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O papel do humor nos programas de infoentretenimento televisivo: o caso da SIC Versão corrigida e melhorada após defesa pública Jéni Barreto Lage Jéni Barreto Lage Fevereiro,2022 Dissertação de Mestrado em Jornalismo
Agradecimentos Aos meus pais que me permitiram estudar sempre as áreas que eu mais gosto e que acreditaram em mim em todas as ocasiões. À minha família que, mesmo longe, esteve sempre do meu lado. Aos meus amigos que me encorajaram a fazer uma dissertação, ainda que não me sentisse preparada para tal. Aos meus colegas que percorreram este caminho incrível sempre de cabeça erguida e dos sentidos alerta para novas oportunidades. À professora Dora Santos Silva que foi a melhor pessoa que eu poderia ter escolhido para me orientar. Devo-lhe muito, por tudo. Muito obrigada.
Resumo Numa sociedade cada vez mais marcada pelo aparecimento de plataformas digitais que permitem uma difusão rápida e quase instantânea da informação disponível no quotidiano, a televisão conquistou o público pela possibilidade de compartilhar uma experiência de lazer num ambiente familiar O infoentretenimento, o género em análise nesta dissertação, utiliza várias estratégias narrativas para envolver o espectador, com recurso a formatos humorísticos como opção narrativa. O humor, sendo uma ferramenta de persuasão e comunicação complexa, foi alvo de estudo por diversos neurocientistas, autores, comediantes e jornalistas. O objetivo desta dissertação é perceber a relevância que o humor pode ter na transmissão de informação, mais especificamente no programa “Isto é a Gozar com Quem trabalha” da SIC, apresentado por Ricardo Araújo Pereira, analisando os formatos narrativos utilizados neste programa de infoentretenimento. A investigação mostra que o humor é uma técnica narrativa eficaz na passagem de informação. Palavras-chave: jornalismo televisivo, infoentretenimento, programas humorísticos, SIC
Abstract In a society increasingly marked by the emergence of digital platforms that allow a quick and almost instantaneous dissemination of information available daily, television has conquered the public through the possibility of sharing a leisure experience in a familiar environment. Infotainment, the genre under analysis in this dissertation, uses several techniques to engage the viewer, using humorous formats as an narrative option. Humor, being a complex communication and persuasion tool, has been studied by several neuroscientists, authors, comedians, and journalists. The objective of this dissertation is to understand the relevance that humor can have in the transmission of information, more specifically in the program “Isto é a Gozar com Quem Trabalha” on SIC, presented by Ricardo Araújo Pereira, focusing on the narrative formats of infotainment programs. The research shows that humor is an effective technical narrative in passing on information. Keywords: television journalism, infotainment, humorous programs, SIC
Índice Introdução ............................................................................................................. 1 Capítulo 1: O entretenimento no panorama jornalístico ....................................... 3 A história da televisão ............................................................................................................... 3 1.2 O nascimento do infoentretenimento enquanto género ........................................................ 8 Capítulo 2. O humor enquanto linguagem no Infoentretenimento ..................... 18 2.1 A história do humor ........................................................................................................... 18 2.2 Humor no jornalismo e na sociedade ................................................................................. 31 2.3 O impacto do humor na sociedade: sensibilização para questões sociais .......................... 33 2.4 Os formatos narrativos do infoentretenimento na era digital ............................................. 45 Capítulo 3. Desenho de investigação .................................................................. 49 3.1 Objetivo e perguntas de investigação ................................................................................ 49 3.2 Metodologia ....................................................................................................................... 50 3.2.1 Análise de conteúdo: corpus e variáveis de análise ........................................................ 50 3.3. Entrevista .......................................................................................................................... 51 Capítulo 4. Resultados e Discussão .................................................................... 52 4.1 Análise editorial – Caracterização do programa e apresentador ........................................ 52 4.2 Análise do conteúdo – Temas relatados............................................................................. 55 4.3 Análise do conteúdo – Formatos narrativos ....................................................................... 68 4.4 Análise do discurso - humor .............................................................................................. 74 4.5 As entrevistas ..................................................................................................................... 81 Conclusão ........................................................................................................... 88 Bibliografia ......................................................................................................... 92 Anexos .............................................................................................................. 101
1 Introdução Com esta dissertação procura-se compreender a maneira como o humor pode ser um método para transmitir informação, aliando-se a outros formatos narrativos característicos dos programas de infoentretenimento. Se, por um lado, o infoentretenimento é visto como um género híbrido que alia a informação e o entretenimento das diversas áreas da sociedade para uma discussão mais leve e interativa, por outro lado, é associado a um escape da realidade através de narrativas demasiado simplificadas e, segundo o espírito iluminista retratado por Dyer, “vulgares e fáceis” (Dyer, 2002, p. 6). Contudo, é incontestável a evolução do género televisivo que se verificou desde os tempos de Molière até ao século XXI. À medida que a competição dos média se intensificou, os géneros foram-se diversificando e o infoentretenimento apareceu como uma alternativa a um conteúdo exclusivamente informativo, com recurso a formatos narrativos que conferissem aos programas uma dimensão visual e sonora diferente. O surgimento de uma era digital com a partilha de conteúdos nos dispositivos móveis tornou possível o acesso constante aos programas de informação e de entretenimento quer nos meios tradicionais, quer nos meios digitais, e trouxe novas possibilidades de interação com os espetadores. O objetivo desta dissertação é precisamente compreender a maneira como o humor, sendo uma ferramenta linguística, pode auxiliar na transmissão da informação do emissor para o recetor, que neste caso se caracteriza como o espetador de um programa de infoentretenimento. O programa em análise, “Isto é a Gozar com Quem Trabalha”, por ser um dos programas com maior audiência e que utiliza diversos tipos de humor na passagem de informação, foi o escolhido para uma metodologia mista, com uma análise de conteúdo e uma entrevista a Ricardo Araújo Pereira. Quais são os principais tipos de humor utilizados no programa de infoentretenimento em estudo, os principais formatos utilizados para transformar a informação em entretenimento, os temas da atualidade que foram selecionados como alvo de humor do programa e de que forma o género entrevista contribuiu para o sucesso do programa são as perguntas de investigação a que esta investigação tenta responder.
2 A dissertação encontra-se dividida em quatro capítulos. O primeiro capítulo apresenta a evolução do meio televisivo e do conceito de infoentretenimento enquanto género. O segundo capítulo aborda o humor enquanto forma de comunicação, de modo a compreender o impacto que esta arma de persuasão tem na retenção de informação por parte dos espectadores, terminando com uma referência a diversos tipos de programas humorísticos, nomeadamente programas de infoentretenimento, que utilizaram o humor para modificar a sociedade. O terceiro capítulo foca os media digitais e os principais formatos narrativos, fundamentais para a análise dos episódios do programa de infoentretenimento escolhido, “Isto é a Gozar com Quem Trabalha” da SIC. O quatro capítulo apresenta um estudo empírico onde, através de uma análise de conteúdo aos episódios do programa e uma entrevista ao apresentador Ricardo Araújo Pereira, se procura atingir o objetivo e as perguntas de investigação já enunciadas. O quinto capítulo apresenta os resultados seguido das conclusões.
9 “Infoentretenimento” tem um sentido bastante amplo, é de certo modo a “superposição de duas expressões que caracterizam as áreas de informação e entretenimento” (Gomes, 2009, p.207), carregando um sentido que permite que diversos autores recorram ao termo para falar de conteúdos que embora não tenham relação com o jornalismo, contém um determinado tipo de informação no seu conteúdo. É o caso de Michael Medved que defende que “entretenimento é a novidade” 6 (1999, p.6). No seu artigo, compreendemos o impacto que determinados conteúdos mediáticos tiveram na audiência, como a série Seinfield que estreou em 1998 e que foi alvo de diversas críticas ou a trilogia Guerra das Estrelas ou Jurassic Park, onde o espetador foi o responsável pelo sucesso deste conteúdo de entretenimento, marcando a importância do público no sucesso ou decadência do meio. Os programas de infoentretenimento canadianos, remetendo para 1950, com programas como Carte Blanche e Chez Miville a destacarem-se, demonstram que embora o infoentretenimento seja uma forma primária de mistura entre entretenimento e informação, “a porosidade da linha que os separa não é assim tão recente” 7 (Bastien & Roth, 2018, p. 16). O infoentretenimento é visto como um fenómeno moderno que começou a emergir e tornar-se popular na década de 80. Originalmente “um género específico das notícias, bem como uma mudança abrangente no conteúdo das mesmas” 8 (Lofton, 2012, p. 425). As origens do infoentretenimento remetem exatamente para a literatura de rua onde a penny press americana se desenvolveu na década de 1830 e os novos meios e modos de comunicação de massa até às notícias sensacionais começaram a expandir-se ao longo da década (Thussu, 2007). A corporação levou a uma série de efeitos que tornaram a popularidade do infoentretenimento muito diferente. Incluindo uma fragmentação dos conteúdos em que Bast 6 Tradução livre do original: entertainment is new. 7 Tradução livre do original: The authors argue that while these programs represented “primitive forms” of the mixture of entertainment and news, they nevertheless indicated that the porosity of the line between these two genres is not so new. 8 Tradução livre do original: specific genre of news, as well as an overarching shift in the content of news”.
10 os próprios desenvolvimentos da sociedade em termos informativos e de entretenimento possibilitaram um maior envolvimento das duas áreas (Baum, 2005). O infoentretenimento tornou-se global na sociedade quando a concentração das multinacionais de comunicação multimédia aglomerou as grandes empresas, num modelo liberal e orientado para o mercado dos Estados Unidos da América da década de 1970 a 1990 e que colocou uma concentração da propriedade da comunicação social nas mãos de um pequeno número de aglomerados multinacionais (Krause, 2011). Assim, o género globalizado parece definir o jornalismo televisivo que, através do estilo americano, privilegia as notícias viradas para os escândalos e problemas da sociedade de maneira a criar um espetáculo que traga uma maior aderência do público (Thussu, 2007). Brandão alertou para o facto de o jornalista ter de selecionar episódios da vida quotidiana que provoquem algum tipo de sentimento no espetador, interesse em pesquisar esta mesma situação após visualizar a notícia. “A televisão irá tomar conta do “lado negro” dos acontecimentos, aproveitando-se disso e tornando o texto dramático” (2002, p.71). Este apelo à emoção é um dos principais objetivos do infoentretenimento numa dramatização dos factos, para um maior envolvimento do público nos eventos retratados. O jornalismo e os meios de comunicação que fazem parte da sociedade tornaramse centralizados de um modo global na própria sociedade onde as realidades sociais foram construídas a partir dos fenómenos, do ponto de vista e perspetiva destas agências de comunicação (Kellner, 2003). O infoentretenimento remete também para uma busca de sensações, muitas vezes associadas ao jornalismo sensacionalista. Este novo jornalismo pode ser visto como um resultado de notícias selecionadas pelo seu interesse público e reportagens políticas mais sensacionalistas, de modo que sejam emocionalmente estimulantes. O termo pode ser associado a programação de notícias leves e material voltado de um modo específico para o entretenimento, embora tenha sido concebido de forma mais ampla nos formatos e meios existentes, como uma convergência entre entretenimento e informação dos assuntos públicos. O infoentretenimento pode ser descrito por Cabrera como uma “combinação entre a reportagem factual e as convenções normalmente associadas ao entretenimento
11 ficcional” (2010, p.212). Também Brants considerava que os programas com informação política de infoentretenimento tinham características de programas informativos de modo tradicional (2005). Um dos principais autores que estudou o infoentretenimento foi Dejavite, que indica que o género passou por diversos processos e conotações ao longo do tempo, atingindo atualmente um equilíbrio necessário para a própria integração nos hábitos e costumes dos consumidores de notícias. As grandes mudanças do sistema global de comunicação, e as opções políticas do neoliberalismo no final do século XX, possibilitaram o desenvolvimento do infoentretenimento, ampliando as possibilidades de produção e consumo de tecnologia e cultura. “As transformações (…) atingem o conjunto do modo de regulação do setor das comunicações em nível mundial. (…) Esse movimento se traduziu num processo generalizado de desregulamentação, reposicionamento do Estado, constituição de novas formas e instâncias de regulação, internacionalização e incremento da concorrência internacional” (Bolaño, 2003, p. 4). Matthews indicou que através do aumento populacional e do surgimento da Internet, teremos um entretenimento mais personalizado, criado por novos grupos em cada meio de comunicação diferente, onde as empresas modificaram as suas formas de produção, aumentando as suas receitas de publicidade, fazendo crescer o género. Segundo a visão do autor a televisão não tinha como única função entreter os cidadãos, mas é uma das funções que a distingue (2018). Figura 2Crescimento do infoentretenimento
12 O conteúdo e a forma das notícias na atividade jornalística foram-se modificando à medida que a competitividade entre órgãos de comunicação aumentou. Marvin Kalb denominava estas notícias “novas notícias, mais imediatas, mais sensacionais, mais voltadas para o mercado e para o lucro” 9 (1998, p.24). Este conteúdo desempenha um papel social muito importante, conferindo diversão, conforto e prazer, numa linguagem mais corrente e num género mais informal: “O noticiário tornou-se um fluxo constante daquilo que poderíamos chamar de lifies – vida e filme em fusão – inseridos no veículo da vida e projetados na tela de uma média internacional” (Gabler,1999, p.12). Gomes foi um dos principais autores a estudar a maneira como o infoentretenimento se desenvolveu em 1980 e 90 do século XX, com a vida urbana a aumentar e uma necessidade cada vez maior de produzir conteúdo, quer de informação, quer de entretenimento, para a alta exigência da audiência que se começava a habituar a ter a televisão presente na sua vida diária. Assim, “o género foi também destacado pela impossibilidade de separar informação e entretenimento que é inerente a certos meios, por exemplo na televisão ou notícias impressas ilustradas” 10 (Cogan & Kelso, 2009, p. 5). Itania Maria Mota Gomes indicava que: “é uma estratégia de produção mediática que não é, em si, nem boa, nem má. O infoentretenimento parece ser o resultado de uma complexa articulação entre políticas macroeconómicas, marcos regulatórios, possibilidades tecnologias, estratégias empresariais, expectativas históricas e culturais sobre os sistemas televisivos e os seus produtos, ideologias, práticas e expectativas profissionais do campo mediático, pressupostos e conhecimentos sobre a audiência. Neste sentido, enquanto estratégia, o infoentretenimento potencializa a criatividade e não interdita a qualidade” (2009, p.209). 9 Tradução livre do original: The new news is more immediate, more sensational, more marketand profit-driven than previous incarnations. It is not merely the appearance of news that has changed, however; the very nature of journalism has been altered. 10 Tradução livre do original: Other media critics have also pointed to such early origins while highlighting the apparent inseparability of information and entertainment that is inherent to certain mediums, for example in televised or illustrated-print news.
13 Nicole Morell, da Universidade de Rhode Island, teve como principal objetivo na sua recensão falar sobre a maneira como o infoentretenimento está a mudar a nossa perceção do jornalismo. No seu artigo “Are Television News Programs Becoming Nothing More Than Infotainment?” explica que é necessário compreender o que são notícias de televisão: “falamos então de imagens de incêndios em casas, acidentes de carro, discussões em mesas redondas e repórteres espiando através de uma tela de televisão” 11 (2007, p.2) e o que é infoentretenimento: “é difícil clarificar o que é infoentretenimento, mas é fácil argumentar que histórias como o do OJ Simpson ou a morte da Anna Nicole Smith afetaram um grande número de pessoas e são de algum modo histórias que receberam tanta cobertura como entreterão” 12 (2007, p.9). O género foi definido como: “as sinergias dos setores de informação e entretenimento na organização das sociedades contemporâneas, as maneiras pelas quais as tecnologias da informação e multimédia estão a transformar o entretenimento e as formas em que o entretenimento está a modificar todos os domínios da vida a partir da Internet à política” 13 (Kellner, 2003, p. 12). Podemos relacionar também a hibridização de géneros e formatos e a interatividade promovida pelas novas plataformas digitais, que coloca o infoentretenimento num patamar diverso no jornalismo e na área da comunicação. A prioridade do infoentretenimento pode ser vista como a procura de uma identidade, um jornalismo que as pessoas se identifiquem, por ser familiar e por retratar exatamente aquilo com que convivem no quotidiano. A sua conotação negativa pode estar associada à maneira como o entretenimento procura o lucro dos seus consumidores, recorrendo a estratégias que ampliem a sua produção e consumo. Por outro lado, a presença do jornalismo é uma das opções que enriquece o conteúdo dos programas, tornando os principais temas retratados, assunto para discussão e tomada de posição dos intervenientes. 11 Tradução livre do original: Images of house fires, car accidents, round table discussions, and reporters peering through one’s television screen 13 Tradução livre do original: “the synergies of the information and entertainment sectors in the organization of contemporary societies, the ways in which information technologies and multimedia are transforming entertainment, and the forms in which entertainment is shaping every domain of life from the Internet to politics
14 Um exemplo de estudo é o programa “Hoje em Dia” na pesquisa qualitativa feita por Barbara Endo. Sendo que o programa assenta em três pilares principais: notícias, prestação de serviços e entretenimento, foi possível atingir 62,9 milhões de espetadores, numa vice-liderança televisiva, que apenas pode ser explicada pela maneira como o programa cativa o público. O panorama jornalístico atual indica que o formato se baseia em: “este formato de programa em revista mistura elementos e estilos de tendências culturais, sociais, educacionais e de lazer que passam a ser configuradas a partir da indústria cultural por meio do entretenimento, oferecendo as mais diversas atrações ao público” (Endo, 2016, p. 47). A autora indica também que: “o entretenimento tem a característica de tornar o tempo livre do público, um tempo de consumo, assimilação de valores, ideias e atitudes e claro, um tempo de lucro para os canais televisivos que o vão adotando” (2016, p. 50). Autores como Nascimento considerava que se tratava de infoentretenimento quando “utilizam assuntos leves no conteúdo, aqueles que utilizam estratégias visuais de entretenimento, aqueles que são informativos com pitadas de humor, aqueles que mesclam cobertura jornalística com dramaturgia, aqueles que são humorísticos” (2010, p.26). Tal como Popescu retratou, a popularidade do género cresceu porque a comunicação global e a era digital em si necessitavam dele. A mistura de informação, conhecimento e entretenimento era fundamental (2007). Embora a comercialização tenha contribuído para o desenvolvimento do infoentretenimento, este desenvolveu-se também a outros fatores. “O infoentretenimento parece ser o resultado de uma complexa articulação entre políticas macroeconómicas, marcos regulatórios, possibilidades tecnologias, estratégias empresariais, expectativas históricas e culturais sobre os sistemas televisivos e seus produtos, ideologias, práticas e expectativas profissionais do campo mediático, pressupostos e conhecimentos sobre a audiência. Neste sentido, enquanto estratégia, o infoentretenimento potencializa a criatividade e não interdita a qualidade” (Gomes I. M., 2009, p. 209) . Séries televisivas ou programas dramáticos podem ser descritas como conteúdos de infoentretenimento uma vez que detém de estratégias narrativas que colocam em destaque questões como a cognição/perceção, conhecimento e sensibilidade (Gomes I. M., 2009).
15 O infoentretenimento: “tem sido usado para se referir a fenômenos de conteúdo tão diversos como notícias leves, personalização e interesse humano em formatos de notícias tradicionalmente duras; gêneros do programa como talk shows que misturam seriedade com diversão, opiniões factuais com sentimentos íntimos; o estilo popular, alegre ou enfático dos jornalistas; e para a introdução de música, dramatização e elementos ficcionais em gêneros de TV informacional” 14 (Brants, 2008, p. 335). Numa perspetiva de avanço e sustentabilidade do jornalismo é bom olhar para este fenómeno como algo positivo, como Mark Boukes “as notícias estão a tornar-se mais próximas do entretenimento, e o entretenimento está a tomar conta de tópicos políticos 15 ” (2019, p.1). O professor assistente na Universidade de Amesterdão explica que o infoentretenimento não pode ser considerado um género, mas sim uma mistura de géneros que representam novos formatos de fornecer notícias, particularmente na esfera política. O envolvimento político concebido nas estratégias de campanha passa muitas vezes para uma viragem para os programas de entretenimento e notícias leves como parte rotineira da estratégia da campanha e comunicação política. A exposição a este tipo de forma de expressar a informação possibilita uma maior conexão com diversos públicos, mais amplos e menos interessados na política propriamente dita, mas como na área se tem desenvolvido (Baum & Jamison, 2011). A informação politicamente relevante é apresentada por meio de formatos de entretenimento e perspetivas especificas de foco ou construído num espetáculo com foco por exemplo nas personalidades ou estilo, em vez da política. (Bastien & Roth, 2018). 14 Tradução livre do original: has been used to refer to such diverse content phenomena as soft news, personalization and human interest in traditionally hard news TV formats; program genres like talk shows that mix seriousness with fun, factual opinions with private feelings; the popular, lighthearted, or emphatic style of journalists; and to the introduction of music, dramatization, and fictional elements in informational TV genres 15 Tradução livre do original: news becoming more entertaining, and entertainment is taking up political topics.”
16 Surgiu assim “uma arena crítica para a concretização do processo democrático nos Estados Unidos e em todo o mundo 16 ” (Baum & Jamison, 2011, p. 134). Para Aguiar o infoentretenimento é: “Utilizado para designar a hibridização do ideal moderno do jornalismo – informar aos cidadãos com uma das principais características da cultura de massa: a competência para entreter, distrair, divertir. Demonstra de que modo a potencialidade de entretenimento do acontecimento torna-se um valor-notícia fundamental para configurá-lo na ordem do discurso jornalístico. Aponta que o sensacionalismo – entendido como a modalidade de conhecimento centrada na lógica das sensações – é uma estratégia de comunicação voltada para produção de narrativas jornalísticas com capacidade de atrair o interesse do público e expandir o universo de leitores” (2018, p. 13). Contudo, esta conotação de género híbrido pode trazer algumas opiniões mistas, opiniões estas que, tal como Gomis confirma, podem trazer alcunhas como jornalismo facilitado, no formato de comentários que podem ser considerados factos, sem que exista alguma comprovação de veracidade a suportá-los (1991). Sílvio António Luiz Anaz descodificou a conotação negativa que tem acompanhado o género híbrido desde o início do seu desenvolvimento no artigo “A questão do entretenimento: o sucesso do infotenimento na crítica audiovisual”, onde se associa a uma classificação do entretenimento em “narrativas consideradas de fácil compreensão e escapistas” (2018, p.142). O principal exemplo usado no texto é de Dyer, um autor que associava o entretenimento aos valores da Igreja Católica, que na época de Molière, consideravam as produções artísticas consideradas “vulgares e fáceis” 17 (20002, p.6). Contudo, esta associação deveria ser considerada uma tentativa arriscada de comunicar, porque tal como Dyer acreditava “nenhum aspeto de transmissão exige maiores habilidades ou trabalho mais árduo de produtores, diretores e artistas que não o 16 Tradução livre do original: a critical arena for the realization of the democratic process in the United States and around the world 17 Tradução livre do original: “entertainment is hedonistic, democratic, vulgar, easy”
17 negócio de capturar o público com um sorriso ou montar uma produção emocionante” 18 (Dyer, 2002, p. 8). A arte, devido a esta conotação negativa, acabava por ser rebaixada na condição de “simples entretenimento” como se não existisse um processo de construção criativo por trás da sua existência. A avaliação é constituída por uma elite especifica, que remete para os séculos XVII e XVIII (Anaz, 2018). A arte é sempre subjetiva, depende da perceção da realidade do próprio espectador, contudo “deve-se considerar as condições imaginativas da peça” (Anaz, 2018). Leonel Azevedo de Aguiar já considerava que a ideia do divertimento associado ao jornalismo lhe retirava credibilidade poderia estar ligado também à obra de Edgar Morin, “Cultura de massas do século XX”, onde se afirma que “o divertimento e evasão causam má impressão em intelectuais e acadêmicos” (Aguiar, 2008, p.24). No entanto, o fenómeno do infoentretenimento não se limita apenas à cobertura mediática que é dada às notícias, uma vez que o termo foi estudado em géneros e representações complexas da comunicação política do século XXI (Marinov, 2019). Para Daniel Hallin e Paolo Mancini o entretenimento: “Definitivamente, trouxe mudanças de perspetiva e abordagem no jornalismo, encorajadas tremendamente pela média social (não profissional). A partir deste ponto de vista, o infoentretenimento pode ser considerado como um processo de atualização da comunicação que alguns pesquisadores identificam com a modernização da indústria” (2010, p.176). Cada vez mais temos presente o infoentretenimento, por vezes de modo quase inconsciente, na medida em que tal como as notícias se tem adaptado à estrutura das novas plataformas digitais, recolhendo e produzindo informação de modo distinto, também o infoentretenimento encontra-se modificado por diversos fatores da tecnologia, economia e sociedade. 18 Tradução livre do original: “No aspect of broadcasting calls for greater skills or harder work from producers than the business of earning laughs or mounting an exciting production number”
18 Capítulo 2. O humor enquanto linguagem no Infoentretenimento 2.1 A história do humor O humor foi alvo de estudo por diversas áreas ao longo do tempo. Cientistas, neurocientistas, psicólogos, linguísticos, todos procuraram compreender a maneira como o humor poderia afetar, modificar, mostrar e discutir a sociedade. O Oxford English Dictionary define humor como “aquela qualidade de ação, discurso ou escrita que estimula a diversão; estranheza, jocosidade, comicidade, diversão 19 ” (Martin R. A., 2006, p. 5). Pode ser identificado também como a faculdade de “perceber o que é ridículo ou divertido, ou de expressá-lo na fala, na escrita ou em outra composição; jocosa imaginação ou tratamento de um assunto” 20 (Simpson e Weiner, 1989, p.486). As definições de humor variam muito, consoante aquele que o estuda ou aquele que procura perceber a sua perceção e, tal como a arte, a sua classificação é bastante abrangente, já que “é um termo amplo que se refere a tudo o que as pessoas fazem ou dizem que possa ser considerado engraçado e tendem a fazer os outros rir” 21 (Martin R. A., 2006, p. 5). 19 Tradução livre do original: “that quality of action, speech, or writing which excites amusement; oddity, jocularity, facetiousness, comicality, fun 20 Tradução livre do original: “the faculty of perceiving what is ludicrous or amusing, or of expressing it in speech, writing, or other composition; jocose imagination or treatment of a subject 21 Tradução livre do original: It is evident from these definitions that humor is a broad term that refers to anything that people say or do that is perceived as funny and tends to make others laugh, as well as the mental processes that go into both creating and perceiving such an amusing stimulus, and the affective response involved in the enjoyment of it
25 essencialmente uma resposta emocional de alegria em um contexto social, uma maneira de interagir de forma mais divertida” 37 (Martin, 2006, p.5). Como duas crianças que brincam num parque, o humor depende de um jogo inconsciente que os dois intervenientes partilham, uma maneira de interagir de forma lúdica. Neste sentido, o psicólogo Michael Apter em 1991 indicou que o humor estava associado a um estado paralélico, distinguindo-se de um estado télico mais sério, sendo que alternamos entre seriedade e comédia durante um dia quotidiano. No entanto, o humor usualmente é processado pelo nosso cérebro quase inconscientemente, captando as informações através de estímulos visuais e sonoros, e recebendo-as como brincadeiras. McGraw e Warner no seu livro “The Humor Code” resumem o que a maioria dos investigadores, inclusive Michael Apter acredita que pode ser “o humor é a expectativa entre o que se espera que aconteça e o que realmente acontece” 38 (McGraw & Warner, 2014, p. 23). Retomando a ideia de que o ser humano é um animal de hábitos, o humor surge principalmente quando não se espera. É do inesperado que o engraçado suscita. As características que podem levar o ser humano a achar cómico determinado estímulo, prendem-se na incongruência. O humor é também utilizado numa situação interpessoal, de regime mais formal, como é o caso de sermões, palestras e discursos de políticos, líderes religiosos e palestras motivacionais onde os intervenientes produzem humor em diversos graus, “uma maneira de criar emoção positiva nas pessoas que rodeiam o ser humano” 39 (Martin, 2006, p. 11). “O humor que ocorre em nossas interações sociais quotidianas pode ser dividido em três grandes categorias: piadas (anedotas humorísticas predefinidas), humor 37 Tradução livre do original: The social context of humor is one of play. Indeed, humor is essentially a way for people to interact in a playful manner 38 Tradução livre do original: Most experts today subscribe to some variation of the incongruity theory, the idea that humor arises when people discover there’s an inconsistency between what they expect to happen and what actually happens 39 Tradução livre do original: Most of us enjoy the positive emotion of mirth so much that we highly value those individuals who are especially good at making us laugh
26 convencional espontâneo, que é criado intencionalmente durante uma interação e humor acidental” 40 (Martin, 2006, p. 11). Durante o quotidiano são geralmente utilizadas piadas para divertir os outros, sendo chamadas de piadas informais, como: “Um homem vai a um psiquiatra que lhe dá uma bateria de testes. Em seguida, ele anuncia as suas descobertas: lamento ter de dizer que você é totalmente louco. O cliente diz: inferno, quero uma segunda opinião. O médico indica: tudo bem, você também é feio” 41 (Long & Graesser, 1988, p. 49). As piadas que são introduzidas no nosso quotidiano como forma de interação social foram alvo de pesquisa por Nicholas Kuiper que descobriu que apenas 11% do riso ocorriam de resposta a piadas, os outros 72% vinham de reações a conteúdos digitais e ainda 72% surgiram espontaneamente durante interações sociais, quer seja resposta a comentários espontâneos quer seja por nervosismo ou motivos variados (Martin R. A., 2006). Ainda foi comprovado por Martin, no livro “Psychology of Humor: An Integrative Approach”, que o humor depende mais do contexto do que da interação em si. No tipo de humor coloquial que as caracteriza, normalmente o tom de voz e o olhar são mais importantes que a piada em si. O humor pode ser categorizado através da gravação dos episódios de uma série humorística televisiva (a escolhida foi The Tonight Show) onde “se categorizou o humor em 11 categorias” (Martin, 2006, p. 13). 1. Ironia – uma afirmação em que o interveniente refere algo que é oposto do que acredita. Acontece por exemplo quando se mostrar descontentamento perante algo ou ofender alguém de uma maneira mais subtil. Por exemplo alguém que sem querer entale uma pessoa numa porta e pergunte se ela está bem e obtenha como resposta “claro que estou bem, não se nota” enquanto geme de dor é um tipo de ironia. 40 Tradução livre do original: The humor that occurs in our everyday social interactions can be divided into three broad categories: (1) jokes, which are prepackaged humorous anecdotes that people memorize and pass on to one another; (2) spontaneous conversational humor, which is created intentionally by individuals during the course of a social interaction, and can be either verbal or nonverbal; and (3) accidental or unintentional humor. 41 Tradução livre do original: A man goes to a psychiatrist who gives him a battery of tests. Then he announces his findings. “I’m sorry to have to tell you that you are hopelessly insane.” “Hell,” says the client, indignantly, “I want a second opinion.” “Okay,” says the doctor, “You’re ugly too.”
27 2. Sátira – um humor agressivo com o objetivo de criticar instituições sociais ou políticas sociais. A sátira usualmente é usada como adjetivo geral para caracterizar filmes ou séries que sejam um retrato da sociedade. O filme “Devil all the time” por exemplo, é uma sátira às instituições religiosas. 3. Sarcasmo – humor que tem como objetivo criticar um individuo de uma forma direta. Quando alguém pergunta se gostaram do discurso que fez e a pessoa responde “nunca desperdicei tanto tempo na vida”, é um exemplo claro de sarcasmo visto que está a afirmar ter desperdiçado tempo a ouvir a outra pessoa. 4. Exagero e eufemismo – mudança do significado de algo diferente do que a pessoa disse, repetindo-o com uma ênfase diferente. Quando uma pessoa não percebe algo que alguém disse e essa pessoa repete de forma muito lenta e quase ridicularizando a outra, temos um exemplo de exagero. 5. Autodepreciação – comentários humorísticos com o objetivo de demonstrar modéstia e deixar o ouvinte confortável. Quando alguém faz um comentário sobre um assunto e a pessoa responde “eu realmente não percebo muito do assunto, podes dar algum exemplo que te tenha acontecido”, deixa o ouvinte confortável com o facto de ter um conhecimento que o outro não tem. 6. Provocação - comentários humorísticos dirigidos à aparência pessoal do ouvinte ou pontos fracos, para obter algum tipo de reação. 7. Respostas a perguntas retóricas - porque perguntas retóricas não são feitas com o a expectativa de uma resposta, dar uma resposta a uma viola a expectativa de conversação e surpreende quem fez a pergunta. Isso pode, portanto, ser considerado engraçado, e a intenção geralmente é simplesmente entreter uma conversa parceiro. 8. Respostas inteligentes a declarações sérias - respostas inteligentes, incongruentes ou sem sentido a uma declaração ou pergunta que era para ser séria. A declaração é deliberadamente mal-interpretada de modo que o falante responda a um significado diferente do pretendido. Quando alguém pergunta se o colega está desconfortável a apresentar um projeto de equipa e este responde com confortável é o seu nome do meio. Deste modo é descartado o peso da apresentação e a equipa é colocada num lugar de tranquilidade.
28 9. Duplo sentido – uma expressão que é deliberadamente mal-interpretada para evocar um duplo sentido. 10. Transformações de expressões congeladas: Transformações de expressões congeladas - transformando ditos conhecidos, clichês ou provérbios em novas declarações (por exemplo, reclamação de um homem careca: "Cabelo hoje, desapareceu amanhã"). 11. Trocadilhos – uma palavra usada de modo humorístico para evocar um segundo significado, geralmente baseado num homófono (uma palavra de som igual). Cada tipo de efeito humorístico pode ser produzido com um ou mais meios de linguagem e está localizado em palavras ou expressões especificas nos exemplos apresentados. Por exemplo “Eu gosto de tubarão, a Rita d´Orca” Um facto curioso da componente humorística é que tanto a tragédia como a comédia levam a uma maior tolerância à dor, uma vez que exercitam as nossas mentes de acordo com o estímulo correspondente. O ato de rir ou chorar são ambos importantes para o nosso corpo reagir de acordo com o estímulo que lhe foi proporcionado. Assistir a uma comédia pode até ser mais benéfico do que meditar ou ouvir música, encontra-se cientificamente provado. O exemplo foi da série Friends onde “assistir a um episódio demonstrou reduzir a ansiedade até três vezes mais do que descansar. A explicação prende-se no facto de que os nossos cérebros querem relaxar e superar o stress, mas também precisam de se manter ativos” 42 (Weems, 2016, p. 141). Os estilos pelos quais o humor se rege não dependem das piadas em si, mas sim motivações psicológicas. Um destes tipos de humor é o humor afiliado, onde “as pessoas gostam de dizer coisas engraçadas, compartilhar piadas espirituosas para divertir os amigos e brincar para reduzir a tensão interpessoal” 43 (Weems, 2016, p. 141). O humor afiliado é considerado positivo uma vez que molda a sociedade e os comportamentos sociais de um modo positivo. 42 Tradução livre do original: For example, simply viewing an episode of the sitcom Friends has been shown to reduce anxiety three times more effectively than sitting and resting. Our brains want to relax and overcome stress, but they need to stay active too 43 Tradução livre do original: One example is affiliative humor. People with high degrees of affiliative humor enjoy saying funny things, sharing witty banter to amuse friends, and joking to reduce interpersonal tension
29 Um outro estilo bastante importante é o humor que potencializa o próprio individuo, caracteriza-se essencialmente por pessoas que gostam de se vestir de uma forma considerada engraçada ou diferente e que tentam ser positivas ao confrontadas com uma situação negativa. Normalmente, as pessoas que utilizam o humor como uma fonte de felicidade, podem possuir uma consideração de si mesmos e da vida ao seu redor mais positiva o que lhes permite tranquilizar face a ameaças exteriores. “O humor pode ajudar a viver mais” 44 (Weems, 2016, p. 143). Existe uma diferença entre ter um bom sentido de humor e saber contar uma piada, na medida em que todos nós conhecemos pessoas que são naturalmente boas em exporse perante os outros e, ao cultivarem o conflito tanto dentro de si como em vários grupos, acabam por encontrar o seu lado engraçado, através deste desafio constante de interação social. É uma questão de produção versus valorização em que se pode explicar a capacidade de alguns seres humanos de entender uma piada melhor do que outros. Distinguem-se este grupo de indivíduos pela forma quase intuitiva como procedem o humor, apreciando-o mais rapidamente e com uma sintonização mais imediata para reconhecer esta ferramenta linguística do que os seus pares. Designam-se “indivíduos que procuram sensações” 45 (Weems, 2016, p.90). Assim, com os três traços de personalidade de Eysenck (extroversão, psicoticismo e neuroticismo), “sabemos que estes indivíduos estão especialmente recetivos em relação ao humor porque podemos olhar para o seu cérebro que processa “o humor absurdo” de maneira diferente. Este humor, considerado absurdo, prende-se em frases de efeito facilmente resolvível através da lógica (por exemplo o que é amarelo e não sabe nadar? Uma escavadeira). A maioria de nós responde ao humor absurdo com cérebros quietos principalmente porque não temos a certeza de como reagir” 46 (Weems, 2016, p. 90). Weems relatou que descobertas ligadas às características de personalidade e apreciação do humor são surpreendentes. Uma das descobertas mais importantes 44 Tradução livre do original: So, humor can indeed help us live longer, as long as it’s the right type. 45 Tradução livre do original: We call these individuals sensation-seekers 46 Tradução livre do original: We know that sensation-seeking individuals are especially responsive to humor because we can look at their brains as they process jokes. Which brings us to the topic of absurd humor, the kind that doesn’t lead to easily resolved punch lines (e.g., What’s yellow and can’t swim? A bulldozer!). Most of us respond to absurd humor with “quiet” brains, primarily because we’re not sure what to make of it
30 relativamente ao humor partiu de Herbert Lefcourt que encontrou semelhanças entre um bom sentido de humor e uma boa consciência ambiental. E Rod Martin e Nicholas Kuiper descobriram que os homens com ambição e forte sentido de responsabilidade a cumprir prazos e horários gostam mais de comédia do que os seus colegas despreocupados. Seguindo a teoria de Freud de que o riso é a nossa maneira de lidar com tópicos sensíveis, no estudo “Humor e Analidade” foi relatada a relação com a defecação, onde segundo o cientista “existem muitas coisas proibidas de discutir e debater e a analidade é uma delas, decorrente da nossa necessidade de descarregar o lixo ao mesmo tempo que nos mantemos limpos. Quem sente necessidade de controlar tudo é anal” 47 (Weems, 2016, p. 94)bs. O nosso sentido de humor pode ser uma ótima maneira de nos diferenciar e ajudar a compreendermo-nos melhor e ao mundo ao nosso redor. Assim como um auxílio para a nossa felicidade e interação social, estas ferramentas linguísticas têm também o poder de modificar a nossa saúde interior. Weems conta no seu livro a história de Norman Cousins para ilustrar o poder da comédia na luta contra uma doença, onde apenas existia uma hipótese em 500 de sobreviver. Em julho de 1964 numa conferência em Moscovo onde, como presidente da Delegação Americana, Norman obteve uma grande carga de participações, preparações e eventos, e descanso quase nulo no meio da atmosfera dinâmica em que se encontrava. Não sabendo a língua, e numa atmosfera doentia de ar e água suja que rodeavam o local, quando regressou à América, o seu corpo doía e não conseguia mover o pescoço, os braços e as pernas. Procurou um médico que o alertou para uma doença grave do colágeno chamada espondilite anquilosante. Para ter alguma oportunidade de cura, a única solução era depender de drogas, recolher sangue excessivamente e comer comida processada, uma escolha bastante desadequada ao corpo humano e que não lhe agradava. Assim, “o paciente tomou a decisão drástica de deixar de confiar nos médicos e procurar uma abordagem diferente” 48 (Weems, 2016, p.132). Primeiramente, saiu do hospital e hospedou-se num hotel que, além de ser o terço do valor, era um espaço muito mais 47 Tradução livre do original: a lot in life is forbidden. Without getting into details, anality is one of those forbidden things, stemming from the need to discharge waste while also keeping ourselves clean and orderly. A person who feels the need to control everything is anal. A person who feels the need to control everything is anal 48 Tradução livre do original: It was about this time that Cousins decided that, instead of trusting the doctors, he would laugh.
31 acolhedor. Seguidamente considerou o efeito do stress para a doença, então parecia correto retirar este fator do processo. Para tal começou a ver filmes antigos, programas de piadas, e ainda que com alguma dor envolvida, descobriu que conseguia rir. Pouco mais de uma semana de descanso depois, conseguiu mover os polegares, um progresso que os médicos consideravam impossível. Passado alguns meses conseguiu pegar em livros, fazer lançamento com bolas de ténis e golfe, bolas de pequena dimensão, e ainda que a doença não tenha desaparecido – dores num ombro e ambos os joelhos com problemas ocasionais – dado o prognóstico inicial, a recuperação foi um milagre. Bem, milagre ou não, a abordagem de medicina alternativa – como tantas outras – ainda não foram comprovadas como primeiramente utilizadas. Benéfico assim como acupuntura ou grandes doses de vitamina c (os três estudados extensivamente), ainda não conseguiram atingir a mesma prescrição que os medicamentos utilizados frequentemente. No entanto, são alternativas a considerar, como foi o caso. “O humor capacita-nos de tomar decisões e ter prazer num mundo complexo. É também uma forma de exercício, mantendo a nossa mente saudável como o esforço físico ajuda o nosso corpo” 49 (Weems, 2016, p.133). 2.2 Humor no jornalismo e na sociedade Os diversos meios de comunicação utilizam o tipo de humor que melhor se adequa à mensagem que pretendem transmitir de acordo com os pontos fulcrais de cada artigo e da maneira pela qual pretendem criar uma ligação com o público. O humor apresenta uma estrutura especifica, também diferenciada pela cultura e meio de linguagem da localidade de onde é emitido. Deste modo, “os jornais americanos têm uma sátira dominante (75%), comparado com a ironia (25%). Os britânicos têm uma predominância da ironia (50%) em comparação com a sátira e humor disfarçado (50%). Os jornais franceses apresentam sátira a 43,8%. Os jornais russos usam a ironia (56,9%) 49 Tradução livre do original: Humor is also a form of exercise, keeping our minds healthy the same way that physical exertion helps our bodies. But like jogging in a smog-filled tunnel, humor used improperly can do more harm than good.
32 com grande distinção em comparação à sátira (25%) 50 ” (Kamensky & Lomteva, 2018, p. 328). O humor também é usado na publicidade comercial de modo a atrair a atenção das pessoas para promover uma atitude positiva em relação a um assunto de grande relevância, como foi o caso do Ice Bucket Challenge em 2014, um esforço realizado por milhões de pessoas para partilhar e promover vídeos de consciencialização da doença de Lou Gehrig, da associação ALS. O conteúdo dos vídeos pode ser de entretenimento, mas as razões que levaram ao sucesso do mesmo prendem-se “no humor utilizado, o apelo da ação de 24 horas e a difusão dos vídeos nas plataformas sociais” 51 (Chattoo, 2017, p. 5). A comédia pode influenciar em grande medida a maneira como a informação nos chega, não só através da sua difusão nas plataformas digitais, mas também nos diversos programas televisivos que foram surgindo com a sua involução. Para que a comédia chegue com impacto e propósito ao público, existem alguns formatos que podem ser utilizadas de modo a, estrategicamente, adquirir os objetivos pretendidos. Diversas publicidades, como a Bertrand na sua publicidade de Natal ou a CocaCola, utilizam uma técnica emocional para manter o público atento e permanecer atento durante um longo espaço de tempo. No jornalismo de “humor” é cada vez mais necessário olhar para a nova era que se impôs com as mudanças digitais. “O jornalismo está a mudar. Isto não são notícias de última hora” 52 (Cilizza, 2013, p. 1). Cada vez a interatividade e a dinamização devem ser um ponto fulcral na maneira de contar e receber as notícias. O jornalismo digital tem ao seu dispor, através da web, um conjunto de ferramentas para contar histórias como imagens, gráficos e tweets, numa diversidade que deve ser cada vez maior, para chegar ao maior número de possível de pessoas. Ao contar uma história através de imagens, 50 Tradução livre do original: “American newspapers have a dominant satire (75%), compared to irony (25%). The British have a predominance of irony (50%) compared to satire and disguised humor (50%). French newspapers have satire at 43.8%. Russian newspapers use irony (56.9%) with great distinction compared to satire (25%)”. 51 Tradução livre do original: the precise, goal setting 24-hour “call to action” for the challenge; and a mildly painful approach that allowed participants to feel like martyrs—and share selfies and videos of themselves 52 Tradução livre do original: Journalism is changing. This is not breaking news.
33 como é o caso dos cartoons, é possível ter uma vertente convincente, mas também lúdica ao mesmo. “Um jornalista não tem de ser sempre sério ou sempre divertido. As duas linhas encontram-se” 53 (Cilizza, 2013, p. 1). Existindo diversas perspetivas se o humor beneficia ou não uma história, no conjunto de meios possíveis para o utilizar, a exploração da narrativa beneficia apenas da diversidade de opções existentes, adequando-se aos diversos grupos sociais e níveis de escolaridade. 2.3 O impacto do humor na sociedade: sensibilização para questões sociais Os estudos sobre o humor, que foram surgindo e evoluindo com a linguística e a medicina, permitiram através de uma análise de determinadas partes do córtex cerebral, entender a maneira como o cérebro processa ao encontrar um estímulo humorístico “o humor é uma forma de processamento psicológico, um mecanismo de enfrentar as mensagens mais complexas e contraditórias, sendo uma resposta ao conflito e à confusão no nosso cérebro” 54 (Weems, 2016, p. 13). Atualmente, graças a programas televisivos como The Tonight Show e Seinfield, o trabalho dos comediantes americanos é agora influência para jovens aspirantes à comédia em todo o mundo. As grandes plataformas de comunicação têm o dever de desafiar as visões e preconceitos impressos nas sociedades, como parte da dimensão global que apresentam na atualidade. Numa sociedade marcada por ideais tão vincados e com informação a surgir constantemente na internet alimentando as crenças e ideias da população, o processo para uma maior igualdade e acesso a oportunidades é longo. No entanto, o humor pode ser uma ferramenta essencial para criar espaço para debate e discussão, assim como promover atitudes justas e igualitárias. 53 Tradução livre do original: And that is the idea that you can either be a "serious" journalist or a "fun" journalist -- and never the twain shall meet. That seems to be a false choice to me. 54 Tradução livre do original: For years, scientists have known that humor improves our health, and now by viewing it as rigorous exercise of the mind, we understand why. Humor is like exercise for the brain, and just as physical exercise strengthens the body, keeping a funny outlook is the healthiest way to stay cognitively sharp. (...) Such comedy pushes our brains to make new associations and tackle confusion head-on.
34 O humor tem diversas componentes que podem ser identificadas através do Questionário de Estilos de Humor, desenvolvidos por Willibald Ruch. O humor agressivo, um daqueles que foi descoberto através deste questionário, relata as pessoas que utilizam outras envolventes como fonte humorística, sendo o sarcasmo e a provocação os casos mais comuns. O outro tipo de humor, que obtém a sua compreensão através da análise do primeiro, é o humor autodestrutivo, aquele que é utilizado como forma de lidar com a baixa autoestima e falta de confiança. A diferença entre os estilos de humor positivo e negativo é o propósito que “podem desenvolver em sentimentos de autoestima e consciência” 55 (Weems, 2016, p.143). Para alguns comediantes, além de fazer rir, o humor deve mudar a nossa maneira de pensar e até agir. O´Hara referiu uma das comediantes mais conhecidas da atividade, Josie Long, como um um exemplo de justiça social, com o programa de humor extravagante da rádio BBC, “Romance and Adventure”, que foi amplamente elogiado. Long acreditava que “a sátira é afligir os confortáveis e confortar os aflitos” 56 (O´Hara, 2016, p.1). Procurando compreender as realidades política das Grã-Bretanha, o humor visa relatar as injustiças publicas do governo. Outra autora que observava o trabalho de Long foi Sophie Quirk. No seu livro “The Politics of British Stand-Up Comedy” conta a sua história num capítulo intitulado “Josie Long, Something Better” e retrata a perspetiva de existe um lugar poderoso na sociedade contemporânea para a comédia, com a postura de Long que de certo modo reflete a sua consciência política e eventos sociais. “O seu trabalho no palco documenta o desenvolvimento da luta de um cidadão que se encontra fundamentalmente em desacordo com o seu governo” 57 (Quirk, 2018, p.46). O´Hara relatou também a importância de Avner Ziv que em 1984 indicou que “a comédia e a sátira possuem um denominador comum no sentido de que ambas tentam 55 Tradução livre do original: Humorous people experience the same number of stressful events as everybody else, and we know this because scientists have counted. However, as researchers have shown, people who are quick to laugh tend to forget those stressful experiences more quickly than those around them. 56 Tradução livre do original: Satire is to afflict the comfortable and comfort the afflicted 57 Tradução livre do original: His work on stage documents the development of the struggle of a citizen who is fundamentally at odds with his government
41 O aparecimento de um género de programas que oferece uma conversa interativa em formato de entrevista foi apelidado de talk-show, sendo um género conhecido pela sua interação oral, entretenimento lúdico e variedade de convidados. (Timberg, 2002). As pesquisas sugerem que o interesse nos talks shows deve-se à quantidade de programas deste género que vão para o ar durante o dia, sendo o que estilo particularmente informal guiado por um anfitrião dá uma sensação pessoal de fazer parte do momento, em género de conversa (Ilie, 2001). Foi também analisada a presença de assuntos de um intuito mais privado e familiar, assim como sexualidade e namoro nos temas maioritários destes programas, conteúdos que interessam a um público no geral (Robinson, 1982). A exposição a talk-shows leva a efeitos de uma maior exposição a perceções de fuga de casa, infidelidade num relacionamento e relações sexuais concretizadas antes do matrimónio (Woo, Dominic, 2001). Foi defendido por Woo e Dominic que o formato em questão oferece uma visão mais racional e verdadeira da vida em sociedade, uma vez que se baseiam em programas diretos a agentes que fazem parte da mesma. Estes programas são também importantes por invocar assuntos que pedem um maior envolvimento do cidadão. É também importante o envolvimento que cada programa oferece para doar dinheiro necessário em relação a causas especificas (Record, 2018). Um dos estudos que visam compreender o impacto dos talk-shows de humor na perceção da sociedade e o humor como mecanismo linguístico foi o de Oprah Winfrey Show e The Piers Morgan Show (Abbas, 2019). Existem diversos fatores que mudam a maneira como o humor influência os programas de entrevistas televisivos, incluindo a personalidade do apresentador e dos entrevistados, o tópico de interação e a maneira pela qual um personagem lida com um determinado assunto. No “Oprah Winfrey Show”, são abordadas diversas questões com os entrevistados e é considerado um dos programas mais influentes de entrevistas da televisão. Os episódios selecionados são a entrevista de Will Smith com a família e de Donald Trump. O segundo programa televisivo que é analisado é o Piers Morgan Tonight Show, onde boundaries between traditional dichotomies, such as public vs. private, collective vs. personal experience, expertise vs. experience
42 numa primeira análise se desconstrói a entrevista com Ricky Gervais, uma das maiores estrelas de comédia de Hollywood. As principais descobertas realizadas à luz destes dois programas semelhantes no seu género e apresentação, mas diversos na personalidade do apresentador é que Oprah sendo mais íntima e amigável com os entrevistados acaba por realizar perguntas que lhe dão respostas favoráveis. Piers Morgan, por outro lado, com uma tentativa de parecer engraçado, em vez de efetivamente ter um humor natural, acaba por falhar em algumas das suas interações (Abbas, 2019). Uma das possíveis conclusões do estudo é que o humor, sendo um ato de interação interpessoal, tem vários caminhos, obstáculos e formas de ser colocado. Existem fatores que afetam o humor nos programas televisivos onde a personalidade do entrevistador e os diversos assuntos que são retratados podem ter um grande impacto. A própria interação dos intervenientes na conversa, dando a conhecer a sua história e respondendo às diversas perguntas do entrevistador, afetam posteriormente a perceção e ideias do público a seu respeito. Além de relatar narrativas do seio global, a comédia pode ser também uma forma de “abordar problemas sociais complexos de uma maneira mais acessível” 73 (Chattoo, 2017, p. 2). Os diversos investigadores que abordam o tempo retrataram o efeito como porta de entrada nos retratos divertidos para os problemas sérios que deles advém. Os tratamentos dos média de entretenimento podem ter dois efeitos principais, neste sentido: fornecer uma nova exposição a questões complexas e conhecimento sobre estas mesmas questões. A comédia pode “quebrar barreiras sociais, introduzindo as pessoas a um processo de identificação e conexão, em vez da alienação” 74 (Chattoo, 2017, p. 2). Deste modo, a exposição dos grupos minoritários em diversas representações de entretenimento (como por exemplo, a comunidade LGBTQ ou a representação negra e asiática em cada vez mais produtos de entretenimento), pode diminuir os preconceitos dos indivíduos em relação a 73 Tradução livre do original: In the area of civic issues, researchers have demonstrated a “gateway” effect, in which entertaining or comedic portrayals of serious issues open the door for audiences to pay increased attention to subsequent serious treatment of issues in traditional news media 74 Tradução livre do original: Comedy can introduce people, social issues and new norms in nonthreatening, “non-othering” ways that encourage identification and connection, rather than alienation.
43 estes grupos. É também importante num mundo cada vez mais dividido em crenças religiosas, políticas e sociais, a sensação de compartilhar um produto de comédia que expressa os valores dos indivíduos em relação a estes mesmos assuntos e grupos, partilha esta que é ampliada pelos conteúdos digitais. Um dos casos mais conhecidos é o programa “Full Frontal with Samantha Bee” da TBS que explora questões sociais, claramente ligadas a um forte sentimento feminista, com uso de entrevistas a famílias refugiadas e visitas a outros países, “com recurso a diversos exemplos para a mensagem chegar mais longe, e retratar os problemas relacionados com direitos civis” 75 (Chattoo, 2017, p. 4) Baym oferece uma abordagem otimista do entretenimento considerando-o como uma possibilidade de inovação do campo jornalístico onde se fundem dois meios numa “integração discursiva” 76 (Baym, 2007). Baum considera este campo como “uma forma de jornalismo alternativo, aquele que usa a sátira para interrogar o poder, a paródia para criticar as notícias contemporâneas e o diálogo para representar um modelo de democracia deliberativa” 77 (Baum, 2005, p. 261). Existe uma visão semelhante que acredita que dentro do campo do jornalismo é permitido e até necessária uma constante atualização tornando os vários modelos diferentes com uma vertente de entretenimento presente (Bollin, 2014). A pesquisa e o debate dos efeitos políticos sobre os espetadores, após confirmação de que o infoentretenimento se tornou um aspeto fulcral da contestação política moderna. (Baum, 2010), tornou-se num campo de discussão com opiniões diversas. Embora nem todos os investigadores da área sejam tão otimistas sobre a programação do infoentretenimento, o género é cada vez mais respeitado por grandes nomes da área. 75 Tradução livre do original: Bee the first woman to host a late-night political satire show. In her weekly show, Bee applies her “fiery and fierce” lens to politics and focuses on issues and perspectives, such as civil rights, that often get less traction in competing satire programs. 76 Tradução livre do original: Baym takes a similar and notably optimistic view of such programming, understanding it as a site of innovation wherein the journalistic field merges into entertainment media through what he terms “discursive integration. 77 Tradução livre do original: alternative journalism, one that uses satire to interrogate power, parody to critique contemporary news, and dialogue to enact a model of deliberative democracy
44 A maior pesquisa do infoentretenimento como género decorre da sua transformação para um meio digital, o desenvolvimento do próprio meio e as tecnologias de transmissão que permitiram a sua expansão. Dentro desta trajetória, os investigadores estão interessados principalmente na natureza e nos efeitos que este tipo de programas tem na população e nos géneros de talk show que misturam notícias e informação de eventos atuais com um formato mais lúdico do ponto de vista visual e auditivo. Assim, dentro deste género, a comédia pode surgir como forma de comunicar, expressar ideias em relação à sociedade, ou como forma de mudança. Nem todo o humor surge de uma vontade de mudar o mundo, no entanto pode ser uma ferramenta poderosa para o fazer uma vez que chama a atenção das pessoas de uma maneira mais interativa e lúdica do que apenas no discurso oral tradicionalmente ouvido. Alguns investigadores argumentam que o “a natureza do humor é uma forma de protesto” 78 (Quirk, 2015, p. 160). “O comediante pode não oferecer uma solução para mudar uma situação, mas providencia-nos com maneiras de chegar a acordo sobre elementos desacordados” 79 (Quirk, 2015, p. 164). A autora defende ainda que brincar socialmente pode ser uma maneira de nos aproximarmos da sociedade que nos rodeia, e que a comédia política provoca um sentimento de ideias compartilhadas. Por exemplo, os programas humorísticos que se concentram na parte política democrática da sociedade podem através do humor, alertar para a área da sociedade em questão, influenciar a população e permitir uma maior obtenção de conhecimento, assim como a participação publica em assuntos da área política. O estudo do The Daily Show foi um dos escolhidos para mostrarem a maneira como os espetadores classificam de modo negativo os políticos e o sistema eleitoral através da comédia desenvolvida neste programa, descobrindo-se também que o espetador tem uma maior participação política em vez de um aborrecimento ou desentendimento com este tipo de exposição. Com base nos resultados de Moy e restantes estudiosos (2005), a exposição a talk shows noturnos (como o The Tonight Show com Jay Leno e The Late Show com David Letterman) também podem ser relacionados com a participação política (Cao & Brewer, 2008). 78 Tradução livre do original: the nature of humor is a form of protest 79 Tradução livre do original: The comedian may not offer a solution to change a situation, but he does provide us with ways to agree on disagreed elements
45 Durante a campanha de 2004, um em cada quatro americanos que assistiram a programas de comédia política adquiriram um conhecimento mais aprofundado do desenvolvimento das eleições. “Esta aprendizagem levou também a uma abordagem prática de participação em campanhas e fazer parte de uma organização, após o desenvolvimento do conhecimento político” (Cao & Brewer, 2008, pp. 9-10). Para a população que não aprecia particularmente a política como uma área da sociedade, é possível que tenham um maior acompanhamento e perceção dos partidos políticos, participantes, assim como das suas posições através deste género de programas (Baum, 2005) 2.4 Os formatos narrativos do infoentretenimento na era digital A luta pelas audiências que surgiu a partir do momento em que o jornalismo passou a ser visto como uma atividade económica na década de 1970 levou a que determinados elementos da área do entretenimento tenham sido utilizados num género mais informal que priorizava sobretudo fatores como a personalidade do apresentador, a forma do conteúdo apresentado e a diversidade de elementos visuais (Thussu, 2007). Os géneros jornalísticos ao serem adaptados ao meio televisivo acabam por necessitar de adaptar a sua linguagem e temática. Mas o infoentretenimento cria uma ligação com o espetador através dos formatos narrativos que orientam o discurso como se de uma única pessoa se tratasse. O desenvolvimento do infoentretenimento enquanto género, como já referido anteriormente, permitiu uma cobertura dos eventos atuais e posterior transmissão dos mesmos para o público de uma maneira mais lúdica e apelativa, sendo progressivamente desenvolvido com características especificas e encontrando o seu lugar na comunicação e no jornalismo. Deste modo, o infoentretenimento necessitou de determinados formatos narrativos não só para conseguir aliar a informação e o entretenimento corretamente, mas também para se distinguir enquanto género abrangente e de fácil leitura e compreensão a uma maior população.
46 Dentro dos formatos narrativos do infoentretenimento, foram utilizadas diversas opções para manter a informação relevante, mas atribuir-lhe uma vertente lúdica. Assim, o uso de infográficos, para facilitar a memorização dos dados e explicação dos temas mais completos, e a credibilidade do jornalismo conseguida através do apelo ao entretenimento, devem ser preservados. Os infográficos pretendem uma fácil compreensão de determinados dados ou assuntos e deste modo recorrem a uma componente visual ao invés de uma componente textual. Normalmente estão organizados através um sistema esquemático com leitura facilitada por imagens ou cores que captem a atenção do leitor. Além dos infográficos, o uso de tabelas e ilustrações são também frequentes ajudando não só a consolidar a informação, mas simplificá-la do modo mais apelativo possível. As ilustrações podem ser animadas ou estáticas e o uso de vídeos de arquivo de outras representações jornalísticas de momentos públicos podem ainda ser utilizadas para introduzir novos tópicos, assim como aprofundar outros. Estas ilustrações têm sofrido diversas alterações mais recentes devido à cultura popular da internet, tornando outro recurso mais comum atualmente, o chamado “meme”. Os memes foram se tornando cada vez mais virais pela facilidade de transmissão de informação entre os diversos meios. Rapidamente um conteúdo da televisão ou da rádio pode ser compartilhado numa rede social com uma conotação humorística pela apropriação de imagens e ideias que os utilizadores fizeram na sua própria realidade. Tal como Nunes indica “as nossas práticas sociais tradicionais misturam-se com as práticas virtuais, tornando-se num movimento fluido” 80 (Nunes, 2020, p. 7). Os memes que se tornam virais são aqueles que são partilhados numa escala muito elevada pelas plataformas digitais, “um meme precisa ser replicado, conhecido, popular, para poder ser considerado um meme de sucesso” 81 (Nunes, 2020, p. 5). 80 Tradução do original: as nossas práticas sociais tradicionais se misturam com nossas práticas virtuais e tudo passa a ser feito com mais fluidez 81 Tradução do original: um meme precisa ser replicado, conhecido, viralizado, para poder ser considerado um meme de sucesso
47 Deste modo podemos compreender que os memes, especialmente numa era digital como a do presente, podem ser uma ferramenta para os programas de infoentretenimento, visto que auxiliam a informação apresentada, complementando-a com humor característico do próprio conteúdo. Nunes acredita ainda que “nós passamos de um consumo cultural online passivo para uma produção cultural democrática e ativa e isso é visto diariamente através da criação dos memes na internet” (Nunes, 2020, p. 6). No género de infoentretenimento são usadas geralmente ligações a conteúdos partilhados nas redes sociais que depois são expostos no programa para discussão do seu significado. Esta possibilidade é uma das vantagens da ligação com as plataformas digitais que já fazem parte do quotidiano dos espetadores. Além de uma melhor partilha dos conteúdos impulsionados pelos órgãos de comunicação, e também possibilidade de comentar nas diversas plataformas sociais, o jornalismo adotou uma nova técnica narrativa que se destaca pela imersão na história através de conteúdos visuais que possibilitam um maior envolvimento (Caddell, 2009). É também possível, graças à possibilidade de guardar e partilhar os diversos segmentos televisivos que vão sendo produzidos, reutilizar vídeos de arquivo para conferir dinamismo ao programa de infoentretenimento. Deste modo, quer sejam vídeos editados, quer sejam vídeos originais, os programas de infoentretenimento podem recorrer a esta componente visual para explicar alguma situação ou introduzir um tema pretendido, exemplo esse o programa “The Ellen Show” que recorre muitas vezes a vídeos de arquivo ou imagens para incorporar diversos temas. O infoentretenimento “cumpre um papel como prestador de serviços ao explicar de maneira didática (por meio de artes, infográficos e da identificação do publico com as personagens apresentadas) temas mais complexos do cunho social e da atualidade de interesse publico” (Dejavite F. A., 2006, p. 62). Sendo este género um meio de transmitir ao público exatamente o que é necessário para além de estar atualizado, como proporcionar um momento de lazer, e mantê-lo ligado ao ecrã a maior percentagem de tempo possível, uma das prioridades do género é apelar à emoção do público da melhor forma possível de modo que o espetador sinta que está a vivenciar aquele evento/emoção simultaneamente (Dejavite F. A., 2006).
48 Outra estratégia narrativa para o infoentretenimento é a “novelização”, referida como uma tentativa de apelar à curiosidade do recetor. Esta técnica expõe os assuntos considerados de interesse público até ao seu máximo potencial, fazendo consequentemente com que o aumento do interesse do público e o motive a querer descobrir os pormenores e conclusão do assunto de destaque (Wolf, 2008). Os adereços são usualmente uma das características desta estratégia, assim como o uso de luz e sons se necessário, para modificar a intenção do discurso ou aprofundar as opções de expressão do apresentador. Podem surgir convidados que comentam ou complementam o discurso do apresentador. A entrevista, que se apresenta como um formato jornalístico muito utilizado, pode ser utilizado para conferir valor ao programa de infoentretenimento. Esta entrevista ocorre usualmente num ambiente diferente daquele que se proporciona com aparições formais pública, sendo o seu formato de pergunta e resposta do entrevistador e do entrevistado pessoalmente. O tipo de linguagem utilizado influencia o discurso do entrevistador e entrevistado colocando-os num pé de igualdade. “As escolhas lexicais não só produzem um efeito de intimidade como conferem um tom coloquial à entrevista que se assemelha a uma conversa de café entre dois amigos num ambiente informal” 82 (Silva N. R., 2007, p. 143) O último formato narrativo utilizado e que vem ao encontro do apelo emocional que o jornalismo de infoentretenimento apresenta é a ligação que se estabelece com o público através da criação de um enredo, como se de uma história se tratasse, onde os intervenientes são vistos como personagens, (pontualmente utilizando celebridades também para o efeito) e uma música ou programa televisivo associado para criar um ambiente de espetáculo (Bucci, 2000). Podem ser utilizados exageros de expressões faciais ou recursos verbais. O infoentretenimento pode ser visto como tendo três características fulcrais, sendo estas a capacidade de entreter e distrair, uma maior espectacularização do real e uma 82 Tradução livre do original: Essas escolhas lexicais além de produzirem um efeito de intimidade”, conferem um tom coloquial à entrevista que passa a se assemelhar a um simples “bate-papo” entre amigos em um ambiente informal
49 forma de alimentar as conversas que vão surgindo no quotidiano da sociedade (Massó & Gil, 1997). Os programas de infoentretenimento procuram enquadrar a parte factual do jornalismo com os temas mais polémicos e que, habitualmente, fazem parte do interesse do público. Capítulo 3. Desenho de investigação 3.1 Objetivo e perguntas de investigação Existem poucos estudos sobre o uso do humor nos programas televisivos de infoentretenimento e o impacto que tem na audiência, embora sejam dos programas mais vistos. O presente relatório foca-se na análise editorial desses programas, em particular nas estratégias relativas ao uso do humor e aos formatos utilizados no infoentretenimento, utilizando como caso de estudo o programa da SIC “Isto é Gozar com Quem Trabalha”, apresentado por Ricardo Araújo Pereira. O objetivo da presente investigação é compreender a maneira como o humor, sendo uma ferramenta de comunicação, pode auxiliar na transmissão de informação num programa de infoentretenimento. Tendo em conta este objetivo, foram definidas quatro perguntas de investigação: • Quais são os principais tipos de humor utilizados no programa de infoentretenimento em estudo? • Quais são os principais formatos utilizados para transformar a informação em entretenimento? • Que temas da atualidade foram selecionados como alvo de humor do programa? • De que forma a entrevista contribui para o sucesso do programa?
50 3.2 Metodologia Para responder às perguntas de investigação, optou-se por uma metodologia mista, constituída por uma análise de conteúdo e uma entrevista ao apresentador Ricardo Araújo Pereira. 3.2.1 Análise de conteúdo: corpus e variáveis de análise O universo estudado foram os episódios do programa “Isto é a Gozar com Quem trabalha”. Este programa de infoentretenimento representa a sociedade de uma forma humorística através dos conteúdos que são considerados pelos meios de comunicação portugueses como semanalmente relevantes. O ex-jornalista, escritor, cronista, produtor e comediante Ricardo Araújo Pereira apresentou o programa desde o dia 1 de março de 2020 até ao dia 16 de maio, num ano que se caracterizou por uma pandemia do coronavírus. O programa encontra-se dividido numa primeira parte de apresentação e interpretação dos conteúdos semanais e uma entrevista com um convidado que se depara com questões sobre os principais temas atuais. A amostra artificialmente construída foi feita escolhendo o primeiro episódio do primeiro mês, o segundo episódio do segundo mês, e assim sucessivamente, em cada uma das três vagas desta pandemia que marcam três fases distintas da produção do programa. Foram analisados o primeiro episódio de março (3 de março), o segundo de abril (19 de abril), o terceiro de maio (17 de maio), o quarto de junho (28 de junho), o primeiro episódio de setembro (20 de setembro), o segundo de outubro (11 de outubro), o terceiro de novembro (15 de novembro), o primeiro de janeiro (3 de janeiro), o segundo de fevereiro (14 de fevereiro) e o terceiro de março (13 de março). A análise do programa teve início em março de 2020 e terminou em março de 2021. A recolha dos episódios para análise foi feita através da plataforma digital e privada do canal televisivo da Sociedade de Independente de Comunicação, a chamada “OPTO”, que surgiu da parceria entre a SIC e a Samsung no ano de 2021. A investigação teve como principais focos os formatos narrativos utilizados, os temas mais destacados, o tipo de humor utilizado, e a função da entrevista no programa de infoentretenimento em questão. Para os temas de maior destaque foi necessário compreender quais eram os ângulos de abordagem e de que maneira os formatos narrativos acompanham a
57 março referiu-se a recandidatura de Marcelo Rebelo de Sousa, no dia 20 de setembro convidou-se a candidata a presidência Ana Gomes e no dia 3 de janeiro criou-se o segmento especial “Presidimenciais” sobre os debates legislativos e o convidado foi Vitorino Silva, candidato as eleições legislativas). O regresso às aulas foi uma das áreas sociais mais importantes a ser referida no programa e com maior relevância, tendo sido alvo de destaque 5 vezes e com um segmento de entrevista com o Ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, no dia 19 de abril, o regresso às aulas presenciais no dia 20 de setembro com a falta de variedade de escolha das disciplinas e no dia 14 de fevereiro as situações peculiares com as aulas à distância e os computadores antigos dos professores. Temas como os candidatos à Câmara de Lisboa ou a Candidatura de Luís Filipe Vieira à Presidência do Benfica tiveram uma dimensão menor (apenas tiveram destaque uma vez ao longo dos dez programas) porque foram apontados em menor quantidade nos órgãos de comunicação social ao longo dos meses em que o programa foi realizado (de março de 2020 a maio de 2021). Ricardo Araújo Pereira explica ainda: “apontamos mais vezes para o Presidente da República, para o primeiro-ministro, a ministra da Saúde, entre outros, do que apontamos para o Nuno Melo que é um eurodeputado de um partido muito pequeno. Isso não quer dizer que não falemos de figuras pequenas ou de líderes partidários que tenham apenas 1% se eles disserem alguma coisa suficientemente estapafúrdia que preencha o critério de aparecer. Isso de certo modo também é um critério jornalístico, é aquela velha máxima de quando o homem morde no cão”. Acrescenta ainda: “nós partilhamos com os jornalistas determinados critérios, mas os nossos critérios são usados por razões humorísticas. Porque é que tem mais graça falar do António Costa do que do líder de um partido pequeno como o PAN? Porque o António Costa tem mais poder. Tem mais proeminência, é maior”. Os temas do programa são sempre auxiliados pela apresentação de memes, que tal como referido anteriormente, são imagens modificadas através do uso de expressões ou frases humorísticas que se espalham rapidamente e permitem demonstrar a intenção do autor em relação a determinado tema de forma mais criativa (da figura 4 à figura 17).
58 Um dos temas que apresentou maior destaque no programa, por ser uma situação social geral, foi a pandemia provocada pelo covid-19. Assim, foi exposta esta problemática através de situações como a troca de corpos no hospital no dia 15 de novembro (figura 4), a receção do índice de transmissibilidade nos diversos órgãos sociais no dia 13 de março (figura 5), e a falta de camas nos internamentos do Hospital Santa Maria, sendo este último um concurso realizado no estúdio no dia 15 de novembro (figura 6). Dentro do tema da pandemia, no dia 15 de novembro, a troca de corpos do lar da Santa Casa da Misericórdia do Porto de duas idosas de 96 anos que foram hospitalizadas e cuja identidade foi trocada foi um dos temas abordados de modo humorístico pelo programa. O programa foi introduzido por um vídeo real de um órgão de comunicação televisivo onde o jornalista explica o acontecimento. Figura 4 - Troca de corpos. “Nós já sabíamos que a pandemia estava a dar cabo da vida das pessoas, agora que desse cabo da morte também? Já nem falecer sossegado se pode? Olhe peço imensa desculpa, mas esta avó não é a minha” 84 , indicou o apresentador de modo sarcástico. Um dos indicadores que foi mais abordado pelos órgãos de comunicação social foi o índice de transmissibilidade. No dia 13 de março, o programa aproveitou a designação dos diversos órgãos, o “famoso R”, para demonstrar a constante utilização deste termo de forma humorística através de um conjunto de vídeos de arquivo que foram 84 Referência realizado no min. 19:58min.20:12.
59 modificados na sua montagem para reforçar a sua repetição e um meme realizado através da modificação de uma capa de uma revista (figura.5). Figura 5O famoso R. “O famoso R… chama-se o famoso R porque se virem bem no gráfico ele sobe na horizontal como certos famosos, não é? É o meu caso aliás. Daniel Oliveira um beijinho, liga-me” 85 , indicou Ricardo Araújo Pereira sarcasticamente dando abertura para um humor mais pessoal e com um jogo de palavras interno fazendo uma comparação entre o risco de transmissibilidade e a estação da SIC. Com a rápida propagação do coronavírus, os hospitais entraram em sobre lotação proveniente da quantidade de casos de infeção que tiveram de ser internados. Deste modo no dia 15 de novembro, foi disputada a única cama do Hospital de Santa Maria no palco do programa. Foi criado um meme em formato de vídeo baseado no jogo e denominado “Quem quer ser internado?” (figura 6). Figura 6Quem quer ser internado? A proposta festiva do programa baseia-se no jogo “Quem quer ser internado?” sendo que foram montados dois pódios no palco e dois candidatos aleatórios foram a concurso. Os dois doentes anunciados foram Guilherme e Joana Marques, tendo sido medida a febre à entrada para confirmar que poderiam participar. Manuel foi 85 Referência realizada no min 02:22 – min 02:40.
60 desqualificado porque não tinha febre. Para indicar que estavam prontos Guilherme tossiu. “O que transmite falsa sensação de segurança?” 86 foi a primeira pergunta e Guilherme afirmou que era usar mascara sendo que a resposta estava incorreta. Joana respondeu que era ouvir a Graça Freitas e acertou. “Qual é o sítio onde se propaga mais o vírus?” 87 foi a segunda pergunta. Guilherme acertou dizendo que ninguém tem bem a noção. O cheiro de uma caixa foi a pergunta final. Joana não conseguiu cheirar saindo assim vencedora. Tendo por base a pandemia, foram feitas várias entrevistas à Diretora Geral da Saúde, Graças Freitas, e à Ministra da Saúde, Marta Temido, nos diversos órgãos de comunicação social ao longo dos meses e estas entrevistas foram base de alguns momentos humorísticos do programa, mais concretamente no dia 3 de março, 19 de abril, 11 de outubro (figura7,8 e 9). Figura 7Ministra da Saúde apoia lojas chinesas. Relativamente ao tema polémico do início da propagação da pandemia do covid19 e as notícias que apontam para a comunidade chinesa como principal propagadora do vírus, no dia 3 de março, o apresentador recorreu a uma comparação humorística com outras situações de cariz social que resultaram numa pandemia a nível nacional. “Quando se receava que a doença das vacas locas nos fosse matar a todos, o Ministro Gomes da Silva foi e comeu mioleira. E depois quando houve casos de Botulismo em Trás-os-Montes o então diretor geral da Saúde Francisco Jorge foi comer alheira. E agora a atual diretora geral de saúde também pegou o touro pelos coranas. Eu 86 Referência realizada no min.11:35min 11:38. 87 Referência realizada no min.11:58min: 12:01.
61 confesso que me assustei. Depois de um comer mioleira, e outro comer alheira, eu pensava que ela ia comer um chines à frente de toda a gente” 88 acabou por concluir sarcasticamente. No episódio 19 de abril foi realizada uma compilação de vídeos de arquivo com os diversos momentos em que a ministra da Saúde, Marta Temido, fez uma previsão de quando seria o pico de infeção do coronavírus. Figura 8Pico da pandemia. O apresentador do programa indicou então de modo sarcástico: “o pico vai ser no final de maio. Ou a 14 de abril, fim de abril. Assim é que é. Não afinal já foi. Numa Ministra da Saúde isto não é muito bom e mesmo num alpinista. Olha o pico. Parece-me que já vejo. Ah, já passou. Já passou, foi há duas semanas. Não é muito bom. Num empreiteiro é excelente, esta sua obra só lhe consigo que esteja pronta daqui a um ano e meio. Epá a sério? Não, acabei anteontem. Está aqui a chave” 89 . Verificamos ainda que para retratar a situação do pico da pandemia foi comparada a atitude da Ministra da Saúde com um alpinista e um empreiteiro, duas funções/trabalhos na sociedade, criando assim uma comparação humorista de cariz social. Esta contextualização humorística aproxima pessoas que se encontram num cargo alto na sociedade, como o apresentador referiu, ao mesmo nível hierárquico dos trabalhadores comuns. No dia 11 de outubro, foram demonstradas as declarações da Ministra da Saúde relativamente ao número do Serviço Nacional de Saúde começando por indicar que 88 Referência realizada no min. 6:55min.7:45. 89 Referência realizada no min. 06:38min. 07:08.
62 “Realmente há coisas que ainda não estão interiorizadas… pela senhora Ministra, que epa, ainda não sabe o número... é 808 24 24… 24. Senhora Ministra falta o 24” 90 . Figura 9À procura do número do SNS. Após várias entrevistas que foram guardadas sobre o formato de vídeos de arquivo onde a Ministra da Saúde falha várias vezes o número do Serviço Nacional de Saúde, Ricardo Araújo Pereira referiu: “Evoluímos um bocadinho ou não evoluímos? Evoluímos sim senhora. Mas ainda não está. Vamos interiorizar senhora Ministra é fácil. É 808 24 24 24. É fácil de memorizar senhora ministra porque é o número de horas seguidas que os profissionais de saúde estão a ser obrigador a fazer. 24 24 24” 91 . O Regresso às aulas foi um dos temas que tiveram uma abordagem considerável no decorrer das semanas em análise (sendo o ministro da Educação um dos convidados do programa). O seu destaque pode ser explicado pela situação peculiar na educação dos jovens de todo o país, enfrentando o ambiente escolar e a pressão profissional numa altura de pandemia. Para representar o ensino à distância em Portugal, no dia 14 de fevereiro, foram apresentados diversos memes relativamente à falta de condições de acesso a materiais e internet por todo o país (figura 10) e recorreu-se a um convidado, André, para explicar melhor a sua situação (figura11). 90 Referência realizada no min. 06:55min 07:12. 91 Referência realizada no min. 07:41 -min 08:00.
63 Figura 10Gasolina sem Chumbos. Foi relatado no dia 14 de fevereiro o caso de uma aluna em Vimioso que tinha de estudar na carrinha do pai enquanto este tratava do gado. Leonor indica que tem de fechar todos os vidros para não entrar frio, deslocar-se cerca de um quilometro para ter internet e assistir as aulas do 7º ano online. “Claramente uma aluna que não vai ficar para trás. Antes pelo contrário. Vai andar para a frente, depois vai cortar à esquerda na estrada de terra, vai virar na terceira árvore e depois estaciona aí para estudar. A sala de aula desta aluna tem estofos de napa, jantes de 18 polegadas e teto de abrir. Só que não convém abrir por causa da geada. Está frio. Mas esteve bem o Ministério de Educação. Todos os dias esta menina vai em visita de estudo. Isto é que é. Está em clara vantagem nas aulas de Estudo do meio porque está mesmo no meio. Então menina lembra-se de algum vegetal? Então não me lembro, estou a ver sete daqui” 92 , referiu o apresentador com ironia. No dia 14 de fevereiro, para compreender melhor a situação das aulas virtuais, foi realizada uma videochamada com o aluno André (figura11). Figura 11Vídeo criado com o convidado André para relatar o processo das aulas virtuais. 92 Referência realizada no min. 02:15min. 02:52.
64 O apresentador começou por perguntar ao aluno se estava a correr tudo bem com as aulas online. “Boa noite, Ricardo. Sim, sim, tenho acompanhado as aulas através deste dispositivo que o Ministério da Educação me arranjou enquanto os computadores não chegam. O professor fala e eu oiço por este auricular. Para responder falo para este microfone” 93 explicou o aluno enquanto mostrava um copo com um fio, como no jogo infantil do telefone (figura 12) Figura 12O dispositivo do Ministério. O terceiro tema que se destacou pela sua dimensão política nos órgãos de comunicação e pela importância que teve para o país foram as eleições legislativas. Dentro do tema das eleições presidenciais foram realizados vários convites à candidatos às eleições legislativas onde foram questionados sobre o partido onde se encontram inseridos, assim como as suas candidaturas e temas que tiveram destaque durante a semana em questão. Foi criado o vídeo e segmento do programa “Presidemenciais 2021” (figura13) no dia 3 de janeiro para representar os debates presidenciais que tiveram cobertura nos diversos órgãos de comunicação. Figura 13Presidemenciais. 93 Referência realizada no min. 06:40min. 06:57.
65 “A demência meus amigos, começa logo no boletim de voto onde o primeiro nome é dum candidato que afinal não pode ser candidato por causa de um pormenorzinho só: das 7500 assinaturas necessárias para se candidatar, ele conseguiu obter apenas 6” 94 referiu sarcasticamente. Em seguida foram apresentados vários excertos dos debates presidenciais na emissão de dia 3 de janeiro com introdução do debate do Marcelo e da Marisa. Figura 14Momento clássico do cinema. “Vê-se mesmo o Marcelo e a Marisa estão no início da relação porque ele finge que ouve o que ela diz e concorda com tudo” 95 indica com sarcasmo o apresentador, sendo mostrado em seguida um vídeo de arquivo do momento clássico do cinema. No dia 3 de janeiro, o programa criou um centro de alto rendimento para que um candidato se possa preparar para debater com André Ventura. Esta criação foi concretizada no seguimento de um debate de André Ventura com João Ferreira. Figura 15Introdução à proposta do programa. 94 Referência realizada no min 1.12min1:33. 95 Referência realizada no min.03:21min 03:29.
66 “Há todo um treino... todo um treino que ele já tem que tem de vir de trás. Ventura venceu claramente o debate porque o João Ferreira não conseguiu negar que de facto, epá foi penalti”, 96 referiu o apresentador de modo sarcástico. Figura 16Treino para debater com André Ventura e manter a concentração Para representar melhor o centro de debate com André Ventura criado no dia 3 de janeiro, a representação foi auxiliada por vários participantes, assim como objetos e representações de diversos grupos sociais da sociedade foi referido que: “O candidato vai ter se abstrair e manter a atenção enquanto uma senhora lhe tenta vender pescada. Exatamente. É muito complicado manter o fio do discurso. Depois entra uma claque e o candidato deve continuar a fazer-se entender. Nisto entra um lenhador para rachar lenha, com uma motosserra, é um bocado caótico. E depois entra uma fanfarra. Mas dá para continuar a argumentar sobre a constituição. Este esforço de concentração” 97 . A candidatura de Nuno Graciano foi também um dos assuntos de destaque no dia 13 de março de 2021, presente no segmento de Candidaturas à Câmara de Lisboa. O tema foi introduzido com uma notícia da Visão a relatar que Nuno Graciano se ia candidatar e pretendia “forte abanão na capital”. A produção do programa realizou o seguinte meme: 96 Referência realizada no min 08:42 min 08:53. 97 Representação realizada no min 10:35min 11:40.
73 As imagens das redes sociais tiveram uma presença mínima utilizadas apenas no dia 3 de janeiro para acompanhar a opinião de Ricardo Araújo Pereira relativamente ao comentário feito na rede social Twitter de André Ventura (como é o caso da figura 27). Figura 27. Tweet que motivou o humor à figura de André Ventura. “Ele tem dito várias vezes que é a reencarnação de Sá Carneiro. É capaz de haver um pequeno erro. André Ventura não é Sá Carneiro, é Só Carneiro” referindo que ele entra e começa “à marrada” e perguntamos quem “o deixou sair do curral?” 101 terminou de modo sarcástico, auxiliando o discurso com o meme da figura 28. Figura 28. Só Carneiro. . O discurso do apresentador é frequentemente auxiliado por memes como foi apresentado na figura 26 porque conferem uma dimensão visual mais interessante e 101 Referência apresentada no min 08:59-min 09:40.
74 acrescenta uma dimensão humorística, sendo os memes uma das partes fundamentais do programa na introdução dos temas e desenvolvimento dos mesmos. 4.4 Análise do discurso - humor O humor é a principal ferramenta linguística que distingue este programa televisivo dos restantes da estação televisiva. Através de uma análise cuidada dos diversos episódios foram observadas e analisadas as referências humorísticas utilizadas para transmitir informação e o formato através dos quais nos chegam. O apresentador indica que “o humor é uma forma especial, se calhar mais eficaz, de transmitir determinada mensagem. É por isso que a publicidade recorre tantas vezes ao humor, porque eles querem persuadir as pessoas de uma coisa, e o facto de eles recorrerem ao humor significa que estão convencidos que essa estratégia é mais eficaz do que outras”. Ao longo de 10 episódios o apresentador utilizou referências humorísticas 315 vezes para apresentar os diversos tópicos utilizados. Gráfico 3 Utilização do humor ao longo dos episódios. Ao observar os dados analisados e comparando as diversas seções do gráfico, concluímos que o sarcasmo foi o tipo de humor mais utilizado, 45% das vezes com especial destaque para os programas do dia 11 de outubro (13 vezes) e 15 de novembro (13 vezes). 45% 3% 1% 23% 3% 25% Frequência com que o humor foi utilizado Sarcasmo Trocadilhos Transformações de expressões congeladas Comparação humorística Exagero Ironia
75 O sarcasmo privilegia a honestidade sob a forma de sátira sendo que o locutor chega a ridicularizar atitudes e pessoas de um modo direto e frontal. É o tipo de humor mais utilizado uma vez que serve como pretexto para ridicularizar as atitudes do povo português ou dos seus intervenientes de uma maneira mais indireta do que uma acusação frontal. Ricardo Araújo Pereira utilizou o sarcasmo para ridicularizar as atitudes dos portugueses relativamente à covid-19 no dia 19 de abril: “Ah lá fora dizem que somos um milagre. Até estão a dizer…. Só que é capaz de não ser um elogio. Lá fora ainda há portugueses vivos? Para a balburdia que costuma ser, é um milagre (…) Nós até temos números abaixo de vários países europeus, qual é a surpresa? Sempre tivemos muito jeito para ficar aquém da média europeia 102 ” Em relação à primeira fase da epidemia e a segunda fase, o apresentador fez o seguinte comentário sarcástico no dia 20 de setembro: “Os pais têm o primeiro filho e oh meu deus, ferve a chucha. Primeiro ferve o fervedor e depois ferve a chucha dentro do fervedor. Ferve o próprio chão, ferve a sala, ferve a casa. Ferve o bebé. Não fervas o bebé! Primeiro, primeiro, isto era em maio. Segundo filho, a chuca cai ao chão” 103 finalizando com um gesto de soprar a chucha e encolher os ombros. A ironia também foi utilizada de modo amplamente vasto, cerca de 25% das vezes, sendo este um tipo de humor onde o comentador afirma o contrário daquilo que realmente acredita, acabando por ridicularizar os comentários ou atitudes das pessoas a quem se dirige. No dia 19 de abril foi realizado o seguinte comentário: “Era moer este paninho e tínhamos a vacina. Moía-se o paninho, injetava-se o paninho. Tudo à procura em laboratórios lá fora e era um paninho” 104 . A seguinte afirmação decorre de uma demonstração de vídeos de arquivo onde vários idosos beijam a mesma cruz e a auxiliar limpa com um pano. A ironia está presente porque refere 102 Referência utilizada no min 5:13min 5:24. 103 Referência realizada no min 1:55min 2:15. 104 Referência realizada no min 10:52 – min 11:02.
76 exatamente o oposto do que de facto acontece. Um pano, certamente, não acaba com o vírus que pode ser propagado no mesmo objeto. Relativamente às afirmações de algumas figuras públicas no âmbito da pandemia do coronavírus e após testemunho com diversos vídeos de arquivo o apresentador ridicularizou os comentários do público no dia 19 de abril, afirmando o contrário do que realmente acha: “O Universo pôs-se a pensar e disse: então eu que sou a totalidade do espaço e do tempo e tenho um diâmetro de 93 mil milhões anos-luz estou para aturar que numa das minhas galáxias, que a propósito são também, milhares de milhões, haja um pequeno planeta onde uns bichos estão para lá a emitir co2. E a consumir. Consumistas também. (terminando de um modo sarcástico) Sem tempo para as suas relações, diz o universo a pensar que as pessoas lá no planeta estão a dizer, olha queres ter uma relação íntima comigo? Não posso que estou no NorteShopping” 105 . Em relação à posição do primeiro-ministro ao integrar a comissão de honra de Luís Filipe Vieira foi realizado o seguinte comentário irónico no dia 20 de setembro: “Uma coisa sou eu como primeiro-ministro, outra sou eu como cidadão. Quem está na comissão de honra é o cidadão. Eu como primeiro-ministro nem sabia. Estou a saber agora pela comunicação social. Até lhes posso contar como isto se passou. Eu realmente recebi um telefonema do Vieira para fazer parte da comissão de honra e recusei. Tou sim? Epá olhe tenha paciência, mas eu como primeiro-ministro não posso a candidatura de um dos maiores devedores do BES. Só um minuto que eu vou passar ao cidadão. Tou Vieira?” 106 . A comparação humorística é um processo que utiliza analogias entre duas figuras, situações ou objetos para reforçar um ponto de vista e foi utilizado 23% das vezes que o apresentador queria utilizar o humor como estratégia linguística. Foi utilizada a seguinte afirmação para demonstrar o orçamento de Estado previsto para o Novo Banco no dia 17 de maio: 105 Referência utilizada no min 12:56min 13:31. 106 Declarações de António Costa a comunicação social no min 3.22 -min 03:50.
77 “Eu estou rodeado de carros, já agora vendo um presidente em segunda mão. Quem é que quer? Está novo, é elétrico (carrega num instante) e tem uma autonomia enorme, faz o que quer” 107 . A crítica foi conseguida através de uma comparação com um stand de automóveis uma vez que algumas das entrevistas prestadas pelo Presidente da República e do primeiro-ministro foram neste stand. Foi também realizada uma comparação das notícias dos principais órgãos de comunicação com os relatos desportivos no dia 3 de março: “A cobertura dos jornais tem parecido um relato de futebol. Olha o coronavírus, passa para um país, passa para outro. Está em Itália, está em Espanha, vai infetar… por cima. Foi para o Brasil” 108 . A comparação também pode ser realizada quando o apresentador utiliza o tom de voz, ritmo ou dicção de outra figura pública e acaba por a representar comparando-se com a mesma. O apresentador reproduziu as palavras de Marcelo Rebelo de Sousa na condição de religioso sobre assuntos que não são os principais neste momento. “Nosso Senhor Jesus Cristo, eu dirijo-me a si na qualidade de Presidente da República portuguesa, bom, realmente isto do seu aniversário nos últimos 2020 anos tem sido uma festa realmente interessante, mas este ano eu tive aqui umas ideias e por exemplo não sei se tem meia horinha agora para me dispensar para eu falar de algumas alterações. Bom, em termos de catering, vamos começar, há umas broas que sabem a gavetas, nunca ninguém come aquilo, parece que são as mesmas todos os anos, não sei se nosso senhor está a par disto... bom…em termos de timings e tal, bom, julgo que é muito em cima do fim de ano, duas festas muito próximas, bom, bom” 109 . O apresentador utiliza diversas vezes luz e som para “exagero” do tom de voz e das emoções, conferindo dinâmica e humor aos diversos segmentos. Cerca de 3% das interações do apresentador contiveram um exagero de expressões, palavras, emoções ou 107 Comentário ao discurso de António Costa no min 06:01min 06:07. 108 Referência realizada no min 03:18min03:30. 109 Comparação realizada no min 05:22min 06:07-
78 gestos do apresentador não são realizadas de forma natural, mas sim com uma cadência ou tom para acentuar a sua utilização. No dia 11 de outubro foi realizado um apelo ao Natal (figura 29) com emoção exagerada e luz a auxiliar a dimensão visual do discurso. Figura 29Apelo de Marcelo ao Natal O apelo foi o seguinte: “Nosso Senhor Jesus Cristo, eu dirijo-me a si na qualidade de Presidente da República portuguesa, bom, realmente isto do seu aniversário nos últimos 2020 anos tem sido uma festa realmente interessante, mas este ano eu tive aqui umas ideias e por exemplo não sei se tem meia horinha agora para me dispensar para eu falar de algumas alterações. Bom, em termos de catering, vamos começar, há umas broas que sabem a gavetas, nunca ninguém como aquilo, parece que são as mesmas todos os anos, não sei se nosso senhor está a par disto... bom…em termos de timings e tal, bom, julgo que é muito em cima do fim de ano, duas festas muito próximas, bom, bom” 110 . No dia 17 de maio foi apresentada uma representação de um dos temas do programa através do discurso do ator convidado, Ricardo Pereira, em brasileiro visto que é um artista representado pela Globo e que as novelas brasileiras são mundialmente conhecidas com o protagonista em diversos papéis de destaque, e onde são relatados os acontecimentos da semana, intervalando com os vídeos de arquivo da Assembleia onde António Costa prometeu a Catarina Martins que não ia colocar mais dinheiro no Novo Banco, ainda que Mário Centeno tenha realizado esta transição sem o consentimento do primeiro ministro, sendo que esta injeção já estava prevista no orçamento. 110 Referência realizada no min 05:22min 06:07.
79 Figura 30Auditorias de Paixão Através do uso de um lenço como adereço específico, o apresentador procura fingir emoção em relação à novela apresentada, de um modo exagerado. Os trocadilhos e as expressões congeladas transformadas representam dois tipos humorísticos semelhantes. No trocadilho, troca-se pequenas palavras ou expressões para apresentar um outro significado e foram utilizados 3% das vezes que o apresentador pretendeu acrescentar humor ao programa. Os trocadilhos tiveram a particularidade no programa apresentado de auxiliar cada tema apresentado, sendo que foram mais utilizados que as expressões congeladas (apenas 1% das vezes). No dia 13 de março, foi apresentada a candidatura de Nuno Graciano à Câmara de Lisboa. Para completar a exposição do tema, o apresentador recordou o Festival de Sushi organizado pelo candidato em julho de 2015 . Figura 31Exemplo de trocadilho “Depois deste fracasso com o sushi, Graciano regressa agora, ou seja, resushitou” 111 concluiu o apresentador, num trocadilho. Nas expressões congeladas, por outro lado, utiliza-se um provérbio, ditado ou expressão popular já conhecida e procura-se um novo significado para a mesma. 111 Referência realizada no min.17:43min 17:47.
80 No dia 17 de maio recordaram-se as diversas recomendações em relação à pandemia do coronavírus, afirmando-se que as recomendações mudam bastante depressa, um “roda, roda, vírus” (figura32). Figura 32Exemplo de modificação de uma expressão congelada O apresentador acredita que o humor é a componente essencial do programa, afirmando que apenas está interessado em “ouvir aquele barulho que 400 pessoas fazem quando riem, esse é o meu objetivo. As pessoas podem responder que se o objetivo é esse então porque é que eu não baixo as calças ou digo palavrões, coisas que produzem o efeito que pretendo. Por várias razões, uma delas é que falo de coisas que me interessam e interessa-me um riso que não seja fácil. Parece-me equivalente a jogar ténis com a rede em baixo. Se eu chegar ao palco e fizer algo desse género, eu sei que vou obter uma gargalhada. A questão é que é uma gargalhada muito insatisfatória. Mesmo para as pessoas que vão para casa a pensar nisso” referiu na entrevista prestada através da plataforma Zoom.
81 4.5 As entrevistas As entrevistas são uma parte fundamental do programa, e constituem cerca de 10 a 15 minutos do tempo total, sendo geralmente um reflexo da personalidade do apresentador. A personalidade do apresentador é um forte indicador do desenvolvimento da conversa e capacidade de interação com os convidados. A sua capacidade comunicativa, assim como a simpatia e bom sentido de humor, não só se refletem no tipo de humor utlizado, mas também no decorrer da conversa. É importante destacar ainda que para uma lógica de exposição de conteúdos, normalmente a entrevista deve ter a mesma dimensão temática que a primeira parte do programa. O apresentador, Ricardo Araújo Pereira, explicou esta relação indicando que “sendo o programa de sátira política, o convidado é escolhido tendo em conta a sua proeminência numa certa altura. Como é óbvio convidamos diversas vezes a Ministra da Saúde e a Diretora Geral da Saúde, elas não aceitaram, mas como é obvio faria muito sentido que em altura de pandemia quando elas estão no centro geral das atenções, as convidássemos. O plano é esse. Adequar o convite ao que se passou durante a semana, ao facto de o convidado ter sido protagonista de alguma maneira (porque é candidato a uma Câmara por exemplo) e porque posso convidar para aquele momento alguém que eu possa provocar, alguém que tenha poder de algum modo, por razões humorísticas. É mais divertido estar a fazer provocações a uma pessoa poderosa, do que fazer provocações a um desgraçado qualquer”. Nesta segunda parte, são discutidas as opiniões do convidado relativamente aos assuntos políticos, sociais e económicos do momento, conferindo ao público um maior conhecimento da figura pública do que habitualmente teriam apenas com as aparições publicas mais formais, em entrevistas e debates. Sendo questionado sobre a possibilidade de o convidado mostrar um lado completamente diferente, Ricardo Araújo Pereira indicou que: “É verdade e essa provavelmente é uma das razões por que eles lá vão. Primeiramente, por causa da nossa audiência (conseguem chegar a um tipo e quantidade de pessoas que não é assim tão frequente); seguidamente pelo tom da entrevista (não é uma entrevista formal, é algo diferente) mas é importante perceber que é uma entrevista
82 política na mesma. Eles não vão lá para lhes perguntarmos da família, dos animais de estimação, etc. Eles vão lá para fazer uma entrevista política”. “Podemos dizer ainda que aquele momento é muito diferente da primeira parte. Na primeira parte dizemos coisas mesmo muito desagradáveis sobre aquelas pessoas, na segunda parte são provocações que não são desagradáveis, são simpáticas se calhar. E não podia ser de outra maneira. Eu acho que dava um péssimo espetáculo televisivo eu estar a tentar enxovalhar aquelas pessoas, ou a dizer uma coisa que as deixasse desconfortáveis, mesmo que eu tivesse interesse nisso, do ponto de vista estratégico”, acrescenta. Os convidados são geralmente da área política da sociedade (gráfico 4). Gráfico 3 Área dos convidados. Na segunda parte do programa, usualmente separada por um intervalo, o tipo de humor não tem uma definição nem regularidade estável uma vez que depende sempre do desenrolar do discurso e das reações e respostas por parte dos convidados. Ao ser questionado se a personalidade dos convidados influenciava o decorrer da entrevista, o apresentador respondeu: “sim, por exemplo, uma vez tive lá uma pessoa que disse na maquilhagem que não tinha graça e eu respondi-lhe que ninguém esperava isso dela. Eu lembro-me sempre do general Ramalhes Eanes muito sério, eu não me lembro de o ver a rir, e tanto ele como a Manuela Ferreira Leite que são figuras bastante circunspectas, deram entrevistas engraçadíssimas. Às vezes precisamente por causa disso, por 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Desporto Política Contagem de convidados do segmento de entrevista por área da sociedade
89 Na segunda parte do programa, os tipos de humor apenas são percetíveis através das respostas dos convidados, sendo que não apresentam uma frequência certa e que apenas servem para introduzir as perguntas. A entrevista apresenta como principal característica do programa a oportunidade de dar a conhecer ao público as principais opiniões, ideias e comentários dos convidados em relação aos temas de maior destaque da sua profissão, gostos ou acontecimentos. Quanto maior for a disposição de cada interveniente para aceitar a sátira inerente às perguntas apresentadas, mais facilmente a conversa decorre com naturalidade e a personalidade de cada figura pública sobressai de um modo até então desconhecido ao público, sendo que usualmente os convidados são introduzidos com ironia e questionados com sarcasmo. PI2. Quais são os principais formatos utilizados para transformar a informação em entretenimento? Concluiu-se que estes conteúdos são, por vezes, auxiliados por vídeos criados ou editados pela própria produção do programa com segmentos jornalísticos da semana, outras vezes por adereços ou ainda convidados do público, que alteram substancialmente a maneira como o espetador recebe a informação pretendida. Os adereços são sempre utilizados em parceria com o discurso oral do apresentador, assim como os memes. Este recurso visual apresenta usualmente trocadilhos associados à imagem, apresentados sobre o modo de frases ou expressões. PI3. Que temas da atualidade foram selecionados como alvo de humor do programa? Com cada vez mais informação disponível, sendo uma grande maioria motivada pelas situações sociais que o país atravessa, com especial ênfase para a pandemia provocada pelo vírus do covid-19, o humor ajuda a lidar com sentimentos controversos e desconhecidos, como o medo, a aflição e preocupação com o futuro. Assim, os temas que tiveram maior destaque no programa foram aqueles que resumiam os acontecimentos da semana. A pandemia foi um dos mais retratados sobre diversos pontos de vista, assim como o regresso às aulas virtuais e as eleições presidenciais.
90 Os principais temas (pandemia, eleições presidenciais e regresso às aulas) tiveram como principal objetivo informar sobre os acontecimentos do país, permitindo ao público estar informado, mas também entretido durante o programa. O espetador teve acesso aos estudos sobre a vacinação, as principais declarações da Ministra da Saúde e da Diretora Geral de Saúde e ainda a evolução dos casos de infeção e principais zonas afetadas, sendo que a pandemia foi tema em 9 de 10 programas. Foi informado sobre os principais candidatos às eleições presidenciais assim como os candidatos à Câmara de Lisboa e entrevistas exclusivas com os próprios candidatos para abordar as principais questões relativamente à sua eleição e curiosidades da candidatura, temas abordados em 6 dos 10 programas. Também teve oportunidade de perceber como se iriam proceder as aulas virtuais, com uma entrevista a Tiago Brandão Rodrigues e com acesso ou revisão dos principais segmentos jornalísticos que abordaram o assunto durante a semana, sendo o foco em 2 de 10 programas analisados. PI4. De que forma a entrevista contribui para o sucesso do programa? Através de uma entrevista com o apresentador, Ricardo Araújo Pereira, e da análise das entrevistas realizadas ao longo dos dez programas, compreendemos que é uma forma de discussão dos temas da atualidade num ambiente mais informal relativamente àquele apresentado nos meios de comunicação informativos. É ainda uma forma de conhecer outra faceta dos convidados dificilmente visualizada em entrevistas ou aparições publicas mais formais e pontuais. Deste modo, graças aos diversos formatos narrativos característicos deste programa de infoentretenimento, tivemos conhecimento dos assuntos semanais de maior destaque nos órgãos de comunicação portugueses através de uma apresentação humorística caracterizada por uma entrevista no final do segmento televisivo. Ao analisar o programa “Isto é a Gozar com Quem Trabalha” concluiu-se que este se apresenta como uma mais-valia para a sociedade portuguesa por discutir temas, principalmente da área social e política da sociedade portuguesa que são usualmente destacados pelos meios de comunicação social ao longo da semana.
91 O próprio programa foi realizado em altura de pandemia, quando havia muita preocupação e informação relativamente ao estado do país, e não poderia haver público no estúdio para assistir ao programa o vivo. A continuidade de um programa de infoentretenimento humorístico durante um ano controverso, apresentando, semanalmente, conteúdos diferentes e discutindo as diversas informações e situações do país, pode ser um fator de alívio e alienação das preocupações provocadas pelo quotidiano da população. Um dos motivos por que este programa é uma mais-valia para a sociedade é tal como João Soares refere numa das entrevistas: “Eu venho bem-disposto (para a entrevista) como sempre que o vejo. Tenho uma dívida de gratidão para consigo como a maioria dos portugueses porque você tem-nos feito sentir todos felizes 119 ”. O apresentador tem a capacidade, assim como toda a equipa da produção do programa, de tornar as situações mais difíceis de aceitar em situações mais levianas através do humor. Por outro lado, é um programa que se distingue dos outros géneros apresentados pela estação televisiva em questão, porque utiliza o humor como seu aliado e completa os temas através de convidados especialistas nestes mesmos, conferindo-lhe diversidade nos conteúdos apresentados e melhorando a sua visibilidade enquanto estação. “As pessoas dizem-me na rua quando passam por mim que querem ver o que eu vou dizer sobre um caso específico, sobre o que aconteceu esta semana e isso é simpático”, afirma o apresentador. Concluiu-se ainda que os programas de infoentretenimento televisivo com a vertente humorística permitem passar informação de uma forma diferente dos programas informativos, oferecendo um outro “ponto de vista”, como o apresentador acredita, mas ainda assim fornecendo um “resumo semanal” dos principais temas e noticias abordadas pelos órgãos de comunicação (tanto imprensa como televisão) ao longo da semana, com a possibilidade de falar diretamente com os seus principais intervenientes num segmento de entrevista que tem uma dimensão mais informal em comparação com as aparições realizadas de um modo mais formal durante a semana. 119 Episódio de 11 de outubro, entrevista a João Soares (min.19:4019:52)
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105 Portugal, gestão orçamental) 13 de março de 2021 Sarcasmo, trocadilhos, ironia, comparação humorística, exagero Patrícia Mamona - atleta Sociedade, política Pandemia (desconfinam ento), Eleições Presidenciais (Reeleição de Marcelo Rebelo de Sousa), Candidatos à Camara de Lisboa (Iniciativa Liberal e CHEGA) Percurso da atleta (triplo salto, A essência de ser atleta, o impediment o de entrar no Lux, covid, treinos, primeira competição, curso de engenharia biomédica) Memes, vídeos originais de arquivo, vídeos editados, vídeo criado pela produção do programa, imagens de órgãos de comunicação