pintura, Fotografia e Cinema: as imagens cinematográficas e as referências picturais no tratamento da cor e da luz

Author: Trindade, Carlos Alberto de Matos
Publisher: Editora LabCom.IFP (Universidade da Beira)
Year: 2019
Source: https://comum.rcaap.pt/bitstreams/9b03bb33-6e4d-4d8f-bbd6-432837a81d9e/download
ANABELA BRANCO DE OLIVEIRA
ANA CATARINA PEREIRA
LILIANA ROSA
MANUELA PENAFRIA
NELSON ARAÚJO
(Edi o es)
DIÁLOGOS E INQUIETUDES ARTÍSTICAS
LABCOM.IFP
Comunicação, Filoso ia e Humanidades
Unidade de In es igação
Uni e sidade da Bei a In e io
CINEMA E
OUTRAS ARTES II
CINEMA E OUTRAS ARTES II
Diálogos e Inquie udes A ís icas
ANABELA BRANCO DE OLIVEIRA, ANA CATARINA PEREIRA,
LILIANA ROSA, MANUELA PENAFRIA, NELSON ARAÚJO
Edi o a LabCom.IFP
www.labcom-i p.ubi.p
Cinema e Ou as A es assume-se como uma coleção de li os que em como linha
p og amá ica euni in es igações dedicadas à in e secção dos Es udos Fílmicos
com ou as o mas de exp essão a ís ica, numa cons an e e isi ação da
exp essão Sé ima A e.
O segundo olume, Cinema e Ou as A es II, des aca in es igações sob e a es
cuja elação com o cinema possui já uma ele an e adição académica, como
sejam a A qui e u a e a Pin u a. Ou as o mas de exp essão, como a Música ou a
Banda desenhada, êm aqui ambém um luga de des aque.
CINEMA E
OUTRAS ARTES II
DIÁLOGOS E INQUIETUDES ARTÍSTICAS
ANABELA BRANCO DE OLIVEIRA
ANA CATARINA PEREIRA
LILIANA ROSA
MANUELA PENAFRIA
NELSON ARAÚJO
(Edi o es)
Tí ulo
Cinema e Ou as A es II
Diálogos e Inquie udes A ís icas
Edi o es
Anabela B anco de Oli ei a, Ana Ca a ina Pe ei a,
Liliana Rosa, Manuela Pena ia, Nelson A aújo
Edi o a LabCom.IFP
www.labcom-i p.ubi.p
Coleção
A s
Di eção
F ancisco Pai a
Re isão
Ana Ca a ina Pe ei a, Del ina Rod igues e Liliana Rosa
Design G á ico
Liliana Rosa (capa)
C is ina Lopes (paginação)
ISBN
978-989-654-591-8 (papel)
978-989-654-590-1 (pd )
978-989-654-589-5 (epub)
DOI 10.25768/ al.books.2019.02
Depósi o Legal 459334/19
Ti agem P in -on-demand
Uni e sidade da Bei a In e io
Rua Ma quês D’Á ila e Bolama.
6201-001 Co ilhã. Po ugal
www.ubi.p
Co ilhã, 2019
© 2019, Anabela B anco de Oli ei a, Ana Ca a ina Pe ei a, Liliana Rosa,
Manuela Pena ia, Nelson A aújo.
© 2019, Uni e sidade da Bei a In e io .
O con eúdo des a ob a es á p o egido po Lei. Qualque o ma de
ep odução, dis ibuição, comunicação pública ou ans o mação da
o alidade ou de pa e des a ob a ca ece de exp essa au o ização do
edi o e dos seus au o es. Os a igos, bem como a au o ização de
publicação das imagens, são da exclusi a esponsabilidade dos au o es.
Ficha Técnica
Abílio He nandez Ca doso
Anabela Dinis B anco De Oli ei a
Bolsa FCT SFRH/BSAB/143186/2019
Ana Ca a ina Pe ei a
Bolsa FCT SFRH/BSAB/143117/2018
Ana Isabel Soa es
An ónio Fa o elli
Ca los Melo Fe ei a
Daniel Té cio
Liliana Rosa
Luís Noguei a
Manuel Deniz Da Sil a
Manuela Pena ia
Ma ia Do Rosá io Lupi Bello
Mi ian Ta a es
Nelson A aújo
Sé gio Guima ães Sousa
Ti o Ca doso E Cunha
Comi é de lei u a

IN MEMORIAM
PROFESSOR CARLOS MELO FERREIRA
Índice
Ap esen ação 15
PARTE 1
ARQUITETURA E ARTES PLÁSTICAS 19
La geome ía del cen inela en 2001, A Space Odyssey. El pa adigma
de un mi o del siglo XX 21
Yolanda Ma ínez Domingo, Jose ina González Cube o, Alba Za za A ibas
Sublime digi al: a a qui e u a na icção cien í ica 39
Luís Noguei a
Do cinema de animação à ilus ação em Fe al 65
Ana Isabel Albuque que
Comics e cinema- é i é: es a égias do cinema nas bandas
desenhadas documen ais 85
Felipe Muanis
A u ilidade do desenho na concepção isual da na a i a ílmica 107
Ma ia Elisa Coelho de Almeida T indade
Pin u a, Fo og a ia e Cinema: as imagens cinema og á icas
e as e e ências pic u ais no a amen o da co e da luz 127
Ca los Albe o de Ma os T indade
PARTE 2
DANÇA, PERFORMANCE E MÚSICA 155
En e Black Venus e uma mis e iosa Coisa... 157
Daniel Té cio
O Palco como Tela 167
João C is ó ão Lei ão
À la conquê e de l’a : les ela ions en e cinéma e héâ e
dans les années 20 177
Ka ine Abadie
O au o diluído: possibilidades de c iação a pa i da in e locução
en e a pe o mance e a imagem em mo imen o 195
Rena a Fe az
Cons ança Capde ille: “A música já não pode i e sozinha”
Diálogos en e música e cinema em Ce omaio (1980), de Luís Filipe Rocha 215
Filipa Magalhães
PARTE 3
ARTE E AUTORIA 231
O cinema, a e de ‘c ise’ ou de ‘desen ol imen o’? Uma e lexão
e alguns exemplos 233
Ma ia do Rosá io Lupi Bello
La o ma en el ensayo audio isual 247
Al onso Palazón Mesegue / Joaquín Ma ínez Gil
O E ei o do Cinema na A e Con empo ânea: a Videoa e 263
Paulo Miguel Bo ges An unes
O es uá io cinema og á ico e a e no icção po uguesa 277
Ca e ina Cucino a
Os Ade eços e os Cená ios enquan o c iado es de imagens e de a e os:
Análise do ilme de ele isão - EDP 40 anos 293
Ma ia João Co esão
Ca los Albe o de Ma os T indade 131
Em 1964, o ilme Lemonade Joe do ealizado checo Oldřich Lipský, hoje
pouco eco dado, o e ece ia uma deliciosa pa ódia musical dos wes e ns
ame icanos, inspi ada sob e udo pelos do cinema mudo – com homenagens
conc e as a ac o es como Tom Mix ou “cowboys-can o es” como Gene
Au y –, no qual se eco ia abundan emen e a con enções p óp ias des-
se pe íodo como o uso do slow mo ion (ou do as mo ie) e, sob e udo, e a
comple amen e dominado em e mos isuais pela e ocação dos p ocessos
monoc omá icos da in agem e i agem.
Imagens 4 e 5: Oldřich Lipský, Lemonade Joe (1964). Fo og amas de dois planos e oca i os
dos p ocessos monoc omá icos.
Um dos pe igos da u ilização da co , no cinema, é o de a enca a como um
me o ecu so mecânico pos o ao se iço da imp essão de “ ealidade” da
imagem, como acon ece em mui os ilmes. Po ém, como diz o his o iado
i aliano Guido A is a co (1963: 24), “…a co o na-se elemen o exp essi o e

Pin u a, Fo og a ia e Cinema: as imagens cinema og á icas
e as e e ências pic u ais no a amen o da co e da luz
132
in ei amen e cinema og á ico jus amen e quando não é cópia o og á ica da
ealidade, is o é, quando nasce de exigências in e io es do ealizado pa a
c ia no as elações, no os con as es, no os con apon os, no as mon a-
gens, mo imen os e composições pic ó icas.”
Po exemplo, a co oi u ilizada po di e sos ealizado es pa a con apo
passado a p esen e, como obse amos no ilme Bom dia, T is eza / Bonjou
is esse (1958), de O o P eminge . Nes e ilme, a co pa a o passado, e o
p e o-e-b anco pa a o p esen e, são usados al e nadamen e. Também, como
salien a Vincen Amiel (2015: 48), “…em Noi e e Ne oei o ou em Nos algia,
Resnais e Ta ko ski jogam com uma oposição de empo, de eco dações, de di-
e enças de pe spec i a. E a in odução, na con inuidade a co es de Nos algia,
de planos e éme os a p e o e b anco con e e uma no a dimensão à na a i a,
uma o ça de exp essão ligada a es a capacidade de up u a da mon agem.”
Já em Um Caso de Vida ou de Mo e / A Ma e o Li e and Dea h (1946), de
Michael Powell e Eme ic P essbu g, encon amos uma con aposição en e
o p e o e b anco das cenas passadas no céu e as co es emp egues nas cenas
e enas, que se iu delibe adamen e pa a con a ia o que o espec ado
comum espe a ia, como escla eceu o amoso di ec o de o og a ia Jack
Ca di numa en e is a.1 E em O Fei icei o de Oz / The Wiza d o Oz (1939),
de Vic o Fleming, opõe-se o mundo is e no Kansas de Do o hy (a p e o-e-
-b anco) ao mundo de an asia de Oz pa a onde é le ada po um o nado, em
glo ioso colo ido Technicolo .
Imagens 6 e 7: Fo og amas de Bonjou is esse (1958), de O o P eminge .
1. C . Ca di apud E edgui (2001: 20).
Ca los Albe o de Ma os T indade 133
Um caso mui o mais in e essan e, e o iginal, é o de Michelangelo An onioni
(1912, Fe a a – Roma, 2007), que em Dese o Ve melho / Il dese o osso
(1964) pôs a co ao se iço da a mos e a psicológica das cenas e da adução
plás ica de emoções e es ados de alma, não hesi ando, pa a esse e ei o, em
manda epin a elemen os dos cená ios na u ais, inclusi e a ege ação; ou
que explo ou as no as possibilidades do ídeo em O Mis é io de Obe wald /
Il mis e o di Obe wald (1980), modi icando as co es no decu so dos planos.
Também, du an e as ilmagens de Blow Up – His ó ia de um Fo óg a o (1966),
insa is ei o com o es e deado desbo ado do pa que onde oco e o desapa e-
cimen o do co po cap ado aciden almen e pelo o óg a o, An onioni mandou
pul e iza o local com in a pa a ob e um e de mais ao seu gos o.
Na e dade, o in e esse de An onioni nas possibilidades do uso exp essi o
da co no cinema inha de longe. Já em 2 de Janei o de 1940 inha publi-
cado um a igo, o p imei o que esc e eu sob e o ema, em que isso ica a
cla o, in i ulado Del Colo e e publicado no Co ie e Padano. Da a desse mes-
mo ano aquele que Gio gio Tinazzi conside a o p imei o a gumen o esc i o
po An onioni pa a um p ojec o cinema og á ico2, in i ulado Te a Ve de
e não conc e izado, o iginado po um ex o p eceden e de Guido Pio ene.
Ci a emos uma passagem, bem ilus a i a do in e esse pe manen e des e
cineas a nas po encialidades da co , que, além do mais, oi pin o amado :
Não escapa á a ninguém o papel que cabe ia à co no nosso ilme – não
exibição, não en ei e mas necessidade ín ima da his ó ia; a co de e mi-
na aqui não só o clima, mas ambém o mo imen o psicológico, o d ama
que es á pa en e na ans o mação das co es, na sua g adual pe da de
o ça. Repa em como Pio ene se pe de nes a an asia de co es: seixi-
nhos mui o b ancos ou aiados de e melho, ma das mais belas co es,
como os mine ais eunidos nos museus: uns e melhos, uns e des-
- alsos, ama elos-enxo e, b ancos esmaecidos como p a a na e a, e
os ochedos dis an es, esses ambém de co es a iá eis segundo a ho a
e o empo…planícies e des onde a luz p oduzi ia cin ilações o a osa
2. C . An onioni (2001: 180).
Pin u a, Fo og a ia e Cinema: as imagens cinema og á icas
e as e e ências pic u ais no a amen o da co e da luz
134
o a damasco, campos de igo, ex ensões de lo es azuladas, céus a a-
essados po a co-í is, udo coisas que, ao se em is as no ec ã, al ez
se pudesse dize «são alsas»; mas é exac amen e nes a alsidade que
eside a au en icidade do de adei o No e, cujas paisagens assumem às
ezes a onalidade de uma pale a impossí el. (An onioni, 2001: 19)
Imagens 8 e 9: Fo og amas de Dese o Ve melho (1964), de M. An onioni, e de Sansão e Dalila
(1949), de Cecil B. De Mille.
Ca los Albe o de Ma os T indade 135
A in luência da pin u a nas co es do cinema só se ez sen i , e dadei a-
men e, a pa i da in odução do sis ema Technicolo , ma ca egis ada da
Technicolo Mo ion Pic u e Co po a ion. En e 1915 e 1924, He be Kalmus
e os seus sócios Daniel Coms ock e W. Bu on Wesco desen ol e am o
sis ema, que conheceu depois sucessi os p og essos e ape eiçoamen os,
desde o p ocesso adi i o inicial de duas co es ( e melho e e de) – como o
do sis ema Kinemacolo , concebido pelo inglês Geo ge Albe Smi h e usado
come cialmen e a pa i de 1908 – a é aos p ocessos sub ac i os pos e-
io es, p imei o o “ wo-s ip Technicolo ”, ou bipack, depois o “ h ee-s ip
Technicolo ” ou ipack, nos anos 30, com o qual su giu de ac o o p imei o
p ocesso indus ial a co es.3
Aquando do su gimen o do Technicolo de ês películas, exis iam alguns
eceios po pa e dos p odu o es cinema og á icos, os quais ainda emiam
que a in odução da co pudesse des ia a a enção dos espec ado es dos
en edos e do abalho dos ac o es, pelo que a emp esa c iou uma consul-
o ia pe manen e pa a a co – di igida po Na halie Kalmus, esposa de
He be – cuja p incipal unção se ia dissipa as dú idas e demons a que
aquela podia se usada como uma mais- alia, ou o elemen o na a i o ao
se iço do ilme. Na p á ica, o se iço de consul o ia ambém e a uma ma-
nei a da emp esa man e e p o ege a sua posição dominan e, is o que, em
mui os casos, os di ec o es de o og a ia passa am a se escolhidos pela
Technicolo , e a consul o ia além de p epa a uma pale a de co es conside-
ada adequada pa a cada ilme, após e ec ua uma lei u a do sc ip , ainda
supe isiona a depois os cená ios e o gua da- oupa, e a é a maquilhagem.
Na halie Kalmus publicou em Agos o de 1935 (no Jou nal o he S. M. P. E.)
um a igo in i ulado Colo Consciousness, no qual p ocu ou es abelece as
eg as básicas da aplicação da co no cinema, que i iam o ien a em g an-
de medida a es é ica de Hollywood nas décadas seguin es, e que ela se
enca ega ia de aze aplica : no e-se, que lhe é c edi ado o papel de con-
3. Pa a uma análise mais de alhada, e Neale (2006).
Pin u a, Fo og a ia e Cinema: as imagens cinema og á icas
e as e e ências pic u ais no a amen o da co e da luz
136
sul o a em mais de 300 ilmes. Kalmus in oca pin o es como Holbein,
Bougue eau, Remb and , Goya, Velázquez e So olla, pa a jus i ica as suas
ideias sob e como as “qualidades a ís icas” podem se inco po adas nos
ilmes a a és da co ; e é cu ioso e i ica , is o a a -se de co , que não
apon e qualque pin o da escola eneziana. O que essal a p incipalmen e
é a impo ância que nele a ibui aos aspec os simbólicos da co que êm
algum g au de subjec i idade, como se sabe: as co es são di ididas em dois
g upos, as quen es e as ias, de aco do com a sua capacidade pa a despe a
de e minado ipo de sensações e o seu g au de adequação pa a es abelece
a mos e as emocionais. E am conside adas, ainda, as suas mis u as com o
b anco, o p e o e o cinzen o.
Tendo em is a uma ha monia das co es, Kalmus desaconselha a o uso
descomedido de co es pu as e sa u adas, ad ogando uma pale a de co es
mais sua e e na u al, mais p óxima da ealidade obse ada, pelo que apela-
a a que se olhasse, acima de udo, pa a a in ini a a iedade de onalidades
exis en e à nossa ol a. As co es mais i as e quen es de iam ese a -se
pa a ealça os elemen os impo an es pa a a na a i a – po exemplo, pa a
os pe sonagens p incipais –, mas de iam se con abalançadas po undos
em ons neu os; odos os elemen os secundá ios (incluindo ac o es) de iam
ha moniza -se com as co es dos cená ios. As jus aposições de con as es
c omá icos acen uados, que pudessem oco e , de iam se e i adas4.
Con udo, apesa das “ eg as” enunciadas po Kalmus, e i ica-se que os
p imei os ilmes odados em Technicolo ipack ap esen am con as es
c omá icos ma can es, com co es sa u adas, sob e udo as co es p imá ias
e secundá ias, o que e á acon ecido de ido à película e baixa sensibilida-
de e se necessá io usa mui a iluminação a i icial, com a cos ol aicos.
Quando olhamos pa a ce as imagens de Becky Sha p (1935), uma e são
da no ela Vani y Fai de Thacke ey ealizada po Rouben Mamoulian,
4. Pa a um maio ap o undamen o, d. Kalmus (2006).

Ca los Albe o de Ma os T indade 137
a p imei a longa-me agem in ei amen e o og a ada em ipack, que se iu
como uma espécie de p o ó ipo e e e um acolhimen o mui o c í ico, po se
conside a que o seu colo ido dispe sa a a a enção do espec ado 5, oco e-
-nos uma simili ude com o modo mui o pa icula como Nicolas Poussin
(1594-1665), um pin o colo is a po excelência, e sob e udo na ase inal
da ca ei a, não hesi a a em aplica co es bas an e luminosas e sa u adas
nas oupas dos seus pe sonagens, jus apondo con as es c omá icos mui o
o es nos p imei os planos mas ambém nos in e médios; e, mui as ezes,
os p óp ios undos ambém as incluíam, azendo com que conco essem
com os ou os planos. Cu iosamen e, nou a adap ação ílmica pos e io da
mesma no ela ealizada po Mi a Nai – e e imo-nos a A Fei a das Vaidades
/ Vani y Fai (2004) –, algumas cenas e idenciam, mais uma ez, elações
com as soluções c omá icas aplicadas po Poussin. Repa e-se, po exemplo,
na in ensidade e sa u ação das co es nos planos in e médios, e undos.
Imagens 10 e 11: o og ama de Becky Sha p(1935) de Rouben Mamoulian, e Le jugemen de
Salomon (1649) de N. Poussin.
5. É e dade que cons a que Mamoulien e á p escindido dos p és imos de Na halie Kalmus, como
consul o a. A p opósi o, d. Higgins (2006).
Pin u a, Fo og a ia e Cinema: as imagens cinema og á icas
e as e e ências pic u ais no a amen o da co e da luz
138
Imagens 12 e 13: o og amas de Becky Sha p (1935) de Rouben Mamoulian, e Vani y Fai
(2004) de Mi a Nai .
Foi sob e udo a pa i de meados dos anos 40, e depois nos glo iosos 50,
que se assis iu a uma explosão de co no cinema. São os anos das co es
b ilhan es e con as an es dos igu inos e cená ios do Technicolo . Se em
Hollywood se p oduzi am ilmes pesadamen e “pompie s” como Sansão
e Dalila / Samson and Delilah (1949), de Cecil B. DeMille, ou A Túnica /
The Robe (1953) de Hen y Kos e , ambém i emos ilmes imaculados
como os de Michael Powell, um dos ealizado es que, na nossa opinião,
melho soube u iliza a co , em ilmes como Quando os Sinos Dob am /
Ca los Albe o de Ma os T indade 139
Black Na cissus (1947) e Os Sapa os Ve melhos / The Red Shoes (1948). Isso
sucedeu g aças à con ibuição do di ec o de o og a ia desses ilmes, Jack
Ca di , que in luenciado sob e udo po Remb and esol eu con a ia os
“di ames” do Technicolo , de que odas as imagens de iam se mui o b i-
lhan es e iluminadas uni o memen e. Po exemplo, pa a a sequência inal
de Black Na cissus, com Debo a h Ke no campaná io, Ca di usou um
il o di uso (numa al u a em que ninguém os usa a) pa a da um e ei o
de amanhece , adequado pa a a a mos e a mis e iosa p e endida, apesa
das objecções da consul o ia Technicolo , que e a de opinião que a imagem
não e a su icien emen e cla a pa a se p ojec ada nos ec ãs dos cinemas
d i e-in no e-ame icanos.
Os es udos de co nas pin u as (algo que conside a a essencial pa a um
di ec o de o og a ia), em a is as como Leona do Da Vinci, Remb and ,
Ve mee , Ca a aggio, en e ou os, inham-lhe pe mi ido oma consciên-
cia de e ei os de luz mais sub is que os no malmen e aplicados, os quais
es a a in e essado em aplica . Com Da Vinci (e ou os a is as enascen-
is as, como Pie e B uegel, o Velho), Ca di ap endeu como ce os azuis
podem se usados pa a da a dis ância longínqua: Black Na cissus con ém
á ios planos que e idenciam isso. Também é possí el e i ica algumas
semelhanças c omá icas com a pin u a The Vi gin o he Rocks (1485), de
Leona do, nos cená ios de di e sos planos.
Imagens 14 e 15: Fo og amas de Black Na cissus (1947), de Michael Powell.
Pin u a, Fo og a ia e Cinema: as imagens cinema og á icas
e as e e ências pic u ais no a amen o da co e da luz
140
Ou o pin o es udado com a enção po Ca di , du an e a p epa ação de
Black Na cissus, oi Gauguin: o seu exemplo suge iu-lhe o exage o das co es
na iluminação, em ce as pa es. Ainda, a jus aposição de e de e e melho
na pin u a The Nigh Ca é (1888), de Van Gogh, pa a Ca di “an uncom o -
able con as o colou s, sugges i e o agedy” (apud E edgui, 2001: 17),
oi uma on e de inspi ação pa a e a a a loucu a da I mã Ru h, a pe sona-
gem p incipal do ilme. No e-se que já o p óp io Van Gogh, num conhecido
depoimen o con ido numa ca a en iada ao seu i mão Theo, inha di o que
en a a exp essa que o ca é é um luga onde alguém se pode a uina , en-
louquece ou come e um c ime.
Imagens 16, 17 e 18: Fo og amas de Black Na cissus (1947), de Michael Powell. Pin u a The
Nigh Ca é (1888), de Van Gogh.
Acabamos de analisa o caso de um di ec o de o og a ia que lu ou con a
as es ições impos as pela Technicolo ; con udo, de e-se salien a que a
u ilização da co no cinema es e e semp e mui o sujei a à e olução écnica
e aos p ocessos de p odução de cada es údio. Cada es údio inha o seu sis-
ema. En e an o, a Kodak Eas man inha simpli icado os p ocessos de co ,
Ca los Albe o de Ma os T indade 147
men e pensada de modo a se em usadas como única on e de luz as janelas
do qua o em que se encon a, numa casa da quin a Amish, p ocu ando
um e ei o de g adação (na u al) p og essi a a é aos can os do qua o, mais
escu os, mui o semelhan e ao de algumas pin u as de Ve mee . Nou as
cenas, sob e udo as que deco em na casa, a sua in luência ambém é acil-
men e de ec ada, que no a amen o da luz que na pale a c omá ica que
oi aplicada.
Também oda a pa e inal de O Assassina o de Jasse James pelo Co a de
Robe Fo d / The Assassina ion o Jesse James by he Cowa d Robe Fo d
(2007), de And ew Dominik, é a a essada po uma ce a p esença lumíni-
ca à Ve mee . Con udo, a in luência mais ma can e, no nosso en ende , ao
longo de odo o ilme, pe cep í el a a és da eno me a iedade de ex u as
se ida po uma o og a ia mui o ealis a, nos ambien es c omá icos c iados,
nas elações en e igu as e espaços, é a do pin o ealis a no e-ame icano
And ew Wye h. E es e ilme compa ilha, aliás, mui as semelhanças em
odos es es aspec os com Dias do Pa aíso / Days o Hea en (1978), de Te ence
Malick, um ilme ex emamen e poé ico em ol a dum iângulo amo oso,
cuja di ecção de o og a ia, a ca go de Nés o Almend os ( encedo dum
Ósca pela mesma), pa ece ec ia a a mos e a em ons acas anhados e
aloi ados-es e deados, nas planu as a pe de de is a, da conhecida pin u a
O mundo de C is ina9.
T a ando-se de um pin o em que o ema da luz es á mui íssimo p esen e,
e a é como diz o di ec o de o og a ia po uguês João Ribei o (2006: 62)
“semp e que há um ambien e de in e io dia, com luz di ec a (…) su ge como
uma e e ência uni e sal.”, não admi a que o no e-ame icano Edwa d
Hoppe (1882-1967) seja dece o um dos a is as mais ap op iados pelo
cinema; além do mais, al como as de Ve mee , mui as das suas pin u as
êm qualidades p o undamen e p o o-cinemá icas. Po limi ações de ama-
nho des a comunicação, não i emos aqui analisa em conc e o nenhum
9. De em le a -se ainda em con a pin u as como Wind om he Sea (1947) ou T odden Weed (1951).

Pin u a, Fo og a ia e Cinema: as imagens cinema og á icas
e as e e ências pic u ais no a amen o da co e da luz
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ilme, mas são inúme os aqueles em que podem se encon adas ci ações
di ec as, indi ec as, ou mesmo ec iações de quad os seus. Assim, apenas
o nece emos uma lis a de alguns mais ep esen a i os, de géne os mui o
di e en es: Janela Indisc e a / Rea Window (1954), de A. Hi chcock; O G i o
/ Il G ido (1958), A Noi e / La No e (1961) e O Eclipse / L’Eclisse (1962), de M.
An onioni; P o ondo Rosso (1975), de Da io A gen o; Um Ba e de Co ações
/ Hea bea (1980), de John By um; Pennies om Hea en (1981), de He be
Ross; The Neon Bible (1995), de Te ence Da ies; O Fim da Violência / The End
o Violence (1997) e Es ela Soli á ia / Don’ Come Knocking (2005), de Wim
Wende s; Ta a ak (2009), de And zej Wajda; Shi ley. Visions o Reali y (2013),
de Gus a Deu sch.
Po sua ez, os pin o es paisagis as no e-ame icanos da Hudson Ri e
School, ou Luminis as (como são hoje designados), mal conhecidos na Eu opa,
exe ce am uma in luência conside á el no cinema no e-ame icano, mo -
men e no géne o do Wes e n, mas ambém em cineas as mode nos como
Malick. Embo a não cons i uindo um mo imen o o ganizado, apesa de
se hoje conside ada a p imei a escola de pin u a genuinamen e nacional,
inicialmen e oi cons i uída po um g upo de a is as esiden es em No a
Io que, que compa ilha a uma isão es é ica idealis a – uma sín ese en e
as in luências do oman ismo e do ealismo –, e o nome (su gido apenas po
ol a de 1870) oi a ibuído po causa do seu in e esse inicial pela egião do
io Hudson, e as mon anhas ci cundan es. Na e dade, aquele que é consi-
de ado o seu undado , o pin o Thomas Cole (de o igem inglesa10), subiu o
io Hudson no Ou ono de 1825 e pa ou nas mon anhas Ca skill, onde pin ou
as p imei as paisagens da á ea.
A segunda ge ação da “escola”, uma de au ên icos a is as-explo ado es,
su giu após a mo e p ema u a de Cole (em 1848) e expandiu bas an e
os limi es egionais, a en u ando-se ainda mais pelo in e io do país em
busca de no as paisagens, endo con ibuído mui o pa a a cons ução da
10. Emig ou pa a os Es ados Unidos da Amé ica em 1818.
Ca los Albe o de Ma os T indade 149
imagem do e i ó io no e-ame icano. Um aço em comum en e as duas
ge ações, donde de i a o e mo Luminis as, oi o uso mui o exp essi o
que odos es es pin o es soube am aze da luz e dos seus cambian es e
e ei os a mos é icos, que se ia a maio pa e das ezes pa a enal ece a
ealidade.
Imagens 22 e 23: O mundo de C is ina (1948) de And ew Wye h, e A S o m in he Rocky
Moun ains (1866) de Albe Bie s ad .
No ilme As B ancas Mon anhas da Mo e / Je emiah Johnson (1972), Sidney
Pollack e á p e endido, decla ou, aze à ida as pin u as de Albe
Bie s ad (1830-1902)11, um dos a is as mais in luen es (e popula es) da se-
gunda ge ação. Bie s ad , um a is a p o issional de o igem alemã, nascido
em Düsseldo – onde es udou pin u a –, o nou-se amoso a a és de al-
gumas pin u as monumen ais, como A S o m in he Rocky Moun ains – M .
Rosalie (1866), a p imei a em que combinou uma paisagem mon anhosa im-
ponen e e e ei os de céu d amá icos, com e ei os de luz su p eenden es, que
cap am a ap oximação do impac o de uma empes ade no ale subal e no.
Mais do que na pin u a ci ada, é possí el pe cebe nou as, mo men e as
que ap esen am mon anhas cobe as de ne e, com iluminação bas an e in-
ensa e di usa, a elação que Pollack encon ou en e as paisagens do pin o
e o ambien e no qual deco e a his ó ia lendá ia do pe sonagem p incipal
do ilme, in e p e ado po Robe Red o d, que e á i ido nos anos 1820:
11. C . Sidney Pollack apud Moulin (2011: 86).
Pin u a, Fo og a ia e Cinema: as imagens cinema og á icas
e as e e ências pic u ais no a amen o da co e da luz
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a de Je emiah, um ex-soldado que abandona a a da após a gue a ci il ame-
icana e, desiludido com a ci ilização, p ocu a e úgio na solidão gelada
das Mon anhas Rochosas, onde ap ende a udeza das suas leis, e sob e i e
como caçado .
Imagens 24 e 25: In he Rockies (1863), de Albe Bie s ad , e o og ama de Je emiah Johnson
(1972) de Sidney Pollack.
Mui as das paisagens de Bie s ad , como as de ou os da “escola”, com-
binam a obse ação ac ual e o imponen e ( ealçado pela iluminação), e
con ibuí am bas an e pa a uma mi ologia do e i ó io sel agem, da pu-
eza de uma paisagem imaculada sem a in e e ência, ou quase, da mão
do homem. No ilme, o homem e a na u eza são quase indissociá eis,
Ca los Albe o de Ma os T indade 151
de aco do com a ha monia buscada po Je emiah, como acon ece em mui-
as das pin u as de Bie s ad ; o e sido odado em Pana ision, pe mi iu
um melho ap o ei amen o do que e a p e endido, mas o a amen o da luz
ambémé undamen al.
Ou o ilme, mui o mais ecen e, onde a in luência dos Luminis as se pa-
en eia é O Renascido / The Re enan (2015), do cineas a mexicano Alejand o
González Iñá i u, com di ecção de o og a ia de Emmanuel Lubezki, cuja
acção deco e em 1823, du an e uma expedição pa a e i ó io inexplo a-
do no elho Oes e, e que, em ce as pa es, em a inidades e iden es com
o de Pollack. Além de Bie s ad , ou os pin o es se podem apon a como
possí eis on es: F ede ic Edwin Chu ch, John F ede ick Kense , A hu
Fi zwilliam Tai , ou John Ca lson. Aliás, Tai (1819-1905) é au o de uma
pin u a, A igh ix (1856), que eme e a cenas-cha e de ambos os ilmes,
nes e caso aquela em que o explo ado e negocian e de peles Hugh Glass
(Leona do DiCap io) é a acado po um u so.
Imagens 26, 27 e 28: A igh ix (1856) de A hu Tai ; pin u a de Albe Bie s ad ; o og ama
de S agecoach (1939), de John Fo d.
Pin u a, Fo og a ia e Cinema: as imagens cinema og á icas
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Po e em sido ei as po a is as-explo ado es, que i am com os seus p ó-
p ios olhos odo um e i ó io po desb a a , as pin u as luminis as (mesmo
quando idealizadas) o am uma on e p eciosa pa a os wes e ns clássicos
de cineas as paisagis as como An hony Mann, Delme Da es ou John Fo d,
ou mais mode nos como O úl imo dos moicanos / The Las o he Mohicans
(1992), de Michael Mann. Não é seg edo que Fo d, apesa de não gos a de
ala das suas in luências a ís icas, econhecia, con udo, a impo ância que
as pin u as de Cha lie Russell e F ede ic Reming on (1861–1909) inham
ido na sua ob a. Reming on, pin o , ilus ado e escul o , icou sob e udo
conhecido pelas suas ep esen ações do elho Oes e ame icano, em pa i-
cula cenas do úl imo qua el do séc. XIX, que nos ap esen am cowboys,
índios, ou a ca ala ia do exé ci o dos Es ados Unidos, en e ou as igu as
ep esen a i as da cul u a do (mí ico) Oes e. Mas o que ele a Reming on,
como Fo d, é sob e udo a nos algia de aspec os da ida na on ei a p es es
a desapa ece pe an e o a anço da ci ilização. An es dele, ou os inham
cap ado em ons luminosos a e dadei a descobe a de e i ó ios inexplo-
ados: como Bie s ad , numa pequena pin u a [ igu a 27], que nos o e ece
uma espécie de deso ien ação espacial inicial pe an e um ho izon e apa en-
emen e sem im, con emplado pela p imei a ez.
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