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A Onda da Transformação. Surf, Turismo e tradição na Nazaré

Abstract

A Onda da Transformação é um trabalho de pesquisa de mestrado em Antropologia que tem como objetivo, a partir do filme etnográfico, provocar reflexões sobre o cotidiano e o imaginário da Nazaré após as transformações ocorridas na vila desde a “descoberta” das ondas gigantes da Praia do Norte, em 2010, explorando aspectos relacionados a cultura, identidade, tradições, surf e turismo e o modo como esses elementos se entrelaçam.

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A Onda da Transformação. Surf, Turismo e tradição na Nazaré

Author: Ferreira, Francisco Freire Moreira Pinto
Year: 2021
Source: https://run.unl.pt/bitstream/10362/138118/1/A%20Onda%20da%20Transformacao%20-%20Trabalho%20Projeto%2057679%20corrigido.pdf
A ONDA DA TRANSFORMAÇÃO
Su , Tu ismo e T adição na Naza é
F ancisco F ei e Mo ei a Pin o Fe ei a
Se emb o de 2021
T abalho de P oje o de Mes ado em An opologia
Especialização em Cul u as Visuais
Ve são co igida e melho ada após de esa pública
F ancisco F ei e Mo ei a Pin o Fe ei a
A ONDA DA TRANSFORMAÇÃO
Su , Tu ismo e T adição na Naza é
1
T abalho de p oje o ap esen ado pa a cump imen o dos equisi os
necessá ios à ob enção do g au de Mes e em An opologia, á ea de especialização
em Cul u as Visuais, ealizado sob a o ien ação cien í ica de Ca a ina Al es Cos a.
2
Pa a meu ilho, An onio, espe o que es e abalho o ajude a c ia asas e aízes.
Eu os digo: é p eciso e ainda o caos den o de si, pa a pode da à luz uma
es ela dançan e. Eu os digo: endes ainda o caos den o de ós.
F ied ich Nie zsche
3
AGRADECIMENTOS
Que o ag adece ao meu pai, José Albe o, que, po se po uguês, ins igou em mim a
on ade de conhece Po ugal. Ao meu ilho, An onio, pela paciência e po e compa ilhado
comigo um pouco dessa a en u a. À minha mulhe e pa cei a de ida, Do a, que, en e an os
imp e is os e di iculdades, p ocu ou me ou i e me incen i a em odos os momen os.
À minha mãe, Paula, que, mesmo de longe, es e e semp e ão pe o, me apoiando e
ac edi ando em mim e no meu abalho.
À minha que ida amiga e sog a, Elisabe a Romano, que, com mui a gene osidade,
doou o seu empo e o seu conhecimen o pa a me o ien a , minha ines imá el g a idão. Que o
ag adece imensamen e à Manuela Agda Pombinha San os, minha in o man e e po o segu o
na Naza é, esponsá el po minha hospedagem em um local an ás ico no cen o his ó ico e
po mui os con a os e conhecimen os adqui idos sob e a ila, além de uma linda camisa
adicional de pescado que ganhei de p esen e. Sem ela es e abalho não e ia acon ecido.
Manuela, que so e e e encon ado. Meu mui o ob igado do undo do co ação a ocê, ao
Rui e à sua mãe.
Meu ag adecimen o ao Ca los Fidalgo, esponsá el pelo Cen o Cul u al da Naza é,
pessoa inc í el e de suma impo ância pa a es a pesquisa, não só pelas e lexões e ciga os
compa ilhados an es da pandemia, mas po se um p o undo es udioso da ila e po e
di idido um pouco de seus conhecimen os comigo, endo me a anjado di e sas en e is as e
me o e ecido um espaço pa a ealizá-las. À sua colega Ana Hilá io, semp e gen il e a enciosa,
meu ag adecimen o ambém.
À minha o ien ado a, P o esso a Ca a ina Al es Cos a, que já no p imei o semes e
me encan ou com suas aulas de An opologia e Imagem e me acompanhou ao longo dessa
jo nada desde o p imei o momen o, meu mui o ob igado. Ag adeço à minha colega Ma ga ida
de Almeida Vaz, que, po uma coincidência do des ino, ambém escolheu pesquisa a Naza é,
e com quem pude an as ezes con e sa no e eno e o a dele, endo me se ido como
e e ência e inspi ação. À P o esso a Ana Isabel A onso, que, nas aulas de Labo a ó io de
P ojec o, quando esse ema ainda nem ha ia sido escolhido, me acolheu, mo i ou e c iou
caminhos pa a me ajuda a iabilizá-lo.
Ao isioná io Dino Casimi o, um dos p incipais esponsá eis pela descobe a e
explo ação das ondas gigan es da P aia do No e, meu mui o ob igado pelo empo e pela
en e is a. Ao Di o Sa o, músico e ideóg a o naza eno que me ajudou azendo câme a em
ês en e is as. Ao Má io, p op ie á io do es au an e O Va ino, onde cos uma a come ,
4
e que semp e oi simpá ico comigo e me con ou di e sas his ó ias sob e a ila, mas que nunca
acei ou se en e is ado.
Ao S . Ad iano Mon ei o, p imei o windsu is a da Naza é, e aos p imei os su is as
da ila, João G ilo e João Hen ique Eus áquio, que me ecebe am em suas casas e me
con a am his ó ias e elado as sob e o su gimen o do su na Naza é. Aos a uais eco dis as
da maio onda já su ada no mundo, Rod igo Koxa (su is a) e Sé gio Cosme (pilo o), que, no
meio da pandemia, se dispuse am a con e sa comigo com oda a enção e since idade. Ao
g ande su is a And ew Co on, um dos p imei os desb a ado es das ondas gigan es, que
gene osamen e eio a é a minha casa em Lisboa pa a uma en e is a. Ao senho P esiden e
da Câma a Municipal da Naza é, Wal e Chicha o, que me ecebeu em seu gabine e e me
concedeu uma en e is a undamen al pa a es e abalho. Ao meu pa cei o de bilha , Edua do
Ama al, b asilei o e p imei o en e is ado des e es udo, que se mudou pa a Naza é
p a icamen e na mesma época em que comecei o abalho de campo.
Meu mui o ob igado aos en e is ados Hélio An ónio, Joana And ade, Dona Rosa, S .
Galileu e S . José Augus o, Ri a B ilhan e, F ancelina, Ma ia Adelaide, Ma ia An onie a,
Ma ia Ângela, Isau a Fialho, Daniel Meco, Ped o e João.
No mais, que o ag adece a odas as pessoas que c uza am meu caminho, acei a am
con e sa comigo e se em ilmadas po mim, compa ilhando seu empo e sua isão sob e
esse luga ão especial que é a Naza é, con ibuindo, assim, pa a a ealização des a pesquisa.
A odos, meu mui o ob igado.

5
A Onda da T ans o mação – Su , Tu ismo e T adição na Naza é
The Wa e o T ans o ma ion – Su , Tou ism and T adi ion in Naza é
F ancisco F ei e Mo ei a Pin o Fe ei a
RESUMO: A Onda da T ans o mação é um abalho de pesquisa de mes ado em
An opologia que em como obje i o, a pa i do ilme e nog á ico, p o oca e lexões sob e
o co idiano e o imaginá io da Naza é após as ans o mações oco idas na ila desde a
“descobe a” das ondas gigan es da P aia do No e, em 2010, explo ando aspec os
elacionados a cul u a, iden idade, adições, su e u ismo e o modo como esses elemen os
se en elaçam.
PALAVRAS-CHAVE: Naza é, su , ondas gigan es, u ismo, cul u a, adição, iden idade,
e nog a ia, documen á io, an opologia isual
ABSTRACT: The Wa e o T ans o ma ion is a mas e 's deg ee esea ch in An h opology
ha aims, om he e hnog aphic ilm, o induce e lec ions on Naza é’s daily li e and
imagina y a e he ans o ma ions ha occu ed in he illage since he “disco e y” o he
gian wa es a P aia do No e, in 2010, explo ing aspec s ela ed o cul u e, iden i y, adi ions,
su ing and ou ism and how hese elemen s in e lace.!
KEY-WORDS: Naza é, su , big wa es, ou ism, cul u e, adi ion, iden i y, e hnog aphy,
documen a y, isual an h opology
DOCUMENTÁRIO / DOCUMENTARY: h ps:// imeo.com/575472527/3476555 3a
6
SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO 07
2. ENQUADRAMENTO TEÓRICO 10
2.1. Con ex o 10
2.2. Enquad amen o eó ico e audio isual 12
3. O CAMPO E O ESTAR EM CAMPO 20
3.1. Mé odo e plano de abalho 20
3.2. Calendá io de isi as e en e is ados 21
3.3. Naza é e eu 24
3.4. A câme a e a imagem 27
3.5. Filma a P aia do No e 31
3.6. Equipamen os 33
4. A PESQUISA ETNOGRÁFICA 35
4.1. He ança simbólica e iden idade: o signi icado de se naza eno 35
4.2. O ma como ida e mo e: os nau ágios na Naza é 40
4.3. O su como ans o mação do imaginá io e da cul u a 44
4.4. A onda da ans o mação 51
4.5. O u ismo 59
4.6. Desa ios 67
5. CONCLUSÕES 73
6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 75
Apêndice A: Ro ei o en e is as mo ado es 77
Apêndice B: Ro ei o en e is as su is as 79
Apêndice C: Ro ei o en e is a Wal e Chicha o 80
7
1. INTRODUÇÃO
Demo ei um empo pa a en ende os mo i os pelos quais escolhi a Naza é e a onda
como ema des e mes ado. Na e dade, acho que ainda es ou i endo esse p ocesso.
A p imei a ez que lá es i e oi em 2015, com minha mulhe e ilho, quando ainda nem sabia
que i ia a mo a em Po ugal, o que acon eceu em 2018. Alguns meses após a isi a, esc e i
um poema sob e a sensação de e es ado na P aia do No e:
Foi lá, na P aia do No e, que deixei minha alma.
Dian e da na u eza mais imensa e sel agem.
Foi sem que e , mas buscá amos e dades.
É amos ês e a ida acon eceu.
Cada um do seu jei o, no seu empo.
Fascinados pelo pô do sol e pela o ça das ondas, nos sen íamos soli a iamen e jun os.
Com libe dade, caminhá amos à p ocu a de nós mesmos.
Na a eia densa e as a, en á amos chega a algum luga , não impo a a onde. Sen i e a su icien e.
B incá amos elizes como se soubéssemos que aquele e a um momen o único,
que al ez nunca mais se epe isse.
Foi lá, na P aia do No e, que udo acon eceu.
O im i ou começo.
Um dia que o ol a .
Po di e sas ezes me pe gun ei e ui pe gun ado sob e as azões que me le a am a
e ei o essa escolha. P ocu a a esponde de o ma lógica. Dizia que e a po con a da
ipicidade da ila e do espe áculo inc í el das ondas gigan es. Fala a da o e adição da
pesca e da eligião ca ólica, a a és da Lenda da Naza é
1
e de Nossa Senho a da Naza é, e das
eno mes ans o mações cul u ais, econômicas e sociais causadas pelo u ismo ecen e em
o no da onda, que aduziam uma no a ealidade que acon ecia em di e sos ou os sí ios do
país (e do mundo), e idenciando essa lu a en e local e global, en e cul u a e capi al,
mode nidade e adição. Fala a da Naza é como símbolo da iden idade po uguesa e de como
en ende isso me ajuda ia a c ia ínculos mais p o undos com o país em que escolhi i e ,
que, além de e colonizado o meu país de o igem, o B asil, é a e a de meu pai e de meus
a ós, o que me a ia uma comp eensão melho de quem sou.
1
h ps://p .wikipedia.o g/wiki/Lenda_da_Naza %C3%A9 (acedido a 24/09/21).
8
Conside a a ambém os aspec os p á icos, como a p oximidade com Lisboa, que me
pe mi i ia, ao mesmo empo, con inua le ando a minha ida na capi al e e essa expe iência
de me gulha em um ou o “mundo”, acessí el, po ém dis an e o su icien e do meu dia a dia
pa a causa uma up u a que ouxesse esco e cu iosidade ao meu olha . Re le ia sob e o
amanho da ila que, com ap oximadamen e 15.000 habi an es, não e a nem mui o pequena
nem mui o g ande, o e ecendo um ó imo espaço de explo ação e expansão, po ém com limi es
bem de inidos.
Explica a sob e o su , uma das minhas g andes paixões, e sob e os impac os que esse
espo e/es ilo de ida em causando em di e sos âmbi os no mundo e na sua elação com o
u ismo, com a sus en abilidade, com a saúde, com as ma cas e com a cul u a. E é cla o,
pensa a bas an e na beleza do luga , da na u eza, da a qui e u a e das pessoas, e de como essa
es é ica se ia um p a o cheio pa a os meus olhos e, especialmen e pa a as minhas len es, já
que o meu p incipal obje i o e a aze um documen á io que osse capaz de, além de con a
uma his ó ia, ambém emociona e anscende um bocadinho o uni e so acadêmico se
possí el, jogando luz pa a aspec os undamen ais do mundo a ual e ajudando mais pessoas a
se conscien iza em e a e le i em sob e esses desa ios.
No en an o, no undo, nenhuma dessas jus i ica i as sob e a minha escolha pa ecia
ealmen e con incen e pa a mim. Com o passa do empo, ui descob indo que a Naza é e a
ambém de ce a manei a a minha p óp ia onda gigan e. Uma a essia de on ei as, empos,
ases e oceanos. Algo ealmen e g ande e inédi o que eu al ez ainda não es i esse p epa ado
pa a lida . Mas, o caminho se az caminhando, e cá es ou. Aos poucos, ui pe cebendo que a
minha busca não inha sido mo i ada somen e po aspec os acionais e ex e io es a mim.
Tal ez isso nunca seja assim. E ap endi a in eg a esses dois mundos, o de o a e o de den o
– essas duas “Naza és” –, e que a minha escolha, na e dade, inha a e com isso.
Rod igo Koxa, su is a b asilei o de ondas gigan es e a ual eco dis a mundial da
maio onda já su ada na his ó ia
2
, com 24,38 me os, ez o seguin e depoimen o du an e nossa
en e is a sob e sua expe iência com o ma :
“A gen e em que aça um pa alelo, ap ende com a onda. O ma , ele ensina mui o. A água
me ensina mui o. A água, ela molda. En ão a é o que a gen e á i endo hoje [pandemia de
Co id-19], que é um momen o di ícil de assimila , nós emos que es a semp e p on os p a
usa a água como e lexão, po que com a água, ela ai se molda às ci cuns âncias daquele
momen o. A água ai es a semp e no momen o p esen e, moldada. E ocê em que le a isso
2
h ps:// ecjundiai.com.b /news/2018/04/29/su is a-jundiai-guiness-onda- eco de1/ (acedido a 24/09/21).
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do conhecimen o: pelo con á io, e a imp escindí el que icasse cla o o pon o de is a que
alinha a a o ilme.
Rouch elege a e lexibilidade e a subje i idade como pila es de sua p odução in elec ual. A
e dade do ilme es a a jus amen e em o na cla a es a pe spec i a: a ealidade ilmada e a a
ealidade p esen e nas elações es abelecidas en e o an opólogo e os sujei os com os quais
ilma a. He dei o po um lado de Flahe y, no que ange a uma câme a pa icipa i a, in eg ada
no co idiano dos sujei os, e, po ou o, do usso Dziga Ve o , que de endia a p esença do
au o como cons u o da ealidade ou da e dade ílmica, Rouch cons uiu um mé odo de
abalho calcado na p o ocação, na negociação e na c iação.
Sua discussão an opológica não se dá na es e a das g andes eo ias, mas da p á ica.
A an opologia ouchiana, como apon a Rena o Sz u man, é de inida pela p á ica
cinema og á ica e com ela p e ende compo um p og ama é ico. Pa a Rouch a ques ão e a
menos ealiza a desc ição de uma dada ealidade do que es abelece com o g upo es udado
um diálogo semp e po encializado pelo cinema que, como linguagem, pode ia ajuda a pensa
a p á ica e nog á ica e, po conseguin e, a p óp ia an opologia.
A câme a subje i a, as imp o isações, a uações dos sujei os ilmados e a na ação ma cando
ou suge indo um olha especí ico pa a o que oi ilmado azem pa e de um p oje o é ico e
es é ico, no qual discu so e nog á ico e expe iência e nog á ica são indissociá eis.
Rouch, mesmo endo colabo ado pa a o ape eiçoamen o do p oje o do Nag a, g a ado de
som in en ado po S e an Kudelski nos anos 1950, que pe mi ia a sinc onização do som com
a imagem, não u ilizou esse ecu so na cha e ealis a. A e dade, pa a Rouch, que gos a a de
pa a asea Ve o , es á no ilme. É a e dade do ilme. É, po an o, conside ando o ilme uma
o ma de acesso a essa ou a ealidade que le a em con a o imaginá io indi idual e cul u al,
que Rouch ealiza seus ilmes. Moi, un noi (1957) e Ch onique d'un é é (1961) são bons
exemplos da manei a ques ionado a com a qual Rouch conside a a a ealização ílmica pa e
da sua p á ica an opológica. (Ba bosa e Da Cunha, 2006, pp.35-39)
Ou o documen a is a sem o mação na á ea an opológica que con ibuiu de o ma
decisi a pa a a e olução das discussões sob e a legi imidade da an opologia isual oi o
b asilei o Edua do Cou inho. Com uma abo dagem dis in a à de Jean Rouch, cen ada em
en e is as e na incessan e cons ução na a i a a pa i da elação en e en e is ado e
en e is ado, sem a p eocupação de comp o a uma eo ia p é ia, o cineas a p o oca a
e lexões ao ques iona a e dade do documen á io e ao assumi seu papel pensando em um
“encon o e nog á ico”, como e e e Ma cos Au élio da Sil a em seu ex o Edua do Cou inho
e o Cinema E nog á ico pa a Além da An opologia (2010):

16
A u ilização in ensi a de en e is as pode ia le a a uma ei icação de iden idades, mas isso
não acon ece pela p óp ia o ma de abalha de Cou inho: al ez po não se u iliza de
pe gun as p é-es abelecidas pa a aquele ipo de pe sonagem/ ema, ele az das en e is as
diálogos em que as pe gun as pa ecem su gi do p óp io con a o, lemb ando mais as nossas
elações co idianas que o in e oga ó io jo nalís ico. As pe gun as que az, apa en emen e
ingênuas, são na e dade incen i os pa a que se aga à ona um mundo in e io do
en e is ado, uma expe iência de ida, uma sabedo ia que, de o ma alguma, é colocada como
hie a quicamen e in e io à do cineas a. (Da Sil a, 2010, p.167)
Como a esão da “imagem eal”, Cou inho pa ece se u iliza de um ma e ial não iccional – o
que não signi ica menos “p oduzido” ou “maquiado” e, sim, não esc i o p e iamen e po um
o ei is a e não in e p e ado po um a o – pa a cons ui uma na a i a algo compa ilhada
en e ilmado e ilmado. (Da Sil a, 2010, p.163)
[...] os ilmes de Cou inho se ma cam po uma busca incessan e po na a i as nunca p on as,
mas que são cons uídas no deco e da his ó ia. Além do cineas a não se u iliza
equen emen e do ecu so da oz o , as en e is as não são ei as no sen ido de con i ma
alguma eo ia p é ia ou de con o ma os en e is ados den o de es e eó ipos p é-
es abelecidos. São an es na a i as múl iplas que apon am o ema pa a di e en es di eções e
apos am numa ce a pe u bação e não na coe ência. (Da Sil a, 2010, p.162)
Po mais que a pala a inal seja do di e o , aquele “ e i ó io ílmico”, ou o espaço da imagem
que ele pode a é mesmo e eco ado na edição, az a os as os de quem nele habi a.
(Da Sil a, 2010, p.163)
Ac edi o que as suas ob as são exemplos da possibilidade de ealiza mos, no campo da
an opologia ílmica, es udos e pesquisas a a és de imagem e som que, nes e caso, não são
me os egis os, nem con i mação de um “es i e lá” – ão ca ac e ís ico dos abalhos
an opológicos (Gee z, 2005) –, nem a e são audio isual de uma e nog a ia esc i a. T a a-se
de, an es, pensa num “encon o e nog á ico”: de um lado, um sujei o que, sim, egis a o
campo em que es á se inse indo, mas sabe que essa ilmagem não é g a ui a, mui o menos essa
inse ção, u ilizando essas condições no p ocesso de mon agem – pensada nes es casos não
mais como ep esen ação iel do que acon eceu, mas u o de uma linguagem audio isual; de
ou o, um sujei o (não mais obje o), que não é me o en e is ado, mas um pe sonagem que
cons ói seu p óp io ex o, baseado numa his ó ia i ida e econs uída de aco do com
expe iências subje i as mas ambém a pa i de suma ime são an e io numa ce a cul u a
audio isual. (Da Sil a, 2010, p.163)
17
Ao ques iona em a ideia de e dade e ep esen ação no cinema documen al e
assumi em-se como sujei os, pe sonagens de seus ilmes, an o Rouch quan o Cou inho
susci am ou o aspec o in ínseco ao a o de ealiza documen á ios, p esen e nos deba es sob e
a an opologia isual, que diz espei o às ques ões é icas e à esponsabilidade dos ealizado es
em elação às pessoas que ilmam. O eó ico e c í ico de cinema especializado em
documen á ios, Bill Nichols, em seu li o In odução ao Documen á io (2005), disco e sob e
o ema explicando a di e ença en e os a o es de icção e o que chama de “a o es sociais” nos
ilmes de não icção.
O concei o de ep esen ação é aquilo que nos le a a o mula a pe gun a “po que as ques ões
é icas são undamen ais pa a o cinema documen á io?”, que ambém pode ia se exp essa
como “o que azemos com as pessoas quando ilmamos um documen á io?”. Nos ilmes de
icção, a espos a é simples: pedimos que açam o que que emos. As “pessoas” são a adas
como a izes. Seu papel social no p ocesso de ilmagem é de inido pelo papel adicional do
a o . Indi íduos es abelecem elações con a uais pa a a ua no ilme; o di e o em o di ei o,
e a ob igação, de ob e uma pe o mance adequada. O a o é alo izado pela qualidade de sua
a uação, não pela idelidade a seu compo amen o ou pe sonalidade habi ual. Tan o o a o
quan o o cineas a de êm ce os di ei os, ecebem de e minada emune ação e abalham pa a
a ende a ce as expec a i as. (O uso de não a o es começa a complica a ques ão. His ó ias
que se baseiam no abalho de não a o es, como mui os dos ilmes neo ealis as i alianos ou
alguns do no o cinema i aniano, equen emen e ocupam pa e do e eno indis in o en e
icção e não icção, en e his ó ias de sa is ação de desejos e his ó ias de ep esen ação social.)
No caso da não icção, a espos a não é assim ão simples. As “pessoas” são a adas como
a o es sociais: con inuam a le a a ida mais ou menos como a iam sem a p esença da
câme a. Con inuam a se a o es cul u ais e não a is as ea ais. Seu alo pa a o cineas a
consis e não no que p ome e uma elação con a ual, mas no que a p óp ia ida dessas pessoas
inco po a. Seu alo eside não nas o mas pelas quais dis a çam ou ans o mam
compo amen o e pe sonalidade habi uais, mas nas o mas pelas quais compo amen o e
pe sonalidade habi uais se em às necessidades do cineas a. (Um pa alelo en e pe sonagens
de documen á ios e a o es adicionais é que os cineas as ge almen e são a a o de indi íduos
cujo compo amen o espon âneo dian e da câme a pe mi e que ansmi am uma ideia de
complexidade e p o undidade semelhan e à que alo izamos na a uação de um a o einado.)
O di ei o do di e o a uma pe o mance é um “di ei o” que, se exe cido, ameaça a a mos e a
de au en icidade que ce ca o a o social. O g au de mudança de compo amen o e
pe sonalidade nas pessoas, du an e a ilmagem, pode in oduzi um elemen o de icção no
p ocesso do documen á io (a aiz do signi icado de icção é aze ou ab ica ). Inibição e
modi icações de compo amen o podem se o na uma o ma de de u pação, ou dis o ção, em
18
um sen ido, mas ambém documen am como o a o de ilma al e a a ealidade que p e ende
ep esen a . (Nichols, 2005, p. 31)
O momen o de ealização do ilme e nog á ico o na a pesquisa e a imagem
indissociá eis ao ma e ializa uma p opos a de in e subje i idade en e ealizado e o quê ou
quem ilma, e elando o concei o de e lexi idade e as ques ões epis emológicas ine en es ao
a o de aze ilmes e nog á icos que es á p esen e não apenas no e eno, mas ao longo de odo
o abalho.
A e lexi idade exp essa-se como es ilo ou p opos a po que não há como sepa a a ealização
do ilme das p eocupações epis emológicas que acompanham esse p ocesso: como o ilme
ep esen a o conhecimen o? que ipo de conhecimen o es á disponí el pa a os
an opólogos/cineas as? como lemb a aos espec ado es que os ilmes semp e ma cam um
pon o de is a que é cons uído numa si uação de pesquisa que é ambém a p óp ia si uação
ílmica? (Ba bosa e Da Cunha, 2006, pp. 22-23)
A e lexão não oco e após o abalho de campo, mas du an e odo o p ocesso em que i emos
a si uação do campo e o g ande desa io é como cons ui essa expe iência ílmicamen e.
(Ba bosa e Da Cunha, 2006, pp. 43-44)
In e essan e, ambém, é pe cebe que o a o de ealiza um ilme pa e de uma p eocupação
e nog á ica em comp eende os con ex os com os quais se es á en ol ido, o que não implica
necessa iamen e a ealização de uma e nog a ia esc i a sob e essa mesma expe iência. Embo a
Da id MacDougall esc e a bas an e sob e suas e lexões, o momen o-cha e pa a que essa
e nog a ia acon eça é o momen o da ealização do ilme, pois é nessa si uação que podemos
comp eende aspec os cul u ais que não su gi iam de ou a o ma.
(Ba bosa e Da Cunha, 2006, p. 46)
Além dos au o es e ealizado es do campo da an opologia isual mencionados, ou as
e e ências o am impo an es pa a a o mação de uma base de conhecimen o elacionada aos
emas cen ais des a pesquisa. Des aco aqui, p incipalmen e, José Ma ia T indade que, em seu
li o A Naza é dos Pescado es (2009), o e ece um pano ama de alhado sob e a his ó ia e a
iden idade da ila, e elando como a Naza é passou de uma ila pisca ó ia a es ância u ís ica,
o que me ouxe uma comp eensão mais ampla da cul u a local. À medida que lia o seu
abalho, a minha expe iência ganha a no os sen idos e con o nos con o me o elaciona a
com o que obse a a em campo.
19
Po úl imo, os seguin es au o es ambém con ibuí am pa a ajuda a embasa es a
pesquisa nas á eas elacionadas à cul u a e à sociedade naza ena, ao u ismo, ao su e ao
desen ol imen o sus en á el: Jan B ogge , em P e-bu eauc a ic Eu opeans: a s udy o a
po uguese ishing communi y; Eugene Mendonsa, em Tu ismo e es a i icação na Naza é;
Diogo An unes Bae a, em Plano Es a égico de Ação pa a o C escimen o Sus en á el do Su
A ound Po ugal; Ana Ca a ina Gomes de Mou a, em O alo económico do u ismo de su
na E icei a; e Michael Redcli , em seu a igo Sus ainable de elopmen : he concep , in
Sus ainable De elopmen : Explo ing he Con adic ions.
20
3. O CAMPO E O ESTAR EM CAMPO
3.1. Mé odo e plano de abalho
O mé odo de pesquisa e o plano de abalho o am escolhidos com o obje i o de alcança
o máximo de ab angência e de p o undidade possí el, den o do espaço de empo disponí el,
conside ando que o obje i o p incipal e a a ealização de um ídeo documen á io. Dessa
o ma, o p oje o oi desen ol ido a pa i de cinco mé odos quali a i os, que se desdob am
em camadas, indo do mac o pa a o mic o.
Dados secundá ios: Inicialmen e oi ealizada uma pesquisa de dados secundá ios em
jo nais, e is as e si es com o in ui o de ajuda a embasa e a o na o es udo mais consis en e.
Fo am pesquisados dados demog á icos sob e a ila da Naza é, in o mações sob e o luxo e
o pe il dos u is as, sob e o su , a onda e o Canhão da Naza é, bem como sob e a economia
e o u ismo local de o ma ge al.
Mapeamen o: O segundo passo oi a execução de uma in es igação in loco, com o
obje i o de ob e conhecimen os p elimina es ab angen es do con ex o onde a pesquisa i ia
oco e : conhece os p incipais sí ios da ila, pe sonagens, his ó ias e c enças locais que
compõem a g ande eia do abalho. Essa ase ambém se iu pa a aze alguns con a os
iniciais, isando a elabo ação de um plano de en e is as e do ques ioná io da e apa seguin e.
En e is as indi iduais: En e is as indi iduais em p o undidade, semies u u adas e
g a adas em ídeo, na casa ou no local de abalho dos pa icipan es, com du ação ap oximada
de 1 ho a cada. Fo am en e is ados su is as e pessoas en ol idas com o su de ondas
g andes, mo ado es no os e an igos da ila, donos de comé cios e abalhado es, pescado es
e au o idades locais. A me a inicial e a a de ealiza em o no de 30 en e is as. A pa i dessa
e apa, oi possí el elabo a um o ei o pa a as obse ações e nog á icas que o am g a adas
na ase seguin e do abalho.
Obse ação e nog á ica pa icipan e: O qua o mé odo de pesquisa oi a obse ação
e nog á ica do co idiano da ila e da onda, incluindo o acompanhamen o de pessoas e e en os,
como es as, pesca ias, pessoas su ando, campeona os ou a simples obse ação da
mo imen ação da p aça cen al, da A enida Ma ginal, de um comé cio especí ico, de

21
senho as a assa peixes e cas anhas e ou as si uações do dia a dia da ila. Os p incipais
acon ecimen os dessa e apa o am g a ados em ídeo. Os secundá ios o am egis ados po
meio de o og a ias e de ano ações em um cade no de campo.
Análise do p oje o: A úl ima e apa, a de análise do p oje o, oi compos a
p incipalmen e pela iagem e pela o ganização do ma e ial audio isual p o enien e das
en e is as em p o undidade e das obse ações e nog á icas ealizadas em campo. A análise
oi complemen ada pelos dados cole ados, o og a ias e ano ações de campo, além das
e e ências bibliog á icas que se i am de enquad amen o eó ico ao p oje o.
3.2. Calendá io de isi as e en e is ados
O abalho de campo e e início em 07 de agos o de 2019 e ence ou-se em 15 de agos o
de 2020. Ao longo desse empo, iz 15 isi as a Naza é, endo acompanhado um in e no
in ei o e pa e de dois e ões na ila.
Ao odo, o am ealizadas 24 en e is as, sendo 16 en e is as em p o undidade, a pa i
de ques ioná ios semies u u ados, adap ados pa a cada pa icipan e, com ap oximadamen e
1 ho a de du ação, além de 8 en e is as ápidas de ua, ealizadas de imp o iso, sem
ques ioná io p ede inido.
O ma e ial b u o egis ado em ídeo con abilizou ap oximadamen e 40 ho as de
g a ação, sendo ce ca de 20 ho as de obse ações e nog á icas e 20 ho as de en e is as.
3.2.1. Calendá io de isi as
Inicialmen e não sabia exa amen e quan o empo se ia necessá io passa em campo.
Calculei que ês meses se iam su icien es, conside ando odas as e apas en ol idas no
abalho e o c onog ama disponí el. Como as ondas gigan es só oco em du an e o in e no,
me o ganizei pa a ica de ou ub o a é o inal de dezemb o de 2019. No en an o, após esses
ês meses, ainda ha ia mui os sí ios e si uações a obse a e á ias en e is as pa a se em
ealizadas. Po es a no meio do p ocesso, decidi p olonga minha es adia a é ma ço. En ão
eio a pandemia da co id-19, que me impediu de ealiza as úl imas en e is as e obse ações
que já es a am p og amadas. Essa in e upção o çada acabou me ob igando a ol a alguns
meses depois, já com no as expec a i as e in e p e ações, pa a acompanha um pouco a época
balnea , pe íodo ão impo an e pa a se e uma comp eensão mais holís ica sob e a Naza é e
o seu u ismo.
22
Quad o 1 - Calendá io de isi as
AGO
2019
SET
2019
OUT
2019
NOV
2019
DEZ
2019
JAN
2020
FEV
2020
MAR
2020
ABR
2020
MAI
2020
JUN
2020
JUL
2020
AGO
2020
07
08
-
24
29
30
06
07
13
20
21
06
07
10
11
14
15
28
29
11
12
22
23
03
04
-
-
15
-
11
12
13
14
15
3.2.2. En e is ados
Apesa de e , desde o começo, um mapa p ede inido de in e esses locais e ipos de
pessoas que gos a ia de en e is a – p emissa undamen al pa a não pe de de is a os
obje i os do p oje o –, du an e o abalho de campo, ui adap ando minhas expec a i as
iniciais de aco do com as conexões e os desdob amen os que se ap esen a am ao longo do
caminho. Ao deixa -me le a po es e io condu o in isí el, pe cebi que o abalho luía de
o ma mais o gânica e na u al. Dessa o ma, ao mesmo empo em que cump ia as e apas
p e iamen e p og amadas, p ocu ei ambém me man e semp e a en o pa a colhe suges ões
e egis a momen os que su giam no deco e do p ocesso. Assim, se, ao con e sa com
alguém, me con assem sob e um local ou sob e uma pessoa que al ez pudesse me ajuda , lá
ia eu, conec ando os pon os, ecendo a ama de elações en e pessoas, locais e a os que,
pouco a pouco, pe mi iam me si ua e desb a a o e eno.
Com esse obje i o em men e, iz um mapa dos pe sonagens que compunham a eia que
en ol e a Naza é, assim como dos emas nos quais me in e essa a ap o unda . A pa i disso,
compilei um elenco com os nomes dos en e is ados que não pode iam al a , po se em eles
as peças-cha e des e ema anhado.
Minha pau a inicial incluía pescado es e peixei as, no os e an igos mo ado es,
imig an es, donos e uncioná ios de comé cios locais en ol idos com o u ismo, guias
u ís icos, nadado es-sal ado es, agen es imobiliá ios, pionei os do su na Naza é, su is as
de ondas g andes, o óg a os de su e au o idades locais. Essa lis a ideal, con udo, e e de se
cons an emen e e isada e a ualizada em unção do e o no ou não dos con i es que ia
azendo, como o caso de Ga e McNama a, que inicialmen e se in e essou e depois desis iu
da en e is a, ou o de Maya Gabei a, que nunca e o nou meu con a o.
Assim, oi-se con igu ando o conjun o dos pa icipan es, alguns deles en e is ados em
p o undidade, po meio de ques ioná ios semies u u ados e de ídeos g a ados em suas casas
ou locais de abalho, e ou os, cujos depoimen os o am egis ados em en e is as de ua,
baseadas em con e sas in o mais. A segui , é epo ada a lis a das 24 pessoas en e is adas,
subdi ididas de aco do com o ipo de abo dagem u ilizada.
23
En e is as em p o undidade:
1. Ad iano Mon ei o – Engenhei o, pesquisado e pionei o do windsu na Naza é.
2. And ew Co on – Su is a de ondas g andes ( oi o pilo o que colocou Ga e McNama a
em sua p imei a onda do eco de mundial, em 2011).
3. Dino Casimi o – Su is a naza eno, Técnico Supe io na Câma a Municipal da Naza é
e um dos p incipais esponsá eis pela explo ação das ondas gigan es.
4. Dona Rosa – Re o mada, oi endedo a de amêijoas no Me cado da Naza é e abalha a
cuidando dos bois que puxa am ba cos na p aia.
5. Edua do Ama al – Imig an e b asilei o, uncioná io de uma pas ela ia local.
6. Galileu Ca alho – Pescado e o mado.
7. Hélio An ónio – Fo óg a o de ondas g andes.
8. Joana And ade – Su is a de ondas g andes.
9. João G ilo – P o esso de educação ísica e pionei o do su na Naza é.
10. João Hen ique Eus áquio – Pionei o do su na Naza é.
11. José Augus o San os – Pescado e o mado.
12. Ma ia Manuela Pombinha San os – En e mei a e p op ie á ia de alojamen o local.
13. Ri a B ilhan e – Sócia da agência imobiliá ia Imo Naza é.
14. Rod igo Koxa – Su is a de ondas g andes, a ual eco dis a mundial da maio onda
su ada na his ó ia, com 24,73m.
15. Sé gio Cosme – Pilo o de esga e e su is a de ondas g andes, ambém eco dis a
mundial, oi o pilo o que colocou Rod igo Koxa na onda do eco de.
16. Wal e Chicha o – P esiden e da Câma a Municipal da Naza é.
En e is as de ua:
17. F ancelina – Peixei a, endedo a de peixe seco.
18. Ma ia An onie a – P op ie á ia de uk uk na Naza é.
19. Daniel Meco – Nadado -sal ado .
20. João – Nadado -sal ado .
21. Ped o – Nadado -sal ado .
22. Ma ia Ângela – A esã.
23. Isau a Fialho – Peixei a.
24. Ma ia Adelaide – P op ie á ia de alojamen o local.
24
3.3. Naza é e eu
Ao longo dos no e meses em que es i e em campo, i e a opo unidade de i encia
di e en es si uações: desde a ila eple a de isi an es du an e o e ão a é a ila absolu amen e
azia du an e o isolamen o. Da a quibancada aba o ada de gen e da P aça de Toi os do Sí io
da Naza é, assis i aos ca éis da empo ada au ina e, em meio aos aplausos e à ib ação das
pessoas, pe cebi o alo que aquele espe áculo ep esen a a pa a eles – pa a mim, es anho e
so ido. Debaixo de chu a e neblina, es emunhei com imidez a limpeza dos úmulos no
cemi é io da Pede nei a, ealizada com dedicação e bom humo pelas mulhe es pa a o e iado
do Dia de Finados. Acompanhei a expec a i a e os p epa a i os pa a o Na al e o Ano No o,
além dos des iles e as es as de ca na al na A enida Ma ginal.
Do al o do p omon ó io, ao lado da Capela de Nossa Senho a da Naza é, egis ei os
u is as p a icamen e pendu ados na bei a do p ecipício pa a p ocu a o ângulo mais
espe acula pa a egis a suas sel ies. De den o, po ás, dos lados, po baixo e de cima do
Fa ol de São Miguel A canjo, acompanhei dois campeona os de su de ondas g andes, com
ondas de mais de 20 me os, a mo imen ação da água e o ai e em dos u is as. Foi um
al e na -se de dias eple os de pessoas com ou os em que a ila pe manecia comple amen e
azia; o a dias de sol escaldan e, o a dias com mui a chu a e o e en o. Do Po o de Ab igo,
i pescado es a cos u a suas edes ou en ando e saindo do ma em seus ba cos, com as
gai o as a pe segui-los, dançando no a . Vi e ilmei di e sos po es do sol, iz amizades e me
di e i com as senho as de se e saias a anuncia qua os, a declama can igas pa a mim, a
ende peixe seco e a assa cas anhas e sa dinhas nos pequenos oga ei os a ca ão.
No undo, pude sen i mais de pe o a o ça e a his ó ia daquele luga e daquele po o
digno e hon ado e en ende um pouco melho o que signi ica se naza eno e e a maio onda
do mundo ao pé de casa como he ança e iden idade. Pa a mim, oi um abalho inc í el que,
a cada con e sa e a cada local obse ado, oi, pouco a pouco, se desdob ando à minha en e,
p opondo no as conexões, me alimen ando com descobe as inespe adas e me ob igando a
e o mula as pe gun as.
Como as ondas gigan es oco em somen e no in e no, especialmen e en e os meses de
ou ub o e janei o, decidi aluga uma casinha ípica no cen o his ó ico da ila, de ou ub o a é
o inal de dezemb o, pa a pode es a p esen e quando hou esse ondas g andes e sen i na pele
o que e a i e p óximo àquele ma , onde os pescado es e suas amílias cos uma am i e
(alguns ainda i em). Após uma busca na in e ne , não encon ei nada pa ecido com o que
p ocu a a. Ha ia poucas opções de aluguéis po pe íodos mais longos, em ge al ca as e em
cons uções mais no as, que pouco inham de ípicas. Decidi, en ão, começa meu abalho
31
Além disso, o a o de se um homem b anco, comunica i o e de boa apa ência, es ido
decen emen e, endo ilho e amília e uma missão como es udan e, in e essado em conhece
o local e a cul u a deles, me a o ecia e e i a a que eu caísse no ou o lado do imaginá io
elacionado ao B asil e aos b asilei os: o de um po o pob e e pouco con iá el, pa a dize o
mínimo.
3.5. Filma a P aia do No e
Obse a e ilma o ma e as ondas da P aia do No e du an e o in e no oi, li e almen e,
um capí ulo à pa e e uma expe iência di e en e de udo o que eu já ha ia expe imen ado como
ideóg a o. Não digo isso quan o ao aspec o de in e ação com as pessoas que, naquelas
ci cuns âncias, es ão odeadas de câme as e bas an e abe as pa a ilma em e se em ilmadas.
Re i o-me à elação com o sí io, onde a na u eza eina sobe ana e exige conhecimen os
écnicos e equipamen os especí icos que eu, especialmen e no início, não possuía.
Do al o do p omon ó io, em-se uma isão p i ilegiada do oceano e da ila, o mando
um pano ama de 360º, que o e ece inúme as opções de ângulos e posicionamen os, além de
uma escala di e en e de p a icamen e qualque ou o local. As ondas mo em-se com g ande
elocidade, e a dis ância a é elas e os su is as é eno me, o que exige len es pode osas e
egulagens p ecisas de abe u a, elocidade e ISO, que ui ap endendo a ajus a ao longo do
p ocesso. O en o é quase semp e o íssimo no in e no, causando on u a em alguns
momen os pela o ça e pelo ba ulho. Chega-se a pe de o equilíb io, e não se pode descuida
da câme a no ipé, se não quise encon á-la no chão. Hou e dias em que i os ca os
es acionados ao pé do Fa ol balançando com a o ça do en o, como se alguém lá den o
es i esse a pula . Além disso, ica em pé no al o do Fa ol, de en e pa a o ma , onde apenas
uma linha ama ela no chão o sepa a do p ecipício, é uma sensação única. A luz do sol, que
ob iamen e se mo imen a ao longo do dia, ambém az inúme os desa ios, seja po e le i
na água, causando mui a luminosidade, seja po que o sol se põe no ma , c iando uma luz
dou ada espe acula e uma con aluz que ob iga a echa o dia agma, o nando os su is as
in isí eis e as ondas apenas silhue as à sua en e.
Faze um mo imen o de câme a sem eme ou sem pe de o eixo, como uma
pano âmica, po exemplo, é algo p a icamen e impossí el. A o ça do en o somada ao
impac o das ondas se echando c ia uma nu em de salpicos que molham ocê e o seu
equipamen o. Po con a disso, é essencial e semp e à mão um ki de limpeza de len es ou,
no mínimo, um olo de cozinha, como iz inicialmen e quando descob i essa necessidade.

32
Nos dias de ondas g andes, é p eciso limpá-las a cada dez minu os. Uma câme a esis en e a
salpicos ambém é al amen e indicada, já que a água salgada en e uja as pa es de me al da
máquina. Pa a inaliza , após um dia de g a ação na P aia do No e, é semp e impo an e aze
uma limpeza mais cuidadosa do equipamen o.
As câme as o og á icas mi o less a uais que ambém ilmam e oluciona am o
me cado audio isual, inaugu ando um no o nicho, o e ecendo p eços acessí eis e imagens
de al a qualidade com a opção de len es in e cambiá eis. No en an o, são câme as mui o
sensí eis se usadas na mão, di e en emen e das câme as de ídeo do passado, inclusi e po
não e em uma empunhadu a ap op iada pa a a ilmagem. Dessa o ma, o ipé possui um
papel c ucial pa a a qualidade dos egis os e p ecisa se i me e pesado o su icien e pa a não
balança com o en o, po ém le e e pequeno pa a não p ejudica a mobilidade, p incipalmen e
quando se es á, como eu, sozinho e p ecisando se desloca a odo momen o. Po an o, quan o
maio o a len e, mais de alhes do ma ela se á capaz de cap a , po ém maio de e á se o
ipé pa a esis i ao peso dela sem eme , peso es e que com ce eza p ejudica á a mobilidade
em campo.
Po úl imo, algumas conside ações sob e o áudio. Cap a o som na u al da P aia do
No e é quase impossí el de ido ao o e uído causado pelo en o, di ícil de se eliminado
mesmo u ilizando uma p o eção wind shield no mic o one ex e no. Resumindo, cap a
imagens de qualidade das ondas gigan es e dos su is as na P aia do No e exige um equilíb io
delicado, planejamen o e conhecimen os écnicos especí icos, além de equipamen os
ex emamen e ca os.
Pa a mim, ilma na P aia do No e oi uma expe iência ascinan e e su p eenden e, que
me ob igou a me en ol e ainda mais com o uni e so audio isual e que me ouxe inúme os
no os ap endizados. Es a ali, me gulhado naquela beleza, com um as o leque de opções
pa a explo a , o aleceu em mim a paixão pela imagem. A p incípio, eu sen ia que não es a a
o almen e p epa ado, nem em e mos de conhecimen os nem em e mos de equipamen os,
pa a cap a imagens ealmen e de qualidade naquele ambien e, como as que inha em men e
como pa âme o. Po ou o lado, sabia que isso se ia impossí el sem possui , no mínimo, uma
excelen e câme a e uma len e zoom de qualidade com pelo menos 300mm, o que não e a um
in es imen o iá el pa a mim naquele momen o.
A pa i dessas p emissas, i e de me conscien iza de que não es a a ali a aze um
ilme de su e que, po an o, p ecisa a adap a minhas e e ências dos ídeos de ação sob e
a Naza é à minha ealidade. Assim, pa indo do p incípio de que o meu obje i o e a ealiza
um documen á io e nog á ico e que, pa a isso, não se ia necessá io cap a cenas espe acula es
33
e de alhes das ondas e dos su is as em slow mo ion, po exemplo, ui ajus ando meu
equipamen o e ampliando, pouco a pouco, meus conhecimen os.
Como semp e gos ei de a en u as, inha a ce eza de que ali, ao me depa a com as
po encialidades daquele local, encon a ia uma linguagem p óp ia, uma dis ância condizen e
com a minha in enção, um pon o de is a in e essan e que es i esse à al u a do que o luga
o e ecia, capaz de e ela aspec os inédi os daquele ambien e, sem deixa de egis a oda a
po ência e beleza daquele espe áculo.
Passei en ão a pensa como e nóg a o e a iden i ica o que ealmen e me in e essa a: a
onda como obje o de es udo an opológico. Se capaz de obse a seu compo amen o, seu
mo imen o, egis a como ela su gia e como desapa ecia, me coloca no luga dela e enxe ga
o que ela e ia caso i esse olhos, e ambém me oca em odas aquelas pessoas eunidas pa a
obse á-la e o og a á-la, analisa os de alhes daquela alésia com suas ped as e ege ação,
apon a minhas len es pa a o Fa ol, pa a os moinhos de en o e pa a a a eia, egis ando a ida
que pulsa naquele local, com seu in e miná el i e i .
Com o passa do empo, ui pe cebendo que o que mais me in e essa a e a o que es a a
além do momen o em que os su is as apanha am uma onda. Assim, ui pouco a pouco
encon ando meu espaço e c iando uma linguagem p óp ia, desen ol ida a pa i de um pon o
de obse ação nem ão p óximo nem ão dis an e, que me pe mi ia ixa nas imagens uma
dimensão eal e ao mesmo empo no a daquele uni e so.
3.6. Equipamen os
Os equipamen os de g a ação o am companhei os insepa á eis no e eno, e ac edi o
que me eçam uma b e e desc ição. Ap ende a lida com eles nas di e en es si uações,
en endendo seus limi es e explo ando seus po enciais, oi essencial pa a o desen ol imen o
do meu olha como pesquisado e pa a co obo a as escolhas que iz ao longo do abalho.
Du an e minhas p imei as qua o isi as ao campo, le ei comigo uma “gue ei a” Canon
T2i, do ano de 2010, que ouxe do B asil. Uma câme a ex emamen e le e e simples que não
in imida ninguém, mas que, ao mesmo empo, con e e ce a au a de o óg a o a quem a
empunha. Pe ei a pa a le a à p aia e a locais “a iscados”. Uma câme a com ela i a
qualidade de imagem – op ei po g a a em FullHD 1920x1080, a 24 ps, pa a o ma e ial não
ica mui o pesado e, ao mesmo empo, e uma ex u a mais cinema og á ica –, en ada pa a
mic o one ex e no e len es in e cambiá eis. Tinha comigo, além da adicional e e sá il
18-55mm, /3.5-5.6, que em no ki , uma len e zoom da Canon, de 300mm, que me pe mi ia
34
cap a imagens a longa dis ância, mui o ú il pa a as ondas, além da minha p e e ida, uma len e
ixa de 50mm da Canon com abe u a /1.2, ó ima pa a en e is as. Também in eg a a meu
equipamen o um mic o one sho gun da Rode, de qualidade mediana, e um ipé de plás ico,
modelo amado , supe compac o. Ou seja, com esse ki mínimo, eu conseguia aze imagens
de cu a e de longa dis ância, além de pode g a a as en e is as em locais echados e com
um mic o one. Na pio das hipó eses, isso me ga an ia desen ol e o meu abalho com uma
qualidade acei á el e, caso encon asse uma luz boa, podia a é pa ece que o ma e ial inha
sido g a ado com uma câme a de melho qualidade.
No en an o, con o me ui expe imen ando o equipamen o em campo, pe cebi que ele
es a a mui o aquém do que p ecisa ia pa a consegui ealiza o que inha em men e. Assim,
ap o ei ando o a o de que já azia alguns anos que es a a que endo in es i em um no o
equipamen o, achei que aquele e a o momen o ce o. Após uma cuidadosa pesquisa, acabei
me decidindo po uma Fuji X-T3, que i aliza a com a Sony Alpha A7, sensação do me cado
no momen o, po ém com p eço mais acessí el. Apesa de se uma ma ca com a qual nunca
ha ia abalhado an es, gos ei mui o des a câme a mi o less le e e compac a, com aspec o
in age e uma qualidade de imagem excelen e, mui o supe io à minha T2i, que usa a
an e io men e. Pa a acompanhá-la, escolhi ambém duas len es complemen a es: uma 18-
55mm pa a as si uações do dia a dia na ila e ou a 55-200mm pa a egis a de alhes e,
p incipalmen e, pa a as ondas. Fo a isso, comp ei um ó imo g a ado po á il e um mic o one
de lapela sem io da Sennheise pa a as en e is as, além de um mini sho gun com p o eção
pa a en o pa a cap a o áudio na u al dos ambien es.
Po úl imo, comp ei um ipé usado, mais obus o do que o an e io , duas ba e ias e uma
mochila pa a ca ega odos os equipamen os, além de um ki de limpeza de len es. Finalmen e
udo es a a p on o e, apesa de e gas o po ol a de 2.500€ (o que ep esen a a quase odas
as minhas economias), inha um equipamen o à al u a do que p e endia aze . Após alguns
expe imen os, iquei mui o sa is ei o com os esul ados: as co es e a qualidade da imagem
e am excelen es. Fica a ascinado com cada no a cena g a ada. Isso me mo i ou ainda mais
em campo, me ajudando inclusi e a me elaciona com as pessoas e a pensa a odo ins an e
em no os sí ios e si uações que pode ia ilma . U ilizei as mesmas con igu ações que inha
usando an e io men e, com a T2i, o que me deixou ap eensi o, pois não sabia se a di e ença
na qualidade de imagem me impossibili a ia de ap o ei a o ma e ial já g a ado. Mas cheguei
à conclusão de que a mudança e a pa e do p ocesso e de que e en uais di e enças de
qualidade en e os egis os não se iam um p oblema – mui o pelo con á io.
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4. A PESQUISA ETNOGRÁFICA
4.1. He ança simbólica e iden idade: o signi icado de se naza eno
Um dos p incipais ques ionamen os que cos uma a me aze em campo e a: endo um
ma iolen o como esse no quin al de casa, como é que os naza enos não o am i e da e a?
Ou melho , de que o ma essa apa en e escolha pela cul u a ma í ima e po uma elação
econômica p i ilegiada com o ma são en endidas pelos naza enos? E quais ma cas e he anças
azem consigo po con a disso?
O amo po sua e a e pelo seu po o são, com ce eza, algumas dessas ma cas, como
deixa cla o, espon aneamen e em seus depoimen os, a maio ia dos en e is ados. Como e e e
Dino Casimi o, não há um naza eno que não ale com o gulho da sua e a.
“Se naza eno é como eu digo, is o em de aiz. É uma paixão. Eu anda a a es uda em
Lisboa e, quando me diziam, ‘aí em a naza ena’, eu sen ia-me o gulhosa. Eu cos uma a
dize que e a da e a mais boni a plan ada em Po ugal.” (Manuela)
“Se naza eno é uma... é uma coisa que nasce conosco mesmo, conosco. Is o é uma pala a
que... não há pala as pa a pode em desc e e bem o que é se naza eno. Mas se naza eno
é boni o, é bom, emos o gulho. Gos amos mui o da nossa e a, a nossa e a é bai is a!
Tem mui o de dize e em mui a eco dação. É uma coisa espe acula . Bas a-se dize que cada
ez que nós íamos, po exemplo, pa a Lisboa e depois es á amos lá meia dúzia de dias, ou
en ão quando saíamos pa a o a, pa a a nossa ida, e depois passá amos a Pon e da Ba ca
e começá amos a e o p omon ó io, da a semp e aquele ape o no co ação, de aleg ia.”
(José Augus o)
“Eu enho mui a hon a de se naza eno. Não oco a minha e a po nenhuma. Eu conheço
meio mundo, mas não oco a minha e a po nenhuma.” (Galileu)
“A Naza é é um sí io ímpa . Acho que é uma ila mui o ca ac e ís ica. Nós iajamos pelo
es o do país e pelo mundo e exis e na Naza é uma o ma di e en e de es a . É mui o
ca ac e ís ico. E é no mal que quem enha se in e esse e se apaixone po um po o di e en e.”
(Hélio An ónio)
Hon a, paixão e beleza são concei os inco po ados pela e ó ica naza ena, e que
abalhei no documen á io. Exis em, no en an o, as memó ias cons uídas de quem lá i e.
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Tal ez es ejam nessas i ências algumas espos as impo an es pa a esse o gulho escanca ado
de se naza eno. Como passa incólume po an as emoções? Não apenas as aleg ias, mas as
is ezas e as di iculdades. A Naza é é épica po na u eza, an o isualmen e quan o
subje i amen e. Além de possui a maio onda do mundo, a opog a ia local c ia uma
a mos e a pa icula , que ge a desdob amen os em di e sas camadas. Os d amas, a pob eza,
a ome, as mo es no ma , o ce o isolamen o geog á ico da ila, o linguaja p óp io, a du eza
do dia a dia. A ince eza e a imp e isibilidade. A necessidade de adap a -se cons an emen e
ao clima e ao ma . E ambém a beleza da paisagem, ão alo izada e p esen e no discu so das
pessoas. A onip esença da na u eza que, de ce a o ma, democ a iza as elações, colocando
odos na mesma condição, subjugados a ela. O espei o e a solida iedade que su gi am a pa i
dessas expe iências.
Fica e iden e que essa aje ó ia comum compa ilhada em o no do ma deixou uma
ma ca indelé el nos naza enos, especialmen e en e os mais elhos (que i e am an es da
cons ução do Po o de Ab igo), c iando ínculos, a e os e um o e senso de comunidade e
pe encimen o, além de um conhecimen o consis en e de sua p óp ia iden idade e alo es
enquan o po o. A cons ução dessa memó ia é undamen al pa a a manu enção dessa cul u a,
e a população p ocu a con ibui pa a isso.
José Ma ia T indade, naza eno e g ande es udioso da Naza é, já in o ma logo no início
de seu li o A Naza é dos Pescado es, Iden idade e T ans o mação de uma Comunidade
Ma í ima (2009): “José Ma ia T indade é um homem da sua e a. Faz pa e dela. Pe ence-
lhe.” A segui , ainda na in odução, o e ece um excelen e pano ama do que oco eu na ila
nas úl imas décadas e dos p incipais desa ios pa a o u u o, conside ando que seu abalho oi
publicado um ano an es da “descobe a” da onda gigan e. Ou seja, suas pala as es a iam
ainda mais u gen es e e dadei as a ualmen e:
A mode nização do país a pa i da década de se en a, com a in odução da democ acia, e e
g ande impac o na comunidade pisca ó ia da Naza é. A pi o esca ila de pescado es, que a é
aos anos se en a assen a a a sua economia na pesca e no u ismo, assis e a pa i des a al u a
à diminuição do peso da pesca em a o das ac i idades ligadas à ho ela ia, es au ação e
comé cio, como supo es da indús ia u ís ica. Ac ualmen e, a pesca em já uma impo ância
esidual na economia naza ena; e o ma , que con inua a se o g ande ecu so local que alimen a
a indús ia u ís ica, cump e, hoje, pa a os naza enos, uma unção on ológica como ânco a
iden i á ia: que pa a os que se sen em pa e da comunidade pisca ó ia, que pa a os ou os, o
modo de ida adicional assen e na pesca se e pa a a cons ução de uma iden idade cul u al,

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o necendo os elemen os pa a a elabo ação de discu sos com que p e endem a i ma uma
singula idade, con a as o ças uni o mizado as da mode nidade. (T indade, 2009, p.19)
Segundo T indade, exis e na Naza é um bilinguismo cul u al, ca ac e izado pela
al e nância en e uma iden idade cul u al local e uma iden idade de classe média, ou seja,
en e os pescado es e a bu guesia. Esse con li o ameniza-se ao encon a uma iden idade
cole i a acei á el po odos ep esen ada pelo di ado local “Na Naza é, quem não ema, já
emou”, como explica João G ilo:
“Hou e ge ações de ilhos de pescado es, não é... eu sou ne o, né, que passa am a e ou as
p o issões e, às ezes, ecusam que i e am alguma coisa a e com a pesca. Po isso é que
apa ece: quem não ema já emou. Não oi ele, oi o bisa ô, oi o a ô, oi o isa ô que... ou
o pai, ou o io, alguém da amília ‘ e e’ ligado ao ma . Po que is o e a uma e a de ma , não
inha ou a solução, e a uma e a de ma . Com mui a c ença eligiosa e mui a c ença pagã.
O ba co e a benzido, o ba co quando e a no o, quando e a o bo a-abaixo – o bo a-abaixo é
a p imei a ez que ele ai ‘pa’ o ma , chama-se o bo a-abaixo –, o ba co e a benzido pelo
pad e, mas ambém lá ia a b uxa. Não na mesma al u a. Is o é: bem com Deus e com o diabo.”
(João G ilo)
A elação com o ma e com a pesca e a ão es u u al que inclusi e a di isão de classes
na sociedade naza ena e a pau ada po isso, como e e e Manuela:
“Eu que ia es uda , mas ilha de pescado não es uda a. Eu e a conside ada uma menina de
‘pé descalço’. E a conside ada ‘pé descalço’ po que e a ilha de pescado e de peixei a. Os
meninos ‘pés calçados’ e a o que e am os meninos que os pais anda am no emba que, os
meninos que os pais já inham ou a o mação acadêmica que nós não ínhamos. E en ão eu
ui es uda , e a minha mãe não me deixa a es uda , que ia que eu osse cos u ei a. Mas o
meu obje i o semp e e a se en e mei a. Es udei ês anos em Lisboa, e quem me pagou o
es udo odo oi o Es ado po uguês. E hoje sou a en e mei a que sou.” (Manuela)
“Os pescado es da Naza é e am anal abe os na g ande maio ia, mas não e am mal-
educados, inham um o gulho p óp io, inham uma linguagem p óp ia.” (João G ilo)
An es da cons ução do Po o de Ab igo, em 1983, com g ande pa e da ida na ila a
acon ece no a eal, a Naza é e a uma e a mui o ípica que a aía u is as e a is as em busca
de inspi ação, como e e e Dino Casimi o:
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“A Naza é já e a mui o conhecida a ní el in e nacional. Es amos a ala de a is as ipo
S anley Kub ick, que ‘ i e am’ cá a i a o os. Temos alguns dos maio es a is as, esc i o es,
po aí a o a, que inham a Naza é pa a ganha inspi ação. Po que a Naza é, an es da
cons ução do Po o de Ab igo, e a uma e a mui o ípica. E a uma e a onde a p aia ‘ a a’
cheia de ba cos e de edes de pesca e mulhe es de se e saias. E a uma coisa lindíssima.
Eu ado a a e nascido naquela al u a pa a e conhecido a Naza é nessa al u a.”
(Dino Casimi o)
Essa dualidade pesca- u ismo é ou o aspec o es u u al da iden idade naza ena. A au a
c iada pela ipicidade e exo ismo da ila, especialmen e em meados do século XX, a aiu
di e sos a is as e o óg a os como Hen i-Ca ie B esson, Jean Dieuzaide e Édoua d Bouba ,
en e mui os ou os, que ampli ica am essas ca ac e ís icas, cons uindo um e dadei o
pa imônio cul u al espalhado po di e sos li os e quad os em mo adias e comé cios pela
ila. Como diz João G ilo: “O maio pa imônio da Naza é são as o og a ias”. Ainda, quan o
à na u eza d amá ica da iden idade naza ena, T indade e e e:
A iden idade local, assen e na ideia do pescado he óico, he dei o e ep esen an e do
na egado de quinhen os, que com poucos meios e mui a co agem desa iou o ma , pe mi e
aos naza enos associa a his ó ia pá ia e a adição local numa sín ese na a i a con o á el a
espei o de si p óp ios. A p opaganda nacionalis a do Es ado No o, do país de ma inhei os, e
a saga das descobe as (Lou enço, 1978, 1999) omen ou uma au o-imagem posi i a dos
naza enos. A es a isão glo iosa do pescado da Naza é jun ou-se a imagem omân ica e
exó ica di ulgada pela in elec ualidade po uguesa, sob e udo a pa i da ins au ação da
República. Desde Almada Neg ei os a Al es Redol, passando po Raul B andão, B anquinho
da Fonseca, A onso Lopes Viei a, Lei ão de Ba os, odos celeb a am nas suas ob as o
exo ismo, o colo ido e a co agem dos homens e mulhe es da Naza é. (T indade, 2009, p.22)
A a dia cons ução do Po o de Ab igo, no en an o, ans o mou adicalmen e o palco
onde essa iden idade ha ia sido cons i uída ao e i a do a eal a a i idade da pesca. Con o me
as en e is as o am se desen olando, pe cebi que o po o inha um papel de e minan e, endo
sido a sua cons ução, li e almen e, um di iso de águas na his ó ia da ila.
T a a a-se de a o de um desejo mui o an igo da população. Já no início do século XX,
o ei D. Ca los au o izou o go e no a cob a uma axa de 1% sob e o pescado pa a inancia
a cons ução de um pa edão-cais na P aia da Naza é, mas oi somen e em 1977 que o en ão
P imei o Minis o po uguês, Ma io Soa es, au o izou a cons ução do po o, que e e início
em 1979 e oi inaugu ado em 1983.
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Nessa al u a, a pesca já inha pe dendo ele ância pa a o u ismo na economia local.
Mesmo assim, os pescado es inalmen e pude am en a e sai do ma em segu ança e pesca
du an e odo o ano.
“An igamen e os naza enos passa am mui a di iculdade po que não ha ia o Po o de Ab igo.
Os pescado es deixa am de i ao ma no emb o, dezemb o e só iam ao ma ma ço, ab il.
Bas a que nós dizíamos mui as ezes, abalhá amos se e meses e ínhamos que poupa pa a
os doze.” (Manuela)
“Eu, quando anda a na bei a-ma mais o meu pai, ha ia meses e meses que os homens do
ma não iam ao ma , com o ma mau e o mau empo.” (Dona Rosa)
“Em 1978, ainda não ha ia o Po o de Ab igo, os pescado es i e am seis meses sem sai
pa a o ma .” (João G ilo)
“E a... é pá, mui a solida iedade. Mui a ome, mas mui a solida iedade.” (João G ilo)
“An igamen e com os ba cos aqui assim na p aia pelo a eal a o a, desde a Capi ania a é aqui
assim, e a mais boni o an igamen e. Mas en im... mas a gen e ago a ‘ emos’ que escolhe pelo
bem-es a do po o.” (Galileu)
Ao mesmo empo em que i ou de cena dois dos pio es an asmas da ila – os
nau ágios e a impossibilidade de pesca du an e o in e no –, o Po o de Ab igo acabou
ambém po e i a do a eal oda a in ensidade do abalho em o no da pesca e o con í io da
sociedade naza ena que, no undo, e am o cen o da ida (e da mo e) da p óp ia Naza é.
É di ícil mensu a os impac os p á icos e subje i os desse e en o apa en emen e ino ensi o,
que, a ualmen e, ep esen a uma pa e c ucial pa a o desen ol imen o do su e pa a a
explo ação das ondas gigan es.
“Mui o u is a ancês inha a Naza é mais po causa de e os pescado es, os ba cos a
en a em no ma , os bois a puxa ... não puxa am edes, puxa am ba cos aqui. Redes é lá
pa a cima. Os bois a puxa os ba cos p a baixo e p a cima. Toda a ida da pesca, à exceção
da pesca em si, e a ei a na p aia. O a eal ‘ a a’ cheio de gen e. Uns a me e apa elho, ou os
a a anja peixes, ou os a a anja edes, ou os a pô p a baixo, ou os a pô p a cima...
inha uma ida eno me. E eles inham e sob e udo os ajes, po que o pescado da Naza é
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e a a o usa calças, usa a umas ce oulas em xad ez, umas camisas em xad ez, ba e e,
descalço e passea a-se. Eu ainda hoje gos o mui o de anda descalço.” (João G ilo)
“Is o aqui, es a p aia, inha gen e de odo o lado do país comp a cá peixe. E boni o. Se ocê
isse uma pescada como ela em do ma , a beleza que aquilo em, os go azes como é que eles
inham. E o gos o e o b ilho que inha o pescado que es a a a apanha esse peixe de o me e
enquan o ele es a a i o de uma manei a que e a o ginga , o gingado, que e a me e o peixe
cu ado, e ele quando inha pa a o me cado, pa a o me cado não, pa a a lo a, inha odo
de abalçado. Aquilo e a, é pá, aquilo e a digno de se is o.” (José Augus o)
Tão ácil de en ende e, po ezes, ão di ícil de explica . Bas a obse a o ma e as
ondas da Naza é po alguns minu os pa a sen i a ene gia desse luga e pe cebe a o ça dessa
he ança e a o igem dessa na a i a que mis u a an os elemen os que ca ac e izam o po o
naza eno.
4.2. O ma como ida e mo e: os nau ágios na Naza é
Na Naza é, o ma é quem manda. Tan o na pesca e nas ondas gigan es do in e no,
quan o no u ismo balnea e a é mesmo nas emoções das pessoas. En e as ladei as, escada ias,
uas e ielas, há semp e uma saída, uma is a pa a o ma . A ila oi cons uída em o no dele,
e é possí el sen i sua p esença em di e en es momen os, mesmo hoje em dia sem a a i idade
da pesca no a eal e es ando mais dis an e do passeio – á ias pessoas con am que a aixa de
a eia da p aia icou mui o mais la ga com o passa do empo, azendo com que a água icasse
mais a as ada da ua.
“O ma pa a a Naza é ep esen a udo. Desde os empos mais an igos. O ma ep esen a a
a economia oda da Naza é. Po an o, o ma semp e oi uma iqueza. E ainda hoje. E ago a
com is o da onda ainda mais.” (Manuela)
O ma e a – e ainda é – o seio da sociedade naza ena, o ecido po onde a ida se
desen ol ia. E a no ma ou dian e dele que as pessoas c esciam, abalha am, ap endiam e
inco po a am alo es, aziam amizades, di e iam-se, so iam, inspi a am-se, casa am-se e
a é mesmo nasciam, como e e e Manuela a segui :
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“Inicialmen e oi complicado, inicialmen e oi mui o complicado. Não é amos bem acei os,
po que na al u a não ha ia o Po o de Ab igo, po an o o Po o de Ab igo só apa eceu em
82, 83, po aí, se não es ou em e o. E nós começamos a b inca com as ondas, á, enquan o
os pescado es en a am ao ma en ando semp e passa a a eben ação, que e a coisa que
e a pe igosíssima, né. E nós, po ou o lado, andá amos a b inca . E eles en a am ganha a
ida en en ando o ma , e nós andá amos a b inca . Po an o, essa elação inicialmen e não
oi bem acei a. Aqueles opos os e í eis, né. É e iden e que depois, com o empo, mais um,
mais ou o, mais ou o, mais ês, mais qua o, o am apa ecendo alguns, e a coisa já oi bem
acei a, mas só mui o mais a de, po que é amos adje i ados com mui o nome.”
(João Eus áquio)
“Quem e a p óximo do meu a ô, ia lhe dizendo que eu não inha espei o pelo ma , que
qualque dia me acon ecia alguma coisa po que eu a a a goza ‘co’ ma , a a a b inca ‘co’
ma , e quem b inca às ezes ama-se, não é. E a o espei o po que eles en a am ao ma e
benziam-se. Eles en am ao ma e i am-se ‘pa’ Senho a da Naza é, ‘pa’ Capela e benzem-
se. Po isso, o que eu ia aze e a b inca , eles iam em abalho. E eu penso que hou e um
pe íodo em que mudou... que um elho e da xá ega que ia i pô a ede na água. O a ais
que ia pô a ede na água, e a campanha não quis, ecusou-se po que ‘ a a’ mui o ma . E o
elho eio e comigo e com o Pássa o e pe gun ou-nos se nós íamos com ele pô a ede
n’água. E omos a ema , em en e à bola Ní ea, pela co en e de o a, pô a ede n’água
com o homem e depois encalhamos. E o homem depois e e so e nesse lance apanhou mui o
peixe. E... p on o. O pessoal ligado à pesca começou a pe cebe que a gen e ambém pe cebia
de ma , que não e a só anda a b inca com as ondas.” (João G ilo)
É in e essan e aqui essal a a impo ância do e mo “b inca ”, u ilizado pelos dois
en e is ados pa a jus i ica o es anhamen o inicial da comunidade. Ou seja, na Naza é, com
o ma não se b inca a. Po an o, pouco a pouco, a a és da b incadei a, esses jo ens su is as
pionei os o am acili ando essa elação e, jun amen e com os su is as u is as que
equen a am a Naza é, azendo a comunidade pe cebe que eles ambém en endiam de ma
e que b inca naquele ma ambém pode ia se uma o ma de ap ende e se elaciona com
ele. Mui as pessoas não comp eendiam o que e a aquilo e o que aqueles jo ens es a am
azendo e ica am a olha , cu iosas.
“Mais a de é que sim, quando ica a lá o a e olha a ‘pa’ p aia e dizia assim: ‘aquela gen e
‘ á’ oda a olha ‘pa’ aqui, mas o que é que se passa, né’.” (João Eus áquio)

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“Eu ui mul ado de e ão pela Capi ania, pelos cabos de ma , po que azia su com bandei a
e melha. Eles p oibiam o banho, e eu ia ‘pa’ den o d’água, e eles manda am-me p ende .”
(João G ilo)
“Um dia le an ei-me, eu mo a a lá na pa e elha da Naza é. Le an ei-me e, quando passei
pela esquina da ig eja, que é uma coisi a pequenina, en e a abe na e a ig eja i gen e den o
d’água, nunca inha is o gen e a su a . Fui busca o ma e ial à casa, a p ancha, e ‘bum pa’
den o d’água. As ondas ‘ a am’ g andes, e eles começa am aos g i os a dize ‘you a e c azy’,
e eu disse ‘aqui quem manda sou eu, es a é a minha e a’. E eles, ‘não, não se azem ondas
dessas com essa ábua’. E oi quando eu i ábuas pequenas. P on o, eu i que e a um su
di e en e, que da a p a aze mais manob as, com uma p ancha pequena, p on o.”
(João G ilo)
Pe gun ei-lhe se já naquela época a P aia do No e e a conhecida e ele disse-me:
“Não. A única ez que eu ou i ala da P aia do No e com ondas o am esses aus alianos.
E depois, eu, cada ez que inha alguém, ‘ amos su a à a de a P aia do No e ou amanhã’
e le a a-os lá. E a P aia do No e e a uma p aia que eu dizia semp e: não é ‘pa’ odos.”
(João G ilo)
Pa a mim oi mui o signi ica i o encon a e pode con e sa com esses e dadei os
pionei os do su na Naza é, desb a ado es alen es que azem pa e da his ó ia do su e que
en a am naquele ma sem a o, sem chop (co dinha), sem cole e e sem nadado -sal ado ,
com p anchas pesadíssimas, pelo simples p aze de subi em cima de uma ábua e desliza
sob e as ondas. Além disso, e o amo que nu em pelo ma e pelo su e o o gulho que
sen i am ao me con a sob e aquilo e, de ce a manei a, se em econhecidos, causou em mim
uma imp essão mui o o e. Sem eles, nada disso e ia acon ecido ou, pelo menos, não dessa
manei a. Segundo Pássa o, a p aia e o ma e am onde cos uma am b inca quando c ianças:
“O ma é o ja dim daqui da mal a, é o ja dim. Po an o, o nosso passa empo e a passado na
p aia, a p aia e a o nosso pa que de di e sões, á. B incá amos odos na p aia, na p aia-
ma , a elação p aia-ma em desde c iança. Toda a minha gen e aqui na al u a i ia
di e amen e com o ma .” (João Eus áquio)
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Pe gun ei-lhe se essa elação ha ia mudado com o empo e ele espondeu-me:
“Mudou, mudou, mudou... hoje especialmen e az-se mui a elação com a ecnologia,
po an o não há mui a elação com a na u eza, é mui o mais com a ecno, com os
compu ado es, os elemó eis. A elação e a-ma não é mui o... não é mui o eal, não é mui o
sen ida.” (João Eus áquio)
Achei boni a e signi ica i a a sua espos a: a elação e a-ma não é mais mui o
sen ida a ualmen e. Os jo ens de hoje es ão em busca de esul ados, pe o mance, elocidade.
E, pa a pe cebe a na u eza, é p eciso de empo, p esença, sen imen o.
“Eu, desde que me conheço, e enho 73 anos ei os, nós aqui semp e i emos aquele ipo de
onda. Só que nunca inha sido ap o ei ada. Não e a ap o ei ada. A é que a mal a começou a
ala no su .” (José Augus o)
“A P aia do No e semp e oi p a nós, su is as locais, semp e oi algo mís ico, ambém pela
adição. As nossas amílias e os nossos conhecidos semp e nos diziam: ‘Não ão su a p a
P aia do No e’. Po que é uma p aia mui o pe igosa. Mui o u is a mo ia na P aia do No e
du an e o e ão, po que iam oma banho e de ido à es u u a da p aia, à mo ologia da
p aia, não é uma p aia p óp ia p a banhos, mesmo quando o ma es á ela i amen e calmo,
é uma p aia onde podem acon ece os aciden es mui o acilmen e. E en ão semp e hou e
aquela mís ica das pessoas que i em na Naza é que a P aia do No e e a um luga p oibido,
pe igoso, ‘não ão p a lá’. E os pais dos su is as, não há nenhum su is a que se sen isse à
on ade, da pa e dos pais, de pode i lá su a . Po isso nós semp e c escemos com aquela
mís ica da Naza é onda pe igosa. Mas ob iamen e, como c ianças e como jo ens, que emos
desa ios e começamos a su a a P aia do No e independen emen e daquilo que nos diziam.
Mas su á amos a P aia do No e pequena. Pequena é 1 me o, 2 me os, 3 me os no máximo
dos máximos. E, quando o ma c escia mui o, nós não ínhamos à P aia do No e. Isso p a
dize o quê? Que as ondas g andes da Naza é semp e passa am mui o sozinhas, mesmo p a
nós. Nós íamos lá espo adicamen e e as ondas g andes e ica ma a ilhados com aquele
espe áculo, mas nós nem sabíamos qual e a o amanho daquelas ondas po que não ha ia um
pon o de e e ência na água p a e noção seque . Po an o, p a mim oi um p i ilégio e uma
g ande sa is ação e aquelas ondas se em conquis adas no su .”
(Hélio An ónio)
50
“Eu, quando e a pequenino, F ancisco, pa a e es a noção, eu e os meus colegas, e a
no mal nós lá embaixo na Naza é, p a pe cebe es, a p aia e a a me ade do amanho.
Po an o, a quan idade de ezes que o ma en a a pelas uas e pela es ada e a mui o maio
do que é hoje. Hoje acon ece uma ez, duas ezes po ano, em dias ano mais. An igamen e
e a uma ez se calha po mês. E uma das b incadei as que nós azíamos e a ugi das ondas
que en a am pelas uas e chega am à es ada. Po an o, nós con i íamos com as ondas da
Naza é e, no ho izon e, íamos as ondas a en a em ‘pa’ P aia do No e. Aquelas ondas
gigan es que oda a gen e su a hoje em dia, nós íamos aquilo desde pequeninos. O p oblema
é que nós, a ní el cul u al, eu quando dizia a minha a ó que ia su a ‘pa’ P aia do No e,
ela a anha a-se oda, ela dizia: ‘Tu não ais, não podes, u ais mo e a ogado’. Po quê?
Po que ha ia mui o o es igma do pescado que inha mo ido no ma , e a Naza é an es do
Po o de Ab igo e a uma p aia, uma ila que inha mui o so imen o associado a mo es de
pescado es em en e à amília, po que os ba cos en a am na p aia e saíam da p aia p a
o a. E inha uma ondulação maio , o ba co omba a, a maio pa e dos pescado es não
sabiam nada e mo iam a cem me os da amília, com a amília a p esencia aquilo. E is o
e a mui o d amá ico, e a uma si uação que ‘ a a’ en aizada na cul u a naza ena, e na minha
amília, ob iamen e, ambém es a a. E eu, quando dizia que ia ‘pa’ P aia do No e, e a: ‘nem
pensa ’. A minha a ó nem do mia, e a mesmo assim. E e a di ícil pa a nós, miúdos, e mos a
amília a dize ‘não ás’, ‘é pe igoso’, ‘podes mo e ’. Quando chegá amos à P aia do No e
aquilo e a... men almen e e a mui o di ícil nós ul apassa mos de e minadas ba ei as po que
ínhamos semp e aquela ozinha a ás: ‘olha, a enção, podes mo e a ogado’... p on o. E
omos ul apassando as ba ei as, mas ha ia limi es. E os limi es ‘ amos’ a ala a é ês
me os. T ês me os su á amos já a mui a cus o. Mais do que isso, icá amos sen adinhos na
a eia a e ondas pe ei as, que só íamos nas e is as, e que ago a essas ondas apa ecem
nas e is as.” (Dino Casimi o)
Pe gun ei ao José Augus o se eles cos uma am lemb a -se dos nau ágios quando
iam os su is as na água, e ele espondeu-me:
“Sim, e mui as ezes alamos: ‘Olha, desde que ie am os su is as, elizmen e a coisa em
andado bem’. E já em sido os su is as, não só aqui, mas nou os lados, que êm sal o
de e minados pescado es ou de e minadas pessoas que o ma as le a e eles ão buscá-las.
Po isso mesmo, a pala a su is a é uma bendi a pala a.” (José Augus o)
A ge ação de Dino Casimi o, a segunda de su is as da Naza é, pa imen ou o caminho
que a ge ação de Ad iano, João G ilo e Pássa o, com mui a paixão, co agem e imp o iso,
ha ia abe o. Já com um pouco menos esis ência da comunidade, um núme o maio de
51
adep os, mais acesso à in o mação e à ecnologia, uma educação o mal mais consis en e e
uma isão es a égica mais bem desen ol ida, esses jo ens enxe ga am o po encial espo i o
da P aia do No e e, com mui o abalho, o am em busca de ecu sos pa a iabiliza os
p oje os que inham em men e. Jun os, Dino e seus amigos Paulo Caldei a, Ped o Pisco e
Paulo Sal ado c ia am o Clube de Despo os Al e na i os da Naza é, em 2002, com o in ui o
de o ma jo ens a le as locais, e o ganiza am di e sos campeona os de su na Naza é,
p incipalmen e de bodyboa d, en e os quais des aca-se o “Special Edi ion”, que ez his ó ia
pela qualidade e pelo amanho das ondas em algumas edições épicas, como a de 2007, em que
o o óg a o Miguel Ba ei a acabou conquis ando, com uma de suas o os, o e cei o luga do
p êmio “Wo ld P ess Pho o” na ca ego ia de despo o
10
. E a o início da ama in e nacional
das ondas da Naza é, mais uma ez ampli icada pela imagem e pela o og a ia.
A onda, que inicialmen e e a on e de mui as pe das, medos e aumas, com o empo e
g aças ao su , oi se o nando mo i o de o gulho e admi ação. A mesma ma iz que ma cou
séculos de his ó ia desse po o de o ma ágica ago a é o que az p es ígio e econhecimen o
no mundo odo.
4.4. A onda da ans o mação
“Quando em es e doido, que não em ou o nome, su a uma onda na P aia do No e...
po que a P aia do No e, p a nós, e a sag ada. Todo naza eno emia aquela p aia. Eu lemb o-
me, eu e a das p imei as naza enas do meu empo a sabe nada , e o meu pai dizia-me
semp e: ‘P aia do No e não se oma banho’. Po quê? P ecisamen e pelas ondas que são
o madas pelo Canhão. P on o, aquele senho eio su a e ez isso ão bem, e eio da , além
da Naza é se conhecida ipicamen e pelas suas saias, pelos pescado es, pela sua caldei ada,
pela sua sa dinha assada, hoje é conhecida pela onda. Eu ‘ i e’ com um elho e que ele dizia
assim p a mim, ‘ ilha’, que e a mesmo a moda da Naza é, ‘ ilha, es e gajo não sabe onde é
que se eio me e , is o só acaba quando um deles lá mo e . Eles não sabem o que é o ma da
P aia do No e’. P on o. Nós, naza enos, descob imos o ma de uma manei a, p a ganha mos
o pão, e eles descob i am de ou a.” (Manuela)
O depoimen o de Manuela é eple o de signi icados, po que, além de nos o e ece uma
explicação p ecisa sob e as di e en es “descobe as” da onda e a na u eza da ans o mação
cul u al, ao e ela a desc ença do naza eno que não conseguia imagina ou o im pa a quem
10
h ps://www.wo ldp esspho o.o g/collec ion/pho o/2008/30742/1/2008-Miguel-Ba ei a-SP3 (acedido a 24/09/21).
52
en asse naquele ma a não se a mo e, demons a uma acei ação ão na u al do no o
enômeno que o alça ins an aneamen e à ca ego ia de adição, inco po ando-o aos maio es
pa imônios cul u ais da ila, que ela p óp ia elenca. Que dize , pa a ela, não há dispu a – a
cul u a es á i a e em mo imen o.
“Apa eceu o di o senho McNama a, e aí is o udo modi icou.” (José Augus o)
“Foi o senho McNama a que deu alma a es a e a, a es e po o, a es a beleza que há, que
oda a gen e que e , onde é que e a, onde é que a onda se o ma, como é que a onda se
o ma, onde é que é o Canhão.” (José Augus o)
“- A senho a conhece o Ga e McNama a?”
“Conheço, conheço, já o enho is o acolá, já. Já o i na p aça.”
“- O que a senho a acha dele?”
En ão, é um homem alen e ambém. É um homem alen e e deu mui a ida a nossa e a.
“-A senho a acha que oi bom p a Naza é?”
“Foi, oi mui o bom aqui ‘po’ po ozinho da Naza é, oi.”
“- Po quê?”
“Po que á semp e isi ada a nossa e a.” (Dona Rosa)
“A e dade é que a Naza é c esceu mui o com o boom do Ga e há ce ca de 8 anos, 9 anos.
Po que o Ga e me eu a Naza é no mundo in ei o. An igamen e ninguém sabia o que e a a
Naza é, mesmo os p óp ios u is as. Os po ugueses, é cla o que conhecem, po que é a
Naza é, mas mui os deles nunca inham ido lá. E a uma ila pisca ó ia um bocadinho mo a.
E eu acho que ago a com as ondas g andes que aquilo deu uma explosão, ‘ á’ na meca do
su .” (Joana And ade)
“A Naza é ‘ e e’ no pico da Eu opa nos anos 60 em elação aos ajes e à cul u a naza ena.
Pe deu. Hoje ol ou a ‘ a ’ no pico do mundo com a onda.” (João G ilo)
“Minha segunda casa, ca a. A gale a lá é sensacional. Os po ugueses são especiais demais,
eles são acolhedo es. Eles são mui o g a os, né ca a, p incipalmen e o pessoal do comé cio.
Eles ag adecem mui o nós odos, odos os su is as de ondas gigan es. Eles en endem que a
gen e mudou a economia da cidade.” (Rod igo Koxa)

53
“Nós cos umamos dize que os ha aianos andam lixados conosco po que i amos a meca do
su do Ha aí. É pá, hoje em dia bas a ab i uma no ícia, bas a pô no Google ‘big wa e’, é
‘pá’ e é Naza é, Naza é, Naza é. Tens as ondas a eben a em po baixo dos seus pés, do
público. Tens o público em cima do es ádio, digamos, não é? Podes su a a maio onda do
mundo como podes su a a onda de 20cm ou 30cm. Ondas desa ian es, ondas go das, ondas
ubula es, ondas de odos os ipos. E depois ens ou a. É ‘pá’, Ma e icks, ens uma ho a de
ba co ou de mo a d’água; Jaws já ica longe p a o pessoal e , é pe o, mas as pessoas já êm
que e de binóculos, ‘ ás’ a e ? E a Naza é é um sí io que u ês a onda po baixo de i, ens
o Po o de Ab igo a dois minu os, ‘ ás’ a pe cebe ? Tens udo ali, ens uma en ol ência que
não ens em nenhuma pa e do big wa e do mundo.” (Sé gio Cosme)
“Pô, p o Big Wa e Su é udo né, ca a. Eu acho que é udo já. Passou, passou... eu acho que
anscendeu, né. Não em o que ques iona isso. Ali ocê pode pega a maio onda do mundo
de ow-in, ali ocê pode pega a maio onda do mundo na emada, ocê pode pega o maio
ubo do mundo, da ua ida. Você pode oma o pio ‘caldo’ da ua ida, ocê pode ap ende
com uma equipe como ocê não ai ap ende em nenhum luga do mundo, ocê pode ap ende
a espei a o ma como em nenhum luga ocê ai espei a , ocê ai pode assis i o ma ,
uma onda gigan e, como em nenhum ou o luga ocê ai pode assis i . Tudo que se pos a
de Naza é, que se az um ídeo de Naza é, é mui o bem acei o pela in e ne , as pessoas que em
e , que em e mais. En ão, ca a, o u u o é ali. Ali ‘cê’ pode ‘ á’ semp e dando um passo a
mais. Você que da um passo a mais no Big Su , acho que não em luga melho do que
Naza é.” (Rod igo Koxa)
“É a meca do su a ualmen e, não é. Qualque eligioso que i a Je usalém. É pá, is o é um
bocadinho igual. Quando ens a meca do su na Naza é, mesmo que não seja... eu como
su is a nunca ui ao Ha aí e que o i , mesmo que não seja pa a su a . Gos a a de i ao
Ha aí e a cul u a deles e conhece . E eu acho que ai passa um bocadinho o mesmo pela
Naza é.” (Sé gio Cosme)
“O dia da onda gigan e, quando dá a onda gigan e, é absu do, é absu do. Fecha a ua, não
dá p a desce , em que echa o Fa ol, ca o não desce. Pa ece o Ma acanã, ca a. É um
es ádio lo ado de gen e. A gen e da água su ando, a gen e ou e, sen e a ene gia da gale a.
Tem dia que o ma não ‘ á’ nem ão bom, ‘ á’ en ando, a gen e se sen e na ob igação de
pega uma onda, b o he . De aze alguma coisa pelo ca inho das pessoas ‘ a em’ ali.”
(Rod igo Koxa)
54
“Eu, p a mim, é o maio p i ilégio. Eu já e a uma aidosa em se naza ena. Ago a, que a
minha onda co e o mundo, e que á conside ada a melho onda do mundo... sou uma aidosa
mesmo. Sou mesmo, mesmo, mesmo aidosa com a onda da Naza é. Não sou aidosa no
aspec o do meu pai an as ezes i icando sem a ida. Mas ago a, com essa onda, que é uma
onda o almen e di e en e... nós ínhamos uma onda da ida, uma onda da sob e i ência. Eles
não, hoje não. Eles êm hoje é a onda do p es ígio. Eles hoje êm uma onda p a di ulga , nós
ínhamos uma onda p a come , né, e p a sob e i e .” (Manuela)
O depoimen o de Manuela explica pe ei amen e as di e enças essenciais na elação
com a onda no passado e a ualmen e e, ao mesmo empo, o o gulho e a sa is ação que ela
sen e com esse no o signi icado que a “sua” onda adqui iu.
Pa a os su is as, não há dú idas: Naza é é ealmen e a meca do su de ondas g andes
e o u u o do espo e. Seja pela ene gia da onda ou do público, pela egula idade ou amanho
que a inge, pela p oximidade do Po o de Ab igo, pela a iedade de possibilidades e
ap endizados, se ocê que se le ado a sé io no espo e, é o luga onde p ecisa es a .
Realmen e a ila ans o mou-se depois da explo ação das ondas gigan es.
É inques ioná el que a ida da população melho ou, não apenas economicamen e, mas em
e mos de econhecimen o ambém. É ní ida a sa is ação das pessoas ao ala da onda e da
admi ação que causa no mundo, o in e esse po isi a em sua e a pa a e algo ão único e
ca ac e ís ico.
Um dos aspec os que mais me chama am a enção nas espos as em elação à onda oi
a quan idade de pessoas que disse am: “sim, a onda oi mui o boa pa a a Naza é, ago a emos
u ismo o ano odo, no e ão e no in e no”. Ou seja, o nou mais egula e es á el a ida dessa
população que semp e p ecisou lida com a ins abilidade de o ma ão in ensa, como já imos.
Cu ioso que, jus amen e esse ma , causado de oda a imp e isibilidade do passado, é o que
ouxe essa es abilidade dos dias a uais.
Não é no idade que exis e uma mís ica e uma au a de exo ismo que en ol e a Naza é.
Isso a ai as pessoas. Mo es, lendas, beleza. Isso es á p esen e em á ios aspec os na ila,
como a o igem da eligiosidade lá e a lenda da Nossa Senho a da Naza é, os nau ágios, e, é
cla o, a paisagem, o en o o e, o a ol, o p omon ó io e a cidade sob e ele. E as ondas
gigan es encaixam-se pe ei amen e nesse quad o, po que são pa e essencial do que cons i ui
esse luga .
55
“The size i ge s and he amoun o wa e mo ing, you know, and he ene gy. I hink i ’s e y
unique, cause i ge s so… You know, like a big wa e su e , i doesn’ ge ha big ha o en,
you know. E en in Hawaii in he season i can ge 20 ee a ew imes in he season. And I
hink he unique hing wi h Naza é is like… i ’s 20 ee a lo , you know. So enables you o ain
a lo .” (And ew Co on)
“Eu ia, com a o mação que inha, ia semp e a possibilidade despo i a que a P aia do
No e inha e, depois, do desen ol imen o u ís ico e económico que pode ia i associado à
P aia do No e. Foi um caminho, desde 2002 a é 2010, mui o longo, mui os campeona os,
mui os con as, mui os nãos e que em 2010 culminou com a c iação de um p oje o que se
chama a No h Canyon, que e a a e olução do abalho odo que nós ínhamos indo a aze
e que oi idealizado po mim, pelo Paulo Caldei a, o Paulo Sal ado e pelo Ped o Pisco.
E nós decidimos con ida um su is a de ondas g andes pa a explo a as ondas na P aia do
No e, e a escolha na u al e a o Ga e po que eu já inha a ala com o Ga e há 5 anos,
e ele semp e se demons ou disponí el a i pa a cá, po que eu inha i ado uma o og a ia
num dia especial e pe cebi cla amen e que aquilo e a uma o og a ia que não e a no mal.
Que as ondas da P aia do No e e am especiais e que inha que ha e alguma o ma de as
su a e i a pa ido disso e de as mos a pa a o mundo e aze com que hou esse pessoas
que quisessem isi a a Naza é pa a sen i o mesmo que eu sin o e que u já sen is e.”
(Dino Casimi o)
Figu a 2. Fo og a ia que Dino Casimi o i ou da P aia do No e em 2005 e en iou a Ga e McNama a po e-mail
56
Esse ema, inclusi e, es á sendo discu ido nes e momen o po con a da sé ie p oduzida
pela HBO sob e a onda gigan e da Naza é, 100 Foo Wa e.
McNama a é conhecido po se egocên ico, e, em uma en e is a ecen e publicada
pelo si e NiT
11
, po con a da sé ie, Dino Casimi o e elou que a elação com o su is a icou
com um gos o ama go após a conquis a da onda, já que Ga e não se p eocupou em da os
de idos c édi os a oda a equipe en ol ida no p oje o, que não apenas desen ol eu a es u u a
an es da sua chegada e o con idou pa a execu a a açanha, mas ambém deu odo o supo e
du an e o p ocesso de explo ação da onda.
E pa ece que, pela p imei a ez, McNama a esol eu ala publicamen e sob e os
bas ido es dessa his ó ia, al ez a é mesmo po que a sé ie o enha ob igado a isso. Fiquei com
pena de não o e en e is ado. Chegamos a oca mensagens pa a combina a en e is a, mas
ele não me e o nou. Recen emen e, li um pos dele no Ins ag am
12
que achei signi ica i o
ace ca desse ema e ambém sob e a elocidade das ans o mações e a impo ância da onda
pa a a Naza é e pa a Po ugal:
“C azy o hink how quickly hings can change when e e yone wo ks oge he o a common
goal, ision and passion. Pho o 1 is om win e 2012 wi h jus ou eam and he o he wo
om he ollowing win e seasons wi h housands o people!! I ’s INCREDIBLE o hink wha
a wa e can do o a own… o a coun y. Po ugal is an amazing place wi hou his wa e.
Naza é is a mys ical ishing illage wi hou he wa e. BUT wi h he wa e ou small eam wi h
all HEART was able o sha e his hidden gem o a coun y wi h he en i e wo ld. Th ough he
wa e we we e able o each people who now can also all in lo e wi h Po ugal. So g a e ul
o ha o iginal g oup o men ha had a ision and o @mamaunea hed suppo ing all ou
isions and o he mo o “e e y hing is possible” because guess wha ???… i ’s ue
EVERYTHING IS POSSIBLE. (Ga e McNama a)
Se i esse de escolhe apenas um en e odos os a a i os da Naza é, se ia com ce eza
a onda gigan e. Aquilo, pa a mim, é mágico, de sonho. É cla o que ela sozinha não se ia ão
in e essan e sem oda a mís ica, beleza na u al e a cul u a naza ena que a en ol e.
Quando comecei o abalho de campo, inha dois g andes ocos em elação à onda,
como expec a i as ou p é-concei os sob e os quais imagina a que cons ui ia meu abalho.
P imei o, gos a ia de sabe o que acha am os naza enos da onda gigan e e como e a e
11
h ps://www.ni .p /cul u a/ ele isao/a-his o ia-dos-po ugueses-que-le a am-ao-mundo-as-ondas-gigan es-da-naza e
(acedido a 24/09/21).
12
h ps://www.ins ag am.com/p/CTwxIPR Z W/?u m_sou ce=ig_web_copy_link (acedido a 24/09/21).
63
ila, enal ecendo o desen ol imen o econômico e a melho ia das condições inancei as
p opo cionadas po ele pa a a população.
“O u ismo é semp e bem- indo, meu amigo. Sem o u ismo, mui a gen e da Naza é não
sob e i ia. Pa a aluga as casinhas, os qua inhos e al. O u ismo é semp e bem- indo.
Gos o mui o do u ismo. Ago a emos udo, an igamen e não ínhamos nada, ago a emos
udo. An igamen e e a di ícil, ago a ‘ á’ mui o modi icado, p a melho , p a melho .” (Galileu)
O depoimen o de Seu Galileu e le e uma opinião p a icamen e unânime en e odos
com os quais i e a opo unidade de con e sa : a de que o u ismo é essencial, melho ou a
ida da população e é mui o posi i o pa a a Naza é. No e eno, ao pe gun a sob e isso pa a
as pessoas, sen ia semp e ce a ensão no a , comp eensí el, é cla o. Como se es i esse
c uzando uma ba ei a que não se cos uma c uza e exis isse um código ou cuidado de não
c i ica o u ismo, especialmen e pa a um “ u is a” com uma câme a na mão como eu. Em
algumas si uações, inha a sensação de que os cidadãos se sen iam como uma espécie de po a-
ozes, ou a é mesmo “ uncioná ios”, esponsá eis po zela pela imagem dessa “emp esa”
chamada Naza é.
Hou e, inclusi e, uma si uação e elado a nesse aspec o. Duas, na e dade. P imei o,
uma das únicas pessoas com quem con e sei que inha c í icas con unden es em elação ao
u ismo na ila p e e iu não se ap o unda no assun o e não me concede uma en e is a, pa a
e i a p oblemas. E segundo, ui ao Pos o de Tu ismo pa a en a con e sa com a esponsá el
pelo Gabine e de Tu ismo e sabe se podíamos ma ca uma en e is a, e ela, ao sabe que eu
es a a a aze um mes ado sob e o assun o, icou ne osa e disse-me que de e ia p ocu a o
P esiden e da Câma a, que e a o esponsá el pela á ea e a pessoa mais habili ada a ala sob e
o ema. Ou seja, a pa i desses pequenos acon ecimen os, podemos supo que não exis a na
ila um espaço abe o pa a deba es e uma isão c í ica ace ca do u ismo.
Um dos poucos en e is ados que ize am c í icas aos impac os que o “boom”
u ís ico em ge ado, o su is a po uguês de ondas g andes e pilo o de esga e eco dis a
mundial, Sé gio Cosme, que não é da Naza é, se e e e à al a de espei o aos locais den o
d’água po pa e dos es angei os e à al a de eg as pa a os que desejam desa ia o ma da
P aia do No e nas ondas gigan es. Seu discu so e ela um aspec o impo an e que es á
p esen e como pano de undo no jogo do u ismo, sob e o espei o e a dispu a mui as ezes
exis en e nas elações en e quem é da e a e quem é de o a, que pode se mais ou menos
es imulada de aco do com a si uação, a cul u a e as polí icas locais pa a ajuda a e i a o
chamado u ismo p eda ó io (e, é cla o, com a educação e consciência de cada um ambém).

64
Em di e sos sí ios, dependendo de como a cul u a do u ismo nasce e é ge ida, c ia-se
uma ideia de al a de comp omisso em elação ao local po pa e dos isi an es, que desejam
apenas se di e i e ex ai o máximo possí el daquele luga , pa a depois pa i em, sem
esponsabilidade, in e esse ou p eocupação em es abelece ínculos com o luga e com as
pessoas que lá i em.
“É como digo, quando i emos numa economia, não é, udo que seja bom p a ila é udo que
aga dinhei o p a ila. É semp e um pau de dois bicos, logicamen e. É cla o que, se az
economia, ambém az mais pessoas; se az mais pessoas, ambém az mais pessoas no pico,
az menos luga es p a es aciona nos ca és. De uma o ma ge al, cla o que oi posi i o, não
enho como dize que não. É posi i o, cla o que sim. É posi i o ‘pa’ odas as pessoas da
Naza é. A ualmen e ens milha es de pessoas na Naza é e ão e in e no, quando an igamen e
e a e ão, a época balnea e a e ão, e as pessoas inham só e ão. A ualmen e ens e ão e
in e no. Cla o que a mim, a mim como su is a e como po uguês, não é, não como local da
Naza é, mas como local po uguês, a mim cus a-me a e algumas si uações. É pá, pessoas
que êm p a cá só no in ui o de ganha ama. E quando u azes um in ui o desse na ua
cabeça, quando azes um obje i o desse es ilo na ua cabeça, u mui as das ezes, há mui as
si uações que ais pô de lado, que ais pô de pa e. E uma dessas si uações é, como eu já
e e i, é a segu ança da pessoa que ‘ á’ con igo, dos locais. Cla o que eu enho que dize que
is o é uma coisa mui o posi i a, mas como is o es á ão di ícil de a anja eg as na Naza é e
que as pessoas enham consciência, eu acho que qualque dia is o pode se o na uma coisa
nega i a. F ancisco, u, se quise es comp a um je ski hoje, amanhã ais ‘pa’ água, que
‘ eja’ um me o, que ‘ ejam’ in e me os. Isso é a pa e má que o u ismo ouxe ‘pa’ Naza é.
‘Tás’ a e ? Enquan o não hou e essas eg as, pá, e um espei o, po que não há espei o
pelos locais, não há. Eu já ui ameaçado no pico. Enquan o não hou e espei o pelos locais,
como há no Ha ai, no Ha ai não des espei as ninguém. E as pessoas aqui con undem a
amabilidade dos po ugueses com eles se em acos de espí i o ou se em pessoas mais
acas... são coisas di e en es. O po uguês gos a de da o ab aço, es ende a mão. Pedem-lhe
a mão, o po uguês dá o b aço, é pá, mas não somos es úpidos.” (Sé gio Cosme)
Ou a ques ão cen al elacionada ao u ismo diz espei o à habi ação e à especulação
imobiliá ia. Ri a B ilhan e, sócia p op ie á ia da imobiliá ia Imo Naza é, o e ece um
pano ama das ans o mações desse me cado nos úl imos anos que con i ma a g ande
alo ização do se o e os no os ipos de clien es que a Naza é em a aído:
65
“O me cado imobiliá io nesse momen o es á em al a. En e ali o 2015 e o 2019 hou e semp e
um aumen o g adual. O mesmo imó el, de um ano ‘pa’ o ou o, alo iza a 15% a 20%. E nós,
hoje em dia, emos clien es de á ias nacionalidades, pessoas que in es em cá ou só mesmo
po in es imen o ou po que ealmen e passa am a i e pa a cá, po á ios mo i os, e emos
clien es de á ias nacionalidades, que não e a mui o usual. O nosso p incipal clien e é o
clien e ancês, de o igem ancesa, não o emig an e, o de o igem ancesa po que, de ido
aos bene ícios iscais que êm in es indo em Po ugal, passa am a p ocu a mui o a Naza é.
Temos mui o o clien e nó dico, que não e a usual i pa a cá, mui o da zona da Escandiná ia,
Holanda, mui o. E depois ambém espo adicamen e emos clien es ame icanos, canadianos,
b asilei os, que é um me cado no o. E depois é assim, nós emos dois ipos de imó eis que se
endem bem: ou é no cen o his ó ico, aquelas casas ípicas, p on o, mui o bem localizadas
jun o à p aia – que essas uncionam mui o bem mais p a esse ipo de in es imen o, pa a a
en abilização – ou en ão emos o clien e que p ocu a algo já com á eas maio es, boas
a andas, alguma is a pa a o ma se o possí el, pa a habi a . No meu pon o de is a, ‘ á’
a começa a es agna . Ainda não ‘ á’ em dec éscimo, e penso que não i á en a em
dec éscimo ão p óximo, mas eu acho que es á a es agna , po que ambém a ingimos alo es,
mui o since amen e, alo es de me cado al os.” (Ri a B ilhan e)
O P esiden e da Câma a, Wal e Chicha o, a ibui a ama in e nacional alcançada
pelas ondas gigan es nos úl imos anos à es a égia de comunicação ado ada du an e sua
ges ão. Além disso, segundo ele, o apoio o e ecido pela Câma a aos su is as e a ealização
de g andes e en os, como o “Naza é Tow Su ing Challenge 2020”, ei o em pa ce ia com a
WSL (Wo ld Su League), ambém o am undamen ais nesse sen ido. Seu discu so az
di e sos elemen os simbólicos e p á icos que pe mi em comp eende melho os alo es e
p io idades que no eiam as polí icas da ila a ualmen e:
“O que é um ac o é que a polí ica de comunicação que implemen amos a pa i de 2014,
2015, aduziu-se numa ampli icação da nossa comunicação, numa ampli icação daquilo que
é um enómeno como o Canhão da Naza é e a onda gigan e da P aia do No e, que começou
pela ia digi al, pela polí ica de comunicação que oi di e enciada e que oi al e ada com a
minha chegada à Câma a Municipal, a es a cen ada a comunicação da ila, do Concelho,
mui o num enómeno chamado Canhão da Naza é e a onda gigan e da P aia do No e, udo
isso eio pelos meios digi ais a ga an i -nos a al nomeada in e nacional, que hoje em dia é
uma ealidade, e que me le a a dize cla amen e, com odo à on ade – e essa é uma mudança
undamen al –, que a Naza é hoje em dia é uma ma ca global. Ainda p a mais uma ma ca
que em a capacidade de, depois de mui o abalho do município nessa ma é ia, chega a uma
Times Squa e, em No a Io que, em junho de 2018, a a és de uma campanha de p omoção
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de Po ugal ei a pelo Tu ismo de Po ugal, em que, com ec ãs gigan es da Times Squa e, da
o dem dos 30 me os, oi possí el e uma ace a do país, Po ugal, demons ada única e
exclusi amen e pela maio onda do mundo, a onda gigan e da P aia do No e, e que
na u almen e ambém ajudou a al ampli icação de comunicação que emos hoje em dia com
a ila. Po an o, basicamen e essa é a di e ença, é na comunicação que es á a di e ença dos
empos an e io es à minha chegada, já com o eco de do mundo, pa a os empos a uais.
A ou a ques ão que p a mim ez na u almen e a di e ença. O p oje o ondas gigan es é ge ado
pela Câma a Municipal com o con i e a um su is a, mas no undo numa época em que não
mais do que 3, 4 su is as es a iam na P aia do No e. Com a minha chegada, aquilo que
semp e oi a isão, oi de ampli ica ambém essa comunicação ab indo a P aia do No e a
mais su is as, dando-lhes mais condições pa a es a em po cá p esen es. E o que é um ac o
é que hoje em dia qualque su is a que chega a Naza é, chega e, quando que alguma
in o mação, em semp e ia Câma a Municipal, que lhe o nece odo o apoio que necessi e
pa a apanha a onda da sua ida. Isso é e dade com os su is as, mas é ambém e dade
com, po exemplo, os g andes e en os in e nacionais que o ganizamos nes a ila. En im,
e o ço aqui um que é decisi o e que pela minha mão conseguimos aze p a cá no ano de
2016. Te um campeona o o ganizado pela Wo ld Su League, não só pelo campeona o em
si, pelo desa io, mas ambém po que a Wo ld Su League é uma pla a o ma de comunicação
gigan esca, que ampli ica a comunicação de odos. O que é cu ioso hoje em dia e é que, de
ce a o ma, a Naza é deixou de se um a i o adicional pa a a Wo ld Su League e pa a as
suas páginas de comunicação, pa a passa a se , p o a elmen e, o a i o mais lide an e. Po
quê? Po que es amos a ala na u almen e de um enómeno da na u eza an ás ico, de uma
lu a do homem con a a na u eza, num cená io, num an i ea o na u al absolu amen e i eal
e que ambém em ajudado na u almen e a es a ampli icação de comunicação que, como eu
disse, a comunicação é o a o decisi o an es da minha chegada e após minha chegada.”
(Wal e Chicha o)
Além do desen ol imen o econômico, a explo ação das ondas gigan es ouxe
ambém bene ícios subje i os, a a és do econhecimen o do local e do país, ele ando a
con iança, a au oes ima e o bem-es a das pessoas, como demons a o depoimen o de Sé gio
Cosme:
“É boni o de e , é boni o de e os nossos amigos a e em p oje os e a e em sucesso nos
p oje os que ize am lá na e a, p a e a deles. A ealidade é que ealmen e o p og esso
ouxe ali a Naza é não só ‘pa’ os p oje os, ‘pas’ pessoas, ‘pa’ ila, a economia que ouxe
ao país. É como e digo, não é só uma ques ão de dinhei o. É pá, ou e da um exemplo: eu
no Panamá, e as pessoas não sabem p a icamen e o que que é Po ugal, o que que é a Espanha
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e conhecem a Naza é. Pá e isso é uma coisa que a Naza é ouxe a Po ugal, ‘ ás’ a e ? E a
isso que eu que ia dize . Não só a ní el econômico, nós i emos p opo ções ‘pa’ Po ugal,
como a ní el do conhecimen o, ha ia pessoas que nem sabiam onde é que e a Po ugal, ha ia
pessoas que nem sabiam que exis ia Po ugal. ‘Tás’ a en ende ? E eu acho que a Naza é
ouxe um bocadinho isso a Po ugal, pessoas que não conheciam Po ugal, mesmo sem cá
i , hoje em dia já conhecem Po ugal, ‘ ás’ a pe cebe ? É mui o boni o chega ao Panamá e
pe gun a em- e, ‘en ão mas u é que é o Sé gio Cosme da Naza é?’, e eu: ‘sim, mas po quê?’
‘Ah pá, eu sigo- e há mui os anos, sigo o eu abalho, da Naza é’. E is o é ealmen e ambém
o bom que ouxe a Naza é pa a Po ugal, é chega es aos ou os sí ios e as pessoas conhecem,
conhecem o eu país ou conhecem a onda e alam- e com ca inho.” (Sé gio Cosme)
4.6. Desa ios
Além de obse a a ila ao longo de á ios meses e i a minhas p óp ias conclusões,
achei que se ia impo an e ou i das pessoas quais são as ques ões ele an es, na opinião
delas, a se em encaminhadas na Naza é, e incluí algumas pe gun as no o ei o sob e os
p oblemas e desa ios da Naza é pa a o u u o p óximo. De aco do com os en e is ados, oi
possí el de ec a cinco p incipais á eas de a enção que es ão in e ligadas:
• In aes u u a;
• Valo das endas e dos imó eis;
• P ese ação da na u eza;
• Respei o aos su is as locais e eg as pa a su a as ondas gigan es;
• P ese ação da iden idade naza ena.
Quan o à in aes u u a, os en e is ados ela am p oblemas pon uais elacionados à
melho ia das condições pa a ecebe com mais con o o o g ande luxo de u is as que êm à
Naza é, mui as ezes de o ma epen ina. São ques ões elacionadas, p incipalmen e, à al a
de es acionamen o, casas de banho e lixei as:
“Olhe, eu digo- e já: um dos maio es p oblemas da Naza é é es acionamen o. Esse é o
p imei o p oblema aqui na Naza é.” (Manuela)
“Ce as coisas, olhe, pelo menos aqui na Naza é, não em umas casas de banho em
condições.” (Galileu)
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“Se eu ago um papel ou o que que que seja, ou uma ga a a de plás ico ou o que que que
seja, na mão, e ize odo o caminho sem um lixo, eu não ou joga o lixo no chão e dize que
a culpa e a da Câma a. ‘Tás’ a en ende ? Ago a, a Câma a ambém não pode ica à espe a
que odas as pessoas sejam sensa as ao pon o de não manda o lixo ‘pa’ o chão ou de não
passa a linha ama ela.” (Sé gio Cosme)
“Eu acho que o que al a melho a cá em Po ugal e mesmo na Naza é são as in aes u u as
e e mais a enção a p o ege a na u eza.” (Joana And ade)
No pe cu so odo que le a do sí io ao Fa ol, uma descida íng eme com
ap oximadamen e 700 me os, não há uma única casa de banho ou lixei a pública. Também
não há limi es de p o eção, inclusi e no Fa ol. Além disso, o ânsi o de eículos e pedes es
é con uso e oco e na mesma ia, causando um c uzamen o cons an e en e pessoas,
au omó eis, mo as, uk uks e bicicle as. Pessoalmen e, conside o a é uma p opos a
in e essan e e mais li e de in e ação com o ambien e. Mas, conside ando o olume de pessoas
que isi a o local, a al u a do p omon ó io (há di e sos p ecipícios em di e en es echos do
caminho) e a po ência daquele ma e daquele en o, deixa a c i é io de cada um os limi es
que de em se espei ados é bas an e a iscado, na minha opinião.
Assis i di e sas ezes a pessoas sen adas na a eia da P aia do No e, po exemplo,
conside ando que es a am a uma dis ância segu a do ma , se em pegas de su p esa po uma
onda e ica em comple amen e molhadas e e em os seus pe ences a as ados pela água.
Felizmen e não p esenciei nenhum aciden e, mas o a o é que é um luga que o e ece iscos
que as pessoas não es ão habi uadas e, po não e em a noção da o ça do ma , azem
julgamen os equi ocados conside ando suas expe iências em ou as p aias. Ou seja, é p eciso
eg as mais cla as e in o mações sob e as ca ac e ís icas e os pe igos do local.
Ou o pon o mencionado pelos en e is ados diz espei o ao aumen o do alo das
endas e dos imó eis de o ma ge al. Como podemos e a segui , é um aspec o que em dois
lados e que não é pe cebido p op iamen e como nega i o, já que possibili ou, pa a alguns,
usu ui dessa alo ização:
“Eu acho que o lado nega i o é o p eço que ‘ ão’ as imobiliá ias. E pa a uma pessoa
po uguesa i e ou aluga uma casa lá não é ão ácil como um es angei o aluga uma casa
lá. Mas depois ambém hou e mui as casas que es a am abandonadas e c ia am hos els,
c ia am ho éis, c ia am pon os u ís icos pa a os u is as. Po an o, eu acho que há mais p ós
do que con as nisso udo.” (Joana And ade)

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“Pa a um casal jo em da Naza é que que comp a uma casa, ‘ á’ mui o di ícil. Mas pa a
um casal da Naza é que já inha uma casa e que pode en abilizá-la, ‘ á’ mais ácil.”
(Dino Casimi o)
Quan o à p ese ação da na u eza, And ew Co on menciona o a o de Po ugal e
c iado uma das p imei as ese as de su do mundo na E icei a e ac edi a que as pessoas se
in e essa em po assis i um espe áculo da na u eza, como o das ondas gigan es, seja um pon o
posi i o pa a c ia essa conscien ização, além de uma boa opo unidade de ge a engajamen o
nesse sen ido.
“You know, wi h ha amoun o people coming o isi one place, he e’s bound o be
disad an ages, like e osions o he cli , you know, walking up a ound he cli i ’s going o be
e osions o ha . And also, you know, hoping ha e e yone who comes and happens o b ing
a picnic o b ings wha e e and akes he ubbish away. You know, so he e’s a lip side, isn’
i ? I hink al hough he people coming is g ea , i has o be managed.” (And ew Co on)
Como e e e And ew Co on, o a o de as pessoas isi a em o local é bom, mas é
p eciso ge i-las. Reg as e limi es são essenciais não apenas pa a a p ese ação da na u eza,
mas ambém pa a a segu ança dos isi an es e pa a a ga an ia de uma boa expe iência.
Ou a ques ão undamen al le an ada po á ios su is as se e e e à cul u a do su
e à o ma como os isi an es se compo am no ma , apon ando pa a a c escen e al a de
espei o aos su is as locais den o d’água e a inexis ência de eg as pa a en a na P aia do
No e e su a uma onda gigan e, colocando em isco a ida das pessoas, como e e em Joana
And ade e Hélio An ónio:
“Eu ambém ac edi o que já começa a ha e mui a gen e a que e desa ia aquela onda, e eu
sin o, não que o se pessimis a, mas alguma coisa pode acon ece . Cada ez há mais gen e a
i que não em a noção do ma , que não sabem su a . São su is as que ago a de epen e ‘ai
eu que o expe imen a a onda da Naza é’ e ão. E eu acho que há mui a gen e que es á a
que e es a os seus limi es e não em a noção. E é como udo, isso es á mui o gi o, mui o
gi o, mas, se po acaso acon ece alguma coisa, ai se mui o mau pa a a comunidade das
ondas g andes, mui o mau pa a a Naza é. Acho que se de ia pô um bocadinho mais de
a ões às pessoas que ão pa a lá en a su a ”. (Joana And ade)
“O aspec o que eu me es ou a e e i em conc e o em a e com a base do espei o que exis e
den o d’água. O su é um despo o mui o pa icula , di e en e de odos os ou os, não há
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um juiz, não há um á bi o den o d’água a dize o que é que es á ce o, o que é que não es á.
En ão pa e do bom senso e do espei o das pessoas umas pelas ou as, semp e oi assim e
semp e se á assim. É uma subcul u a mui o p óp ia, que às ezes as pessoas não
comp eendem a ques ão do localismo, po que é que alguém que é local em di ei o a apanha
as ondas, em mais di ei o a apanha as ondas do que ou as pessoas, e isso, pa a quem não
es á den o da cul u a do su , pode pa ece chocan e e não az sen ido, mas pa a quem i e
o su é algo mui o impo an e. Tem que se assim po que há pessoas, in elizmen e há pessoas
que não sabem es a na água. Há pessoas que isi am ou o país no mundo, ou a e a e não
sabem espei a quem lá i e, e isso é mui o impo an e. São alo es que as pessoas êm que
e e in elizmen e há pessoas que não êm. E o p oblema da Naza é começa a su gi um pouco,
esse p oblema aqui na Naza é. Po que es á a começa a i mui a gen e, e isso p ecisa se
co igido, po que o que es á aqui em causa pode se a ida das pessoas que lá es ão.”
(Hélio An ónio)
A a enção e o supo e o e ecidos aos su is as po pa e das câma as de localidades
que possuem uma elação di e a com o su , como a E icei a e a Naza é, o am aspec os
posi i os mencionados, como explica Joana And ade:
“Eu acho que ago a as câma as e mesmo os p esiden es, a é o Senho P esiden e Wal e
Chicha o e o Senho P esiden e Hélde Sousa Sil a aqui na E icei a, cada ez es ão mais a
ajuda a comunidade su is a po que sabem que ealmen e nós, que oi o su que deu ida ao
u ismo.” (Joana And ade)
Po úl imo e não menos impo an e, os desa ios pa a o u u o elacionados à ques ão
da p ese ação da iden idade naza ena, al ez o mais delicado e complexo en e odos os
pon os discu idos:
“Eu imagino e gos a ia que osse ambém, assim, não mui o di e en e do que es á hoje. Po que
eu acho que udo que ai c escendo, ai c escendo, se ocê não con ola esse c escimen o,
ocê pe de aquele ‘ eeling’, né, aquela coisa básica da cidade, e isso eu acho que aqui não
pode pe de isso.” (Edua do)
“Eu acho que é equilíb io, em udo. É en a que a mode nidade não supe e a pa e
adicional e cul u al, é en a que o naza eno saiba ecebe quem nos isi a, é en a que
quem nos isi a espei e o naza eno, ou seja, is o é uma balança. Mas amos e ações a
puxa odas p a um lado, amos e os emp ei ei os a que e aze p édios e apa amen os e
udo e mais alguma coisa. Vamos e depois a pa e das pessoas que de endem mais a
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ipicidade da Naza é a dize em não, não se pode cons ui mais. Ou a gen e pe cebe que
emos que nos uni e encon a esse equilíb io e ala abe amen e e pe cebe o pon o de is a
um do ou o, ou se is o descamba p a um lado, a Naza é pe de mais do que ganha.”
(Dino Casimi o)
“Há um desa io impo an íssimo, e p o a elmen e e e i ei-me só a esse po que esse é o
su icien e, po que depois az impac os em odas as ou as á eas, que é o que: há uma
condição – pelo menos enquan o eu es i e à en e da Câma a Municipal, e não ac edi o que
quem que que enha pa a es e luga pense de o ma di e en e –, há uma condição que nós
amos e que man e ad ae e num, que é que não se pe ca aquilo que são as nossas adições,
a nossa condição gené ica, a nossa ealidade que hoje em dia i emos, é que apesa de e mos
uma onda gigan e, con inuamos a se um po o com g ande ligação ao ma , um po o que
man ém nas suas adições do pescado , na mulhe de se e saias, um elemen o decisi o da
iden i icação da Naza é. E isso é uma ma é ia que nós lidamos com ela com mui o cuidado e
que emos, quan o a minha inda a complemen a mui o bem com es e no o cená io da onda
gigan e. Exemplo simples disso é, em qualque lado que a Câma a Municipal es eja, numa
ei a de u ismo, numa ei a econômica, no que seja, numa ap esen ação dum p odu o
qualque , as duas ealidades es ão p esen es: a Naza é do an igamen e, dos nossos empos
ances ais, ep esen ados po quê? Pelo pescado ajado a igo e pela peixei a, esposa do
pescado , de se e saias, inclusi amen e não é um aspec o li e al, é um aspec o eal, ma e ial.
Quando amos a uma ei a de u ismo, o pescado e a peixei a acompanham-nos, emos um
casal que nos acompanha. Mas, po ou o lado, emos na mesma aquilo que é a a ual
con empo aneidade da Naza é, mais pa icula men e das ondas gigan es. Po an o, man e
essa condição na u al, gené ica, de um po o de pescado es, de uma e a com uma beleza
incalculá el, com uma beleza simples, mas man e essa adição como base do nosso ca á e
enquan o po o, é decisi o pa a o u u o.” (Wal e Chicha o)
A pa i dos depoimen os, ica e iden e que exis e uma p eocupação com o equilíb io
do desen ol imen o, com um c escimen o con olado e com a p ese ação da iden idade
naza ena, e que isso é undamen al pa a o u u o do u ismo na ila. No en an o, é possí el
pe cebe ambém uma obje i icação/espe acula ização na manei a de pensa ações pa a a
p ese ação dessa cul u a, p esen e na ala de Wal e Chicha o ao desc e e a es a égia
ado ada pela Câma a Municipal de le a o casal compos o pelo pescado e pela peixei a às
ei as de negócios e u ismo e de ou as inicia i as semelhan es, como o Museu (Vi o) do
Peixe Seco.
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Já a busca po equilíb io ão necessá ia a que Dino se e e e coloca em dispu a o ças
bas an e desp opo cionais. Ou seja, a adição não em ecu sos pa a lu a de igual pa a igual
com a mode nidade e, se não hou e p oje os e polí icas de p o eção que conside em essa
di e ença de in enções e de condições, ela i á pe de essa lu a ine i a elmen e.
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APÊNDICE B – Ro ei o en e is as su is as
1. Ap esen ação, nome, idade, p o issão.
2. Con e um pouco da sua aje ó ia e de como se o nou su is a de ondas gigan es?
3. Como conheceu Naza é? Con e sua his ó ia com esse luga .
4. O que essa onda e esse luga ep esen am pa a ocê?
5. É uma onda especial na sua opinião? Po quê? O que em de especial nela, de
di e en e?
6. Lemb a-se da p imei a ez que en ou no ma da Naza é? Qual a sensação?
7. Como se sen e em Naza é? Como as pessoas e a am? Tem amigos aqui?
8. Como ocê enxe ga essa elação en e os su is as e a comunidade?
9. Você conhece um pouco sob e a his ó ia e a adição locais?
10. O a o de os naza enos se em g andes pescado es e de mui as pessoas e em mo ido
no ma impac a sua elação com a onda e o su aqui? Como?
11. O que mudou na ila desde que eio pela p imei a ez? Como ocê enxe ga isso?
12. Ac edi a que a explo ação u ís ica e come cial da onda em azido bene ícios pa a a
ila? Quais?
13. Ac edi a que exis a uma p eocupação com p ese ação da na u eza e da cul u a
local? Como?
14. Como pensa/imagina que es a á isso daqui a 10, 20 anos?
15. Quais são seus planos em elação à Naza é? P e ende con inua indo odo os anos?
16. Qual a impo ância da Naza é pa a o su e o su de ondas g andes na sua opinião?
17. Con e alguma expe iência ma can e que enha i ido no ma da Naza é.
18. Como oi o dia do eco de e os momen os an es?
19. Qual é a sensação de e su ado a maio onda do mundo?
20. Você já sen iu medo de mo e lá den o? Qual é a sensação de es a lá?
21. E o caldo, como é um caldo na Naza é?
22. Que ap endizados ocê i a dessa expe iência?

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APÊNDICE C – Ro ei o en e is a Wal e Chicha o
1. Ap esen ação, nome, idade e p o issão.
2. Qual a impo ância da onda gigan e da P aia do No e pa a a Naza é hoje?
3. O que mudou na ila depois da explo ação da onda?
4. Como e a a elação dos mo ado es com a onda an es da ama, no passado?
5. O que le ou a essa mudança/ ans o mação?
6. Na opinião do senho , como os mo ado es eem a onda a ualmen e?
7. Quais os maio es bene ícios pa a a ila azidos pela explo ação da onda?
8. E quais desa ios e p oblemas a explo ação come cial em o no da onda ouxe?
9. O que a Câma a em ei o em elação a isso?
10. Como enxe ga a impo ância da p ese ação da na u eza e sus en abilidade a médio
e longo p azo?
11. O que a Câma a em ei o em elação a isso?
12. Como o senho enca a a in lação dos aluguéis? Exis e isco de pe da da iden idade
cul u al?
13. Que ipo de ação a Câma a oma pa a diminui esses e ei os pa a os mo ado es?
(P o issões elacionadas à pesca que os jo ens não que em mais, po exemplo).
14. Como é e o u ismo como p incipal on e de enda? (Fo ças e aquezas)
15. A pandemia ouxe ap endizados nesse sen ido? Exis e um plano pa a mi iga isso?
16. Como ê a in eg ação da comunidade com os su is as?
17. Quem são e o que desejam os u is as que êm e a onda? Eles êm um pe il
di e en e do u is a balnea e do u is a eligioso?
18. O que sabem sob e a onda? (P incipais cu iosidades e dú idas)
19. Exis e uma classi icação de pe is de u is as na Naza é? Quais as p incipais
di e enças en e eles?
20. O senho em in o mações sob e o núme o de u is as que equen am a Naza é?
21. Quais as p incipais medidas e es a égias da sua ges ão em elação à onda?
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22. Como o senho islumb a o u u o da Naza é daqui a 10, 20 anos?
23. O senho assumiu a p esidência da Câma a em 2012, logo após a “descobe a” da
onda. Como esse e en o impac ou/no eou a sua ges ão?
24. O senho em de uma aje ó ia co po a i a, abalhou na indús ia a macêu ica,
es udou Ma ke ing. Não em eceio que esse ipo de men alidade “obje i ique” a ila
e con ibua pa a a pe da da iden idade naza ena?
25. Quais são os maio es emba es e con li os de in e esses a uais na ila, na sua opinião?
26. Como o senho ac edi a que a população enxe gue o p og esso u ís ico?
27. Eu li que oi e ada a c iação de uma i olesa que liga ia o sí io ao cen o da ila.
O que o senho achou disso?