Full text
49 VOL. 23, N.o 2 — JULHO/DEZEMBRO 2005 Saneamento do ambiente António Tavares é médico de saúde pública do Centro de Saúde da Venda Nova, delegado de saúde do concelho da Amadora, doutor em Saúde Pública. Pedro Aguiar é assistente da Escola Nacional de Saúde Pública, mestre em Probabilidades e Estatística. Irene Alves Pereira é professora associada da Escola Nacional de Saúde Pública, doutora em Engenharia Sanitária. Submetido à apreciação: 14 de Dezembro de 2004. Aceite para publicação: 25 de Maio de 2005. Produção de resíduos hospitalares na prestação de cuidados domiciliários ANTÓNIO TAVARES PEDRO AGUIAR IRENE ALVES PEREIRA Os resíduos hospitalares (RH) perigosos — Grupos III e IV — produzidos na prestação de cuidados domiciliários (CD), dada a sua composição, infecciosidade, toxicidade, mobilidade e persistência, constituem um perigo relevante. A exposição a estes resíduos traduz-se num risco importante para os profissionais de saúde, doentes e seus familiares. Dado que em muitas situações estes resíduos ficam no domicílio dos doentes, sendo posteriormente depositados nos contentores camarários, o risco é alargado ao público em geral, aos catadores e aos profissionais de recolha de resíduos sólidos urbanos dos municípios. Através de um estudo observacional, transversal, com componente analítica, da produção de RH pretende-se determinar e caracterizar os quantitativos dos Grupos III e IV produzidos na prestação de CD em 2003 no concelho da Amadora, identificando também o seu destino final. Utiliza-se uma amostra aleatória do universo de doentes submetidos a tratamento domiciliário em 2003 e efectua-se a análise da associação estatística das variáveis peso do Grupo III e peso do Grupo IV com as variáveis relativas às características do doente (sexo, idade e doença), do tratamento (duração e periodicidade) e sazonais (época do ano). A média do peso produzido dos RH por acto prestado é de 213,1 g para o Grupo III e de 3,8 g para o Grupo IV. Estima--se uma produção de RH do Grupo III na prestação de CD, em 2003, no concelho da Amadora entre 8,8 e 11,4 t e para os RH do Grupo IV um valor de 10,2 kg. Verifica-se que, por acto prestado, a produção média de resíduos do Grupo III é maior nos doentes mais idosos, nas úlceras varicosas, no pé diabético, na escara de pressão, nas situações de maior duração do tratamento e nos doentes submetidos a três tratamentos por semana. Também por acto prestado, a produção média de RH do Grupo IV é maior nos doentes mais novos, na patologia osteo-articular, na infecção, no acidente, no pós-operatório, nas situações de menor duração do tratamento e nos doentes submetidos a seis tratamentos por semana (o que está relacionado com as patologias em causa). As produções médias, por acto prestado, de ambos os grupos não apresentam relação com as variáveis idade e época do ano. Todos os RH produzidos nos actos prestados em CD, em 2003, no concelho da Amadora foram depositados nos contentores municipais. Recomendam-se acções de formação e de informação dirigidas aos profissionais de saúde e ao público em geral, a criação de condições para que os RH produzidos nos CD sejam transportados, em condições adequadas, para os centros de saúde e uma articulação entre os órgãos de gestão
50 REVISTA PORTUGUESA DE SAÚDE PÚBLICA Saneamento do ambiente dos centros de saúde, a autarquia, os operadores de gestão de RH e os serviços de saúde pública no sentido de serem encontradas soluções apropriadas e inovadoras relativamente à gestão dos RH produzidos na prestação de CD. Palavras-chave: resíduos hospitalares; cuidados domiciliários 1. Introdução A quantidade de resíduos hospitalares gerados em Portugal não representa um problema em termos de gestão, comparativamente a outros tipos de resíduos, como sejam os resíduos urbanos, os resíduos industriais e mesmo os resíduos do sector agrícola (Despacho conjunto n.o 761/99; Levy et al., 2002). Trata-se mais de um problema relacionado com o risco real decorrente da exposição e/ou manipulação destes resíduos e também com a percepção de risco, dado tratar-se de resíduos gerados na prestação de cuidados de saúde, e, portanto, com acentuada especificidade, dada a sua natureza, diversidade, perigosidade e grau de risco (Despacho conjunto n.o 761/99). As estimativas apontam para que cerca de 10% a 20% dos resíduos produzidos nas unidades prestadoras de cuidados de saúde sejam infecciosos (Prüss, Giroult e Rushbrook, 1999). Os resíduos hospitalares parece não constituírem um meio favorável para a sobrevivência de microrganismos patogénicos, devido ao facto de conterem frequentemente bastantes anti-sépticos. Porém, o problema coloca-se pela existência de microrganismos resistentes a antibióticos e a desinfectantes químicos, contribuindo para o aumento da sua perigosidade (Tavares, 2004). Por outro lado, as agulhas contaminadas representam um risco potencial de transmissão de doenças, particularmente as hepatites B e C e a SIDA (Prüss, Giroult e Rushbrook, 1999). Os riscos biológicos, físicos, químicos e psicossociais associados à má gestão destes resíduos são de particular relevância em termos de saúde pública. No caso dos resíduos produzidos em cuidados domiciliários é o centro de saúde o seu produtor, dado que a prestação dos cuidados domiciliários é da sua competência. De acordo com o actual quadro legislativo, ao produtor dos resíduos hospitalares produzidos na prestação de cuidados domiciliários cabe a responsabilidade da sua gestão e destino final. Estes resíduos são fundamentalmente dos Grupos III e IV da actual classificação de resíduos hospitalares, isto é, são resíduos perigosos. Os resíduos dos Grupos I e II (equiparados a urbanos) são aqui produzidos em quantidade muito mais pequena, ao invés do que se passa nas unidades de prestação de cuidados de saúde. Verifica-se que na maioria dos casos estes resíduos ficam no domicílio dos doentes e são posteriormente lançados nos contentores camarários. Nalguns casos (muito poucos) os resíduos hospitalares são transportados para o centro de saúde pelos profissionais afectos à prestação de cuidados domiciliários (Tavares e Barreiros, 2004). Esta situação, além dos riscos envolvidos, é contrária à legislação em vigor, que, entre outras disposições, estabelece as características a que devem obedecer os veículos destinados ao transporte de resíduos perigosos. Além disso, torna-se sobretudo relevante pelo risco que provoca entre os doentes, os seus agregados familiares, o público em geral, particularmente os catadores e os trabalhadores dos serviços camarários de recolha de resíduos. Não tendo sido avaliado até agora o quantitativo de resíduos produzidos neste tipo de prestação de cuidados, procedeu-se à realização deste trabalho de investigação no sentido de quantificar a produção de resíduos hospitalares na prestação de cuidados domiciliários. O trabalho foi efectuado num concelho da Grande Lisboa durante o ano de 2003 (Tavares, 2004). 1.1. Enquadramento conceptual Muitos doentes, por condicionalismos de natureza vária, não podem deslocar-se ao centro de saúde para efectuarem os seus tratamentos periódicos, pelo que, nessas situações, são os profissionais de saúde que se deslocam aos seus domicílios para aí os efectuarem. Dessa prestação de cuidados resulta a produção de resíduos hospitalares, os quais, numa grande maioria dos casos, ficam no domicílio dos doentes. Um outro estudo anteriormente efectuado revelou que na prestação domiciliária de cuidados de saúde efectuada pelas 199 unidades de saúde que compõem os centros de saúde e extensões do distrito de Lisboa, em 35% dos casos, os resíduos hospitalares produzidos ficam em casa dos doentes e em 69% dos casos ficam aí também os corto-perfurantes. Estes resíduos eram posteriormente colocados pelos utentes nos contentores camarários, seguindo o circuito normal dos resíduos sólidos urbanos (Tavares e Barreiros, 2004). As úlceras crónicas estão entre as situações que mais frequentemente constituem o motivo destes tratamentos domiciliários. Outras situações, com um carácter mais agudo, são menos frequentes neste tipo de tratamento. As úlceras venosas e arteriais dos membros inferiores têm uma magnitude importante entre as feridas cró-
51 VOL. 23, N.o 2 — JULHO/DEZEMBRO 2005 Saneamento do ambiente nicas e as suas causas são múltiplas — traumatismos, infecções por vírus, bactérias, fungos, protozoários, picadas, distúrbios metabólicos (como a diabetes mellitus), alterações vasculares (como as vasculites), doenças sanguíneas, cutâneas, neuropatias e a posição de decúbito. Na maioria dos casos, as úlceras da perna são devidas à tromboflebite e a varizes ou insuficiência venosa. Deve também ser salientada a condição clínica das pessoas com insuficiência venosa crónica com úlceras, as quais apresentam longos tempos de cicatrização, uma elevada frequência de recidivas e, consequentemente, um elevado custo do tratamento, sendo um factor de diminuição importante de qualidade de vida. Há dois aspectos que merecem especial atenção, particularmente nas lesões tróficas — a isquemia e a infecção. Esta associação é frequente, o que constitui um factor agravante nas lesões distais em diabéticos e ateroscleróticos, sendo mandatório, para além da estabilização da circulação distal, o controlo da infecção. Este quadro global determina a quantidade e os níveis de perigosidade de resíduos hospitalares produzidos na prestação de cuidados de saúde domiciliários a estes doentes. As úlceras varicosas, tendo como factor etiológico a hipertensão venosa crónica, são frequentemente um motivo destes tratamentos no domicílio, determinando a grande duração dos tratamentos prestados a estes doentes. As úlceras do pé diabético, resultantes das complicações crónicas da diabetes, a neuropatia diabética e a doença vascular periférica são outras das causas frequentes dos tratamentos domiciliários. Cerca de 20% de todos os diabéticos desenvolvem úlceras dos membros inferiores nalgum momento da sua vida, sendo 25% de todos os internamentos dos diabéticos devidos a problemas nos membros inferiores. Cerca de 70% das amputações não traumáticas são efectuadas em doentes diabéticos. Estas amputações nos diabéticos têm na sua origem uma história de úlcera que evolui para uma infecção, cujo recurso terapêutico, para evitar o óbito por sépsis, é a amputação. A elevada incidência e prevalência deste tipo de complicações na diabetes, com um elevado número de prestações de cuidados domiciliários, conduz necessariamente a tratamentos com uma elevada produção de resíduos, cujos quantitativos serão diminuídos através de uma adequada intervenção ao nível dos cuidados de saúde primários, prevenindo o aparecimento destas complicações da diabetes. As úlceras de pressão são outra das situações que solicitam frequentemente a prestação de cuidados no domicílio. São áreas localizadas de morte celular, que se desenvolvem quando um tecido mole é comprimido entre uma proeminência óssea e uma superfície dura por um prolongado período de tempo. Para além da duração da pressão, outros dois factores intervêm na etiopatogenia da úlcera de pressão — a intensidade de pressão e a tolerância tecidular. Como o metabolismo celular depende de os vasos sanguíneos transportarem nutrientes para os tecidos e removerem produtos resultantes desse metabolismo, quando os tecidos moles são submetidos a prolongada pressão e consequente insuficiência nutricional, ocorre a morte celular. A hidratação, as doenças crónicas, as doenças cárdio- -vasculares, a idade e a ausência de mobilidade constituem alguns dos factores mais frequentes e importantes na génese das úlceras de pressão, sendo de realçar a importância de uma atenção na mobilidade destes doentes, evitando que haja persistências de pressão susceptíveis de ocasionarem o aparecimento destas úlceras. Uma das situações que não é abordada neste trabalho de investigação refere-se aos cuidados prestados a si mesmos pelos próprios doentes ou seus familiares, sem o recurso a profissionais de saúde — os autocuidados, os quais também produzem resíduos hospitalares, seguindo habitualmente o circuito dos resíduos sólidos urbanos. Um dos exemplos que, em termos teóricos, podem ser analisados é o caso dos diabéticos, os quais, pela regularidade do tratamento e pelo aumento da prevalência da doença, produzem uma grande quantidade de resíduos hospitalares, designadamente de corto- -perfurantes. Distingue-se a diabetes do tipo 1 e do tipo 2, sendo uma das principais etiologias da diabetes do tipo 2 o excesso de peso e cujo tratamento passa pelo regime alimentar adaptado, pelo exercício físico e, em muitos dos casos, por uma terapêutica oral. A diabetes do tipo 1 representa cerca de 10% dos diabéticos. Os doentes são insulinodependentes, necessitando, portanto, de injecções de insulina. O tratamento exige um certo rigor ao nível dos cuidados e o seu cumprimento previne todas as complicações degenerativas que podem surgir com a doença. Os diabéticos do tipo 1 são assim utilizadores regulares de corto-perfurantes, pois estão obrigados a verificarem, várias vezes por dia, a sua taxa de glicemia e a auto-injectarem-se insulina, também várias vezes por dia. Além disso, muitos diabéticos do tipo 2, após vários anos de evolução da doença, podem igualmente necessitar de iniciarem uma terapêutica com insulina. A eliminação dos resíduos hospitalares produzidos por estes doentes, incluindo, portanto, os corto-perfurantes, pode então tornar-se uma real preocupação (Tavares, 2004).
52 REVISTA PORTUGUESA DE SAÚDE PÚBLICA Saneamento do ambiente De acordo com a Associação Francesa dos Diabéticos (AFD), um diabético insulinodependente produz, em média, 4 kg de resíduos por ano (França. ADEME, 2004). Estes resíduos consistem fundamentalmente no seguinte: tiras, lancetas, ampolas, agulhas, canetas e algodão com sangue e sem sangue. Sabe-se, de acordo com a Direcção-Geral da Saúde (1995), que a prevalência da diabetes em Portugal é de 5% e que, entre estes, 10% são do tipo 1. Sabendo-se que a população portuguesa é de 10 milhões de indivíduos, conclui-se que 500 000 são diabéticos, dos quais 50 000 são do tipo 1. Aplicando o valor estimado pela AFD, em Portugal, os diabéticos, na prestação de autocuidados, produzem anualmente 200 t de resíduos hospitalares, na sua quase totalidade dos Grupos III e IV, as quais são colocadas nos contentores municipais, seguindo assim o circuito dos resíduos sólidos urbanos (França. ADEME, 2004). Dado que o trabalho de investigação aqui apresentado se refere à cidade da Amadora, cuja população é de 176 000 habitantes (Portugal. Câmara Municipal da Amadora, 2002), pode então estimar-se a existência aí de 8800 diabéticos, dos quais 880 são do tipo 1. De acordo com os valores apontados pela AFD, pode estimar-se um quantitativo de 3,5 t de produção anual de resíduos hospitalares por estes doentes, incluindo portanto corto-perfurantes, no concelho da Amadora, oriundos da prestação de autocuidados por si efectuada (França. ADEME, 2004). Não se estão a considerar, em quaisquer dos casos, os diabéticos do tipo 2 que, numa dada altura da sua vida, começam a auto-injectar-se insulina. Tal aumentaria os valores desta estimativa. Estes resíduos são colocados nos contentores municipais, seguindo, portanto, o circuito dos resíduos sólidos urbanos. Acresce ainda a este aspecto o facto de recentemente terem sido introduzidas no mercado as canetas descartáveis, o que agravará ainda mais esta situação. Mas a prestação de autocuidados é um sector difuso, particularmente disperso e difícil de captar. Outros Grupos de doentes, além dos diabéticos, fazem também com regularidade prestação de autocuidados. Os profissionais de saúde em exercício liberal, médicos e enfermeiros, são também produtores ocasionais ou regulares de pequenas quantidades de resíduos hospitalares. Um dos aspectos que devem ser mencionados na conceptualização sobre esta matéria refere-se à forma como os doentes lidam com os medicamentos. De facto, os que são rejeitados, os que deixaram de ser tomados pelos doentes ou os que ultrapassaram os seus prazos de validade são na maior parte dos casos colocados nos contentores municipais ou são lançados para o esgoto. Esta situação verifica-se apesar de em Portugal existir um sistema de recolha destes medicamentos, com a colaboração das farmácias (França. ADEME, 2004). Contudo, embora enformando toda a conceptualização teórica possível da problemática relacionada com a produção de resíduos hospitalares nos domicílios dos doentes, os autocuidados não integram os objectivos deste trabalho de investigação, o qual se debruça sobre aquela produção como resultado da prestação de cuidados domiciliários pelos profissionais dos centros de saúde. 2. Objectivos 2.1. Objectivo geral Quantificar a produção de resíduos hospitalares na prestação de cuidados domiciliários no concelho da Amadora durante o ano de 2003. 2.2. Objectivos específicos • Determinar o peso médio de resíduos hospitalares dos Grupos III e IV produzidos, por acto administrado, na prestação de cuidados domiciliários no concelho da Amadora. • Estabelecer as associações estatísticas entre os valores destas produções e outras variáveis de interesse, designadamente: — Características do doente — variáveis: sexo, idade e doença; — Características do tratamento — variáveis: duração e periodicidade do tratamento; — Características sazonais — variável: época do ano. • Identificar o destino final dos resíduos hospitalares dos Grupos III e IV produzidos nos actos de prestação de cuidados domiciliários no concelho da Amadora. • Estimar o peso anual dos resíduos hospitalares dos Grupos III e IV produzidos na prestação de cuidados domiciliários no concelho da Amadora durante o ano de 2003. 3. Metodologia Para a determinação e caracterização dos quantitativos dos Grupos III e IV produzidos ao nível da pres-
53 VOL. 23, N.o 2 — JULHO/DEZEMBRO 2005 Saneamento do ambiente tação de cuidados domiciliários em 2003 procedeu- -se a um estudo observacional, transversal, com componente analítica, da produção de resíduos hospitalares ao nível da prestação de cuidados domiciliários, procedendo-se à análise da associação das variáveis em estudo (França. ADEME, 2004). Obteve-se uma amostra casual representativa da população. O universo do estudo era constituído por todos os doentes submetidos a prestação de cuidados domiciliários durante o ano de 2003 no concelho da Amadora. Não se dispunha da possibilidade de ter, no início do ano em que decorreu o estudo, um arrolamento completo de todos os membros da população em análise, dado que os doentes em prestação de cuidados domiciliários vão entrando ao longo do ano na lista de prestação desses mesmos cuidados, consoante vão sofrendo as diversas patologias. Sabe-se quantos doentes estão em tratamento no início do período do estudo, quantos vão entrando no plano de tratamentos ao longo do tempo em estudo, o tempo de permanência de cada um deles, quantos saem por terem completado o tratamento e quantos estão em tratamento no final do período de tempo que está a ser analisado. Sabe-se também quantas vezes um doente é submetido à prestação de cuidados no seu domicílio. Este dado é variável, dado que uma proporção de doentes está em tratamento diário, com excepção do domingo, outra proporção fará tratamento três vezes por semana, outra proporção duas vezes por semana e uma outra ainda uma vez por semana e eventualmente uma só prestação de cuidados domiciliários. Consideraram-se as quatro estações do ano e seleccionou-se aleatoriamente uma semana por cada uma delas. No concelho da Amadora, sete enfermeiros saem diariamente para tratamentos domiciliários em viaturas dos serviços de saúde, na sua própria viatura, de táxi ou mesmo a pé. Seleccionou-se aleatoriamente o enfermeiro a acompanhar nas quatro semanas obtidas. Optou-se por um intervalo de confiança amplo, de 95%, assegurando com melhor probabilidade o cálculo da estimativa da média dos quantitativos de resíduos hospitalares produzidos na prestação de cuidados domiciliários. Um intervalo de confiança de 95% possibilitaria a estimativa de uma média populacional com a certeza de que havia 95 possibilidades em 100 de se estar correcto. Após a estimativa das médias produzidas, fez-se a comparação entre as quatro amostras colhidas, uma em cada estação do ano, procedendo-se a uma análise de variância. Em cada indivíduo submetido a um acto de prestação de cuidados domiciliários foram investigadas as seguintes variáveis: sexo, idade, doença, duração do tratamento, periodicidade semanal do tratamento, época do ano, peso dos resíduos do Grupo III e peso dos resíduos do Grupo IV. Consideraram-se variáveis dependentes os pesos dos resíduos hospitalares produzidos dos Grupos III e IV. Os quantitativos dos resíduos hospitalares dos Grupos III e IV produzidos por cada tratamento entraram no estudo em função do número de tratamentos a que cada doente foi submetido ao longo da semana, isto é, diariamente, com excepção do domingo, três vezes por semana ou duas vezes por semana. O instrumento de observação foi a observação directa experimental. Todos os resíduos produzidos foram pesados, por grupos, com o recurso a uma balança electrónica de precisão. A amostra foi constituída por 88 doentes, num total de 317 observações, dos 1012 doentes em tratamento domiciliário durante um ano, compreendido entre 22 de Dezembro de 2002 e 21 de Dezembro de 2003, durante as quatro semanas seleccionadas aleatoriamente, de entre as 52 semanas do ano em estudo (França. ADEME, 2004). Os dados foram introduzidos em computador e tratados com o auxílio do programa SPSS (Statistical Package for the Social Sciences), versão 11.5 para Windows, tendo sido aplicadas as análises estatísticas consentâneas com os objectivos em estudo. 4. Resultados Durante esse ano, que decorreu entre 22 de Dezembro de 2002 e 21 de Dezembro de 2003, estiveram em tratamento domiciliário no concelho da Amadora 1012 doentes. Foram, portanto, observados 8,7% do total de doentes em tratamento domiciliário. Observou-se que todos os resíduos, com excepção dos corto-perfurantes, incluídos no Grupo IV da classificação portuguesa ficaram em casa do doente, em sacos de plástico por ele fornecidos, os quais eram posteriormente depositados pelos próprios doentes nos contentores camarários. A análise da amostra revela que as variáveis inerentes aos próprios doentes, como o sexo, a idade e a doença em questão, apresentaram os seguintes valores: • A variável sexo revelou que 31 (35,2%) doentes eram do sexo masculino e 57 (64,8%) do sexo feminino; • A variável idade revelou uma média de 70 anos, com um desvio-padrão de 10,5, um valor máximo de 92 e mínimo de 34;
54 REVISTA PORTUGUESA DE SAÚDE PÚBLICA Saneamento do ambiente • A variável doença revelou que os 88 doentes observados tinham as patologias constantes da Figura 1; • A variável periodicidade das observações (número de tratamentos por semana) tomou os seguintes valores: 6 tratamentos/semana: 22 doentes; 3 tratamentos/semana: 53 doentes; 2 tratamentos/semana: 13 doentes; • No que respeita à variável duração do tratamento (número de semanas em tratamento), a amostra apresentou uma média de 13,7 semanas, com um desvio-padrão de 14,9, um valor máximo de 52 semanas e um valor mínimo de 1 semana; • No que concerne à variável época do ano, as quatro semanas em observação produziram os valores apresentados na Figura 2. Efectuaram-se as associações estatísticas das variáveis em análise com a variável dependente peso dos resíduos hospitalares produzidos do Grupo III. Na análise da associação estatística da variável sexo com a variável peso do Grupo III verificou-se não existir relação entre as duas variáveis (teste de Figura 2 Cuidados domiciliários no concelho da Amadora — número de doentes por época do ano 23 24 21 20 Inverno Primavera Verão Outono Figura 1 Cuidados domiciliários no concelho da Amadora — patologias e número de casos na amostra Pós-operatório Acidente Infecção Patologia osteo-articular Escara de pressão Pé diabético Úlcera varicosa 0 10203040
55 VOL. 23, N.o 2 — JULHO/DEZEMBRO 2005 Saneamento do ambiente Mann-Whitney; p= 0,75). Apresentam-se no Quadro I as médias, valores mínimos e máximos, das produções de resíduos hospitalares por tratamento na sua distribuição por sexos. Na análise da associação estatística da variável idade com a variável peso do Grupo III procedeu-se do seguinte modo: determinou-se o coeficiente de correlação de Pearson, tendo-se obtido um valor de 0,33 (p< 0,01); determinou-se também o coeficiente de correlação de Spearman entre as duas variáveis e obteve-se uma correlação de 0,28 (p< 0,01). Para ambas existe uma correlação significante, o que quer dizer que, nesta amostra, quanto mais idosos eram os doentes, mais resíduos do Grupo III foram produzidos. Na análise da associação estatística da variável doença com a variável peso do Grupo III verificou- -se a existência de diferenças estatisticamente significativas (p< 0,001) entre os Grupos de doença face à variável peso (teste de Kruskal-Wallis). Conclui-se, assim, que três doenças estudadas na amostra — úlcera varicosa, pé diabético e escara de pressão — produzem, por ordem decrescente, mais resíduos hospitalares do Grupo III do que as outras doenças da amostra. Apresentam-se no Quadro II as médias, desvios- -padrão, valores mínimos e máximos, das produções Quadro I Cuidados domiciliários no concelho da Amadora. Médias de produção de resíduos hospitalares do Grupo III por acto prestado e por sexo Sexo Média Valor mínimo Valor máximo Unidades Masculino 206,2 31,7 402,5 Feminino 216,8 28,4 507,7 Quadro II Cuidados domiciliários no concelho da Amadora — produção média de resíduos hospitalares do Grupo III (em gramas) por tratamento em cada categoria de doença Média DesvioValor Valor (por tratamento) -padrão mínimo máximo Úlcera varicosa 40 45,5 258,1 118,8 52,0 507,7 Pé diabético 22 25 247,9 106,8 101,1 487,3 Escara de pressão 8 9,1 279,3 90,5 98,6 379,4 Patologia osteo-articular 10 11,4 40,4 8,9 28,4 57,3 Infecção 4 4,5 35,1 7,9 28,4 46,5 Acidente 2 2,3 61,1 1,7 59,9 62,3 Pós-operatório 2 2,3 35,0 4,7 31,7 38,3 n= número de doentes. Doença nPercentagem Gramas
56 REVISTA PORTUGUESA DE SAÚDE PÚBLICA Saneamento do ambiente de resíduos hospitalares por doença. Esta produção média por doença pode ser visualizada na Figura 3. Na análise da associação estatística da variável número de tratamentos por semana com a variável peso do Grupo III verificou-se existirem diferenças estatisticamente significativas (p= 0,033) entre as duas variáveis (teste de Kruskal-Wallis). Conclui-se que os doentes observados um maior número de vezes produzem, por tratamento (acto prestado), um menor peso médio de resíduos hospitalares do Grupo III, isto é, os que são submetidos a três tratamentos por semana produzem um maior valor médio por tratamento de resíduos do Grupo III do que os que são submetidos a seis tratamentos por semana, associado ao facto de que os indivíduos com patologias que produzem mais resíduos hospitalares do Grupo III foram submetidos a um menor número de tratamentos por semana, isto é, três vezes. Apresentam-se no Quadro III as médias, desvios- -padrão, valores mínimos e máximos, das produções de resíduos hospitalares por periodicidade de tratamento por semana. Esta produção média por tratamento pode ser visualizada na Figura 4. Na análise da associação estatística da variável duração do tratamento com a variável peso do Grupo III utilizou-se a correlação de Pearson (r= 0,515) e a Quadro III Cuidados domiciliários no concelho da Amadora — produção média de resíduos hospitalares do Grupo III (em gramas), por tratamento, em cada categoria de periodicidade de tratamentos Número de tratamentos Desvio Valor Valor por semana padrão mínimo máximo 2 13 14,8 136,2 54,0 38,3 201,9 3 53 60,2 237,8 113,9 28,4 487,3 6 22 25,0 198,8 182,9 28,4 507,7 n= número de doentes. nPercentagem Média Figura 3 Produção média de resíduos hospitalares do Grupo III (em gramas), por tratamento (acto prestado), em cada categoria de doença Pós-operatório Acidente Infecção Patologia oste-oarticular Escara de pressão Pé diabético Úlcera varicosa 0 50 100 150 200 250 300 gramas
57 VOL. 23, N.o 2 — JULHO/DEZEMBRO 2005 Saneamento do ambiente correlação de Spearman (rs= 0,563). Em ambos os casos, as correlações foram significantes (p< 0,01). Tal significa que, quanto maior é a duração do tratamento, maior é a quantidade de resíduos do Grupo III produzida por tratamento. Na análise da associação estatística da variável época do ano com a variável peso do Grupo III utilizou-se o teste de Kruskal-Wallis (p= 0,925), concluindo-se não existirem na amostra diferenças estatisticamente significativas, pelo que pode afirmar-se que não existem diferenças na produção de resíduos hospitalares do Grupo III por tratamento, por doença e por estação do ano. Pretendia-se, como um dos objectivos deste trabalho de investigação, determinar o peso médio de resíduos hospitalares do Grupo III produzidos por tratamento, fazendo a extrapolação para as quantidades produzidas por ano no concelho da Amadora. No estudo efectuado, a média obtida do peso do Grupo III produzido por tratamento (acto prestado) em cuidados domiciliários foi de 213,1 gramas, com um erro-padrão da média de 14,1. Como se pretendia estimar o peso total de resíduos do Grupo III produzidos na prestação domiciliária de cuidados no concelho da Amadora durante o ano de 2003, admitiu-se que a população de indivíduos submetidos a tratamento no domicílio durante esse ano se comportava como a amostra retirada aleatoriamente. Assim, os cálculos efectuados para a população em estudo tiveram em linha de conta o peso médio de resíduos hospitalares do Grupo III produzidos por doente, por tratamento e distribuição semanal na amostra, tendo-se adoptado um nível de confiança de 95%. A extrapolação foi efectuada para as 52 semanas do ano. Concluiu-se que o peso total de resíduos hospitalares do Grupo III produzidos na prestação de cuidados domiciliários em 2003 pelos 1012 doentes, com um nível de confiança de 95%, cai no intervalo compreendido entre um limite inferior de 8,8 t e um limite superior de 11,4 t. Do mesmo modo, foram efectuadas as associações estatísticas das variáveis em análise com a variável dependente peso dos resíduos hospitalares produzidos do Grupo IV. O peso de resíduos hospitalares do Grupo IV produzidos por tratamento foi, nos 18 casos em que existiu, de 3,8 g. Este peso corresponde às agulhas utilizadas em terapêutica injectável. No que respeita à análise da associação estatística da variável sexo com a variável peso de resíduos hospitalares do Grupo IV, verificou-se não existirem diferenças entre ambos os sexos (teste do quiquadrado; p= 0,14). Na análise da associação estatística da variável idade com a variável peso de resíduos hospitalares do Grupo IV verificou-se que os doentes mais novos são os que produzem mais peso de resíduos do Grupo IV (teste de Mann-Whitney; p= 0,064). Pode concluir- -se que, quanto menor é a idade dos doentes submeFigura 4 Cuidados domiciliários no concelho da Amadora — produção média de resíduos hospitalares do Grupo III, por tratamento, em cada categoria de periodicidade de tratamentos 250 200 150 100 50 0Uma vez por semana Duas vezes por semana Três vezes por semana Peso (g)