LUGAR E MEMÓRIA: DO CAMINHAR NA RUA PARA AS IMAGENS
CONTEMPORÂNEAS
Uma e lexão es é ica
Ca a ina Isabel C espo Ribei o Cab al
Se emb o, 2021
Ca a ina Isabel C espo Ribei o Cab al, Luga e memó ia: do caminha
na ua pa a as imagens con empo âneas, 2021
Disse ação de Mes ado
em Es é ica e Es udos A ís icos: Cinema e Fo og a ia
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Disse ação ap esen ada pa a cump imen o dos equisi os necessá ios à ob enção do g au de
Mes e em Es é ica e Es udos A ís icos: Cinema e Fo og a ia, ealizada sob a o ien ação
cien í ica da P o esso a Dou o a Ma ia I ene Apa ício e coo ien ação cien í ica da P o esso a
Dou o a Ma ga ida B i o Al es.
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AGRADECIMENTOS
Ag adeço à P o esso a Dou o a Ma ia I ene Apa ício pela o ien ação des a disse ação e à
P o esso a Dou o a Ma ga ida B i o Al es, pela coo ien ação. A ambas, que o deixa exp essa a
minha g a idão pelas suas suges ões, pelo incen i o e con iança, e pela opo unidade que me de am
pa a a conc e ização des e abalho.
À minha mãe, Ma ia José Cab al e aos meus i mãos Inês e Diogo, ag adeço a comp eensão e oda
a ajuda que me p es a am.
À Isabel Tempo ão, ag adeço a sua paciência, apoio e ca inho.
À D a. Síl ia Je ónimo Candeias, um ag adecimen o mui o especial pela sua con iança e ca inho,
po me escu a e ac edi a em mim, po oda a o ça que me em dado. O seu apoio oi undamem al
nes a ase do meu pe cu so.
À Kina, ag adeço as suas sessões de eiki que con ibui am pa a o meu bem-es a .
Ag adeço ainda aos amigos mais p óxmos pelos conselhos que me de am, pela amizade e
paciência.
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LUGAR E MEMÓRIA: DO CAMINHAR NA RUA PARA AS IMAGENS
CONTEMPORÂNEAS
Uma e lexão es é ica
Ca a ina Isabel C espo Ribei o Cab al
RESUMO
A e lexão sob e a memó ia cul u al, pós-memó ia e luga nas imagens con empo âneas
con inua hoje a se pe inen e com os au o es que ecen emen e se êm deb uçado sob e es es emas
no campo da es é ica e dos es udos a ís icos, bem como com as ob as de cinema e o og a ia que
nos úl imos anos êm explo ado es as ques ões. Es a disse ação p e ende analisa a ligação en e
luga e memó ia no ilme Hi oshima, mon amou , de Alain Resnais (F ança / Japão, 1959, 90’),
na ins alação de o og a ia e ídeo The J. S ee P ojec , de Susan Hille (2002-2005) e no ilme-
ensaio Fou Pa s o a Folding Sc een, de An hea Kennedy e Ian Wiblin (Reino Unido, 2018). O
abalho pa e do caminha na ua pa a o caminha nas imagens, e as ob as escolhidas pa a análise
êm a pa icula idade delas mesmas c ia em o seu caminha nas uas que ap esen am.
Pala as-cha e: Luga . Memó ia. Imagens con empo âneas. Caminha . Ruas. Fo og a ia.
Cinema. Sublime. Ma e ialidade e ima e ialidade. Fan asmas. Judeus. Holocaus o.
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PLACE AND MEMORY: FROM WALKING ON THE STREET TO CONTEMPORARY
IMAGES
An aes he ic e lec ion
Ca a ina Isabel C espo Ribei o Cab al
ABSTRACT
The e lec ion on cul u al memo y, pos -memo y, and place in con empo a y images is
s ill ele an oday, wi h many au ho s in he a is ic s udies ield wo king on hese opics and wi h
ilm and pho og aphy a wo ks s ill explo ing hose ma e s as well.
This mas e hesis analyzes he link be ween place and memo y in he ollowing wo ks: he
ea u e ilm Hi oshima. mon amou , by Alain Resnais (F ance / Japan, 1959, 90’), he pho og aphy
and ideo ins alla ion The J. S ee P ojec , by Susan Hille (2002-2005) and he ilm-essay Fou
Pa s o a Folding Sc een, by An hea Kennedy and Ian Wiblin (UK, 2018). This disse a ion goes
om he idea o walking on he s ee s o he concep o walking on he images. The wo ks chosen
o his analysis ha e hei own pa icula i y o c ea ing hei walking on he ea u ed s ee s.
Keywo ds: Place. Memo y. Con empo a y images. Walking. S ee s. Pho og aphy. Film.
Sublime. Ma e iali y and imma e iali y. Ghos s. Jews. Holocaus .
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ÍNDICE
INTRODUÇÃO ......................................................................................................................... 7
1ª PARTE ..................................................................................................................................... 11
Do caminha na ua pa a as imagens con empo âneas ...................................................... 11
O caminha na ua como expe iência es é ica ................................................................... 11
A ua abe a em odos os sen idos: izoma, a las, imaginação, enume ação .................... 13
Luga , memó ia e imagens con empo âneas ........................................................................ 18
Os luga es ap esen am-se-nos ca egados de memó ia ..................................................... 18
Imagens que nos inquie am ................................................................................................. 24
2ª PARTE ..................................................................................................................................... 36
Hi oshima, mon amou , de Alain Resnais (F ança / Japão, 1959. 90’)............................... 37
Hi oshima-Ne e s ............................................................................................................... 37
O sublime ............................................................................................................................. 42
(I)ma e ialidade................................................................................................................... 46
The J. S ee P ojec , de Susan Hille (2002-2005), o og a ia, ídeo, ins alação .............. 50
Imagens que nos le am à e lexão ..................................................................................... 50
Ma e ializa os an asmas .................................................................................................. 57
Fou Pa s o a Folding Sc een, de An hea Kennedy e Ian Wiblin (Reino Unido, 2018,
83’) ............................................................................................................................................ 60
Dos documen os pa a os luga es ........................................................................................ 60
As imagens das uas de Be lim .......................................................................................... 63
Ma e ialidade / Ima e ialidade .......................................................................................... 66
3ª PARTE ..................................................................................................................................... 74
Re lexão sob e as ês ob as ................................................................................................... 74
Conside ações inais................................................................................................................ 85
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...................................................................................... 90
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INTRODUÇÃO
A o og a ia e o cinema con empo âneos êm abalhado os emas do luga e da memó ia
de modo ele an e. Inúme as ob as no campo das a es isuais con empo âneas podem se ci adas
nes e âmbi o. Pa a a minha análise, escolhi o ilme Hi oshima, mon amou , de Alain Resnais
(F ança / Japão, 1959, 90’), a ins alação de o og a ia e ídeo The J. S ee P ojec , de Susan Hille
(2002-2005) e o ilme Fou Pa s o a Folding Sc een, de An hea Kennedy e Ian Wiblin (Reino
Unido, 2018), p ocu ando, a pa i des a escolha, sublinha a impo ância da e lexão sob e os
concei os de luga e memó ia, ans e sais à es é ica e aos es udos a ís icos, obse ando nas ob as
mencionadas a ques ão da (i)ma e ialidade, bem como a elação do sujei o com o luga , c iado a
de luga es-ou os. Nes as ob as, depa amo-nos com pe cu sos, uas, edi ícios que já não exis em,
nomes de uas, ou uas que se c uzam po ia da memó ia. In e essa pe cebe como podemos liga
o luga , enquan o ma e ial, à memó ia, enquan o ima e ial; como podemos da ma e ialidade do
caminha chega à ima e ialidade das imagens con empo âneas. Os luga es, com o que neles
obse amos e expe ienciamos, ap esen am-se-nos ca egados de memó ia. Da ma e ialidade dos
luga es chegamos à ima e ialidade das memó ias e das imagens. As imagens e as memó ias,
ambém elas nos conduzem aos luga es. O que nos dizem en ão os luga es sob e a memó ia dos
acon ecimen os que aí se de am? Que acesso emos? A pa i do olha do sujei o que os
expe iencia, se ão esses luga es, luga es-ou os? Ao analisa es as ques ões nas ob as escolhidas
e, enquad ando a espec i a análise numa e lexão es é ica, p e endo ainda obse a o que es as
ob as susci am em nós, que expe iência emos com as imagens quando es as nos mos am o
in isí el e o i ep esen á el. Como e emos, são imagens que susci am em nós a e lexão, que
o nam isí eis os an asmas de acon ecimen os ágicos, e nos ques ionam ace a es es na elação
memó ia / luga .
A p imei a pa e da minha disse ação incidi á sob e os seguin es concei os, que
conside o ele an es pa a o p esen e abalho, den o do enquad amen o da es é ica e dos es udos
a ís icos: concei o de luga (dis inção en e espaço e luga e de inição de luga ), concei os de
memó ia (e.g., memó ia indi idual, memó ia colec i a, memó ia cul u al, pós-memó ia) e
concei o de imagem / imagens con empo âneas (imagem e con empo âneo). Na segunda pa e,
a ei a análise das ob as escolhidas:
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• Hi oshima, mon amou , de Alain Resnais (F ança / Japão, 1959, 90’). Abo da ei sob e udo
a sequência de planos das uas de Hi oshima e das uas de Ne e s: o caminha numa ua
no empo p esen e, e em simul âneo, es a a caminha , a a és do pensamen o e da
memó ia, nou as uas do passado.
• The J. S ee P ojec , de Susan Hille ( o og a ia e ídeo / 2002 - 2005). Imagens de placas
de ua alemãs con endo a pala a “Juden” (judeus); são uas que se ligam à p esença de
ou o a dos judeus na Alemanha. No abalho de Susan Hille , es as uas uncionam como
memo iais.
• Fou Pa s o a Folding Sc een, de An hea Kennedy e Ian Wiblin (Reino Unido, 2018,
83´). Um ilme-ensaio pe co endo as uas de Be lim no p esen e, em busca dos objec os
do passado em mo adas e edi ícios que já não exis em.
A escolha des as ob as p ende-se com o papel ele an e que êm na abo dagem das ques ões
ligadas à memó ia, sob e udo a memó ia cul u al e a pós-memó ia. São ob as que nos le am a
in e oga o acesso à memó ia a pa i dos luga es onde se de am os acon ecimen os aumá icos,
le ando-nos ambém a in e oga os luga es a pa i da elação do sujei o com es es.
O cinema de Resnais, como sabemos, ompe com os modelos na a i os clássicos,
inse indo-se na co en e nou elle ague que ep esen ou uma i agem no cinema ancês a pa i
dos inais dos anos 50 e du an e a década de 60, com cineas as como Jean-Luc Goda d, F ançois
T u au , Claude Chab ol, E ic Rohme , en e ou os.
Resnais ecebe ainda as in luências do nou eau oman, com a colabo ação de Ma gue i e
Du as no a gumen o de Hi oshima, mon amou e de Alain Robbe-G ille no a gumen o de L’année
de niè e à Ma ienbad (1961). O luxo da consciência, a in ospecção e psicologia das pe sonagens,
a na a i a abe a, a não-linea idade passam a se abalhadas pelo cineas a que nos deixa á uma
ex ensa ilmog a ia, conside ada das mais ma can es do cinema eu opeu de au o . Qualque pon o
de Hi oshima... jus i ica ia a escolha pa a abo da o ema do luga , da memó ia e das imagens,
sendo que, no âmbi o do meu abalho, despe ou-me a a enção a sequência de planos que jun a as
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uas de Ne e s às uas noc u nas de Hi oshima. O que signi ica es e caminha ísico, co pó eo, da
pe sonagem num luga - as uas de Hi oshima -, ao qual se êm jun a as uas de Ne e s? Ne e s
ep esen a um passado aumá ico na ida da apa iga, Hi oshima é o luga que a anspo a
in olun a iamen e pa a a memó ia desse passado, o luga de ence amen o de um lu o, luga de
cu a de um auma pessoal. Que elação es abelecemos en ão com a Hi oshima enquan o cidade-
memo ial de uma agédia que dizimou quase oda a sua população? De que memó ia nos ala
Resnais?
A minha pesquisa, incidindo na ligação do caminha na ua à e lexão sob e o luga e a
memó ia nas imagens con empo âneas, conduziu-me às o og a ias de Susan Hille . Tal ez a
p imei a pe gun a que açamos seja aquela mo i ada po uma espécie de abalo que sen imos com
es as imagens: como é que an as uas alemãs êm o nome “Judeu” num país onde os judeus o am
expulsos e depois ex e minados? Ques ão que assal ou a a is a ao su p eende -se com es as placas
de ua numa isi a a Be lim. Hille iajou depois po oda a Alemanha en e 2002 e 2005,
encon ando 303 placas de ua com o nome “Juden”, que o og a ou e ilmou. As o og a ias em
sé ie e o cunho concep ual da ob a não cons i ui am de o ma alguma um ecu so no o pa a a
a is a, com abalhos an e io es nes a linha, dos quais a sé ie de 305 pos ais de is as de ma odas
idên icas, da cos a b i ânica, em Dedica ed o he Unknown A is s (1972 – 76) é um bom exemplo.
A o mação e expe iência de an opóloga, que an ecedeu o pe cu so a ís ico de Hille , não deixou
nunca de e in luência no abalho da a is a, sob e udo na sua cu iosidade e in e esse pelos luga es
e pelas pessoas. A memó ia e os an asmas êm sido alguns dos emas explo ados po Hille . São
cen ais em The J. S ee P ojec , como e emos, le ando a um ques ionamen o sob e o nosso
acesso à memó ia de acon ecimen os his ó icos aumá icos. Mui os anos depois dos p imei os
ilmes de Resnais e ela em-nos essa mesma p eocupação e inquie ação, as ob as a ís icas
con empo âneas, no campo da o og a ia e do cinema, con inuam a p oblema iza as ques ões da
memó ia e da pós-memó ia. O olha cu ioso de Susan Hille na sua iagem pela Alemanha de e e-
se nas placas de ua com o nome “Juden”; as o og a ias que nos mos a em sé ie des as placas
conduzem-nos à memó ia do ex e mínio dos judeus, mas se nunca as íssemos, con inua íamos
p o a elmen e indi e en es aos nomes dessas uas. Resnais colocou as uas de Hi oshima e as uas
de Ne e s numa elação de memó ia in olun á ia, demons ando a impossibilidade de acede ao
in e no de Hi oshima, pa a quem não o i eu. Hille coloca-nos dian e das placas de ua, cujo
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Vol ando aos painéis de Bilde a las Mnemosyne de Aby Wa bu g ( igu as 1 e 2), podemos
obse a que é no in e alo que se es abelecem as elações en e as imagens jus apos as – a
chamada iconologia do in e alo. É aquilo que es á en e as imagens, o neg o nos painéis. Há
coisas que es ão numa zona in e média, nesse in e alo. Na ua, se ia uma acha no pa imen o
abandonado, ou o in e alo deixado pela demolição de um p édio, ou na izinhança de uma
cons ução an iga, um edi ício mode no, ou um hospi al desac i ado e uma no ícia no jo nal sob e
um no o ho el a cons ui , ou ainda esse hospi al desac i ado com a placa u gências isí el, e um
sem-ab igo a do mi po baixo.
5
O concei o de izoma de Deleuze e Gua a i (1980) pode ia mais
uma ez se aqui con ocado: “um izoma não começa nem e mina, es á semp e no meio, en e as
coisas” (p. 36). É no en e, no in e alo que as elações en e as coisas se dão, que no as manei as
de pensa su gem, que a mon agem se ope a pa a se chega a no os sen idos e ideias.
O izoma “ em como ecido a conjunção «e... e ....e... »”, esc e em Deleuze e Gua a i
(1980, p. 36). Es a conjunção «e... e... e...» pode suge i a enume ação, a in en a iação, a sé ie.
Caminhando pela ua, enume amos, in en a iamos, se iamos o que emos: janelas, po as,
candeei os de iluminação pública, bocas de incêndio, e c. Ao caminha pelas A enidas No as, em
Lisboa, ejo que se epe em as en adas de id o dos p édios com as suas sec e á ias de madei a e
asos com plan as. Vejo a epe ição, ejo uma ipologia, ejo ambém as di e enças.
Passemos da ua pa a as a es isuais con empo âneas. Ligando-se à obse ação da
paisagem u bana e / ou das uas, e ecuando à década de 1960, emos po exemplo os abalhos
dos a is as Edwa d Ruscha e Be nd & Hilla Beche . Edwa d Ruscha, com a seu bookle de
o og a ias in i ulado “E e y building on a Sunse T ip” (1966) ( igu a 3), ap esen a-nos uma
p opos a se ial e de in en a iação de casas de cada lado da ua (lado esque do e di ei o). O a is a
mon ou a sua câma a na asei a de uma ia u a pick-up e o og a ou cada edi ício nesse ajec o
que ez pela Sunse Boule a d. As o og a ias o am imp essas po o dem e iden i icadas com o
núme o do espec i o p édio.
As ipologias em sé ie de Be nd & Hilla Beche ( igu a 4) ap esen am um ca ác e
in en á io mui o o e, p ocu ando elações na semelhança e na dissemelhança. Nas suas sé ies
5
Pe cu sos que e ec uei a pé pelas A enidas No as, em Lisboa, em 2017 e 2018.
17
p oduzidas a pa i de inais dos anos 1950, es ão edi ícios indus iais, depósi os de água, áb icas,
p édios, casas. Esc e e S e an G one (2009), em The Düsseldo School o Pho og aphy: “Es a
o ma de ap esen ação chamada de ipologias, com a sua quase es ic a disciplina cien í ica,
enco aja o obse ado a e as coisas, di e enciando-as e compa ando-as” (p. 19). O au o e e e
que “a ên ase nas o og a ias em sé ie se encaixa na lógica de uma ap oximação a qui is a aos
objec os” (Ibid, p. 19).
E e emos que as imagens das placas de ua em The J. S ee P ojec , de Susan Hille se
ap esen am em sé ie e que os ealizado es An hea Kennedy e Ian Wiblin, eco em à in en a iação
e à enume ação, em Fou Pa s o a Folding Sc een.
Figu a 3 – Edwa d Ruscha, E e y building on a Sunse T ip, 1966
Figu a 4 – Be nd & Hilla Beche , Indus ial Facades, Bélgica, F ança, Alemanha, 1967 - 92
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Luga , memó ia e imagens con empo âneas
Pa indo da expe iência es é ica do caminha pa a as imagens con empo âneas e
conside ando as ob as escolhidas pa a análise nes e abalho (Hi oshima, mon amou , The J. S ee
P ojec e Fou Pa s o a Folding Sc een), pa eceu-me ele an e e em con a os seguin es
concei os: luga , memó ia, imagem / imagens. Com e e ência ao es ado da a e e e isão da
li e a u a, p e endo abo da es es concei os numa e lexão ans e sal aos ês.
Os luga es ap esen am-se-nos ca egados de memó ia
Pensa o concei o de luga implica desde logo elemb a a dis inção en e espaço e luga .
Um dos au o es de e e ência que p oblema izou es a dis inção oi Yi-Fu Tuan, que no seu li o
Space and Place, publicado em 1977, e e iu que o “espaço é mais abs ac o do que o luga ” (2008,
p. 6). Ao luga es ão associadas as ideias de clausu a, anco agem, en aizamen o, limi e, pa icula .
Ao espaço associam-se as ideias de mobilidade, ex ensões in ini as, uni e sal. Como obse ou
Tuan (2008), se pensa mos que é o espaço que pe mi e mo imen o, en ão o luga é pausa; cada
pausa no mo imen o o na possí el o luga . Sublinha ainda o au o que “o que começa po se um
espaço indi e enciado o na-se luga à medida que o amos conhecendo melho e lhe con e indo
alo ” (2008, p. 6).
Lucy Lippa d, no seu li o The Lu e o he Local, publicado em 1997, dá-nos a seguin e
de inição de luga :
... uma po ção de e a / cidade / paisagem u bana is a de den o, a essonância
de uma localização especí ica que é conhecida e amilia . Mui as ezes, o luga aplica-se
ao nosso p óp io “local” – en elaçado com a memó ia pessoal, com his ó ias conhecidas
ou desconhecidas, com ma cas ei as na e a que p o ocam e e ocam. O luga é la i udinal
e longi udinal den o do mapa da ida de uma pessoa. É empo al, e espacial, pessoal e
polí ico. Uma localização em camadas eple a de his ó ias humanas e memó ias, o luga
19
em la gu a bem como p o undidade. É sob e conexões, o que o ci cunda, o que o o ma,
o que ali acon eceu, o que ali acon ece á. (1997, p. 7)
O luga é, pois, uma o ma de en ende e pe cebe o mundo, exis indo conexões en e coisas
e pessoas. Os luga es ap esen am-se-nos ca egados de memó ia, implicam uma e e be ação que
os o nam únicos. A ligação emo i a e a ec i a ao luga ins iga o imaginá io, ac i a a memó ia, as
sensações, as his ó ias, as a i udes. Pa a Lippa d, o luga e ia a mesma de inição que o géog a o
b i ânico Denis Cosg o e dá à paisagem: “o mundo ex e no mediado a a és da expe iência
subjec i a humana” (Lippa d, 1997, p. 7). Também Edwa d S. Casey (2009), abo dando a emá ica
do luga , de ende que “os luga es, al como os co pos e as paisagens, são algo que expe ienciamos”
(p. 30). O que nos le a de no o a Tuan (2008): ”um objec o ou luga alcança uma ealidade
conc e a quando a nossa expe iência dele é o al, ou seja, a a és de odos os sen idos e com a
men e ac i a e e lec i a” (p. 18). Po an o, e i icamos, segundo es es au o es, que os luga es são
expe ienciados po nós, que exis e uma elação en e o sujei o e o luga , que os luga es são
ap eendidos e i enciados po nós a a és da nossa expe iència subjec i a deles.
Associamos aos luga es memó ias. Quando eg essamos a eles, “lemb amo-nos de coisas
que ali izemos”, eco damo-nos das pessoas com quem ali es i emos (Ya es, 1972), lemb amo-
nos do que ali acon eceu. Temos, pois, imagens. E o que icou conhecido como “a e da memó ia”
abalhou desde cedo a ligação da memó ia aos luga es, pa a memo iza mos in encionalmen e
qualque coisa, como ex os ou poemas. Obse a F ances Ya es (1972) que “o que es á consignado
à memó ia es á imp esso nos luga es, como na ce a ou numa página, e a lemb ança das coisas é
ealizada po imagens, como se elas ossem le as” (p. 51).
Já San o Agos inho, no Li o X de As Con isssões, e lec ia sob e a lemb ança das coisas,
em especial das coisas is as - os mon es, as ondas, os ios, os as os, os oceanos... -, cons a ando
que “não são essas coisas que es ão den o de mim, mas sim as suas imagens” (Agos inho, 2000,
p. 459). A lemb ança das coisas é ealizada po imagens no in e io da memó ia. Diz en ão
Agos inho que o que en a na memó ia são as imagens das coisas, “pe cebidas pelos sen idos, que
ali es ão à disposição do pensamen o que as eco da” (Agos inho, 2000, p. 455). Agos inho ê no
seu p óp io in e io o luga ca egado de memó ia; o in e io do sujei o como sendo o luga da
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memó ia e das imagens, luga esse que Agos inho denomina de “imenso palácio da memó ia” -
“as planícies e os as os palácios da memó ia” pa a onde se di ige (Agos inho, 2000, p. 453). É a
memó ia indi idual, aquela que se ope a den o de nós, aquela que diz espei o às nossas
imp essões e expe iências. Ou como desc e e San o Agos inho:
Realizo es as acções no meu in e io , no imenso palácio da minha memó ia. Aí
es á à minha disposição o céu, e a e a, e o ma , com odas as coisas que neles pude
pe cebe pelos sen idos, excep o aquelas de que esqueci. Aí me encon o ambém comigo
mesmo e eco do-me de mim, do que iz, quando e onde o iz, e de que modo ui
imp essionado quando o azia. Aí es ão odas as coisas de que eu me eco do, que aquelas
que expe imen ei que aquelas em que ac edi ei. (2000, p. 457)
San o Agos inho econhece a g andeza e a o ça da memó ia: “G ande é essa o ça da
memó ia, imensamen e g ande, ó meu Deus, san uá io amplo e sem limi es” (Agos inho, 2000, p.
457). A memó ia como luga (“palácio”, “san uá io”, “planície”) que em luga den o do sujei o;
o p óp io sujei o como sendo o luga da memó ia.
Desde mui o cedo na his ó ia da humanidade, a memó ia oi pe cebida como uma aculdade
in e na que possuímos na u almen e e que nos pe mi e a ap endizagem e aquisição de
conhecimen o. Sem es a memó ia na u al, di icilmen e consegui íamos sob e i e , é ela que nos
pe mi e adqui i o ensinamen o da expe iência, é ela um dos mo o es-cha e da nossa
sob e i ência. A memó ia, com o objec i o de a mazena conhecimen o, apidamen e passou a
se “exe ci ada” e p a icada com ecu so a “auxilia es” que o am e oluindo ao longo dos séculos
com o ape eiçoamen o ecnológico. An es de chega mos à ecnologia da imp essão e g a ação e
mui o an es do apa ecimen o da o og a ia e do cinema e das p imei as calculado as e
compu ado es, já, as u amen e, ínhamos encon ado écnicas de memo iza , que ica am
conhecidas como “a e da memó ia”, ou “memó ia a i icial” e que consis iam em écnicas de
isualização a pa i de luga es. A a e da memó ia e ela-se en ão uma a e essencialmen e isual
21
(Gibbons, 2007), a lemb ança das coisas ei a po imagens associadas a luga es, como desc e e
F ances A. Ya es no seu li o The A o Memo y.
Têm sido mui os os au o es que se in e essa am pela memó ia consoan e as pe spec i as
de abo dagem. Po exemplo, F eud iu a elação da memó ia com o inconscien e. E Be gson
dis igue dois ipos de memó ia: a p imei a dizendo espei o a um mecanismo de epe ição pos o
em acção pelo cé eb o com p opósi os p á icos (“mémoi e-habi ude” ou memó ia olun á ia); e a
segunda, a que chamou de memó ia pu a, sendo mais um p ocesso men al e não simplesmen e um
mecanismo do cé eb o, não implica um hábi o nem um e lexo – é a memó ia in olun á ia, em que
o passado é azido pa a o p esen e, coexis e com o p esen e, assis indo-se à expe iência da
du ação. É o que acon ece no amoso episódio da madeleine de Em Busca do Tempo Pe dido de
Ma cel P ous , como sublinha Byung-Chul Han (2016):
A expe iência undamen al de Ma cel P ous é a expe iência da du ação,
desencadeada pelo sabo da madeleine molhada na in usão de ília. É o acon ecimen o de
uma eco dação. Uma “pequena go a” de ília dila a-se a é se ans o ma num “imenso
edi ício da eco dação”. (p. 90)
Na ob a de P ous emos a expe iência eliz da du ação deco en e de uma usão de passado
e p esen e (Han, 2016). O p esen e que é “como ido, i alizado e, mais ainda, ecundado pelo
passado” (Han, 2016, p. 91).
Num es udo mais ecen e, Jan Assmann (2008) dis ingue á ios ipos de memó ia
consoan e o ní el: in e no (neu o-men al), social, cul u al. Diz Assmann que “a ní el in e no, a
memó ia é uma ques ão do nosso sis ema neu o-men al.” É a memó ia indi idual, a “nossa
memó ia pessoal”, que oi “a única o ma de memó ia a se econhecida, a é aos anos 1920”
(Assmann, 2008, p. 109). No ní el social, emos a memó ia social que Assmann (2008) apon a
como sendo “uma ques ão de comunicação e in e acção social” (p. 109). Con ocando a eo ia de
Mau ice Halbwachs, que desen ol eu o concei o de memó ia colec i a
6
, o au o e e e que a nossa
6
Mau ice Halbwachs de ende que mui as ezes os indi íduos eco dam as suas memó ias apoiando-se nas eco dações
de ou os indi íduos: “Ce es, si no e imp ession peu s’appuye , non seulemen su no e sou eni , mais aussi su
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memó ia depende da socialização e comunicação, podendo se conside ada como “uma unção da
nossa ida social” (Assmann, 2008, p. 109). Obse a ainda Assmann (2008) que “a memó ia
pe mi e-nos i e em g upos e comunidades, e i e em g upos e comunidades pe mi e-nos
cons ui uma memó ia” (p.109).
Po úl imo, Assmann az co esponde ao ní el cul u al, a memó ia cul u al. É “uma o ma
de memó ia colec i a, no sen ido em que é pa ilhada po um núme o de pessoas, ansmi indo a
essas pessoas uma iden idade colec i a, ou seja, cul u al” (Assmann, 2008, p. 110). O concei o de
memó ia cul u al é ecen e, diz-nos Assmann, mas eco da que o e mo “memó ia social” do
his o iado de a e Aby Wa bu g já dizia espei o ao ní el cul u al (Ibid, p. 110). Pa a Wa bu g, o
conhecimen o e a ansmissão cul u ais azem-se segundo “uma concepção da his ó ia em que es a
é go e nada pela lei da memó ia, acumulada e in ensi icada em o mações exp essi as que êm
uma ida inex inguí el, uma Nachleben” (Gue ei o, 2018, p. 66). Wa bu g insc e eu a pala a
Mnemosyne na en ada da sua Biblio eca. A mesma pala a g ega dá nome ao seu
A las:“Bilde a las Mnemosyne”. Como já aqui imos, a Biblio eca e o A las consis iam
essencialmen e num abalho de mon agem. É pela mon agem, “agenciando elemen os e empos
he e ogéneos” que a memó ia ope a na “concepção wa bu guiana da his ó ia da cul u a”, obse a
Gue ei o (2018, p. 67). No abalho de Wa bu g, es amos pe an e “ edes, ligações, associações,
não-linea idade” (Gue ei o, 2018, p. 69) - a memó ia ope ando pela mon agem.
Tal ez nunca an es i essemos olhado an o pa a a ques ão da memó ia como nos dias de
hoje, ou mais p ecisamen e a pa i dos anos 80 e 90 do século XX. T a a-se sob e udo de uma
memó ia cons uída a pa i da a e e da cul u a – a memó ia cul u al. And eas Huyssen (2003) ê
es a eme gência da memó ia como “um dos enómenos cul u ais e polí icos mais su p eenden es
dos úl imos anos”, uma “p eocupação-cha e cul u al e polí ica nas sociedades do Ociden e”, um
“ i a em di ecção ao passado” a con as a com o p i ilegia do u u o ca ac e ís ico das p imei as
décadas da mode nidade do século XX (p. 11). Segundo no a o au o , “os discu sos da memó ia
acele a am na Eu opa e nos EUA em inícios de 1980” (Huyssen, 2003, p. 12). São exemplo disso,
ceux d’au es, no e con iance en l’exac idude de no e appel se a plus g ande, comme si une même expé ience é ai
ecommencée non seulemen pa la même pe sonne, mais pa plusieu s” (Halbwachs, 1950, pp. 5 - 6).
23
os deba es sob e o Holocaus o e “ oda uma sé ie de ani e sá ios elacionados com a his ó ia do
Te cei o Reich, com ampla e pesada cobe u a polí ica” (Ibid, p. 12).
Já Ma i a S u ken, no seu a igo “Absen Images o Memo y: Remembe ing and
Reenac ing he Japanese In e nmen ”, e e e os anos 1994 e 1995, em que “as memó ias o am
con ocadas, econ adas e d ama icamen e e-encenadas” (S u ken, 1997, pp. 687 - 688). A mesma
au o a, no seu a igo “The Image as Memo ial: Pe sonal Pho og aphs in Cul u al Memo y” obse a
que “a cul u a pós-mode na es á p eocupada com a ques ão da memó ia” (S u ken, 1999, p. 180).
É oda uma segunda ge ação a elaciona -se com as expe iências da ge ação an e io , di á ainda
ou a au o a, Ma ianne Hi sch (2008), ao desen ol e o concei o de pós-memó ia:
Pós-memó ia desc e e a elação da segunda ge ação com expe iências pode osas,
mui as ezes aumá icas, que p ecede am o seu nascimen o mas que lhes o am
ansmi idas ão p o undamen e que pa ecem cons i ui as suas p óp ias memó ias. (Hi sch,
2008, p.103)
Hi sch (2008) e e e que a pós-memó ia “não é um mo imen o, mé odo, ou ideia”. É, sim,
“uma es u u a de ansmissão in e - e in a-ge acional de conhecimen o e expe iência
aumá icos” (p. 106). Hi sch (2008) diz-nos ainda que “a memó ia do passado é um ac o
i memen e localizado no p esen e” (p. 119). Também Huyssen (2003) se e e e a “um p esen e
epe idamen e assomb ado pelo passado” (p. 8), a memó ia hoje pensada “como pe encendo cada
ez mais ao p esen e” (Huyssen, 2003, p. 3). A ideia de um on em a e e be a no hoje é ambém
sublinhada po Daniel Bi nbaum (2012): “qualque coisa de g ande magni ude – uma up u a, uma
ca ás o e, um momen o insus en á el de e dade – acon eceu, e que pa ece se a nossa a e a,
comp eende e acei a essa coisa aumá ica” (p. 137). T a a-se, pois, de “um passado que es á
i o”, c iando “ u bulência no p esen e” (Bi nbaum, 2012, p. 138).
É no p esen e que o nosso olha pe sc u a os luga es: luga es de acon ecimen os
aumá icos de um passado que eg essa à memó ia no p esen e. Apon amos um luga po que
sabemos que oi ali; a memó ia e os es emunhos das ge ações an e io es ge a am imagens e
conhecimen o nas ge ações seguin es, ajudando-nos, enquan o segunda e e cei as ge ações, a
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mapea esses luga es, mesmo que em alguns já não encon emos es ígios in loco do que
acon eceu, e olhemos com su p esa um campo lo ido onde sabemos que cen enas de pessoas
o am assassinadas ou, nas uas da cidade, cons a emos que edi ícios mencionados em documen os
nos a qui os já não exis am. Dependendo do nosso ac o de olha , ha e á semp e algo no luga a
inquie a -nos: sejam as achas no chão que Didi-Hube man (2011) o og a a no que es ou de
Bi kenau
7
, seja uma cla ei a num bosque de onde o am apagados odos os aços de um campo
de ex e mínio, como emos na o og a ia de Di k Reina z, in i ulada Sobibo , que Ul ich Bae
(2002) analisa em Spec al E idence. The Pho og aphy o T auma.
Imagens que nos inquie am
Sim, é es e o luga , apon a um dos sob e i en es do Holocaus o no documen á io de no e
ho as e meia de Claude Lanzmann, Shoah (1985). Di íamos que são paisagens quase bucólicas, de
campo, á o es, a bus os, e a, e a, como se ali nada se i esse passado, como se ali nada
hou esse a eco da , dando-nos uma es anha e descon o á el sensação de paz e anquilidade:
sabemos que oi ali, naquele luga , segundo os es emunhos de quem sob e i eu.
Ao es uda o auma na o og a ia, Ul ich Bae (2002) in e essou-se pelas imagens de dois
o óg a os con empo âneos, Di k Reina z e Mikael Le in, que nos mos am os locais de an igos
campos de concen ação, espaços o og a ados com ecu so à es é ica da paisagem omân ica, pa a
nos posiciona no acesso aos acon ecimen os aumá icos do passado - a nossa posição de
obse ado es enquan o es emunhas a dias, es esmunhas secundá ias de um acon ecimen o cujo
auma du an e décadas silenciou mui os dos sob e i en es e es emunhas.
Na o og a ia de Reina z, in i ulada Sobibo (1995), emos a cla ei a de um bosque ( igu a
5). O espaço abe o encon a-se delimi ado po á o es na linha do ho izon e e nas ex emidades
la e ais. É uma o og a ia que nos o e ece uma só pe spec i a. Ha endo pouco céu den o do
enquad amen o há uma sensação de peso. Di k Reina z az-nos me gulha na p o unda imp essão
7
No seu li o Éco ces (2011), Geo ges Didi-Hube man mos a-nos uma o og a ia das achas no chão de uma uína
de Bi kenau. Desc e e o au o :”...es es chãos pa idos, e idos, c i ados, achados” (p. 27). Chãos que não men em,
diz-nos e ao dizê-lo, ambém menciona o seu p óp io ac o de olha num luga como o de Bi kenau: um olha de olhos
no chão, a cabeça mais pa a baixo do que o habi ual, o aba imen o e a desolação pe an e a his ó ia (Didi-Hube man,
2011).
25
de que “algu es no empo, es a abe u a no bosque oi ei a com um de e minado p opósi o” (Bae ,
2002, p. 62). A pe spec i a conseguida nes a imagem le a-nos a en a nela, po es a abe u a da
cla ei a, mas as á o es nos dois limi es do enquad amen o – esque do e di ei o – e na linha do
ho izon e su gem como “sen inelas” a eda -nos o caminho. Como obse a Bae , as á o es mais
pequenas anspo am-nos pa a den o da cla ei a, ao mesmo empo que a olhamos como se
es i essemos o a dela. É a sensação de que não pe encemos ali, de “es a mos excluídos, ou de
que chegámos a de demais e al ez em ão” (Ibid, p. 63). É uma pe spec i a “es i amen e
o ganizada”, que “di ige a nossa a enção não pa a a beleza na u al do sí io” mas pa a “a nossa
posição” em elação a es e úl imo (Ibid, p.73). Sen imos na imagem o silêncio, mas um silêncio
com “au a” a da -nos “o espí i o do luga ”: emos a sensação de que o chão des e luga es á
“assomb ado” (Ibid, p. 63).
Figu a 5 – Di k Reina z, Sobibó , 1995
32
na ecusa de uma his ó ia p og essis a), mas é da o dem do imaginal. Que is o dize que a imagem
az o passado pa a o p esen e, az coincidi o passado com o momen o p esen e. Nes a p ocu a,
po Benjamin, de uma no a empo alidade his ó ica que não a me amen e c onológica, o passado
nunca es á comple o nem edimido. Redimi o passado signi ica, pa a Benjamin, azê-lo pa a o
p esen e, e i á-lo do esquema causal de uma his ó ia p og essis a, libe á-lo, eposicioná-lo de
o ma a aze pa e de uma mesma cons elação de um de e minado p esen e. É o que Benjamin
chama de ac o de ememo a : aze o passado pa a o p esen e de modo a que ele ac ue no p esen e
mesmo enquan o passado. Há en ão uma elação imaginal en e momen os do passado e momen os
do p esen e, que se a as a de um aciocínio de causas e e ei os ou de um c i é io de empo alidade
c onológica. No caso wa bu guiano, em que ambém é ompida a ideia igen e de uma his ó ia
p og essis a, as imagens adqui em uma ida pós uma (Nachleben), ão ganha no os signi icados,
no as idas, em épocas pos e io es. Wa bu g cen ou a sua pesquisa nas imagens enascen is as
onde obse a a ges ualidade inda das imagens da An iguidade, encon ando ó mulas de pa hos
(Pa hos o meln). Sob e es es dois concei os wa bu guianos – Nachleben e Pa hos o meln - ,
Gue ei o (2018), no in e esse que em demons ado pelo abalho e mé odo de Aby Wa bu g,
obse a:
“... o que Wa bu g en ende po Nachleben e eme e pa a uma sob ede e minação
empo al da his ó ia que não é a da con inuidade do empo c onológico não são nunca
con eúdos mas alo es exp essi os que ganham o ma naquilo a que chamou
Pa hos o meln, onde se dá a e uma “mímica in ensi icada”, uma ges ualidade exp essi a
do co po, com o igem nas paixões e nas a ecções so idas pela humanidade. Cada época
selecciona e elabo a de e minadas Pa hos o meln à medida das suas necessidades
exp essi as, egene ando-as a pa i da sua ene gia inicial. Em con ac o com a “ on ade
selec i a” de uma época, elas in ensi icam-se, eac i am-se, ca egam-se de um signi icado
que en a em con li o com um pólo opos o, is o é, “pola izam-se”.” (p. 26)
Olhemos, po exemplo, pa a a Melancolia I de Dü e ( igu a 7) como olha ia Wa bu g.
Nela podemos e a exp essão de o ças obscu as, mas ambém a “eme gência da e lexão e do
pensamen o” (Gue ei o, 2018, p. 26). Exis e uma pola idade que pa a Wa bu g se o na
33
in e p e a i a de odos os enómenos cul u ais (Gue ei o, 2018), en ando udo numa “ elação
bipola ”: “cul u a an iga e mode na, c is ã e pagã, pensamen o mágico e pensamen o lógico, e c”
(Gue ei o, 2018, p. 26).
Figu a 7 – Alb ech Dü e , Melancolia I , 1514. G a u a.
A isão da imagem é semp e um p ocesso. Aby Wa bu g e mais a de Didi-Hube man
mos am-nos que nas imagens as coisas se en elaçam, as ideias es ão con idas umas nas ou as e
ão-se modi icando. A imagem em esse lado ins á el, dinâmico; não é es á ica. O abalho sob e
as imagens emp eendido po Wa bu g e pelos au o es que hoje o e e enciam, como Didi-
Hube man, dá-nos a e que as imagens são do adas de uma complexidade que nos inci a a que
nelas nos demo emos com imaginação, abe u a e pensamen o c í ico. Imagens que, como
an e io men e e e i, “pe manece ão inquie an es, in igan es e insis en es” (Saiman, 2012, p. 154),
que p oduzem em nós “uma agi ação in e io , uma es a, ambém um abalho, a p essão do
indizí el que que se di o” (Ba hes, 1989, p. 36).
34
Fala das imagens con empo âneas, olhá-las, sen i-las, pensá-las, le a-nos de ce o modo a
e lec i sob e o con empo âneo. No ex o “O que é o con empo âneo?”, Gio gio Agamben (2009)
p ocu ou esponde a es a ques ão:
A con empo aneidade é, pois, uma elação singula com o p óp io empo da
pessoa, que a ele ade e, e ao mesmo empo, man ém uma dis ância dele. Mais p ecisamen e,
é aquela elação com o empo ade indo a es e a a és de uma disjunção e de um
anac onismo. (p. 41)
Po an o, não são con empo âneos aqueles que “coincidem” pe ei amen e com a época,
aqueles que se encon am o almen e “ama ados” a ela “ po que não conseguem ê-la”, “não são
capazes de sus e i memen e o olha nela” (Agamben, 2009, p. 41). Pa a Agamben, é
con empo âneo, aquele que olha o seu empo e nele pe cebe não an o a luz, mas mais a escu idão,
aquele que “sabe como e es a obscu idade” (Ibid, p. 44). Sublinha Agamben que “pe cebe es a
escu idão não é uma o ma de iné cia ou de passi idade”, há “ac i idade” e “habilidade” po pa e
da pessoa pa a neu aliza “as luzes que êm da época no sen ido de descob i a obscu idade des a,
a sua escu idão especial que não é, no en an o, sepa á el dessas luzes” (Ibid, p. 45). Dizem se
con empo âneos “apenas aqueles que não se deixam cega pelas luzes do século” (Ibid, p. 45).
No a ainda Agamben que se con empo âneo é uma “ques ão de co agem”, pois “signi ica se
capaz de não só ixa i memen e o olha na escu idão da época, mas ambém pe cebe nes a
escu idão uma luz que, enquan o di igida a nós, se dis ancia ela p óp ia in ini amen e de nós” (Ibid,
p. 46).
Re e e ainda que o con empo âneo “é ambém aquele que, di idindo e in e polando o
empo, é capaz de o ans o ma e pô-lo em elação com ou os empos” (Ibid, p. 53). É aquele
que “põe a abalha uma elação especial en e os di e en es empos” (Ibid, p. 52).
Já Foucaul [1984], na década de 80, conside a a que a época ac ual se ia sob e udo a época
do espaço, a época que c ia elações de simul aneidade e jus aposição en e os di e en es espaços,
es es ligados em ede (Foucaul , 2005, p. 243). O au o apon a a pa a o mundo de hoje cuja
i ência se az em ede em que os pon os se ligam e as meadas se en ec uzam. Vemos en ão que
35
a simul aneidade, a jus aposição, a mon agem se ap esen am essencialmen e como elemen os
ope a i os do con empo âneo, o seu modus ope andi.
As a es isuais con empo âneas eco em a es es elemen os, abalham-nos c ia i amen e,
c iando nas ob as elações de jus aposição e simul aneidade en e di e en es espaços e/ou pondo
em elação os di e en es empos, azendo ligações nas b echas e nos in e alos, ocupando-se da
escu idão e iluminando-a, o nando isí el o in ísi el.
36
2ª PARTE
O ilme Hi oshima. mon amou , de Alain Resnais (F ança / Japão, 1959, 90’), o abalho
de o og a ia e ídeo The J. S ee P ojec , de Susan Hille (2002-2005) e o ilme Fou Pa s o a
Folding Sc een, de An hea Kennedy e Ian Wiblin (Reino Unido, 2018) são as ob as que escolhi
analisa . São ob as que abo dam acon ecimen os aumá icos. Le am-nos a con ac a com o ágico
e com o dolo oso, e com os limi es do inimaginá el e do i ep esen á el. Ques ionam a
possibilidade de um acesso o al à comp eensão e dimensão desses acon ecimen os. Esse
ques ionamen o ei o a a és das imagens e da mon agem, pondo em elação os di e en es empos,
coloca-nos no domínio do con empo âneo.
Como e e i na in odução, a escolha des as ob as pa a análise e es udo compa a i o, de e-
se sob e udo ao papel ele an e que êm na abo dagem das ques ões ligadas à memó ia e ao luga .
São ob as que in e ogam o acesso à memó ia a pa i dos luga es onde se de am os acon ecimen os
do passado, in e ogando ambém os luga es a pa i da elação do sujei o com es es, c iado a de
luga es-ou os.
A minha análise e es udo compa a i o des as ob as obse a á ainda a ques ão da
(i)ma e ialidade, com o in ui o de pe cebe como pode o luga , enquan o ma e ial, liga -se à
memó ia, enquan o ima e ial; como podemos da ma e ialidade do caminha chega à
ima e ialidade das imagens con empo âneas.
Den o da e lexão es é ica, p e endo ambém obse a o que es as ês ob as p o ocam em
nós, que expe iência emos com as imagens quando es as nos mos am o in isí el o nando isí eis
os an asmas de acon ecimen os ágicos. São imagens que susci am em nós a e lexão.
37
Hi oshima, mon amou , de Alain Resnais (F ança / Japão, 1959. 90’)
Hi oshima-Ne e s
A ilmog a ia do ealizado ancês Alain Resnais (nascido em 1922 e alecido em 2014) é
conside ada uma das mais ma can es do cinema de au o eu opeu. As suas p imei as longas-
me agens (Hi oshima, mon amou , de 1959, L’Année De niè e à Ma ienbad, de 1961, Mu iel ou
le emps d’un e ou , de 1963) ma ca am desde logo o cinema con empo âneo no con ex o da
nou elle ague ancesa que, em inais dos anos 50, e du an e a década de 60, e e a sua máxima
exp essão. Na mesma época, o mo imen o li e á io conhecido como nou eau oman, que di e gia
dos géne os li e á ios clássicos, ouxe a colabo ação dos esc i o es Alain Robbe-G ille e
Ma gue i e Du as pa a o cinema de Resnais. Du as assina o a gumen o de Hi oshima, mon amou ,
Robbe-G ille é o au o do a gumen o de L’Année De niè e à Ma ienbad. A in ospecção e a
psicologia das pe sonagens, o luxo da consciência, a não-linea idade na a i a e a na a i a abe a
são alguns dos aspec os ulc ais a sublinha em a en ada des es ilmes no cinema con empo âmeo.
A p eocupação de Alain Resnais com o empo e a memó ia ma ca g ande pa e da sua ob a
(Pa kison, 1995), especialmen e os ilmes Hi oshima, mon amou (1959), L’année de nié e à
Ma ienbad (1961), Mu iel (1963), La gue e es inie (1966). Esc e e Magali Blein (2007), no seu
es udo in i ulado Poé ique de la mémoi e dans Hi oshima, mon amou , que Hi oshima... “se
insc e e numa dialé ica da memó ia e do esquecimen o em que os dois enómenos não se opôem
mas são a ados em es ei a elação um com o ou o” (p. 7). A acção do ilme deco e em 1957,
em Hi oshima, onde uma ac iz ancesa oda um ilme sob e a paz. Encon a um a qui ec o
japonês que pe deu a amília na bomba a ómica. Os dois en ol em-se amo osamen e. Ela eco da
o amo de ju en ude em Ne e s du an e a gue a com um soldado alemão de 23 anos, que depois
mo e. “Ne e s jun a-se ao empo p esen e de Hi oshima”
13
. Aqui sublinho a sequência de planos
das uas de Hi oshima e das uas de Ne e s: o caminha numa ua no empo p esen e, e em
13
Suzanne Liand a -Guigues na emissão em podcas do p og ama Les Chemins de la Philosophie da F ance Cul u e,
sob e o ema “L’Oubli. Alain Resnais, commen ab ique l’oubli?”, de 21/02/2019, disponí el em
h ps://www. ancecul u e. /emissions/les-chemins-de-la-philosophie/loubli-44-le-cinema-dalain- esnais
38
simul âneo, es a a caminha , a a és do pensamen o e da memó ia, nou as uas do passado. Ou
Resnais mos ando que “Ne e s não es á no passado”
14
- o passado que se jun a ao p esen e, que
caminha com o p esen e.
Hi oshima não é somen e o luga onde uma ac iz ancesa oda um ilme sob e a paz e se
en ol e com um jo em a qui ec o que pe deu a amília na bomba a ómica. Hi oshima é sob e udo
o luga que se conec a a ou o luga na memó ia da ac iz, po meio de uma ligação amo osa casual.
É luga de esquecimen o, é luga de memó ia. É em Hi oshima que o lu o da mulhe que pe deu o
seu aman e na gue a em Ne e s du an e a ju en ude, se e ela incomple o (Blein, 2007). É em
Hi oshima que as e idas en am sa a , po ia da memó ia. Ao empo p esen e das uas noc u nas
de Hi oshima, po onde a pe sonagem caminha na sua úl ima noi e na cidade japonesa, jun am-se
as uas de Ne e s de um passado aumá ico a que e cu a -se. Se no início, o ilme de Resnais,
enquan o p ojec o, e a um documen á io sob e Hi oshima, com a colabo ação do ex o de Du as
o na-se uma ob a que, oscilando en e um «Tu n’as ien u à Hi oshima» e um «J’ai ou u à
Hi oshima» (Blein, 2007, p. 8), in e oga a possibilidade de se acede a um acon ecimen o da
His ó ia ão ágico como o da bomba a ómica, quando não o expe ienciámos. Mas Hi oshima é e
se á semp e o luga que nos anspo a pa a as e idas p o ocadas pela des uição e pe da, é o que
nos diz o ilme de Resnais, ao sal a das imagens documen ais (memó ia colec i a, memó ia
cul u al) pa a a na a i a da sua pe sonagem eminina, ao en a no pensamen o des a e na sua do
(memó ia indi idual, memó ia in olun á ia), ao jun a as uas de Ne e s às uas de Hi oshima,
sem nunca ompe o acco d nes e p ocesso. Obse a José Na a o de And ade (1994):
“... o a elling e an e pelas uas noc u nas de Hi oshima unde-se
al e na i amen e com o a elling pelas uas noc u nas de Ne e s. Apesa das súbi as
passagens de um espaço pa a o ou o sem e ei os in e mediá ios nunca se c ia uma sensação
de up u a; o acco d é p opo cionado pela con inuidade musical e pela semelhan e
elocidade de câma a em ambas as si uações.” (p. 132)
14
Ibid
39
Dois luga es – Hi oshima e Ne e s – , duas agédias: a des uição de Hi oshima e a
b u alidade em Ne e s, e e e John Wa d (1968). Dois aman es que se unem com as suas
memó ias, ao mesmo empo que es ão sepa ados um do ou o po elas (Wa d, 1968), ou “cada
co po pa a semp e localizado no so imen o do luga de onde êm” (Di Ma ia, 2013).
“Hi- o-shi-ma, c’es on nom.” diz ela no inal do ilme. “Ton nom c’es Ne e s, Ne e s-
en-F ance”, diz ele. Ou “Tu n’as ien u à Hi oshima” e “J’ai ou u à Hi oshima”. Esc e e Wa d
(1968):
A apa iga apenas conheceu Hi oshima como um e en o público. Ela iu a cidade
como uma “ u is a”, g a ando udo mas “nada comp eendendo”. Ela iu ilmes, leu os
depoimen os das es emunhas, emocionada com o ho o nas econs i uições no museu,
mas ela não es a a lá quando acon eceu. Ela não concebeu uma c iança de o mada, os seus
pais não o am incine ados pela explosão. Pa a o japonês que o expe ienciou pessoalmen e
(embo a não i esse es ado isicamen e p esen e, e a a cidade dele, a ida dele, os seus pais
e amigos que inham sido des uídos), ela é uma in usa na agédia dele. (...) E ele es á
igualmen e dis an e das expe iências dela de Ne e s. (pp. 18 -19)
Ambos êm necessidade de lemb a , ambos êm ambém necessidade de esquece , obse a
Wa d (Ibid, p.17). E ac escen a:
Ainda que as agédias pessoais pa eçam algo inacessí eis às ou as pessoas, êm
de se lemb adas pelas í imas, pois es as expe iências são uma pa e in eg al das suas
idas. Sem elas (Hi oshima e Ne e s), o homem e a apa iga não se iam o que são. (Ibid,
p. 19)
Sublinha Na a o de And ade (1994): “Rompe-se no empo p esen e uma b echa, onde
eme ge o passado” (p. 132). Em e mos be gsonianos, o passado coexis indo com o p esen e, o
passado in e calando o p esen e. Também a memó ia do passado como “um ac o i men en e
localizado no p esen e” (Hi sch, 2008).
40
No ilme de Resnais es amos den o da psicologia das pe sonagens, em especial na men e
da apa iga, na memó ia in olun á ia des a. Diz Ishaghpou , ci ado po Deleuze (2006), que
“Resnais concebe o cinema não como um ins umen o de ep esen ação da ealidade, mas como o
melho meio pa a ap oxima o uncionamen o psíquico” (p. 159). Ac escen a Deleuze (2006):
... Resnais disse semp e que o que lhe in e essa a e a o cé eb o, o cé eb o como
mundo, como memó ia, como «memó ia do mundo». É da manei a mais conc e a que
Resnais acede a um cinema, c ia um cinema que só em uma única pe sonagem, o
Pensamen o. (p. 160)
Hi oshima e Ne e s, ou Hi oshima-Ne e s são luga es de auma, de pe da, de do , de
memó ia em Hi oshima, mon amou . Mas pode íamos dize que o luga de que Resnais nos ala
no ilme é a men e: a men e com o empo odo den o dela, a men e que, pa a Daniel Bi nbaum
(2012) é um “apa a o de mul i-canais” em que “ á ios p og amas es ão ac i os e são is os ao
mesmo empo”. E emos en ão as uas de Hi oshima e as uas de Ne e s caminhando jun as, lado
a lado, in e caladas ou coexis indo uma com a ou a, quase a sob epo em-se, numa simul aneidade
que, de ce o modo, nos eme e pa a o empo p ous iano e pa a as pala as de Blancho (2018):
... nessa simul aneidade que ez com que se eunissem ealmen e o passo de Veneza
e o passo de Gue man es, o en ão do passado e o aqui do p esen e, como dois ago a
chamados a sob epo em-se, nessa conjugação dos dois p esen es que sup imem o empo...
(p. 25)
O empo, que é du ação pa a Be gson e pa a P ous , ambém o é pa a Resnais em
Hi oshima, mon amou . Obse a Wa d (1968) que a posição da mão do aman e japonês dei ado
na cama despe a na apa iga a memó ia não só da mo e do seu aman e alemão em Ne e s, mas
“de oda uma expe iência no con ex o da ida dela”. Relemb a o au o que “es a é a memó ia
in olun á ia como P ous a en endeu”, ou seja, a memó ia que Be gson dis ingue da memó ia
olun á ia e que diz espei o ao passado “lemb ado imagina i amen e e e-c iado”, em que “não
41
há hábi o ou e lexo en ol ido”, sendo “um p ocesso men al e não me amen e um mecanismo no
cé eb o” (Wa d, 1968, p. 10). Explica Wa d que “a a és da memó ia in olun á ia, o passado é
azido pa a o p esen e e a passagem do empo do elógio é suspensa numa consciência da du ação
do empo psicológico in e io ” (Ibid, p. 11). É uma memó ia que “se mo e de um de alhe pa a oda
uma expe iència num con ex o essencialmen e p i ado” (Ibid, p. 29); é, em P ous , “a expe iência
da du ação, desencadeada pelo sabo da madeleine molhado na in usão de ília” (Han, 2016, p.
90), expe iência que “deco e de uma usão de passado e p esen e” (Ibid, p. 91). É, no ilme de
Resnais, oda a expe iência de Ne e s na apa iga, a pa i de um po meno em Hi oshima.
Vimos que Hi oshima se o na en ão luga de memó ia in olun á ia, azendo pa a o
p esen e as uas de Ne e s onde a agédia da mo e se deu no amo de ju en ude daquela mulhe
que isi a a cidade japonesa. Mas odos sabemos que Hi oshima é o luga de des uição que é
p eciso não esquece , é isso que nos elemb am os documen os nos a qui os e museus. «Tu n’as
ien u à Hi oshima», diz o aman e japonês pa a a apa iga. Es a a i ma que iu udo: as
econs i uições no museu, os ilmes, as o og a ias. Podemos en ão pe gun a -nos: em que medida
conseguimos, enquan o isi an es cu iosos e conscienciosos des es luga es, acede à dimensão dos
acon ecimen os ágicos que se de am nesses luga es, que não expe ienciámos na p imei a pessoa?
Somos es emunhas a dias, he dei as, chegámos depois, ou logo a segui , e a nossa missão,
enquan o segunda ou e cei a ge ação, é não deixa esquece , é desen e a , in e oga o que o
auma, po si, que silencia (Hi sch, 2008); é da oz às ozes- es emunho dos nossos pais e a ós.
Fica am as ca as, os depoimen os, as o og a ias pa a p o a , documen a e ixa as memó ias.
Fica am os luga es ambém, com o que nos êm pa a dize . A pa i des e legado, cons uímos a
pós-memó ia.
Em inais dos anos 50 do século XX, quando o cinema se o na con empo âneo com
cineas as como Alain Resnais a abalha em o empo e a memó ia, e com as e idas e as do es da
Segunda Gue a Mundial ainda ão ecen es, documen a a Hi oshima des uída pela bomba
a ómica e ee guida dessa des uição em massa, pa ece e ela -se uma a e a di ícil de cump i
pa a quem chega depois e isi a os museus e memo iais. Hi oshima, mon amou ao que e ala
dessa Hi oshima que icou no lado mais ágico da his ó ia, ala-nos da impossiblidade de
acede mos à comp eensão dos acon ecimen os que aí se de am po quem não os i eu na pele. Em
48
Figu a 9 – Ruas de Hi oshima em Hi oshima, mon amou , de Alain Resnais (F ança / Japão, 1959)
Figu a 10 – Ruas de Ne e s em Hi oshima, mon amou , de Alain Resnais (F ança / Japão, 1959)
49
Figu a 11 – Ruas de Ne e s em Hi oshima, mon amou , de Alain Resnais (F ança / Japão, 1959)
50
The J. S ee P ojec , de Susan Hille (2002-2005), o og a ia, ídeo, ins alação
Imagens que nos le am à e lexão
Susan Hille nasceu nos EUA em 1940, onde c esceu e ez os seus es udos. Nos anos 1960
mudou-se pa a o Reino Unido, ins alando-se em Lond es numa al u a em que o Minimalismo e a
A e Concep ual a ingiam o seu auge. Falecida em 2019, Hille deixou-nos um con ibu o ino ado
como a is a concep ual, em especial com os seus abalhos de ins alação, o og a ia e ídeo a
basea em-se em a e ac os cul u ais da nossa sociedade
15
. Pa a al, e á ambém con ibuído o ac o
de Hille se e pós-g aduado em an opologia e de e ido alguma p á ica de campo nessa á ea,
an es de se o na a is a.
As expe iências colec i as do subconscien e e do inconscien e e o pa ano mal são alguns
dos emas que Hille explo ou nas suas ob as. No p ojec o de o og a ia e ídeo The J. S ee
P ojec , que Susan Hille desen ol eu en e 2002 e 2005, encon amos como emas cen ais a
memó ia colec i a e os an asmas.
As o og a ias e o ídeo de The J. S ee P ojec mos am-nos imagens de uas alemãs cujo
nome con ém a pala a “Jude” (Judeu) ou “Juden” (Judeus); são uas que assinalam a p esença
dos judeus na Alemanha, ao mesmo empo que nos eco dam a ausência desses judeus. Somos,
pois, “ ocados emocionalmen e pela insolú el con adição que pe manece, após Auschwi z, na
con inuidade de nomes de uas na Alemanha com a pala a Judeu” (Heise , 2005, p. 620). The J.
S ee P ojec le a-nos a pe gun a “como é que es as uas podem ainda chama -se “Judeu” quando
os judeus em ques ão o am expulsos e depois ex e minados?” (Ibid, p. 620) Po ou o lado,
sublinha Jö g Heise , “como pode iam es as uas e no os nomes e não mais chama em-se de
“Judeu” sem que isso cons i uisse uma en a i a de encob imen o dessa ausência [dos judeus]?”
(Ibid, p. 620). O p ojec o de Susan Hille iniciou-se em 2002 quando, em Be lim, a a is a se
su p eendeu com uma dessas placas de ua. Esse encon o le ou Hille a ês anos de pesquisa e
15
O pe cu so e o cu ículo a ís ico de Susan Hille podem se consul ados no si e:
h p://www.susanhille .o g/abou .h ml (acedido em 8 de Agos o de 2021).
51
iagem pela Alemanha (Bae , 2011). The J. S ee P ojec comp eende 303 o og a ias de placas
de uas alemãs com o p e ixo “Juden”, cap adas em uas, caminhos, ias, es adas. O abalho oi
mos ado sob a o ma de ins alação com as imagens expos as em painel ( igu a 12), acompanhadas
de um mapa da Alemanha ampliado em la ga escala, apon ando cada um dos sí ios de localização
desses nomes ( igu a 13). Do p ojec o, azem ambém pa e um ídeo de 67 minu os mos ando o
mo imen o do dia-a-dia de cada um dos locais das espec i as placas de ua ( igu a 14), e um li o
( igu a 15) com as 303 o og a ias (Bae , 2011).
Figu a 12 – The J. S ee P ojec , de Susan Hille (2002-2005)
52
Figu a 13 – The J. S ee P ojec , de Susan Hille (2002 – 2005)
Figu a 14 – The J. S ee P ojec , de Susan Hille (2002-2005)
53
Figu a 15 – The J. S ee P ojec , de Susan Hille (2002-2005)
Olhemos en ão pa a as placas das uas alemãs, como ez Susan Hille , du an e os ês anos
que as o og a ou e ilmou in igada com o núme o de ezes que a pala a “Juden” su gia nelas
(po exemplo: “Judens asse”, “Judendo ”, “Judenho ”, “Judenweg”, “Judengasse”). Olhemos
pa a o painel de The J. S ee P ojec onde a a is a euniu as 303 imagens cap adas ( igu a 12). O
que nos dizem es as placas de ua nas imagens de Susan Hille ? Não deixamos de sen i
descon o o ao nos da mos con a de que sinalizam a p esença dos judeus num país que depois os
es igma izou, os pe seguiu e os ex e minou. Po an o, ao mesmo empo que nos lemb am uma
p esença de ou o a, lemb am-nos a ausência, u o do ex e mínio. As imagens de Susan Hille
eunidas no painel le am-nos a e lec i . Vemos que mos am a ida quo idiana seguindo o seu
cu so no mal, indi e en e aos nomes que êm essas uas. As placas es ão a ixadas em achadas de
p édios, ou as odeadas de paisagem à bei a da es ada; po elas passam camiões, ci culam
anseun es ou não se ê mo imen o em ol a, apenas a anquilidade das localidades mais u ais.
São imagens que nos colocam numa zona de in e alo, esse in e alo de passagem do in isí el a
isí el, de e lexão, de imaginação, de mon agem. É no in e alo que se es abelecem as elações,
que se ope am as jus aposições. É como se nas imagens se ab issem achas e g e as, e aqui con oco
54
a noção de imagem-sin oma, de Didi-Hube man abo dada na p imei a pa e des e abalho.
Podemos sen i nas o og a ias de Hille algo que “apa ece”, que “oco e”, que “in e ompe o cu so
no mal das coisas”, que “ esis e à obse ação i ial”, se quise mos emp ega os e mos de Didi-
Hube man (2017). Os luga es apa en emen e banais, que a a is a o og a ou, onde o dia-a-dia
segue indi e en e às placas de ua com o nome “Juden”, ans o mam-se dian e do nosso olha em
luga es de achas, luga es g e ados e e idos. De epen e, já não é numa qualque ua do quo idiano
que o nosso passo se passeia, ligei o e inocen e. De epen e, esse passo hesi a, acila, desequilib a-
se num e eno ao mesmo empo amilia e es anho, onde ago a se o na am isí eis achas,
endas, in e alos que uma luz – a luz das imagens, ambém a luz da con empo aneidade – pôs a
descobe o. As imagens de Hille eposicionam-nos; con idam-nos a en a e simul aneamen e
azem-nos es aca , susci ando em nós a e lexão. Ques ionam o acesso o al aos luga es enquan o
luga es ca egados de memó ia. Mos am-nos que esses luga es são a inal luga es de
esquecimen o.
Nas pala as de Ba hes (1989), di ia que são imagens p oduzindo em nós um “ abalho”,
uma “agi ação in e io ”, “a p essão do indizí el que que se di o” (1989, p. 36). Imagens que nos
le am a e lec i , que nos guiam. O au o de A Câma a Cla a e e e-se à a acção po si sen ida
po ce as o og a ias que ele dis ingue de an as ou as imagens exis en es. Essas o og a ias que
ele des aca le am-no a que e sabe o que nele p o oca am pa a que ele as des acasse. São
o og a ias que lhe acon ecem, exe cendo sob e ele uma a acção que ele chama de a en u a
(Ba hes, 1989).
Sob e as imagens de The J. S ee P ojec , podemos e , enquan o espec ado es, uma
pos u a e lexi a, in es iga mos o que elas p o ocam em nós e o que nos dão a e pa a lá da
isibilidade; são imagens que nos inquie am, nos pe u bam e que simul aneamen e nos a aem.
Quem iu as imagens expos as de The J. S ee P ojec , ce amen e sen iu o que desc e e Lau a
Cummings (2005) no The Gua dian, quando o p ojec o es e e pa en e na Timo hy Taylo Galle y,
em Lond es:
As imagens encon am-se assomb adas pelas placas das uas: li e amen e sinais de
pessoas que não es ão mais lá, cujas idas o am des uídas. Vê-los odos jun os é sen i o
55
passado e gue -se... que es g i a : “Olhem! Não es ão a e ?” Como se de epen e
conseguisses e an asmas”.
16
As o og a ias de The J. S ee P ojec podem se obse adas uma a uma, no li o que az
pa e do p ojec o. Jö g Heise (2005) e e e que no li o es as imagens, is as indi idualmen e,
e idenciam-se “no sen ido de po enciais ou ac uais o og a ias de local do c ime”. Sen imo-nos,
pois, inquie os dian e delas, in igados, chocados, is es, emocionados – uma “mis u a de
sen imen os que nos oma ao e mos uma placa de ua com a pala a “Judengasse” enquan o a
ida quo idiana à ol a segue inal e ada” (Heise , 2005, p. 626).
Mas as imagens de placas de ua podiam, à pa ida, deixa -nos indi e en es ou a é
en ediados, pela sua banalidade apa en e. O que nos le a en ão ao “abanão” que sen imos dian e
dos painéis de The J. S ee P ojec , ao co ação a ape a -se-nos, à exp essão de súbi o sé ia e
e lexi a nos nossos olhos, a um silêncio pa ilhado de do ? Não, não saímos indi e en es. Pelo
con á io, es amos ainda lá, con inuamos lá, nessas imagens, em cada uma delas, e no seu conjun o.
Es amos no p esen e a olha os an asmas que se e guem, indos do passado. As o og a ias de
Susan Hille mos am-nos as placas das uas alemãs com o nome “Juden”: sinalizam a p esença
de ou o a dos judeus num país que depois os pe seguiu e os ex e minou. Sen imo-nos inquie os
dian e des as imagens, são imagens que nos le am à e lexão, como e e i. Ao obse á-las,
pe gun amos: O que é que se passa? Po que é que nunca pa ámos an es pa a olha es as placas nas
uas onde se encon am? A ida em ol a pa ece segui o seu cu so no mal sem se de e na pala a
“Judens asse” que uma placa ali mesmo indica, como nos mos am as imagens no ídeo e as
o og a ias no painel. Como podemos não e al placa? Como ousamos não pensa nela, enquan o
conduzimos a nossa ia u a ou caminhamos? Que elação emos com as uas po onde ci culamos?
Podem os luga es se de esquecimen o? Mais do que de memó ia? Ficamos com a sensação
inquie an e de que as imagens de Hille nos apon am os “locais do c ime” que andámos
o çosamen e a ( en a ) esquece . Sen imo-nos chocados, is es, emocionados. São imagens com
beleza, ecnica e es e icamen e bem abalhadas ao ní el do enquad amen o, ângulo, co ,
imp essão. Há a quan idade, o se ial a agi sob e nós: 303 placas de uas alemãs com a pala a
16
O a igo de Lau a Cummings no The Gua dian pode se consul ado em:
h ps://www. hegua dian.com/a anddesign/2005/ap /24/a 2 (acedido em 10/07/2021)
56
“Jude” ou “Juden” no nome, localizadas po odo o país! O mapa ampliado da Alemanha, que
compõe a ins alação de The J. S ee P ojec , indica a localização de cada placa o og a ada. O
conjun o das imagens expos as em painel é ag adá el ao olha , assim como cada imagem
indi idualmen e que podemos obse a com mais de alhe no li o, uma a uma. A ap esen ação em
sé ie des as imagens, an o no painel como no li o, coloca-nos pe an e uma simul aneidade de
luga es. São placas de ua o og a adas em di e en es localidades alemãs. A ap esen ação em sé ie
dá-nos essa simul aneidade, coloca-nos num luga -ou o que são as 303 uas com o nome “Juden”.
De uma só ez es amos a e nessas 303 placas o og a adas o passado a e gue -se com os
an asmas dos milha es e milha es de judeus que o am expulsos de suas casas, uas e bai os pa a
se em ex e minados em massa nos campos de concen ação e de ex e mínio. The J. S ee P ojec
anspo a-nos assim pa a a memó ia colec i a de acon ecimen os his ó icos ágicos. Nesse
sen ido, o p ojec o de Susan Hille pode ala ga -se a uma lei u a con ex ualizada numa
p oblema ização mais as a ab angendo as ques ões his ó icas elacionadas com o Holocaus o,
podendo a é, do pon o de is a ilosó ico, conduzi à e lexão sob e a banalidade do mal, a pa i
de Hannah A end . Es as se iam ou as linhas de abalho possí eis na análise da ob a, que não são
as da minha pesquisa.
Dian e das imagens de The J. S ee P ojec , obse amos ainda a simul aneidade e usão
de empos. O passado nos nomes das placas, o p esen e no quo idiano cap ado que pa ece segui
o seu cu so indi e en e às placas, e um empo u u o, que é já o nosso a aze -se - o da pe plexidade
e da e lexão, o da ob a de a e em diálogo connosco, a susci a -nos emoções, a a anca -nos da
indi e ença. Fan asmas que caminham connosco (na memó ia colec i a), que ie am de uma
ge ação pa a a seguin e (pós-memó ia), que passamos a anspo a den o de nós nas ob as que
p oduzimos a ís ica e cul u almen e (memó ia cul u al). Conseguimos e com as o og a ias de
The J. S ee P ojec a expe iência de um sublime susci ado pela simul aneidade e usão dos
empos e dos luga es nas imagens que obse amos. Recebemos a ob a com a e lexão, o que nos
pe mi e ecebê-la em segu ança e nos pe mi e ap eciá-la. Enquan o espec ado es, expe imen amos
uma e lexão sob e es e luga -ou o pa a o qual a a is a nos conduz: as 303 imagens das placas de
uas alemãs com a pala a “Juden” no nome. Nes e luga -ou o, emos uma pos u a de
conhecimen o. Acedemos ao luga -ou o enquan o espec ado es, com a azão, a a és des a. Po
isso, conseguimos comp eende a ob a e e p aze com ela.
57
Ma e ializa os an asmas
Uma das obsessões de Susan Hille com as placas de ua que o og a ou é que es as placas,
pa a si, são an asmas: as placas es ão lá, es ão pe ei amen e isí eis, mas ninguém as ê.
17
São
um “memo ial inconscien e”, pois ninguém encionou deixa es es aços da memó ia,
18
mas eles
es ão lá, e e e a a is a, em con e sa com o público na ap esen ação de The J. S ee P ojec , no
Con empo a y Jewish Museum, em São F ancisco. Como se mis u a en ão a ma e ialidade das
placas das uas com a ima e ialidade dos an asmas? O luga , enquan o ma e ial, com a memó ia,
enquan o ima e ial? Como se combinam nes as imagens?
Desde logo sabemos que o luga , possuindo “camadas de his ó ias humanas e memó ias”,
como o de ine Lippa d (1997), au o a já aqui e e ida na p imei a pa e do abalho, es á em elação
com a ima e ialidade, con oca-a, susci a-a: as his ó ias, a memó ia, os an asmas. Relação de
in e ligação, pois ambém nos é possí el pa i das memó ias pa a os luga es. A memó ia e oca-
os e na a-os, uma ez que as nossas lemb anças a eles se encon am ão associadas (Ricoeu ,
2000). Mas al ez os luga es cump am ainda um papel nes a in e ligação: o de insc e e ,
“ma e ializa ” as memó ias, ao se assumi em como luga -monumen o, luga -documen o. Os
luga es “ esidem” como insc ições, monumen os, po enciais documen os (Ricoeu , 2000). Se
conseguem desempenha es e seu papel na o alidade, é algo que podemos in e oga . As placas
de ua com a pala a “Juden”, que pa ecemos não e quando po elas passamos indi e en es, nas
uas onde es ão colocadas, ques ionam, nas imagens de Hille , a nossa elação com os luga es e
com a memó ia, eposicionando-nos no acesso a es es. Nes e âmbi o, as placas nas imagens de
Hille ganham um sen ido de memo ial ansmi ido de modo conscien e pelo olha da a is a. O
17
Susan Hille em con e sa com o público du an e a ap esen ação de The J. S ee P ojec no Con empo a y Jewish
Museum, de São F ancisco, nos EUA. Vídeo no canal You ube do Con empo a y Jewish Museum, de 4 de Se emb o
de 2009: h ps://www.you ube.com/wa ch? =594aCcLjHgs& ea u e=emb_e _woy (acedido em 3 de No emb o de
2020).
18
Os nazis subs i uí am os nomes des as uas po ou os. Depois da gue a, du an e o p ocesso de desnazi icação, os
aliados ol a am a coloca os nomes que es as uas inham an es da gue a. (Susan Hille em con e sa com o público
du an e a ap esen ação de The J. S ee P ojec no Con empo a y Jewish Museum, de São F ancisco, nos EUA. Vídeo
no canal You ube do Con empo a y Jewish Museum, de 4 de Se emb o de 2009:
h ps://www.you ube.com/wa ch? =594aCcLjHgs& ea u e=emb_e _woy (acedido em 3 de No emb o de 2020).
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Figu a 19 – Fou Pa s o a Folding Sc een, de An hea Kennedy e Ian Wiblin (Reino Unido, 2018)
As imagens de Fou Pa s o a Folding Sc een con ém uma beleza conseguida com o
abalho de câma a, os enquad amen os cuidados, a o og a ia pensada: os nossos olhos deliciam-
se com a poesia isual das uas com ne e ( igu as 18 e 19), mas ambém conseguimos ap ecia as
uas com os seus mu os e achadas, com as po as, po ões, g adeamen os, deg aus, chão,
pa imen o, emped ado que nos di icul am a en ada ( igu as 16 e 17). Nesse “caminha ” pelas uas
do ilme, passamos de epen e a inquie a -nos. Edi ícios que já não exis em, en adas que não
conseguimos anquea , pa edes que nos bloqueiam a passagem. E simul aneamen e, ou imos a
na ação do que ali se passou: os objec os e i ados a uma amília du an e o egime nazi o am
conhecendo á ias mo adas, o am a mazenados, leiloados, dispe sa am-se, e al ez, nos dias de
hoje ainda sob e i am nas lojas de elha ias. O ilme anspo a-nos pa a uma simul aneidade de
espaços e empos. Há o empo p esen e das uas de Be lim, que emos no mo imen o do
quo idiano que as imagens nos mos am e que nos chega ambém pelo som ambien e o a de
campo. Ao mesmo empo, somos conduzidos, ao longo de odo o ilme, pela na ação que ou imos
em oz o , co espondendo à lei u a das ca as e dos documen os ei a ao mic o one num es údio.
Há esse empo p esen e da lei u a da na a i a em imagens que nos mos am a na ado a ao
mic o one. E há o empo do passado, que as ca as e os documen os azem a é nós. Vamos
pe co endo as uas da Be lim de hoje, ou indo a na ação do que se passou, uma his ó ia que nos
é con ada com base nos documen os encon ados nos a qui os e que pe mi e a ( e)c iação de uma
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pe sonagem (esba em-se as on ei as en e o documen á io e a icção): uma mulhe pe seguida
pelo egime nazi, que depois de se e despojada dos seus pe ences pessoais e objec os de amília,
é ob igada a deixa Be lim e a Alemanha pa a se exila em Lond es, onde o ma ido a espe a,
e i ando des e modo, o des ino que se ia ine i a elmen e o dos campos de concen ação. Quando,
po im, se encon a em Lond es ( isicamen e, co po eamen e), é na Alemanha, no en an o, que
con inua a es a , como se a sua alma aí pe manecesse, ausen e do co po. As imagens são as das
uas de Be lim, não as de Lond es. É em Be lim que icamos, pois é em Be lim que os pe ences
des a mulhe ica am, é a Be lim que a his ó ia do que lhes acon eceu pe ence. Diz a oz o : “You
a e in London and ye you a e s ill in Ge many.”
24
Aqui depa amo-nos com a simul aneidade de
espaços na na a i a. Lond es como o luga onde a pe sonagem chega, luga de exílio, de e úgio
o çado, luga es angei o, de não pe ença, luga de esquecimen o. Não emos as suas uas. São
as uas de Be lim que con inuamos a pe co e , a e , a pe sc u a . A pe sonagem es á em Lond es,
mas é ainda na Alemanha que pe manece em pensamen o e memó ia.
Simul aneidade, usão, c uzamen o dos espaços e dos empos – udo is o o cinema pe mi e
e ope a a pa i do abalho de mon agem, podendo susci a no espec ado o sen imen o de sublime;
a ob a é p imei amen e sen ida como pe u bado a e inquie an e, p o ocando do e descon o o,
pa a depois a en ende mos com a e lexão: é um ilme, é uma linguagem, é uma cons ução, é uma
c iação. Somos en ão capazes de ap ecia , de sen i p aze com a ob a, de a admi a enquan o
objec o de a e que nos p o oca emoções, que nos desassossega e nos az pensa . As imagens das
uas de Be lim que nos conduzem a edi ícios que já não exis em, a po ões que nos edam o
caminho, a deg aus que não subimos, a pa edes que nos bloqueiam, p o ocam-nos um e ei o de
es anheza e inquie ação. Mas, enquan o espec ado es, ecebemos a ob a em segu ança, ou seja,
com a azão e o conhecimen o. Se es as uas de Be lim são o luga -ou o expe ienciado (e
enunciado) pelos ealizado es que as ilmam num mo imen o obsessi o de busca (e aqui, a obessão
é sublinhada na na a i a pela enume ação, in en a iação, epe ição), pa a o espec ado , elas são
ecebidas como luga -ou o a a és da e lexão. Ou seja, o espec ado expe imen a uma e lexão
sob e o luga -ou o, mas não es á nesse luga -ou o; is o pe mi e-lhe es a em segu ança com a
ob a e e uma expe iência do sublime.
24
Fou Pa s o a Folding Sc een (00:25:17)
66
Ma e ialidade / Ima e ialidade
Figu a 20 – Fou Pa s o a Folding Sc een, de An hea Kennedy e Ian Wiblin (Reino Unido, 2018)
Fou Pa s o a Folding Sc een é uma ob a que põe em elação a ma e ialidade com a
ima e ialidade. Pa e desde logo de um supo e documen al, ou seja, o ma e ial encon ado nos
a qui os pelos ealizado es: o og a ias ( igu a 20), ca as, lis as, documen os. A ma e ialidade
documen al dá o igem à na ação de uma his ó ia, con oca a memó ia, os luga es e os an asmas.
No in e io de uma casa que e á sido es aziada em desespe o e uga – quem lá i ia e o que
con inha de pe ences e objec os –, a câma a de An hea Kennedy e Ian Wiblin enquad a a janela
abe a, mos ando um ex e io com á o es com as olhas sacudidas pelo en o. Ao mesmo empo,
uma oz o ai na ando, ai con ando, ai lendo, azendo-nos me gulha nas expe iências
nega i as po que passa am os mo ado es des a casa, du an e o egime nazi. Ao mesmo empo,
são-nos mos ados documen os – o og a ias, ca as – mas ambém objec os. O ilme lança-nos em
seguida num pe cu so pelas uas ac uais de Be lim, em busca das mo adas e edi ícios po onde
e ão passado os pe ences e i ados a es a amília. Há na na a i a do ilme uma ma e ialidade que
são os documen os – o og a ias, ca as, lis as e a é mesmo as olhas de papel que a na ado a lê,
dian e do mic o one de um es údio - e os luga es, nes e caso, as uas de Be lim e os seus p édios,
placas de ua, achadas, po as, po ões, deg aus, chão. Ac escen amos os objec os que nos são
67
mos ados um a um, de o ma des acada
25
( igu as 21 e 22) como se os es i essemos a e numa
i ina em con ex o exposi i o.
Figu a 21 – Fou Pa s o a Folding Sc een, de An hea
Kennedy e Ian Wiblin (Reino Unido, 2018)
Figu a 22 – Fou Pa s o a Folding Sc een, de An hea
Kennedy e Ian Wiblin (Reino Unido, 2018)
Objec os que o am os pe ences de uma amília, e que pode íamos encon a , po um acaso
qualque , numa loja de elha ias. A sua exis ência pode não e e minado, po mui o dis an es que
hoje se encon em da sua p imei a mo ada. T anspo am his ó ias, a eles se ligam memó ias. É
impo an e sublinha que a nossa memó ia exis e não só na in e acção com as memó ias dos ou os
indi íduos mas ambém na in e acção com as coisas (Assmann, 2008). Podemos, pois, e nos
objec os um ga ilho pa a as nossas memó ias. É e mos a cu iosidade, o in e esse e a paixão pa a
olhá-los nesse p isma e i mos à p ocu a, nos lança mos incansa elmen e nas nossas in es igações,
como ez Edmund de Waal, com os seus ne suke, em A Leb e de Olhos de Âmba , publicado em
2010. O au o , ao he da uma colecção de pequenos bibelo s japoneses, decide pesquisa a o igem
e o pe cu so desses objec os na sua amília. Edmund de Waal pa e pa a os luga es. Ei-lo numa
ua em Pa is, à p ocu a de um ho el dos seus an epassados amilia es, que já não exis e:
O nº 81 da Rue de Monceau, o Hô el Eph ussi, onde os meus ne suke começa am
a sua iagem, ica quase no opo da colina, ao lado da sede da Ch is ian Lac oix. É ago a,
25
O des aque dado aos objec os é acompanhado po uma banda sono a c iada pa a esse e ei o pelo iolinis a e
composi o Alexande Balanescu, ansmi indo uma sensação de inquie an e expec a i a, como explicam os
ealizado es: “The iolinis and compose , Alexande Balanescu, c ea ed some d umming sounds o he ilm which
a e laid o e speci ic sequences o sho s o objec s. These sounds could sugges a sense o ominous expec a ion, a
eeling o o eboding”. Tex o dos ealizado es em: h ps://g amne .wo dp ess.com/2020/01/22/ ou -pa s-o -a-
olding-sc een-di ec o s-no e/ (acedido em 19/07/2021)
68
ejo com ce o desapon amen o, uma companhia de segu os de saúde. (de Waal, 2016, p.
31)
“A building ha no longe exis s”, ou i emos inúme as ezes a oz o de Fou Pa s o a
Folding Sc een dize , e e indo-se, nes e caso, aos edi ícios que os ealizado es An hea Kennedy
e Ian Wiblin p ocu am nas uas de Be lim, po onde e ão passado os objec os de uma mulhe e do
seu ma ido, du an e o egime nazi.
A amília de Edmund de Waal o a despojada dos seus pe ences numa Viena ocupada
pelos nazis e oi p eciso depois en a ecupe a o que já se encon a a na posse de ou as pessoas:
Comp eendo bem como se pode passa uma ida a en a localiza um objec o e
i pe dendo a co agem pe an e an as eg as, o mulá ios, legalismos. Sabe que no ebo do
duma la ei a es anha ba e o nosso elógio de salão, com as suas se eias languidamen e
enlaçadas na base. (de Waal, 2016, p. 262)
Em Fou Pa s o a Folding Sc een, amos em busca dos pe ences e i ados à amília
Koch pelo egime nazi em Be lim. Objec os de que o egime se apode ou pa a en iquece os
in en á ios dos leilões. Podemos sen i algo de une á io nos in en á ios compos os pelos objec os
das amílias judias ob igadas a deixa as suas casas, pois sabemos que milha es e milha es de
judeus o am depois encaminhados pa a os campos de concen ação onde não sob e i e am.
Aqueles que consegui am sob e i e à expe iência e í el, desumana, inimaginá el dos campos
de concen ação e de ex e mínio, ize am-nos chega as suas pala as passados poucos anos após
a libe ação dos campos, como P imo Le i com o seu li o Se Is o É Um Homem, de 1947, e que
só em 1958 é que i ia a o na -se uma ob a conhecida do público, quando lançada pela
concei uada edi o a i aliana Einaudi:
Já nada nos pe ence: i a am-nos a oupa, os sapa os, a é os cabelos; se ala mos
não nos escu a ão e, se nos escu assem, não nos pe cebe iam. Ti a -nos-ão ambém o nome:
se quise mos conse á-lo e emos de encon a den o de nós a o ça pa a o aze , aze
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com que, po ás do nome, algo de nós, de nós al como é amos, ainda sob e i a. (Le i,
2013, p. 32)
Se pensa mos que ambém Nelly Koch oi despojada da sua iden idade, nes e caso, alemã,
o nando-se uma espécie de an asma, podemos e os in en á ios dos seus objec os leiloados
pelos nazis como uma colecção úneb e de objec os na posse de ou em. Nes es objec os dispe sos
po di e en es mo adas e pessoas, sen imos a iden idade desmemb ada de Nelly Koch. Podemos
imagina que as imagens dos objec os que pe ence am a es a pessoa anulada pelo egime,
ans o mada po es e num an asma, pode iam depois i a aze pa e da sé ie de in en á ios
c iados pelo a is a Ch is ian Bol anski nos anos se en a: In en ai e des obje s appa enan à un
jeune homme d’Ox o d (1973), In en ai e des obje s ayan appa enu à une emme de Bois-
Colombes (1974), ( igu a 23). Es es in en á ios ap esen am-se de um modo exposi i o, como num
museu compondo-se de o og a ias dos objec os de pessoas ecém- alecidas. Os objec os
pe manecem pa a lá do desapa ecimen o ou desmemb amen o de quem os possuíu, são a p o a ou
o es emunho da exis ência dessas pessoas que desapa ece am.
Figu a 23 – Ch is ian Bol anski, In en ai e des obje s ayan appa enu à une emme de Bois-Colombes, 1974.
70
Rodeamo-nos de objec os como de uma segunda pele (de Mé édieu, 2004). Es es pe mi em
econs i ui a nossa ida. Em Fou Pa s o a Folding Sc een, são mos ados objec os que
pe ence am a uma pessoa, a uma casa, a uma amília, e po decisão do egime, leiloados e
dispe sos po di e en es mo adas e pessoas. Uma “memó ia de coisas” se á uma memó ia daquilo
de que nos odeamos no quo idiano, objec os que Jan Assmann (2011), eco dando o que Mau ice
Halbwachs chamou de en ou age ma é iel, uma lis a de coisas como camas, cadei as, oupa,
u ensílios pa a as casas, ca os, uas, na ios... En im, udo o que se e aos se es humanos em
e mos p á icos e que ep esen a con o o, beleza, e em ce a medida, a nossa p óp ia iden idade
(Assmann, 2011). Os objec os são o nosso e lexo, lemb am-nos quem somos e lemb am-nos o
nosso passado e os nossos an epassados (Assmann, 2011). Também P imo Le i [1958] menciona
es a ligação i al aos objec os:
Mas conside e cada um quan o alo , quan o signi icado es á con ido mesmo nos
nossos mais pequenos hábi os quo idianos, nos nossos mil objec os que a é o mendigo mais
humilde possui: um lenço, uma elha ca a, a o og a ia de uma pessoa amada. Es as coisas
azem pa e de nós, quase como se ossem memb os do nosso co po; não podemos seque
pensa em se mos p i ados delas, no nosso mundo, pois imedia amen e encon a íamos
ou as pa a subs i ui as elhas, ou os objec os que são nossos po quan o gua dam e
susci am memó ias nossas. (Le i, 2013, p. 32)
E Le i p ossegue, e e indo-se à si uação ex ema de se e p i ado de odos os pe ences:
Imagine-se ago a um homem ao qual, jun amen e com as pessoas amadas, i am
a casa, os hábi os, a oupa, en im, udo, li e almen e udo quan o possui: se á um homem
azio, eduzido ao so imen o e à ca ência, esquecido da dignidade e bom senso, pois
acon ece acilmen e a quem udo pe deu, pe de -se a si p óp io; eduzido a al pon o que
ou os pode ão sem p oblemas de consciência decidi da sua ida ou da sua mo e pa a
além de qualque sen ido de a inidade humana;... (Le i, 2013, p. 32)
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Essa pe da o al que Le i e e e é já a expe iência do ex e mínio, o duplo signi icado de
ex e mínio (Le i, 2013, pp. 32 - 33). Em Fou Pa s o a Folding Sc een, Nelly Koch, ao consegui
ugi do país, escapa a um des ino que se ia ce amen e o dos campos de concen ação. Mas não
escapa à pe da de odos os pe ences da amília bem como à pe da da sua iden idade na Alemanha
nazi. Da exis ência ma e ial de uma casa, de objec os e de documen os, passamos, pois, pa a a
ima e ialidade da pe da, das memó ias e dos an asmas. Pelas uas, somos conduzidos a edi ícios
que já não exis em. As imagens de Fou Pa s o a Folding Sc een colocam-nos des e modo numa
elação de ma e ialidade / ima e ialidade. Todo o ilme nos conduz num pe cu so em di ecção à
memó ia, aos an asmas. Nelly Koch sal a-se, po assim dize , o nando-se um an asma, alguém
a quem os nazis despoja am de oda a ma e ialidade. O seu nome alemão é apagado pelo egime.
Dão-lhe um nome judeu, e podemos imagina os ca imbos bu oc á icos op esso es a alidá-lo nos
documen os e egis os a espei o des a mulhe , den o de uma Alemanha onde os an asmas
começam a pai a , despojados de iden idade, co po, ma é ia. Na a a oz o no ilme:
You a e in London and ye you a e s ill in Ge many. In Ge man hey a e
ein en ing you. They ha e been making you in o someone you no longe ecognize o
some hing. They changed you name, hey ga e you a middle name, Za a, because you’ e
no a ian.
26
Também Edmund de Waal, nas suas pesquisas, cons a a que os nomes dos seus amilia es,
o am al e ados pelos nazis, pa a além da amília pe de a posse dos bens e pe ences:
Viena já não em um Palais Eph ussi nem um Banco Eph ussi. A amília oi
a ida da cidade.
(...) P ocu o Vik o num egis o, e ejo que o p imei o nome oi obli e ado com
um ca imbo o icial e melho. O ca imbo diz «Is ael». Po dec e o, odos os judeus
de e iam ecebe no os nomes. Alguém se deu ao abalho de ca imba , um a um, odos
26
Fou Pa s o a Folding Sc een (00:25:17)
72
os nomes da lis a de judeus de Viena: «Is ael» pa a os homens, «Sa a» pa a as mulhe es.
(de Wall, 2016, p. 237)
A ma e ialidade do ac o de ca imba , ma ca , o ula . Como o J ca imbado nos passapo es
dos judeus. A ma e ialidade, nes e caso, pa a e i a a iden idade indi idual e condena , dizima .
Todo um po o a o na -se an asma, despojado dos seus nomes p óp ios, da sua iden idade, das
suas casas e pe ences. A oz o de Fou Pa s o a Folding Sc een az-se ou i : “You a e o be
dispossessed. You will be no hing” e ainda “… you possessions no longe belong o you.”
27
Despojada e exilada, a pe sonagem o na-se um an asma no país que a os acizou. Es á isicamen e
em Lond es a pa i do momen o em que chega à cidade onde se exila, mas a sua alma, o seu
espec o con inua na Alemanha, onde ica am os pe ences e a casa de amília e odos os objec os
que dela aziam pa e. “You a e in London and ye you a e s ill in Ge many”
28
, sublinha a oz o .
Nas imagens con inuamos a e as uas de Be lim, con inuamos a pe co e es as uas numa
p ocu a obsessi a, al ez a en a i a de ma e ializa as memó ias e os an asmas, al ez a espe ança
de que es as uas e os seus edi ícios consigam aze de ol a a ma e ialidade dos objec os e a
econs i uição da iden idade da mulhe a quem lhe o am e i ados esses objec os. Ao mesmo
empo que a na a i a de Fou Pa s o a Folding Sc een se cons ói a pa i da ma e ialidade dos
documen os ( o og a ias, ca as, lis as...) e das uas com as suas placas iden i ica i as, os seus
p édios, achadas, mu os, po as, po ões, chão, pa imen o, ela coloca-nos na ima e ialidade da
memó ia e das imagens. Não emos as uas lond inas onde a pe sonagem e ia caminhado, ecém-
chegada do país que a expulsou. Mas acilmen e imaginamos que nesse seu deambula po uas
es angei as, o seu pensamen o es a ia em Be lim e em oda uma ida pessoal abalada de o ma
iolen a, aumá ica. Começa de no o, despojada de udo. Faze o lu o das pe das. É p eciso
esquece pa a ol a a lemb a , e ol a a lemb a pa a inalmen e sa a e esquece de um modo
conscien e. À semelhança da ac iz ancesa caminhando nas uas de Hi oshima, às quais se jun am
as uas de Ne e s, a pe sonagem de Fou Pa s o a Folding Sc een, es a ia a caminha nas uas
de Lond es, com as uas de Be lim no pensamen o. Con udo, no ilme de An hea Kennedy e Ian
Wiblin, não emos seque as uas de Lond es, são as uas de Be lim que dominam; os
27
Fou Pa s o a Folding Sc een (00:27:34 e 00:27:50)
28
Fou Pa s o a Folding Sc een (00:26:00)
73
acon ecimen os dolo osos e iam acabado de se da na ida des a mulhe , naquela al u a. Um co po
es aziado de udo, iajou em uga e em desespe o, pa a sob e i e . A alma, o espí i o ica am a
pai a num país de des uição e mo e. Um luga de an asmas, como nos lemb am as placas de
uas, com o nome “Juden”, o og a adas e ilmadas po Susan Hille . Um luga de imagens.
Imagens que a memó ia con oca.
Em Fou Pa s o a Folding Sc een obse amos uma ma e ialidade dos luga es e dos
documen os e, simul aneamen e, obse amos a ima e ialidade: o que já não exis e nos luga es e
que emos acesso pela memó ia, pela imaginação, na ação e pelas imagens. Mesmo os objec os
que pe ence am a Nelly Koch se ima e ializam em pe da, dispe são. Seguimos o seu as o, na
en a i a de os de ol e à ma e ialidade. As lis as e os in en á ios eco dam-nos essa
ma e ialidade. Objec os pa a posse, po de e minado alo mone á io. E num passeio pelas uas de
Be lim, de emos o passo dian e de uma loja de elha ias ( igu a 24). Espe ançados, in e ogamo-
nos se o conjun o de chá enas e pi es, se os alhe es de p a a, ou se o elógio de bolso que emos
na mon a, e ão pe encido a Nelly Koch. Podemos imagina que sim, e dessa o ma, esga a a
ma e ialidade que p ocu á amos como p o a.
Figu a 24 – Fou Pa s o a Folding Sc een, de An hea Kennedy e Ian Wiblin (Reino Unido, 2018)
80
memó ia da p esença dos judeus num país que os expulsou e os ex e minou; po an o lemb am-
nos a ausência desses judeus. As 303 o og a ias de The J. S ee P ojec , ap esen adas em sé ie,
sublinham a epe ição dessa ausência, ma e ializam essa ausência, o nam isí eis os an asmas.
Temos ambém a ma e ialidade da ob a, nes e caso, as o og a ias imp essas, o supo e, o painel,
o li o, o ec ã. Na ma e ialidade da ob a insc e e-se a ima e ialidade: as imagens, a memó ia, os
an asmas.
Fo og a ias, ca as, documen os o iciais, lis as: o ma e ial encon ado nos a qui os, em
Be lim, pelos ealizado es An hea Kennedy e Ian Wiblin, conduz-nos à ima e ialidade da memó ia
em Fou Pa s o a Folding Sc een, con ocando os an asmas e as imagens. Há no ilme a
ma e ialidade dos documen os. As imagens mos am-nos ainda uma ma e ialidade das uas (o
pa imen o, as achadas, os deg aus, as po as, os po ões), e a ima e ialidade do que nessas uas já
não é possí el encon a como p o a do luga dos acon ecimen os do passado, nes e caso, os
luga es que se i am de mo ada aos objec os e i ados a Nelly Koch: a building ha no longe
exis s, é a cons a ação da pe da ma e ial, e ao mesmo empo, da exis ência dos an asmas e das
imagens. Res a-nos a imaginação, imagina que nas lojas de elha ias po onde passamos, es ão
os objec os que o am e i ados à amília Koch – uns binóculos, as chá enas e pi es, um
g amo one, um biombo, e c. Objec os que passa am de mão em mão, desde o momen o em que
deixa am a sua mo ada o iginal. Objec os que ize am pa e dos in en á ios, em leilões do egime,
pa a inancia a gue a. Podemos sen i algo de úneb e nesses in en á ios, uma ez que sabemos
que milha es e milha es de judeus o am despojados dos seus bens e pe ences an es do ex e mínio.
Po an o, nes es in en á ios, sen imos que a ma e ialidade é já uma ma e ialidade a eme e pa a a
ima e ialidade do desapa ecimen o, da pe da, da aniquilação. O ex e mínio le ado a cabo pelo
egime nazi começa po p i a os judeus de odos os pe ences e e i a -lhes ainda o nome e a
iden idade. Nelly Koch, em uga do país, o na-se um an asma. Na Alemanha, e i am-lhe os
pe ences e a iden idade alemã. A pe sonagem o na-se en ão um an asma, despojada de
iden idade e pe ences, despojada de ma e ialidade. As uas de Be lim são as da sua ausência, ou
melho , da sua p esença enquan o an asma, enquan o memó ia, enquan o imagem. Podemos sen i
na busca obsessi a que An hea Kennedy e Ian Wiblin emp eendem em Fou Pa s o a Folding
Sc een, a en a i a de ma e ializa essa ausência na ap oximação a um disposi i o de enume ação
/ sé ie ao longo do ilme, com as imagens das uas, achadas, pa edes, deg aus, po as, po ões,
pa imen o; sen imos ambém o sublinha da ausência, ou dos an asmas, no ecu so à epe ição da
81
ase “a building ha no longe exis s”, a ase que amos ou indo epe idamen e ao longo de odo
o ilme, a cons a ação in-loco da ausência daquilo que ou o a exis iu no luga , o nando isí el
essa ausência. Não es amos longe das 303 o og a ias de The J. S ee P ojec . As imagens
ap esen adas em sé ie das 303 placas com o nome “Juden” sublinham a epe ição de uma ausência,
a ausência dos judeus; ma e ializam essa ausência, o nando isí eis os an asmas.
Rebecca Solni (2014) e e e que o passado e o p esen e se jun am enquan o caminhamos.
Vimos que em Hi oshima, mon amou a pe sonagem caminha nas uas noc u nas de Hi oshima,
com as uas de Ne e s a jun a em-se-lhes. Ao p esen e de Hi oshima, onde a pe sonagem se
encon a, jun am-se as uas de Ne e s, o passado. Es a junção não esul a da ap eensão isual do
luga du an e o ac o de caminha , ao con á io do que acon ece ia com a lâne ie u bana, ou numa
pe spec i a pessoal, com os meus pe cu sos a pé pelas A enidas No as de Lisboa, em que o
passado e o p esen e se jun am naquilo que obse o (po exemplo, edi ícios no os ao lado dos
an igos, edi ícios em emodelação, edi ícios de olu os). O que obse amos no ilme de Resnais, é
a memó ia in olun á ia da apa iga, desencadeada a pa i da isão da posição da mão do seu
aman e japonês dei ado na cama. É na men e da apa iga que Ne e s se jun a a Hi oshima. A
pe sonagem caminha depois pelas uas no u nas de Hi oshima, com as uas de Ne e s no
pensamen o; um caminha no p esen e (Hi oshima) ao qual se jun am as uas da memó ia de um
passado aumá ico (Ne e s).
O ac o de anda , diz Ca e i (2015), “implica uma ans o mação do luga e dos seus
signi icados” (p. 40). Em Hi oshima, mon amou a “ ans o mação” que se dá é a de que já não
es amos em Hi oshima, mas sim em Hi oshima-Ne e s; signi ica que na nossa posição de me os
isi an es não conseguimos e um acesso o al a Hi oshima enquan o luga de memó ia da
des uição e do p o ocadas pela bomba a ómica, pois não i enciámos na pele esse acon ecimen o
ágico; não o endo i enciado, não podemos acede à sua memó ia do mesmo modo que os
sob e i en es ou os amilia es di ec os des es. Pa a a pe sonagem da ac iz ancesa que isi a a
cidade japonesa, Hi oshima é o luga que a conduz a Ne e s. Ne e s é pa a si o luga da pe da e
da do . As uas de Ne e s êm en ão jun a -se à uas no u nas de Hi oshima. O luga que é
Hi oshima ans o ma-se em luga -ou o que é Hi oshima-Ne e s.
82
Em The J. S ee P ojec , o passado e o p esen e jun am-se nas placas de uas com o nome
“Juden” cap adas po Susan Hille na Alemanha. A junção esul a da ap eensão isual do luga
expe ienciada pela a is a: um caminha pelas uas alemãs no p esen e ao qual, a pa i da isão
das placas de ua com o p e ixo “Juden” no nome, se êm jun a os an asmas dos milha es e
milha es de judeus que o am expulsos e ex e minados. As imagens das placas de ua, expos as
em sé ie no painel, pa ecem assumi o papel de nos elemb a o que acon eceu aos judeus que
habi a am nessas uas, p aças e ias. Es amos no p esen e dian e dos an asmas que se e guem
nessas imagens.
O “caminha ” de Susan Hille de placa em placa de ua pa a nos ap esen a a sua sé ie de
imagens, ap oxima-se de um caminha que in eg a em si o olha e o cap a , um caminha mais
p óximo do explo a ó io. Esse caminha implica a ans o mação do luga , pois deixam de se
me as uas com as quais con ac amos de um modo indi e en e na banalidade e isibilidade do
quo idiano, pa a se em as uas com o nome “Juden”, ou seja, 303 imagens de placas de ua
ap esen adas em sé ie num painel, a con ida em-nos a en a em cada uma delas pelo seu o ma o
ao al o ( e ical), mas a aze em-nos pa a de epen e dian e do seu conjun o no momen o em que
nos damos con a de que nes as imagens algo acon ece, uma b echa se ab e, o in isí el o na-se de
súbi o isí el. Num mis o de ho o e e lexão, lemb amo-nos do que inconscien emen e ou
conscien emen e quisemos ao longo das décadas esquece : que os milha es de judeus que
habi a am essas uas, p aças, becos e ias o am expulsos e ex e minados.
Re omando a ideia de que é nas conexões que as uas se ab em em odos os sen idos,
sob e udo en e o que se nos ap esen a ao olha pela isibilidade e o que se nos e ela pela
in isibilidade enquan o caminhamos, podemos en ão cons a a que as uas com as placas “Juden”
nas imagens de Hille se ab em aos an asmas e à memó ia do que acon eceu aos judeus. As
imagens de The J. S ee P ojec con idam-nos a caminha com a e lexão nes as uas
expe ienciadas pela a is a como luga -ou o, pois não são mais as uas onde ci culamos na
indi e ença do quo idiano, mas sim as 303 uas com as placas “Juden” a coloca em-nos dian e dos
an asmas e, desse modo, a aze -nos ( e)conec a com a memó ia colec i a.
An hea Kennedy e Ian Wiblin pa i am dos documen os encon ados nos a qui os de
Be lim sob e os pe ences e i ados à amília Koch pelo egime nazi, pa a as uas da Be lim de
hoje numa busca obsessi a das mo adas e dos edi ícios po onde e ão passado esses objec os. Um
83
caminha no p esen e em busca dos luga es dos acon ecimen os do passado e e idos nos
documen os; mas es es luga es, como imos, encon am-se a inal azios de memó ia, ao nos
depa a mos com achadas, po ões, mu os que nos bloqueiam a en ada e ao cons a a mos que os
edi ícios mencionados nos documen os já não exis em. É ambém um caminha p óximo do
explo a ó io; a câma a de An hea Kennedy e Ian Wiblin pe sc u a as uas, conduz-nos po es as,
en ando nelas acede às mo adas po onde passa am os objec os de Nelly Koch e do seu ma ido.
Um pe cu so de p ocu a que nos le a à imaginação quando inalmen e dian e das mon as das lojas
de elha ias nos de emos com á ida cu iosidade, e pensamos que o aquei o de p a a, o conjun o
de chá enas e pi es ou o biombo que emos podem e pe encido a Nelly Koch. En e o que
obse amos e o que imaginamos enquan o caminhamos, en e o que se nos ap esen a ao olha pela
isibiliade e o que se e ela na in isibilidade, a ua ab e-se em no os sen idos. É um caminha que
implica a ans o mação do luga . As uas em Fou Pa s o a Folding Sc een deixam de se
quaisque uas na banalidade do quo idiano de Be lim (e aqui, as imagens de Fou Pa s o a
Folding Sc een pa ecem alinha -se com as de The J. S ee P ojec ), passando a se no ilme as
uas que albe ga am os objec os e i ados à amília Koch, as uas de edi ícios que já não exis em,
e que nos conduzem a achadas, mu os e po ões que nos bloqueiam o acesso. En e a isibilidade
do que nes as uas exis e e a in isibilade do que exis iu, ab e-se um in e alo, uma acha, uma
b echa: passado e p esen e jun am-se, o in isí el o na-se isí el. Somos conduzidos a es e luga -
ou o onde caminhamos com a e lexão e o conhecimen o.
Em The J. S ee P ojec , o “caminha ” de Susan Hille ques iona a ligação en e luga e
memó ia e es abelece-a (en e as placas de ua com o nome “Juden” e a memó ia colec i a do
Holocaus o). Em Fou Pa s o a Folding Sc een o pe cu so dos ealizado es pelas uas de Be lim
é um ques iona da ligação en e luga e memó ia numa p ocu a obsessi a po essa ligação, pois
os luga es encon am-se a inal azios de memó ia. A ligação ai se possí el a a és da
imaginação, a a és das imagens que nos le am à e lexão, pois nelas se ab em b echas, in e alos,
azendo com que o in isí el se o ne isí el. A imaginação é mon ado a po execelência, diz Didi-
Hube man (2017), só ela “é capaz de mon a ou ea icula os elemen os o e ecidos pela
obse ação” (Didi-Hube man, 2015, p. 19).
Enquan o caminhamos, a iculamos o e e o imagina ; é possí el en ão aze mos as
ligações, ap eende mos as “ elações ín imas e sec e as en e as coisas, as co espondências, as
analogias”, como de ine Baudelai e a imaginação, segundo nos eco da Didi-Hube man (2015).
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As ês ob as aqui analisadas le am-nos a caminha com elas e a caminha nelas. É um
caminha com as imagens e nas imagens, com o conhecimen o e com a imaginação. É coloca mos
em elação as ob as de a e, o eal e o conhecimen o. O ac o de nos deb uça mos sob e es as ob as
de a e em e mos eó icos e p á icos, pe mi e-nos do pon o de is a do conhecimen o, e o eal e
ab i uma possibilidade de acção a pa i do agenciamen o delas. Conside o, po an o, que o
p esen e abalho possa e uma ce a acção no modo como caminhamos nas uas, no modo como
expe ienciamos os luga es, num sen ido ans o ma i o do nosso olha sob e os luga es,
expe ienciando-os como luga -ou o enquan o sujei os c iado es desses luga es-ou os, ou,
enquan o espec ado es, ecebendo esses luga es-ou os com a e lexão e o conhecimen o.
Caminhamos com as imagens e nas imagens. Imagens que nos se em de guia (Ba hes,
1989), que nos con idam a en a nelas, ao mesmo empo que nos eposicionam ace a elas. São
imagens que nos a ancam da indi e ença, que nos a aem e nos inquie am, que p o ocam em nós
um abalho, uma agi ação in e io (Ibid, 1989), que nos in igam e que icam connosco, que
des acamos, que nos acon ecem, pois são a en u a (Ibid, 1989). São imagens que nos le am a
e lec i . Nelas, ab em-se in e alos, b echas e o in isí el o na-se isí el. Imagens-sin oma, como
nos diz Didi-Hube man, pois há nelas algo que “apa ece”, que “oco e”, que “in e ompe o cu so
no mal das coisas”, que “ esis e à obse ação i ial” (Didi-Hube man, 2017). Recebemos es as
imagens em segu ança enquan o espec ado es, ecebemo-las com a e lexão e o conhecimen o, o
que nos pe mi e ap ecia as ob as, e p aze e espan o com elas, apesa da do , do descon o o e
da inquie ação que p o ocam. São ob as que podem susci a em nós uma expe iência de sublime.
A nossa e lexão sob e elas nunca e mina, são ob as que nos acompanham uma ida
in ei a, que nos azem sen i i os – i os de emoções, de sen imen os, e de pe gun as que não
p ocu am uma espos a única, mas ab em-se em mais e mais pe gun as. O puzzle jamais es a á
comple o, con inuamos me gulhados nas suas peças, ma a ilhados, assus ados, emocionados. A
expe iência es é ica que sen imos é o p olongamen o da ob a de a e em nós, é o nosso abalho
enquan o se es sensí eis da azão e da imaginação.
Es a minha disse ação e e ainda o objec i o de demons a que a e lexão sob e as
ques ões da memó ia / pós-memó ia / memó ia cul u al e do luga nas imagens con empo âneas
não se encon a hoje de o ma alguma ence ada no campo das a es e dos es udos a ís icos. São
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mui as as ob as de cinema e de o og a ia que nos úl imos anos êm abalhado as ques ões da
memó ia e do luga . Hi oshima, mon amou e á sido das p imei as, logo após a 2ª Gue a Mundial,
já Resnais ealiza a a cu a-me agem Nui e B ouilla d (1956), sob e os campos de concen ação
nazis. Mui os ou os au o es se segui am, com ob as a ma ca em-nos p o undamen e, como o
documen á io de Claude Lanzmann, Shoah (1985), que aqui e e i. The J. S ee P ojec e Fou
Pa s o a Folding Sc een mos am-nos que no século XXI es as ques ões con inuam em abe o.
Como e e e Ma i a S u ken (1997), as imagens são objec o de memó ia e p odu o as de memó ia
ambém. Di icilmen e olha emos pa a a memó ia colec i a de acon ecimen os ão aumá icos
como as gue as, a bomba a ómica, o Holocaus o, en e an os e an os ou os, sem eco e mos a
uma c iação des a memó ia e a uma e lexão sob e ela, a a és das imagens nas a es isuais, sejam
ilmes, documen á ios, o og a ias, ins alação, escul u a, pin u a.
Conside ações inais
O p esen e abalho mos ou que a e lexão sob e a memó ia cul u al, pós-memó ia e luga
nas imagens con empo âneas con inua a se pe inen e, com os au o es que ecen emen e se êm
deb uçado sob e es as ques ões no campo dos es udos a ís icos, bem como com as ob as de cinema
e o og a ia que nos úl imos anos êm explo ado es es emas.
As ob as que escolhi analisa o am o ilme Hi oshima, mon amou , de Alain Resnais, de
1959, o abalho de o og a ia e ins alação The J. S ee P ojec , de Susan Hille , de 2002-2005, e
o ilme-ensaio Fou Pa s o a Folding Sc een, de An hea Kennedy e Ian Wiblin, de 2018. A
disse ação pa iu do caminha na ua pa a o caminha nas imagens, endo as ob as escolhidas pa a
análise a pa icula idade delas mesmas c ia em o seu caminha nas uas que ap esen am. A
p imei a pa e do abalho incidiu sob e os concei os de luga , memó ia e imagem, numa e lexão
ans e sal aos ês. A segunda pa e consis iu na análise de cada uma das ob as, obse ando nes as
a ligação memó ia / luga , as elações de ma e ialidade / ima e ialidade, e ainda a expe iência
es é ica em e mos de sublime. Seguiu-se o es udo compa a i o das ês ob as, na e cei a pa e do
abalho.
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Nes as ob as, pude obse a que a expe iência do sujei o no luga é c iado a de luga es-
ou os. O sujei o que c ia o luga -ou o es á nesse luga -ou o enquan o que o espec ado
expe imen a uma e lexão sob e o luga -ou o, mas não o luga -ou o, ou seja, o espec ado em
uma pos u a de conhecimen o no luga -ou o. Em Hi oshima, mon amou , o luga -ou o é
Hi oshima-Ne e s; em The J. S ee P ojec , são as imagens em sé ie das placas de uas alemãs
com o nome “Juden”; em Fou Pa s o a Folding Sc een, são as uas de Be lim po onde passa am
os pe ences de Nelly Koch. Tendo em con a os concei os de luga e não-luga , pude conclui que
o luga -ou o se posiciona á en e o luga e o não-luga , pois um luga -ou o, não sendo mais o
luga , mas pa indo des e e man endo uma ligação a ele, ambém não é um não-luga , embo a,
como esc e i, possamos ques iona se o luga -ou o se ap oxima á en ão de uma ideia de não-luga
pela associação de ambos à mode nidade e pós-mode nidade p odu o as de no os espaços que se
ca ac e izam po se em luga es con á ios aos de pe manência, esidência. A minha e lexão não
con emplou as he e o opias desc i as po Foucaul , no seu ex o “Espaços Ou os”, publicado em
1984 e conside adas pelo au o como luga es ou os associados à mode nidade, pelo que não se
encon a á ence ada .
Ao analisa as ob as, pude obse a que a memó ia abalhada po Alain Resnais em
Hi oshima, mon amou é sob e udo a memó ia in olun á ia; a in luência de Be gson e P ous
o na-se, pois, e iden e, como iu Wa d (1968). Em The J. S ee P ojec e em Fou Pa s o a
Folding Sc een, a memó ia cul u al e a pós-memó ia são cen ais, pelo que pa a a análise des as
duas ob as me pa eceu impo an e con oca au o es como Ma i a S u ken e Ma ianne Hi sch, que
especi icamen e se êm deb uçado sob e as ques ões da memó ia cul u al e pós-memó ia.
As ês ob as ques ionam a ligação luga / memó ia. O ilme de Resnais in e oga o acesso
à memó ia dos acon ecimen os ágicos de Hi oshima pa a quem não os i eu na pele e se encon a
de isi a à cidade japonesa e aos museus que documen am e eencenam as memó ias do ho o
p o ocado pela bomba a ómica. O p óp io Resnais não ealiza um documen á io sob e Hi oshima,
de on a-se com a impossibilidade de ala de Hi oshima. O seu ilme é uma longa-me agem de
icção cuja na a i a se cen a na sua pe sonagem eminina e na psicologia des a. A ac iz ancesa
que em Hi oshima oda um ilme sob e a paz, isi a os museus, ê as imagens e as eencenações
da des uição: oda ia, o encon o amo oso com um homem japonês anspo a-a pa a a memó ia
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de Ne e s, luga de um passado aumá ico na sua ida. As uas de Ne e s êm jun a -se ao
caminha da pe sonagem na sua úl ima noi e em Hi oshima. Hi oshima o na-se assim o luga de
ence amen o de um lu o, luga de cu a de um auma pessoal.
Em The J. S ee P ojec , as o og a ias e o ídeo de Susan Hille apon am pa a a
in isibilidade das placas de ua com o nome “Juden”, quando po elas passamos indi e en es, ao
ci cula mos nessas uas. As imagens expos as em sé ie dessas placas azem e gue dian e dos
nossos olhos os an asmas do passado: a memó ia da p esença dos judeus e a memó ia da sua
ausência. São imagens que nos conduzem à memó ia colec i a do Holocaus o.
Em Fou Pa s o a Folding Sc een depa amo-nos com edi ícios que já não exis em,
po ões que nos edam a en ada, pa edes que bloqueiam. Não são mais os luga es das memó ias
que os documen os encon ados nos a qui os na am; são luga es sem es ígios dos
acon ecimen os, luga es que não conseguem p o a o que os documen os dizem.
A minha análise pe mi iu ainda obse a que nes as ob as a ma e ialidade e a ima e ialidade
se jun am, se in e ligam, se undem, c iando assim uma (i)ma e ialidade, em que uma não exis e
sem a ou a; es ão em es ei a elação. Na ma e ialidade da ob a ( ilme, imagens imp essas, li o,
ins alação) insc e e-se a ima e ialidade: as imagens, a memó ia, os an asmas. Temos ambém a
ma e ialidade do caminha (ac o ísico, co pó eo, que emos sob e udo em Hi oshima, mon
amou ) e do luga (as uas de Hi oshima e Ne e s, em Hi oshima, mon amou ; as placas de ua
com o nome “Juden” em The J. S ee P ojec ; e as uas de Be lim, po onde passa am os pe ences
de Nelly Koch, em Fou Pa s o a Folding Sc een ), e simul aneamen e ligada a es es, a
ima e ialidade da memó ia e das imagens. Há ainda a ma e ialidade dos documen os, que se
e idencia em Fou Pa s o a Folding Sc een, endo os ealizado es pa ido de o og a ias, ca as,
ecibos, lis as, in en á ios, no ícias de jo nal, e c, encon ados em a qui os, pa a ( e)cons uí em
a na a i a de Nelly Koch num pe cu so pelas uas de Be lim, po onde e ão passado os pe ences
des a mulhe e do seu ma ido du an e o egime nazi. Os documen os con ocam as memó ias, os
an asmas, as imagens, a imaginação.
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Pude conclui que as ês ob as nos le am a caminha com elas e a caminha nelas. É um
caminha com as imagens e nas imagens, com o conhecimen o e com a imaginação. Passado e
p esen e jun am-se nes e caminha , um caminha que ans o ma o luga , como nos mos am as
ob as que analisei. Em Hi oshima, mon amou a pe sonagem caminha nas uas noc u nas de
Hi oshima, com as uas de Ne e s a jun a em-se-lhes no pensamen o. É, pois, na men e da apa iga
que Ne e s se jun a a Hi oshima, que ao p esen e de Hi oshima se jun am as uas de Ne e s, o
passado. Uma junção que, como imos, não esul a da ap eensão isual do luga du an e o ac o de
caminha , ao con á io do que acon ece ia com a lâne ie u bana, mas sim da memó ia in olun á ia
da pe sonagem, desencadeada a pa i da isão da posição da mão do seu aman e japonês dei ado
na cama. É um caminha que implica a ans o mação do luga : a “ ans o mação” que se dá é a
de que já não es amos em Hi oshima, mas sim em Hi oshima-Ne e s, ou seja, o luga que é
Hi oshima ans o ma-se em luga -ou o que é Hi oshima-Ne e s.
Em The J. S ee P ojec , o passado e o p esen e jun am-se nas placas de uas com o nome
“Juden” cap adas po Susan Hille na Alemanha. É uma junção que esul a da ap eensão isual do
luga expe ienciada pela a is a, de um caminha que in eg a em si o olha e o cap a , ap oximando-
se mais do explo a ó io. Esse caminha implica ambém a ans o mação do luga , pois as uas nas
imagens de Hille deixam de se as uas pelas quais ci culamos indi e en es no quo idiano, pa a
se em as uas com o nome “Juden”. As 303 placas o og a adas e ilmadas po Hille assumem o
papel de nos elemb a o que acon eceu aos judeus que habi a am nessas uas, p aças e ias.
Es amos no p esen e dian e dos an asmas do passado que se e guem nessas imagens.
Em Fou Pa s o a Folding Sc een, caminhamos no p esen e em busca dos luga es dos
acon ecimen os do passado que os documen os e e em. É um caminha p óximo do explo a ó io:
a câma a de An hea Kennedy e Ian Wiblin pe sc u a as uas, conduz-nos po es as, en ando acede
às mo adas po onde passa am os objec os de Nelly Koch. É ambém um caminha que implica a
ans o mação do luga . As uas em Fou Pa s o a Folding Sc een deixam de se quaisque uas
de Be lim; são as uas po onde passa am os objec os e i ados à amília Koch, as uas de edi ícios
que já não exis em e que nos conduzem a achadas, mu os e po ões que nos bloqueiam o acesso.
En e a isibilidade do que nes as uas exis e e a in isibilade do que exis iu, ab e-se um in e alo,
uma acha, uma b echa, pe mi indo que, com o conhecimen o e a imaginação, p esen e e passado
se jun em.
89
Vimos ainda que nes as ob as as imagens le am-nos a e lec i , são imagens que o nam o
in isí el isí el. que nos a ancam da indi e ença, que nos inquie am e nos agi am, ao mesmo
empo que nos a aem. Recebemos es as ob as em segu ança enquan o espec ado es, ecebemo-las
com a e lexão e o conhecimen o, o que nos pe mi e ap eciá-las, e p aze e espan o com elas,
apesa da do , do descon o o e da inquie ação que p o ocam. Como imos, são ob as que podem
susci a em nós uma expe iência do sublime. A nossa e lexão sob e elas não e mina á. In igados
e ma a ilhados, ol a emos a elas, con inua ão connosco. Coloca-se assim a possibilidade de uma
con inuidade de e lexão sob e es as ob as, p oblema izando ques ões que não o am aqui seguidas
ou ap o undadas dada a sua complexidade (como po exemplo, ligada à memó ia, a ques ão do
esquecimen o) que implica ia um p olongamen o do p esen e abalho.
96
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