scieee Science in your language
[po] (orig)

Um populista no Planalto? Uma análise de conteúdo da comunicação política do presidente Jair Bolsonaro no Facebook

Abstract

O populismo é um fenômeno político que a história já relatou amplamente diversas experiências nacionais, regionais e transnacionais; assim como a ciência política já elaborou extensos e intensos debates teóricos sobre a natureza do populismo – a fim de propor alguma definição consensual – e metodológicos sobre como medir o populismo. Nas duas décadas do século XXI, a ciência da comunicação adensou o campo da comunicação política ao perspectivar o fenômeno do populismo a partir de processos comunicacionais – inserido em sociedades midiatizadas com a apropriação e disseminação de tecnologias comunicacionais em rede amalgamadas no que se denomina como Internet. No ecossistema online, as plataformas de mídias sociais funcionam como recursos promissores para a difusão de mensagens cujos conteúdos trafegam as ideias políticas lançadas por atores visando reações e aderência aos seus apelos políticos. Nesse contexto, a presente pesquisa objetivou mensurar o grau de populismo presente na comunicação política do presidente Jair Bolsonaro, medindo os conteúdos ideológicos do populismo e principalmente as combinações e/ou equivalências desses conteúdos que conformam o conceito na literatura. Para isso, aplicou-se uma análise de conteúdo das postagens do presidente no Facebook que compõem a amostra definida metodologicamente. Os resultados indicam que Jair Bolsonaro tem baixo grau porcentual de populismo em sua comunicação política – fragmentada com dimensões populistas basicamente isoladas e com baixo grau porcentual de combinações, além da frequência residual da dimensão central do populismo: soberania popular. Mas a comunicação política do presidente contém um grau porcentual relevante de demotismo e comporta um antielitismo (quase) generalizado, apontando a uma comunicação mais antissistêmica (e autoritária/militarista) do que populista.

Read accessible full text

Um populista no Planalto? Uma análise de conteúdo da comunicação política do presidente Jair Bolsonaro no Facebook

Author: Matias Filho, Rubem De Nazareth
Year: 2021
Source: https://run.unl.pt/bitstream/10362/131501/1/DISSERTA%c3%87%c3%83O%20-%20Rubem%20de%20Nazareth%20Matias%20Filho%20-%20Mestrado%20em%20Ci%c3%aancias%20da%20Comunica%c3%a7%c3%a3o%20-%20NOVA_FCSH%20-%2030%20agosto%202021.pdf
UNIVERSIDADE NOVA DE LISBOA
FACULDADE DE CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS
Rubem de Naza e h Ma ias Filho
Um populis a no Planal o?
Uma análise de con eúdo da comunicação polí ica do p esiden e Jai Bolsona o no Facebook
Lisboa
2021
RUBEM DE NAZARETH MATIAS FILHO
Um populis a no Planal o?
Uma análise de con eúdo da comunicação polí ica do p esiden e Jai Bolsona o no Facebook
Disse ação ap esen ada em cump imen o pa cial dos
equisi os necessá ios pa a ob e o g au de Mes e em
Ciências da Comunicação.
Á ea de especialização: Es udo dos Media e Jo nalismo
O ien ado a: P o a. D a. Ca la Ma ia Bap is a
Coo ien ado : P o . D . Rui B i es Co eia da Sil a
Lisboa
2021
Dedico es e abalho à minha mãe e ao meu pai
Ma ia José Ca alho Ma ias
Rubem de Naza e h Ma ias
Toda minha g a idão e amo !
AGRADECIMENTOS
À p o esso a Ca la Bap is a, o ien ado a des e abalho, po me apoia com paciência e
gene osidade no di ícil caminha des a pesquisa – po odo o con ex o pandêmico que
a a essou a odos nós.
Ao p o esso Rui B i es, coo ien ado des a pesquisa, pela sua gene osidade impagá el e
inesquecí el às éspe as do Na al de 2020, uma sex a- ei a à noi e, me a endeu p on amen e
pa a uma aula/ u o ia ace ca do so wa e de análise de con eúdo usado no abalho.
Aos p o esso es das disciplinas no pe cu so le i o do mes ado – C is ina Pon e, Daniel
Ca doso, F ancisco Rui Cádima, Ma ia Te esa C uz, Ma isa To es da Sil a, que an o
ac escen a am à minha o mação acadêmica.
Aos colegas do mes ado com os quais pude es abelece boas ocas de in o mações e discussões
ace ca dos ex os, dos eó icos e das ques ões co idianas.
Um ag adecimen o since o e amá el ao meu i mão And é Ma ias e às minhas i mãs And éa
Ma ias e Alexand a Ma ias pelo apoio e supo e que compa ilhamos dia iamen e, pelos
cuidados que ocês assegu am aos nossos pais, que eu, mesmo longe, sin o esse a e o ib a .
Um ag adecimen o eple o de amo e ca inho e aleg ia aos meus sob inhos e sob inhas: Ana
Bea iz, João Vic o , F ancisco, Nicolas, Mai ê, Ma a e A e ano.
Um ag adecimen o mui o especial, ambém eple o de amo e ca inho, ao Rica do Ma ins, que
an o me ajudou com sua habilidade e compe ência em Excel, e isou minhas codi icações após
um eino in enso de cada ca ego ia de análise; além de me apoia , cob a a enção e
p odu i idade. Te ia sido mui o mais di ícil sem ocê, que az a ida se mais le e.
À minha amiga-i mã And ea ‘S olle ’ Gomes e ao meu amigo-i mão Rod igo Benazzi –
mesmo longe, seguem semp e comigo no co ação.
RESUMO
O populismo é um enômeno polí ico que a his ó ia já ela ou amplamen e di e sas expe iências
nacionais, egionais e ansnacionais; assim como a ciência polí ica já elabo ou ex ensos e
in ensos deba es eó icos sob e a na u eza do populismo – a im de p opo alguma de inição
consensual – e me odológicos sob e como medi o populismo. Nas duas décadas do século XXI,
a ciência da comunicação adensou o campo da comunicação polí ica ao pe spec i a o
enômeno do populismo a pa i de p ocessos comunicacionais – inse ido em sociedades
midia izadas com a ap op iação e disseminação de ecnologias comunicacionais em ede
amalgamadas no que se denomina como In e ne . No ecossis ema online, as pla a o mas de
mídias sociais uncionam como ecu sos p omisso es pa a a di usão de mensagens cujos
con eúdos a egam as ideias polí icas lançadas po a o es isando eações e ade ência aos seus
apelos polí icos. Nesse con ex o, a p esen e pesquisa obje i ou mensu a o g au de populismo
p esen e na comunicação polí ica do p esiden e Jai Bolsona o, medindo os con eúdos
ideológicos do populismo e p incipalmen e as combinações e/ou equi alências desses
con eúdos que con o mam o concei o na li e a u a. Pa a isso, aplicou-se uma análise de
con eúdo das pos agens do p esiden e no Facebook que compõem a amos a de inida
me odologicamen e. Os esul ados indicam que Jai Bolsona o em baixo g au po cen ual de
populismo em sua comunicação polí ica – agmen ada com dimensões populis as basicamen e
isoladas e com baixo g au po cen ual de combinações, além da equência esidual da dimensão
cen al do populismo: sobe ania popula . Mas a comunicação polí ica do p esiden e con ém um
g au po cen ual ele an e de demo ismo e compo a um an ieli ismo (quase) gene alizado,
apon ando a uma comunicação mais an issis êmica (e au o i á ia/mili a is a) do que populis a.
Pala as-cha e: Populismo. Comunicação polí ica. In e ne . Mídias sociais. Análise de
con eúdo.

ABSTRACT
Populism is a poli ical phenomenon ha his o y has ex ensi ely epo ed on di e se na ional,
egional and ansna ional expe iences; jus as poli ical science has al eady elabo a ed ex ensi e
and in ense heo e ical deba es on he na u e o populism – in o de o p opose some consensual
de ini ion – and me hodological deba es on how o measu e populism. In he wo decades o
he 21s cen u y, communica ion science has deepened he ield o poli ical communica ion by
conside ing he phenomenon o populism om communica ion p ocesses - inse ed in
media ized socie ies wi h he app op ia ion and dissemina ion o communica ion echnologies
in a ne wo k amalgama ed in wha is called he In e ne . In he online ecosys em, social media
pla o ms wo k as p omising esou ces o he dissemina ion o messages whose con en
con eys poli ical ideas launched by ac o s seeking eac ions and adhe ence o hei poli ical
appeals. In his con ex , his esea ch aimed o measu e he deg ee o populism p esen in he
poli ical communica ion o P esiden Jai Bolsona o, measu ing he ideological con en s o
populism and especially he combina ions and/o equi alences o hese con en s ha con o m
he concep in he li e a u e. Fo his, we applied a con en analysis o he p esiden 's pos s on
Facebook ha make up he me hodologically de ined sample. The esul s indica e ha Jai
Bolsona o has a low pe cen age o populism in his poli ical communica ion – agmen ed wi h
basically isola ed populis dimensions and wi h a low pe cen age o combina ions, in addi ion
o he esidual equency o he cen al dimension o populism: popula so e eign y. Bu he
p esiden 's poli ical communica ion con ains a ele an pe cen age deg ee o demo ism and
con ains an (almos ) gene alized an i-eli ism, poin ing o a mo e an i-sys emic (and
au ho i a ian/mili a is ) han populis communica ion.
Keywo ds: Populism. Poli ical communica ion. In e ne . Social media. Con en analysis.
LISTA DE QUADROS
Quad o 1 – Con ex os e aspec os his ó icos, lide anças, pa idos e mo imen os populis as nos
séculos XIX, XX e XXI ………………………………………………...……… 16
Quad o 2 – Elemen os e ca ac e ís icas do populismo em di e en es expe iências polí icas.... 29
Quad o 3 – In e ação de con eúdos da comunicação populis a e opo unidades da In e ne .... 40
Quad o 4 – Tipos de populismo aplicados à comunicação populis a de Jai Bolsona o…..…. 95
LISTA DE GRÁFICOS
G á ico 1 – Domicílios com acesso à In e ne e usuá ios da ede no B asil (2010–2019)…… 54
G á ico 2 – Usuá ios de In e ne po disposi i o usado pa a acesso indi idual no B asil….... 55
G á ico 3 – Usuá ios de In e ne po a i idades ealizadas na ede – comunicação……….… 57
G á ico 4 – Re a o das dimensões da comunicação populis a do p esiden e Jai Bolsona o no
Facebook nos p imei os 100 dias de go e no…………...……………………… 83
G á ico 5 – F equência das dimensões da comunicação populis a de Jai Bolsona o…....…. 84
G á ico 6 – F equência das mensagens-cha e da comunicação populis a de Jai Bolsona o….87
G á ico 7 – Mapa de combinações das dimensões da comunicação populis a de Jai Bolsona o
………………………………………………………………...………………… 90
G á ico 8 – Combinações das dimensões da comunicação populis a de Jai Bolsona o……. 91
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
AGU Ad ocacia-Ge al da União
BNDE Banco Nacional pa a o Desen ol imen o Econômico
CV Comando Ve melho
EUA Es ados Unidos da Amé ica
FMI Fundo Mone á io In e nacional
Funai Fundação Nacional do Índio
LGBT+ Lésbicas, Gays, Bissexuais e T ansgêne os + (ou as designações)
LSE London School o Economics and Poli ical Science
MDB Mo imen o Democ á ico B asilei o
MEC Minis é io da Educação e Cul u a
MST Mo imen o dos T abalhado es Ru ais Sem Te a
MTST Mo imen o dos T abalhado es Sem-Te o
OMC O ganização Mundial do Comé cio
PCC P imei o Comando da Capi al
PDT Pa ido Democ á ico T abalhis a
PMDB Pa ido do Mo imen o Democ á ico B asilei o
PSDB Pa ido da Social Democ acia B asilei a
PSL Pa ido Social Libe al
PSOL Pa ido Socialismo e Libe dade
PT Pa ido dos T abalhado es
PTB Pa ido T abalhis a B asilei o
STF Sup emo T ibunal Fede al
TIC Tecnologias da in o mação e comunicação
UDN União Democ á ica Nacional
UE União Eu opeia
UFF Uni e sidade Fede al Fluminense
15
de o ado em 1945. Essa chegada ao pode como egime se dá p imei o na Amé ica La ina,
p ecisamen e na A gen ina com Juan Pe ón em junho de 1946 (Finchels ein, 2019, p. 13).
Ao a i ma que “o século XXI pode se conhecido como o século populis a”, Ca los de
la To e (2019, p. 35) essal a a impo ância de ap ende com a his ó ia da Amé ica La ina,
onde o populismo ocupa espaços de pode desde as décadas de 1930. Ainda que populis as
la ino-ame icanos como Pe ón e Hugo Chá ez “ enham incluído os pob es e os não-b ancos na
comunidade polí ica, eles se ap oxima am do au o i a ismo ao mina a democ acia a pa i de
den o”, explica de la To e (2019, p. 36). Esse limia de go e nação, iminen e descamba pa a
o au o i a ismo e ambiguidade discu si a o nam a análise des e enômeno polí ico complexa.
Finchels ein (2019) explica que, pa a comp eende essa complexidade, é impo an e
conhece os p imei os mo imen os populis as – iden i icados em qua o con ex os (consul a o
Quad o 1). As “p imei as endências populis as” com os Na odniki na Rússia e o People’s Pa y
nos EUA na segunda me ade do século XIX. As “ o mações p é-populis as de di ei a” com
Geo ges Boulange (1886-1891) na F ança; o g upo de Ka l Luege , p e ei o de Viena en e
1897 e 1910, na Áu ia; e as Ligas Pa ió icas na Amé ica do Sul no início do século XX. Os
“p eceden es p o opopulis as” do pe íodo en egue as na Amé ica La ina. E as “ ases pós-1945
do que pode se designado po populismo mode no”: clássico, neolibe al, neoclássico de
esque da, neoclássico de di ei a e ex ema-di ei a (Finchels ein, 2019, pp. 125-126).
2.1 PRIMEIRAS TENDÊNCIAS POPULISTAS: EUA E RÚSSIA
Segundo William Gals on (2017, p. 13), “his o iado es gos am de lemb a , o
an ieli ismo az pa e do DNA cul u al ame icano”. O poli ólogo iden i ica And ew Jackson
como exemplo do p imei o p esiden e no e-ame icano “a decla a gue a ao es ablishmen ” e
essal a que “ce amen e não o úl imo” (Gals on, 2017, p. 13). And ew Jackson p esidiu os EUA
en e 1829 e 1837 de endendo mais pa icipação polí ica do “homem humilde ou comum [small
man] con a uma oliga quia inancei a co up a” (Laclau, 2013, p. 288), ao mesmo empo em
que p omo eu uma polí ica denominada Indian Remo al – legislação assinada em 1830 pa a
emoção de ibos indígenas do les e pa a e as a oes e do io Mississippi, umo a um e i ó io
especí ico no a ual es ado de Oklahoma, po in e esse no ou o encon ado nas e as ibais.
Na p imei a me ade do século XIX, as p imei as endências populis as “coexis i am
mui as ezes com a esc a a u a e mais a de com a sup essão acis a do di ei o de o o e ou as
o mas de explo ação”, a i ma Finchels ein (2019, p. 130), que essal a a ambi alência dos
mo imen os populis as emb ioná ios, pois ambém p opuse am “um papel nacionalis a e mais

16
Quad o 1 – Con ex os e aspec os his ó icos, lide anças, pa idos e mo imen os populis as nos séculos XIX, XX e XXI
Fon e: Finchels ein (2019, pp. 125-126, 131-132, 136-139, 142-145) – com adap ação e elabo ação do au o .
P imei as endências
P é-populis as de di ei a
P o opopulis as do en egue as
Fases pós-1945 do populismo mode no
Na odniks
Rússia
People’s
Pa y
EUA
Geo ges
Boulange
F ança
Ka l
Luege
Áus ia
Ligas
Pa ió icas
A gen ina,
Chile, B asil
Láza o
Cá denas
del Río
México
Hipóli o
Y igoyen
A gen ina
Ge úlio
Va gas
B asil
Clássico
Neolibe al
Neoclássico
Esque da
Neoclássico
Di ei a e
Ex ema
Di ei a
Nos con ex os de um
egime au oc á ico na
Rússia cza is a e um
sis ema eli is a de
ep esen ação nos
EUA, com democ acia
mui o limi ada no
sen ido mode no de
di ei os ci is e sociais
ou seque exis en es, o
populismo oi uma
eação às mudanças no
Es ado, p opunha um
papel nacionalis a e
pa icipa i o às massas
Di e en emen e dos no e-
ame icanos e ussos, mo imen os
au o i á ios p é-populis as de
di ei a o am meios de in eg ação
das massas pa icipando do
sis ema democ á ico, ao mesmo
empo em que busca am es ingi
a democ acia a pa i de den o.
In ocando ‘o po o’, e am acis as
e xenó obos, além de nacionalis as
ex emados. Nem odas as o mas
de p é-populismo de di ei a
descamba am pa a o ascismo,
mas odos os ascismos i e am
o igens p é-populis as
Fo am in luenciados po con ex os de
e oluções – mexicana e so ié ica – e
con a e oluções, po esquícios
es u u ais de epúblicas
oligá quicas, lu as an icoloniais e
pela gue a mundial en e ascis as e
an i ascis as. Ocupa am-se em
supe a os legados esilien es dos
Es ados oligá quicos e ece am
c í icas ao libe alismo, mas não o
iam como maio inimigo. De ca iz
nacionalis a, ais egimes se
posiciona am como “co e i os” às
o mas en elhecidas de democ acia
libe al; busca am au onomia
Juan Pe ón
Ge úlio
Va gas
Velasco
Iba a
Eliéce
Gai án
Rómulo
Be ancou
Víc o Haya
de la To e
Ca los
Menem
Fe nando
Collo de
Mello
Abdalá
Buca am
Albe o
Fujimo i
Sil io
Be lusconi
Hugo
Chá ez
E o
Mo ales
Ra ael
Co ea
Nicolás
Madu o
Nés o e
C is ina
Ki chne
Sy iza
Podemos
EUA;
Filipinas;
Gua emala;
I ália;
Áus ia
Pauline
Hanson;
Recep
E dogan;
Vik o
O bán
UKIP;
F on
Na ional
17
pa icipa i o pa a as massas”, mesmo num con ex o de p o unda limi ação democ á ica “no
sen ido mode no de di ei os polí icos e sociais uni e sais” (Finchels ein, 2019, p. 131).
Demanda am mais igualdade social e polí ica, e mi i ica am o po o como uni icado e i uoso.
Foi na úl ima década do século XIX que o “populismo ag á io” (Quei oz, 2019, p. 1) se
cons i uiu como mo imen o de ag icul o es o ganizados no People’s Pa y, undado em Sain
Louis em 1892, mesmo ano em que pa icipou como e cei a ia das eleições p esidenciais com
James Wea e e James Field conco endo com os adicionais pa idos Democ a a e
Republicano (Laclau, 2013). Apesa da bem-sucedida mobilização egional e do esul ado
p omisso naquelas eleições, o Pa ido do Po o – “que emon a a à Fa me s’ Alliance, da
década de 1870, quando á ias mobilizações e p oje os coope a i is as o am iniciados, mas
sem sucesso du adou o” (Laclau, 2013, p. 287) – não e e exp essi a a uação nacional, ainda
que enham sido elei os ep esen an es legisla i os em á ios es ados na década de 1890.
Rep esen ando as demandas dos pequenos e médios ag icul o es, mo imen os
populis as eme gi am em meio às p o undas ans o mações que ma ca am a passagem do
século XIX pa a o século XX. Mudanças in aes u u ais (expansão do sis ema de anspo e
e o iá io e ap op iação undiá ia), econômicas (deslocamen o de impos os pa a polí icas
econômicas inancis as/bancá ias e cunhagem da p a a) e ecnológicas (ges ão da ele onia,
elég a o e sis ema pos al deses a izada) a e a am o emen e as á eas u ais (Laclau, 2013).
Segundo Mudde e Kal wasse (2017, p. 37), “uma mis u a de ag a ianismo e populismo deu
luga ao chamado «populismo da p ada ia»” – mui o a uan e ambém nas p o íncias do Canadá.
Os Populis as “lu a am con a o a anço do g ande capi al no campo” (Ba os, 2010,
seção Populismos, pa a. 2). Como a p odução ag ícola es a a o ganizada em pequenas
p op iedades, ope a a com cus os ixos, inse ida num me cado in e nacional cada dia mais
compe i i o e sob axações e polí icas iscais pesadas, a conjun u a indica a uma ba alha
pe dida. A insa is ação dos populis as só aumen a a, pois e am as expo ações ag ícolas que
p incipalmen e subsidia am a impo ação do capi al necessá io pa a inancia a indús ia nos
EUA, além de p oduzi em os gêne os alimen ícios pa a os abalhado es indus iais a p eços
cada ez meno es. Ou seja, “ o nou-se e iden e que o azendei o não es a a luc ando na mesma
p opo ção do c escimen o econômico do país” (Ba os, 2010, seção Populismos, pa a. 2).
“Pa a os populis as, a espos a e a cla a. Li a -se dos 'plu oc a as, a is oc a as e odos
os ou os a os', ins ala o po o no pode e udo ica ia bem”
3
, esumiu Cano an (1999, p. 12)
ci ando echo de No man Pollack, o sen imen o que pe mea a os populis as dian e do impasse.
3
T adução nossa pa a: “To populis s, he answe was plain. Ge id o ' he plu oc a s, he a is oc a s, and all he
o he a s', ins all he people in powe , and all would be well.”
18
Além de a os, os populis as ambém conside a am as eli es ci adinas e inancis as “pa asi as”;
an agoniza am os ag icul o es – “ e dadei os p odu o es” – com os u banos “ociosos”, pos o
que alo iza am a e a como a p incipal on e de p odução de iqueza, e pe cebiam que o
capi al inancei o lhes consumia boa pa e da luc a i idade da p odução ag ícola, po isso
clama am po in e encionismo go e namen al (Ba os, 2010; Laclau, 2013).
Mudde e Kal wasse (2017, p. 37) des acam ês aspec os sob e os populis as da
p ada ia: a concepção de po o e a pe soni icada nos ag icul o es, pa icula men e “os pequenos
p op ie á ios u ais, ag icul o es li es e independen es de ascendência eu opeia”; segundo, o
populismo no e-ame icano e a pau ado po noções de p odu i ismo, ou seja, a ibuíam aos
ag icul o es a p odução dos bens undamen ais à sociedade, nomeadamen e alimen ação e
es uá io, ao con á io da eli e compos a po banquei os e polí icos co up os do No des e que
“não p oduziam nada”; po im, embo a os populis as emb ioná ios e elassem aços
an issemi as, acis as e xenó obos, não e a a na u eza é nica ou eligiosa que p incipalmen e
dema ca a a dis inção en e o po o e a eli e, mas a mo alidade, a geog a ia e a ocupação.
Os ag upamen os populis as mais signi ica i os ca ac e iza am-se po “mo imen os
com uma lide ança cen al e uma o ganização ela i amen e aca” (Mudde & Kal wasse ,
2017, p. 36), indicando aos US Populis s a necessidade de en a nas es e as do pode
ins i ucional com um discu so nacionalizado. En ão esol e am apoia , na eleição p esidencial
de 1896, o democ a a William Jennings B yan, “cuja pla a o ma ence a a mui as cono ações
populis as” (Laclau, 2013, p. 293). B yan pe deu as eleições apesa da boa o ação no Oes e e
Sul, mas so eu o e de o a nas egiões indus iais, oposição de emp esá ios do No des e e
ejeição en e líde es eligiosos e a classe média u bana, que iu ag essi idade na sua campanha
(Cano an, 1999; Laclau, 2013). T adicionalmen e iden i icado com o Pa ido Democ a a
(Mudde, 2004), “o p og ama polí ico do Pa ido do Po o indica que, ideologicamen e, a o igem
do populismo em um om libe al e socialis a, di e en e da e ó ica nacionalis a de di ei a que
no malmen e associamos a ele ago a”
4
, explicam Bos e B an s (2014, p. 705).
O populismo ag á io ambém es e e p esen e na Rússia eudal cza is a com os na odniki
na década de 1870, quando in elec uais não in eg an es da nob eza (Ba os, 2010; Tagga ,
2004) encampa am um mo imen o social e polí ico em nome dos camponeses ussos (Jage s &
Walg a e, 2007), exigindo “ e o mas democ á icas pa a p o ege os camponeses an o dos
p op ie á ios como da come cialização da ag icul u a” (Mudde & Kal wasse , 2017, p. 48).
4
T adução nossa pa a: “The People’s Pa y’s poli ical p og amme indica es ha , ideologically, he o igin o
populism has a libe al and socialis unde one, di e en om he igh -wing na ionalis ic he o ic ha we usually
associa e wi h i now.”
19
O na odniches o oi a mobilização polí ica de uma in elligen sia u bana que se
deslocou “das cidades pa a o campo pa a incen i a os camponeses a e ol a em-se con a o
egime cza is a” (Quei oz, 2019, p. 1). Além de ejei a o capi alismo eme gen e na sociedade
ussa, exal a a os alo es ag á ios e camponeses, “p e endia-se e olucioná io e azia uso,
como es a égia, de ações a madas” (Ba os, 2010, seção Populismos, pa a. 4). Pa a Mudde e
Kal wasse (2017, p. 48), embo a os populis as no e-ame icanos enham o ganizado um
mo imen o polí ico de massas signi ica i o, “os na odniki ussos nunca o am além de um
pequeno mo imen o cul u al”. ‘I ao po o’, dizia o na odniches o conclamando os
camponeses a se ebela em con a a eli e u bana e indus ial que lhes explo a a, ainda assim, o
campesina o ejei ou o chamado. Mudde e Kal wasse (2017, p. 49) explicam que duas das
p incipais o ganizações populis as na Rússia, Von ade Popula e Repa ição Neg a, “ acila am
depois de um jo em memb o do p imei o g upo e assassinado o cza Alexand e II em 1881”.
O a igo in i ulado To de ine populism (Be lin e al., 1968) é uma p odução cole i a que
eúne as p incipais ideias discu idas na con e ência da LSE em 1967. Os eó icos analisam
di e en es ipos de populismos e o p imei o desses é o populismo usso. Com a gumen ações
sin é icas, às ezes di e gen es, os au o es iden i ica am aspec os do populismo usso que
me ecem des aque. And zej Walicki a gumen ou que não ha ia de inição de populismo usso
como mo imen o, pois só alguns aspec os da ideologia do mo imen o e am populis as, já que
di e en es g upos inham a i udes sociais e polí icas di e en es. Pa a Walicki, Lenin ap esen ou
a melho de inição de populismo ao conside a os na odiniki como “ideólogos da democ acia
que, endo pe cebido as ágicas con adições ine en es ao capi alismo, de am um g ande passo
à en e, colocando no os p oblemas à a enção da sociedade”
5
(Be lin e al., 1968, p. 139).
F ancesco Ven u i ponde ou a a i mação de Walicki, sob e a de inição de Lenin se a
mais adequada ace ca dos populis as ussos, a gumen ando que “a de inição de populismo de
Lenin e a um ins umen o pe ei o pa a lu a con a o populismo mas não pa a en endê-lo”
6
.
Ven u i ambém essal ou um aspec o undamen al do populismo usso: “cons i uía um modo
de ida polí ico e uma eligião, no sen ido de que não se de e apenas ac edi a no populismo,
mas i e como populis a”
7
, ou seja, a ibuía à polí ica uma mo alidade eligiosa, uma eologia
polí ica que e ia sido c iada po Aleksand He zen (Be lin e al., 1968, pp. 139-140).
5
T adução nossa pa a: “ideologis s o democ acy who, ha ing ealized he agic con adic ions inhe en in
capi alis de elopmen , made a big s ep o wa d by posing new p oblems o he a en ion o socie y”.
6
T adução nossa pa a: “Lenin's de ini ion o populism was a pe ec ins umen o igh ing agains populism
a he han o unde s anding i .”
7
T adução nossa pa a: “cons i u ed a poli ical way o li e and a eligion, in he sense ha one mus no only belie e
in populism, bu li e as a populis .”
20
Isaiah Be lin ques ionou as colocações de Ven u i sob e He zen se o esponsá el pela
concepção de comp ome imen o absolu o en e os na odiniki. Be lin conco da a que e a uma
ca ac e ís ica deles, po ém essa eologia polí ica p o inha de Vissa ión Belínski. No início, o
na odniches o não inha um p og ama econômico e social elabo ado, “p eocupa a-se com a
sal ação social e com a necessidade de se in eg a à ida dos camponeses; p eocupa a-se com
a dí ida de ida aos camponeses e a necessidade de pagá-la”
8
(Be lin e al., 1968, p. 140).
John Keep ei e ou a a gumen ação de Walicki sob e a con luência en e populis as e
ma xis as, di e en e das en a i as de o ja a as amen o en e ambos – os au o es essal a am a
in luência mú ua. Con udo, Keep en a izou os aspec os socialis a, libe á io e p incipalmen e
mo alis a do populismo – conside ado pelos eó icos como a possí el cha e pa a a comp eensão
do enômeno –, mesmo que eles es i essem em con adição (Be lin e al., 1968, p. 141).
Hugh Se on-Wa son buscou ci cunsc e e o e mo in elligen sia a um enômeno social
de uma eli e in elec ual ci cuns ancial, que se ia numa sociedade de base adicional que es a a
sendo mode nizada a pa i dos al os escalões. Essa eli e i ia uma ealidade di e en e daquela
que ia, ge ando us ações, “a in elligen sia, c iada a i icialmen e, es a a pa icula men e
cien e de sua posição a i icial e isso p opo cionou um incen i o ex a pa a ado a , idola a e
sen i as do es de consciência em elação ao po o”
9
(Be lin e al., 1968, pp. 140-141).
Leona d Schapi o des acou a necessidade de obse a ideologias no seu con ex o po que
“ odas essas ideias, odas essas emoções que c esce am na Rússia, no século XIX, c esce am
no solo da O odoxia”. O au o isou ainda as dimensões ac uais da polí ica populis a pa a
explica que se basea am em “algum ipo de elacionamen o en e o líde de um pa ido ou de
um mo imen o e aqueles a quem ele alega a lide a .”
10
(Be lin e al., 1968, p. 142).
Finchels ein (2019) ambém iden i ica o mações p é-populis as de di ei a no inal do
século XIX. Com o gene al Geo ges Boulange , na F ança, que, após i ó ia elei o al (1889)
como depu ado po Pa is, iu-se en ol o numa mul idão de apoiado es pedindo que “ma chasse
a é o Palais de l’Élysée e omasse o pode ... pois con a a com o apoio de um conside á el se o
do exé ci o e da polícia”, mas não o ez (Laclau, 2013, p. 258). O boulangismo se ca ac e iza a
pela “he e ogeneidade e ma ginalidade em elação ao sis ema es abelecido de o ças”, e a
apoiado po p ole á ios esiden es nos bai os pe i é icos de Pa is e pela classe média/al a dos
8
T adução nossa pa a: “i was conce ned wi h social sal a ion and wi h he need o in eg a e onesel wi h he li es
o he peasan s; i was conce ned wi h he deb owing o he peasan s, and he need o epay ha deb .”
9
T adução nossa pa a: “in elligen sia, ha ing been a i icially c ea ed, was pa icula ly awa e o i s a i icial
posi ion and his p o ided i wi h an ex a incen i e o wo ship, idolize and eel he pangs o conscience owa ds
he people.”
10
T adução nossa pa a: “some kind o ela ionship be ween he leade o a pa y o o a mo emen and hose whom
he claimed o lead.”

21
cen os u banos, mobilizados pelo “nacionalismo conse ado e mili a is a” ou pa idá ios do
“Es ado o e e democ acia di e a” (Laclau, 2013, pp. 259-260). Com Ka l Luege , na Áus ia,
elei o ao pa lamen o (Reichs a ) em 1885, undado do Pa ido Social C is ão e p e ei o de
Viena en e 1897-1910; Luege se con apôs aos libe ais alemães e e a conhecido po seu
an issemi ismo, nacionalismo e acismo – cujas ideias se i am de in luência pa a Adol Hi le
e ou os nazis as (The Edi o s o Encyclopaedia B i annica, 2020). E com as a iações das Ligas
Pa ió icas na A gen ina e no Chile, e a Liga Nacionalis a no B asil.
Esses mo imen os au o i á ios p é-populis as de di ei a o am con o e sos em sua
a uação polí ica e social, pois “ o am meios de in eg ação das massas. Ao mesmo empo que
pa icipa am no jogo democ á ico, ambém en a am es ingi a democ acia a pa i de
den o”, ponde a Finchels ein (2019, p. 132). Além da xeno obia e acismo, e am nacionalis as
ex emados. “Embo a nem odas as o mas de p é-populismo de di ei a se con e essem em
ascismo, odos os ascismos i e am o igens p é-populis as” (Finchels ein, 2019, p. 132).
Num ela o amplo, os a os que compõem es e segundo con ex o do populismo se iam
de alhados, assim como os do e cei o con ex o e e en e aos p eceden es p o opopulis as do
pe íodo en egue as na Amé ica La ina (ca denismo no México, y igoyenismo na A gen ina e
p imei o a guismo no B asil). Po ém, pelo desenho da pesquisa, esses con ex os não são
essenciais, mas a ase do populismo clássico na Amé ica La ina me ece algumas conside ações.
2.2 AMÉRICA LATINA COMO LÓCUS DO POPULISMO MODERNO
Pa a Finchels ein (2019, p. 124), egimes populis as como os go e nos de Juan Pe ón
na A gen ina e Ge úlio Va gas no B asil o am “sin omas e olucioná ios da c iação de um
no o pa adigma polí ico pa a go e na a nação no início da Gue a F ia”. Após a queda dos
egimes ascis as a pa i de 1945, o populismo ope ou como uma e o mulação do ascismo
pa a o con ex o democ á ico do pós-gue a, in umen alizando inclusi e meios democ á icos
pa a se i ma como um no o enômeno polí ico pa a uma no a e a na his ó ia.
Não egis a es a pe mu a e a his ó ia au o i á ia do populismo mode no como uma
e o mulação democ á ica em elação ao ascismo, pa a Finchels ein (2019, p. 125), é “um
sin oma de uma endência ge al na eo ia polí ica do populismo pa a exclui o ascismo da
na a i a”. Toda ia, a complexidade his ó ica que cons i ui o populismo é o que possibili a aos
analis as pe cebe as ambiguidades e con eniências, além das imp ecisões concei uais, que o
compõe como es ilo polí ico, mo imen o de oposição ou egime e sua ideologia la en e.
22
O pe onismo é o g ande expoen e do populismo mode no (Ba os, 2010; Finchels ein,
2019; Laclau, 2013; Mudde & Kal wasse , 2017). Pe soni icado nos go e nos de Juan Pe ón
na A gen ina (1946-1955 e 1973-1974), a longa his ó ia e aje ó ia de “ ecusa em p oduzi uma
posição p og amá ica cla a” pe mi iu ao pe onismo unciona como um mo imen o, um egime
e uma “ o ma ideológica de aze e en ende a polí ica” (Finchels ein, 2019, p. 133).
Essa adap abilidade ca ac e iza essencialmen e o enômeno populis a e sua alo ização
do majo i a ismo de con eniência, idelização às lide anças au o i á ias e a aques aos ins i u os
do libe alismo ou de mecanismos popula es de democ acia adical (Finchels ein, 2019). E o
pe onismo não ugia a essa ca ac e ização em boa medida. Como explica Laclau, a na u eza
ambígua das mensagens de Pe ón no go e no e p incipalmen e du an e seu exílio, “pode ia
es a sendo cul i ada conscien emen e po Pe ón, de manei a que se o nassem delibe adamen e
imp ecisas”, ou seja, “as pala as de Pe ón não pe de am sua cen alidade, mas seu con eúdo
possibili a a in e miná eis in e p e ações e ein e p e ações” (Laclau, 2013, p. 307).
En e 1943 e 1955, essa ambiguidade ou con li o de o ças sociais e g upos polí icos
lag an emen e con á ios oi a ônica do mo imen o pe onis a, e se acen uou após a queda do
go e no de Pe ón em se emb o de 1955. Laclau (2013, p. 305) explica que, nos úl imos anos,
o egime ope ou mudanças simbólicas no discu so, subs i uindo a icônica igu a pe onis a do
‘descamisado’ pelo imaginá io da ‘comunidade o ganizada’. Ba os (2010, seção O pe onismo,
pa a. 4) sin e iza sua in e p e ação a gumen ando que, pa a o pe onismo e ou os populismos
la ino-ame icanos, “ odos os con li os de em se dissol e pa a a g andeza da nação”.
Du an e os dezoi o anos de exílio, Juan Pe ón esis iu in ensamen e às en a i as de
ma ginalização polí ica, não pe mi indo que p ospe asse a ideia de um “pe onismo sem Pe ón”
(Laclau, 2013, p. 305), que inclusi e g upos polí icos pe onis as en a am es abelece jun o aos
no os go e nan es. Se po um lado Pe ón oi impedido de man e con a os polí icos e emi i
qualque espécie de comunicado público, po ou o ele sabia que “sua pala a e a indispensá el
pa a da uma unidade simbólica a odas aquelas lu as dispe sas” (Laclau, 2013, p. 307). Pa a
isso, Pe ón a iculou uma es a égia discu si a que Laclau (2013, p. 308) denominou
signi ican e azio, “sua pala a e e de ope a como um signi ican e com ligações débeis com
signi icados pa icula es” (Laclau, 2013, p. 307). Também isso pe mi iu a Pe ón ence a longa
ba alha polí ico-discu si a con a os go e nos an ipe onis as daquele pe íodo, ao uni ica o
campo popula que se expandia enquan o demanda am seguidamen e pelo e o no dele ao país,
o que oco eu em 1973 com a i ó ia esmagado a nas eleições p esidenciais do mesmo ano.
Po sua ez, a p imei a go e nação de Ge úlio Va gas (1930-1945) oi sob e udo
au o i á ia e i ompeu num con ex o de c ise polí ica, ainda que com algum desen ol imen o
23
econômico, além de um ea anjo das o ças polí icas, econômicas e sociais no desenho
ins i ucional do Es ado b asilei o (Ba os, 2010), com g upos da bu guesia indus ial u bana,
o ganizações ci is como sindica os e pa idos, mo imen os sociais e a Ig eja Ca ólica, cada
qual com sua capacidade de mobilização em a o do líde , escanca ando uma c ise de
hegemonia que se aba eu sob e o país a pa i da Re olução de 1930. “Isso implicou denúncias
das es ições exis en es aos di ei os sociais e uma o ma au o i á ia de iden i ica o po o e a
nação com as suas p óp ias pessoas e p og amas polí icos” (Finchels ein, 2019, p. 140).
Apesa do pe onismo con igu a como p imei o egime do populismo la ino-ame icano,
a A gen ina não é a única esponsá el pela magni ude que o enômeno omou na egião no pós-
1945. O populismo de Jo ge Eliéce Gai án na Bolí ia nos anos 1940 e a segunda go e nação
de Ge úlio Va gas no B asil a pa i de 1951 são exemplos de como o populismo, na Amé ica
La ina, ep esen ou uma pode osa o ça de mobilização polí ica e social das classes popula es,
que o am sendo inse idas nas dinâmicas das lu as polí icas que compuse am o no o sis ema
polí ico do pós-gue a. “Os populismos b asilei o e boli iano não o am menos in luen es do
que o pe onismo e ambos o am p odu os de ealidades pós- ascis as mundiais e egionais”
(Finchels ein, 2019, p. 145). E, de a o, o am inúme as as en a i as de associa a segunda
go e nação a guis a com o pe onismo: Va gas oi acusado de se o ‘Pe ón b asilei o’.
Segundo Skidmo e (2000, p. 189), du an e a campanha elei o al de 1950, Ge úlio
Va gas ez ci cula no Rio de Janei o – edu o p e e encial da esque da – uma mensagem com
o e apelo populis a: “Se eu o elei o a 3 de ou ub o, quando oma posse, o po o subi á
comigo os deg aus do Ca e e [palácio p esidencial]. E pe manece á comigo no pode ”. As
eleições p esidenciais con i ma am os p opósi os populis as de Va gas desen ol idos nos anos
an e io es, pois ele oi elei o com 48,7% dos o os – esul ado exp essi o naquele con ex o.
No B asil, o e o no de Va gas ao go e no ede al (1951-1954) é a exp essão
emblemá ica do populismo à b asilei a. A segunda E a Va gas oi essencialmen e populis a.
Es a essência ganhou ma e ialidade an o na polí ica como na economia. Va gas insis iu na
iabilização e impo ância da sua p opos a go e nis a apelando ao “pa io ismo, nacionalismo
e ealismo em ace de uma economia mundial em ans o mação” (Skidmo e, 2000, p. 189).
2.3. UMA IDEIA EM DISPUTA: DEMOCRACIA E POPULISMO
Populismos à di ei a – adical (Mudde, 2010) e à esque da – au o i á io compe i i o
(Le i sky & Lox on, 2013), mui os nacionalis as (Biebe , 2018), uns de base c is ã
ci ilizacional (B ubake , 2017) ou adicionalis a (Reynié, 2017), alguns mili a is as ou
24
combinações desses aspec os – e elando o quão complexos os discu sos e as p á icas polí icas
populis as podem se – ep esen am ameaças di e sas às democ acias (libe ais) a ualmen e,
segundo cien is as polí icos e pesquisado es de comunicação polí ica. É a "democ acia ilibe al"
(Ba o y, 2016) p opagandeada pelo a ual p imei o-minis o da Hung ia, Vik o O bán.
A inal, como a democ acia de e ia unciona ? De que democ acia – libe al – se ala?
Populis as acei am e con i em com a democ acia e seus p incípios elemen a es como a
sobe ania popula , as eleições e a eg a da maio ia. Po ém ques ionam, quando não ejei am,
p incípios do cons i ucionalismo libe al que compõem o Es ado de di ei o como o plu alismo,
di ei os de mino ias sociais e, po ezes, a sepa ação dos Pode es. “Não es ão con a a
democ acia em ge al, es ão con a a democ acia libe al”, des aca Teixei a (2018, p. 80).
Kal wasse (2012) e isou as p incipais análises dessa elação en e populismo e
democ acia e as di idiu em ês abo dagens: a libe al, que pe cebe o populismo como uma
pa ologia democ á ica; a adical, que en ende o populismo como a dimensão es u u an e da
democ acia; a mínima, que conside a a ambi alência democ á ica do populismo e é de endida
po Kal wasse como al e na i a pa a análises dos aspec os cen ais e i ando ieses no ma i os,
segundo o au o . Es a disse ação a a essas abo dagens po meio de eó icos-cha e
iden i icados a a és da análise de suas ob as, que lhes di eciona pa a cada uma daquelas
pe spec i as. Nomeadamen e, Jan-We ne Mülle pa a a abo dagem libe al, Chan al Mou e
pa a a abo dagem adical e C is óbal Ro i a Kal wasse pa a a abo dagem ambi alen e.
Mülle explica que o populismo “é uma pa icula imaginação mo alís ica da polí ica,
uma manei a de en ende o mundo polí ico que coloca um po o mo almen e pu o e o almen e
uni icado … con a eli es julgadas co up as ou de alguma ou a manei a mo almen e
in e io es” (Mülle , 2017a, seção A lógica do populismo, pa a. 1). Se c í ico às eli es é
condição indispensá el, mas não su icien e, pa a econhece um populis a, pois há c í icas
pe inen es às eli es que não se co elacionam di e amen e com discu si idade ou p á ica
populis as, que p ecisam de ou o elemen o indispensá el ao populismo. “Além de se em
an ieli is as, os populis as são semp e an iplu alis as: os populis as p e endem semp e que eles,
e só eles, ep esen am o po o” (Mülle , 2017a, seção A lógica do populismo, pa a. 1).
A ameaça do populismo à democ acia, nos e mos de Mülle (2017b; 2017d), é
undamen almen e exp essa em duas consequências: no ní el pa idá io, populis as negam
legi imidade aos ad e sá ios po supos amen e se em in eg an es de uma eli e co up a e imo al
que se impõe sob e o po o e deslegi imam qualque oposição – pa e undamen al de odo
egime democ á ico ep esen a i o; no ní el social, o an iplu alismo p og amá ico dos
populis as é mais so a ei o, po que cons ange as pessoas que não compa ilham da idealização
31
aspec os o ganizacionais. Os expoen es da abo dagem es a égica são Ku Weyland (2001),
Kenne h Robe s e Robe Ba (2009). Es es alegam que a cons an e e in ensa mobilização de
uma ampla massa de apoiado es é a es a égia undan e de líde es populis as, mas ambém de
mo imen os, pa a conquis a ca gos pa lamen a es ou assumi go e nos, ins umen alizando
a iculações polí icas ouxas, mesmo quando den o de o ganizações pa idá ias es abelecidas.
A abo dagem discu si a de ine o populismo como um discu so maniqueís a que acusa
a eli e de exp op ia a on ade uni icada do po o e sua sobe ania (Hawkins, 2009, p. 1042). O
discu so populis a é maniqueís a po que a ibui uma concepção mo al a udo. Nessa a ena
dualís ica, o bem é ep esen ado pelo po o – p ecisamen e a ‘ on ade do po o’. E a ibui uma
au a hagiog á ica às adições e alo es desse po o – pe cebido como a ‘maio ia silenciosa’.
Enquan o o mal é ep esen ado pela eli e exp op iado a da on ade popula , man ida inde inida
pa a pe mi i à discu si idade populis a adap a seu jogo e ó ico aos con ex os e conjun u as.
Es udiosos do populismo que o de inem discu si amen e o azem po meio de di e en es
noções: um es ilo, Alan Knigh (1998); uma e ó ica, Ca los de la To e (2019); um apelo,
Ma ga e Cano an (1999); uma ideologia ina, Cas Mudde (2004). Mas odos esses au o es
comp eende iam o populismo “como um conjun o de ideias, em ez de um conjun o de ações
isoladas de seus signi icados subjacen es pa a líde es e pa icipan es”
20
, explica Hawkins (2009,
p. 1043, g i o no o iginal). A abo dagem discu si a o igina-se nas eo izações de E nes o
Laclau, p o enien es da Escola de Essex na década de 1970, e ep esen a a consolidação da
eo ia sob e o populismo en endido como uma “lógica polí ica” (Laclau, 2013, p. 55), ou “uma
o ma de cons ução do polí ico” (Laclau, 2013, p. 21), ou ainda “uma possibilidade dis in i a
e semp e p esen e de es u u ação da ida polí ica” nas sociedades (Laclau, 2013, p. 48).
O discu so populis a não é plenamen e uma ideologia po que ca ece de subs ância
polí ica pa a se en endido al como as ideologias clássicas, mas é omado como uma ideologia
combinada a uma e ó ica pa icula com esul ados e i icá eis na a ena polí ica. Pa a
Hawkins (2009), o populismo é um conjun o la en e de ideias com elemen os comuns, em ge al
exp essos de modo ude e in lamado an o na o ma quan o no con eúdo da linguagem, ou seja,
“se e le e p incipalmen e na comunicação o al, esc i a e isual de polí icos, pa idos,
mo imen os sociais ou qualque ou o a o que a ue na es e a pública”
21
(Reinemann, Aalbe g,
Esse , S ömbäck, & de V eese, 2017, p. 13). Tal como Jage s e Walg a e (2007, p. 322) que
20
T adução nossa pa a: “as a se o ideas a he han as a se o ac ions isola ed om hei unde lying meanings
o leade s and pa icipan s.”
21
T adução nossa pa a: “is mos ly e lec ed in he o al, w i en, and isual communica ion o indi idual poli icians,
pa ies, social mo emen s, o any o he ac o ha s eps in o he public sphe e”.

32
conside am o populismo “um quad o de comunicação que apela e se iden i ica com o po o, e
inge ala em seu nome”
22
, ambém Rooduijn (2014, p. 728) concebe o populismo como “uma
ca ac e ís ica de uma mensagem especí ica em ez de uma ca ac e ís ica de um a o en iando
essa mensagem”
23
. Isso ei e a o papel cen al da comunicação polí ica na pesquisa empí ica e
pa a de ini o enômeno do populismo comunica i amen e – os con eúdos das ideias da
comunicação polí ica populis a (de V eese, Esse , Aalbe g, Reinemann, & S anye , 2018).
Conside ando a comunicação undamen al a odos os p ocessos polí icos, S anye ,
Salgado e S ömbäck (2017) iden i ica am duas abo dagens pa a es udos sob e o populismo. A
p imei a en oca os a o es polí icos classi icados como populis as e analisa a in luência, as
es a égias e es ilos de comunicação com base na manei a como esses a o es se comunicam. A
segunda iden i ica as p incipais ca ac e ís icas da comunicação populis a, em seguida in es iga
a é que pon o a o es polí icos azem uso desses con eúdos, es a égias e es ilos de comunicação
populis a, pa a en ão conclui quais a o es polí icos são populis as com base na ex ensão que
ins umen alizam essa comunicação populis a. Pa a os au o es, as duas abo dagens são álidas,
mas essal am a possibilidade de di e en es conclusões an o em elação às ca ac e ís icas
quan o à p e alência da comunicação polí ica populis a (S anye e al., 2017, p. 354).
De inida a abo dagem comunicacional in eg a i a do populismo que no eia es e
abalho, ale e le i sucin amen e o po quê de es uda o obje o des a pesquisa, suas
implicações acadêmicas e sociais, que ganham “co po” na igu a de Jai Bolsona o, “ oz” nas
suas pos agens no Facebook e “pode ” ao ocupa o Palácio do Planal o como p esiden e da
República. Elei o em ou ub o de 2018 – no que Oli e e Rahn (2016, p. 192) denomina iam
como momen o populis a, que eque “a e ó ica ce a alada pela pessoa ce a pa a o público
ce o no momen o ce o”
24
–, Jai Bolsona o assumiu a p esidência em 1º de janei o de 2019.
Desde en ão, o B asil e o mundo êm assis ido aos a oubos populis as e au o i á ios do che e
do Go e no Fede al, mui as ezes p opagados ia si es de edes sociais. Tudo acompanhado
po dezenas de milhões de seguido es e cen enas de milha de in e ações a cada pos agem.
Po es a desc ição gené ica o obje o que eme ge já é impac an e, em ele ância polí ica
e p omo e e ei os sociais, e academicamen e apon a pa a um enômeno comunicacional po en e
(Ma ino, 2018). Mas é necessá io econhece que não há consenso nem es udos empí icos
subs anciais sob e o enômeno ( ecen e) que eme ge da comunicação polí ica de Jai Bolsona o
22
T adução nossa pa a: “is a communica ion ame ha appeals o and iden i ies wi h he people, and p e ends o
speak in hei name”.
23
T adução nossa pa a: “a cha ac e is ic o a speci ic message a he han a cha ac e is ic o an ac o sending ha
message”.
24
T adução nossa pa a: “ he igh he o ic spoken by he igh pe son o he igh audience a he igh ime”.
33
nas mídias sociais pa a a i ma se o p esiden e é ou não um a o populis a – ou no âmbi o des a
pesquisa, se sua comunicação polí ica pode se conside ada populis a e em que medida isso é
e i icá el –, is o que nem acadêmicos nem jo nalis as, nacionais ou in e nacionais,
consegui iam a i ma consis en emen e qualque dessas p oposições a ualmen e.
Ao obse a o esul ado da pesquisa de Tamaki e Fuks (2020) – um es udo cujo obje i o
e a esponde em que medida Jai Bolsona o é um polí ico populis a –, ê-se ap oximações e
dis anciamen os em elação a es e abalho, mas é um pon o de pa ida acadêmico impo an e.
Os au o es aplica am o mé odo de classi icação holís ica de análise ex ual, que in e p e a ex os
in ei os em ez de con a o con eúdo ao ní el de pala as ou ases, em 10 discu sos da
campanha de 2018 p o e idos em e en os o iciais ou ansmissões ao i o no Facebook. Jai
Bolsona o ecebeu pon uação média inal de 0,5 – numa escala
25
de 0 a é 2 – e oi classi icado
‘um pouco’ ou ‘mode adamen e’ populis a, mas com discu sos cujas médias a iam en e 0,1 e
0,9. O es udo oi desen ol ido em pa ce ia com o Team Populism, coo denado po Ki k
Hawkins e inanciado po hegua dian.o g (Lewis, e al., 2019). No en an o, Rooduijn e Pauwels
(2011, p. 1273) a gumen a am que o mé odo de classi icação holís ica de análise ex ual – usado
po Hawkins (2009) e Tamaki e Fuks (2020) – pode ap esen a p oblemas de imp ecisão.
Pensando na compa abilidade das descobe as (Ma ino, 2018), no acúmulo e in eg ação
de esul ados de pesquisa que con ibuam pa a o campo dos es udos do populismo (Reinemann
e al., 2017), es a disse ação pa e do p essupos o de que, se o a o polí ico Jai Bolsona o oi
conside ado ‘um pouco populis a’, há uma endência pa a que suas pos agens nas mídias sociais
con enham mensagens populis as. Po ém, o p esen e es udo não en oca o a o , mas o con eúdo
das mensagens-cha e populis as – que compõem as dimensões ideológicas do populismo –
con idas nas pos agens do p esiden e Jai Bolsona o no Facebook, nos p imei os 100 dias de
go e no, e obje i a mensu a essas dimensões populis as a pa i das mensagens-cha e,
conside ando que pesquisado es ope am a abo dagem discu si a ou comunicacional a a és de
medidas ou g aus de populismo exp essos nos dados analisados (Aslanidis, 2016; Hawkins,
2009; Jage s & Walg a e, 2007; Oli e & Rahn, 2016; Rooduijn & Pauwels, 2011).
Assim sendo, es e abalho em a seguin e pe gun a de in es igação: em que medida a
comunicação polí ica do p esiden e Jai Messias Bolsona o, na página o icial no Facebook, é
populis a? Pa a esponde essa ques ão de pesquisa ge al – cuja ampli ude pode se melho
25
Escala aplicada no p oje o ealizado pelo Team Populism classi ica: 0 como "não populis a" (no populis ); 0,5
como "um pouco populis a" (somewha populis ); 1,0 como "populis a" (populis ); 1,5 como "mui o populis a"
( e y populis ) e deixa 2.0 em abe o pa a o que classi icam como "populis a comple o" (pe ec populis ).
34
en endida se desmemb ada em ope acionalizações do populismo como enômeno de
comunicação egis adas na li e a u a –, p opõe-se os dois obje i os especí icos abaixo lis ados.
1) Mensu a os con eúdos ideológicos populis as comunicados pelo p esiden e Jai
Bolsona o em suas pos agens no Facebook.
2) Ve i ica as combinações e/ou equi alências dos con eúdos ideológicos populis as
comunicados pelo p esiden e Jai Bolsona o em suas pos agens no Facebook.
O p imei o obje i o e e e-se ao que de V eese e al. (2018, p. 426) ope acionalizam
como uso mui o equen e ou pouco equen e de con eúdos ideológicos do populismo,
iden i icá eis a a és das espec i as mensagens-cha e que compõem as dimensões da
comunicação populis a na p odução comunica i a de um a o polí ico. O segundo obje i o
e e e-se ao que Jage s e Walg a e (2007, p. 323) analisam como combinações de con eúdos
populis as que pe mi em a dis inção de sub ipos de populismo: populismo azio ( e e ências e
apelos ao po o); populismo an ieli is a ( e e ências e apelos ao po o e an ieli ismo); populismo
excluden e ( e e ências e apelos ao po o e exclusão de ou os) e populismo comple o
( e e ências e apelos ao po o e an ieli ismo e exclusão de ou os)
26
.
Como obse ado nes e b e íssimo ela o his ó ico e concei ual, os populis as endem a
p omo e uma des igu ação ou econ igu ação dos p ocessos polí icos e democ á icos a a és
de uma lógica discu si a in e na – mo alis a e/ou exclusi is a – que, aplicada à noção de
ep esen a i idade, o ja uma on ade do po o, eenquad ando-a es a egicamen e nos limi es
de seus in e esses e con eniências polí icas. Assim sendo, não há como p e e se o “populismo
é o u u o da polí ica”, al como a i mou Bannon (2019), mas a his o iog a ia indica caminhos.
Ou melho , um es udo de enômenos polí icos e sociais complexos cuja his ó ia es eja p esen e,
além de en iquece as p oposições da eo ia polí ica e comunicacional, e ela que a imaginação
do u u o es á in e ligada ao passado e isi ado no con ex o do p esen e, que se coloca semp e
como possibilidade. Também po isso “o populismo o nou-se uma buzzwo d no discu so
polí ico e mediá ico”, segundo Teixei a (2018, p. 77, g i o no o iginal), mas es as são cenas
pa a os p óximos capí ulos des a disse ação.
26
A ipologia quád upla do populismo é o iginalmen e concebida po Jage s e Walg a e (2007, p. 335) como
“emp y populism”, “an i-eli is populism”, “excluding populism” e “comple e populism”.
35
3. POPULISMO COMO FENÔMENO DE COMUNICAÇÃO POLÍTICA
His o icamen e é possí el ecua mui os séculos pa a encon a es ígios ma e iais da
conexão en e comunicação e polí ica, desde os es udos de A is ó eles sob e a e ó ica (Vo s e ,
1986), ou os a os e medidas dos a aós egípcios, além dos “ eículos de índole ‘jo nalís ica’ que
p imei o su gi am no mundo o am as Ac as Diu nas” (Sousa, 2008, p. 34), que eme gi am do
desen ol imen o polí ico e e i o ial do impe ioso mundo omano ao demanda in o mações
egula es ace ca das decisões dos go e nan es, ambém sa is azia cu iosidades de uma classe
abas ada sob e a ida dos pode osos e o am ú eis pa a Júlio Césa (ce ca de 59 a. C) manob a
as opiniões dos súdi os e neu aliza possí eis o ensi as de oponen es polí icos (Vo s e , 1986).
Há quem se man enha c onologicamen e den o das linhas da mode nidade ou
ci cunsc i o aos es udos acadêmicos de um de e minado campo – mesmo co endo o isco de
alguma a bi a iedade – pa a des aca a p oximidade dos 100 anos do es udo seminal Public
Opinion de Wal e Lippmann, publicado em 1922, como inaugu al “não só [da] pesquisa em
comunicação e polí ica, como [da] pesquisa em Comunicação ou cou ” (Gomes, 2011, p.
337). Po ém, Wilson Gomes explica que, apesa de ce o consenso na conside ação sob e a
pesquisa de Lippmann como inaugu al, pa a ele o que inaugu a o campo de pesquisa em
comunicação e polí ica não é um au o , mas um e en o: “a 1ª Gue a Mundial (1914-1918) e o
emp ego massi o de p opaganda bélica e polí ica pelos go e nos en ol idos no con li o”
(Gomes, 2011, p. 337). Também a 2ª Gue a Mundial ma ca – ou “in en a” – em g ande medida
as múl iplas e complexas dimensões da comunicação polí ica mode na (Gomes, 2011, p. 338).
A pa i do con ex o do pós-gue a, Blumle e Ka anagh (1999) eo iza am o pe cu so
do que denomina am como e cei a e a da comunicação polí ica. À época, um es ado de coisas
eme gen es a a essa a não só o sis ema de mídia, mas p omo eu p incipalmen e mudanças
sociais. Nas ias da comunicação polí ica que se mul iplica am e se o na am mais di e sas,
complexas e agmen adas, po ezes pa adoxais; assim como as elações de pode en e os
p o edo es e os ecep o es das mensagens polí icas es ão se eo ganizando; ambém em unção
de uma cul u a do jo nalismo polí ico em ans o mação; além de e o mulações nos
signi icados de noções con encionais de democ acia e de cidadania que êm sendo
ques ionadas e epensadas em azão dessas ans o mações (Blumle & Ka anagh, 1999).
Blumle e Ka anagh (1999) iden i ica am uma cadeia de mudanças na sociedade e na
mídia que compo a seis ca ac e ís icas – mode nização, indi idualização, secula ização,
economicização, es e ização e acionalização – ainda álidas e aplicá eis (Blumle , 2016). A
mode nização aumen ou a di e enciação e a especialização na sociedade, agmen ando
36
o ganizações sociais, iden idades e in e esses, além de es ilos de ida e mo alidades mais
luidas que omen am uma polí ica iden i á ia – em consonância ao que Mülle (2017a) diz
sob e o populismo a ual –, isso di icul a ia consensos ala gados (Blumle & Ka anagh, 1999).
A indi idualização ele ou as demandas pessoais e me cado izou desejos apon ando pa a um
consumismo au o ealizá el, que eduziu a con o midade social dian e de ins i uições e
adicões, desde pa idos polí icos e sindica os a é as eligiões, a amília pa ia cal e o abalho.
Elei o es passa iam a se posiciona al como consumido es (Blumle & Ka anagh, 1999). A
secula ização ouxe um a as amen o das linhas ins i ucionais que se conec a am com noções
do sag ado, que se e le iu no en aquecimen o das iden i icações pa idá ias, de g upos de
classe ins i ucionalizados, po meno izando demasiado as ‘ on ades popula es’ que as eli es já
não conseguem sup i nem con o na , ampliando espaço pa a eme gência do populismo polí ico
e midiá ico (Blumle & Ka anagh, 1999). A economicização embolsou a polí ica d enando as
discussões e ações de seus alo es polí icos, deslocando-os pa a as édeas dos a o es e índices
econômicos supe dimensionados (Blumle & Ka anagh, 1999), po ezes incong uen es com
alo es polí ico-sociais. A es e ização es imulou uma supe p eocupação com a imagem, com a
au oap esen ação, a elegância, eg as de e ique a, a moda e demais elemen os es ilís icos que
in e liga iam a polí ica à cul u a popula (Blumle & Ka anagh, 1999). Po im, a
acionalização aumen ou a p o issionalização da adminis ação, o nando a ges ão pública
espaço p i ilegiado de a gumen os ocados em e idências, dados sis emá icos, mas ambém
pau ados numa espécie de ‘pe suasão ins umen al’ baseada em écnicas e alo es da
p opaganda, pesquisas de me cado e elações públicas (Blumle & Ka anagh, 1999); um ipo
de adminis ação conhecido como ecnoc á ico – com de enso es e c í icos (Mou e, 2019).
Ap esen ado o cená io sócio-polí ico-cul u al em que se desen ol e as di e en es e as
da comunicação polí ica a pa i do pós-gue a, ambém ale ap esen a algumas ca ac e ís icas
das espec i as qua o ases desc i as po Blumle (2016) – ú eis à comp eensão do pe cu so
comunicacional e suas dimensões ma e iais e simbólicas. As ases são sucessi as mas se
sob epõem com di e en es p incípios o ganiza i os, in luências e pa adoxos. Blumle e
Ka anagh (1999) essal a am que a alidade ansnacional des a pe spec i a é ques ioná el pois
ancamen e anglo-ame icana – o que não a in iabiliza como pon o de pa ida pa a análises.
Du an e as duas décadas seguin es à Segunda Gue a Mundial, o sis ema polí ico
concen a a as inicia i as e deba es essenciais à sociedade e o sis ema pa idá io se sus en a a
sob e cli agens mais dema cadas. O elei o ado espondia a essa conjun u a po meio de
iden i icações polí icas ela i amen e du adou as, ecoando uma cul u a polí ica subo dinada a
c enças e ins i uições o es. A comunicação polí ica e a dominada pelos pa idos nes a p imei a

37
ase (Blumle & Ka anagh, 1999, p. 211). Com mensagens subs an i as, polí icos coloca am
p opos as ao go e no e os p incípios que lhes di e ia dos oponen es. Essas mensagens
chega am quase sem ba ei as nos meios de comunicação social dado o p es ígio da
comunicação pa idá ia. Isso con ibuía pa a uma espos a dos elei o es em con o midade e
e o ço – ob iamen e, ha ia g upos que esis iam poli icamen e po di e en es ci cuns âncias.
A segunda ase despon ou em meados da década de 1960 com a disseminação da
comunicação polí ica p incipalmen e a a és de canais limi ados de ele isão, enquan o a
lealdade pa idá ia decaía. Deco en e disso, Blumle e Ka anagh (1999, p. 212) apon a am
qua o mudanças. Redução de sele i idade dos elei o es em elação às mensagens polí icas de
ou os pa idos que passa am a p opagandeá-las na ele isão, além da exposição a no ícias mais
impa ciais. Legislação pa a o no o meio que p ima a po no mas ge ais apa idá ias,
cons angendo lide anças e enhas e p omo endo compo amen os polí icos ponde ados. A
ele isão alcançou se o es sociais an es pouco a ei os às mensagens polí icas, que passa am a
e con a o com sucessos ou alhas dos go e nos, além das c í icas de oposi o es, a a és de
no ícias a ualizadas. Os no iciá ios ele isi os, com seus alo es e o ma os, einsc e e am os
e en os polí icos que passa am a segui os ho á ios da p og amação, a e a am a linguagem
polí ica com ases de e ei o e in imização exposi i a, e ensiona am à pe sonalização polí ica.
Quando Blumle e Ka anagh (1999, p. 213) delinea am o aseamen o dos sis emas de
comunicação polí ica, isa am que a e cei a ase e a ainda eme gen e, mas já con o ma a um
sis ema de mídia com ‘abundância, ubiquidade, alcance e cele idade’. A ele isão con e eu
canais limi ados em mul icanais com ex ensas p og amações elabo adas, se iços de no ícias
24 ho as, amplo uso de elações públicas e c. Possibilidades deco en es das ecnologias de
cabo e sa éli e e, p incipalmen e, a digi alização con ínua dos sis emas de ansminssão –
cená io que ambém p omo eu a anços nas es ações de ádio. Além da popula ização dos
equipamen os de comunicação nos domicílios – e.g. apa elhos de ele isão, ádio, ideogame,
ilmado a – e a possibilidade de acessa ideias e in o mações polí icas di e sas ia compu ado .
À época, Blumle e Ka anagh (1999) iden i ica am cinco endências p incipais:
p o issionalização in ensi icada da ad ocacia polí ica, aumen o das p essões compe i i as,
popula ização an ieli is a e populismo, di e si icação cen í uga (especialmen e com o ad en o
da In e ne ) e mudanças na ecepção da polí ica pelo público (Blumle , 2016).
Pa a Blumle (2016), o início de uma comunicação undamen almen e digi al exigi ia a
conside ação de uma no a e a na comunicação polí ica, que ca ega ca ac e ís icas da ase
an e io ac escendo in ensidade, pa icula idades e no os pa adoxos. É cen ada nos usos e
di usão das ino ações con ínuas da In e ne , passando de um modelo pi amidal pa a um modelo
38
dis ibuído de edes; isso demanda ia mais empenho das eli es polí icas na “ges ão” das ações,
e en os e in e p e ações. A ‘abundância’ de comunicação ago a é desc i a como uma a alanche
da g ande mídia, da In e ne e dos incon á eis disposi i os em casa, no abalho e nas mãos.
Essa possibilidade de comunica ins an aneamen e, con udo, pode a e a a qualidade das
mensagens polí icas, que ago a dispu am a economia da a enção (Lanham, 2006) com inúme os
p og amas de espo es, ilmes e en e enimen os gené icos, além da p oli e ação de digi al
in luence s. Comunicado es polí icos p ecisam conside a , mais que nunca, elemen os
es ilís icos (K äme , 2014) com apelos de ap esen ação, linguagem impac an e, cinismo ou
humo e aspec os pe o má icos (Mo i & To mey, 2014). Essa e e escência na comunicação
ca ega jun o o po encial democ a izan e da In e ne (Ans ead & Chadwick, 2009), que acili a
o esc u ínio polí ico, a iscalização de go e nos, de abusos ins i ucionais e iolações de di ei os
humanos não apenas po a i is as sociais ou pa idá ios mas ambém po cidadãos comuns.
A ‘midia ização’ da polí ica (Mazzoleni & Schulz, 1999) – mui o simpli icadamen e:
quando polí icos o ma am suas mensagens aos alo es no iciosos pe cebidos e p á icas
jo nalís icas p e alen es nas mídias adicionais –, no con ex o a ual, exe ce ia menos in luência
sob e os a o es polí icos, já que esses podem comunica suas mensagens sem il os jo nalís icos
na In e ne e se conec a di e amen e com o público (Esse , S epinska, & Hopmann, 2017); ou
a midia ização pe manece ia a uan e po ém não desde a p epa ação das mensagens, que se iam
p oduzidas comple amen e midia izadas apenas quando obje i assem acei ação da g ande
mídia, ponde a Blumle (2016). Sem esquece a hib idização do sis ema de mídia: complexo,
múl iplo e in e dependen e, o que exigi ia uma abo dagem holís ica da mídia (Chadwick, 2014).
A ‘di e si icação cen í uga’ ampliou o espaço pa a p odução de con eúdos di e sos,
ambém ozes di e sas o am inco po adas – di e si icação que pode aca e a agmen ação,
que ende a e o ça a homo ilia (Colleoni, Rozza, & A idsson, 2014). Blumle (2016) des aca
a quan idade e a iedade de en idades da sociedade ci il não pa idá ias a uando na es e a
pública, mobilizando apoio ins i ucional, gal anizando isibilidade e econhecimen o jun o aos
meios jo nalís icos na oz de a i is as, acadêmicos, a is as engajados, ONGs e ou os públicos
(Dahlg en, 2005), a a és de publicações em pe is pessoais ou páginas o iciais de en idades
nas mídias sociais, que passa am a se moni o adas egula men e pela imp ensa, que o na
no ícia pos agens com in o mações especí icas, denúncias, di ulgação de ações cole i as e c.
Segundo Vo s e (1986), a na u eza cole i a da polí ica – como um ag egado de pessoas
em cons an e dispu a e negociação po demandas de pode e expec a i as elabo adas – eme ge
de p ocessos comunicacionais ine en es à ação cole i a, de onde ins i uições e g upos polí icos,
e seus meios de comunicação, p omo em os in e esses que assegu am sua exis ência. “Sem
39
comunicação, po an o, não pode ha e polí ica e ação polí ica”
27
(Vo s e , 1986, p. 42). E o
enômeno do populismo, logicamen e, não escapa dessa na u eza comunica i a da polí ica.
A lógica de comunicação populis a elabo ada po S en Engesse , Nayla Fawzi e Ande s
Olo La sson oi publicada numa edição especial do pe iódico acadêmico In o ma ion,
Communica ion & Socie y em maio de 2017. No a igo in odu ó io dessa edição – in i ulado
“Populis online communica ion: in oduc ion o he special issue” –, Engesse , Fawzi e La sson
(2017) de alham a a iculação de con eúdos ideológicos, es ilos e es a égias comunicadas po
a o es polí icos ca ismá icos ou não, mas ambém e i icá eis em pa idos ou mo imen os
polí icos, na imp ensa e en e cidadãos – ípicos do enômeno polí ico e social do populismo.
Pa a elabo a essa lógica de comunicação, os au o es a icula am ês abo dagens
p oeminen es do populismo: como ideologia ‘ ina’ desc i a po Cas Mudde (2004), como es ilo
de comunicação polí ica analisado po Jan Jage s e S e aan Walg a e (2007) e como es a égia
polí ica concei uada po Ku Weyland (2001). Engesse e al. (2017, p. 1280) a gumen am que
“os ês e mos ep esen am apenas aspec os di e en es do populismo e não são mu uamen e
exclusi os. Po ém, os e mos são seman icamen e in e elacionados”
28
. Baseados no concei o
de lógica de mídia (Al heide & Snow, 1979), Engesse e al. (2017, p. 1280) combina am esses
componen es no que denominam lógica de comunicação populis a, concebida como “a soma
de no mas, o inas e p ocedimen os que moldam a comunicação populis a”
29
.
A im de o e ece um escla ecimen o sin é ico e e icien e, Engesse e al. (2017, p. 1280)
explicam que a abo dagem do populismo como ideologia o en ende como um conjun o de ideias
e se concen a no con eúdo da comunicação populis a (O quê?); po sua ez, a abo dagem do
populismo como es ilo polí ico o analisa como um modo de ap esen ação e se dedica à o ma
da comunicação populis a (Como?); em e cei o, a abo dagem do populismo como es a égia
polí ica o comp eende como um meio pa a um im e es uda os mo i os e obje i os da
comunicação populis a (Po quê?). A pa i da li e a u a especializada, Engesse e al. jun a am
a esses aspec os o a o populis a, que é o mensagei o da comunicação populis a (Quem?).
Po decisão me odológica de adequação às condições de desen ol imen o do abalho,
aos obje i os da pesquisa e à análise dos dados cole ados, o oco des e abalho incide,
undamen almen e, sob e os qua o con eúdos ideológicos que compõem a lógica de
comunicação populis a – nomeadamen e: sobe ania popula , po o-cen ismo, an ieli ismo e
27
T adução nossa pa a: “Sonde kommunikasie kan daa dus geen sp ake wees an poli iek en poli ieke op ede
nie.”
28
T adução nossa pa a: “ he h ee e ms me ely ep esen di e en aspec s o populism and ha hey a e no
mu ually exclusi e. Howe e , he e ms a e seman ically in e ela ed”.
29
T adução nossa pa a: “ he sum o no ms, ou ines, and p ocedu es shaping populis communica ion”.
40
exclusão de ‘ou os’. Esses con eúdos (ou dimensões) cons i uem o modelo heu ís ico da
ideologia populis a p opos o po Engesse e al. (2017, p. 1281), a a és dos quais obje i a-se
mensu a ais con eúdos na comunicação polí ica do p esiden e Jai Messias Bolsona o na
página o icial no Facebook, analisando as pos agens dos 100 p imei os dias de go e no.
Quad o 3 – In e ação de con eúdos da comunicação populis a e opo unidades da In e ne
Con eúdos ideológicos populis as
Fa o es de opo unidades da In e ne
Sobe ania popula
Po encial democ a izan e
Po o-cen ismo
Conexão di e a com o público
An ieli ismo
A o es não-eli e
Exclusão de 'ou os'
Homo ilia
Fon e: Engesse , Fawzi e La sson (2017, p. 1282, adução nossa) – adap ação e elabo ação do au o .
Mesmo e e enciados em di e sos abalhos que se i am de base eó ica,
epis emológica e empí ica pa a a elabo ação da lógica de comunicação, Engesse e al. (2017)
isam a ela i amen e pouca pesquisa sob e populismo na In e ne , is o que – ci ando o a igo
pionei o de B uce Bimbe (1998) – essa elação já e ia bas an e his ó ia pa a con a . Os au o es
obje i am, a pa i do esga e dessa elação que adje i am como in igan e, omen a no os
insigh s ace ca da comunicação populis a, pa a isso ap esen am a lógica de comunicação
populis a em in e ação com o que denominam como es u u as de opo unidades online.
Numa adap ação ocada em algumas opo unidades online que in eg am a es u u a
o iginal de Engesse e al. (2017), es e abalho conside a e lexi amen e qua o a o es de
opo unidades da In e ne – nomeadamen e: po encial democ a izan e, conexão di e a com o
público, a o es não-eli e e homo ilia – que in e agem com os espec i os con eúdos ideológicos
populis as, que são “ aduzidos” em mensagens-cha e populis as disseminadas em di e sos
ambien es da In e ne , num imb icado ecossis ema polí ico-comunicacional.
3.1. CONTEÚDOS IDEOLÓGICOS DA COMUNICAÇÃO POPULISTA
Pa a Mudde (2004, p. 542), duas abo dagens do populismo o na am-se dominan es no
deba e público. Uma o en ende como um discu so in ensamen e emocional e simplis a, di igido
aos ‘ins in os’ das pessoas. Es a abo dagem pa ece e alo in ui i o, po ém se ia di ícil aplicá-
la empi icamen e is o a di iculdade de p ecisa o que é emocional ou acional, simplis a ou
47
imp essão de que não es á con aminado pelo pode . Essa apa ência imaculada pe mi e ao
populis a a aca e desa ia legi imamen e as eli es”
50
(Engesse e al., 2017, pp. 1283-1284).
Engesse , E ns , Esse e Büchel (2017, pp. 1117-1118) explicam a pe spec i a populis a
sob e as eli es como segmen os da sociedade pa icula men e p i ilegiados e mal ei o es, que
ocupam espaços de decisões impo an es que de e iam p i ilegia o po o, seus alo es e
necessidades. Esses espaços ocupados pelas eli es con o mam uma espécie de subsis ema social
em se o es-cha e da polí ica, da economia, do di ei o e da mídia. Os au o es iden i icam cinco
ipos de eli es que usualmen e os populis as a acam em suas comunicações (Engesse , E ns ,
Esse , & Büchel, 2017). As eli es polí icas são concebidas pejo a i amen e, em âmbi o ge al,
como “a classe polí ica” – uma cas a de polí icos enomados, mais especi icamen e, lide anças
de pa idos es abelecidos, minis os ou o go e no. As eli es econômicas, em sen ido amplo, são
iden i icadas como banquei os, donos de co po ações mul inacionais ou g andes in es ido es
do me cado inancei o, assim como os pa icipan es do Fó um Econômico Mundial em Da os,
in eg an es do Fundo Mone á io In e nacional (FMI) e assemelhados. As eli es legais, na
na a i a populis a, são ep esen adas pelos magis ados do Pode Judiciá io – especialmen e
dos ibunais supe io es –, que usu pa iam a sobe ania popula impondo es ições legais à
on ade do po o e são acusados de ‘golpe’, ‘di adu a de juízes’ ou ‘di adu a dos ibunais’. As
eli es sup anacionais são um desmemb amen o híb ido das eli es polí icas e econômicas
iden i icadas como ins i uições in e nacionais mul ila e ais como a União Eu opeia,
O ganização Mundial do Comé cio (OMC) e congêne es, acusadas de iola em a sobe ania
nacional, cujos uncioná ios são ecnoc a as bem emune ados às cus as dos impos os do po o.
Po im, populis as acusam ei e adamen e as eli es da mídia, um híb ido com as eli es
econômicas, de a o ece em os in e esses de polí icos e pa idos es abelecidos e g upos
emp esa iais ou de inclinação ideológica à esque da, especialmen e pelas on es in elec uais
selecionadas. “O populis a, po an o, a aca, acusa ou culpa a eli e pelos de ei os e queixas da
democ acia”
51
(Engesse , E ns e al., 2017, p. 1112).
A concepção de polí ica dos populis as é ampla, isso pe mi e ins umen aliza um sem
núme o de acusações gené icas de co upção e sabo agem ou a ibuição indisc iminada de
incompe ência e al a de on ade, a es a isão supe es imada da polí ica co esponde uma
concepção igualmen e ampliada das eli es (Jage s & Walg a e, 2007, p. 324). Além disso, pa a
50
T adução nossa pa a: “The populis , howe e , main ains he imp ession ha he o she is un ain ed by powe .
This appa en immaculacy allows he populis o legi ima ely a ack and challenge he eli es.”
51
T adução nossa pa a: “The populis hus a acks, accuses, o blames he eli e o he mal unc ions and g ie ances
o democ acy.”

48
Cano an (1999, p. 3), os populis as desa iam não apenas os ocupan es do pode es abelecido e
a ins i ucionalidade que os sus en am, mas ambém os alo es da eli e p opagados a a és dos
o mado es de opinião na academia e na mídia. Valo es que sal agua da iam in e esses de uma
eli e cosmopoli a, p i ilegiada e bem educada em de imen o das necessidades do ‘po o
comum’, das ‘pessoas comuns’ (Cano an, 1999, p. 5). Is o e e be a na o mulação de
Albe azzi e McDonnell (2008) quando pon uam a cul u a e o modo de ida do po o como
p imo diais pa a os populis as. “Isso es á (supos amen e) en aizado na his ó ia e na adição e,
po an o, é sólido, 'co e o' e p opício ao bem público – daí a necessidade de 'ama ', 'sal a ',
'p o ege ', 'p ese a ' e ' edescob i ' nossa cul u a”
52
(Albe azzi & McDonnell, 2008, p. 6).
Desde os populis as da década de 1890 nos EUA, segundo Cano an (1999), espos as
populis as às ambiguidades da democ acia êm sido eco en es em con ex os de c ise – não só
nos EUA, mas em á ios países. Populis as acusam as eli es polí icas e econômicas,
p incipalmen e, de de ende em suas agendas de in e esses. Ge almen e, os culpados
nominalmen e são polí icos co up os, os milioná ios, os judeus, ope ado es do FMI ou pa ões
poli icamen e co e os de abalhado es imig an es, lis a Cano an (1999, p. 12). “Os populis as
nas democ acias es abelecidas a i mam que alam pela 'maio ia silenciosa' das 'pessoas comuns
e decen es', cujos in e esses e opiniões são (eles a i mam) egula men e anulados po eli es
a ogan es, polí icos co up os e mino ias es iden es”
53
(Cano an, 1999, p. 5).
Nes e cená io, Mudde (2004, p. 550) iden i ica a di e enciação clássica en e a ‘eli e
co up a’ das me ópoles e cen os u banos e o ‘po o pu o’ das á eas u ais e os indígenas.
Além disso, o au o indica a “no a classe” que o populismo con empo âneo ac escen ou aos
seus a aques e acusações: os p og essis as ou os poli icamen e co e os. “Essa 'no a eo ia de
classe' o iginou-se nos cí culos neoconse ado es no e-ame icanos da década de 1980. Nas
décadas seguin es, populis as de odas as endências ideológicas a aca iam a di adu a dos
p og essis as ou, em e mos Fo uinis as
54
, 'a Ig eja da Esque da'”
55
(Mudde, 2004, p. 561).
52
T adução nossa pa a: “This is (alleged o be) oo ed in his o y and adi ion and is hus solid, ' igh ' and conduci e
o he public good - hence he need o 'lo e', 'sa e', 'p o ec ', ' easu e' and ' edisco e ' ou cul u e.”
53
T adução nossa pa a: “Populis s in es ablished democ acies claim ha hey speak o he 'silen majo i y' o
'o dina y, decen people', whose in e es s and opinions a e ( hey claim) egula ly o e idden by a ogan eli es,
co up poli icians and s iden mino i ies.”
54
Re e ência ao polí ico holandês – populis a de di ei a – Pim Fo uyn, undado do pa ido LPF.
55
T adução nossa pa a: “This 'new class heo y' o igina ed wi hin No h Ame ican neo-conse a i e ci cles o he
1980s. In he ollowing decades populis s om all ideological pe suasions would a ack he dic a o ship o he
p og essi es, o in Fo uynis e ms ' he Chu ch o he Le '.”
49
3.1.4. EXCLUSÃO DE ‘OUTROS’
Pa a Albe azzi e McDonnell (2008, p. 6), quando o populismo se acopla a ideologias
nacionalis as ou na i is as, ama e p o ege a cul u a do po o pode se aduzi em exclui e
ejei a aqueles que não in eg am a comunidade do ‘co ação’ populis a, ou seja, os “ou os
pe igosos” (Wi h e al., 2016, p. 13), os “inimigos” (Mudde, 2004, p. 544). Embo a os ou os
não in eg em as eli es, são is os como injus amen e a o ecidos po essas, ou agem em conluio
com as eli es numa conspi ação con a o po o (Wi h e al., 2016; Engesse , E ns e al., 2017),
po an o, “são de inidos como uma ameaça e um a do pa a a sociedade”
56
(Jage s & Walg a e,
2007, p. 324); se em como ‘bode expia ó io’, culpados po odos os p oblemas que a ligem a
comunidade e de em se comba idos com e ocidade
57
(Jage s & Walg a e, 2007).
A unidade idealizada do po o eque o a as amen o de ca ego ias sociais que não se
encaixem ou ameacem ou sub e am ‘o co ação’ populis a, a pu eza do po o. Es es segmen os
populacionais ‘pe igosos’, segundo Ab s e Rummens (2007, p. 409), podem se pe soni icados
pelos imig an es – p incipalmen e nos con ex os eu opeu e no e-ame icano – ou nos
bene iciá ios da p e idência social (e.g., ciganos em Po ugal), is os como “c iminosos,
es angei os, ap o ei ado es e pe e idos”
58
(Ab s & Rummens, 2007, p. 418). Mas ambém
podem se mino ias é nicas, eligiosas ou sexuais (Reinemann e al., 2017). O en en amen o
da maio ia silenciosa mas com ai a c escen e, segundo Mudde (2004, p. 557), se di eciona
p incipalmen e con a os p og essis as, os c iminosos e os es angei os – pa icula men e no
populismo à di ei a –, is os como pe e o es da cul u a e alo es adicionais do po o.
A na a i a dos ‘inimigos do po o’ (Albe azzi & McDonnell, 2008, p. 5) – an o ‘as
eli es’ quan o ‘os ou os’ – e ela o ca á e di isi o e exclusi is a da polí ica populis a, ou
ainda, o an iplu alismo que assomb a analis as polí icos libe ais dian e desse enômeno polí ico,
essal a Cano an (1999, p. 5). A au o a des aca o papel do di ei o penal nas democ acias como
um ópico que mui o incomoda populis as, po con a dos a anjos p ocessuais que assegu am
igualdade pe an e a lei a odos os cidadãos, ao menos em ese, esgua dando di ei os
undamen ais e coibindo compo amen os de u bas de linchamen o e i ania popula . Po ém,
56
T adução nossa pa a: “ hey a e de ined as being a h ea o and a bu den on socie y”.
57
Num e en o de campanha em 2018, Jai Bolsona o disse: “Vamos uzila a pe alhada aqui do Ac e. Vamos
bo a esses pica e as pa a co e do Ac e. Já que gos am an o da Venezuela, essa u ma em que i pa a lá. Só que
lá não em nem mo adela. Vão e que come capim mesmo”. Bolsona o es a a no al o de um ca o de som
discu sando pa a apoiado es quando ‘empunhou’ o ipé de uma câme a simulando uma me alhado a dispa ando
con a iliados do Pa ido dos T abalhado es (PT), pejo a i amen e chamados de pe alhas. À época, a assesso ia
do en ão depu ado ede al disse que a ala e o ges o “ oi uma b incadei a, como semp e” (O Globo, 2018).
58
T adução nossa pa a: “c iminals, o eigne s, p o i ee s and pe e s”.
50
“os esul ados do de ido p ocesso legal e da igualdade pe an e a lei equen emen e con li am
com o senso popula espon âneo de jus iça. Isso deixa amplo espaço pa a a mobilização
populis a da on ade popula i a con a a le a mo a da lei”
59
, explica Cano an (1999, p. 14).
As eli es – supos amen e encas eladas em o es de ma im –, segundo Jage s e
Walg a e (2007, p. 324), posicionam-se e icalmen e acima dos cidadãos comuns. Os ou os,
po sua ez, ep esen am um inimigo que não es á acima mas en e o po o – dimensão
ho izon al (Jage s & Walg a e, 2007, p. 324). No en an o, Ab s e Rummens (2007, p. 418)
a gumen am que “exis e o an agonismo e ical descenden e en e o po o e odos aqueles que
es ão no supos o undo da sociedade”
60
, po an o os ou os es a iam abaixo do po o.
Há ou a di e gência ma can e ace ca dos ‘ou os’ no que conce ne ao seu papel den o
das p oposições sob e o populismo. Engesse e al. (2017) iden i ica am ês a aliações sob e a
cen alidade des e elemen o nas o mulações eó icas. Au o es como Mudde (2004), Rooduijn
(2014), Wi h e al. (2016) conside am a exclusão de g upos populacionais uma ca ac e ís ica
apenas de alguns segmen os populis as, is o é, o “exclusi ismo é uma ca ac e ís ica apenas da
di ei a adical populis a, e não do populismo como al”
61
(Rooduijn, 2014, p. 728), po an o,
‘os ou os’ não compõem um elemen o cen al do enômeno populis a em ge al.
A a o da cen alidade des e elemen o es ão Ab s e Rummens (2007), Jage s e
Walg a e (2007). Os úl imos a i mam que, além de apelo ao po o, an ieli ismo e exclusão
cons i uem o populismo, “essas duas es a égias de dis inção o mam o concei o de populismo
denso . . . p eenchem a casca azia do populismo ino e dão ao concei o seu signi icado mais
clássico e es i i o”
62
(Jage s & Walg a e, 2007, pp. 323-324). Pa a Ab s e Rummens (2007,
p. 419), em odas as combinações da ideologia populis a com ou as ideologias à esque da e à
di ei a, “a concei uação especí ica de 'o po o' de ine a essência da iden idade cole i a e
iden i ica, ao mesmo empo, as alegadas o ças nega i as e inimigas na sociedade. Assim, o
populismo legi ima a exclusão do que é concebido como es anho ou 'ou os'”
63
.
59
T adução nossa pa a: “ he ou comes o legal due p ocess and equali y be o e he law o en con lic wi h he
spon aneous popula sense o jus ice. This lea es ample oom o populis mobiliza ion o he li ing popula will
agains he dead le e o he law.”
60
T adução nossa pa a: “ he e is he e ical an agonism downwa ds be ween he people and all hose a he
supposed bo om o socie y”.
61
T adução nossa pa a: “exclusionism is a cha ac e is ic o he populis adical igh only, and no o populism as
such”.
62
T adução nossa pa a: “ hese wo dis inc ion s a egies o m he concep o hick populism . . . ill in he emp y
shell o hin populism and gi e he concep i s mo e classic, es ic i e meaning”.
63
T adução nossa pa a: “ he speci ic concep ualiza ion o ‘ he people’ de ines he essence o he collec i e iden i y
and iden i ies, a he same ime, he alleged nega i e and inimical o ces in socie y.The eby, populism legi imizes
he exclusion o wha is concei ed as s ange o ‘o he ’.”
51
Engesse e al. (2017, p. 1282) apon am um e cei o g upo que assume uma posição
in e mediá ia e se man ém indeciso. Pesquisado es como Albe azzi e McDonnell (2008),
Engesse , E ns e al. (2017), Reinemann e al. (2017) in eg am es e g upo e endem a conside a
‘os ou os’ como elemen o in eg an e do populismo. Pa a Albe azzi e McDonnell (2008), a
homogeneidade e i uosidade do po o se cons i ui discu si amen e semp e em oposição às
eli es más e aos ou os pe igosos – e.g., po e nia, classe, iden idade nacional e c.
Po sua ez, Reinemann e al. (2017) lemb am que o e mo ‘o po o’ quase semp e
con as a com ou as ca ego ias ou g upos populacionais na sua p óp ia o mulação de
iden idade polí ica e social. “O an i-eli ismo e a exclusão de g upos ex e nos podem, po an o,
se conside ados como equi alen es uncionais que o nam explíci o o pad ão ao qual “o po o”
é con as ado e que con ibuem pa a o alece a iden i icação com o g upo in e no”
64
(Reinemann e al., 2017, p. 21). Mesmo em casos de populismo azio (Jage s & Walg a e,
2007), em que esse con as e não é explíci o, populis as azem suges ionamen os ou e e ências
implíci as es a égicas em suas comunicações polí icas quando apelam ao po o, pe mi indo
in ui i amen e aos memb os da ‘comunidade do co ação’ pe cebe em a mensagem.
Nes e con ex o, pode-se a gumen a que as ou as duas ca ac e ís icas do
populismo mencionadas acima – an ieli ismo e a exclusão de g upos ex e nos
– não são apenas ca ac e ís icas adicionais do populismo, mas sim pa es
in eg an es já implíci as em qualque cons ução e menção de "o po o".
65
(Reinemann e al., 2017, p. 20)
3.2. FATORES DE OPORTUNIDADES DA INTERNET
A In e ne em quase 60 anos de his ó ia, se conside ado o In o ma ion P ocessing
Techniques O ice (IPTO) – um depa amen o da Ad anced Resea ch P ojec s Agency (ARPA)
undado em 1962 – como o emb ião o ganizacional de pesquisa do que se ia a ede de
compu ado es A pane mon ada em se emb o de 1969 pela ARPA (Cas ells, 2003). Mas oi na
década de 1990 – quando demandas econômicas po ges ão lexí el deco en es da globalização
acen uada da p odução e do comé cio; po comunicação mais li e/au ônoma deco en e da
alo ização das libe dades indi iduais; e a anços na compu ação e elecomunicações
deco en es do que Cas ells (2003) conside a uma “ e olução mic oele ônica” – que a In e ne
64
T adução nossa pa a: “An i-eli ism and exclusion o ou -g oups can he e o e be ega ded as unc ional
equi alen s ha make explici he s anda d o which " he people" a e con as ed and ha con ibu e o s eng hening
iden i ica ion wi h he in-g oup.”
65
T adução nossa pa a: “Agains his backg ound, i can be a gued ha he wo o he cha ac e is ics o populism
men ioned abo e – an i-eli ism and he exclusion o ou -g oups – a e no jus addi ional ea u es o populism bu
ins ead in eg al pa s al eady implici in any cons uc ion and men ion o " he people".”
52
amalgamou e po encializou ais ans o mações, “inaugu ando uma no a es u u a social
p edominan emen e baseada em edes . . . a sociedade de ede” (Cas ells, 2003, p. 8).
Desde en ão, a “ ede global de edes de compu ado es cujo uso é acili ado pa a o
usuá io pela www” (Cas ells, 2003, p. 13) ganhou dimensões inimaginá eis e impac ou á ias
elabo ações eó icas. “A In e ne é o ecido de nossas idas” é a p imei a ase do li o A galáxia
da in e ne de Cas ells (2003, p. 7). Po sua ez, B uce Bimbe (1998) lis ou algumas
colocações de eó icos polí icos ace ca das po encialidades das no as ecnologias
comunicacionais pa a uma ‘ eledemoc acia’, ‘ epública ele ônica’, ‘ e cei a g ande época da
democ acia’ e hou e a é quem especulasse a ‘e apo ação do Es ado-nação’ em unção delas.
Alegações impo an es po que, segundo Bimbe (1998, p. 134), “implicam ei indicações mais
undamen ais sob e o papel da comunicação na es u u ação da p á ica polí ica”
66
.
A wo ld wide web po encializou a In e ne como “um meio de comunicação que
pe mi e, pela p imei a ez, a comunicação de mui os com mui os, num momen o escolhido, em
escala global” (Cas ells, 2003, pp. 8, 17). Essa mi íade de possibilidades in o macionais e
comunicacionais – disponí eis pa a mui as o ças sociais, mas ambém pa a múl iplas o ças
polí icas e econômicas – é egula men e apon ada po es udiosos como um dilema pa a a es e a
pública e consequen emen e pa a a democ acia (Bimbe , 1998; Blumle & Ka anagh, 1999;
Blumle , 2016; Dahlg en, 2005; Ga cia, 2016). A lexibilidade e dis ibuição das edes pode
aca e a di iculdades em e e i a ações, o ganiza ecu sos ma e iais ou in e esses cí icos dado
o amanho e complexidade dessas edes – ambém em unção de uma cul u a o ganizacional
hie á quica, endo em is a que as edes e am p edomínios da ida p i ada –, mas com as
ecnologias da in o mação e comunicação possibili adas pela In e ne essa adap abilidade se
ecoloca, eposicionando a supos a “na u eza e olucioná ia” da In e ne (Cas ells, 2003, p. 8).
As pe spec i as de uma ‘sociedade global da in o mação’ eme gem ins i ucionalmen e
em 1995, na cimei a do G7 em B uxelas (Ga cia, 2016), onde as linhas ge ais da ans o mação
do capi alismo cen ado nos ecu sos ma e iais se desloca pa a as po encialidades das edes
ecno-in o macionais, que ex aem das in o mações ci culan es seu p incipal alo ag egado: o
conhecimen o. Essa economia dos dados do capi alismo in o macional “exace ba a ensão en e
a p ocu a do luc o e a necessidade de as sociedades democ á icas con a em com um sis ema de
in o mação que si a adequadamen e o espaço polí ico democ á ico” (Ga cia, 2016, p. 10).
Com e ei o, nes e con ex o, o jo nalismo segue implicado nas o inas poli alen es
exaus i as (Ga cia, 2016), moni o amen o de mé icas digi ais que podem a e a a qualidade
66
T adução nossa pa a: “ hey en ail mo e undamen al claims abou he ole o communica ion in he s uc u ing
o poli ical p ac ice.”

53
jo nalís ica como de i ações da indús ia de opinião pública (Dahlg en, 2005), disseminação
do in o ainmen e cinismo delibe ado (B an s, 2005), enquad amen o no icioso de con li o ou
es a égico (Esse , S epinska, & Hopmann, 2017), p op iedades come ciais ou polí icas dos
meios (Mesqui a, 2007), pe sonalização populis a da polí ica (Bos & B an s, 2014) e c.
Bimbe (1998) e le iu empi icamen e sob e a expansão do acesso às in o mações
polí icas e as possibilidades dos cidadãos ap ende em pa a agi poli icamen e, ponde ando os
e ei os dos luxos in o ma i os an o na pa icipação polí ica quan o na o ganização dos
in e esses comuni á ios. O au o concluiu que o aumen o de in o mações e opiniões ci culan es
não p omo eu mais ação polí ica popula e que o conhecimen o sob e o con eúdo das in e ações
sociais na In e ne não a o ecia pensa num ap imo amen o polí ico amplo da comunidade,
pois “os e ei os p e is os da comunicação expandida são limi ados pela disposição e capacidade
dos humanos de se en ol e em uma ida polí ica complexa”
67
(Bimbe , 1998, p. 136). Pouco
di e en e da longa dis ância que Ga cia (2016, p. 12) obse a pa a “um espaço público em que
a acionalidade comunica i a habe masiana pode a ança com ela i a acilidade”.
As ques ões subjacen es aos achados de Bimbe ondam a capacidade de mobilização e
o pensamen o c í ico, que não se esume à escola idade pois demanda educação midiá ica
68
(Cas ells, 2019). Essas obse ações são ca as a es e abalho po que o a o polí ico obje o des a
análise ins umen aliza es as dimensões. Jai Bolsona o em como oco comunicacional a
mobilização cons an e (Engesse , E ns e al., 2017) do seu elei o ado ia mídias digi ais, donde
dispa a seguidos a aques ou insinuações gené icas e cínicas ‘con a o sis ema’, numa
sis emá ica desac edi ação das eli es (E ns , Engesse , Büchel, Blassnig, & Esse , 2017) –
p incipalmen e polí icas, cul u ais e da mídia –, que diz lu a con a em nome do po o.
A quan idade de in o mações e o olume de opiniões polí icas ci culan es na In e ne
despe a egozijo (Schudson, 2008), mas há quem p e i a i além dos núme os e a en a à
qualidade do uso
69
(Cas ells, 2003). Se em 1995, p imei o ano de uso os ensi o da www, e am
16 milhões de usuá ios, p e isões apon a am um bilhão de usuá ios em 2005 e dois bilhões em
67
T adução nossa pa a: “ he an icipa ed e ec s o expanded communica ion a e limi ed by he willingness and
capaci y o humans o engage in a complex poli ical li e.”
68
Em 2018, de aco do com o Indicado de Al abe ismo Funcional (Ina ), 30% da população b asilei a en e 15 e
64 anos e am ‘anal abe os uncionais’ (ní eis anal abe o e udimen a ). Segundo a pesquisa, 86% desses
anal abe os usam o Wha sApp, 72% usam o Facebook e 31% usam o Ins ag am. São usuá ios equen es de mídias
sociais. “Essas pessoas não ão i a p o ei o das edes sociais pa a consegui in o mações, ga an i di ei os,
po que não conseguem disce ni con eúdos. Te iam a mesma limi ação com um jo nal esc i o, po exemplo; a
di e ença é que es e elas não ão acessa ”, a gumen a Ana Lima, coo denado a da pesquisa (Faja do, 2018).
69
Numa en e is a ao jo nal O Globo, o sociólogo Manuel Cas ells (2019) disse que “ i emos em uma sociedade
de in o mação desin o mada”. Ele a gumen a: “Po um lado, emos mundos de edes de in o mação, de meios que
in adem o conjun o de nosso pensamen o cole i o, e ao mesmo empo pouca capacidade de educação das pessoas
pa a en ende , p ocessa , decidi e delibe a . Isso é o que chamo de uma e a da in o mação desin o mada.”
54
2010 (Cas ells, 2003). O Digi al 2020: Global O e iew Repo egis ou 4,54 bilhões de
usuá ios da In e ne – 59% da população mundial – e 3,80 bilhões são usuá ios a i os de mídias
sociais (We A e Social & Hoo sui e, 2020a). No B asil, segundo dados da TIC Domicílios 2019
(CGI.b , 2020), ce ca de 50,7 milhões de domicílios es ão conec ados à In e ne – 71% das
esidências com acesso à ede, que somam ce ca 133,8 milhões de usuá ios de In e ne – 74%
dos b asilei os com 10 anos ou mais es ão conec ados ( e G á ico 1). Desses usuá ios, 95%
em a p óp ia casa como local mais comum de acesso. Den e os disposi i os, 99% acessam a
In e ne ia elemó el, 42% ia compu ado , 37% pela ele isão e 9% a a és de apa elho de
ideogame ( e G á ico 2). Toda ia, 58% dos usuá ios acessam apenas ia elemó el e 85%
dos usuá ios das classes sociais DE – os mais pob es – acessam somen e ia elemó el.
70
G á ico 1 – Domicílios com acesso à In e ne e usuá ios da ede no B asil (2010–2019)
Fon e: Ce ic.b – TIC Domicílios 2019 (CGI.b , 2020).
O ano de 2005 ma cou a abe u a aseada do Facebook ao público ge al (boyd & Ellison,
2007) – si e de ede social que se o nou um dos maio es conglome ados de mídia e publicidade
digi al do mundo. No B asil, o Facebook é a segunda pla a o ma de mídia social mais acessada
70
Quando obse ados indicado es combinados, os dados e elam dispa idades na qualidade do acesso à ede,
endo em is a que o disposi i o pode amplia ou limi a po encialidades de uso, assim como o ipo de acesso
ambém a e a. Realidades socioeconômicas e in aes u u ais que e omam e lexões de Cas ells (2003, p. 8): “se
excluído dessas edes é so e uma das o mas mais danosas de exclusão em nossa economia e em nossa cul u a”.
27
36 40 43
50 51 54
61
67 71
41
46 49 51 55 58 61
67 70 74
2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 2019
% do To al B asil de domicílios e da população
Domicílios com acesso à In e ne Usuá ios de In e ne
55
com 90% de usuá ios da In e ne en e 16 e 64 anos au odecla ados – a mídia social mais usada
é o YouTube com 96% de usuá ios au odecla ados (We A e Social & Hoo sui e, 2020b). Mas
os “si es de ede social” êm uma his ó ia an e io ma cada pela c ia i idade e algumas
polêmicas (boyd & Ellison, 2007). E a p oli e ação de mídias sociais com a Web 2.0, a pa i
de 2007, delineou um pon o de in lexão nas campanhas elei o ais, especialmen e com a bem-
sucedida es a égia de Ba ack Obama no Twi e em 2008 – embo a, pa a Ans ead e Chadwick
(2008, p. 56), essa ‘his ó ia de sucesso’ con e só pa e da hisó ia, po que minimiza o papel da
ele isão e imp ensa, além dos di e en es desenhos ins i ucionais que incidem sob e a In e ne .
G á ico 2 – Usuá ios de In e ne po disposi i o usado pa a acesso indi idual no B asil
Fon e: Ce ic.b – TIC Domicílios 2019 (CGI.b , 2020).
boyd & Ellison (2007) o e ece am uma de inição pa a si es de ede social que ganhou
ele ância na li e a u a – apesa de c í icas pela ausência de c í ica da economia polí ica que
sus en a ais si es (Bee , 2008). Dadas as con ínuas e acele adas mudanças no ecossis ema
digi al, Nicole Ellison e Danah Boyd (2013)
71
o e ece am uma a ualização da de inição:
71
Consul a Nicole B. Ellison and Danah M. Boyd (2013). Sociali y h ough social ne wo k si es. In William H.
Du on (Ed.), The Ox o d Handbook o In e ne S udies (pp. 151-172). Ox o d: Ox o d Uni e si y P ess.
76
89 93 96 97 99
80
65
57
51
43 42
7
13 17 22
30
37
58 8 999
2014 2015 2016 2017 2018 2019
% do o al de usuá ios de In e ne no B asil
Telemó el Compu ado (desk op, no ebook, able ) Tele isão Apa elho de ideogame
56
Um si e de ede social é uma pla a o ma de comunicação em ede na qual os
pa icipan es 1) possuem pe is de iden i icação única que consis em em
con eúdos p oduzidos pelo usuá io, con eúdos o necidos po ou os usuá ios,
e/ou dados o necidos pelo sis ema; 2) podem a icula publicamen e
conexões que podem se is as e c uzadas po ou os; e 3) podem consumi ,
p oduzi e/ou in e agi com luxos de con eúdo ge ado po usuá ios o necidos
po suas conexões no si e (Ellison & Boyd, 2013, p. 158 ci ado po Recue o,
Bas os & Zago, 2018, p. 26).
72
A ap op iação dos si es de ede social pelos usuá ios ez eme gi o enômeno das mídias
sociais, “que ho izon aliza ainda mais os p ocessos de comunicação, dá ou a o ça ao papel
dos nós da ede” (Recue o, Bas os, & Zago, 2018, p. 29), con e indo a essas ecnologias de
comunicação po encialidades pa a p omo e uma es u u a de p odução de con eúdos que é
de i ada da ação/in e ação dos a o es em ede, isibilizando ou não ce as in o mações ou umas
mais que ou as en e as conexões, ou seja, “cada nó em uma posição especí ica na es u u a
da ede e pode ou não epassa as in o mações que ecebe pa a o es an e de sua ede” (Recue o
e al., 2018, p. 30). A ualmen e, não se pode igno a que essas dinâmicas de ede nas mídias
sociais podem se a i icialmen e ope adas po e amen as ( obôs ou bo s)
73
que manipulam
ações/in e ações en e usuá ios ou pa a con eúdos, a im de “in la a quan idade de a enção de
uma in o mação de modo a aze c esce sua impo ância na ede” (Recue o e al., 2018, p. 28).
Essa quan i icação da a enção é e i icá el a a és das mé icas digi ais de engajamen o
que passa am po um p ocesso de e inamen o das medições com a disponibilização de á ios
bo ões que cap am di e en es dimensões das eações do usuá io dian e de uma in e ação com
ou o usuá io ou com con eúdos in o ma i os, no iciosos ou mesmo pessoais. Segundo
Dahlg en (2005, p. 149), “com o ad en o da indús ia de opinião pública, o oco em es a ís icas
ag egadas de isões indi iduais o nou-se es abelecido”
74
. O engajamen o, assim, adqui e alo
mone á io, explica Jenkins (2016, p. 214), pa a quem a cul u a pa icipa i a emanada das edes
oi abso ida pelas es a égias da Web 2.0 ao “me can iliza o desejo do público de e mais
oz nas decisões que impac am a p odução de mídia e ci culação”.
72
T adução de Recue o, Bas os e Zago (2018) pa a: “A social ne wo k si e is a ne wo ked communica ion pla o m
in which pa icipan s 1) ha e uniquely iden i iable p o iles ha consis o use -supplied con en , con en p o ided
by o he use s, and/o sys em-le el da a; 2) can publicly a icula e connec ions ha can be iewed and a e sed
by o he s; and 3) can consume, p oduce, and/o in e ac wi h s eams o use -gene a ed con en p o ided by hei
connec ions on he si e”.
73
Es udo ealizado pelas pesquisado as Isabela Kalil e Rose Ma ie San ini e elou que 55% das 1 milhão e
duzen as mil pos agens que usa am a hash ag #Bolsona oDay o am ealizadas po ‘ obôs, con as au oma izadas
ou semiau oma izadas’ à época de uma mani es ação que obje i a a apoia posições de Jai Bolsona o ace ca da
pandemia de Co id-19. O ela ó io é in i ulado ‘Co ona í us, pandemia, in odemia e polí ica’ (Kalil & San ini,
2020). A análise iden i icou mais de 23 mil usuá ios não-humanos num o al de 66 mil usuá ios que pos a am
a hash ag. 1.700 con as que publica am a hash ag o am apagadas do Twi e ho as depois, mas a empo de publica
22 mil wee s a a o do p esiden e Bolsona o, segundo epo agem do jo nal Valo Econômico (F ei as, 2020).
74
T adução nossa pa a: “Wi h he ad en o he public opinion indus y, he ocus on agg ega e s a is ics o
indi idual iews became es ablished.”
63
inc emen a a pa icipação polí ica com a dinamização dos p ocessos comunicacionais po meio
de elações dialógicas (Blumle & Coleman, 2015), com eedback, em que o in e nau a ecebe,
p oduz, ecicla e eencaminha se e quando quise – e.g., con e indo mais ou menos alo a
de e minados quad os no icioso ou opiniões polí icas ou posições públicas de a o es do
go e no. Na ideia base de sobe ania popula da democ acia – não no sen ido populis a buscando
subjuga as ins i uições –, a possibilidade dos cidadãos se mani es a em pública e egula men e
com eal capacidade de a e a possí eis decisões que inicialmen e se iam con á ias ao bem
comum (a comunidade) é pe inen e, pos o que é o exe cício egula e a en o ace ca das ques ões
públicas que o imizam as p á icas cí icas. “Es e ipo de in e a i idade ho izon al, quando a inge
um luxo demog a icamen e impo an e de comunicação polí ica, é capaz, po sua ez, de
p oduzi eno me e ei o sob e os ou os campos e sis emas sociais” (Gomes, 2005, p. 68).
Pode-se ponde a a qualidade desse exe cício cí ico ou do que Blumle e Coleman
(2015, p. 122) a am como “p á icas de in e a i idade de mídia ho izon al”
91
, e e indo-se à
di iculdade de man e dis inções en e as comunicações de massa e comunicação in e pessoal
92
,
e aqui pode-se pensa ambém na di iculdade de es abelece dis inções en e es ilos de
comunicação in e pessoal e ins i ucional, ao in e agi com pe is ou páginas de ó gãos públicos,
de pa lamen a es ou che es de Es ado nas mídia sociais. Waisbo d e Amado (2017), po
exemplo, concluí am que a in e a i idade possibili ada pelo Twi e oi p ejudicada ou
delibe adamen e limi ada po p esiden es populis as da Amé ica La ina que op a am po um
uso unidi ecional ( ansmissão), di ulgação de mensagens de in e esse con oladas, apenas
isibiliza au o idade, cons ange jo nalis as e cidadãos c í icos e ob e a enção da mídia;
embo a os au o es econheçam que, po ezes, a incilidade ou ispidez dos comen á ios
a ugen em a o es polí icos de se en ol e em em in e ações (Waisbo d & Amado, 2017).
As jus i ica i as de agen es públicos pa a se eximi em de usos in e a i os nas mídias
sociais não são homogêneas, segundo Waisbo d e Amado (2017), mas podem se i como
escudo polí ico ou esqui a an ecipada pa a não se dispo à con e sação pública, ou ca egam
algum g au de eli ismo de au o idade. Também podem e o ça “os p econcei os acionais da
pe spec i a de democ acia delibe a i a”
93
habe masiana com seus ideais al i os, segundo
Dahlg en (2005, p. 155), que apon a as elações de pode al amen e desiguais nas es e as
públicas como elemen o compensado pa a uma in e ação polí ica e en ualmen e mais en á ica
91
T adução nossa pa a: “ho izon al media in e ac i i y p ac ices”.
92
Blumle e Coleman (2015, pp. 122-123) a gumen am: “in an age when sociable encoun e s a e jus as likely o
occu ia Facebook o Twi e as in physical space, i becomes necessa y o hink in e ms o wha Baym and Boyd
(2012) call "socially media ed publicness".”
93
T adução nossa pa a: “The a ional biases o he delibe a i e democ acy pe spec i e”.

64
ou que p escinda da delibe ação como o ma de in e ação. A é po que Waisbo d e Amado
(2017, p. 1342) a gumen am que “mais p eocupan e é o a o de que eles [p esiden es la ino-
ame icanos] usa am o Twi e pa a assedia indi íduos e o ganizações que c i ica am posições
e polí icas o iciais”
94
. Dahlg en (2005), en ão, p opõe econhecimen o às ‘cul u as cí icas’ –
a a essadas po po encialidades e ulne abilidades. Nes e sen ido, po sua ez, Recue o e al.
(2018, p. 32) econhecem que “é a ep odução e a con es ação de discu sos, o con li o das
con e sações e sua ampliação que ão da a essas e amen as a ca ac e ís ica de mídia”.
3.2.3. ATORES NÃO-ELITE
A ideia de libe dade ge almen e a a essa o pensamen o social sob e a In e ne , como
se ela osse uma ma e ialização dos ideais libe á ios que alguns de seus desen ol edo es
nu iam enquan o desenha am as linhas ge ais das á ias ecnologias de edes que in eg am a
Rede – uma espécie de comunidade global com seu “li e luxo de in o mação” (Gomes, 2005,
p. 67) –, onde go e nos ou nações de nenhuma na u eza se iam capazes de se impo sob e os
con eúdos, as opiniões e as libe dades de exp essão. Hoje, sabe-se que a In e ne e as mídias
não são p op iamen e o e eno das libe dades idílicas, dos li es luxos, mas ainda há espaço
pa a alguns daqueles ideais libe á ios. Jai Bolsona o, po exemplo, cos uma exal a “a
libe dade das mídias sociais, que essas sim azem a e dade”, enquan o acusa ei e adamen e
que a “maio áb ica de ake news es á na g ande pa e da imp ensa b asilei a” (And ade, 2020).
A ideia de uma ede “sem il os nem con oles” (Gomes, 2005, p. 67) pa ece ag ada
ao p esiden e Jai Bolsona o – um conse ado de di ei a au odecla ado, mas ejei ado po
conse ado es que lhe a ibuem um eaciona ismo au o i á io – mas ambém aos pa idos
populis as de di ei a de á ios países, segundo Esse e al. (2017), em deco ência da
desap o ação ao jo nalismo p o issional que ende a se bas an e c í ico às pau as e à e ó ica
in lamada desses a o es polí icos que, pa a e i a os ques ionamen os e con aposições mais
elabo adas de o mado es de opiniões e acadêmicos que publicam na imp ensa, di ecionam suas
mensagens polí icas e elei o ais p incipalmen e pa a o ambien e digi al, que em si es pessoais
na In e ne , pe is nas mídias sociais ou mesmo si es no iciosos de inclinação pa idá ia.
Donald T ump se egozija a de se conside ado “o melho esc i o de 140 ca ac e es do
mundo! É ácil quando é di e ido” (Jo nal Nacional, 2021), disse ce a ez o ex-p esiden e
94
T adução nossa pa a: “Mo e oubling is he ac ha hey used Twi e o ha ass indi iduals and o ganiza ions
c i ical o o icial posi ions”.
65
no e-ame icano des acando sua habilidade no Twi e
95
. Jai Bolsona o, admi ado decla ado
de T ump, ambém az mui o uso do Twi e , mas é ce amen e no Facebook que ele se sen e
mais à on ade, não à oa, desde as p imei as semanas de sua p esidência, Bolsona o az
ansmissões ao i o (li es) odas as quin as- ei as à noi e, na pla a o ma de mídia de Ma k
Zucke be g. Tal como o si e de ede social YouTube, o Facebook eúne “elemen os de
comunicação de massa em ede…, que pe mi em que indi íduos e g upos se ap esen em pa a
audiências globais conside á eis sem a necessidade de passa pelo il o de con ole da mídia
p o issional”
96
, explicam Blumle e Coleman (2015, p. 123), que apon am essa po encialidade
das mídias sociais pa a chama a enção à des egulamen ação
97
dessas mídias, endo em is a
que o sis ema de mídia con encional e os p o issionais que nela abalham, em mui os países,
es ão sujei os a á ios ipos de egulamen ações p o issionais, o ganizacionais e ju ídicas
98
.
As uncionalidades das ecnologias digi ais que endem à ampliação e econ igu ação
cons an es compa ilham e ei os sociais, polí icos e econômicos (Ge baudo, 2018), e
demandam adap ações nos negócios da mídia con encional, que é a e ada pela a qui e u a dos
negócios das mídias digi ais; ou se subme e às decisões das g andes co po ações ou abandona
as pla a o mas, como ez o jo nal Folha ao deixa de publica no Facebook (Folha de S.Paulo,
2018) quando a pla a o ma anunciou mudanças no algo i mo que isibiliza ia mais pos agens
de amigos e amilia es e menos con eúdos jo nalís icos (Ing am & Sandle, 2018). Essas e ou as
mudanças, apesa de signi ica i as, não e i a am dos jo nalis as p o issionais e eículos de
imp ensa a p imazia sob e a seleção, p odução e di usão de no ícias – le an amen o do jo nal
Folha de S.Paulo, em 2014, e elou que 61% dos links compa ilhados nas mídias sociais
inham o igem na imp ensa p o issional (Folha de S.Paulo, 2014) –, po ém complexi ica am os
95
Donald T ump p o e iu sucessi as acusações alsas de aude nas eleições p esidenciais à imp ensa e em suas
mídias sociais. Isso culminou na in asão do Capi ólio, sede do Cong esso dos EUA, em 6 de janei o de 2021
(F enkel, 2021). T ump mobilizou seus apoiado es pa a en a em impedi a con i mação da i ó ia de Joe Biden.
Dian e da agédia, T ump chamou os in aso es ex emis as de ‘pa io as’, disse que ‘ aziam a coisa ce a, mas
p ecisa am i pa a casa’. A i ó ia de Biden oi con i mada. T ump insis iu em publica acusações alsas sob e as
eleições, mas seu pe il no Twi e oi bloqueado e em seguida banido de ini i amen e “de ido ao isco de mais
inci ação à iolência”, disse o Twi e Sa e y (Folha de S.Paulo, 2021). T ump inha mais de 88 milhões de
seguido es. Publica a 18 pos agens ao dia em média. Segundo The Washing on Pos , Donald T ump publicizou
mais de 26 mil men i as du an e qua o anos de manda o (Jo nal Nacional, 2021). Jai Bolsona o lamen ou a
“censu a às mídias sociais” após eação das pla a o mas con a Donald T ump (Cole a & Resende, 2021).
96
T adução nossa pa a: “elemen s o ne wo ked mass communica ion... which enable indi iduals and g oups o
p esen hemsel es o sizeable global audiences wi hou needing o pass h ough he ga ekeeping il e o he
p o essional media.”
97
A des egulamen ação das mídias digi ais em á ios países em di icul ado a aplicação de sanções ou epa ação
de danos p o ocados po o ensas, di amações, inci ação à iolência ou discu sos de ódio em di e en es canais da
In e ne que, pela p óp ia con igu ação ansnacional das edes de compu ado es, po ezes, es ão o a dos limi es
de ju isdição dos espec i os cidadãos/g upos/Es ados a e ados (Blumle & Coleman, 2015).
98
Pa a uma discussão inicial sob e ques ões ela i as a egulamen ações, consul a o ela ó io “In e ne e eleições
no B asil: diagnós icos e ecomendações”, publicado pelo In e ne Lab (C uz, Massa o, Oli a, & Bo ges, 2019).
66
papéis que an es e am cla amen e di e enciados en e os meios, jo nalis as, agen es públicos e
cidadãos (Chadwick e al., 2018). É nes e cená io de eo ganização dos papéis que as mídias
sociais passam a o e ece “um canal pa a o desejo populis a de ‘ ep esen a os não
ep esen ados’, dando oz a quem não em oz e uni icando um po o di idido”
99
, explica
Ge baudo (2018, p. 746), indicando uma ‘a inidade ele i a’ com o populismo, e con a os
supos os p econcei os eli is as do es ablishmen p o egido pelos in e esses da g ande mídia.
Ge baudo (2018) apon a a o es ideológicos e um compo amen o ansg esso que
a a essou a cul u a digi al nas décadas de 1960-1970, que essu gem com a ap op iação das
mídias sociais – como ‘a oz do po o’ – ma cada po seguidas c ises econômicas, descon iança
gene alizada dos pa idos polí icos e ins i uições ep esen a i as nes e início de século XXI.
Somadas às ans o mações sociocul u ais e ecnológicas acele adas que a ouxa am laços
sociais adicionais, lexibiliza am modelos de abalho e modelos amilia es, além dos
símbolos cul i ados pelo neolibe alismo como ‘do i you sel ’, o ‘emp eendedo ismo de si’, um
hipe indi idualismo que sob e alo iza noções de espon aneidade e uma au en icidade cínica
em con aposição ao que se ia o espí i o cole i is a do populismo (Ge baudo, 2018, p. 748), as
mídias sociais o nam-se palco pa a polí icos populis as incendiá ios buscando mobiliza e
“ undi indi íduos a omizados no co po cole i o do po o”
100
.
A pa i desse quad o de c ise ou pe cepção compa ilhada de c ise, apa en emen e
pa adoxal, a lei u a pano âmica de Ge baudo dialoga com a noção de “populismo de
p o es o”
101
desen ol ida po K iesi (2014, p. 368), que mesmo a ando do cená io polí ico da
Eu opa Ociden al é aplicá el, com ajus es, ao caso de Jai Bolsona o
102
, um desa ian e populis a
que pe co e as ês o mas desc i as po K iesi em di e en es medidas e ci cuns âncias.
Como desa ian e ascenden e no sis ema pa idá io – com décadas de a uação
pa lamen a mas que só ganhou p ojeção a pa i de 2014 numa sé ie de e en os polí icos –,
Bolsona o poli iza demandas sociais impo an es negligenciadas pelos pa idos b asilei os
es abelecidos – e.g., a co upção sis êmica que se esp aia pela adminis ação do Es ado; ambém
a ques ão da segu anção pública, num país ma cado po uma iolência b u alizada e
99
T adução nossa pa a: “a channel o he populis yea ning o ‘ ep esen he un ep esen ed’, p o iding a oice o
a oiceless and uni ying a di ided people.”
100
T adução nossa pa a: “ using a omised indi iduals in he collec i e body o he people”.
101
T adução nossa pa a: “‘p o es populism’ mobilised by pe manen challenge pa ies a he ma gin o he pa y
sys em.”
102
Jai Bolsona o dialoga com o ças polí icas eu opeias e no e-ame icanas de di ei a desde an es de se elei o
p esiden e. Seus ilhos pa lamen a es ambém a uam nessa ede in e nacional de apoios polí icos do que
denominam “no a di ei a”. Essa ede polí ica se o aleceu, p incipalmen e, no as o da eleição de Donald T ump
em 2016, com a iculação de S e e Bannon e seu The Mo emen com sede em B uxelas (Pode 360, 2018).
67
disseminada, em deco ência de uma desigualdade socioeconômica lag an e, mas as p opos as
de Bolsona o esumem-se a um puni i ismo ainda mais b u o e nada essocializá el
103
.
A ejeição adical de Jai Bolsona o à igu a do polí ico como al e de alguns pa idos
es abelecidos es á egis ada nos con eúdos analisados nes a pesquisa. Bolsona o a aca
du amen e ONGs, sindica os, pa idos de esque da e mo imen os sociais, com des aque pa a o
PT e o PSOL, o MST e o MTST, espec i amen e, que ele c iminaliza delibe adamen e, além
de ei e adas insinuações de co upção lançadas sob e os go e nos es aduais e municipais
104
, e
a aques e en uais aos pa idos de cen o-di ei a PSDB e MDB – e elando sua an ipolí ica.
Con udo, é nas a enas sociocul u al e emocional – em âmbi o ampliado e elacional
incluem a cul u a polí ica, as exp essões a ís icas, o abalho acadêmico e in elec ual, ques ões
de sexualidade e gêne o, além da mo alização eligiosa da polí ica – que os públicos desses
desa ian es populis as mais ib am
105
. Tal como a ai a e o êx ase populis a de Nigel Fa age
106
,
no Reino Unido, a pe o mance populis a (Mo i & To mey, 2014) desses a o es eque um
público indignado e e ol ado ‘con a odo o sis ema’. A e ó ica é apocalíp ica po que é uma
p omessa de es au ação que só pode oco e com a supos a ‘des uição do sis ema’. Pa a além
das es a égias de lança descon iança gene alizada sob e a o es polí icos e adminis ações de
go e nos, e a aca sis ema icamen e a mídia con encional, Jai Bolsona o ambém p omo e a
desac edi ação das ins i uições de ensino supe io públicas, a ibuindo às ins i uições acusações
anedó icas de ‘an os esque dis as’, ‘ áb icas de mili an es’ ou ‘dou inação comunis a’.
“A polí ica do choque cos uma se u ilizada de o ma conscien e como uma es a égia
con a-hegemônica adical quando exis e uma pe cepção po pa e dos memb os de
de e minados públicos de que suas ideias não ci culam em públicos dominan es”, explicam
Rocha e Medei os (2020). Uma mis u a de eo ias conspi a ó ias, essen imen os, discu sos de
ódio dissimulados e e ol as con a ‘inimigos do po o’ imaginá ios e omnip esen es. Se ia
exaus i o supo a essa eng enagem psicopolí ica não ossem alguns elemen os que ao passo
103
Pa a a an opóloga Isabela Kalil (2019), “Bolsona is as não são con a di ei os no absolu o, mas de endem uma
noção pa cial de di ei os e de Jus iça, sendo con á ios a sua uni e salização. Tal sele i idade es á elacionada a
uma noção mui o especí ica de ‘pessoa’ – nos e mos do an opólogo Ma cel Mauss –, endo como e e ência a
noção de ‘cidadão de bem”. Es a noção mo alis a da polí ica, além de ilibe al, é a amen e egis ada na li e a u a.
104
Pa a Manuel Cas ells, Jai Bolsona o busca es abelece “uma di adu a O welliana, de ocupa as men es. Isso se
az acusando de co upção qualque ipo de oposição. Como a co upção es á em oda pa e, en ão pe segue-se
apenas a co upção de polí icos e pe sonalidades que se oponham ao egime. Esse ipo de di adu a só pode
unciona com um po o cada ez menos educado e mais subme ido à manipulação ideológica” (Cas ells, 2019).
105
Le an amen o da Di e o ia de Análise de Polí icas Públicas da Fundação Ge úlio Va gas mos ou: “Quando
Bolsona o pos a coisas polêmicas, ligadas à pau a de cos umes ou que êm um con eúdo de con on ação, ele colhe
de ol a uma espos a exp essi a de seus apoiado es”, disse Ma co Ruedige . Temas pessoais ambém engajam.
Inicia i as e ações de go e no ge am menos engajamen o do público nas mídias do p esiden e (Shalde s, 2019).
106
Ve The Gua dian: “Rage, ap u e and pu e populism: on he oad wi h Nigel Fa age” (Lewis, 2019).
68
que sua izam ambém ajudam a man e essa eng enagem abaixo do ada de e en uais
p ocessos judiciais. São ins umen ais pa a essa a iculação mobiliza ou acessa públicos
inad e idos: au en icidade
107
, cinismo e humo – a cul u a dos memes
108
assume o palco.
Pa a a socióloga Es he Solano, “Bolsona o sabe mui o bem u iliza as edes sociais,
conhece a linguagem que i aliza, usa ases cu as de e ei o apela i o, c ia polêmica, ala o
que pensa. Ele é um pe o me ” (Machado, 2017). As á icas comunicacionais de Jai Bolsona o
nas mídias sociais passam po e es i os emas polí icos, socioeconômicos e in aes u u ais
complexos que a ligem a população b asilei a num man o de gue a cul u al simpli icado a, em
que a polí ica passa a se en endida sem nuaces nem possibilidades pa a delibe ações ou
comp omissos com pe spec i as plu ais. Ins ala-se uma lógica polí ica do ‘amigo s. inimigo’
que a a essa odos os emas da ida pública, inclusi e emas de o dem écnica e cien í ica –
como nes a pandemia global de co ona í us em que polí icas públicas sani á ias
109
são a e adas
pela nebulosa e ó ica ins umen al de ‘nós s. eles’. Ge almen e enquad ada na ó ica da
au en icidade
110
e espon aneidade das ‘pessoas comuns na ua’
111
. Além do humo cínico e
es a egicamen e ambi alen e na e ó ica de Bolsona o. Enquad amen o p opos o e acei o
ambém po jo ens elei o es
112
que ei e am apoio ao ‘an ipoli icamen e co e o’ do desa ian e.
107
Segundo Michael Schudson (2008, p. 178), “há á ios casos documen ados no passado em que um candida o
demons ou de e minada posição de independência ace ao pode pa idá io ou ace às eg as adicionais do deba e
polí ico, e in a ia elmen e os media aplaudi am-no pela au en icidade”.
108
Repo agem de Leand o Machado (2017), pa a BBC B asil, no iciou: “O es udan e de adminis ação Gab iel
A aújo conheceu o depu ado ede al Jai Bolsona o em um meme no Facebook. E a inal de 2013, e o jo em da
Baixada Fluminense, hoje com 22 anos, es a a desencan ado com a polí ica e com o país. Não ac edi a a em mais
ninguém. Foi depois do meme que nasceu sua admi ação ao hoje p é-candida o à P esidência da República”.
109
Repo agem do jo nal Folha de S.Paulo no iciou que o p esiden e Jai Bolsona o oi in o mado da in enção de
comp a, pelo Minis é io da Saúde, de 46 milhões de doses da acina Co onaVac, desen ol ida pela a macêu ica
chinesa Sino ac em pa ce ia com o Ins i u o Bu an an. Assesso es do Palácio do Planal o e do Minis é io da Saúde
disse am que Bolsona o, inicialmen e, não se opôs à aquisição, mas mudou de posição dias depois após epe cussão
nega i a en e seus apoiado es nas mídias sociais (U ibe, Cancian, & Ca alho, 2020). A China é ‘o espan alho’.
110
“A au en icidade é uma ma ca do p esiden e Jai Bolsona o, ap oxima-o do cidadão comum”, disse Filipe
Ga cia Ma ins, assesso In e nacional do p esiden e Bolsona o, em en e is a à e is a Sábado (Ma ins, 2021).
111
T echo da epo agem de Paul Lewis (2019), no The Gua dian, mos a como essa discu si idade populis a a ai
elei o es: “Nigel [Fa age], he’s alking ou language, so he’s go ou o e”, says John Paine, a 64-yea -old o me
labou e . ... Nadia, a middle-aged o me Ukip suppo e , says he coun y is di ided bu “i has go no hing o do
wi h lea e and emain. I is social class. The eli is s. The us and he hem”. He husband, Ch is, adds ha his wi e
is alking abou “E on and Ha ow ypes”. “They’ e no he same as us”, he says. “The e e yman on he s ee ”.
112
Repó e Leand o Machado (2017) con e sou, an es das eleições, com jo ens po enciais elei o es de Bolsona o:
“Vi Bolsona o pela p imei a ez em 2014, em um ídeo no Facebook. Ele não ala nada pa a ag ada o po o, ou
pa a pa ece poli icamen e co e o”, disse Jéssica Melo da Sil a, de 19 anos, mo ado a de Belém. “Ele ala o que
pensa, e isso incomoda as pessoas”, diz Gab iel A aújo, de 22 anos, que mo a em Mesqui a, no Rio de Janei o.

69
3.2.4. HOMOFILIA
Den e as po encialidades que a In e ne disponibiliza e a o ece aos usuá ios em ge al,
a opo unidade de es abelece edes de ação polí ica e con e sação online pa a g upos ou
cole i idades
113
baseadas em iden idades polí icas, sociocul u ais e uma gama de a iliações e
a inidades acessi elmen e (Ca lisle & Pa on, 2013), mas que não gozam de condições nem
espaço nos “ luxos p edominan es de comunicação” pa a azê-lo (Gomes, 2005, p. 69), é mais
um econhecido con ibu o democ a izan e da ede pa a a es e a pública (Dahlg en, 2005).
Há espaço, inclusi e, pa a g upos de con aposições – mais adicais – à o dem social
es abelecida, cujas ações e in e açãos omen am es e as públicas al e na i as ou con á ias, nos
e mos de Dahlg en (2005), expandindo os luxos comunica i os ideológicos, cul u ais e
polí icos. Se expande pa a a sociedade ci il o ganizada po meio de en idades adicionais,
como pa idos, ONGs e mo imen os sociais ansnacionais, ambém amplia a isibilidade
pública de g upos com o ganização dinâmica ou empo á ia, quando não espo ádica (Gomes,
2005), po meio de no as o mas e ecu sos de ação polí ica bas an e sedu o es aos apelos da
mídia. Bimbe (1998) pe cebeu isso nos e mos do que concei uou como “plu alismo
acele ado”. Ao analisa os e ei os do desen ol imen o da In e ne sob e a democ acia no e-
ame icana, o au o e i icou duas endências eó icas que apon a am ou pa a um populismo
plebisci á io ia meios ele ônicos ou pa a um comuni a ismo que e o mula ia a na u eza da
comunidade. No en an o, Bimbe (1998, p. 155) apon ou suas conclusões pa a “uma mudança
em di eção a um sis ema de g upos emá icos que mudam mais apidamen e, com menos
es abilidade e menos dependência de es u u as ins i ucionais públicas e p i adas”
114
.
Se é ce o que a plu alização de ozes sociais ganha eco nas es e as públicas com a
In e ne , essa expansão ambém dispe sa, segundo Dahlg en (2005), uncionando como uma
an essala da agmen ação dos públicos esul an es dessa mesma ampliação de luxos
comunica i os. Em ce a medida, as conclusões de Bimbe (1998) sob e uma endência pa a
um sis ema acele ado de ‘g upos emá icos’ pode ia se pensado como an e isão do que
Dahlg en (2005) denomina po ‘gue os cibe né icos’, no sen ido de que essas o mações
g upais/cole i as podem o na -se ão acele adamen e agmen adas que endem a in iabiliza
113
A cien is a polí ica e a i is a Nailah Ne es disse: “Hou e um encon o de duas es a égias: o acesso aos espaços
de pode pa a p odução e a in e ne como uma e amen a pa a po encializa . Nas edes, emos o Black Twi e e
o a delas, há ou os mo imen os como, po exemplo, se um apaz é assassinado na a ela e en am associá-lo ao
c ime, as mães mobilizam a comunidade pa a mos a que aquela pessoa não inha nada a e .… eu alando sob e
isso, aqui na cidade, se ei silenciada. Na in e ne , eu enho uma ede ao meu lado” (Pinhei o & Po cidonio, 2020).
114
T adução nossa pa a: “a shi owa d a sys em o mo e apidly changing issue g oups, wi h less s abili y and
less dependence on p i a e and public ins i u ional s uc u es.”
70
as possibilidades cí icas p omo o as de ideias e p opos as democ a icamen e uncionais,
conside ando que é p eciso um empo social mais alongado pa a cul i á-las, mas con a iamen e
“podem a é mesmo ajuda a p omo e a in ole ância onde essas comunidades êm pouco
con a o – ou comp eensão – umas das ou as”
115
(Dahlg en, 2005, p. 152). Embo a o au o
essal e a legi imidade dos á ios g upos se euni em pa icula men e an es de socializa em.
Pos o isso, es as ‘es e as mul ipúblicas’ (Dahlg en, 2005) acele adamen e
agmen adas, quando obse adas a pa i dos a o es de opo unidades da In e ne , encon am
ade ência p omisso a à ‘lógica de comunicação populis a’ (Engesse e al., 2017).
Especialmen e em azão da p esunção de que a In e ne omen a a homo ilia (Engesse e al.,
2017), que é “a endência de indi íduos semelhan es pa a o ma laços en e si”
116
(Colleoni,
Rozza, & A idsson, 2014, p. 318). Mecanismo ge almen e explicado na li e a u a pela
conjunção en e dissonância cogni i a e p ocessos de exposição sele i a, ou seja, as pessoas
expe imen am sensações p aze osas ou econ o an es ao acessa in o mações que ea i mam
suas opiniões, ao con á io do sen imen o de es esse ou incômodo de e que econhece um
equí oco dian e de uma in o mação di e gen e, daí ende em a eduzi ou e i a a dissonância
cogni i a a a és de exposição sele i a, omen ando a homogeneidade em suas
in e ações/ iliações (Colleoni e al., 2014) – ale lemb a o quão essa ideia é ca a aos in en os
populis as. Es e enômeno da homo ilia ope a no deba e polí ico nas mídias sociais po meio
da “lógica de ag egação embu ida em seus algo i mos e a manei a como ela pode ocaliza a
a enção de um po o dispe so”
117
, explica Ge baudo (2018, p. 750).
Vale des aca um e ei o dos ecu sos de ag egação nas mídias sociais apon ado como
a o á el ao populismo, que pa ece e sido ins umen al na comunicação polí ica de Jai
Bolsona o especialmen e du an e a campanha p esidencial de 2018, e segue ope ando: “o e ei o
‘câma a de eco’ é de ido a uma endência dos indi íduos em c ia g upos homogêneos e se
ilia a indi íduos que compa ilham de sua isão polí ica”
118
, explicam Colleoni, Rozza e
A idsson (2014, p. 319). A In e ne c ia um ambien e de mídia de al a escolha, pe mi indo às
pessoas seleciona em in o mações ou no ícias consoan es aos seus in e esses e opiniões –
ambém canalizadas a pa i de suges ões de amigos e amilia es (Fe ei a, 2018),
eposicionando o papel da con iança e dos a e os nes e ci cui o –, além da possibilidade de
115
T adução nossa pa a: “ hey may well e en help os e in ole ance whe e such communi ies ha e li le con ac
wi h – o unde s anding o – one ano he .”
116
T adução nossa pa a: “ he endency o simila indi iduals o o m ies wi h each o he ”.
117
T adução nossa pa a: “agg ega ion logic embedded in i s algo i hms and he way i can ocus he a en ion o
an o he wise dispe sed people.”
118
T adução nossa pa a: “ he “echo chambe ” e ec is due o a endency o indi iduals o c ea e homogeneous
g oups and o a ilia e wi h indi iduals ha sha e hei poli ical iew.”
71
in e ação com usuá ios que se associam aos mesmos luxos de con eúdo po meio de uma
a qui e u a digi al que o e ece “uma il agem algo í mica que pe sonaliza o con eúdo
ap esen ado nas mídias sociais”
119
(Dubois & Blank, 2018, p. 731). Con udo, há pesquisas
120
que ela am endências das mídias sociais pa a e o ça a agmen ação, a segmen ação e a
consequen e pola ização
121
dos públicos (Boulianne, Koc-Michalska, & Bimbe , 2020).
São á ios os egis os em que Jai Bolsona o e e enda seu ap eço pessoal além
ea i ma o alo in o ma i o que a ibui às mídias sociais
122
, enquan o dedica à imp ensa
p o issional xingamen os e a aques
123
. Pa adoxalmen e, isso e ela o pode que ele ambém
a ibui à imp ensa, o que já e a pa en e no ‘ecossis ema in o ma i o pa alelo’ que sua es u u a
de campanha desen ol eu em mui os g upos de Wha sApp, onde os p óp ios apoiado es
p oduziam, cole a am e oca am mensagens polí icas que se iam edis ibuídas em edes
pessoais e ou os g upos públicos e p i ados em di e en es mídias sociais – uma espécie de ede
social pa alela imb icada den o do Wha sApp, que ez uma sé ie de mudanças em seu design
pa a coibi a disseminação massi a de mensagens polí icas após as eleições (Bello, 2020).
Repo agem do si e El País B asil (Beni es, 2018a) iden i icou os p incipais obje i os
de comunicação em ês g upos públicos no Wha sApp moni o ados du an e ês semanas:
p oduzi espos as às no ícias publicadas pela g ande imp ensa, dis ibui ake news, an ecipa
‘no ícias’ nega i as que supos amen e se iam publicadas e neu aliza e ei os, desac edi a
pesquisas de opinião pública e di ulga alsas decla ações de apoio de pessoas amosas.
Usuá ios in e essados em apoia o candida o Bolsona o e am desejá eis nes es g upos, po ém,
em caso de c í icas ou ques ionamen os e en uais, os mesmos e am banidos do g upo a pedido
de ou os pa icipan es, mos ando como esses g upos são espaços he mé icos à discussão
119
T adução nossa pa a: “algo i hmic il e ing which pe sonalizes con en p esen ed on social media”.
120
Pa a uma pe spec i a analí ica ace ca de e en uais di e gências ou con adições em achados de pesquisas
ace ca do ema ‘câma a de eco’, indica-se pa icula men e o a igo de Boulianne, Koc-Michalska e Bimbe (2020).
121
T echo do ex o de Shee a F enkel, publicado no The New Yo k Times, quando da in asão do Capi ólio (EUA):
“Renee DiRes a, a esea che a he S an o d In e ne Obse a o y who s udies online mo emen s, said he iolence
Wednesday was he esul o online mo emen s ope a ing in closed social media ne wo ks whe e people belie ed
he claims o o e aud and o he elec ion being s olen om M . T ump. ‘These people a e ac ing because hey
a e con inced an elec ion was s olen’, DiRes a said. ‘This is a demons a ion o he e y eal-wo ld impac o echo
chambe s’. She added: ‘This has been a s iking epudia ion o he idea ha he e is an online and an o line wo ld
and ha wha is said online is in some way kep online’.” (F enkel, 2021).
122
Jai Bolsona o disse num e en o no Palácio do Planal o: “A minha ede social al ez seja aquela que mais
in e age em odo o mundo. Somos ce ceados, como mui os que me apoiam são ce ceados. Es amos na iminência
de um dec e o pa a egulamen a o Ma co Ci il da In e ne ... a emos isso pa a que o nosso B asil possa se li e,
pa a que a sua população possa e in o mações de e dade, possa sabe o que acon ece po in e médio das mídias
sociais, que êm um papel excepcional no B asil, inclusi e na minha eleição” (Ca alho & Mili ão, 2021).
123
Po exemplo, Jai Bolsona o disse: “O maio p oblema do B asil não é com alguns ó gãos, é a imp ensa … não
é nem lixo, po que lixo é eciclá el. Não se e pa a nada, só o oca, men i a o empo odo” (Reu e s, 2021).
72
pública, se em pa a ea i ma pon o de is a e opinião únicos, ou como mic ohubs
descen alizados que o ganizam ma e ial de p opaganda a se di ulgado em di e en es mídias.
O Núcleo Jo nalismo moni o ou g upos de Facebook du an e dois meses e no iciou que,
di e en emen e do que se imagina, o si e de ede social segue mui o a i o en e os b asilei os –
apesa da debandada dos mais jo ens – e luc a i o pa a Ma k Zucke be g. Po ém descob i am
que a pla a o ma em ganhado um ôlego ex a com os g upos. Em ou ub o de 2020, e am mais
de 10 milhões de g upos a i os com 1,4 bilhão de usuá ios mensais no mundo. Essa cons elação
de usuá ios es á menos isí el e mais echada em g upos sele os – al como oco e nos g upos
de Wha sApp. Segundo a epo agem, g upos cujo e mo ‘Bolsona o’ apa ece no í ulo são mais
de uma cen ena, mui os desses com dezenas de milha es de pa icipan es – há g upos con á ios
ambém. Mas os dados analisados mos am a o ça de mobilização e in e ações p oduzidas
nes es á ios g upos em o no do e mo ‘Bolsona o’, ci ado em 5,13 milhões de pos s em g upos
públicos, em língua po uguesa, en e 1º de janei o de 2018 e 12 de ou ub o de 2020, o alizando
418,2 milhões de in e ações, conside ando “além de g upos, ambém as an pages e pe is
e i icados, o am 8 milhões de pos s e 3,2 bilhões de in e ações (likes, comen á ios e
compa ilhamen os) em menos de dois anos” (O ico, Almeida, & Spagnuolo, 2020).
A pa i desses a o es de opo unidades da In e ne pa a a polí ica populis a, é possí el
a iculá-los à sis ema ização esumida que K äme (2017, p. 1305) p opôs como cinco unções
da ede pa a o populismo de di ei a, a en ando que Jai Bolsona o se au odecla a como polí ico
de di ei a. Elabo ação da ideologia e enquad amen o dos e en os nos e mos da cosmo isão de
di ei a. Au o-socialização a a és da adoção de c enças, símbolos e alo es p óp ios de di ei a.
A i mação da ep esen ação plebisci á ia do ‘po o’ po aclamação ia like e compa ilhamen o.
Cons ução de pe cepção de ameaça ia acúmulo de in o mações nega i as de memb os das
eli es e ‘ou os’. Exposição sele i a a con eúdos ideologicamen e consoan es à cosmo isão.
Po im, quando obse adas as eng enagens e ecu sos de mídias sociais e pla a o mas
de mensagens ope acionalizadas po campanhas elei o ais de polí icos de ca iz populis a – não
somen e, mas p incipalmen e –, den e as á ias e lexões que se colocam, des acam-se duas.
P imei a, Ge baudo (2018) essal a as ‘mul idões online’ que as mídias sociais pe mi em aos
populis as o ja em em busca da ‘maio ia silenciosa’ que a li e a u a egis a – ou como
exp essão da democ acia plebisci á ia ele ônica que Bimbe (1998) an e iu. Segunda, Blumle
e Coleman (2015) ques ionam se as dico omias adicionais en e líde es polí icos e apoiado es
ainda é ú il pa a pensa mo imen os sociopolí icos cada ez mais ‘acé alos’ e apon am a
necessidade de pensa no as ipologias de mobilização, coo denação e e icácia polí ica.
79
me odológicas con i a c edibilidade ao es udo: obje i o, amos a e unidade de análise, escolha
do mé odo de cole a de dados e escolha do mé odo de análise (Beng sson, 2016, p. 10).
Resga ando a gumen os do ópico 1.4 des a disse ação, es e abalho pa e do
p essupos o de que, se Jai Bolsona o oi conside ado ‘um pouco’ ou ‘mode adamen e’
populis a po Tamaki e Fuks (2020), há uma endência pa a que as mensagens polí icas
publicadas nas mídias sociais do p esiden e b asilei o exp essem con eúdos ideológicos do
populismo. Con udo, es e abalho não oca es i amen e o a o polí ico – is o que isso
demanda ia uma abo dagem di e en e (S anye , Salgado, & S ömbäck, 2017) –, mas oca os
con eúdos das pos agens comunicadas especi icamen e na página o icial do p esiden e Jai
Bolsona o no Facebook, nos 100 p imei os dias de go e no, obje i ando mensu a os con eúdos
ela i os às espec i as dimensões da ideologia populis a a pa i de mensagens-cha e,
conside ando que pesquisado es ope am as abo dagens ideacional ou comunicacional a a és
de medidas ou g aus de populismo exp essos nos dados analisados (Aslanidis, 2016; Hawkins,
2009; Jage s & Walg a e, 2007; Oli e & Rahn, 2016; Rooduijn & Pauwels, 2011).
Pos o isso, es e abalho em a seguin e ques ão de in es igação: em que medida a
comunicação polí ica do p esiden e Jai Messias Bolsona o, na página o icial no Facebook, é
populis a? Pa a esponde essa ques ão de pesquisa ge al – cuja ampli ude pode se melho
en endida se desmemb ada em ope acionalizações do populismo como enômeno de
comunicação egis adas na li e a u a –, p opõe-se os dois obje i os especí icos abaixo lis ados.
1) Mensu a os con eúdos ideológicos populis as comunicados pelo p esiden e Jai
Bolsona o em suas pos agens no Facebook.
Es e p imei o obje i o e e e-se ao que de V eese e al. (2018, p. 426) ope acionalizam
como uso mui o equen e ou pouco equen e de con eúdos ideológicos do populismo,
iden i icá eis a a és das espec i as mensagens-cha e que compõem as dimensões da
comunicação populis a na p odução comunica i a de um a o polí ico.
2) Ve i ica as combinações e/ou equi alências dos con eúdos ideológicos populis as
comunicados pelo p esiden e Jai Bolsona o em suas pos agens no Facebook.
Es e segundo obje i o e e e-se ao que Jage s e Walg a e (2007, p. 323) analisam como
combinações de con eúdos populis as que pe mi em a dis inção de sub ipos de populismo:
populismo azio ( e e ências e apelos ao po o); populismo an ieli is a ( e e ências e apelos ao
po o e an ieli ismo); populismo excluden e ( e e ências e apelos ao po o e exclusão de ou os)
e populismo comple o ( e e ências e apelos ao po o e an ieli ismo e exclusão de ou os).
O p esen e es udo, em consonância aos obje i os apon ados, segue uma abo dagem
quan i a i a de dados quali a i os – con eúdos ca ego izados de mensagens polí icas

80
documen adas (pos agens) no si e de ede social Facebook. Tal como p opos o po Beng sson
(2016), a amos a es á de inida com base nas necessidades de in o mações pa a que a ques ão
de pesquisa seja espondida com con iança – cien e do desa io que é “c ia um c i é io de
seleção da amos a” com algum igo , como o ien a Ma ino (2018, p. 101, g i o no o iginal).
Como já pa en e no pe cu so disse ado a é aqui, es a pesquisa en oca as pos agens do
p esiden e Jai Bolsona o na página o icial no Facebook, isso e ela e egis a a unidade de
análise a se aplicada na análise de con eúdo dos dados cole ados.
O c i é io pa a de ini a seleção da amos a é empo al, mas não de inido alea o iamen e,
pois de iniu-se como ma co empo al os 100 p imei os dias da p esidência de Jai Bolsona o –
ma co empo al de inido undamen almen e po simbolismo polí ico, is o que es e ma co em
sido usado egula men e po eículos jo nalís icos de e e ência pa a a aliações iniciais de
go e nos elei os, e alguns go e nos passa am a usá-lo como ma co pa a me as adminis a i as
iniciais, o que é o caso do go e no de Jai Bolsona o, que di ulgou documen o o icial
130
onde
cons a am in a e cinco me as pa a os p imei os 100 dias de go e no.
O mé odo de cole a de dados u ilizado na pesquisa é a “análise de documen os”, na
concepção do me odólogo Ma ino (2018). En endendo documen os como “ma e iais nos quais
es á egis ado e conse ado um pedaço da p odução cul u al” (Ma ino, 2018, p. 141). No
campo da Comunicação, isso se e e e a imagens, li os, ca as, o os, ídeos, músicas, si es
e c. Pa a ob e os documen os (as pos agens) que comp eendem o c i é io de seleção da amos a,
oi usada a e amen a Ne izz
131
– pa a ex ação de dados e análise de mé icas –
disponibilizada pelo p óp io si e de ede social Facebook à época. Fo am cole adas odas as
pos agens publicadas na página o icial do p esiden e Jai Messias Bolsona o no Facebook en e
os dias 1º de janei o de 2019 e 10 de ab il de 2019 – o alizando os 100 p imei os dias. A cole a
ia Ne izz 1.6 oi ei a numa única ope ação no dia 10 de julho de 2019. E esul ou em 312
pos agens cole adas, que compõem, po an o, a amos a analisada nes a pesquisa.
130
Em janei o de 2019, Onyx Lo enzoni – en ão minis o-che e da Casa Ci il – ap esen ou documen o com in a
e cinco me as p io i á ias pa a os 100 p imei os dias de go e no em e en o no Palácio do Planal o (B andão, 2019).
131
O si e especializado em ecnologia TechTudo de iniu o Ne izz como “uma e amen a g á is capaz de ex ai
dados de usuá ios, g upos e páginas do Facebook…. Bas an e comple o, o Ne izz baixa in o mações de
publicações, o os, comen á ios e cu idas e mos a udo em uma planilha do Excel” (Ribei o, 2018). F ise-se que
a e amen a cole a a apenas dados públicos que e am anonimizados. O si e ambém desc e e o passo a passo de
algumas uncionalidades disponibilizadas pela e amen a, como um u o ial. O Ne izz e a usado po milha es de
pesquisado es e acadêmicos – es á egis ado em cen enas de a igos cien í icos –, con udo, no dia 24 de agos o de
2019, o Ne izz pe deu acesso ao Facebook. O p og ama oi desen ol ido na Uni e sidade de Ams e dam pelo
p o esso Be nha d Riede , que lamen ou a decisão do Facebook dizendo que “academic esea ch is se o be
unneled in o new ins i u ional o ms ha o e mo e con ol han API-based da a access”. E ale ou: “independen
esea ch o a 2+ billion use pla o m jus go a lo ha de should make us a leas a li le uneasy” (Riede , 2018).
O escândalo do azamen o de dados de milhões de usuá ios do Facebook pela Camb idge Analy ica é uma das
cha es de lei u a pa a en ende o echamen o da API do Facebook ao Ne izz, segundo Be nha d Riede .
81
A pa i dessa amos a de 312 pos agens cole adas – obje i ando “o ganiza e ex ai
signi icado dos dados cole ados e i a conclusões ealis as”
132
, como explica Beng sson (2016,
p. 10) ace ca do p opósi o de qualque análise de dados –, p ocede-se a uma análise de con eúdo
que, como mé odo, se enquad a numa abo dagem quan i a i a de dados quali a i os, pos o que
e e e-se a “qualidades” ou “ca ac e ís icas” especí icas de uma mensagem ou enômeno
(Ma ino, 2018, pp. 100, 104), po ém “os a os do ex o são ap esen ados na o ma de equência
exp essa como uma po cen agem ou núme os eais de ca ego ias-cha e”
133
(Beng sson, 2016,
p. 10). Po isso, es a pesquisa mais sin e iza os de alhes ela i os ao conjun o de mensagens
analisadas do que ela a seus de alhes discu si os, po que obje i a undamen almen e mensu a
a “ex ensão” e a “densidade” da ope acionalização das qua o dimensões da comunicação
populis a – pouco ou mui o equen es e as combinações – a a és das doze mensagens-cha e
que as compõem (pa a de alhamen o me odológico, e APÊNDICES A e B).
Ou o aspec o me odológico impo an e a des aca é o ipo de análise de con eúdo no
que conce ne a uma análise mani es a ou análise la en e. Segundo Beng sson (2016, p. 10), uma
análise mani es a a a “o que” os in o man es ealmen e dizem, icando mui o p óxima ao
ex o, e ida às pala as isí eis e ób ias dos con eúdos, po sua ez, uma análise la en e se
es ende a um ní el in e p e a i o, pois busca os signi icados subjacen es no ex o, ou seja, busca
“sob e o que o ex o es á alando”. A p esen e pesquisa ope a uma análise la en e.
Isso é impo an e essal a nes a disse ação pois os con eúdos aqui analisados são
mensagens polí icas, o que de pa ida já indica o quão delicado pode se subme e ais con eúdos
a análises con iá eis – al como Jage s e Walg a e (2007, p. 339-340) ale am, ce os dados
não são obje i os, mas “in o mações p eeminen emen e colo idas”, pa icula men e mensagens
polí icas ou p opaganda polí ica, o que demanda cau ela edob ada na análise dos dados sem se
u a de analisá-los. Duas dimensões da comunicação populis a são pa icula men e delicadas
de analisa : an ieli ismo e exclusão de ou os – p incipalmen e es a úl ima. Po que de e minadas
mensagens-cha e de desac edi ação, culpabilização ou exclusão de g upos sociais especí icos
nem semp e são publicadas de modo explíci o ou sem ambiguidades es a égicas e
dissimulações. Há pos agens com a aques explíci os, como no caso de c iminosos que êm seus
di ei os humanos e ci is desconside ados, mas ambém há insinuações maliciosas ou a aques
implíci os, como no caso de eminis as e homossexuais – dependendo dos g upos sociais
a acados, pode ia con igu a c ime de acismo, xeno obia ou homo obia. Dian e des a
132
T adução nossa pa a: “o ganize and elici meaning om he da a collec ed and d aw ealis ic conclusions.”
133
T adução nossa pa a: “ ac s om he ex a e p esen ed in he o m o equency exp essed as a pe cen age o
ac ual numbe s o key ca ego ies.”
82
ambiguidade e ó ica ípica dos populis as de a i ma negando, algumas pos agens codi icadas
nes a dimensão assim como suas espec i as mensagens-cha e, pa icula men e as e e ências
aos índios, assumem o aspec o “la en e” da análise in ensamen e (Beng sson, 2016).
O a o polí ico obje o des a disse ação diz, em algumas pos agens, que os índios se ão
“in eg ados” na sociedade ou que p omo e á a “in eg ação” dos índios. No en an o, é público
e no ó io, pa a o B asil e pa a o mundo, que Jai Bolsona o a aca e nega os di ei os
cons i ucionais dos po os na i os b asilei os ei e adamen e
134
, inclusi e com ações
go e namen ais que dilapidam esses di ei os cons i ucionais desde o segundo dia de sua
p esidência. Bolsona o ques iona o pe cen ual de e as dema cadas pa a índios e quilombolas
em elação ao quan i a i o dessas populações – que deixam de se chamadas de “índios e
quilombolas” e passam a se chamadas de “pessoas” ou “cidadãos” –, que “ i em nes es luga es
isolados do B asil de e dade”. Jai Bolsona o e i a de índios e quilombolas a especi icidade
é nica e cul u al que lhes assegu a os di ei os cons i ucionais como po os na i os usando e mos
ge ais ou neu os. E “in eg ação” se e pa a escamo ea a insis ência na “desacul u ação” de
índios e quilombolas – isso ica pa en e na o o que acompanha a pos agem onde ê-se
indígenas ajando oupas ci is –, mas p incipalmen e pa a escapa de no os p ocessos judiciais
po acismo con a os po os na i os b asilei os ( e de alhes no i em 4.3 do APÊNDICE B).
4.3. RESULTADOS
Pa a e ei o de egis o e ilus ação da p esença das qua o dimensões da comunicação
populis a nas pos agens do p esiden e Jai Bolsona o no Facebook, o G á ico 4 ap esen a um
e a o ge al dos con eúdos ideológicos populis as p esen es nas pos agens do p esiden e nos
p imei os cem dias de go e no. Dos 100 dias cujas 312 pos agens o am cole adas, em 7 dias
não hou e qualque pos agem na página o icial do p esiden e, assim, as 312 pos agens es ão
dis ibuídas ao longo dos ou os 93 dias, o que co esponde a uma média simples de pouco mais
de ês pos agens po dia – e iden emen e, hou e a iações pa a mais ou pa a menos ao longo
dos dias. Desses 93 dias, 65 con êm pelo menos uma dimensão da comunicação populis a e os
demais 28 dias não con êm qualque dimensão da comunicação populis a.
134
A ONG in e nacional Su i al compilou alguns a aques e ameaças de Jai Bolsona o aos po os na i os
b asilei os – índios e quilombolas – ao longo dos úl imos anos. Em 12 de ab il de 1998, Jai Bolsona o disse ao
jo nal Co eio B aziliense: “Pena que a ca ala ia b asilei a não enha sido ão e icien e quan o a ame icana, que
ex e minou os índios”. Em 22 de ab il de 2015, Jai Bolsona o disse: “Índio não ala nossa língua, não em dinhei o,
é um pob e coi ado, em que se in eg ado à sociedade, não c iado em zoológicos milioná ios”. Em 23 de janei o
de 2020, o p esiden e Jai Bolsona o disse: “o índio mudou, es á e oluindo. Cada ez mais o índio é um se humano
igual a nós. En ão, [p ecisamos] aze com que o índio se in eg e à sociedade” (Su i al B asil, 2019).
83
G á ico 4 – Re a o das dimensões da comunicação populis a do p esiden e Jai Bolsona o no Facebook nos p imei os 100 dias de go e no
No a: as equências das dimensões da comunicação populis a co espondem às codi icações ao longo dos p imei os cem dias de go e no: 1º de janei o de 2019 a é 10 de
ab il de 2019.
0
1
2
3
4
5
6
Dia 01 - 01/01/2019
Dia 02 - 02/01/2019
Dia 03 - 03/01/2019
Dia 04 - 04/01/2019
Dia 05 - 05/01/2019
Dia 06 - 06/01/2019
Dia 07 - 07/01/2019
Dia 08 - 08/01/2019
Dia 09 - 09/01/2019
Dia 10 - 10/01/2019
Dia 11 - 11/01/2019
Dia 12 - 12/01/2019
Dia 13 - 13/01/2019
Dia 14 - 14/01/2019
Dia 15 - 15/01/2019
Dia 16 - 16/01/2019
Dia 17 - 17/01/2019
Dia 18 - 18/01/2019
Dia 19 - 19/01/2019
Dia 20 - 20/01/2019
Dia 21 - 21/01/2019
Dia 22 - 22/01/2019
Dia 23 - 23/01/2019
Dia 24 - 24/01/2019
Dia 25 - 25/01/2019
Dia 26 - 26/01/2019
Dia 27 - 27/01/2019
Dia 28 - 28/01/2019
Dia 29 - 29/01/2019
Dia 30 - 30/01/2019
Dia 31 - 31/01/2019
Dia 32 - 01/02/2019
Dia 33 - 02/02/2019
Dia 34 - 03/02/2019
Dia 35 - 04/02/2019
Dia 36 - 05/02/2019
Dia 37 - 06/02/2019
Dia 38 - 07/02/2019
Dia 39 - 08/02/2019
Dia 40 - 09/02/2019
Dia 41 - 10/02/2019
Dia 42 - 11/02/2019
Dia 43 - 12/02/2019
Dia 44 - 13/02/2019
Dia 45 - 14/02/2019
Dia 46 - 15/02/2019
Dia 47 - 16/02/2019
Dia 48 - 17/02/2019
Dia 49 - 18/02/2019
Dia 50 - 19/02/2019
Dia 51 - 20/02/2019
Dia 52 - 21/02/2019
Dia 53 - 22/02/2019
Dia 54 - 23/02/2019
Dia 55 - 24/02/2019
Dia 56 - 25/02/2019
Dia 57 - 26/02/2019
Dia 58 - 27/02/2019
Dia 59 - 28/02/2019
Dia 60 - 01/03/2019
Dia 61 - 02/03/2019
Dia 62 - 03/03/2019
Dia 63 - 04/03/2019
Dia 64 - 05/03/2019
Dia 65 - 06/03/2019
Dia 66 - 07/03/2019
Dia 67 - 08/03/2019
Dia 68 - 09/03/2019
Dia 69 - 10/03/2019
Dia 70 - 11/03/2019
Dia 71 - 12/03/2019
Dia 72 - 13/03/2019
Dia 73 - 14/03/2019
Dia 74 - 15/03/2019
Dia 75 - 16/03/2019
Dia 76 - 17/03/2019
Dia 77 - 18/03/2019
Dia 78 - 19/03/2019
Dia 79 - 20/03/2019
Dia 80 - 21/03/2019
Dia 81 - 22/03/2019
Dia 82 - 23/03/2019
Dia 83 - 24/03/2019
Dia 84 - 25/03/2019
Dia 85 - 26/03/2019
Dia 86 - 27/03/2019
Dia 87 - 28/03/2019
Dia 88 - 29/03/2019
Dia 89 - 30/03/2019
Dia 90 - 31/03/2019
Dia 91 - 01/04/2019
Dia 92 - 02/04/2019
Dia 93 - 03/04/2019
Dia 94 - 04/04/2019
Dia 95 - 05/04/2019
Dia 96 - 06/04/2019
Dia 97 - 07/04/2019
Dia 98 - 08/04/2019
Dia 99 - 09/04/2019
Dia 100 - 10/04/2019
F equências
Sobe ania popula Po o-cen ismo An ieli ismo Exclusão de ou os
84
Con o me o G á ico 5, das 312 pos agens omadas como unidades de análise, 63
pos agens (20,1%) con êm a dimensão po o-cen ismo, 59 pos agens (18,9%) con êm a
dimensão an ieli ismo, 17 pos agens (5,4%) con êm a dimensão exclusão de ou os e 5
pos agens (1,6%) con êm a dimensão sobe ania popula . As equências das dimensões, em
núme os na u ais, co espondem ao núme o de pos agens, po ém a soma dessas equências não
co esponde ao núme o o al de pos agens codi icadas, pois uma mesma pos agem pode con e
uma, duas, ês ou as qua o dimensões – isso é escla ecido nos esul ados das combinações. O
G á ico 6 ilus a as equências das doze mensagens-cha e espec i as às qua o dimensões.
G á ico 5 – F equência das dimensões da comunicação populis a de Jai Bolsona o
A dimensão sobe ania popula oi codi icada em 5 pos agens, e elando uma
equência esidual des a dimensão da comunicação populis a conside ando o conjun o das
pos agens analisadas. As duas mensagens-cha e – ‘exigi sobe ania popula ’ e ‘nega sobe ania
às eli es’ –, que compõem es a dimensão da comunicação populis a, apa ecem de modo
p opo cionalmen e esidual com 4 codi icações (2,3%) cada.
A dimensão sobe ania popula cons a nas pos agens do p esiden e Jai Bolsona o a a és
de mensagens que exp essam ideias como “o di ei o de ep esen a em a si mesmos”, “a on ade
popula mani es ada no e e endo”, “em espei o aos p incípios da democ acia” e “elei o pelo
o o popula ”. Também apa ece a a és da negação de pode ou de legi imidade de segmen os
das eli es pa a decidi ques ões impo an es que a e am o po o: como a polí ica de imig ação
5
63
59
17
Sobe ania popula Po o-cen ismo An ieli ismo Exclusão de ou os

85
assumida pelo go e no do p esiden e Michel Teme , em pac o com a ONU, ecusada pelo
p esiden e Jai Bolsona o; ou decisão do Es ado b asilei o que, segundo o p esiden e, a on a a
sobe ania popula pos o que desconside a um e e endo sob e a mamen o ci il e ele
es abelece ia a sobe ania do po o; ou quando o p esiden e ques iona a legi imidade do
Sup emo T ibunal Fede al de “legisla sob e de e minada ma é ia” ace ca da c iminalização da
homo obia usu pando p e oga i a do pa lamen o, po an o “abe amen e a en a ó ia à
compe ência do Pode Legisla i o”, segundo o p esiden e Jai Bolsona o.
A dimensão po o-cen ismo oi codi icada em 63 pos agens e é a dimensão populis a
mais equen e nas pos agens do p esiden e Jai Bolsona o. Das qua o mensagens-cha e –
‘en a iza i udes do po o’, ‘elogia ealizações do po o’, ‘a i ma um po o monolí ico’ e
‘demons a p oximidade ao po o’ –, que compõem es a dimensão, as duas p imei as são
pouquíssimo equen es, com 3 codi icações (1,7%) e 2 codi icações (1,1%) espec i amen e;
a mensagem-cha e de a i mação de um po o monolí ico em 16 codi icações (9%); a de
demons ação de p oximidade ao po o esul a na maio equência: 50 codi icações (28,2%).
Quando en a iza as i udes do po o, o p esiden e Jai Bolsona o di ige-se aos agen es
de segu ança pública – ca ego ia populacional com in e esse elei o al co ejada pelo p esiden e
– de endendo uma legislação que assegu e aos policiais usa a le alidade “em p ol do cidadão
de bem” sem medo de se em punidos; ou o p esiden e des aca as i udes mo ais dos “bons”
que apoiam ou in eg am seu go e no – isando que é uma equipe “ écnica” e “não polí ica”.
Os elogios a ealizações do po o são di ecionados aos mili a es das Fo ças A madas po
e en o ligado à Segunda Gue a Mundial ou à “ ápida e e icien e ação” de policiais mili a es
que, em con on o, esul ou na mo e de “11 bandidos”, comemo adas pelo p esiden e.
Ao a i ma um po o monolí ico, o p esiden e Jai Bolsona o insis e numa supos a
on ade comum dos b asilei os po uma polí ica de segu ança pública mais du a em p ol do
“cidadão de bem”, num supos o desejo comum de esga a uma mo alidade conse ado a e
hie a quizada, e um sis ema de educação que ise a o mação de cidadãos pa a o me cado
abalho sem qualque pe spec i a c í ica ou polí ica. Ob iamen e, esses “anseios da nação” ou
“in e esses dos b asilei os”, em comum, coincidem com as polí icas públicas que o p esiden e
mais de ende – ele ope a essa dinâmica discu si a homogeneizan e a pa i de signi ican es
lu uan es que apelam à mo al c is ã, à o dem mili a e p incipalmen e à nacionalidade.
Pa a demons a p oximidade ao po o, Jai Bolsona o se coloca como um soldado da
nação, um uncioná io do po o, que ai “ esga a o B asil aos olhos do b asilei o e do mundo”.
O p esiden e diz que seu “comp omisso é com ocê, com o po o, com o B asil”, se diz p óximo
ao po o na simplicidade, na anqueza sem poli icamen e co e o, na “lu a diá ia pa a deixa
86
ecado cul u al e dadei o em nosso país”. Jai Bolsona o a i ma que “sob a p o eção de Deus
a á p ospe idade ao po o b asilei o”; ag adece “as o ações da g ande maio ia da população
b asilei a” pela sua ecupe ação após o a en ado que so eu, e diz que sua i ó ia elei o al
ep esen a a “espe ança de mui os b asilei os num u u o melho ”, po isso, diz que “nosso país
não pode espe a ” e “ a á mui o mais pa a que a população sin a que es á sendo a endida”. Mas
esse líde do po o e seu po o, pe cep i elmen e, não é o líde de odos nem odos in eg am o
po o: “Ac edi o no B asil como a maio ia dos b asilei os”. Jai Bolsona o usa mui os apelos
emocionais, isualmen e e e o icamen e, de comp eensão das necessidades e a lições da
população, usa mui o sua imagem de homem abalhado , de o ado ao po o e ca ismá ico.
Os e mos e e enciais de apelos ao po o mais usados são: ‘o(s) b asilei o(s)’, ‘nosso
país/nosso B asil’, ‘o po o/um po o/nossos po os’, ‘a população’ e ‘a nação/nossa nação’ – a
lis a comple a dos e mos com as equências pode se consul ada no APÊNDICE C.
A dimensão an ieli ismo oi codi icada em 59 pos agens e é a segunda dimensão
populis a mais equen e nas pos agens do p esiden e Jai Bolsona o. Essa dimensão é compos a
po ês mensagens-cha e: ‘desac edi a as eli es’ é a mensagem mais equen e com 45
codi icações (25,4%), a mensagem ‘culpa as eli es’ apa ece com 20 codi icações (11,3%), além
da mensagem ‘sepa a as eli es do po o’ com 14 codi icações (7,9%).
Dos se e ipos de eli es analisados, odos o am codi icados pelo menos uma ez na
dimensão an ieli is a, po ém com signi ica i as di e enças de equências: a ‘eli e polí ica’
cons a como a mais a acada po Jai Bolsona o com 45 codi icações (46,2%), a ‘eli e mídia’
apa ece como o segundo g upo mais a acado com 25 codi icações (27,5%), comple a o pódio
do an ieli ismo a ‘eli e cul u al’ com 16 codi icações (17,6%), mas a ‘eli e Es ado’ ambém
cons a com 3 codi icações (4,4%), enquan o a ‘eli e ju ídica’ apa ece com 2 codi icações
(2,2%), além dessas, as eli es ‘econômica’ e ‘sup anacional’ apa ecem com 1 codi icação
(1,1%) cada – pa a o de alhamen o das equências e e mos, consul a o APÊNDICE C.
Pa a desac edi a os di e en es ipos de eli es, o p esiden e lança sucessi as suspei as,
descon ianças e az insinuações con a odos os segmen os lis ados como eli es, mas
p incipalmen e con a a eli e polí ica, a eli e da mídia e a eli e cul u al. Po exemplo: az
idicula izações e o ensas aos pa idos e a o es polí icos de esque da, mas ambém à classe
polí ica em ge al, apon ando suspei as maliciosas con a ges o es es aduais e municipais ou
ó gãos da adminis ação pública do Es ado; insinuações de in e esses inancei os escusos dos
meios de comunicação social ou acusações de men i as e alsidades lançadas con a jo nalis as,
especialmen e mulhe es p o issionais da imp ensa; além de seguidas denúncias de dou inação
ideológica esque dis a que, supos amen e, oco em nas ins i uições de ensino supe io públicas.
87
G á ico 6 – F equência das mensagens-cha e da comunicação populis a de Jai Bolsona o
No a: as equências das mensagens-cha e co espondem às codi icações de ases que con êm os espec i os con eúdos, po an o, uma mesma pos agem pode
con e di e en es mensagens-cha e (12) de qualque uma das dimensões (4) da comunicação populis a. To al de 312 pos agens analisadas.
4432
16
50
45
20
14
4
87
Exigi
sobe ania
popula
Nega
sobe ania às
eli es
En a iza
i udes do
po o
Elogia
ealizações do
po o
A i ma um
po o
monolí ico
Demons a
p oximidade
ao po o
Desac edi a
eli es
Culpa eli es Sepa a eli es
do po o
Desac edi a
os ou os
Culpa os
ou os
Exclui os
ou os
Sobe ania popula
(5 pos agens)
Po o-cen ismo
(63 pos agens)
An ieli ismo
(59 pos agens)
Exclusão de ou os
(17 pos agens)
F equências
88
A culpabilização das eli es apa ece em mensagens com acusações mais conc e as e
e i icá eis de audes ou ilíci os, em go e nos de esque da p incipalmen e, mas nou os
go e nos ambém; acusação a pa idos ou a o es polí icos de esque da como supos os
de enso es de bandidos pela de esa que esses azem da aplicação dos di ei os humanos, ou da
ligação desses mesmos a o es ou pa idos com mo imen os sociais, apon ados pelo p esiden e
Jai Bolsona o, como o ganizações c iminosas; além de a aca ó gãos do Es ado po medidas
que desag adam ao go e no; ou ainda apon a supos as i egula idades em con a os ou
p og amas minis e iais de ou os go e nos ligados aos indígenas e às uni e sidades públicas.
Pa a sepa a as eli es do po o, o p esiden e usa linhas simbólicas e aça discu si amen e
di isó ias polí icas en e seu go e no e os go e nos an e io es, especialmen e os go e nos de
esque da – ompe aco dos e pac os in e nacionais; e az posições do go e no em elação a
ce os en endimen os ju ídicos; anuncia “a mudança” como “libe ação da esc a idão polí ica”
de go e nos an e io es ou de p á icas de go e nação adicionais condenadas pelo p esiden e;
ecusa polí icas educacionais an e io es acusando-as de omen a manipulação ideológica
comunis a ou p omo e compo amen os o ensi os aos alo es c is ãos e conse ado es.
A dimensão exclusão de ‘ou os’ oi codi icada em 17 pos agens. Essa dimensão da
comunicação populis a é compos a po ês mensagens-cha e: ‘desac edi a os ou os’ apa ece
com 4 codi icações (2,3%); a mensagem ‘culpa os ou os’ é a mais equen e, nes a dimensão,
com 8 codi icações (4,5%); e ‘exclui os ou os’ cons a com 7 codi icações (4%). As ca ego ias
sociais/populacionais mais a acadas pelo p esiden e Jai Bolsona o – da mais equen emen e
a acada pa a a menos equen emen e a acada – são: ‘o(s) c iminoso(s)’, ‘os índios’,
‘mo imen os sociais’, ‘comunidade LGBT+’, ‘quilombolas’, ‘(i)mig an es’, ‘muçulmanos’,
‘esque dis as eminis as’ e ‘ odo pe is a’ (pa a de alhamen o, consul a o APÊNDICE C).
Pa a desac edi a os ou os, o p esiden e Jai Bolsona o a ibui aspec os de pe e são
mo al/sexual a “ odo pe is a” (cidadão apoiado do Pa ido dos T abalhado es), mili an es do
PSOL ou a i is as do MST; idicula iza as “esque dis as eminis as” po supos amen e não
de ende em as mulhe es muçulmanas í imas dos “co a des muçulmanos”; ou az insinuações
de audes em con a os ou pa ce ias en e indígenas (Funai) e uni e sidades públicas (UFF).
A culpabilização dos ou os – de inidos como pe igosos – dá-se a a és da acusação
di e a do come imen o de c imes ou qualque a o ilíci o obje i amen e e i icá el, como az
ei e adamen e o p esiden e ao a aca a igu a dos “bandidos”, “c iminosos”, “ma ginais” ou
“ e o is as”, além dos “co a des muçulmanos”, de endendo punições mais igo osas, menos
di ei os humanos ou comemo a publicamen e a mo e desses ipos em ope ações policiais.
Con udo, essas noções de c iminalidade êm uma unção polí ica ex emada na discu si idade
95
homogeneização do po o a pa i de signi ican es da pá ia ou da nação, mas ambém na sua
dimensão é nica/ acial mais excluden e e acis a como az em elação à negação dos di ei os
dos po os na i os indígenas e quilombolas; e o au o i a ismo como isão de sociedade
hie a quicamen e o denada, mili a izada e igo osamen e puni i is a, com iolações da
au o idade sendo punidas se e amen e pelas o ças de segu ança pública – não à oa, Jai
Bolsona o man ém-se empenhado em ap o a legislação que ga an a às o ças mili a es e
policiais o uso da le alidade sem que es ejam sujei os à esponsabilização; pa a á ios
cons i ucionalis as b asilei os, isso equi ale ia a uma licença pa a ma a .
Quad o 4 – Tipos de populismo aplicados à comunicação populis a de Jai Bolsona o
Fon e: es e modelo dos ipos de populismo oi elabo ado po Jage s e Walg a e (2007, p. 335).
No a: as equências co espondem ao núme o de pos agens com as espec i as combinações.
O Quad o 4 oma emp es ado a ipologia de populismos de Jage s e Walg a e (2007)
pa a e ei o ilus a i o – cien e das limi ações e idiossinc asias do modelo, que ecebe c í icas
de pesquisado es (Ma ch, 2017), mas não deixa de se econhecido (de V eese e al., 2018). É
ú il pa a obse a mais acilmen e a composição da comunicação populis a “es aziada” do
p esiden e Jai Bolsona o. F ise-se que a dimensão sobe ania popula , pa a os au o es, es á
An issis ema
Populismo
Vazio
43 (13,7%)
Populismo
Excluden e
1 (0,3%)
Populismo
Comple o
3 (0,9%)
Populismo
An ieli is a
16 (5,1%)
Excluden e / Inclusi o

96
in eg ada na dimensão po o-cen ismo. Como a dimensão sobe ania popula cons a em apenas
5 pos agens do p esiden e, oi desconside ada com e ei o nessa ipologia, que ajuda a ilus a
po que a comunicação polí ica do p esiden e compo a um baixíssimo g au po cen ual de
populismo “comple o” ou “clássico”, po an o é um populismo de baixa densidade ideológica
e comunica p incipalmen e um “populismo azio”, com baixa po cen agem de “populismo
an ieli is a”, apon ando pa a uma pe spec i a mais an issis êmica do que populis a.
Po an o e em esumo, o p esiden e Jai Bolsona o a ega con eúdos ideológicos
populis as em suas pos agens no Facebook, pois es ão p esen es odas as dimensões da
comunicação populis a. Po ém, esses con eúdos ideológicos populis as es ão majo i a iamen e
isolados, mas a li e a u a acadêmica dominan e não os conside ada exp essão de populismo
isoladamen e, ou sem uma exp essi a equi alência en e as dimensões que os compo am. As
combinações das dimensões ap esen am baixíssimo g au po cen ual. A combinação de ‘po o-
cen ismo’ e ‘an ieli ismo’ ap esen a equência obse á el excepcionalmen e. A dimensão
‘exclusão de ou os’ (5,4%) e p incipalmen e a dimensão ‘sobe ania popula ’ (1,6%), que é
en endida como o co ação do modelo heu ís ico da ideologia populis a que no eia es a
disse ação, ap esen am equências baixa e esidual espec i amen e – mui o desp opo cionais
em elação às ou as duas dimensões: ‘po o-cen ismo’ (20,1%) e ‘an ieli ismo’ (18,9%).
Finalmen e, e le indo a pa i do apelo de Rooduijn (2019) po mais e menos oco na
pesquisa em comunicação populis a, uma in e p e ação elacional (e uma especulação pa a
pesquisa u u a) eme ge da análise. No p imei o capí ulo da disse ação, a his ó ia do populismo
oi in ocada pa a pensa a dinâmica desse enômeno polí ico, en ão, quando Finchels ein (2019)
diz que o populismo ope ou como uma e o mulação do ascismo pa a o con ex o democ á ico
do pós-gue a, eme e às a i udes polí icas ao longo de ês décadas de a uação pa lamen a do
ago a p esiden e e capi ão do Exé ci o Jai Bolsona o (suas ideias acis as e xenó obas, desp ezo
pelos di ei os humanos e ci is de mino ias, b u alidade de sua isão mili a izada de sociedade,
c iminalização dos pa idos de esque da e mo imen os sociais, a aques ao abalho in elec ual
e à imp ensa p o issional), que susci am uma ins umen alização da comunicação populis a
mais como es a égia polí ica (De B uycke & Rooduijn, 2021) – pa a mobilização social em
busca de legi imidade e pode a a és de maio ias elei o ais ci cuns anciais – do que uma adesão
ideológica plena ao populismo, obje i ando dis a ça e dilui a b u alidade de sua pe spec i a
an ipolí ica e ilibe al de sociedade com um populismo es a égico. Po isso, os ou os elemen os
que cons i uem a ‘lógica de comunicação populis a’ (Engesse e al., 2017) – nomeadamen e
a o es, es ilo e es a égia – o nam-se undamen ais pa a a comp eensão holís ica do enômeno,
que encon a no ecossis ema de mídia con empo âneo e eno é il pa a seus in en os polí icos.
97
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Como conside ações inais des a disse ação, é impo an e essal a algumas limi ações
que incidem sob e es e es udo. O quan i a i o da amos a analisada, como já ci ado, ep esen a
uma limi ação pa a qualque gene alização que se quei a aze p e ensiosamen e. Mas não é
es e o caso, a é po que es a pesquisa uncionou como uma explo ação inicial do enômeno, do
ipo de documen o, do modelo de ca ego ização e análise de con eúdo pa a um es udo mais
ab angen e e minucioso sob e a lógica de comunicação polí ica (populis a) do p esiden e Jai
Bolsona o ao longo dos qua o anos de sua p esidência – con e indo a iedade conjun u al e
ex ensão à análise –, que já con a com pe íodos de o e ensão polí ica e pe cepção de c ise
ins aladas no go e no ede al, com Comissão Pa lamen a de Inqué i o uncionando no Senado
pa a in es iga p o á eis omissões du an e o en en amen o à pandemia de Co id-19 –
inclusi e do p esiden e Bolsona o, já com mais de uma cen ena de pedidos de impeachmen .
Ou a limi ação des e es udo que p ecisa se econhecida é o a o da análise es a
cen ada em apenas um si e de ede social, o Facebook, sabendo que o p esiden e é um usuá io
in enso de á ios si es de edes sociais e aplica i os de mensagens ins an âneas, possi elmen e
p oduzindo con eúdos com e en uais pa icula idades em cada pla a o ma, e que escapam a
es a pesquisa. O ideal se ia cob i mais pla a o mas de mídias sociais do p esiden e, ou mesmo
múl iplos canais de comunicação nos quais a “ oz do p esiden e” ci cula.
Po úl imo, o am analisados somen e os ex os das pos agens, po an o o os, ídeos,
memes e ícones di e sos – mui o p esen es na comunicação polí ica do p esiden e – não o am
analisados, mas pode iam e ela a p esença e a equência de e en uais con eúdos populis as
na comunicação do p esiden e, além de cob i mais ecu sos comunica i os das mídias sociais.
Pa a além das limi ações ope acionais e me odológicas des a pesquisa de mes ado, al
como colocado po Rooduijn (2019), ainda há mui o abalho a se ei o quando se a a de
medi o populismo. Há á ias ques ões impo an es a cla i ica e algumas di e gências se
sob essaem e se dema cam no campo da comunicação polí ica sob e como mensu a o
enômeno do populismo – ideologicamen e ou discu si amen e ou comunica i amen e.
A comunicação polí ica do p esiden e Jai Bolsona o é undamen almen e sob e Jai
Bolsona o. Essa a i mação é de i ada da análise de con eúdo des a disse ação e não pode ia
deixa de se egis ada, pois uma das cons a ações que sob essal am da análise é que a
comunicação do p esiden e é mui o cen ada na sua igu a e lide ança polí ica, mas ambém
pessoal e ca ismá ica, com doses de humo poli icamen e inco e o, sa casmo e slogans
midiá icos, al como egis ado pela li e a u a sob e o enômeno do populismo con empo âneo,
98
mas isso ambém pos ula uma inquie ação acadêmica que eme ge da limi ação de alguns
ecu sos me odológicos. Na comunicação do p esiden e, a mensagem-cha e populis a mais
p oeminen e é ‘demons a p oximidade ao po o’, que es á basicamen e cen ada no a o
polí ico em sua ca ego ização desc i i a ( e Apêndice A), seguindo os pesquisado es
e e enciados, alguns desses ambém au o es da lógica de comunicação populis a (Engesse e
al., 2017), mas os au o es não desen ol e am ca ego izações pa a a dimensão do a o populis a,
mas se ia bas an e ele an e pa a os modelos de análise se desen ol idas.
A li e a u a acadêmica no campo da comunicação polí ica populis a em ganhado uma
exp essi a ele ância nos es udos sob e o populismo, azendo no os olha es e pe spec i as
eno adas, pa a não dize ealmen e ousadas, mas que encon am, num campo majo i a iamen e
dominado pela ciência polí ica, alguma esis ência ou in lexibilidade dian e de algumas
cons a ações ins igan es de pesquisado es da á ea da ciência da comunicação.
Na ques ão ela i a à necessidade de que as dimensões populis as es ejam semp e
combinadas pa a se em classi icadas como exp essão de populismo, um g upo de pesquisado es
da ciência da comunicação ouxe uma pe spec i a pa icula pa a a análise da comunicação
populis a. Engesse , E ns e al. (2017) aplica am uma análise he menêu ica do ex o em
pos agens do Facebook e Twi e pa a e i ica como os a o es polí icos usam, modi icam,
di e enciam e combinam os a ibu os ideológicos do populismo. Os au o es concluí am que os
polí icos espalham a ideologia populis a de o ma agmen ada nas mídias sociais, ou seja, as
dimensões populis as cons am nas pos agens ge almen e isoladas e e en ualmen e em pa es no
máximo. À época, esses au o es o e ece am ês possí eis in e p e ações: a) a o es polí icos
en a iam eduzi ainda mais a complexidade da ideologia ‘ ina’ populis a pa a o ná-la mais
ab angen e e comp eensí el aos usuá ios comuns de mídias sociais; b) a o es polí icos
busca iam man e a ideologia populis a ambígua e maleá el pa a da possibilidade aos usuá ios
de mídias sociais complemen á-la com seus compo amen os e a i udes polí icas pessoais; c)
agmen os do populismo pode iam ci cula mais acilmen e abaixo do ada c í ico de
ad e sá ios pa idá ios, jo nalis as e analis as polí icos (E ns e al., 2017).
Esses achados de pesquisa são ealmen e ins igan es po que são con amajo i á ios, e
pa em de uma pe spec i a que pa ece se mais comp eensí el aos comunicólogos do que aos
cien is as polí icos que, na ausência de uma pe spec i a mais in e disciplina , acabam po
esis i a lei u as e cons a ações mais lexí eis dos p ocessos comunicacionais es udados pelos
cien is as da comunicação. Po exemplo: Rooduijn e Pauwels (2011) conside am que é a
combinação das dimensões po o-cen ismo e an ieli smo que con igu a o populismo
discu si amen e e ideologicamen e, mas econhece am que o an ieli ismo po si só é um bom
99
indicado de populismo; p oposição con es ada po Mudde e Kal wasse (2012), que
conside a am-na “um p oblema” e a i ma am que a o es ou pa idos que emp egam apenas um
discu so an ieli is a não de em se ca ego izados como populis as. Rooduijn (2019) e oma a
ques ão das combinações das dimensões populis as num a igo me odológico ecen e onde
ponde a a pouca cla eza sob e como exa amen e o po o-cen ismo se elaciona com o
an ieli ismo. O cien is a polí ico es á dialogando com os achados de pesquisa daqueles cien is as
da comunicação. Rooduijn en ão ques iona se o an ieli ismo de e semp e es a combinado com
o po o-cen ismo pa a que o populismo es eja p esen e. A ques ão pe manece em abe o.
Os pesquisado es da á ea da ciência da comunicação ci ados an e io men e, num a igo
ecen e, a gumen a am um pouco mais sob e como en endem que essa agmen ação das
dimensões populis as nas mídias sociais pode iam se analisadas (E ns e al., 2019). Esses
au o es abalham com um modelo de ês dimensões ideológicas do populismo – po o-
cen ismo, an ieli ismo e sobe ania popula –, e ea i mando o que seus achados de pesquisas
an e io es e ela am, que essas dimensões oco em nas mídias sociais de o ma agmen adas
majo i a iamen e, a gumen am que nem odas as ês dimensões ideológicas de em es a
p esen es em uma decla ação ( wee ou pos agem), pois espe am que “ odas as dimensões da
comunicação populis a sejam ep esen adas apenas no longo p azo da comunicação con ínua
de um polí ico – não em odos os a os de ala”
135
(E ns e al., 2019, p. 169). Essa é uma no a
pe spec i a de como se pode aze a mensu ação do populismo em pla a o mas de mídias
sociais, mas al ez ainda ca eça de es agens e pesquisas no sen ido de pensá-la c i icamen e.
Isso é ins igan e à ciência da comunicação po que o e ece a possibilidade de e le i
sob e o ipo ou a na u eza pa icula de cada documen o com que se abalha na análise de
con eúdo, is o que a ciência polí ica (Rooduijn e al., 2014) abalha com documen os mais
ixos ou, na al a de um e mo adequado, pe manen es: como mani es os elei o ais, p og amas
pa idá ios, p opagandas elei o ais em emisso as de ádio e ele isão, que se cons i uem dessa
na u eza al ez mais pe manen e e ins i ucionalizada. Di e en emen e da na u eza documen al
de uma pos agem ou um wee cuja egula idade é a con en o, a disponibilidade ca ega oda
uma ca ga de e en ualidades, a in o malidade das mídias sociais impede o es abelecimen o bem
dema cado sob e on ei as nos papeis de a o es polí icos em posições in i ucionais ou pessoais,
e ou as qualidades pa icula es que o luxo desse ipo de documen o digi al pode susci a .
Quando Jan-We ne Mülle (2017a) ques ionou em seu li o se odo mundo ago a é
populis a, o eó ico polí ico já deixa a e iden e a sua c í ica ei e ada aos que que em e
135
T adução nossa pa a: “all dimensions o populis communica ion o be ep esen ed only in he long e m o he
con inuous communica ion o a poli ician — no in e e y single speech ac .”
100
populismo em odo luga e em oda a gen e, negligenciando uma gama de ou os enômenos
polí ico-sociais que oco em nas sociedades con empo âneas, onde não apenas um ou ou o
enômeno ope a al e nadamen e, mas á ios enômenos oco em concomi an emen e
a a essados po conjun u as e ci cuns ancialidades p óp ias de cada país ou egião, de cada
sociedade, de cada sis ema de go e no e p incipalmen e de cada cul u a polí ica. Não há um
populismo igual a ou o. Não se pode que e e populismo em odo luga e em oda a gen e,
po isso é imp escindí el aplica len es eó icas e me odológicas mais c i e iosas, como bem
colocou Ma ch (2017). Con udo, ambém não se pode acha que as o mas de pesquisa
enômenos polí icos em sociedades complexas e p o undamen e midia izadas não implica
alguma lexibilidade dos ecu sos eó ico-me odológicos disponí eis, além de disposição pa a
adap ações nesses ecu sos. Tal como C anme (2011, p. 299) cons a ou opo unamen e, “no
ní el da comunicação, o populismo não é uma o ma homogênea de exp essão ideológica, mas
uma in e ação complexa en e es a égias indi iduais, con ex os e iliações pa idá ias”
136
.
A in enção de explici a es as ques ões ou inquie ações, nas conside ações inais des a
disse ação, é apon a caminhos de pesquisa que eme gi am pa a o au o des e abalho no
amplo campo de es udos de mídia em con luência com a polí ica. E os pesquisado es da á ea
da ciência da comunicação podem con ibui segu amen e pa a ap o unda , es a e e i ica
es as ques ões e an as ou as co ela as po que es ão di e a ou indi e amen e associadas ao
ecossis ema de mídia o line/on line que a a essam a comunicação polí ica do século XXI:
com o plu alismo acele ado de Bimbe (1998), com a in ensa agmen ação de Blumle e
Ka anagh (1999) e ou os p ismas em conjungação numa comunicação polí ica acele adamen e
agmen ada que eque disposição à complexidade eó ica e me odológica.
136
T adução nossa pa a: “a he communica ion le el, populism is no a homogenous o m o ideological
exp ession, bu a complex in e play be ween indi idual s a egies, con ex s, and pa y membe ships.”

101
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Ab s, K., & Rummens, S. (2007). Populism e sus Democ acy. Poli ical S udies, 55(2), pp.
405-424. doi:10.1111/j.1467-9248.2007.00657.x
Albe azzi, D., & McDonnell, D. (Eds.). (2008). Twen y- i s cen u y populism: he spec e o
Wes e n Eu opean democ acy. Basings oke: Palg a e.
Al heide, D. L., & Snow, R. P. (1979). Media logic. Be e ly Hills, Cali ó nia: Sage.
Al a es, C., & Dahlg en, P. (2016). Populism, ex emism and media: mapping an unce ain
e ain. Eu opean Jou nal o Communica ion, 31(1), pp. 46-57.
doi:h ps://doi.o g/10.1177/0267323115614485
And ade, H. d. (18 de dezemb o de 2020). Bolsona o inci a PM con a imp ensa em dia de
ma é ias. UOL No ícias. Acesso em 9 de janei o de 2021, disponí el em
h ps://no icias.uol.com.b /poli ica/ul imas-no icias/2020/12/18/bolsona o-a aca-
imp ensa-e-poe-pm-con a-jo nalis as-semp e-con a- oces.h m
Ans ead, N., & Chadwick, A. (2008). Pa ies, elec ion campaigning, and he In e ne . Towa d
a compa a i e ins i u ional app oach. Em A. Chadwick, & P. N. Howa d (Eds.),
Rou ledge handbook o in e ne poli ics (pp. 56-71). London: Rou ledge.
doi:10.4324/9780203962541
Ans ead, N., & Chadwick, A. (2009). Pa ies, elec ion campaigning, and he In e ne . Towa d
a compa a i e ins i u ional app oach. Em A. Chadwick, & P. N. Howa d (Eds.),
Rou ledge handbook o in e ne poli ics (pp. 56-71). London: Rou ledge.
doi:10.4324/9780203962541
Aslanidis, P. (2016). Is populism an ideology? A e u a ion and a new pe spec i e. Poli ical
S udies, 64(1_suppl), pp. 88-104. doi:10.1111/1467-9248.12224
Baldi, V. (2018). A cons ução i al da ealidade: cibe populismos e pola ização dos públicos
em ede. Obse a o io (OBS*), pp. 4-20. doi:10.15847/obsOBS12520181420
Bannon, S. (29 de ou ub o de 2018). Capi alismo escla ecido e populismo de Bolsona o
ap oxima ão o B asil dos EUA, diz S e e Bannon. (P. C. Mello, En e is ado ) Fon e:
Folha de S.Paulo: h ps://www1. olha.uol.com.b /pode /2018/10/capi alismo-
escla ecido-e-populismo-de-bolsona o-ap oxima ao-o-b asil-dos-eua-diz-s e e-
bannon.sh ml
Bannon, S. (17 de e e ei o de 2019). O populismo é o u u o da polí ica, a i ma S e e Bannon.
O Es ado de S.Paulo. (B. Bulla, En e is ado ) Acesso em 01 de junho de 2019,
102
disponí el em h ps://in e nacional.es adao.com.b /no icias/ge al,o-populismo-e-o-
u u o-da-poli ica,70002724328
Ba din, L. (2002). Análise de con eúdo. (L. A. Re o, & A. Pinhei o, T ads.) São Paulo: Edições
70.
Ba , R. R. (2009). Populis s, ou side s and an i-es ablishmen poli ics. Pa y Poli ics, 15(1),
29-48. doi:10.1177/1354068808097890
Ba os, E. L. (2010). Populismo. Em Dicioná io His ó ico-Biog á ico B asilei o. Rio de
Janei o, RJ: CPDOC-FGV. Acesso em 19 de ma ço de 2020, disponí el em
h p://www. g .b /cpdoc/ace o/diciona ios/ e be e- ema ico/populismo
Ba is ella, A. (2012). Um concei o em e lexão: o "populismo" e a sua ope acionalidade.
Re is a La ino-Ame icana de His ó ia, 1(3), 468-484. Acesso em 11 de ab il de 2020,
disponí el em h p://p oje o.unisinos.b / la/index.php/ la/a icle/ iew/97/75
Ba o y, A. (2016). Populis s in go e nmen ? Hunga y's "sys em o na ional coope a ion".
Democ a iza ion, 23(2), 283-303. doi:10.1080/13510347.2015.1076214
Bee , D. (2008). Social ne wo k(ing) si es… e isi ing he s o y so a : a esponse o danah boyd
& Nicole Ellison. Jou nal o Compu e -Media ed Communica ion, 516-529.
doi:10.1111/j.1083-6101.2008.00408.x
Bello, P. (27 de se emb o de 2020). É p eciso escla ece o que é o Wha sApp em deba e sob e
p oje o de lei das ake news. Folha de S.Paulo. Acesso em 9 de janei o de 2021,
disponí el em h ps://www1. olha.uol.com.b /pode /2020/09/e-p eciso-escla ece -o-
que-e-o-wha sapp-em-deba e-sob e-p oje o-de-lei-das- ake-news.sh ml
Beng sson, M. (2016). How o plan and pe o m a quali a i e s udy using con en analysis.
Nu singPlus Open, 2, 8-14. doi:10.1016/j.npls.2016.01.001
Beni es, A. (28 de se emb o de 2018a). A máquina de " ake news" nos g upos a a o de
Bolsona o no Wha sApp. El País B asil. Acesso em 5 de janei o de 2021, disponí el
em h ps://b asil.elpais.com/b asil/2018/09/26/poli ica/1537997311_859341.h ml
Beni es, A. (28 de se emb o de 2018b). “Nossos g upos comba em as no ícias maldosas pa a
descons ui Bolsona o”. El País B asil. Acesso em 5 de maio de 2020, disponí el em
h ps://b asil.elpais.com/b asil/2018/09/26/poli ica/1537998612_052780.h ml
Be lin, I., Ho s ad e , R., MacRae, D., Schapi o, L., Se on-Wa son, H., Tou aine, A., . . .
Wo sley, P. (1968). To de ine populism. Go e nmen and Opposi ion, 3(2), 137-179.
Acesso em 2 de ab il de 2020, disponí el em h ps://www.js o .o g/s able/44481863
Biebe , F. (2018). Is Na ionalism on he Rise? Assessing Global T ends. E hnopoli ics, 17(5),
519-540. doi:10.1080/17449057.2018.1532633
103
Bimbe , B. (1998). The In e ne and poli ical ans o ma ion: populism, communi y and
accele a ed plu alis. Poli y, 31(1), 133-160. Fon e: h p://www.js o .o g/s able/3235370
Blumle , J. G. (2016). The ou h age o poli ical communica ion. Poli iques de
Communica ion, 6(1), 19-30. doi:10.3917/pdc.006.0019
Blumle , J. G., & Coleman, S. (2015). Democ acy and he Media – e isi ed. Ja nos – The
Public, 22(2), 111–128. doi:10.1080/13183222.2015.1041226
Blumle , J. G., & Ka anagh, D. (1999). The hi d age o poli ical communica ion: in luences
and ea u es. Poli ical Communica ion, 16(3), 209-230. doi:10.1080/105846099198596
Bos, L., & B an s, K. (2014). Populis he o ic in poli ics and media: a longi udinal s udy o he
Ne he lands. Eu opean Jou nal o Communica ion, 29(6), 703-719.
doi:10.1177/0267323114545709
Boulianne, S., Koc-Michalska, K., & Bimbe , B. (2020). Righ -wing populism, social media
and echo chambe s in Wes e n democ acies. new media & socie y, 22(4), 683–699.
doi:10.1177/1461444819893983
boyd, d. m., & Ellison, N. B. (2007). Social ne wo k si es: de ini ion, his o y, and schola ship.
Jou nal o Compu e -Media ed Communica ion, 13(1), 210-230. doi:10.1111/j.1083-
6101.2007.00393.x
B an s, K. (2005). “Quem em medo do in o ainmen ?” (T adução de Es ela Se ano). Media
& Jo nalismo(7), 39-58. Acesso em 3 de no emb o de 2018, disponí el em
h p:// ab icadesi es. csh.unl.p /polocicdigi al/wp-con en /uploads/si es/8/2017/03/n7-
02-Kees-B an s.pd
B ubake , R. (2017). Be ween na ionalism and ci iliza ionism: he Eu opean populis momen
in compa a i e pe spec i e. E hnic and Racial S udies, 40(8), 1191-1226.
doi:10.1080/01419870.2017.1294700
Cano an, M. (1999). T us he people! Populism and he wo aces o democ acy. Poli ical
S udies, 47(01), pp. 02-16. doi:10.1111/1467-9248.00184
Cano an, M. (1999). T us he People! Populism and he Two Faces o Democ acy. Poli ical
S udies, 47(01), pp. 02-16. doi:10.1111/1467-9248.00184
Cano an, M. (2002). Taking poli ics o he people: populism as he ideology o democ acy. Em
Y. Mény, & Y. Su el (Eds.), Democ acies and he populis challenge (pp. 25-44).
London: Palg a e Macmillan. doi:10.1057/9781403920072
Cano an, M. (2004). Populism o poli ical heo is s? Jou nal o Poli ical Ideologies, 9(3), 241-
252. doi:10.1080/1356931042000263500
104
Can ó, P. (4 de no emb o de 2018). De piada na TV b asilei a a p esiden e elei o. El País B asil.
Acesso em 25 de junho de 2020, disponí el em
h ps://b asil.elpais.com/b asil/2018/10/31/poli ica/1540978539_344863.h ml
Ca lisle, J. E., & Pa on, R. C. (2013). Is Social Media Changing How We Unde s and Poli ical
Engagemen ? An Analysis o Facebook and he 2008 P esiden ial Elec ion. Poli ical
Resea ch Qua e ly, 66(4), 883–895. doi:10.1177/1065912913482758
Cas ells, M. (2003). A galáxia da in e ne : e lexões sob e a in e ne , os negócios e a sociedade.
Rio de Janei o: Jo ge Zaha Ed.
Cas ells, M. (17 de julho de 2019). ‘Vocês es ão i endo um no o ipo de di adu a’, diz
sociólogo Manuel Cas ells. (P. Fe ei a, En e is ado ) O Globo. Acesso em 13 de ab il
de 2020, disponí el em h ps://oglobo.globo.com/sociedade/ oces-es ao- i endo-um-
no o- ipo-de-di adu a-diz-sociologo-manuel-cas ells-23812733
CGI.b . (2020). Pesquisa sob e o uso das ecnologias de in o mação e comunicação nos
domicílios b asilei os: TIC Domicílios 2019. São Paulo: Comi ê Ges o da In e ne no
B asil (CGI.b ). Acesso em 2 de dezemb o de 2020, disponí el em
h ps://www.ce ic.b /p /publicacao/pesquisa-sob e-o-uso-das- ecnologias-de-
in o macao-e-comunicacao-nos-domicilios-b asilei os- ic-domicilios-2019/
Chadwick, A. (7 de ma ço de 2014). All poli ical communica ion is hyb id: a con e sa ion wi h
And ew Chadwick abou his la es book The Hyb id Media Sys em: Poli ics and Powe .
Mediascapes Jou nal, 124-129. (A. Vale iani, En e is ado ) Acesso em 8 de no emb o
de 2020, disponí el em
h ps:// eposi o y.lbo o.ac.uk/a icles/jou nal_con ibu ion/All_poli ical_communica i
on_is_hyb id_A_con e sa ion_wi h_And ew_Chadwick_abou _his_la es _book_The_
Hyb id_Media_Sys em_Poli ics_and_Powe _/9474719
Chadwick, A., Vacca i, C., & O'Loughlin, B. (2018). Do abloids poison he well o social
media? Explaining democ a ically dys unc ional news sha ing. New Media & Socie y,
20(11), pp. 4255-4274. doi:10.1177/1461444818769689
Colleoni, E., Rozza, A., & A idsson, A. (2014). Echo chambe o public sphe e? P edic ing
poli ical o ien a ion and measu ing poli ical homophily in Twi e using Big Da a.
Jou nal o Communica ion, 64(2), 317–332. doi:10.1111/jcom.12084
C anme , M. (2011). Populis communica ion and publici y: an empi ical s udy o con ex ual
di e ences in Swi ze land. Swiss Poli ical Science Re iew, 17(3), 286–307.
doi:10.1111/j.1662-6370.2011.02019.x
111
Rocha, C., & Medei os, J. (27 de ab il de 2020). "Vão odos oma no...": a polí ica de choque
e a es e a pública. Ho izon es ao Sul. Acesso em 20 de maio de 2020, disponí el em
h ps://www.ho izon esaosul.com/single-pos /2020/04/27/ ao- odos- oma -no-a-
poli ica-do-choque-e-a-es e a-publica
Rooduijn, M. (2014). The mesme ising message: he di usion o populism in public deba es in
Wes e n Eu opean media. Poli ical S udies, 62(4), 726-744. doi:10.1111/1467-
9248.12074
Rooduijn, M. (2019). S a e o he ield: how o s udy populism and adjacen opics? A plea o
bo h mo e and less ocus. Eu opean Jou nal o Poli ical Resea ch, 58(1), 362-372.
doi:10.1111/1475-6765.12314
Rooduijn, M., & Pauwels, T. (2011). Measu ing populism: compa ing wo me hods o con en
analysis. Wes Eu opean Poli ics, 34(6), 1272-1283.
doi:10.1080/01402382.2011.616665
Schudson, M. (1 de janei o de 2008). En e is a a Michael Schudson. Comunicação & Cul u a,
173-179. (R. San os, & G. Pe ei a, En e is ado es)
doi:10.34632/comunicacaoecul u a.2008.464
Schulz, A., Mülle , P., Scheme , C., Wi z, D. S., We s ein, M., & Wi h, W. (2018). Measu ing
populis a i udes on h ee dimensions. In e na ional Jou nal o Public Opinion
Resea ch, 30(2), 316-326. doi:10.1093/ijpo /edw037
Skidmo e, T. E. (2000). Uma his ó ia do B asil (3ª ed.). (R. Fike , T ad.) Rio de Janei o: Paz e
Te a.
Sousa, J. P. (2008). Uma his ó ia b e e do jo nalismo no Ociden e. Biblio eca On-line de
Ciências da Comunicação (BOCC). Fon e: h p://www.bocc.ubi.p /pag/sousa-jo ge-
ped o-uma-his o ia-b e e-do-jo nalismo-no-ociden e.pd
S anye , J., Salgado, S., & S ömbäck, J. (2017). Populis ac o s as communica o s o poli ical
ac o s as populis communica o s: c oss-na ional indings and pe spec i es. Em T.
Aalbe g, F. Esse , C. Reinemann, J. S omback, & C. De V eese (Eds.), Populis
poli ical communica ion in Eu ope (pp. 353-364). New Yo k: Rou ledge.
doi:10.4324/9781315623016
Tagga , P. (2002). Populism and he pa hology o ep esen a i e poli ics. Em Y. Mény, & Y.
Su el (Eds.), Democ acies and he populis challenge (pp. 62-80). London: Palg a e
Macmillan. doi:10.1057/9781403920072
Tagga , P. (2004). Populism and ep esen a i e poli ics in con empo a y Eu ope. Jou nal o
Poli ical Ideologies, 9(3), 269-288. doi:10.1080/1356931042000263528

112
Tamaki, E. R., & Fuks, M. (2020). Populism in B azil’s 2018 gene al elec ions: an analysis o
Bolsona o’s campaign speeches. Lua No a: Re is a de Cul u a e Polí ica(109), 103-
127. doi:10.1590/0102-103127/109
Teixei a, N. S. (2018). T ês e lexões inacabadas sob e populismo e democ acia. Relações
In e nacionais(59), 75-83. doi:10.23906/ i2018.59a06
The Edi o s o Encyclopaedia B i annica. (06 de ma ço de 2020). Ka l Luege . Encyclopædia
B i annica. Chicago, Illinois, Uni ed S a es: Encyclopædia B i annica, inc. Acesso em
29 de junho de 2020, disponí el em h ps://www.b i annica.com/biog aphy/Ka l-
Luege
Vo s e , P. (1986). Die oo sp ong en on wikkeling an poli ieke kommunikasie: 'n oo sig.
Communica io: Sou h A ican Jou nal o Communica ion Theo y and Resea ch, 12(1),
42-45. doi:10.1080/02500168608537807
Waisbo d, S., & Amado, A. (2017). Populis communica ion by digi al means: p esiden ial
Twi e in La in Ame ica. In o ma ion, Communica ion & Socie y, 20(9), 1330-1346.
doi:10.1080/1369118X.2017.1328521
We A e Social & Hoo sui e. (2020a). Digi al 2020: Global Digi al O e iew. Singapu a:
Kepios. Fon e: h ps://da a epo al.com/ epo s/digi al-2020-global-digi al-o e iew
We A e Social & Hoo sui e. (2020b). Digi al 2020: B azil. Singapu a: Kepios. Fon e:
h ps://da a epo al.com/ epo s/digi al-2020-b azil
Weyland, K. (2001). Cla i ying a con es ed concep : populism in he s udy o La in Ame ican
poli ics. Compa a i e Poli ics, 34(01), pp. 1-22. doi:10.2307/422412
Wi h, W., Esse , F., We s ein, M., Engesse , S., Wi z, D., Schulz, A., & ... Mülle , P. (2016).
The appeal o populis ideas, s a egies and s yles: a heo e ical model and esea ch
design o analyzing populis poli ical communica ion. Uni e si y o Zu ich,
Depa men o Communica ion and Media Resea ch. Zu ich: Na ional Cen e o
Compe ence in Resea ch (NCCR). Acesso em 12 de e e ei o de 2020, disponí el em
h ps://doi.o g/10.5167/uzh-127461
113
APÊNDICE A – G elha de ca ego ias pa a análise dos con eúdos ideológicos da comunicação populis a
Concei o
Dimensões
Mensagens-cha e
Desc i i os
Ideologia
populis a
Sobe ania popula
Exigi sobe ania popula
O a o a gumen a no sen ido de concede mais pode polí ico ao po o – in oduzindo
elemen os de democ acia di e a. Ou p omo e mais pa icipação polí ica no con ex o
da go e nação ci il ou em ques ões especí icas conside adas undamen ais ao po o
Nega sobe ania às eli es
O a o a gumen a no sen ido de e i a ou concede menos pode às eli es no con ex o
de ques ões especí icas conside adas undamen ais ao po o
Po o-cen ismo
En a iza i udes do po o
O po o é do ado de mo alidade, c edibilidade, in eligência, sensa ez, compe ência e c.
E es á isen o de se c iminoso, p eguiçoso, ex emis a, acis a, não democ á ico e c.
Elogia ealizações do po o
O po o é desc i o como p óspe o, abalhado , esponsá el po desen ol imen o e
si uações posi i as. Não é um a do nem esponsá el po si uação e ada ou c iminosa
A i ma um po o monolí ico
O po o é desc i o compa ilhando sen imen os, on ades, opiniões (e c.) comuns
Demons a p oximidade
O a o se desc e e pe encen e ao po o, es ando p óximo, conhecendo, conco dando,
cuidando e alando pelo po o. Pe soni ica e ep esen a o po o co idianamen e
An ieli ismo
Desac edi a as eli es
As eli es são insinuadas e acusadas de co up as, malé olas, c iminosas, p eguiçosas,
ex emis as, an idemoc á icas; idicula izadas, negadas de mo alidade e c edibilidade
Culpa as eli es
As eli es são desc i as como uma ameaça, p ejudiciais ou esponsá eis po si uações
nega i as e ilegais e i icá eis. E não p omo em desen ol imen o nem p ospe idade
Sepa a as eli es do po o
As eli es não ep esen am o po o, não pe encem, não são p óximas, não cuidam, não
alam pelo po o nem ealizam ações co idianas. Faz o a as amen o en e ‘nós’ e ‘eles’
Exclusão de ‘ou os’
Desac edi a os ‘ou os’
Os ‘ou os’ são pe e idos e colocam em isco os alo es e a mo alidade do po o
Culpa os ‘ou os’
Os ‘ou os’ são pe igosos e ameaçam a ida, a p op iedade e a in eg idade do po o
Exclui os ‘ou os’ do po o
Os ‘ou os’ são ap o ei ado es e usu pam a sobe ania popula e despendem o Es ado
Fon e: Blassnig e al. (2019), Engesse e al. (2017) e E ns e al. (2017) – com adução, adap ação e elabo ação do au o .
114
APÊNDICE B – De alhamen o me odológico com exemplos de segmen os codi icados
Pa a o na os p ocedimen os me odológicos mais comp eensí eis, disponibiliza-se es e
apêndice com o de alhamen o de codi icação pa a cada uma das qua o dimensões que
inco po am os con eúdos da comunicação populis a, com um exemplo de codi icação pa a cada
uma das doze mensagens-cha e. Fo am codi icadas pos agens in ei as ao ní el das dimensões.
E o am codi icadas ases – unidades de sen ido que exp imem um pensamen o in eligí el,
podendo co esponde a unidades o mais (Ba din, 2002) – ao ní el das mensagens-cha e.
Essa es u u a de análise desag egada pe mi e obse a os elemen os populis as
cons i u i os das pos agens de alhadamen e. Assim, as dimensões (pos agem in ei a como
unidade de análise) da comunicação populis a são analisadas a pa i das mensagens-cha e
( ase como unidade de medida). Também pe mi e e i ica as equências e as combinações
das mensagens-cha e e das dimensões, que se aduzem na ques ão de in es igação e obje i os
a se em espondidos – a pa i de uma “escala de populismo desag egada” que pe mi e uma
in e p e ação mais consis en e (Ma ch, 2017; Schulz e al., 2018).
Pa a que uma pos agem seja codi icada con endo uma de e minada dimensão populis a,
é su icien e e necessá io que con enha pelo menos uma mensagem-cha e da espec i a
dimensão. Assim, uma pos agem pode con e di e en es mensagens-cha e de uma mesma
dimensão e ou as mensagens-cha e de di e en es dimensões, po ém a codi icação ao ní el das
dimensões oco e com pelo menos uma mensagem-cha e – da espec i a dimensão – p esen e.
Po exemplo: uma de e minada pos agem que exp esse a dimensão ‘sobe ania popula ’ pode
con e uma ou as duas mensagens-cha e – ‘exigi sobe ania popula ’ e ‘nega sobe ania às
eli es’ – e con e ou as mensagens-cha e das demais dimensões.
Fo am conside ados ap os à codi icação somen e os ex os em língua po uguesa. E
somen e os ex os publicados na caixa de ex o – designada pelo si e de ede social Facebook
como “s a us”. Tex os p esen es em imagens não o am codi icados. Imagens e ícones ambém
não o am codi icados. No en an o, as imagens que compõem as pos agens o am conside adas
elemen os de con ex ualização apenas pa a os ex os que a endiam às mensagens-cha e – das
espec i as dimensões – mas demanda am con ex o.
O modelo de análise que no eia es a disse ação de mes ado se cons i ui em anco
diálogo eó ico e in e ação me odológica com as pesquisas de Blassnig e al. (2019), C anme
(2011), Engesse , Fawzi e La sson (2017), E ns e al. (2017), Jage s e Walg a e (2007),
Rooduijn e Pauwels (2011), Rooduijn, de Lange e an de B ug (2014), Wi h e al. (2016).
115
1. Sobe ania popula
Pa a es a dimensão, o am codi icadas pos agens que en a izam a noção de ‘ on ade do
po o’, nas pe spec i as democ á ica e polí ica, in ocando mais pode e pa icipação polí ica
pa a o po o a a és de elemen os de democ acia di e a como e e endos, plebisci os, mas
ambém consul as públicas egula es, o çamen os pa icipa i os ou conselhos popula es pa a
demandas públicas e c. – no con ex o ge al da go e nação ci il e em ques ões especí icas
conside adas undamen ais à sociedade, po exemplo: abo o, imig ação, posse/po e de a mas,
c iminalização da homo obia e ou os emas. E pos agens que negam sobe ania ou con es am o
pode das eli es pa a de ini emas conside ados undamen ais à sociedade – a ibuição que,
pa a os populis as, cabe ia exclusi amen e ao po o (E ns e al., 2017).
Po an o, pa a a codi icação na dimensão sobe ania popula , é necessá io que a
pos agem conjugue pelo menos uma das duas mensagens-cha e que compõem es a dimensão.
Ao ní el das mensagens-cha e ( ases), os dois exemplos abaixo o am codi icados:
1.1. Exigi sobe ania popula
Exemplo: “Hoje, espei ando a on ade popula mani es ada no e e endo de 2005, de ol emos
aos cidadãos b asilei os a libe dade de decidi .” (Jai Messias Bolsona o - Facebook - 15 de
janei o de 2019)
No a: em 23 de ou ub o de 2005, os b asilei os o am consul ados sob e a p oibição do comé cio
de a mas de ogo e munições no país.
1.2. Nega sobe ania às eli es
Exemplo: “Assim, a decisão de c iminaliza a homo obia po ia judicial é abe amen e
a en a ó ia à compe ência do Pode Legisla i o de legisla sob e o ema.” (Jai Messias
Bolsona o - Facebook - 13 de e e ei o de 2019)
No a: nes a da a, as pa es e en idades in e essadas se mani es a am no Sup emo T ibunal
Fede al (STF) sob e a c iminalização da homo obia, po supos a omissão do Cong esso
Nacional em edi a lei que e e i e a c iminalização de a os de homo obia ou ans obia.
116
2. Po o-cen ismo
Pa a es a dimensão, o am codi icadas pos agens que en a izam as i udes e o bom
senso do po o, além exal a suas ealizações e endência ao desen ol imen o a pa i do
abalho popula , mas ambém a i ma um po o monolí ico ou homogêneo compa ilhando um
sen imen o, um in e esse, uma opinião comum ou alo es comuns. Enquan o o a o se coloca
semp e p óximo ao po o, pe encen e ao po o, cuidando, conhecendo e alando pelo po o, que
diz pe soni ica ou se o único ep esen an e legí imo e au o izado pelo po o.
Os segmen os selecionados pa a es a dimensão seguem os c i é ios abaixo:
• Fo am selecionados quando con inham e mos que apelam ou se e e em ao po o como
um odo ou a ca ego ias populacionais.
• Re e ências ao ‘po o’ em sen ido ge al de e ia ab angê-lo “em e mos polí icos” (Jage s
& Walg a e, 2007, p. 338). Po exemplo: o po o, o cidadão, o elei o , o con ibuin e, o
consumido , o abalhado , o b asilei o, a população, a sociedade e c.
• A pa i de um le an amen o de e mos e e enciais já egis ados na li e a u a
acadêmica sob e populismo, ou os e mos o am ac escen ados a essa pe spec i a de
apelo ou e e ência ao po o como um odo (Cano an, 1999, 2004; Reinemann e al.,
2017; Rooduijn e al., 2014). Po exemplo: nosso país, nossa nação, nossa pá ia, nossa
sociedade, nosso go e no, maio ia da população e c.
• Te mos e e enciais indi e os isolados, como p onomes pessoais ou possessi os, não
o am conside ados – po exemplo: nós, nosso, nossa.
• Ca ego ias populacionais ep esen am “um g upo de pessoas que em em comum uma
ca ac e ís ica cons an e de in e esse elei o al em de e minado con ex o e ó ico”
(Jage s & Walg a e, 2007, p. 338). Vis o que a li e a u a ambém explici a a
mobilização cons an e de po enciais elei o es como ca ac e ís ica do populismo. Essa
ca ac e ís ica comum não pode ia se in ei amen e e ême a. E o apelo ou e e ência à
ca ego ia populacional de e ia exp essa alguma posição polí ica pe an e a mesma, não
bas ando apenas uma ci ação ou in o mação p á ica en ol endo a ca ego ia (Jage s &
Walg a e, 2007). Po exemplo: ‘os agen es de segu ança pública’, ‘os mili a es’, ‘os
aposen ados’, ‘os a is as em início de ca ei a’, ‘os de icien es’ e c.

117
• Du an e o p ocesso de codi icação, e i icou-se que a lis a de e mos e e enciais ica ia
mui o ex ensa caso man i esse os e mos nas di e sas exp essões isoladamen e, en ão
oi ei o um ajus e de con eúdo dos e mos de modo a ag ega os simila es, com pouca
a iação exp essi a ou de signi icado – is o que o con eúdo em p io idade sob e os
e mos li e ais –, mas sem p ejuízo à a iedade dos ipos e e enciais ou apelos.
Pa a a codi icação na dimensão po o-cen ismo, é necessá io con e um apelo ou
e e ência ao ‘po o’ em ge al ou a ca ego ias sociais/populacionais especí icas em con ex o
posi i o, mas isso não é su icien e, pois, além da p esença do apelo ou e e ência, é necessá io
que conjugue pelo menos uma das qua o mensagens-cha e que compõem es a dimensão.
Ao ní el das mensagens-cha e ( ases), os qua o exemplos abaixo o am codi icados:
2.1. En a iza i udes do po o
Exemplo: “A caça aos agen es de segu ança e o massac e dos cidadãos de bem semp e o am
a ados como núme os. Legisla i o, Execu i o e Judiciá io jun os de em, na lei, p opicia
ga an ias pa a que o bem ença o mal.” (Jai Messias Bolsona o - Facebook - 6 de janei o de
2019)
2.2. Elogia ealizações do po o
Exemplo: “Pa abéns aos policiais da ROTA (PM-SP) pela ápida e e icien e ação con a 25
bandidos o emen e a mados e equipados que en a am assal a dois bancos na cidade de
Gua a ema e ainda ize am uma amília e ém.” (Jai Messias Bolsona o - Facebook - 4 de ab il
de 2019)
2.3. A i ma um po o monolí ico
Exemplo: “É o começo de uma pa ce ia pela libe dade e p ospe idade, como os b asilei os
semp e deseja am.” (Jai Messias Bolsona o - Facebook - 17 de ma ço de 2019)
2.4. Demons a p oximidade
Exemplo: “Es amos no décimo qua o dia de go e no e ainda emos mui o a des aze e mais
ainda a aze ! Vamos jun os esga a o B asil aos olhos do b asilei o e do mundo!” (Jai Messias
Bolsona o - Facebook - 14 de janei o de 2019)
118
3. An ieli ismo
Pa a es a dimensão, o am codi icadas pos agens que desac edi am as eli es com
gene alizações nega i as, a bi á ias ou pe secu ó ias – as eli es são desc i as como co up as,
malé olas, es úpidas ou imo ais. Também as culpam pelos p ejuízos polí icos, econômicos e
sociais que a e am di e amen e ao po o ou como uma ameaça. Além de p omo e um
dis anciamen o e sepa a as eli es do po o, po que essas não o ep esen am, não pe encem, não
conhecem, não cuidam nem alam pelo po o – i em encas eladas e a uam con a a sobe ania
popula em bene ício p óp io e em a o dos ‘ou os’ (E ns e al., 2017).
A pa i de uma e isão da li e a u a (Engesse , E ns e al., 2017; Jage s & Walg a e,
2007; Rooduijn e al., 2014), o am elencados se e ipos de eli es:
• Eli e polí ica comp eende a classe polí ica, lide anças e pa idos, minis os e go e nos;
• Eli e da mídia comp eende magna as, meios de comunicação, di e o es e jo nalis as;
• Eli e cul u al inclui a eli e in elec ual, conside adas em sen ido amplo como
ep esen an es dos se o es que p omo em o desen ol imen o de bens cul u ais
(in elec uais ou a ís icos) – uni e sidades, acadêmicos, esc i o es e a is as em ge al;
• Eli e de Es ado é ep esen ada po ó gãos da adminis ação pública ou de se iço ci is;
• Eli e ju ídica é compos a po magis ados, especialmen e dos T ibunais Supe io es;
• Eli e econômica inclui emp esas mul inacionais, p op ie á ios e di e o es-execu i os,
banquei os, além de lide anças sindicais;
• Eli e sup anacional comp eende o ganizações in e nacionais como ONU, FMI, União
Eu opeia, OMS, OMC, Banco Mundial e lide anças ecnoc a as in e nacionais.
Pa a a codi icação na dimensão an ieli ismo, é necessá io con e algum desses
elemen os in eg an es dos di e en es ipos de eli es, mas isso não é su icien e, pois além da
p esença desses elemen os de eli e acima de alhados, ambém é necessá io que conjugue pelo
menos uma das ês mensagens-cha e que compõem es a dimensão.
Ao ní el das mensagens-cha e ( ases), os ês exemplos abaixo o am codi icados:
119
3.1. Desac edi a as eli es
Exemplo: “A Globo e o Es adão que em de uba o Go e no, com chan agens, desin o mações
e azamen os.” (Jai Messias Bolsona o - Facebook - 10 de ma ço de 2019)
3.2. Culpa as eli es
Exemplo: “Nos go e nos an e io es, esses gas os ul apassa am cen enas de milhões de eais.
E a mais uma das mui as on es de ações escusas dos g upos que es a am no pode , cuja boa
pa e dos memb os es á p esa.” (Jai Messias Bolsona o - Facebook - 23 de janei o de 2019)
3.3. Sepa a as eli es do po o
Exemplo: “Muda as di e izes “educacionais” implemen adas ao longo de décadas é uma de
nossas me as pa a impedi o a anço da áb ica de mili an es polí icos pa a o ma mos
cidadãos.” (Jai Messias Bolsona o - Facebook - 4 de ma ço de 2019)
120
4. Exclusão de ‘ou os’
Pa a es a dimensão, o am codi icadas pos agens com mensagens-cha e que
desac edi am, culpabilizam ou p omo em a sepa ação/exclusão – no sen ido de não
econhecimen o polí ico ou negação de di ei os – de g upos sociais especí icos. Com a aques
explíci os, como no caso de c iminosos que êm seus di ei os humanos e ci is desconside ados,
mas ambém com insinuações maliciosas ou a aques implíci os como no caso de eminis as,
imig an es, homossexuais, chineses, índios ou quilombolas, po exemplo, po que dependendo
dos g upos sociais a acados pode ia con igu a c ime de acismo, xeno obia ou homo obia.
Dian e des a imp ecisão e ambiguidade discu si a ípicas da e ó ica populis a de
a i ma negando, algumas pos agens codi icadas nes a dimensão assim como suas espec i as
mensagens-cha e, pa icula men e as e e ências aos índios, assumem o aspec o “la en e” da
análise de con eúdo in ensamen e (Beng sson, 2016). Como já ci ado, Jage s e Walg a e (2007,
p. 339-340) ale am ao a o de que ce os dados não são obje i os, mas “in o mações
p eeminen emen e colo idas” – pa icula men e mensagens polí icas –, o que demanda cau ela
edob ada na análise dos dados sem se u a de analisá-los.
Pa a a codi icação na dimensão exclusão de ‘ou os’, é necessá io que a pos agem
con enha algum e mo e e encial a ca ego ias sociais/populacionais especí icas em con ex o
nega i o, mas isso não é su icien e, pois, além da p esença da e e ência nega i ada a g upos
sociais especí icos, ambém é necessá io que conjugue pelo menos uma das ês mensagens-
cha e que compõem es a dimensão.
Ao ní el das mensagens-cha e ( ases), os ês exemplos abaixo o am codi icados:
4.1. Desac edi a os ‘ou os’
Exemplo: “Um dos maio es absu dos que acon ecem no Plane a. Con a essa iolência as
esque dis as eminis as não se le an am?” (Jai Messias Bolsona o - Facebook - 6 de janei o de
2019)
No a: o p esiden e publicou um ídeo onde ê-se uma mulhe sendo aped ejada po á ias
pessoas; ele ale a pa a cenas o es, a aca os “co a des muçulmanos”, diz que que em “in adi
o Ociden e” com es a “abe ação” e gene aliza jocosamen e uma supos a negligência das
esque dis as eminis as.
127
• Eli e Es ado – 3 codi icações
G upos
Te mos
F equências
Ó gãos de Es ado
- O Con an emi e ce ca de 100 esoluções/ano
a apalhando
- dois uncioná ios da Recei a Fede al
acessa am ILEGALMENTE
2
Es ado (en idade ge al)
- O Es ado oi c iminoso quando desa mou
1
• Eli e Ju ídica – 2 codi icações
G upo
Te mos
F equências
Sup emo T ibunal Fede al
- STF
- ge a desequilíb io ins i ucional e
cons i ucional [a aque implíci o ao STF]
2
• Eli e Econômica – 1 codi icação
G upo
Te mos
F equências
Lide anças sindicais
- não ag adou aos líde es sindicais
1
• Eli e Sup anacional – 1 codi icação
G upo
Te mos
F equências
O ganização das Nações
Unidas
- NÃO AO PACTO MIGRATÓRIO
1

128
Te mos e e enciais da dimensão Exclusão de ‘ou os’:
G upos
Te mos
F equências
C iminosos
- C iminosos explodi am
- Ao c iminoso não in e essa o
pa ido
- Ma ginais, po explosão
- e o is a Cesa e Ba is i
- assassino i aliano
- 11 bandidos o am mo os
6
Índios
- e a indígena
- c ip omoeda indígena
- Nossos índios se in eg ando
- A in eg ação dos índios
- FUNAI (índios)
5
Mo imen os Sociais
- MST
- MST
- MST
- MTST
4
Comunidade LGBT+
- a “c iminalização da Homo obia”
- a “homo obia”
- “homo obia”
3
- quilombolas
1
- mig an es
1
- co a des muçulmanos
1
- esque dis as eminis as
1
- odo pe is a
1
129
No a ge al: as equências dos e mos e e encias ex apolam o o al de codi icações an o das
dimensões quan o das mensagens-cha e, po que uma mesma pos agem con ém e mos
e e enciais isolados e/ou epe idos. Todas as mensagens-cha e codi icadas con êm pelo menos
um e mo e e encial, mas pode ha e e mos e e encias di e en es ou que se epe em den o
da mesma mensagem-cha e, ou o a da mensagem-cha e ( ase) mas den o da espec i a
dimensão (pos agem) codi icada. Pa a cap a a a iedade e a in ensidade de e mos e e enciais,
o am codi icados odos os e mos e e enciais ela i os às espec i as dimensões populis as –
suges ão de au o es na li e a u a, a im de melho comp eende a cons ução de ‘po o’, de ‘eli e’
e de ‘ou os’ com mais elemen os.
No a e e en e à dimensão Po o-cen ismo: ez-se um ajus e de con eúdo dos e mos de modo
a ag ega os simila es, com pouca a iação exp essi a de signi icado, mas sem p ejuízo à
a iedade dos ipos e e enciais ou de apelos.
No a e e en e à dimensão An ieli ismo: alguns e mos es ão es endidos apenas pa a e ei o de
con ex o. Te mos onde cons am [ ] ag egam b e es in o mações explica i as.
No a e e en e à dimensão Exclusão de ‘ou os’: alguns e mos es ão es endidos apenas pa a
e ei o de con ex o.