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DOIS PARÂMETROS DE ARQUITECTURA POSTOS EM SURDINA. LEITURA CRÍTICA DO INQUÉRITO À ARQUITECTURA REGIONAL. Caderno 3

MAIA, Maria Helena; CARDOSO, Alexandra; LEAL, Joana Cunha

Abstract

Este é o terceiro volume das conclusões do projecto de investigação A Arquitectura Popular em Portugal. Uma Leitura Crítica. Nele dá-se notícia do trabalho de campo realizado e da reflexão plasmada em mapas e cartas que contribuiram decisivamente para a leitura crítica que do Inquérito foi realizada, com vista a apoiar o tipo de elementos expressivos a linguagem arquitectónica que nos tínhamos imposto analisar isto é a importância da espessura da parede na determinação do espaço interior e o significado social do espaço-transição na socialização da casa.

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Centro de Estudos Arnaldo Araújo Escola Superior Artística do Porto DOIS PARÂMETROS DE ARQUITECTURA POSTOS EM SURDINA Maria Helena Maia, Alexandra Cardoso e Joana Cunha Leal CADERNO 3 Leitura crítica do Inquérito à arquitectura regional DOIS PARÂMETROS DE ARQUITECTURA POSTOS EM SURDINA Maria Helena Maia, Alexandra Cardoso e Joana Cunha Leal CADERNO 3 Leitura crítica do Inquérito à arquitectura regional Publicação sujeita a peer review Edições Caseiras / 18 Título: DOIS PARÂMETROS DE ARQUITECTURA POSTOS EM SURDINA. Leitura crítica do Inquérito à arquitectura regional. CADERNO 3 Autor: Maria Helena Maia, Alexandra Cardoso e Joana Cunha Leal © Maria Helena Maia, Alexandra Cardoso e Joana Cunha Leal, 13 CESAP/CEAA, 20 Arranjo gráfico: Jorge Cunha Pimentel Composição: Joana Couto Edição: Centro de Estudos Arnaldo Araújo da CESAP/ESAP Propriedade: Cooperativa de Ensino Superior Artístico do Porto R. do Infante D. Henrique, 131 4050-298 PORTO, PORTUGAL Telef: +351 223 392 100/40 Fax: +351 223 392 101 Impressão e acabamento: LITOPORTO Artes Gráficas Lda 1ª edição, Porto, Junho de 2013 Tiragem: 500 exemplares ISBN: 978-972-8784-46-1 Depósito Legal: Este livro foi realizado no âmbito do projecto A "Arquitectura Popular em Portugal". Uma Leitura Crítica tendo enquanto tal sido financiado por fundos FEDER através do Programa Operacional Factores de Competitividade – COMPETE (FCOMP-01-0124FEDER-008832) e por Fundos Nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e Tecnologia (PTDC/AURAQI/099063/2008). Centro de Estudos Arnaldo Araújo Escola Superior Artística do Porto Largo de S. Domingos, 80 4050-545 PORTO PORTUGAL Telef.: 223392130 / Fax.: 223392139 e-mail: [email protected] www.esap.pt A equipa do projecto A “Arquitectura Popular em Portugal”. Uma Leitura Crítica, que decorre entre 1 de Abril de 2010 e 31 de Março de 2013, com prolongamento até 30 de Junho de 2013, é constituída por Pedro Vieira de Almeida (investigador responsável), Alexandra Cardoso, Joana Cunha Leal e Maria Helena Maia e tem como consultores Josefina Gonzalez Cubero, Mariann Simon e Miguel Angel de la Iglésia. O projecto é financiado por fundos FEDER através do Programa Operacional Factores de Competitividade – COMPETE (FCOMP-01-0124FEDER-008832) e por Fundos Nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e Tecnologia (PTDC/AUR-AQI/099063/2008). Dedicamos este trabalho ao Pedro, nosso IR sempre tão presente Pedro Vieira de Almeida, Hasselt (Belgica), 2006 TEXTOS INCOMPLETOS DE PEDRO VIEIRA DE ALMEIDA 17 Talvez uma prevenção seja necessária. Ao abordar neste trabalho uma investigação tendo por base o “Inquérito”, não se está minimamente a pensar em levantar qualquer libelo contra aquele trabalho levado acabo pelo Sindicato Nacional dos Arquitectos em 58. Pelo contrário trata-se sim de estudar atenta e detalhadamente o riquíssimo espólio recolhido e tentar servirmo-nos dele como valioso ponto de partida para outros questionamentos, que não teem a ver directamente com uma avaliação directa das inúmeras qualidades do Inquérito, ou de algumas inconsequências que certamente também apresenta. Certo que ao longo deste trabalho poderão aparecer naturais divergências em relação ao volume publicado. Mas em caso algum esses pontos de discordância se constituem como objectivo em si São divergências marginais resultantes do próprio trabalho de elaboração do estudo agora ensaiado É conhecido que de há anos já, tenho sido crítico de uma interpretação que diria “mítica” da História da Arquitectura Moderna em Portugal, interpretação na qual o Inquérito tem constituído pedra fundamental. Mas esse aspecto agora só importa lateralmente. Não vale a pena lutar contra os mitos largamente cultivados. Essa desmitização ocorrerá necessariamente através do alargamento de estudos como o que agora se ensaia. O que se trata neste momento, o aprofundamento das ilacções que a documentação recolhida parece permitir, corresponde até a uma das solicitações implícitas no prefácio da segunda edição, a de 1979, que lamentava ainda pouco se ter feito para aprofundar as múltiplas pistas de estudo” com isso dando o merecido seguimento ao esforço tão generoso e entusiasticamente dispensado por um grupo de arquitectos na década anterior, tomando o espólio recolhido, como base para uma análise em bases contemporâneas. Um dos argumentos avançados para o lançamento do Inquérito, terá sido o de provar ao Governo do Estado Novo, a não existência de um modelo de arquitectura que fosse marcadamente português, mas sim a existência de uma O INQUÉRITO EM QUESTÃO Pedro Vieira de Almeida, Março 2009 18 diversidade de modelos em situações, que responderiam a específicos condicionamento físicos. Fosse ou não inteiramente correcta a análise que então se fazia da situação, o trabalho que foi produzido tem o maior mérito e permite-nos hoje reler a documentação então registada. E é esse o objectivo deste trabalho. Como Argan refere “é sempre um problema do presente que determina a 3 problematicidade do passado” . Aqui o tema central do questionamento que queremos lançar, é o da identidade das expressões arquitectónicas. Posta desta maneira a questão ultrapassa largamente as históricas tentativas feitas no final do século XIX, princípios do século XX, que se envolviam com a velha questão da “casa portuguesa”, ou de um estilo português específico, que efectivamente não passam de pretensos problemas, porque mal definidos a nível profissional e mal enquadrados a nível cultural. Nesta crítica genérica afastamos evidentemente com particular empenho e como casos paradigmáticos o contributo de Raul Lino, bem como o de Carlos Ramos por razões concretas que serão enunciadas mais tarde. E cito estes dois nomes por serem os apontados genericamente como de arquitectos mais largamente “comprometidos” com a ideia de um portuguesismo na arquitectura. De facto hoje tem toda a pertinência a questão da post-modernidade, noção que tenho entendido não apenas como de uma passiva resistência, mas como activa arma de combate cultural. Defini-a assim, ainda sem detalhar as suas consequências, em 1988 creio, no Centro Pierre Francastel. Posteriormente tenho-a elaborado e tenho vindo a verificar da sua oportunidade maior. Sem repetir uma vez mais o que sobre o assunto tenho dito, basta recordar que perante uma ideia de “Globalização” que astuciosamente se pretende como sendo a característica cultural do mundo contemporâneo, se perfilou num primeiro momento a evidência de um Regionalismo Crítico, o que ficamos a dever na sua formulação mais interventiva a Keneth Frampton, baseado embora em trabalhos anteriores de Tzonis e Lefebvre. Este Regionalismo Crítico, foi desde logo assumido pelo seu mais recente autor como de resistência a uma uniformização cultural, em desenvolvimento. Mas suponho que a ideia de um Regionalismo Crítico se indiscutivelmente meritória, pode revelar-se insuficiente, sobretudo por dar azo a interpretações culturalmente perversas e de estofo reaccionário, de um isolacionismo assumido. É necessário associar a esta, a ideia complementar de um Internacionalismo 3. Giulio Carlo ARGAN – História da Arte como História da Cidade. São Paulo: Martins Fontes, 1998, pág. 37 19 Crítico, prevendo nesta designação, a absorção exigentemente crítica, de toda a informação exterior. Só uma ponderação consciente, – da qual somos a cada momento inteiramente responsáveis – nunca inteiramente concluída, só do equilíbrio destas duas posições dialecticamente complementares, será possível uma concreta tomada de posição culturalmente estruturada. E é esta ponderação consciente em que profissionalmente se aceita um responsável diálogo com o exterior e de modo idêntico se aceitam seriamente as motivações de uma expressão regional, que estrutura aquilo que pode ser em termos teóricos o que podemos chamar uma Post Modernidade. Esta entendida não como um movimento, mas como largo paradigma cultural. É minha convicção de resto que terá sido prejudicial à reflexão que o Inquérito propunha e mesmo à realização do próprio Inquérito no terreno, uma atitude prévia muito mais atenta aos factores de uma diversidade na arquitectura nacional, nisso querendo negar a existência de qualquer “modelo”, do que a factores de uma eventual convergência expressiva ou de habitabilidade. Essa ideia não permitiu ver a existência de alguns parâmetros que, claro, sem serem definidores de “modelos” únicos de norte a sul do país, não deixam de constituir referências geograficamente bastante disseminadas mas consistentes. Escrevo modelo entre aspas determinadamente, para sobre ele chamar a atenção. É que naquele raciocínio e subjacente nas motivações e nos textos do Inquérito, infiltrava-se uma particular noção de modelo, que tenho por totalmente prejudicial não só entre nós, mas em toda a história da arquitectura. Modelo, se tomado como um todo acabado, como o entendia Quatremère de Quincy, enquanto um figurino apto a estabelecer-se como norma a respeitar, não tem sentido crítico. E a larga aceitação que lhe tem sido reservada, não o pode legitimar. Mesmo com as prevenções de Argan que ……………… Esse “modelo” assim entendido, não existe nem podia. Modelo só pode ser exemplificado com verdadeiro sentido crítico, e assim me parece ter sido entendido ao longo da História, por uma obra que contenha elementos expressivos particularmente bem problematizados ou resolvidos, podendo aí servir para estudo desses mesmos elementos, numa nova obra que em parte os utiliza como material próprio. Um modelo é assim apenas um fautor de influências. Poderíamos então dizer que a noção de “modelo” implícita no Inquérito 20 certamente não haveria. Por ser entendido como único, por ser entendido como figurino. Mas se tivesse sido encarada a noção de modelo de uma maneira mais aberta mais operativa e menos académica, talvez esses modelos tendessem a surgir de uma maneira que afinal ainda hoje passado meio século podemos detectar na documentação recolhida. Nota das editoras O presente texto de Pedro Vieira de Almeida encontrava-se em fase de redacção, tendo nós optado por publica-lo tal como se apresentava. 21 Seriação dos procedimentos concretos no campo. Unir mapas de Regiões de Portugal consideradas no Inquérito. Normalizar sinais. MAPAS e CARTAS Esclarecer tipologias usadas. Fazer consulta em Espanha. 1)- Relatório das tentativas de chegar à documentação em arquivo. 2)- Para uma utilização mais ponderada do ”Inquérito”, iniciámos o trabalho prático com uma tentativa de leitura o mais uniforme possível da documentação existente o que nos levou a fazer coincidir as fronteiras das zonas inquiridas. -------------1 CARTA Isso permitiu perceber a falta que fazia para uma informação equilibrada, o inexistente mapa resumo da zona cinco pelo que o decidimos tentar fazer dele um esboço, tentando identificar no território as localizações dos exemplos recolhidos ou referidos no texto.---------- 2 CARTA. Foi feita a “limpeza” de todos os mapas resumo, retirando deles quaisquer referências a estruturas que ainda que tivessem tido sentido na recolha que ao tempo se fez, para o nosso objectivo resultavam excedentárias. -------------3 CARTA Simultaneamente e com a mesma preocupação, entendemos dever uniformizar todos os símbolos que nas diversas zonas registavam as várias tipologias. ------------4 CARTA Só nesse momento estivemos em situação de poder avaliar o material recolhido no seu todo para escolher que zonas precisas do território nacional decidíamos visitar. Fica assim claro que com a documentação que posteriormente recolhemos, não pretendemos estabelecer qualquer tipo de amostragem tendente à realização de uma espécie de um embrião de um “contra-Inquérito”. Os exemplos que vieram a ser fotografados e registados embora com uma ou II PARTE – MAPAS E CARTAS Pedro Vieira de Almeida 22 outra excepção no conjunto insignificativa, foram escolhidos precisamente porque pareciam apoiar o tipo de elementos expressivos a linguagem arquitectónica que nos tínhamos imposto analisar isto é a importância da “espessura da parede” na determinação do espaço interior e o significado social do” espaço-transição” na socialização da casa. Como será evidente este objectivo determina várias outras observações e consequências. Não só os exemplos recolhidos são orientados para um objectivo definido, como também os próprios locais visitados, foram escolhidas expressamente com a intenção de organizar mais facilmente um plano de análise credível. Foi aqui que o ”Inquérito” demonstrou a sua grande utilidade prática, já que serviu como guia e mapa para uma rápida verificação dos locais que seriam hipoteticamente mais produtivos. Verificámos que no que toca ao parâmetro espaço-transição das seis das zonas consideradas no Inquérito, as mais promissoras poderiam ser a das Beiras. Em relação ao parâmetro espessura de parede e às suas consequências espaciais pareceu que um melhor conhecimento da zona algarvia recolhendo elementos nas casas de taipa seria numa primeira aproximação recomendável. 4 De imediato se formou a ideia de visitar algumas zonas controle Também com este intuito foram abordadas algumas limitadas faixas territoriais em Espanha, que foram devidamente assinaladas e justificadas. Nota das editoras O presente texto de Pedro Vieira de Almeida encontrava-se em fase de redacção, tendo nós optado por publica-lo tal como se apresentava, com apenas uma excepção, constituída pela passagem de uma anotação incluída no texto para nota de rodapé. 4. (Continuar) 23 Esquemas elaborados por Pedro Vieira de Almeida em Março de 2010, durante a primeira fase de programação do trabalho Sobreposição das zonas inquiridas num mapa de Portugal de 1962 31 32 Carta 1 – passagem da base digital para uma base vectorial, com a indicação dos limites das zonas e da área da zona 5 sem registo de tipologias (trama cinza) 33 que retivemos da caracterização dada pelos seus autores quanto à forma e aos elementos construtivos para cada tipo. Assim, e a título de exemplo, podemos mencionar que a habitação da subregião de Barros se distingue por uma construção de um piso com telhado e cuja importância dada ao espaço da cozinha se expressa no elemento da chaminé, que domina a composição da fachada, normalmente caiada. Graficamente resultou no sinal Paralelamente, e no sentido de dar um significado arquitectónico a cada um dos sinais, seleccionaram-se do conjunto dos exemplos registados para esta zona, aqueles que considerámos mais elucidativos de cada uma das subregiões. Para cada uma das habitações redesenhou-se manualmente uma planta e um alçado na sua forma mais esquemática, que foram posteriormente digitalizados e inseridos numa grelha em conjunto com os sinais e com os descritivos. O resultado final pretende não ir mais além do que o apontar de uma hipótese de síntese quanto à classificação por tipos da zona 5, apoiando-nos para tal naquilo que identificamos como base da composição dos mapas apresentados para as restantes zonas. Registe-se que a elaboração deste esboço tipológico constituiu uma tentativa de interpretar graficamente o que a estrutura do capítulo Arquitectura da 16 Zona em si já prevê: identificar características comuns nos tipos de soluções construtivas face às condições geográficas patentes em cada sub-região. 16. Arquitectura Popular em Portugal…, vol.3, p. 58-119 Carta regional apresentada pela equipa da zona 5 e quadro com a sinalização das tipologias por subregião (por nós proposta) 34 Com a informação reunida das seis zonas, agora compilada na Carta 2 e no Quadro 1, passou a ser possível dispor de uma base de trabalho, sobre a qual de imediato se tornou evidente a diversidade de leituras, reflectida na multiplicidade de sinais utilizados, num total de 82, que caracterizam os diferentes tipos de edifícios considerados significativos pelos arquitectos autores da publicação Arquitetura Popular em Portugal. Esta diversidade parece resultar de critérios individuais adoptados por cada equipa, que se podem reconhecer na diferente opção quanto aos edifícios seleccionados, na escolha personalizada dos elementos gráficos para os identificar e no grau de especificidade com que os mesmos são caracterizados. Mas podemos também considerar a possibilidade de que esta variedade de registo traduza diferentes sensibilidades na forma como as equipas abordaram as respectivas áreas de estudo, concretamente no que se refere às questões de ordem formal e construtiva. Recorde-se que estes aspectos exerceram um grande fascínio sobre os arquitectos, quando procederam ao 17 levantamento de campo, conforme testemunham alguns dos seus autores . Numa leitura agora mais comparada da informação é possível constatar algumas evidências quanto à forma como as equipas pontuaram o seu registo. 17. António Menéres em conversa com Alexandra Cardoso e Maria Helena Maia em 04.04.2013. Arcos de Valdevez, por altura do Colóquio Internacional Arquitectura Popular, Carvalho Dias em conversa [gravada] com Maria Helena Maia e Fátima Fernandes em 29.01.2013, e Silva Dias em entrevista a Inês Oliveira realizada em 13 de Dezembro de 2010 e publicada in Inês OLIVEIRA – A fotografia no “Inquérito da Arquitectura Popular em Portugal”. Dissertação de Mestrado Integrado em Arquitectura, Faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade de Coimbra – Departamento de Arquitectura, Julho 2011, Anexo. Hipótese de um mapa tipológico para a zona 5 - Alentejo 35 Carta 2 – Zona 5 integrada com preenchimento dos sinais (por nós propostos). Total de 82 sinais registados pelas seis equipas 18. Em comum, estas equipas auxiliaram-se previamente em mapas com as divisões geográficas (sub-regiões) relativas a cada zona de estudo, com maior ou menor grau de definição quanto aos seus limites, fazendo coincidir cada divisão com um tipo próprio de habitação, caracterizada pelos elementos mais significativos. Toda esta informação serviu posteriormente para a definição tipológica. V. p. 26 (Zona 3), p. 60 (Zona 5) e p. 127 (Zona 6) 36 Quadro 1 - todos os sinais utilizados pelas equipas do Inquérito. 1) De um modo geral, a sinaléctica empregue tenta representar esquematicamente o alçado dos edifícios acentuando os seus elementos mais significativos, i.é. as escadas, as águas do telhado, os anexos integrados, os contrafortes, as chaminés, etc. 2) Em todas as zonas do levantamento existem áreas “brancas”, visíveis pela ausência de sinalética empregue, não havendo dados que justifiquem o seu significado ou intencionalidade em não terem sido tratadas. 3) Na faixa de transição entre zonas não há cruzamento de informação, uma vez que cada equipa não registou tipologias para além dos limites estipulados, barrando à partida com esta fronteira, que entendemos artificial, a hipótese de definir articulações possíveis. Podemos encontrar a única excepção em exemplos identificados pela equipa da zona 2 – Trás-os-Montes – que regista o facto de alguns dos tipos terem continuidade para a zona 1 do Minho e para a zona 3 das Beiras. 4) Por considerar não existir “unidade arquitectónica” na zona das Beiras, a equipa respectiva subdivide o seu registo em sub-regiões, cada uma associada a uma “casa típica”, sem que seja esclarecido o porquê desse “tipismo”. Com base nos mesmos motivos, as equipas da zona 5 e da zona 6 tiveram atitude semelhante quanto ao parcelamento da área em estudo para 18 analisar os diferentes tipos de habitação . 5) Podem detectar-se alguns pontos de contacto na representação gráfica das zonas 2 e 3 quanto à semelhança do icon utilizado. É o caso das habitações com varanda envidraçada, dos espigueiros, dos pelourinhos e cruzeiros, das alminhas ou dos mercados/alpendres de feira. Note-se que estas duas zonas são as únicas que registam edifícios comuns - casa típica da Sub-região B -, apesar deste tipo curiosamente não estar localizado nos limites comuns de 37 fronteira. 6) É observável nas zonas 1, 2 e 3 uma disposição quanto ao registo das tipologias em possíveis grupos temáticos: a habitação, as construções de apoio colectivo à habitação (sequeiros e espigueiros), os equipamentos (mercados) e as construções de carácter religioso (igrejas, capelas, alminhas). Por sua vez na zona 4 – Estremadura –, o registo pode subdividir-se em dois grandes grupos: a habitação e as construções com um carácter indutor de uso colectivo (adegas, moinhos, cisternas e poços cobertos), com um apontamento aos edifícios religiosos nas capelas de beira-mar. A zona 6 do Algarve apenas regista tipos de habitação. Para além das imediatas consequências gráficas, esta fase do trabalho veio também permitir um processo sucessivo de análise e interpretação crítica dos exemplos registados, tendo subjacente os dois parâmetros em estudo, o que nos veio permitir começar a delinear os resultados finais obtidos. Num primeiro nível de sistematização, entendemos constituir grupos temáticos, com a informação hierarquizada segundo a ordem de interesse para o presente trabalho – Quadro 2. Julgamos poder enquadrar nestes grupos a grande diversidade de tipos registada pelas equipas e verificar a correspondência entre a sinaléctica empregue e os edifícios que concretamente representa. Num sistema de grelha estruturada por agrupamento, zona de estudo e tipologia, arrumaram-se os sinais pelo seu conteúdo, criando um sentido de planificação que permitiu cruzar a informação de forma mais perceptível. A criação destes grupos teve em conta a incidência da amostragem na recolha feita pelas equipas quanto ao tipo de uso do edifício ou elemento que lhe está associado: (1) a habitação, (2) os de apoio à habitação (sequeiros, espigueiros e fornos), (3) os que induzem num uso colectivo (noras, abrigos, adegas, moínhos, cisternas e poços), (4) os equipamentos (mercados), (5) os de simbologia religiosa (igrejas, capelas e alminhas), (6) os marcos com forte carácter simbólico (pelourinhos e cruzeiros) e (7) o elemento torre. A observação deste quadro veio acrescer informação mais detalhada às referências anteriormente anotadas aquando da análise do quadro 1: 1) A existência de uma assimetria entre as zonas quanto à quantidade de exemplos recolhidos para a tipologia de habitação, sendo de realçar o caso da zona 2, que apresenta um registo muito alargado e com apontamentos de detalhe pontual mimeticamente representados no símbolo utilizado, como é o caso do elemento da chaminé ou da porta carral. 2) As zonas 2 e 3 constituem um exemplo significativo de utilização da mesma sinaléctica para registo de alguns tipos de habitação. Aliás, quando cruzados estes dados com a informação constante no Quadro 1 é possível verificar que estes sinais correspondem à mesma tipologia. 3) A relação da habitação rural no seu prolongamento e dependência com as 38 construções anexas de apoio é fortemente vincada pelas equipas das zonas 1, 2 e 3, com a importância dada às construções dos sequeiros e dos espigueiros. 4) As zonas 1, 2, 3 e 4 alargam o âmbito do seu levantamento para além das tipologias da habitação ao registarem construções com um outro tipo de função. 5) A utilização pelas equipas de diferente sinalética para representar construções com o mesmo tipo de uso, como é o caso dos espigueiros, dos sequeiros, dos mercados ou das capelas. Esta diferenciação pode de alguma forma estar relacionada com o que atrás já foi referido quanto à representação gráfica o mais possível estilizada da imagem real e específica de cada edifício Quadro 2 – registo de todos os sinais utilizados, arrumados por significados (por nós estabelecidos) 39 em cada zona de estudo. 6) O mercado é unicamente indicado pelas equipas 1, 2 e 3. No entanto, a equipa da zona 4 identifica, nos aglomerados rurais, um conjunto de construções variadas que indiciam um uso colectivo, o que poderá remeter para uma abordagem do território mais sensível a indicadores de alguma urbanidade. 7) As equipas da zona 2 e 3 são as únicas que registam elementos com um forte carácter simbólico e de excepção face ao levantamento geral, uma vez 19 que não se limita aos edifícios. Estas duas equipas estão uma vez mais coincidentes quanto à utilização de uma mesma sinalética para os indicar, neste caso as alminhas, os cruzeiros e os pelourinhos. 8) Os exemplos de torre registados exclusivamente na zona 1 aparecem como um elemento singular neste levantamento. No decurso da sistematização de informação que se seguiu, excluímos alguns elementos que não nos pareceram relevantes para a investigação crítica que pretendemos desenvolver. Como resultado, destacámos as estruturas com maior carácter indutor de vida colectiva – a habitação – anulando as restantes que nos pareceram apresentar apenas uma utilidade induzida – as estruturas de apoio à habitação, as estruturas de apoio à produção, os equipamentos, as igrejas e capelas, os marcos e as torres - CARTA 3. Findo este processo apuraram-se 53 tipos de habitação popular, facto que nos levou a reflectir se a este elevado número de construções correspondia uma efectiva diferenciação no que à essência destas arquitecturas respeitava, ou se pelo contrário poderiam existir particularidades em comum. Paralelamente, também nos pareceu evidente que para o grupo dos edifícios de habitação seria necessário criar um outro nível de selecção que permitisse uma maior inteligibilidade da informação inserida. Nesse sentido, e num segundo nível de sistematização, entendemos proceder a uma tentativa de agrupamento numa mesma classificação tipológica, dos exemplos de habitação que no Inquérito são entendidos separadamente e apresentados como distintos, sem que disso nos pareça à partida resultar qualquer vantagem analítica, ensaiando também um primeiro reconhecimento dos valores expressivos da espessura e do espaço-transição - CARTA 4. Neste processo de associação e para cada zona de estudo aplicaram-se filtros ao conteúdo dos mapas tipológicos. Um primeiro filtro foi aplicado ao nível dos materiais que constituem a estrutura da habitação – pedra, adobe, taipa e madeira – que poderiam traduzir a variável da espessura da parede, e um segundo filtro foi aplicado ao nível dos elementos arquitectónicos – varanda, alpendre, pátio, açoteia – que poderiam traduzir a variável do espaço transição. O elemento da varanda envidraçada foi de imediato destacado por considerarmos que à partida ele pode conter uma vivência própria do espaço 19. Anote-se que, face à diversidade generalizada de abordagens patente no trabalho das seis equipas, estas duas zonas do Inquérito são as únicas que aparentam ter alguns pontos possíveis de articulação na metodologia empregue. 40 Carta 3 – Manter só os sinais relacionados com a habitação. Sinais excluídos: sequeiros, espigueiros, noras cobertas, abrigos de barcos e utensílios de sargaçeiros, fornos, pelourinhos, alminhas, cruzeiros, adegas, moinhos, cisternas e poços cobertos, mercados e torres 47 Mapa 1 – parâmetro da espessura das paredes. De norte a sul, Portugal é predominantemente construído com paredes espessas. Os poucos apontamentos de arquitectura feita com paredes delgadas (trama branca) são muito localizados e associados às comunidades de pescadores. 48 rapidamente se torna indiferente”, enquanto uma “janela em parede espessa, tende a orientar a visão para o exterior, visão que resulta mais contida, vê esse exterior em direcção a locais escolhidos, estimula, chama a atenção para 27 pontos previamente determinados” . E Vieira da Almeida conclui: “quer, num primeiro tempo, pelo sentido próprio de massa que determina a densidade espacial e/ou pela luz trabalhada que a parede espessa permite, quer num segundo tempo pelas diferentes visões que se estruturam através das suas janelas, a espessura adquire um significado de relevo, muito maior do que aquele que em geral lhe é reconhecido”. De facto, nesta sua proposta teórica, defende a existência de uma “expressiva convergência estrutural entre massa e espaço”, sendo que “em parte funda28 mental é da noção de massa que irradia a noção de espaço expressivo” . Pedro Vieira de Almeida distingue a propósito da arquitectura do início do seculo XX, aquilo que é uma arquitectura de massa, ligada à arquitectura expressionista e uma arquitectura de volume característica da arquitectura racionalista. Do seu ponto de vista “o espaço de qualquer maneira que o definamos, em arquitectura corresponde a uma percepção interna […] e o volume corresponde a uma percepção externa e só são coincidentes em específicas condições nas quais as paredes, possam ser consideradas desprezíveis enquanto tal”. Assim, “o espaço da arquitectura não se opõe à 29 noção de “massa”, pelo contrário é dela dependente” . Numa leitura transversal quanto à caracterização das obras de arquitectura que constituem o Inquérito, a espessura é um termo recorrente em todas as equipas para qualificar o carácter maciço e a robustez das construções rurais. Para tal, identificam-se os elementos construtivos mais determinantes em cada zona: o granito e o xisto utilizado no Minho, Trás–os-Montes, Beiras e em certas áreas do Alentejo; na Estremadura o emprego do tijolo de adobe e a construção de paredes em taipa, sendo este último sistema construtivo utilizado também em grande escala no Alentejo e no Algarve. Para além do reconhecimento de um maior contributo na protecção térmica da habitação, a parede espessa é, pelos autores do Inquérito, apenas entendida como o resultado de um sistema construtivo ancestral, que utiliza os meios e recursos naturais afectos a cada região. Qualquer tentativa em transpor esta linha de reconhecimento lógico para um nível mais estruturado do efeito da espessura na definição de uma espacialidade interna, simplesmente não existe. Apontamentos sobre usos ou formas de sentir o espaço como aqueles que registam que “o cunho primitivo de hábitos de vida ensimesmada ressalta da 30 construção espessa” ou que “espessas paredes de juntouros se fecham para as afadigadas tarefas da cozinha ou para as estreitas horas das refeições e do sono, concedendo o isolamento, a protecção e a intimidade tão desejáveis à 27. Pedro Vieira de ALMEIDA - A noção de espessura... 28. Pedro Vieira de ALMEIDA – Dois Parâmetros de Arquitectura … Caderno 2….Sublinhado nosso. 29. Pedro Vieira de Almeida, Dois Parâmetros de Arquitectura Postos em Surdina. Leitura Crítica do Inquérito à Arquitectura Regional. Caderno 2. Porto: CEAA, 2013 (2011) 30. Arquitectura Popular em Portugal…, vol.1, p. 39 49 31 vida doméstica” , poderiam ter originado um outro tipo de leitura, mais ligada ao caracter expressivo da espessura nas suas implicações espaciais. Não é isso que acontece. Por outro lado, se bem que à partida não se possa identificar nos textos publicados, ou equacionado qualquer ideia de massa na conformação do espaço destes habitats, julgamos poder inferir de algumas das anotações feitas pelos autores, valores espaciais que podem de certa forma consubstanciar essa ideia. É o caso do apontamento da equipa das Beiras, que salienta na composição das construções as “articulações das massas construtivas e dos elementos que as definem, completam ou valorizam. Robustos, sólidos e sem devaneios, os edifícios assentam pesadamente na 32 terra” , ou da equipa do Alentejo quando descreve uma habitação encerrada 33 por um “maciço de alvenaria só perfurado pela porta de entrada” ou no caso do Algarve, quando se conclui que “as paredes massas de alvenaria valem por 34 si mesmas sem elementos de cantaria” . Uma outra característica que podemos mais directamente associar a uma parede espessa relaciona-se com a possibilidade que esta oferece de poder ser escavada e assim incorporar o “mobiliário” que organiza as diferentes áreas dentro casa. É o caso de Malpica do Tejo, na Beira Baixa, em que “as cantareiras praticadas nas paredes sem rigidez geométrica são, por vezes, 35 peças de grande interesse decorativo” , ou o caso de Arronches no Alentejo em que “o poial em nicho na parede esquerda da entrada está apoiado em dois 36 arcos” , ou ainda o exemplo de Aljustrel no Algarve em que “os poiais e as cantareiras circundam a cozinha” e os “armários são embutidos nas paredes e Casa no Soajo – Imagem do livro Arquitectura Popular em Portugal, Associação dos Arquitectos Portugueses, Lisboa, 3ª edição: 1988, vol. 1, p. 79 31. Arquitectura Popular em Portugal…, vol.1, p. 57 32. Arquitectura Popular em Portugal…, vol.2, p. 116 33. Arquitectura Popular em Portugal…, vol.3, p. 74 34. Arquitectura Popular em Portugal…, vol.3, p. 101 35. Arquitectura Popular em Portugal…, vol.2, p. 99 36. Arquitectura Popular em Portugal…, vol.3, p. 74 50 37 os trens em cobre ornamentam os escaparates” . Todos exemplos captados pelas fotografias do interior dessas habitações. Em contraponto à expressividade inerente a uma arquitectura de massa, estão também presentes no Inquérito, algumas referências a uma arquitectura de volume, do nosso ponto de vista perceptível na análise da equipa das Beiras 38 quando evidencia “a simplicidade dos volumes e das composições” , ou quando a equipa do Alentejo, a propósito do uso da taipa na construção, salienta que este material “confere à Arquitectura um carácter de maciez, nos 39 volumes acusados com grande valor” . Mas é talvez a equipa da Estremadura, que mais fortemente contribui para a construção de uma imagem de volumes cúbicos – o que pensamos não ter sido completamente 40 inocente – quando a propósito das escolhas dos habitantes quanto ao seu habitat menciona que “para lá do que procuram conscientemente, há nas 41 soluções um jogo espontâneo e belo de volumes” . Ao contrário do que acontece com as paredes espessas, largamente dominantes no país, são muito escassos os exemplos que podem traduzir uma poética de paredes delgadas. Concretamente, na Arquitectutra Popular em Poial numa casa em Messejana - Aljustrel (© Arquivo Ordem dos Arquitectos – IARP/OAPIX) 37. Arquitectura Popular em Portugal…, vol.3, p. 223 38. Arquitectura Popular em Portugal…, vol.2, p. 116 39. Arquitectura Popular em Portugal…, vol.3, p. 100 40. Talvez aqui intencionalmente uma alusão a algumas das referências formais associadas ao Movimento Moderno. Na apresentação do Inquérito às entidades oficiais, Fernando Távora manifesta ao Ministro das Obras Públicas, Arantes de Oliveira, que “o Inquérito vem exactamente confirmar a existência de grandes similitudes entre a arquitectura popular e a arquitectura moderna”. In João Leal, 2000 – Etnografias Portuguesas (1870-1970). Cultura Popular e Identidade Nacional. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2000, p. 173 41. Arquitectura Popular em Portugal…, vol.2, p. 171 51 Portugal reduz-se a dois apontamentos correspondendo às construções em madeira nas zonas da Estremadura e do Algarve, ambos ligados a habitação de comunidades piscatórias. Na Estremadura, a solução arquitectónica das construções palafíticas de madeira, resulta de uma ligação particular entre as condições do meio ambiente e as necessidades de abrigo: a madeira proveniente do Pinhal de Leiria, a presença da areia aliada à força dos ventos e a proximidade da água. Estas habitações utilizadas pelos pescadores, erguem-se acima do solo sobre estacas de madeira ou pedra oferecendo a mesma solução a dois problemas distintos. No caso das povoações costeiras, como forma de controlar a 42 acumulação da areia arrastada pelo vento; no caso das aldeias avieiras , para proteger a habitação das abundantes cheias do rio Tejo. A casa, situada num plano mais elevado, com acesso por uma escada exterior em madeira, é geralmente organizada num esquema simples de planta rectangular: a cozinha e a sala comunicam directamente com a varanda que lhes dá acesso directo, através da escada, e a área dos quartos, normalmente mais reservada, situa-se num dos extremos, com acesso pela sala. Normalmente, o nível térreo delimitado pelas estacas é utilizado para 42. Povoações assim designadas por terem sido construídas por pescadores provenientes de Vieira de Leiria que se fixaram na orla do Tejo. Escaroupim (Salvaterra de Magos): construção palafítica construída com paredes de madeira 52 armazenamento ou para guardar as pequenas embarcações. Estas construções com finas paredes de madeira são apontadas pelos autores do Inquérito como acertada para as condições naturais da região porque funciona de maneira correcta em relação ao chão arenoso e à humidade que o ar do mar transporta. As janelas de uma folha quase sempre com uma portada incluída, inserem-se na continuidade da espessura da parede, fazendo conjunto com ela, emoldurando a paisagem. Como refere a equipa do Algarve a propósito do caso de construções deste tipo, em que “perduram velhos hábitos de construir habitações, sobretudo nas costas arenosas, nas quais se utiliza o junco e o estormo, […] tanto nas paredes como na cobertura”. São “geralmente pobres habitações de pescadores“ em que a “iluminação interior é obtida através de pequenas 43 janelas insertas nas paredes” . Soluções muito pontuais de paredes delgadas, identificadas noutros tipos de habitação, maioritariamente definidas por paredes espessas, foram registadas pela equipa de Trás-os-Montes, que identificou os “tabiques de entrançados de palha, como de cestos se tratasse, ou de varas, como as sebes Palheiros da Tocha (© Arquivo Ordem dos Arquitectos – IARP/OAPIX) 43. Arquitectura Popular em Portugal…, vol.3, p. 208 53 44 dos carros de bois” . E os autores acrescentam que sendo estes sistemas o resultado de uma “versatilidade dos métodos construtivos, ainda que 45 utilizando materiais e princípios rudimentares” constituíam em si mesmo um sintoma de progresso. Esta situação é bem ilustrada pelo exemplo do uso 46 de um “entrançado de varas e barro” para fechar parte de uma varanda em Guadramil. Nos exemplos do Inquérito, a janela é quase sempre observada pelo exterior, enquanto elemento que pontua uma relação de força, em que a parede 47 predomina sempre sobre o vão . Esta predominância reflecte-se formalmente numa composição plástica de claro-escuro quando se trata de uma parede caiada, ou numa composição geométrica entre os cheios e vazios quando em presença de uma parede de xisto ou de granito. Por seu lado, muito pouco é referido quanto à qualidade da luz que essas aberturas transferem para o interior, nomeadamente “intensidade, tonalidade 48 e temperatura” . Nos textos Arquitectura Popular em Portugal, a descrição da luz é sempre contida numa perspectiva dimensional – reduzida a “pequenas entradas” que quebram a “penumbra” na casa de Trás-os-Montes ou em “diminutas aberturas” que iluminam os interiores “escuros” no caso das Beiras – sendo que os vãos são “escassos” porque são “caros”, chegando mesmo a atingir a figura de “verdadeiros buracos” que perfuram tanto as paredes maciças de granito do Norte como as de taipa no Sul. Em complemento, e para elucidar a escassez de recursos económicos dos habitantes do Alentejo, referem que “os raros vãos, poucas vezes são fechados com caixilharia de vidro e é a portada de madeira que protege os 49 interiores do frio ou da canícula” . No entanto, podemos detectar em algumas das fotografias que registam o Interior de uma casa na aldeia de Montes. Imagem do livro Arquitectura Popular em Portugal, Associação dos Arquitectos Portugueses, Lisboa, 3ª edição: 1988, vol. 1, p. 132 44. Arquitectura Popular em Portugal…, vol.1, p. 151 45. Arquitectura Popular em Portugal…, vol.1, p. 151 46. Arquitectura Popular em Portugal…, vol.1, p. 150 47. Com excepção das varandas envidraçadas, em especial na zona das Beiras 48. Pedro Vieira de ALMEIDA - A noção de espessura... 49. Arquitectura Popular em Portugal…, vol.3, p. 100 54 Mapa 2 – parâmetro do espaço transição. Destaque para o sub-tipo específico da varanda envidraçada, (trama cinza) pela sua representatividade dentro deste parâmetro geral. 50. Pedro Vieira de ALMEIDA - A noção de espessura... 51. Pedro Vieira de Almeida, Ensaio sobre algumas Características do Espaço em Arquitectura e Elementos que o Informam, CODA, ESBAP, 1963 52. R.D. Martienssen – La idea del espácio en la arquitectura griega. Buenos Aires: Nueva Vision, 1958, p. 70, 64, 17 e 38 53. Eglo Benincasa (L'arte di abitare nel mezzogiorno, L'A, nº2) citado por Pedro Vieira de Almeida, Ensaio sobre algumas Características do Espaço …, p.127 54. Pedro Vieira de Almeida, Ensaio sobre algumas Características do Espaço …, p. 127 55. Pedro Vieira de Almeida, Ensaio sobre algumas Características do Espaço …, p. 96 56. Pedro Vieira de Almeida, Dois Parâmetros de Arquitectura Postos em Surdina. Leitura Crítica do Inquérito à Arquitectura Regional. Caderno 2. Porto: CEAA, 2013 (2011). 57. V. Pedro Vieira de ALMEIDA – Apontamentos para uma Teoria de Arquitectura. Lisboa: Horizonte, 2008. 55 interior das habitações – nomeadamente na casa da tecedeira na aldeia de Montes em Trás-os-Montes ou numa das casas da aldeia da Gralheira nas Beiras – a existência de espaços em que a luz claramente “resulta modelada e 50 integrada por si mesma, na globalidade do conjunto expressivo” . Isto é especialmente visível, nos casos em que as paredes espeças abraçam fortes portadas ou mesmo “conversadeiras”. Segundo parâmetro: espaço transição É a segunda variável, o espaço transição, que agora nos propomos aprofundar, tendo como base a definição de Pedro Vieira de Almeida e que portanto importa desde já clarificar. 51 Foi Vieira de Almeida quem na viragem para a década de 60, propôs como nova categoria crítica, o espaço-transição. 52 Para tal partiu da importância atribuída por Rex Martienssen ao pátio/peristilo e ao stoa gregos e da ideia de Eglo Benincasa de que na Europa do Sul se vive habitualmente num semi-aberto (sic) pelo que “conservar nos ambientes abertos o máximo de intimidade” constituiria um problema 53 fundamental da arquitectura desta zona . Este semi-aberto corresponderia pois ao espaço-transição, isto é, a um espaço que não é nem interior, nem exterior e que traduz uma forma ancestral 54 de habitar que, no seu e no nosso entender continua válida . Realçando a importância do espaço-transição no que se refere à ligação entre um espaço-interno e um espaço-externo, entre o dentro e o fora, Vieira de 55 Almeida defende que é nele que radica a “fluidez e a continuidade espacial nas relações entre arquitectura e urbanismo”. Anos mais tarde, já no âmbito deste projecto, defenderá que o espaçotransição “é uma qualidade específica de espaço que podemos investir de responsabilidades particulares seja no campo expressivo, seja no campo das 56 preocupações sociais” . Efectivamente, para além do carácter expressivo e de articulação com a envolvente dos espaços-transição, Vieira de Almeida chama a atenção para a importância da sua existência no fogo pela “sua função clara como representando aquilo que em arquitectura poderia verdadeiramente propor uma liberdade de apropriação no habitar”. Isto porque, continua, “o espaçotransição corresponde no seu mais exigente quadro de entendimento a uma verdadeira noção de espaço-função, em que o espaço é por si só sem 57 qualquer outra adscrição, a sua própria função” . Assim, o espaço-transição constitui por si mesmo um espaço de liberdade de apropriação. Tentar identificar o real significado expressivo desta categoria na estruturação de uma ideia de habitar, tornou-se assim num dos objectivos do nosso projecto. Num primeiro nível de leitura dentro do quadro de referência do espaçotransição, identificou-se a varanda como elemento arquitectónico 56 significativo nos exemplos recolhidos e registados pelos arquitectos do Inquérito, presente em todas as zonas de estudo, se bem que com menor predominância na Zona 5. Embora a abordagem seja diferente no que se refere à sua origem, uso e significado – com as equipas do Norte mais próximas a vectores antropológicos e as do Sul mais ligadas a factores de ordem climática – todos salientam a importância da varanda como uma componente espacial muito determinante para a caracterização das arquitecturas da respectiva região. À semelhança da varanda, mas com características de maior contenção e intimidade, o alpendre, é igualmente importante para este estudo. Por último, foram também considerados representativos de espaços-transição, pátio e a açoteia, especialmente presentes a sul do Tejo. Embora se trate de espaços sem uma definição rígida quanto ao seu uso, temos a consciência de que existem diferenças no modo como estes se articulam com o núcleo da habitação. Se por um lado as varandas e os alpendres podem estar mais dependentes do próprio processo de habitar e por isso estabelecem uma relação mais íntima e complementar com o núcleo da família, os pátios, em especial os associados à tipologia do monte alentejano, são espaços de articulação estrutural entre vários núcleos funcionais cuja apropriação acontece sempre numa dimensão colectiva, que não vem pôr em causa a interioridade da casa que é sempre mantida. Num segundo nível de leitura importa compreender de que forma o espaçotransição é entendido e integrado no modo de habitar, e portanto proceder à análise do significado que estes espaços assumem dentro do fogo, assim como a sua articulação e hierarquização com as funções que lhes estão associadas. A partir dos exemplos do Inquérito e das aproximações e sensibilidades que cada equipa reteve na sua análise, pretendemos portanto averiguar qual o valor e significado do espaço-transição na arquitectura de matriz vernacular para a “criação de vectores de habitabilidade”. No que se refere aos exemplos da Zona 1, a varanda no Minho é considerada uma dependência complementar ao espaço da casa. Apesar da comunicação que existe, através de pequenas aberturas muito controladas, cremos que estes exemplos de varanda não podem ser enquadrados numa lógica de entendimento de um espaço fluido, uma vez que não constituem o prolongamento de um espaço interior. Assim, esta varanda constitui-se como um espaço autónomo, no qual “as actividades participam do exterior, da paisagem, do Sol e do ar livre” e aonde é possível sobrepor 58 uma outra utilização qualquer , podendo ser livremente usado ou vivenciado 59 “para “os ócios ou o sossegado labor dos ocupantes” Casos de estudo particularmente interessantes são os exemplos apresentados 58. Um exemplo é a varanda do tear da casa do Monte em Barcelos. Vd. Arquitectura Popular em Portugal…, vol.1, p. 56 59. Arquitectura Popular em Portugal…, vol.1, p. 57 vieram a mostrar-se estruturadoras de conclusões operativas específicas, não convergentes com as que foram registadas no trabalho original. Este tratamento gráfico prévio da informação foi fundamental para a globalidade da nossa investigação, não só porque se tratou de um reconhecimento criticamente orientado do “Inquérito”, mas também porque, simultaneamente, correspondeu a um ponto particularmente delicado do trabalho, tendo exigido uma grande atenção e uma sensibilidade disciplinada para os exemplos a estudar. Estes irão apoiar a defesa do tipo de elementos expressivos na linguagem arquitectónica que nos propusemos analisar, isto é, a importância da “espessura da parede” na determinação do espaço interior 77 e o significado social do” espaço-transição” na socialização da casa . A partir destes dois parâmetros, consideramos ser possível estabelecer hipóteses de leitura do Inquérito, tomado agora na sua totalidade através de uma metodologia de trabalho transversal a todas as zonas. Sobre um registo inicial de informação com múltiplos critérios e não sistematizado, foi então possível criar um novo ponto de partida para ensaiar outras interpretações sobre o significado dos exemplos de um riquíssimo repositório de arquitectura de um Portugal entretanto já desaparecido, que fosse mais além de uma pura classificação abstracta por tipos, pouco operativa, em que “aspectos meramente formais ou meramente programá78 ticos, se tomados isoladamente, podem vir a ter menor cabimento” . 77. Pedro Vieira de ALMEIDA – Dois Parâmetros de Arquitectura Postos em Surdina. Leitura Crítica do Inquérito à Arquitectura Regional. Caderno 1. Porto: CEAA, 2012 78. dro Vieira de ALMEIDA – Dois Parâmetros de Arquitectura Postos em Surdina. O propósito de uma investigação. Documento zero. Porto: CEAA, 2010, p. 19 63 ANEXOS MAPA GERAL DAS VISITAS DE CAMPO Mapa com a localização das 5 visitas de campo 67 MAPA DA VISITA 1 Situação actual de exemplo de casa com varanda envidraçada registada pela equipa das Beiras 2010 69 MAPA DA VISITA 2 Exemplo de espaço transição e de parede espessa Beiras 2011 70 MAPA DA VISITA 3 Exemplos de habitação em madeira (paredes delgada) Estremadura 2011 71 MAPA DA VISITA 4 Situação actual de exemplos registados pela equipa do Alentejo 2012 72