Outubro 2018
Tese de Doutoramento em História
Especialidade em Arqueologia
Batalha de Aljubarrota: Novos elementos int erpretativos
Nuno Filipe Poínhas Pires
Este trabalho foi redigido obed ece ndo às novas regras do Acordo Ortográfico da
Língua Portuguesa
Dedicado à memória de F. E. Rodrigues Ferreira (1943-2014 )
Ilustre arqueólogo, mentor, colega e amigo.
Obrigado Fernando por tudo quanto me ensinaste, por mais de uma década de
trabalhos em equipa e aventuras arqueológicas, mas principalmente por uma profunda
amizade!
Agradecimentos
Os agradecimentos, de uma ma neira gera l, constituem já uma tradição e
presença obrigatória em pro j etos e d isser tações académica s. Porém, mais do que uma
formalidade, d evemos considerar que um trabalho académico, independ entemente da
sua natureza, dim ensão ou objetivo, dificilmente est ar á circunscrito ao conhecimento
e dedicação indivi dual do aluno. A intervenção diret a dos orientadores, no caso das
dissertações, e todo o suporte conferido por professores e colegas, são elementos
determinantes para o sucesso de qualquer empreendimento unive rsitário. Mas es te
apoio, intelectual e logís tico, não se limita a os circuitos académicos. Todo um conjunto
de instituições, entidades (púb licas e privadas ) e individualid a des, contribuem (e
muito), para a concretizaç ão da i nvestigação académica em geral.
Algumas áreas científicas, como o caso da arq ueologia, necessitam
obrigatoriamente de uma intervenção multidisc iplinar, portanto, encontrar - se - á
permanentemente em estreita relação com outras áreas do saber e, por con seguinte,
com outros investigadores. Po r este motivo, e respondendo às necessidades de
projetos arqueológicos mais densos, o envolvimento de equipas mult idisciplinares
representa um recurso inestimável em todas as et apas do t rabalho. O re sultado fin al
apenas tem a beneficiar.
Considerando a f r an ca abrangência que uma dissertação p o de alcançar, no que
respeita a recursos (logísticos, mas principalmente humanos), torna -se claro que os
agradecimentos habitualmente co ncedidos neste espaço são pro fundamente sinceros.
Pretendem estas observações intro dutórias reforçar que o trabalho que em seguida
iremos apresentar é o resultado de um esforço colet ivo pelo qual est ou inteiramente
grato e consciente que de outra for ma não teria sido p ossível a sua concretização. O
meu agradecimento é, por isso mesmo, alargado.
Individualmente, reconheço todo o p r ocesso de aprendizagem que est a
interligação m ultidisciplinar me p roporcionou, ao que não faltou u m regozijo
intelectual part ilha do, um permanente ambiente motivacional, mesm o nos mo mentos
mais t ensos, e a persever ança quanto aos objetivos e convicções da nossa
investigação.
Desta forma, começo por agradecer aos elementos que, a par do aluno, se
envolveram mais intimamente na investigação: os respetivos orientadores. O processo
de orientação exige u m a profunda dedicação em todas as etapas do processo, o que
representa um inestimável suporte e diretriz no seu modo op eracional e executório .
Esta investigação beneficiou da participação de tr ê s orientadores.
Recordo o ano de 2010 quando, logo após ter c oncluído o Mestrado, o Doutor
F. E. Rodrigues Ferreira, colega n as demandas arqueológicas e amigo í ntimo, deu iníci o
a uma verdadeira campanha de incentivo para qu e d esse continuidade à at ividade
académica. Durante o s meses seguint es esse tema era assunto recorrente.
Debatíamos, com igual en tusiasmo, acerca da temática, das meto dologias, das
problemáticas e de todo u m conjunto de processos que envolvem um projeto desta
natureza. D es de cedo que Aljubarrota captou a nossa atenção. Apesar d o trabalho ter
principiado logo no ano seguinte, de 20 11, um início académico atribulado em outr a
instituição de ensino levou à sua interrupção e a o cancelamento da matrícula.
Apenas em 2013 com a inscrição na FCSH d a Universidade N ova de Lisboa , é
que se retomou a atividade. A nossa prioridade seria j ustamente dotar o p r ojeto de
uma orientação adequada à áre a científica e ao t ema definido. Por este motivo,
dirigimos o convite à Professora Douto ra Rosa Varela Gomes, com quem já tínhamos
partilhado a nteriores p r ojetos de investigação e a quem reco nhecemos uma vast a
experiência arqueo lógic a n os mais variados contextos, incl uindo a orientação de
trabalhos de sondagem arq ueológica em campo de batalha. Sem h esi tar, con cor dou
em colaborar e orientar os trabalhos. Este convite para orientação foi ainda extensível
ao Professor Doutor João Gou veia Monteiro, d a Un iversi dade de Coimbra . A sua
ligação a Aljubarrota era evidente e não p o dia ser ignorada. Além de uma vasta
produção literária sobre o tema, contava ainda com experiência na coordenação d e
trabalhos científicos real izados no camp o de batalha. A primeira vez que privámos foi
no f inal de uma palestra, onde justamente t i nha acabado de apresentar as su a s
reflexões sobre Aljubarrota a uma atenta plateia. O encontro seguinte decorreu no
casal da Amieira – Batalha, onde no sopé da en costa n orte d o p lanalto d e São Jorge ,
junto da ponte do Boita ca, acedeu em participar e orientar est a d issertação. Com as
ironias do destino sempre à espreita, firmámos est e acordo justamente no horiz o nte
da Primeira Posição Portuguesa , sobre a qual se debruça a nossa investig ação.
Ao lon g o dos anos seguintes as etapas estabelecidas foram acompanhadas em
estreita pro ximid ade p el os orientadores, mantendo sempre um papel participativo, e
determinante, nas decisões e re formulaçõ es requeridas. O meu agradecimento pel o
esforço e incansável dedicação por parte destes três orientadores. Infelizmente, no
final de 2014, escassas semanas após o tema ter sido apresentado e aprovado pela
comissão científica, o Dout o r F. E. Ro drigues Ferreira deixou -nos subitamente. A ele
dedico este trabalho, do qual foi mentor e importante colaborador.
A participação institucional foi um complemento req uerido logo desde o início.
Sublinho que todas as instituições, p úblicas e privadas, a quem re cor remos para
solicitar suporte, aceder am, d e alguma fo rma, aos nossos pedidos com uma prontidã o
assinalável. Por esse motivo, gostaria d e agradecer à Câmara Municipal da Batalha ,
representada p elo seu presidente, o Dr. Paulo Jorge Frazão Batista dos Santos , no que
respeita ao ap oio financeiro reservado às sondagens geofísicas e pelo apoio logístico
prestado às sondagens arqueológicas. Também o envolvimento da Fund ação Batalh a
de Aljubarrota f oi determinante, tendo prestado apoio logístico no decorrer de todos
os trabalhos de campo e por ter disponibilizado o arquivo do Centro Inte rpretativo d a
Batalha de Aljubarrota (CIB A) para con sulta e investigação. Agradeço ao arq . to Jo ã o
Mareco, na qualidade de d ire tor do CIBA, a simpatia e disponibilidade com que
acolheu este projeto e pela recetividade demonstrada aos elementos da nossa equipa.
Para colmatar a inexistência de t écnicos e equipamento necessário para uma
sondagem geofísica, dentro da instituição de ensino, foi necessário recorrer ao sector
privado. Não nos foi possível est abelecer p arceri a com as u niversidades que lecionam
o curso de en ge nharia física, devido, p r incipalmente, ao equipamento disponível se
encontrar ob sol eto. Assim, apresentámos a nossa propost a à emp r esa Morph Lda,
representada p elo seu sócio -gerente, o arqu e ólogo Dr. Migu el Almeida, e pelo en g.º
Nuno Barraca, q ue demonstraram uma respeitosa compreensão relat iva às limit ações
orçamentais do proje to. Por s ugestão dos próprios, acederam em executar as
sondagens sem quaisquer f i ns lucrativos. As despesas de manutenção (na logística e
equipamento) foram suportadas, como referimos, p ela Câmara Municipal da Batalha .
O meu agradecimento à Morph Lda pelo seu apoio e também pela f lexibili dade e rigor
demonstrados na calendarização e execu ção dos trabalhos de campo.
Quando delimitámos a área de intervenção, para as sondagens, constatámos
que o terreno assinalado era privado. Desde as nossas primeiras abord agens que os
proprietários, a Sr.ª Dona Isabel Marques e o Sr. João Carlos Ligeiro, demonst raram
uma recetividade dignificável, tendo autorizado as sondagens previstas sem
demonstrar objeções à sua execução, porém, mantendo algumas reservas
relativamente à integrid ade do t erreno e a rvor edo. Recordo ainda a c ompanhia e
partilha de histórias p or parte da Dona Isabel no decurso das sondagens e a
participação do Sr. João Carlos que não se inibira de, ao nosso lado, executar trabalhos
de limpeza no terreno. A ambos um especial agradecimento.
Ainda durante o p rocesso de autorização dos trabalhos, tivemos a
oportunidade de nos reunir com a Dr.ª Maria Antónia Amaral da Direç ão Geral do
Património Cultural (DGPC), responsável pelas atividades arqueológic as no Campo
Militar de São Jorge. Agradecemos o interesse demonstrado por este projeto, assim
como a p ar tilha de preciosas imp ressões e informação releva nte aos trabalhos de
campo. Não podia também deixar d e agradecer ao coronel Luís Sodré de Albuquerque,
diretor do Museu M ili tar de Lisboa, e ao coronel de engenharia José Paulo Berger, o
acompanhamento na visita ao museu e o acesso concedido às reservas da instituição.
Relativamente às sondagens, os t ra balhos contaram com a impresc indível
participação de cole ga s e am igos que colabora ra m a título volunt ário e c uja
concretização a penas foi p ossível contando com o seu envolvimento. A todos agradeç o
o esforço nas muitas horas que dedicaram aos trabalhos no exterior. Agradeço ao
eng.º Nuno Barraca, ao Dr. Diogo Rodrigues, ao Dr. Pedro Jorge Ribeiro e aos
arqueólogos Dr. Rui Ribolhos e D r. António Branco. Agradeço também ao meu pai,
Francisco Pires, que tendo au xiliado nas sondagens arqueológicas não se inibiu,
inclusivamente, em partic ipar nos trabalhos mais pesados.
Na produção d os suportes d igi tais agradeço à minha irmã, a arq. ta Márcia Pires,
a construção dos modelos tridimensionais geo gr áficos, que em muito enriq ueceram o
suporte visu al e a leitura d o terreno. Agradeço ainda a todos os coleg as, amigos e
familiares que contri buíram, de algu m modo, para alcançar os objetivo s do pro jeto.
Um ú l timo e bem sentido agradecimento à minha esposa e filhos pela compreensão e
motivação demonstradas ao lon go d as muitas h oras em que est ive ausente, em
exclusiva dedicação a este trabalho. A eles um carinho muito especial!
BATALHA DE ALJUBARROTA: NOVOS ELEMENTOS INTERPRETATIVOS
NUNO FILIPE POÍNHAS PIRES
RESUMO
PALAVRAS-CHAVE: Batalha; Aljubarrota; Med i eval; Arqueologia
Ao cair da t arde de 14 de agosto de 1385, firmou-se no planalto d e S ão Jorge a Batalha
de Aljubarrota . A hoste anglo -portuguesa defrontara u ma poderosa coligação franco -
castelhana p ela prete nsão à coroa de Portugal, tendo alcançado uma derradeira
vitória. Durante os séculos que se seguiram, os ecos de Aljubarrota mantiveram o
episódio na memória dos portugueses . O est ud o desta batalha f icara circunscrito às
reflexões e reconstituições teóricas assentes em f o ntes documentais. No entanto, a
partir de meados d o século XX, com os primeiros en saios arqueológicos no campo de
batalha, a investigação sobre Aljubarrota adqu i re novo s contornos, mais profundos e
incisivos. O recorrent e re curso a novos métodos e equipamento científico nos
trabalhos de campo tem motivado novas t eoriza ções e reformulações, ma is distantes
das anteriorme s, tendo em vista uma maior aproximação à realidade dos
acontecimentos. N o seguimento deste conjunto de n ovos trabalhos de ordem prática,
foi proposto para dissertação de doutoramento em arqueologia , a continuidade das
sondagens no terreno. Tendo a h oste portuguesa sido disposta em dois locais distintos
no d ia batalha, um primeiro local apenas de avis tamento e um segundo de
confrontação, optámos p or limi tar a análise a u ma d estas posições. O s anteriores
trabalhos arqueológicos centraram-se na segunda posição, a qu al constitui o campo d e
batalha, o que n os influenciou a investigar, com semelhante metod ol ogia e igual rigor,
a primeira posição portuguesa em S ão Jorge. O presente pro jeto tenta, d es t e modo,
identificar n ovos eleme ntos in terpretativos que permitam alargar a compreensão
tática que envolvera duas posições num mes mo terreno, cada uma com o se u
propósito mas partilhando do mesmo objetivo: ob ter u ma vitória retumbante através
de uma batalha campal.
ABSTRACT
KEYWORDS: Battle; Aljubarrota; Medieval; Archaeology
On the afternoon of August 14, 1385, occurred the b a ttle of Aljubarrota on the p lateau
of S. Jorge. An Anglo-Portuguese host had faced a powerful Franco -Castilian coalition
for it s claim to the Portuguese crown, having achieved , in the end, a victory. During the
following centuries the echoe s of Aljubarrota main tain the event live inside of the
Portuguese´s mem ory. The study of this battle was for a long t ime confined to
theoretical reconstitutions based only on documentary sources. However, f rom the
mid-twentieth ce ntury, w hen the first archeologic al intervention on t he b attlefield
takes place, researchers acquired new elements for study (pits an d mo a ts). Since then,
the re s ou rce to new methods and scientific equipment in the field has mo t ivat ed n ew
historical formalizations, with results closer t o the reality of the b attle. Following the
same methodology applied so far in the battle field, it was proposed for a PhD
dissertation in archeology, th e continuity of t he survey and archeological investigation
in Aljubarrota. Considered that Portuguese host was arranged in two d iffere nt
locations on t he battle day, a first place where both enemies just stand in vision and a
second one wher e the confrontation take place, we ch ose to examine one of t hes e
positions. Th e previous archaeological work focused on ly on the second position,
which belong the b a ttlefield. Our work pretends to extend the archaeologic al work to
the f irst b a ttle position. This project attempts to achie ved new interpretative elements
that allow us to understand a tact ical conception that involved two positions on the
same ter rai n, each on e plan ed for a purpose but both sharing the same obje ctive : to
obtain a victory in a battle.
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deve continuar a ser dedicada à Segunda Posição, através do estudo re n ovado do
campo onde efet ivame nte se feriu a batalha, sentimos haver espaço e necessidade
para reavaliar a questão da P rimeira Posição anglo -portuguesa no planalto de S ão
Jorge; nu ma palavra, consid erámos que a util ização de recursos e metodologias
semelhantes aos ap lica dos n o t erreno onde se registou a chacina do final da tarde d e
dia 14 de ag ost o d e 1385 poderiam permitir alcançar r esultados interessantes e
capazes de nos fazer entender melhor o significado tát ico real da pos ição ocupada
pelas tropas de Nun o Álvares logo pela manhã d a segunda-feira mais famosa da
história portuguesa.
Partimos de um pressuposto bast a nte simples: se no dia d o combate crucial a
hoste por tugu esa estac ionou deliberad amente numa primeira frente, esperando
conseguir provocar aí o comb a te, então haveria u ma probabilidade de terem
fortificado o local (à semelhança do que foi realizado no campo de São Jorge). Se, p or
outro lado, a Primeira Posição apenas foi c onsiderada para l u dibriar o ad versá rio,
prevendo antecipadamente que este de clinaria a peleja neste local, então dificilmente
a hoste portuguesa d e dicaria tempo e recursos à sua fortificação. Assumimos que a
ponderação tát ica anglo-portuguesa em Aljubarr ota teria conjugado uma art iculação
intencional entre as duas posições. Est e a speto resultaria numa Primeira Posição
desprovida de defesas acessórias e, pelo contrário, numa Segunda Posição
previamente estruturada para o confr onto, como aliás a arqueologia vem sugerindo.
Decidimos, perante esta equação, investigar no terren o u ma tal probabili dade.
Para o efeito, optámo s por uma metodologi a com eficácia comprovada no próprio
campo de batalha: o recurso a u m a sondagem geofísica seguida de uma son dagem
arqueológica, com o objetivo d e d etermi nar a existên cia de testemunhos, ou de
estruturas defen sivas, neste local. Con tudo, p ara este efeito, era necessário
determinar, à partida, o exato local da Primeira Posição Portuguesa, desconhecido até
ao momento.
O trabalho que em seguida iremos apresentar es tá seccionado em sete
capítulos. O primeiro é dedicado ao enquadramento his tórico da batalha e aos
preceitos militares da sua é p oca, incl uindo o r espetivo armamento. N um segundo
capítulo, irem os apres entar o estado d a arte ( importante para expormos todas as
bases teóricas de que nos servimos) e indicar os trabalhos d e campo realizados até ao
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momento, os quais constituíram uma referência importante para nossa investigação.
No terceiro capítulo ser ão d escritos, sucintamente, os principais confrontos armados
ocorridos em Portugal e que a ntecederam d e perto a batalha de Aljub arrota, assim
como as várias etapas deste últ i mo acontecime n to. Est e cap í t ulo termi nará com u m a
descrição do modelo-p a drão de combate do Condestável português.
A part ir do q uarto capítulo apresentaremos os resultados mais especia lizados,
teóricos e práticos, decorrentes da presente investigação. No ca p ítulo quatro,
analisaremos mais a fun do t oda a problemática associada à Primeira Posição e
relacionada com os objetivos principais do nosso trabalho, para depois avançarmos
com uma proposta fundamentada e inovadora da sua localização. Os capítulos cinco e
seis serão dedicados aos t ra balhos de campo (sondagem geofísica e sondagem
arqueológica, re s p etivamente) e neles iremos descrever as metodologias aplicadas e
os resultados obtidos. P or últ i mo, o capítulo sete será inteiramente dedicado à n ossa
proposta teórica de reconstituição tática da Batalh a d e Aljubarrota, articulando a
reflexão teórica com os resultados obtidos nos trabalhos de campo.
Acrescentamos que, do p onto d e vista arqueo lógico, esta proposta de t rabalho
revela-se algo in co mum, pois procura, em boa verd ade, afirmar a ausência de
dispositivos de entrincheiramento defensivo na prime ira frente, ou seja, at estar a sua
inexistência no horizonte da Primeira Posição. A const a t ação através da ausência d e
evidências encontra-se intimamen te associada à fun ção tática que atribuímos ao local,
assim como a uma reconstituição teó rica ponderada. Pretendemos, com os re s u ltados
alcançados, avançar com novos elementos interpretativos, por mai s limitados que
estes possam ser, capazes de contribuir, ainda qu e modestamente, para um melhor
conhecimento da Batalha d e Aljubarrota. Antes mesm o de principiar a presente
investigação tínhamos, necessariamente, de re u nir uma equip a de trabalho e u m a
orientação pluridisciplinar, não apenas pela versatilidade dos métodos a utilizar, mas
também pela alargada e diversificada part il h a de conh ecim en tos, com rel evância para
os objetivos propostos. Esse requisito p révio foi plenamente alcançado, com b astante
satisfação pessoal, e os resultados obtidos devem-se, em grande medida, ao salutar e
firme com promisso qu e todos os intervenientes demonstraram relativa men te a este
projeto, bem como à s ua capacidade para trabalhar em conjunto. A todos devo o meu
mais sincero respeito e agradecimento.
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Capítulo I – Enquadramento histórico
1.1 – A Crise de 1383-1385
Uma corret a abordagem d as origens da Crise de 1383 -1385 obriga a r ecordar
primeiro, ainda que de for ma breve, a evolução da situação política e social
portuguesa no reinado de D . Fernando. Na verdade, foi aqui que ger minaram as
contradições que, após a morte deste monarca, conduziram à explosão de ódios e
rivalidades que acabaram por levar a uma du rís sima guerra com D. Juan I d e Castela ,
centrada sobretudo nos an os d e 1383 -1385, mas que se prolongou em sequelas
sucessivas, até cerca de 1400.
1.1.1 – O fim da primeira dinastia
O rei D. Fernando (n. 1345) chegou ao poder ainda jovem (13 67 ); dele se diz
que er a um h omem de boa aparência, e Fernão Lopes , no Prólogo da Crónica de Dom
Fernando , afirma mesmo que se distinguia dos outros a dultos pelo seu porte e boa
figura. Órf ão de mãe muito cedo (Constança Manuel faleceu pouco tempo depois do
seu nascimento), também não deve ter u sufruíd o de grandes a tenções da parte do se u
duro pai, D. Pedro I O Justiceiro , que provavelmente seguiria com maior des velo a
infância dos filhos que tivera de In ês d e Castro . Passad a a sua meninic e, Fernando,
ficou sob a orientação de dois aios, um deles um experiente fidalgo de Entre Douro -e-
Minho chamado Aires Gomes d a Silva, que sabemos ter chegado mais tarde a ser
alferes-mor do re i, seu embaixador e seu con sel heiro próximo (A. M ARTI N S, 2009, pp.
21 -22).
Para o estudo do rein a do de D . Fernando dispomos de uma crónica de Fernão
Lopes b as t ante minucios a e, por isso, insubstituível. São igualmente conhecidos alguns
Livros de Chancelaria ( ainda n ão publicados), assim como os capítulos (gerais e
especiais) de algu mas das re uniões de C ortes promovidas por este re i,
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designadamente em Lis boa (1371), no Po r to (1372), em Leiria (1372 e 1376), em
Torres Novas (1380) e em Santarém (1383)
1
.
Ainda assim, a interpretação do reinado de D. Fernando coloca muit os
problemas aos historiadores, sobretudo p orqu e a n a rrativa de Fernão Lopes está
inquinada pelo propósito de desvalorizar a pessoa e a obra d’ O Formoso , com o fito d e
fazer sobressair a figura e a governação d o seu sucessor e meio-irmão – o Mestre de
Avis, o grande vencedor da batalha de Aljubarrota . Todavia, apesar de al egadamente
manipulado por uma esposa sedutora e pérfida, foi no t em po d e D. Fernando que
Portugal – numa época de recidivas da p este – reorien tou a s ua política exte rna,
promoveu reformas imp ortantes ao n ível da agricultura, do comércio e do ensino , do
repovoamento do interior do r ein o , reorganizo u o exércit o e a marinha, e, ainda,
reconstruiu muralhas que se revelariam essenciais, ulteriorme nte, para salvagu ardar
as possibilidades da causa do Mestre de Avis.
É preciso perceber t a mbém o e nquadramento internacional em que este
reinado se d es en volveu . Portugal corria o risco de ser absorvido pelo seu viz i n ho
castelhano, tanto mais que a dinastia Trastâmara (que se imporia a p a rtir do
assassinato de P edro I de Castela em Montiel, em 1369) tinha como estratégia i r
colocando elementos da sua Casa em cada uma das coroas p enins ulares; Portugal
serviu, aliás, de local de exílio a adeptos d o conde de Trastâmara e, desde 1369, a
muitos p ar tidários de D. Pedro I O Cruel . Além disso, a situação ibérica tornava -se
indissociável da Guerra dos Cem Anos (1337 -1453), travada entre a França e a
Inglaterra, potências que arrastavam na sua órbit a outras nações europeias ,
implicando-as no conflito e exigindo delas solidariedades militares (no caso ib érico,
sobretudo apoio n aval). Po r fim, o cenário económico era muito desf av orável, com a
Europa ainda longe de sair da crise em q ue mer g u lhara no in ício de Trezentos e que se
agravara nas décadas s egu intes; a segunda metade do século XIV foi um tempo de
revoltas e conflitos sociais um pouco por toda a Europa!
Foi sob est e sign o que se iniciou a governação de D . Fernando. Logo a abrir, o
rei envio u uma em b aix ada ao papa de Avinhão , Urbano V, que ins t o u o monarca
português a casar e a salvagu ardar a posição diplomática portuguesa no cenário
1
As primeiras reuniõe s de Cor tes fernandinas devem ter tid o lugar em Coimbra , em 136 7 ou em 1369.
Talvez tenha h avido também Cortes em Évora (em 1374) e em Atougu ia (em 13 75).
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ibérico. No mesmo ano (1367), p erto de Santaré m, D. Fernando recebeu embaixadores
do rei de Castela (Enrique II) e do rei de Aragão (Pedro IV), que lhe traziam propostas
de amizade que o mona rca português acolheu favoravelmente (A. MARTINS, 20 0 9, p.
32 e pp. 40-41). Também sabemos que, desde cedo, D. Fernando acautelou o restauro
dos castelos e das mura lhas u rbanas do reino, assim como o resp etivo povoamento
(MONTEIRO, 1999, pp. 126 -132 e 225-233), concretizando o projeto do pai, que rogara
ao papa a canalização para o er á rio régio dos direitos eclesiásticos durante d ez anos,
de modo a, com essas verbas, poder reparar os muro s, as torres, os fosso s e as
cisternas danificados pelos terramotos. É possível que, como admite Armando Martins
(A. MARTINS, 20 09, pp . 31 -32), existisse já aqui alguma intenção do monarca d e
preparar o reino para uma guerra contra Castela .
A 23 de mar ço d e 1369 , como referimos, deu -se o assassin ato de Pedro I de
Castela em Montiel . Nessa altura, alguns fidalgos da Galiza exilados na Corte
portuguesa pediram ao re i português – descendente de San ch o IV de Castela, por via
materna – que encabeçasse a luta c ontra o us urpador (E n rique II de Trastâma ra),
garantindo a Fernando q ue, “se este decidisse inter vir n a política interna do reino
vizinho, multidões de descont entes acorreriam para o receber e acla mar. Também
havia, na corte castelhan a, exilados portugueses a pensar exactamente o mesm o, mas
ao contrário” (DUARTE, 2006, p. 9)…
Estas d emons t rações de descontentamento político entre reinos vizinhos que
Luís Duarte menciona, alimentaram as ambições de ambos os monarcas, uma ideia
que ressalta claramente do t exto de Fe r não Lopes : no que d iz respeito ao Formo so ,
“quando vio que sem seu rrequerimento o mundo lhe offerecia camin ho assi aazado
pera cobrar tam grande hon rr a, sem mais esguardando contrairos que avĩ ir podessem,
determinou em t oda maneira d e segu i r este f eito e levar adeante, veendo em sua
voontade tantas ajudas pera ello prestes que lhe pareceo ligeira cousa toda Castella
seer sua em pouco t em po” (CDF, cap. XXVI, p. 91). Já n o que toca a D . Enrique II, era
aliciado por uma via semelhante: “como el -rre i [D. Fernando ] nom estava b em aviindo
com os fidallgos e pob o os de sua terra por aazo do casamento d e don a Lion or ; e q ue
os t ii n ha tam mall prestes per a seu serviço e com tam desvairadas voontades que
entendia, se entrasse pello reino que ligeirament e o podia cobrar” (CDF, cap. LXVI, pp .
232 -233).
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O ambicioso monarca português, que herdara do pai uma grande quantidade
de m etal precioso e que d is p unha de bons rendimentos fiscais, decidiu ju ntar-se à
revolta co ntra Enrique II e tent ar a sua sorte (A. MARTINS, 2009, p. 20); talvez ele
pensasse que uma expansão portuguesa para norte e para leste, à custa de Castela ,
seria a melhor forma de salvaguardar a independ ência portuguesa face ao seu
poderoso vizinho. Para o efeito, cedo celebrou u ma alian ça com o rei mouro de
Granada e outra com o monarca de Aragão ; n este ú l timo caso, p rojetou-se o
casamento de Fe r nando com Leonor (filha de Pedro IV), devendo o pai da noiva
entregar 100 000 f l orins em dote, enquanto Fer n ando pagaria ao sogro o equivalente
ao sold o de 1500 lanças, por u m p eríodo de três an os. Portugal , Aragão e Granada
procuravam, assim, unir as suas forças para travar Castela.
D. Fernando marchou então para a Galiza e ocupou uma série de p r aças, entre
as qu ais Tuy e a Corun ha, onde podia contar com o apoio ativo de alguns grandes
senhores, como João Fernandes Andeiro (CDF, cap. XXX, p. 101-103). Depois, enviou
para o Gu a dalquivir, no verão de 1369, uma armada d e mais de três d eze nas d e galés,
chefiada pelo almirante Lançarote Pessanha e que tinha como missão bloquear
Sevilha; est a frota acabaria por ficar an cora da durante muito tempo em San Lucar de
Barrameda (CDF, cap. XLII, pp. 137-139).
Enrique II ripostou d e imediato: em agosto, contando com o apoio de um
contingente a u xiliar francês lide rado por Du Guesclin, socorreu a Galiza e, d e pois,
entrou em Portugal pela fronteira do Minho, pondo cerco a Braga (que foi incendiada)
e cercando depois Guimarães (em setembro d e 1369 ). Apanhado, talvez, de surpresa,
D. Fernando teve de deixar a Galiza; talvez o rei tivesse feito planos para ir em socorro
de Guimarães, mas o certo é que os rumores de um ataque granadino a Algeciras
acabaram por levar Enrique II a retirar-se da região minhota (CDF, cap. XXXV, p. 117).
Logo nos inícios de 1370, o monarca t ras tâmara cercou Ciudad Rodrigo ; a
operação não resultou, mas aind a conseguiu tomar Carmon a enquanto, meses mais
tarde, o almirante Bocc anegra lograva desfazer o bloqueio naval portug uês a Sevilha
(A. S. M ONTEIRO, 1989, pp. 29 -32); a tripulação lusitana, debilitada por mais de um
ano d e in a tividade e d ev astada p el a doença e pelo f ri o (CDF, cap. XLII, pp. 138 -139), f oi
obrigada a regressar a Lisboa .
10
D. Fernando sentiu necessidade de reforçar a aliança luso -aragonesa, t endo
sido p la n eado o casamento de Beatriz de Castro (filha de D . Pedro I e D. Inês) com D .
Juan, filho do rei cata lão; em ma rço d e 1370, o conde de B ar celos foi enviado a
Barcelona, levando na bagagem o metal precioso anteriormente prometido a D. Pedro
IV, para que este procedesse ao recrutamento de forças militares contra Castela .
Porém, no final do a no, o conselho régio fernandino surpreendeu o seu aliado com
uma mudança súbita de plan os: D. João Afonso Telo foi chamado a Lisboa e, em 31 de
março de 1371, em Alcoutim , acabou por ser assinado um tratado d e pa z luso-
castelhano, a parentemente facilitado pelos esforços de mediação d es envolvidos por
alguns emissários do papa Gregó rio XI e por Carlos VI de França; este convénio previa
que O Formoso aban donasse a maio r parte d os lugares que conquistara e que casasse
com a infanta D. Leonor (filha de Enrique II); outras cláusu las estabeleciam a libertação
dos prisioneiros de gu e rra entretanto det i d os e selavam, sob ju ram ento, uma amiz ad e
futura entre os dois mo narcas (MONTEIRO, 2017b, p. 137). Termin ava de st e modo, dir -
se - ia q uase com um ‘empate t écnico’, a p rimeir a guerra fernandina con tra Castela
(1369-1371); em con for mid ade c om es te d esfecho, os A ragoneses não mais viram
razão p ara contratar tropas a favor de Portugal , mas tão-pouco devolveram os dezoito
quintais de ouro que o cond e de Barcelos tinha en tregue em Barcelona; esta atitude
constituiria um abcesso nas relações futuras entr e os dois governos.
O soberano português, ain da que não tivesse sido propriamente derrotado de
forma contun dente no terreno, não conseguiu concret i z ar os seus plan os e, além
disso, pago u u m preço alto por esta campanha, que não correspondeu às exp e tativas
políticas, diplomáticas e militares iniciais. Nas Cort es de Lis boa de 1371, os povos
queixaram-se da má governação f er nandina, da inflação que se re gistava em Portugal ,
da fome que isto provocava, dos abusos dos senhores e dos oficiais do rei
2
. As Cortes
do Porto- L eiria do ano seguinte reforçaram os p rotestos e test em unham o alarme
social causado p ela desvalo rização monetária
3
, pelo t abelame nto dos preços imposto
pelas almotaçarias, pelo recurso ao serviço compulsivo dos homen s n as galés, entre
2
MARQUES, António H. de Oli veira & DIAS, Nuno José P izarro Pinto (ed.), Co rtes Portug uesas: Reinado
de D. Fernando I (1367-1383) , Volume I (1367-1380) , In stituto N acional de In ve stigação Científica e
Centro de E studos Históricos da Universidade Nova d e Lisboa , Lisboa, 1990, pp. 15-65. Vejam-se
também Rita Costa Go mes (G OMES, 2009, p. 142) e Armando A. Martin s (A. MARTINS, 2009, p . 50).
3
Para um p anorama da po lític a monetária fernandina, veja - se Maria José Pimenta Ferro Tavares (1982).
11
vários outros p r ob lemas
4
. Fernão Lopes não enjeita a oportunidade para enfatizar o
descontentamento social que então grassava e que, na sua o pinião, se devia sobretudo
a d ois motivos: “o p rim eiro, gastamento em grande cantidade d´ouro e prata q ue
antiigamente pellos rreis fora entesourado (…) o segun do, isso meesmo foi gasto de
muita mu l tidom de p rat a por a mudança das moedas que el -rre i fez p or satisfazer aas
grandes despesas dos solldos e pagas das cousas n ecessarias aa gu erra; per cujo aazo
montarom as cousas depois em tamanhos e tam desarra zoados p r eços qu e conveo a
el -rrei e foi forçado de poer sobre todas almotaçaria e mudar o vallor que aa primeira
posera em taaes moedas” (CDF, cap. LV, p. 187).
D. Fernando percebeu qu e tinha de mudar de planos: pouco a pouco e em
segredo (para não violar descaradamente o acord o de 1371), orientou a su a
diplomacia para a Inglaterra; a o mesmo tempo, p rocurou garantir o apoio d a al ta
nobreza cortesã, lidera da pelo conde de Barcelos , D. João Afonso Telo. Assim, em
1371, o monarca decidiu casar com D. Leonor Teles de Meneses, oriunda de uma
família de origem castelhana e sobrinha do conde de Barcelos . Este matrimónio – que
teve lugar, publicamente, n o Mosteiro de Leça do Bailio , em maio de 1372 (CDF, cap.
LXVI, p. 21; ARN AUT, 1959, p. 9; GOMES, 20 09, pp. 19 -21) – con stitu iu um passo muito
arriscado, pois denunciou a escassa vontade p ortuguesa de cumpri r o acordo de
Alcoutim; para complicar as coisas e au menta r o risco, suced ia que Leonor Teles já era
casada, com o f idalgo João Lourenço da Cunha, d e quem já tinha pel o menos um
descendente (CDF, cap . LVII, p . 200); este matrimónio foi quebrado e, graças a isso, o
rei português passou a contar com mais um inimi go.
O novo or denamento, se suscitou críticas mo rdazes entre a população (a
acreditarmos nas insinuações do cronista-mor), t am bém n ã o agrado u a todas as
famílias cortesãs, que reagiram ao progressivo dest a que dos Teles de Meneses na
corte f ernandina; diz- se, por exemplo, que o infante D. Dinis de Castro se recusou a
beijar a mão à rainha
5
, tendo sido forçado ao exílio, tal como outros fidalg os, entre os
4
Cortes Portuguesas: Reinado de D. Fernand o I (1367 -1383) (MARQUES & DIA S, 199 0, pp . 81-138). Veja-
se também Arman do A. MARTINS (20 09, p. 50).
5
Fernão Lopes explica mes mo que, perante a recu sa do me io-irmão em b eijar as mãos da nova rainha,
D. Fernando “lh e quisera dar com hũa daga, se n om fora Gill Vaasqu ez de Rreesende seu ayo e Aires
Gomez da Sillva ayo d ’el -rrei d om Fernando que desviarom el-rrei d e o fazer . (…) E d’esta guisa and ava o
ifante d om Deni s asi como o meziado da cort e, e o ifante dom Joham ficou com el -rrei e com a rra inha
muito amado e b emquisto, porq ue sendo o mayor no rrei no, sse oferecera de boo m grad o de beijar a
12
quais Diogo Lopes Pacheco (ARNAUT, 1959, p. 116); pela mesma época, surgiram
levantamentos populares em Lisboa , Abrantes , Leiria, Santarém e Alenquer (CDF, cap.
LXI, pp . 213-214), os quais traduzem o descontentamento ca usado, não apenas pela
crise económ ica e social, mas também pela p e rspetiva de reacendimento da guerra
contra Castela, com todo o cortejo de desgraças que isso implicaria.
A sedutora rainha Leonor Te les teve direito a um dote monumental, que incluía
numerosas vilas e cidades (incluindo Santarém ), nu m a geo g raf ia compreendida entre
Aveiro e Si ntra. Recebeu ai nda diversas terras reguengas, com os i nerentes poderes,
incluindo os d e natureza judicial (CDF, cap . LXII, p. 216; A. MARTINS, 2009, pp . 55 -56).
Instalada na corte régia, Leo nor Teles de Meneses, contando com a p roteção d o
marido e do tio, urd i u uma série de alianças que se mater i aliz aram em matrimónios e
doações vultuosas; fazia-o, s egu ndo Fernão Lopes , sendo “certa q ue nom prazia aas
gentes meudas de ella seer rrainha” e que “d´algũus grandes duvidava muit o” (CDF ,
cap. LXV, pp. 227-230). Aos poucos, a f a mília da rain ha f oi ficando ligada a d ive rsas
linhagens (como os Pimentéis, os Portocarrei ros ou os Sousas, mas também aos
Fonsecas e aos Ataídes), algumas delas tradicionais p ortuguesas, enquanto outros clãs
– como os Azevedos, os Melos e os Silvas – se conservavam na corte e se curvavam
perante a influência dominante dos Teles e dos Castros. Vários familiares da rainha
foram honrados com d o ações de t erras, de rendas e d e juris dições, e com a concessão
de alcai darias e de títulos vários entretanto criados p ela Coroa
6
. A prazo, esta evoluçã o
conduziria a q ue, no final do rein ado fernandino, e para desgosto de um número
significativo de famílias da nob re za tradicional p ortuguesa ( como os Pach ecos, os
Cunhas, os Coutinhos ou os Coelhos), todos os títulos que existia m em Portugal
estivessem nas mãos de exilados castelhanos e galegos que anteriormente haviam
maão aa rrainha e fora aazo e caminho de lh’a beixarem outros muitos de grande estado” (CDF, cap.
LXII, pp. 216 -217). Repar e-se como o cron ista salienta a fo rma co mo o filho mai s velho d e Pedro e In ês
aproveitou o controver so matrimónio de F ernando e Leonor para reforçar momentan eame nte a sua
posição na cort e, tirando tod o o partid o do elevado prestígio de q ue (ainda) gozava.
6
Ao tempo de D. Fernan do apenas existia um título no biliárquico; na época “d´el -rrei d om Affon sso o
quarto e d ´el-rrei dom P edro seu filho nom avia em Portug all mai s que hũu conde, o quall se chamava
de Barcellos” (CDF, cap. LVII, p. 197). Este condad o (de origem dionis ina) es ta va nas mãos de João
Afonso Telo, o podero so tio de Leon or Tel es. No r einado d´ O Formo so foram criados os condad os de
Ourém, atribuído ao mesmo tio da rainha, assim como o de Arra iolos (inicialmente doado a João Afonso
Teles de Menezes, tend o tra nsitado para as mãos de João Fernan des Andeiro durant e a re gência da
rainha, de quem era valido); criaram -se ainda os condado s de Vian a d o Lima, d e V iana do Alentejo , de
Neiva e de Seia (S OUSA, 2012, p . 130).
13
encontrado refúgio neste reino, fosse m eles partidários de Pedro I O Cru el ou de
Enrique II de Trastâmara! Assim, como há mais de três décadas lembrou José Mattoso,
os titulare s dos condado s de Barcelos, de Neiva e de Vian a do Alentejo pertenciam à
família Teles de Meneses; o conde de Se ia era Henrique Manuel de Vilhena; o irmão de
Inês, Álvaro Pérez de Ca stro, exibia o estatuto de conde de Arraiolos; e o galego Joã o
Fernandes Andeiro (que se tornaria conselheiro próximo de Fernando e Leonor) viria a
ser nomeado conde de Ourém ( MATTOSO, 1987, pp. 280-281).
O crescente descontentamento entre as princi pais famílias da alta nobreza,
provocado pela asce n sã o de famílias exiladas ain da em vida de D. Fernando , aumentou
as tensões sociais ao mais alto n íve l. Ta l como descreve Luís Miguel D uarte, algumas
delas (os Albuquerque, os Teles d e M eneses e os Castro) “estavam bem com D.
Fernando e mui to bem com Leonor Teles; outras sentiam- se afastadas,
secundarizadas, minadas pelo s efeitos da crise geral, p elo qu e en caravam a viúva com
manifesto ressentimento” (DUARTE, 20 06, p. 46). Importa acrescentar que o
descontentamento da f idalguia tem antecedentes, n omeada mente assent es em
pressões económicas. Como n os re corda o mesmo au tor, com a din amização d o
sistema monetário, os senhores p recisavam de ob ter rendimentos em din heiro p ar a
manter “a clientela” ( a criad agem, os vassalos, os p arentes, os amigos, etc.).
Considerando qu e a moeda sof ria desvalorizaç ões per ió dicas e que os cam pos se
tornavam menos rentáveis para os seus proprietários (em resultado de sucessivos anos
de colheitas ruins, de pestilências, do êxodo de pop ulação do campo para a cidade, de
um sistema de colet a fiscal mais eficaz e das guerras com Castela , entre outros
7
), “era
ao serviço do rei, na guerra, em qu ais quer cargos e missões, na corte, que se tinha d e
ir buscar essas riquezas” ( idem , pp. 9- 10).
Com a transferência de poderes e de dignidade s que passaram das mãos das
principais linhagens po rt uguesas para as dos exilad os galegos e castelhanos (ou
daqueles que gravitavam na sua órbita), t am bém as fontes de rendimento iam
mudando de titular. As rivalidades aumentavam, pois, mesmo dentro de cad a família.
7
D. Fernan do não deixou de legislar no sentido de fixar m ão - de -obra no meio rural, para comb ater o
aband ono d os campos agríc olas; a Lei das S esmarias ( mencionada ad iante) é d isso exemplo, ao
pretender recuperar a produção do cereal e fixar os trabalh adores que fugiam para os ce ntros urban os,
ou qu e exigiam um pagamento monetário em troca da lav oura; ne stes tempos di fíceis (em to da a
Europa), muitos morriam em gran de número, em resultado da peste e/ou da fome.
20
apoiar o papa de Roma, Urbano VI (T. FARIA, 2013). Reorgan izou-se o comando militar,
com a criação dos cargos de condestável e de marechal ( vide infra : 1.3.) e começaram
a fabricar-se no Alentejo as p rimeiras armas de fogo portuguesas – trons e bomb a rda s ,
ainda bastante incipientes ( vide infra : 1.4 .).
No final de 1381, os Ingl eses foram colocados em Vila Viçosa , mas, em protesto
por não t er em os seu s soldos em dia, desat a ram a atacar povoações como Borba ,
Monsaraz, Redon do, Avi s e Évo ra-Monte, abusando das populaçõe s, que se viraram a
eles e liquidaram muitos destes mercenários: “de guisa que p er sua maa hordenança
perecerom tantos qu e nom tornarom depois pera sua terra as duas partes d´elles ”
(CDF, cap. CXXXII, p. 467)!
Na primavera de 1382 teve lugar uma campanha aliada contra algumas aldeias
castelhanas f ronteiriças (Lobón e Cortijo), e m resposta a uma ofensiva naval
castelhana q ue assolar a os lugares de Xab regas, Vila Nova da Rainha , Frielas e Coina ,
assim como os arrabaldes de Palmela e d e Almada; Lisboa, protegida pela muralha
fernandina, resistiu bem, sob o comando de Pedro Álvares Pereira, prior do Hosp ital, e
dos seus irmãos (entre os quais Nun’Álvares ). O rei português e o conde de Cambridge
decidiram então reunir as suas for ças (ao todo, u ns 5000 homens de armas e
arqueiros, 1500 ginetes e mu i t a peonagem) e avançaram até à região de Elvas -Bad ajoz ;
aqui, dispuseram o s eu exército , o mesm o tendo feito D. Ju a n I do outro lado da
fronteira. Porém, a batalha acabou por não acontecer, pois D . Fernando (receoso ou,
quiçá, já enfermo) optou por um acordo secreto com o rei d e Castela , consumado no
dia 10 de agosto de 1382, p ara grande ira dos aliados ingleses: a infanta D. Beat riz foi
prometida a u m filho segundo de D . Juan I ; as praças conquistadas por D. Enrique de
Castela (como Almeida e Miranda do Douro) foram devolvidas a Portugal , assim como
as galés e os prisioneiros de Saltes; e os Castelhanos garantiram os meios navais
necessários ao regresso dos In gleses a casa, em inícios de setembro (CDF, caps. CLII-
CLVI, pp. 531- 544; MON TEIRO, 1993, pp. 6 -14). Embora o balanço desta terceira guerra
contra Castela esteja lo n ge de ser b rilhante, a verdade é que D. Fernando recuperou
uma parte d o que havia perdi do nove a nos antes (no Tr a tado de Santarém ) e
conseguiu que Beatriz ficasse agora prometida a um mero filho segundo do rei d e
Castela (RUSSELL, 1955/2000, pp. 371 -374).
21
O Formoso regressou então à capital, provavelmente já bastante doente, não
se sabe b em s e de tuberculose ou se sofre ndo as consequências d e um
envenenamento ma quinado p or u m adversário p olítico, como por ex emplo Joã o
Lourenço da Cunha ou Diogo Lopes Pacheco (GOMES, 2009, p . 153 e pp. 199 -208). Em
Lisboa, Fernando reto mou a obediência ao papa de Avinhão e caucionou (ou não pôde
evitar) o papel cada vez mais decisivo d e João Andeiro na corte; à morte do poderoso
tio da rainha, o fidalgo galego foi promovido a conde de Ourém ; mas Fernão Lopes
(CDF, cap. CXV, pp. 418-419) sugere mais: insinu a que ele se tornou amante de Leon or
Teles, contando ambos com a cumplicidade do b is p o castelhano de Lisboa, D .
Martinho.
A 13 de setembro de 1382, tendo falecido a rainha de Castela , o conde Andeir o
chefiou u ma embaixada portuguesa ao reino vizinho, para propor a D. Juan I o seu
matrimónio com D . Beatriz. O mo narca castelhano aceitou a proposta, contra a qual D.
Fernando já não teve s aúde para reagir, se é que d esejava fazê -lo. Rita Costa Gomes,
na linha de Salvador ARNAUT (195 9, p . 39; e 1989 ), d efende que a in iciativa da
embaixada pode ter sido a “e xpressã o da vontade do próprio D. Fernando ”, que, nas
circunstânci as vigentes, terá pen sa do que “o único mo do de assegu r ar a continuidade
da linha legítima consistia em proteger os interesses da filha, t ra nsformando em seu
marido o mais poderoso dos reis da Península” (G OMES, 2009, p. 209).
Figura 1 - Túmulo d e D. Fernando I - M useu Arqueológico do Car mo, Lisboa (foto do au tor)
22
A 2 d e abril d e 1383, em Salvaterra de Mago s, f oi assinado um acordo luso -
castelhano q ue p r evia que, em caso de morte de D. Fernando sem deixar f il ho varão
legítimo, o trono de Portugal caberia a um f il ho que viesse a n ascer do casamento de
Juan e Beatriz, logo que este fizesse 14 an os (se ndo este príncipe educado e criado em
permanência no reino port ug uês); até lá, a regência caberia a Leonor Teles . Em maio
de 1383, em Elvas-Badajoz , celebraram-se as bo das do rei castelhano com a infanta
herdeira portuguesa (BALEIRAS, 2017, pp. 103 -113). D. Fernando en viou então uma
justificação ao s Ingleses pelo comportamento d a su a d i plomacia. Foi o seu ú ltimo ato.
A 22 de outu bro, morreu em Lisboa ; conforme o seu segun do testamento
13
, foi
sepultado com o hábito d e São Francisco num mausoléu que mandara construir no
convento franciscano d e Santarém (perto da mãe, Constança Manuel). À sua morte,
abriu-se um período conturbado da h istória política p ortuguesa, u m a verdadeira caixa
de Pandora (GOMES, 2009, p. 215), que daria lugar a numa nova dinastia.
1.1.2 – Os anos da guerra sucessória (1383-1385)
Quando D. Fernando faleceu, Leonor Teles, assumiu a regência e mandou logo
aclamar a f ilha única como rainha de Portugal . Cont udo, a acreditarmos n a n arrativa
de Fernão Lopes, em cidades como Lisb o a, Santarém ou Elvas a população contestou a
aclamação de Beatriz e mo strou simp atia pelo infante D. João de Castro , que D. Juan I
deve t er mandado prender (talvez na sua morada de Torrijos) ainda durante a agonia
do monarca português (ARNAUT, 1959, pp. 165-167).
Num clima crisp ado e tenso, alguns nobres propuseram ao Mestre d a Ordem
de Avis (D. João, também ele filho b astardo do rei D. Pedro I) que encabeçasse u m
golpe que deveria obrigar à alteração do quadro político definido em Salvaterra de
Magos. O Mestre (amig o de infância do infante D. João de Castro ) hesitou, mas acab ou
por aceitar: a 6 de dezembro de 1383, um grupo de conjurados assassinou em Lisboa o
conde Fernandes Andeiro, o galego que era o principal valido d a rainha e que fora o
obreiro das alian ças de Po rtugal com a Inglaterr a , primeiro, e com Castela , depois: “O
13
O primeiro testamento de D. Fernando, datado de 28 d e agosto de 1378, pode ter c oincidido com
uma grave doença do monarca, que o terá colocado às portas da morte (ARNAUT, 19 59, p. 23). N este
testamento, D. Fernand o excluía os seus meios-irmã os D. J oão e D. Dinis de Castro da sucessão do reino
( idem , p . 25).
23
Meestre (…) tirou logo huũ cuitello comprido, e envioulhe huũ gollpe aa cabeça; porem
nom foi a f eri da tamanha qu e della morrera, se mais nom ou v era. Os outros que
estavom darredor, quamdo virom esto, lamçaraom logos as esp adas fora p era lhe d ar,
(…) e Rui Pereira que era mais acerca, meto huũ estoque darma s per elle de qu e logo
cahiu em terra morto” (C D J, I, c ap. IX, p. 19). Logo qu e o crime aconteceu, e na
sequência de uma ação d e apoio astutame nte preparada por Álvaro Pais (antigo
chanceler de D. Pedro I e D. Fernando), a população lisb oeta acorre u ao Paço da
Rainha, gritando: “ A corramo s ao Meest re, amigos, acorr amos ao Mee stre, c a f ilho he
del Rei dom Pedro. (…) Ac orr amos ao Mee stre, amigos, acorramos ao Mee s tre que
matam sem por que ” (CDJ, I, cap. XI, p. 21).
Assustada e receosa pela própria vida, Leonor Teles fugiu para Alenquer ,
acompanhada pelo irmão (D. João Af onso Te l o, conde de Barcelos) e pelos seus
grandes oficiais. Segundo se deduz das p áginas de Fernão Lopes (CDJ, I, c ap s. XV II-XXV,
pp. 33- 46), o Mestre, temeroso sobre o que o futuro lhe reservaria e desconf ia do d e
uma eventual tentativa d e vingança p or parte da rainh a, pensou partir para Inglaterra
e recolher ali apoio s mil it ares; tod avia, acabou por ser convencido a f ic ar em Lisboa ,
graças aos conselhos dos seus apoiantes (Rui Pereira , t io de Nun’Álvares , ter-lhe- á
dito: “a mim pare ce que boom Londres he este” – CD J, I, cap. X XII, p. 40) e também aos
augúrios de um er mi tão de origem castelhana, Fre i João da Barroca , que vivia num
casebre na zona do Mosteiro de São Fran cisco. Os consp ir adores ainda enviaram uma
embaixada a Alenquer, propondo à rainha o seu casamento com o M es tre de Avis , mas
Leonor, altiva, recusou e optou por apostar o tudo por tudo n um auxílio rápido por
parte do genro e da filha Beatriz.
Com ef ei to, D . Juan I de Castela, em fin ais de dezembro d e 13 83, entro u em
Portugal e marchou rumo à poderosa Santarém
14
, onde a sogra se encontrava, talve z
para maior segurança sua. Em Lisboa, a agitação crescia e, no final do ano, os
revoltosos, lide rados pelo Mestre e por Nun’Álvares Pereira, atacaram o castelo à
guarda de Martim Afonso Valente (alcaide d a f ortaleza em nome d o cond e Jo ão
Afonos Telo), posto o que optaram por derrubar as portas que ligavam o castelo à
cidade: “(…) e [o Meestre] foi pousar em elle e mandouho devassar e tirar as portas da
14
Cf. Luis SUÁREZ FERNÁNDEZ (1987); César OLIVERA SERRANO (2005 a); e Vic ente Á ngel ÁLVA REZ
PALENZUELA (2009).
24
parte da çidade per comsselho d e tod o o p oboo” (CDJ, I, cap. XLI, p p. 69 -72). Coisa
semelhante fizeram os apoia ntes do M estre de Avis em out r os castelos, como por
exemplo em Elvas, em Estremoz ou em Évora: de uma maneira geral, os popula res
atacavam a f ortale za, queimavam as portas e desfaziam os lanços d a muralha. Tal
como observou Luís M ig u el Duart e, trata- se de uma ação “muito reveladora do modo
como os populares viam, em geral, os castelos das terras” (D UARTE, 2006, p. 38 e 58).
Fernão Lopes dá -nos conta de tudo isto ao long o d a Primeira Parte da Crónica de D .
João I : “alçamsse villas comtra os alcaides dos castellos pello rregno; levamtãsse
hunioões dhuũ s comtra os out ros; ffazemsse outras muitas cousas em huũa sazom, d e
guisa que h ũas torvam as outras” (CDJ, I, cap. XXIX, p. 52 ); e mais à frente: “se
lavãtavam muitas onioões em alguũs logares, e tomavom os castellos ao s alcaides
delles” (CDJ, I, cap. LXVIII, p. 117).
Esta destruição das fortalezas obedecia a um objetivo sobretudo ideológico;
mais do que a d ivisão em grupos políticos opostos a que os historiadores recorrem
(assumindo, na maioria dos casos, que os alcaides tomavam a fação de D . Beatriz e D.
Juan, enquanto a popula ção demonstrava p refer ência pelo infante D . João d e Castro e,
mais tarde, pelo Mestre de Avis), devemos valorizar os fatores d e contestação e de
divisão social. Para a generalidade da população con cel hia ( labora t ores , na sua
maioria), o castelo representava “um sím bolo da opre ssão senhor ial” (DUARTE, 2006,
p. 64). Ao d esguarnece r e enfraquecer as fortalezas, estas ficavam destituídas da
função para que t i nham sid o con struídas: a defesa! Ora, “um chefe militar exper ie nte
nunca tomaria uma tal medid a ” ( idem , p. 62); agora, era a arra ia-miúda que tomava
conta destas f ortificações. Naturalmente, com a eleição do Mestre como re i e com a
sua post erior consagração em Alj ubarr ota, diversas fortalezas f oram restauradas,
sendo reabilitados os respetivos sistemas defe nsivos.
Em fevereiro de 1384, Juan I e Beatriz chegaram a Santarém e forçaram Leonor
Teles a abdicar da regência, a seu f avor. A rainha t ent ou reagir, concluindo - se com o
irmão, o conde D. Gonçalo Teles , que era alcaide do castelo de Coimbra, numa altura
em q ue se encontrava com o séquito de Castela às port as dest a cida d e; porém, a
manobra fracassou e Leonor acabou por ser encerrada num mosteiro, em Tordesilhas
25
(CDJ, I, caps. LXXXIII-LXXXIV, pp . 140-142)
15
. Juan e Beatriz optaram então por cercar
Lisboa: numa f ase inicial, a frota castelhana bloqueou a cidade p el o lado do mar; em
finais d e maio, o rei de Castela fechou o cerco por terra. A situação extremava -se e a
causa do Mestre de Avis parecia p erdida, com a agravante de uma parte significativa
dos castelos, em especial no norte e no centro, se manterem fiéis a D. Beatriz.
Entretanto, em meados de dezembro, no Mosteiro de São Domingos (em
Lisboa), o Mestre de Avis tinha organizado duas reuniõe s com o povo e com os
grandes de Lisboa, tend o ganho a confiança da maioria e sid o até nomeado regedor e
defensor do reino , “um título invulgar, sem precedentes” (DUARTE, 2006, p . 49 ); em
contrapartida, concedeu ao s lis boetas diversos privilégios, em especial o d e indicarem
24 homens para a câmara da cidade – d ois por cada ofício ou mester (COELHO, 20 08,
pp. 48-50 ; e 2009, pp. 38-39 ). Pouco depois, João de Avis, b ene f iciando do facto de o
infante D. João de Cas t r o conti nuar detido em Castela (o qu e permitia ao seu meio-
irmão ocupar uma p ar te do seu esp aço político), terá enviado dois embaixadores a
Inglaterra (o escudeiro Lourenço Martins e o mercador Thomas Daniel), em b usca de
auxílio militar. A embaixada deve ter tido lu gar nos inícios d e 1384 (RUSSELL,
1955/2000, p . 398), mas f racassou; em finais de março, dois notáveis (o M estre de
Santiago , Fernando Afonso de Albuquerque, e u m antigo chanceler de D . Fernando ,
Lourenço An es Fogaça) reforçaram o pedido de ajuda ( idem , pp. 398-399; e FARIA,
2013).
O Mestre de Avis via entretanto crescer a sua base de apoio, que reunia f ilhos
segundos e bastardos, ou primo g én itos de famílias nobres de segunda linha, isto é,
gente insatisfeita com o satus qu o e desejosa de uma mudança rad ical, algu ma d e la
com ligação às Ord e ns Militares (MATTOSO, 1987, pp. 285 -293). O conflito interno
proporcionaria – assim se esperava – a estes secundogénitos “n ão só [uma] fonte de
rendimentos nada despiciendos”, mas também “promoção social e nob ilitação ”
(MONTEIRO, 2007a, p. 14). Para sustentar as suas aspirações políticas e as suas
necessidades militares, o Mestre também garant i u apoios financeiros entre os
mercadores e alguns argentários do Porto e de Lisboa, a quem agradava a perspetiva
de alargamento para o Atlântico e para o Mar do Norte dos seus horizontes
comerciais. Além disso, receb eu donativos eclesiásticos (p. ex., d a Sé d e Lisboa e d a s
15
Cf. a biografia rec ente de Isab el de Pina BALEIRAS (2012) sobre Leonor Teles .
26
restantes igrejas da cidade), cunhou mo ed a nova (e mais fraca), confiscou bens a
opositores seus e doou-os aos seus apoiantes (CDJ, I, caps. XLV III-L, pp. 86- 9 0); neste
em particular, ter á seguido o sábio conselho de Álvaro Pais: “ Daae aquello que vosso
nom he, e prometee o que nom teemdes, e perdoaae a quem vos nom errou, e seervos
ha mui gramd e ajuda pera tall negoçio em quall sooes posto ” (CDJ, I, cap. XXVII, p. 49).
O Mestre organizou também um conselho privado, em que se destacavam
alguns juristas (como o Dr. João das Regras , qu e pro vavelm ente estudara em Bolonha)
e, em março de 1384, tomou a d ecisão de nomear o jovem Nuno Álvares Pereira (filho
segundo do falecido Álvaro Go nçalves Pereira, que fora Prior d a Ordem do Hospital )
como fronteiro-mor da comarca de Entre Tejo -e-Guadiana, com a missão de travar a
circulação das t ropas castelhanas entre a Extremadura e Lisboa (MONTEIRO, 2017a,
pp. 89- 93); aparenteme nte, tê - lo -á feito contra a von tade de João das Regras e d e
outros conselheiros, que receavam a juventude de Nun ’Álvar es e o seu pare ntesc o
próximo com apoiantes d e D. Ju a n I de Castela, c omo o irmão Pe dro : “O douto r J oham
daRegras, era mu i to comtra esto, dizemdo que per a tamanho emcarrego compria d e
mamdar huũ homem de madura autoridade, muito avisado, e sabe d or de guerra; de
mais que NunAllvarez t r agia seus irmaãos com os emmiigos, e outr as rrazoões que
assinava, pera nom se er elle o que ou vesse dh ir” (CDJ, I, cap. LXXXVII, p. 146).
Entretanto, quando se tornou evidente que Juan I iria cercar a capital, o Mes tre tratou
de a abastecer e mandou reforçar a muralha fer nandina com uma barbacã.
A 6 de abril de 1384, nos Atoleiros (perto de Fronteira), Nuno Álvares obt ev e
uma primeira e crucial vitória so bre um exérci t o castelhano comp os to por muitos
capitães e fidalgos, entre os qu ais o seu irmão Pedro Álvares. Este sucesso em b atalh a
campal, por parte de um exército t odo ele apeado e com uma forte componente de
atiradores com besta (CDJ, I, cap. XCV, p p. 158 -161), teve um i mp acto psicológico
grande: mos t rou que o s Castelhanos e a sua cavalaria não eram imbatíveis e deu
ânimo aos partidários do Mestre que defendiam L isb oa (MONTEIRO, 2012a, passim ).
Na capital, a avaliar pel a descrição de Fernão Lopes , o arraial castelhano era
imenso: uns quinze a vin te mil homens de ar mas, servidos por um c ompletíssimo
aparato de equipamen t os e serviços (“somente de calçadura numca f oi bem
abastado”: CDJ, I, cap. CXIV, p. 194), estendendo -se do Mosteiro de Santos a Alcântara
e Campolide (COELHO, 2008, p. 63 ); a cidade teria nessa época perto d e 35 000
27
habitantes, mas estava inchada por um número elevado d e refugiados oriundos dos
aglomerados p opulacionais das redondezas. Nestas condições, a resistência era
terrivelmente d ifícil, embora os sitiados t ivesse m a seu f avor a q ualid ade da cerca
fernandina, a novíssima b arbacã e ainda u m fosso parcial e numerosos caramanchões
de madeira instalados nas t orr es da cidade. O Mestre d i rigiu as operações com pulso
de f erro, garantindo a defesa dos muros e um especial cuidado n a vigilâ ncia das mais
de trinta p ortas da cidade: “E hordenou o Mee s t r e com as gentes da çid a de, que fosse
rrepartida a guarda dos muros pelos fidalgos e çidad aã os hom r rados; aos quaaes
derom çer tas q uadril has e beesteiros e hom ẽes darmas pera ajuda de cada huũ
guardar bem a su a. Em cada quadrilha avia huũ sino pera rrepicar quamdo tal cousa
vissem. (…) Cada huũs de noite vellavom suas torres; e os das quadrilhas rrolldavõ todo
o muro e torre s (…) De triimta e oito port as que ha n a çidade, as doze eram todo o dia
abertas, emcomendadas a boõs hom ẽ es darmas que t i nham cuidado de as guardar;
(…) e alli atrevessavom paaos com tavoado pera dormir, os que tal cuidado tiinham”
(CDJ, I, cap. CXV, pp. 196- 197) .
A 18 de julho, u m a frota organizada no Porto e comandada p elo conde D.
Gonçalo Teles (irmão de Leonor) e por Rui Pereira conseguiu romper o b l oqueio
castelhano e reabastecer Lisboa , embora tenha introduzido mais b ocas para alimentar
no interior da capital (A. S. MONTEIRO, 1989 , p p. 37 - 41)… A 1 de agosto, Almada ,
torturada pela sede, rendeu-se a Juan I e Beatriz. Parecia q ue a queda de Li sboa seria
apenas u ma questão de tempo. Todavia, a cidade foi salva pelo deflagrar, no
acampamento castelha no, de um surto de p es te que l iquidou muitas cent e nas de
homens de armas: “começou de sse atear a pestellemça tam bravamente em eles, assi
per mar come per terra, que dia avia hi que morriam çemto, e çemto e çimqoemta, e
duzemtos” (CDJ, I, cap. CIV, p. 272). A certa al tura, a doença terá atingido a rainha
Beatriz, que era o garante d as pretensões de Juan I ao tro no português! A 4 de
setembro, Ju an I fo i obrigado a levantar o assédio e a regressar a Castela ; no mê s
seguinte, a frota castelhana deixou Lisboa (MARTINS, 2006: passim ).
A 2 de outubro de 1384, realizou -se uma nova reunião no M os teiro de São
Domingos; desta vez, o Mestre pediu aos nobres e aos cidadãos q ue discutissem a
situação política e que aj udassem a decidir o que se d everia fazer; a assembleia ter - se -
á pronunciado a favor da convocação de uma reunião de cort es em Coimbra ,
28
teoricamente por causa do fina nciamento da guerra, cujo arra s t amento era inevitáve l
(COELHO, 2008, p. 78 ); deliberou- se t ambém mandar derrubar a porta do castelo de
Lisboa (CDJ, I, caps. CLIII-CLIV, pp. 283-288). Quatro dias mais tarde, n os Paços do Rei,
muitos fidalgos prestara m preito e menagem ao Mestre (ratificado como regedor e
defensor d o reino, e agora nomeado também como governado r de Portugal), que foi
tomar Alenquer (10 de dez e mbro) e tentou de pois capturar Torres V e dras (janeir o de
1385), operação em que foi mal sucedi do e em qu e se viu traído por alguns d os seus
pretensos apoiantes: “ porem todo seu cui dar e sospeita [dos sitiados] fora vaã o, se
nom forom algũas pessoas, que amdavom com o Meestre, q ue pouco amavom seu
se rviço, que per sinaaes e outras emcubertas, lhe faziam saber todo , quamto o
Meestre obrava comtra elles” (CDJ, I, cap. CLXIX, p. 318).
A segu ir , o grupo de D. João e N un’Álvares avançou para a batalha política, que
teve lugar em Coimb ra , em março- a bril de 1385. Aq ui se reuniram as Cortes
16
, com a
presença de mais de sete dezenas de nobres, de p erto de quarenta cidades e vilas (na
sua mai oria da Es tremadura e do Alentejo, favoráveis ao Mestre de Avis ) e da
generalidade dos grandes prelad os portugueses. Esta assembleia traduz bem o estado
político e social do reino . Logo à part i da, só o rei p odia convocar as cortes e, em 1385,
o reino debatia- se justamente com a ausência de um monarca. Seria, portanto , uma
convocatória sem prec edentes: “não era convocada por um monarca, seria
deliberativa pelos seus corpos sociais, decidiria em matéria totalmente nova, de direito
sucessório d a coroa” (COELHO, 20 08, p. 79); ou seja, como ob serva a mesma autora,
“em tempos de revolução, eram cortes também elas revolucionárias” ( ibid em ).
Ainda assim, apesar de o pretexto p ara esta con vocatória ser o debate sobre a
guerra luso-castelhana, os seus p ar ticipantes sabiam que o propósito central d a
reunião seria a eleição de um monarca, assunto q ue ocupou quase todo o tempo da
assembleia (cerca de um mês). Os candidatos mais bem posicionados para subir ao
trono seriam dois meio s-irmã os – o infante D. João de Castro e o Mestre de Avis .
Apesar da preferência de u ma parte da fidalguia e da alta nobreza beirã pela causa d e
D. Jo ão de Cast r o, o aprisionamento deste em Castela fazia esmorecer o suporte à sua
eleição (DUARTE, 2006, p. 76). Por outro la d o, a presença de Nun´Ál vares Pereira e dos
seus escudeiro s armados até ao s dentes funcionou como um fator de dissuasão d a s
16
Cf. COELHO, 200 8, pp. 78 - 97.
29
aspirações dos opositore s ao Mestre, entre os q uais Martim Vasques d a Cunha , alcaide
de Linhares da Beira: “foi NunAllvarez alla, por fallar ao M eestre; e levou comssigo b ẽ
trezemtos escudeiros, com cotas e b raçaa es e espadas çimt as, e dagas (...) Martim
Vaasquez e seus irmaãos, e desi parente e outr os alliados, qu amdo virom Nun Allvar ez
viinr daquella g uisa, partiromsse do Paaço p ouco s e poucos” (CDJ, I, cap. CLXXXV III, p.
362). Em tempos de crise, também eram precisas ações de exceção…
Depois de árduas discussões e graças à mestria com que o Dr. Jo ão das Regras
defendeu a ca ndidatura do Mestre (mostrando que os outros ca ndidatos, como os
irmãos Castro, eram tão bastardos quanto ele e, além disso, eram muit o menos
merecedores da suprem a d ig nidade real: N . SILVA, 1987: passim ), no dia 6 de abril, D .
João, Mest r e de Avis, foi aclamado como rei, d a ndo início à segunda d i nastia
portuguesa. Ao mesmo temp o, João das Regras foi nomeado chanceler e Nuno Álvares
Pereira foi escolhido p a ra mordomo-mor e para condestável d o reino (CDJ, I, caps.
CLXXXI-CXCII, pp. 341-372; MONTEIRO, 2017a, pp. 10 5 -106). Na mesm a alt ura, foi
concedido p elos concelhos um empréstimo d e 400 000 libras ao h er ói que salvara
Lisboa, com vista à prossecução da guerra (COELHO, 2008, p. 91).
1.1.3 – O começo da dinastia joanina (1385-1433)
Com a sua legitimidade reforçad a, D . Jo ão I avançou p ara o norte; na
companhia do condestável, su bmeteu uma série d e praças na comarca do M i n ho
(Neiva, Viana, Cerveira, Monção, Caminha, Braga, Guimarães e Ponte de Lima).
Entretanto, na Páscoa de 1385, aportaram em Lisboa , em Setúbal e no Porto quatro
embarcações inglesas: traziam a bordo perto de 600 mercenários (incluindo muitos
veteranos e arqueiros), c uja co n tratação Lourenço Fogaça e o M es tre de Santia g o
tinham logrado con seg uir em Inglaterra (CDJ, II, cap. IV, p. 12; e RUSSELL, 19 55/2000,
pp. 410-411).
Em resposta, Juan I ordenou um n ovo ataque a Portugal , projetado em três
frentes: a f r ota castelhana voltaria a ameaçar Lisboa , enquanto um exército terrestr e
invadiria de novo a Beira e o próprio Trastâmara cercaria Elvas . Não resultou, com
exceção da man o bra naval: a incursão pela Beira, com vista “a t al lar as vinhas e paaes
e fazer todo mall e dano que podessem” (CDJ,II, cap. XIX, p . 38), redundou em
36
militar al con j unto de los habitantes, incluyendo a los esclavos” (GARCÍA FITZ, 1998, p.
9). Est a estreita relação entre o exército e a população viria a assu mir também fortes
contornos ao longo da Idade Média.
A diversificação do exército romano (que, além d e cidadãos, passou a inclui r
escravos e até mer ce n ários de origem b árbara) acen tuou-se à medida q ue as linhas
fronteiriças re cu avam. A p artir dos f i nais do século V, com a qued a d efinitiva do
império, a erupção de poderes locais com menor dimensão territorial converteu tod a a
organização do exército nu ma estrutura muito d istinta daquela que se p raticava na
época imperial. Essa n ov a est rutura viria a influenciar d ecisivame nte as característica s
do modelo militar medieval.
Os rein os europeus emergen tes não d ispunham de um exército permanente e
especializado, a nova máquina militar carecia de uma infraestrutura administrativa, de
financiamento e d e quadros de comando que fossem está veis, dissolvendo- se assim
que terminavam as operações (por vezes até antes). Esta est r utura militar “n o tenía,
pues, u na identidad propia qu e lo diferenciara nítidamente d el resto de la población”
( idem , p . 12). Por este motivo, a própria or ga nização intern a das hostes passou a
obedecer a critérios de diferenciação social, e não apenas a pre cei t os próprios de uma
organização estritamen te milit ar. Os princípios de enquadramento eram simp les:
“tendia -se a ju ntar peões com peões, at iradores com atiradores e h omens- de -armas
com hom e ns- de -armas, colocando-os, nos primeiros dois casos, sob o comando de
oficiais régios ou concelhios, e, no terceiro caso, em pequ enos grupos sob a liderança
de “capitães”, os quais se distribuíam depois pela s d iversa s unid a des t ácticas ”
(MONTEIRO, 2010, p. 175).
A guerra medieval, como bem demonstrou Phil ippe Contamine (1986) numa
obra qu e representou uma verdadeira mudança de paradigma no que ao
entendimento da guerra medieval diz respeito, revelou -se uma atividade sazonal,
vocacionada essencialmente para emp reen dimentos de curta duração e cujo
recrutamento e f inanciamento er a pensado e organizado em função de cada nova
campanha. A ob rigação de serviço militar das populações depend i a das convocatórias
emitidas pelas autoridades pú blic as ou privadas, ficando a d uração de sse serviço a
depender do alcan ce de cada campanha (defensiva ou ofensiva). O cumprimento das
obrigações marciais por parte dos h omens livres d ependia do seu vínculo social,
37
podendo este decorrer de pre cei tos d e natureza feudal; era o caso do d ever militar a
que – em contrapartida pela receção de um feudo – “estaban obligados aquellos
individuos que habían recibido bienes de algún señor, deber que formaba parte de las
obligaciones implícitas en el acto d e vasallaje” (GARCÍA FITZ, 1998, p. 18); n o caso da
população u rbana (por exemp l o: mesteirais), era f re quente a sua vinculação à
autoridade pública dominante.
Este modelo de recruta mento não permitia constituir exércitos permanentes e
altamente especializ ados, dado que a peonagem era recrutad a “ ad hoc para esta ou
aquela campanha militar, geralmente por perío dos de tempo limita dos, fin dos os quais
os guerreiros podiam regressar às suas terras” ( MONTEIRO, 2010, p. 211).
Este perfil provisório e não prof issionalizante das h ostes med i evais era, por
vezes, compensado (so bretudo a partir do sé culo XII) pelo recurso a grupos d e
guerreiros especializados n a arte militar, contratados sob a forma d e mercenários . Em
períodos de a tividade bélica mais intensa, estes g rupos tinham a vantagem de fornecer
contingentes bem adestrados e equipados para o combate, sem limitações es paciais
ou co nstrangimentos temporais. Contudo, a lealdad e destes conti ngentes dependia
estreitamente da generosidade da bolsa dos seus contratante s…
Nos exércitos m edievais, destacava -se a figura do cavaleiro e o recurs o a corp o s
montados. M aioritariam ente oriundos dos grupos sociais mais ab as t ados, os únicos
capazes d e enfrentar o elevado cu sto d e aquisição e de manutenção das armas e dos
cavalos, os corpos de c avalaria constituíam uma esp écie de elite guer reira q ue se
distinguia nos teatros da guerra. Cont udo, esta seria mu i tas vezes uma distinção mais
social do q ue marcial, embora em campo viessem a sobressair (a parti r da segund a
metade do século XI) as manobras da cavalaria pesad a , que tiravam bom partido da
força b r uta e d a mobilidade das montadas. No en tanto, a sua p lena eficácia não
resultava geralmente d e uma ação es t ritamente i n dividual, a ntes depen dia muita s
vezes de um conjunto de operações articuladas com a infantaria e/ou com corpos de
atiradores munidos de arco ou de besta. Convém t am bém lembrar q ue, salvo casos
excecionais, o número de cavaleiro s era substancialmente i nferior ao d os peõ es, numa
proporção média de 4 ou 5 para 1 (GARCÍA FITZ, 1998, p. 31).
O modelo d e comando destas forças tendia a replicar os vínculos sociais, sendo
certo que os líderes das diversas comunidades e colet ivi d ades assumiam a liderança
38
militar das mesmas, “de modo que la est ruct ura de mando de los contingentes vino a
coincidir con la jerar quía social y política de los diversos colectivos humanos” ( idem , p .
28). Naturalmente, n o topo d a hierarquia situava-se a figura do monarca e d os oficiais
que se encontravam sob as s uas or dens d ir etas, a começar pelo alferes (no que a
Portugal d iz respeito). Abaixo destes sub co mandantes não existia uma hierarquia
orgânica tão def inida, ou seja, os corpos integrantes da h oste ficavam subordinados à
própria estrutura de recrutamento, encabeçada por grandes senhores feudais ou p o r
comandantes das forças concelhias. Em Portugal, como adiante se verá, os homens - de -
armas que formavam o núcleo duro da cavalaria re spondiam ao s capitães , os qu ais, tal
como observa Gouveia Monteiro, eram normal men te escolh i dos entre elemento s da
alta nobreza (MONTEIRO, 2010, p. 175).
Observando este conjunto de corpos táticos que compunha as hostes
medievais, percebe- se que a grande massa dos combatentes “era arrancada
compulsivamente à lavo u ra ou ao s mesteres, sendo depois atirada p ara os teatros de
guerra”, não dispondo de treino militar regular, “a não ser talvez para algumas milícias
de atiradores neurobalís ticos (tal como acon teceria mais tarde em Portugal , com os
besteiros do co nto dionisinos e seu s sucessores)” ( idem , p . 181). Já os homens- de -
armas pod ia m ser adestr ad os no manejo de armamento e na condução das montadas
(por exemplo, em jogos como as justas ou os torneios); ainda assim, careciam de um
verdadeiro t rei no militar co letivo, o que seria importante p a ra a execu ção de
manobras de cavalaria p recisas e bem sincronizadas (o que era, em geral,
determinante para a respetiva eficácia).
O mo delo operativo de combate que se desenvolveu na Alt a Idade Méd ia
europ eia “consagrou uma f orma de guerra em que o cavalo era um elemento
essencial”, t ornando a atividade militar cada vez mais sazonal, praticada sobretud o
durante os períodos de p rimavera e de verão (a ‘estação da guerra’), “ju stament e
porque era necessário poder disp or d e b oas pastagens (e d e caminhos minimamente
transitáveis)” (MONTEIRO, 2010, p. 177). Isto – que foi bem visível a part i r do períod o
carolíngio – ajudou a realçar a importância da cavalaria n os campos de batalha do
Ocidente europeu e acentuou-se entre os f inais do século XI e os inícios do século XIV.
Porém, não será prudente concluir daqui que, no decorrer deste período (com
particular n itidez após a batalha de Hastings , em 10 66), a cavalaria ocidental tenha
39
at uado s empre “segundo o princípio da massa, combat e ndo em formação cerrada e
optimizando a sua ca pacidade de c h oque através do ef e ito devastador da famosa
lance couchée ” ( idem , p. 180); n a verdade, a sua eficácia dependia, não ra ras vezes, da
intervenção de outros corpos t áticos (com o os atiradores), sendo igualmente
influenciada pelas características e limitações d o p ró prio inimigo (por exemplo, o seu
número e armamento, a sua força anímica e os seus h ábit os e rotin as diárias); também
o f ator ‘surpresa’ pod ia d esempenhar u m papel importante n estas campanhas, tal
como a existê ncia de possív eis soluções de fortificação do campo de batalha (matéria
em q ue os combates com os exércitos viquingues ob r igaram a novidades importantes,
conforme salientou Guy Halsall, sob re tudo pelo recurso a “field f ortifica tions as bases
from which to launch surprise counter - attacks” (H ALSALL, 2003, p. 188).
Convém também referir que a cavalaria europeia tendeu a exp ortar com
considerável eficácia o modelo da ‘carga pesada a cavalo’ para o cenário das Cruzad as
na Terra Santa ; aq ui, os cavaleiros dotad os de sel a alta, de estribo e de l ança comprida
fixada sob a axila d irei ta quando colo ca d a n a horizontal (a citada la nce couchée )
executavam investidas em for mação compacta, cadenciada e em sucessivas linh as de
ataque
20
; enquanto isso, o Ociden te eu ropeu deb atia- se com novos desafios,
motivados essen cialme nte pela defesa das suas fro nteiras. Entre estes, destacamos a
ocupação islâmica da Península I bérica , pois o modo de gu errear d os muçulmanos
obedecia a modelos diferentes dos europeus, assumindo um especial dest a que o
recurso à cavalaria ligeira d os ginetes ; mas também não podemos esquecer os
conflitos provocados pela discussão da supremacia inglesa n as Ilhas Britânicas (por
exemplo, contra contingent es ap eados de origem galesa ou escocesa), ou ainda as
redefinições fronteiriças entre os re inos germânicos, numa geografia mais a norte e a
leste. A ad aptação dos modelos militares europeus da Idade Média Central a uma
lógica de co mbate d i f erente forçou a reformulação de algumas práticas de guerra,
nomeadamente no que diz respeito ao papel da cavalaria. No entanto, é importante
frisar que, “entre os séc ulo s XI e XIII, não podemos ainda falar de especialização de
20
Com a formação das Ordens Militares no Próximo Oriente (Templário s e Hospitalário s), as hostes
cristãs pa ssaram a dispor de cavaleiros altamente e specializados e dotados de treino coleti vo,
inteiramente dedicad os à arte d a guerra, com grande capacidade de resposta rápid a e eficiente, o q ue
nem sempre suc edia no Ocid ente europeu; aq ui, d ev ido ao s “ fracos hábito s de disciplina e [a] uma
tendência acentuada para o individualismo e para a bravata, os exércitos da cavalaria medieva l tinham
poucas possibilidade s de preen cher aqueles requisitos ” (M ONTEIRO, 2017b, p. 38) .
40
armas (cavalaria, infantaria, artilharia), à maneira moderna. Um cavaleiro t anto
combatia montado com o a pé, depe ndendo d e circunstâncias várias” (MONTEIRO,
2017b, p. 41).
Através da análise dos principais confrontos armados europeus em campo
aberto ocorridos entre os séculos XI e XIII, e de ac ordo com um trabalho d e referência
da autoria de Jo ã o Go uveia Monteiro (2011), é possível salientar a lgumas das reformas
táticas dos exércitos coevos, as quais viriam a contribuir para uma espécie de
especialização da guerra , que se afirmará na centúria seguinte. Entre os vinte casos de
estudo europeus analisados naquele t rabalho, destacaremos apenas alguns aspetos: i)
o primeiro (e quiçá o m ais relevante para nós) corresp onde à eficácia com que,
durante algumas horas, a infantaria inglesa absorveu o impacto da investida da
cavalaria pesada normanda no decorrer da batalha de H astings (Inglaterra - 14 de
outubro de 1066), recorrendo a uma parede de escudos com “os h omens be m
cerrados uns contra os ou tros” (MONTEIRO, 2011, p. 12); ii) na batal ha de Brémule
(Normandia – 20 d e agosto de 1119), repet i u-se a proeza contra a cavalaria de Luís VI
de França; destacamo s, n este caso, a opção tática de Henrique I de Inglaterra, ao
ordenar que os seus h omens comb a t essem maioritariamen te a pé, com as trop as de
cavalaria desmontadas p osicionadas junto da p eonagem e “divididas em trê s ou
quatro unidades, escalonadas em sucessivas linhas de defesa” ( idem , p. 16); iii) a
eficácia d eterminante do poder n euro balístico nas fases iniciais d a batalha de
Bourgthéroulde (Normandia – 26 de março de 1124 ), com os atiradore s ingleses d e
Henrique I dispostos so bre o flanco esq uerd o, certamente para que “visassem os
cavaleiros [normandos] inimigos do la do direito destes, onde não beneficiavam da
protecção d os escudos” ( idem , p .18); iv) n a batalha d e Legnano (Itália – 29 de maio de
1176), a cavalaria germânica do imperador Frederico I mostrou- se eficaz contra as
linhas da cavalaria milanesa; contudo, não consegu iu desbaratar a infantaria
adversária (formada por tropas das cidades itáli cas que se opun ham aos projetos do
Sacro Império Roma no -Germânico), munida de piques e disposta em form ação cerrada
atrás de escudos e de fort i f icações improvisadas (a sagrada “carro cci o” milanesa)
( idem , pp. 22- 23); v) em Las N avas de Tolosa (Península Ibérica – 16 de julho de 1212),
a cavalaria pesada cristã t ir ou partido d a superioridade numérica e d o efeito su r presa
(resultante de uma mudan ça inesperada de posição) p ara neutralizar as táticas
41
muçulmanas, no meada mente a ação da cavalaria ligeira dos ginetes , logrando depois
alcançar a vitória graças a uma carga bem sincroniza da e temporizada da su a cavalaria
pesada, chefiada p elos reis de Castela, d e Aragão e de Navarra ( idem , pp. 25-27). Um
cenário deste género repetir- se - ia p arcialmente na batalha de Jerez de la Frontera ,
travada na Andaluzia, em ab r il de 1231, com vitória das forças castelhanas chefiada s
por Alvar Pérez d e Castro e pelo infante D. Afonso sobre a tropa do caudil ho
muçulmano Ibn Hud, que se intitulava rei de Múr cia ( idem , p p. 31-33).
No decorrer deste período (séculos XI -XIII), o confronto armado t endi a para
uma certa diversificação operacional, destacand o -se a versatilidade d a cavalaria, que
tanto podia combater a cavalo como apeada; destacamos igualmente o poder de
resistência da infantaria, qu e podia recorrer a uma f ormação cerrada, prot egi da p or
longos piques; realce- s e ainda o recurso a atiradores neurobalís ticos, principalmente
numa fase inicial da batalha, com o intuito de desordenar e de quebrar o ímpeto do
avanço adversário. Não obst a nte o perfil da cavalaria ter-se mantido adequado à t ática
da in ves tida, tendo- se mesmo registado uma consolidação dos mecanismos d e carga
da cavalaria pesada durant e o século XIII, os cavaleiros assumiam cada vez mais
frequentemente posições d e defes a, sobretudo qu a ndo desmontados; d o mesm o
modo, a infantaria, que tradicionalmen te gostava de executar ações d e ataque ,
tendeu, n a transição para o século XIV, a fixar- se mais no t err eno, de p referência
tirando partido das condições naturais deste e at uand o em modo sobretudo defensivo.
Esta evolu ção foi p osteri or mente sedimentada ao longo d e um grande período
de confro ntos armados, importando salientar que a ocorrência d e batalhas campais
era agora mais rara, uma vez que os comandantes medievais dispunham de um leque
mais alargado de opções t á ticas. Assim, o modo d e atuação em campo, a partir do
século XIV, no horiz o nte eu ropeu ocidental, dist i n gue -se em vários aspetos d as t áticas
anteriores, embora não se registe um abandono radical dos modelos pre cedentes . Os
ensinamentos adquiridos em contendas passada s, o recu rso aos mesmos ‘manuais de
guerra’ e a perm anência de grupos mais profissionalizados (como os mercenários ou as
Ordens Militares) permitiram u ma continuidade na adoção de táticas que s e
mostravam transversais a diferentes per ío dos; é o caso, designadamente dos
“envolvimentos pelo s flancos, dos ataques sobre a retaguarda , das fugas simuladas ou
42
do u so de reservas, tudo recursos mui tíssimos relevantes” e “ver dadeirament e
intemporais” (MONTEIRO, 2011, p. 48).
Entretanto, a guerra medieval acompanhava de perto as reformas políticas e
sociais d os re i nos europeus, servindo inclusivamente os interesses de reforço do poder
monárquico. Po demos apontar o fator económico como um daqueles que m ais t erá
contribuído p ara a evolução dos exércitos nos f inais da Id ade Média. O próprio
fenómeno da guerra con t ribuiu para a criação, e at é especialização, “de certos órgãos
burocráticos associados à administração central (havia que facultar aos exércitos
novos meios financeiros, técnicos e logísticos)” ( idem , 19 9 2, p . 164), n omeadament e
através do desen volvim ento do sis t ema fiscal, t anto n a coleta de impostos (muitos d os
quais destinados exclusivamente ao esforço de guerra) como na gestão e canalização
das verbas. Por outro lado, a necessidade sentida p elos monarcas de dispor de
contingentes especializados e por p eríodos mais alargados não se compaginava b em
com modelos de rec ru tamento cujo alcance abrangia maioritariamente u ma
população de camponeses e de mesteirais sem instrução b élica, sujeitos a serviços
militares d e apenas algumas semanas. Um encaixe f iscal adicional permitiria aos
monarcas a contratação de corpos mais experientes ou até de mercenários, mais
adequados às urgências milit ar es dos reinos e uropeus da Baixa Idade M édia. Dest e
modo, desd e os séculos XII- XIII que “ el dinero se convirtió en el fundamento del
reclutamiento medieval” (GARCÍA FITZ, 1998, p . 2 1), o que per mi tiu substituir p ar te do
serviço militar obrigatório p o r compensações fiscais sob a forma d e impostos (como
por exemplo a fossadeira , no q ue a Portugal diz respeito). Segundo esta perspetiva,
“ todas l as monarquías de Occ ident e pre ferían, en algún caso desde comienzos del siglo
XII, el dinero d e sus súbditos y vasal los a su s ervicio militar directo (…) puesto que los
ingresos así obtenidos p ermitían la co n tratación de co n tingentes p rofesionalizados
mejor entrenados y más efectivos” ( idem , p. 24).
A gestão dos montantes recolhidos com vista ao financiamento da g uerra
permitiu às monarquias especializ a r o sistema de recrutamento, nomeadamente
alargando o tempo de serviço mili tar ob riga tório, e estabelecer ví nculos com os
vassalos a t roco do pagamento de remunerações fixas, como as soldadas ibéricas. De
igual modo, o recrutamento feudal tradicional tendeu a ser comp l et ad o ou mesmo
substituído pelo pagamento de soldos proporcionais à duração das campanhas; assim,
43
“a partir del siglo XIII, en rara ocasión se requería el cumplimiento de este tipo de
obligaciones milit ares si n que fueran compl ementadas con pagos pecun ia rio s ”
(GARCÍA FITZ, 1998, p. 23).
O pagamento de soldos estimu lou, simultanea mente, uma reformulação nos
deveres militares vassálicos, ou seja, os homens - de -armas, a partir do séc ulo XIV, eram
na su a maioria remunerados diretamente pela respetiva Coroa (muitas vezes sob a
forma de um “feudo - renda”), em vez de cum prirem um serviço obrigatório (sem
compensação adicional) ao abrigo d e um vínculo estritamente feudal. Recorrendo
novamente a García Fitz e ao exemplo i bérico, a partir desta centúria “ las fuerzas
procedentes del recl utamiento feudal significaban sólo un cuarto d el total de
caballeros” ( idem , p. 21). Este apagamento d o mod elo de serviço tipicamente feudal
no seio dos exércit os está est rei tamente relaciona do com um crescen do de autoridade
das monarquias medievais sobre os poderes locais e as forças centrífugas. A
centralização do poder na figura do monarca foi sendo consolidada através do domínio
territorial e económico e t ambém pelo controlo da máquina mil itar (tal como
demonstrará a estratégia política de D. João I após a vitória de Aljubarrota). N ão deve,
por isso, estranhar-se uma maior concentração de riqueza nas autoridades centrais
com vista ao f i n anciame n to da guerra, “ lo qu e progresivamente fue d eja nd o fuera de
la escena bélica a otros p oderes intermedios o inferiores” ( idem , p. 25). As mo narquias
europeias criaram mecanismos próprios para sustentar, dentro do possível, toda u ma
estrutura milit ar ; para esse ef e ito, recorreram a “financial contribut i on made by the
nation through t axa tion and grants, partly as su bsidies vote d in assemblies, partly as
loans made, more or les s willingly, by individuals and communities” (ALLMAND, 1998,
p. 134).
Mau grado a recolha de rend im entos fiscais adici onais, a logística necessária ao
cumprimento de u ma campanha militar, ainda que de curta duração, implicava custos
difíceis de suportar. Não apenas era necessário reservar verbas p ara o pagamento d os
soldos, como havia também que providenciar algum equipamento e gara n tir t oda uma
cadeia d e a bastecimento às tropas, a os auxiliares e às m onta das, rigorosamente
calculada. Vejamos alguns preceitos: “Primeira regra: não iniciar a op eração sem
vitualhas garantidas para as primeiras sema nas d e actividade (…) Segunda regra:
racionar com mão- de - ferro a distribuição d os alimentos desde o p ri meiro d i a (…)
44
Terceira regra: em caso de escassez de alimentos, tornava -se necessário ir às forragens
na região circundante; ora, isso era sempre ocasião para emboscadas ter ríveis, pelo
que tais missões d ever iam ser convenientemente or ga n izadas e os forrageadores
acompanhados por escoltas poderosas” (MONTEIRO, 2010, pp. 214 - 215).
O elevad o custo n a manufatura de armamento bélico defen sivo e ofensivo (em
es pecial na obtenção de ferro e no f abrico do aço) não permitia ao poder central
garantir equipamento à generalidade das t ropas. Por conseguinte, os cavaleiros
assumiam às suas próprias custas a aquisição das defesas de corpo e do armamento
ofensivo, de forma mais ou menos completa. Aos peões, exigia -se que se eq uipassem o
melhor que p u dessem, tendo em conta a sua f ortuna. Mesmo em fin ais d a Idade
Média, com a crescente tendên cia para o fornecimento de algumas arma s aos
combatentes arrolados, o equipamento co rria o risco d e degradar-se com o tempo ou
de acabar por ser u tiliz ado no quot i diano para fins pessoais; no caso dos atiradores
(besteiros e arqueiros), a necessidade de se adestrarem regularmente no manejo das
suas armas (em espec ial da besta) obrigava a algu ns cuidados a crescidos de
manutenção do equipamento. Neste quadro, tornava -se indispensável a recolha de
todo o equipamento deixado em campo pelo inimigo após um confronto vit ori oso, o u
na sequência da tomada de eventuais armazéns de armas, sempre que era
conquistado u m castelo ou uma praça; esse espólio configurava um recurso
inestimável no que diz respeito à reciclagem do armamen to dos vencedores.
Ainda no que respeita aos preparativos da guerr a, uma calendarização precisa
nunca deixou de se revelar problemática. Não apenas o eventual p rolongamento do
confronto, ou de uma campanha, representav a um agravamento fina nceiro, como
seria também frequentemente impraticável no decorrer das est ações do outono e do
inverno. A guerra medieval man teve, pois, o seu perfil p refere ncialmente sazonal
durante toda a Idade Média, lim itando os empr ee ndimentos mil itares a apenas uma
parte do ano – aquela que abrangia os meses mais quentes e menos chuvosos
21
.
21
Como exemplo, recordamos o pedido do C onselho d e guerra castelhano a Enrique II, para que est e
adiasse um a campanh a militar, justamente por razões d e logística e de calend arização : “nom teer as
suas gente s p res tes, e is so meesmo dinh eiros pera paga dos solldos e corregimentos que lhe eram
necessarios, desi por o in verno qu e sse seguia: assi que por esto e por outra s cousas que cad a hũu
mostrava a sse nom faz er, eram todos em accordo q ue el -rrei espaça sse esta gu erra at aa o veraão q ue
havia de vĩir” (CDF, cap . LXX, p . 246).
45
No que d i z respeito a o recru ta m ento militar encontramos, na viragem para o
século XIV, em vigor t rê s sistemas distintos: o que obed ece ainda a vínculos feudo -
vassálicos; o serviço obrigatório (nomeadamente da população concelh i a); e o regime
de voluntariado (que permite o arrolamento d e mercenários e de tropas externas).
Ainda q ue – como d i ssemo s – o sistema vassálico most rasse claros sinais de
decadência, podemos ain da reconhecê-lo n a composição de pequenas hostes
senhoriais e das guardas pessoais da f i dalguia, ou até do monarca. O sis tema de
mobilização obrigatória ao serviço do Estado, p or seu lado, correspondia agora a uma
tentativa d e normalização do recrutamento con c elh io, devidamente aco mpanhada por
um controlo q uanto ao número e quanto ao equipamento das tropas (tornando as
revistas/inspeções cada vez mais frequentes), remunerando-se o serviço
extraordinário através do sistema de pagamento de soldos. O regime d e voluntariado
relacionava-se com o lado mais sombrio da guerra, mostrando como a guerra pod i a
constituir um podero so fato r de redistribuição da fortuna, pois era uma tentadora
fonte rendimento que se tradu zia em riqueza, ou seja, “una act ivida d económica que
sustentaba todo u n modo de vida b asado en el botín, la rapiña, el cautiverio, la
extorsión, los repartos d e tierras de spués de una anexión territorial” (GARCÍA FITZ,
1998, p. 26 ). Apesar de a atividade marcial representar elevados riscos, “ war was a
business like any other, whose re wards compensated for its dangers (...) the p rospect s
of profit and self-improvement were in the forefront of th ei r minds ” (ALLMAND, 1998,
p. 31).
As hostes régias i ncorporavam, com maior frequência, grupos de carácter
militar per m anente e especializado. Referimo-nos con cretamen te às Ordens Militares,
com especial impacto desde meados do século XIII (designadamente na Península
Ibérica e, claro, na Síria-Palestina) e aos inevitáv eis mercenários. Esta articulação entre
os meio s de mobilização obrigatórios e os métod os contratuais traduzem -se naquilo
que Gouveia Monteiro descreve como um “equilíbrio entre a guerra feudal e as novas
formas baseadas no recrutamento de uma infantaria mer ce n ária” (MONTEIRO, 1992,
p. 148). Não devemos aind a ignorar que, espe cialmente a partir do s éculo XIV, os
reinos europeus mantinham grupos d e milícias em serviço p ermane nte (embor a não
se p ossam considerar ainda como trop as p rofissionais) , d es empenhando
52
especialização da guerra, assumindo eles próprios a obrigação d e adaptarem o seu
desempenho às novas circunstâncias. Para o c on seguir, precisariam de ob edecer a
uma aprendizagem t e órica e prática, através do exercício das armas e do
conhecimento de alguma didática militar.
Os cavaleiros, n a su a maioria, tornaram -se elementos mais bem preparados,
mais adestrados. A formação começava ainda q uando moços, as sumindo o papel de
escudeiros, e só “passavão a Cavaleiros, qu a ndo d epois d e algũa batalha, successo, ou
encontro militar, eram armados Cavaleiros pelo s Reis, ou pelas p essoas, a quem elle s
para isso davão commissam, qu e ordinariam ẽte erão os Ricoshomes” ( SAMPAYO,
1676, p. 160). N o seu percurso formativo, no seio d a nob r ez a, verific ava -se algu m
contacto – ainda que provavelmente modesto – com f ontes narrativas e com
conhecimentos acumulados de arte militar, sendo certo que só aqueles que
frequentavam as cortes ré gias e senhoriais, ou então os castelos e as comendas das
ordens militares, podiam ter a possibilidade de escutar a leitura em voz alta de obras
com algum conteúdo bélico: por exemplo, as aventuras d os grandes heróis da
Antiguidade (com o um Alexandre M agno ou um Júlio César), os romances artu ria nos, a
Epitoma rei militaris de Vegécio (diretamen te ou através d e Gil de Roma ou de Cristina
de Pisano), alguns tratad os de d ireito bélico (como a Árvore das Batalha s , escrita pelo
beneditino Honoré Bouvet), ou ainda – se pensarmos na Península Ibérica – certas
obras de re sso n ância b él ica da autoria de escritores como o re i Afonso X ou o grand e
magnata e fronteiro de Múrcia, D. João Manuel (MONTEIRO, 2017b, p. 183).
A instrução militar, no plano teórico, não seria frequente, em part e pelo
elevado custo em constituir bibliotecas, mas t ambém pelo acentuado grau de
analfabetismo que existia entre a f i d alguia. No entanto, pelo menos ao nível do
comando d as tropas, um bom conhecimento dos preceitos d a arte militar era
determinante para o sucesso de qualquer empresa; afinal, tal como prudentemente
descreve Gil de Roma , “ el arte dela cavalleria pertenesce ala prudencia o ala sabiduria.
E estas dos cosas son ayun tadas en uno con la c avalleria ” (ROMANO, livro III, parte III,
cap. I, fol. CCXXI, p . 450). Po r outr o lado, a componente p rática não c onsiderava o
treino coletivo (excetuando, talvez, o caso das Ordens Militares, em esp ecial nos
ingratos ce nários de guerra na Terra Santa); assim sendo, “a aprendizag em prática da
guerra f a zia- se através de certas actividades param i lit ares que p r eenchiam o
53
quotidiano da nob re za, e de qu e deveremos destacar a caça, a esgrima e certos jogos”
(MONTEIRO, 2017b, pp. 152 -153); entre esses jogos devemos realçar sobretudo as
justas e os torneios
24
. A dedicação dos cavaleiros a u ma melhor f ormação t e órica e à
aprendizagem d os novo s modelos de combat e (por exemp l o: a execução d a carga a
cavalo, ou a su a neutralização) podia dotá- los de uma maior versatilidade. Tal como
observou John France: “The great value of the k night was an all -round trained warrior
and he could be deployed on horseback or foot according to circumstances” (FRANCE,
2009, p. 156).
Apesar do treino e da versatilidade da cavalaria , que viriam a incrementa r -se a
partir do século XIV, o desfecho de uma batalha campal dependia “e m larga medida da
solidez do respetivo comando e da d iscipli na ou indisciplina dos cavaleiros nob r es, cuja
impetuosidade e individualismo se encarregavam, com frequência, de deit ar tudo a
perder” (MON TEIR O, 1992, p . 154, com base em Claude Gaier: 2009). Este seria um
dos principais desafios dos comandantes med ievais no decu rs o de uma peleja: a
disciplina das suas tropas. Um f ator que p odia contribuir para a coesão e par a
obediência d os subordinados decorria d a disposição dos h omens em campo,
principalmente quando est es est avam posicionados de f or ma fixa no terreno, em
posição defensiva; neste cenário , as su as manobras não favoreciam os ímp etos
individuais (mu i t as vezes balançando num jogo de vida - ou -morte), nem manobras
precipitadas.
A or ganização das hostes medievais do século XIV, e ainda em in ícios do século
XV, respeitava geralmente uma dist ri b uição em quatro sec tores, a vanguarda , as alas ,
a retaguarda e a carriagem . Sucintamente: i) na van guarda concentrav am -se muitos
dos melhores homens- de -armas, competindo-lhe geralmente agu e ntar o esforço
principal d a luta, raz ão pela qu a l er a chefiada p e lo comandante operacional da hoste;
ii) a função principal das alas consisti a na p roteçã o dos flancos e na d esorganização da
formação adversária através de um tiro imp i ed oso sobre a massa inimiga em
movimento, podendo, neste caso, as alas estar ligeiramente avançadas relativamente
24
Christop her Allmand considera estes e xercícios paramilitar es como uma alternativa à gu erra, tendo -se
tornado ev entos populares e que permitiam demonstraçõe s d e b ravata, as me smas que, sup ostamente,
seriam depois evid enciadas n as batalhas: “ The to urnament was almost an alternative to active war,
since it could c ertainly be as dangerous; to oth ers, th e jo ust provided op portunities bot h for achieving
fame and practising th e skills associat ed with the han dling of weapons ” (ALLMAND, 1998, p. 97).
54
à vangu arda; iii) na reta guarda, geralmente chefiad a pelo mon a rca e colocada umas
duas ou três centenas de metros atrás (para po der acompa nhar o combate e socorrer
as linhas adiantadas em caso de necessidade), era colocada uma p ar te d os melhores
homens- de -armas; iv) quanto à carria gem , posicionava-se ainda mais para trás da
retaguarda, ficando gu a rdada por “uma peonagem rija e apoiada por alg uns atiradores
a proteger (muitas vezes em círculo ou em quadrado) o trem de ap oio (gado ,
munições, vitualhas, etc.) e o pessoal não - combatente” (MONTEIRO, 2010, pp. 1 73 -
174).
Este sistema foi continuadamente adotado por trop as q ue seguiam aquilo a
que temos vindo a chamar de «modelo tático inglês», embora apre s entasse uma certa
flexibilidade quanto à sua d isposição e composição, tendo em conta o número de
homens com que se combatia, o número de linhas (ou “azes ”) em que estes se
dispunham, ou até a d i stribuição específica das tro pas disponíveis pelos d iferentes
corpos táticos, normalmente adaptados ao tipo de t erreno. Apesar de as hostes que
recorriam maioritariamente a cavalaria montada adotarem a mesma disposição em
vanguarda, alas e retaguard a, os exércitos de inspiração francesa preferiam
geralmente formar linhas de ataque su cessivas, “e scalonadas u mas atrás d as outras a
intervalos regulares e, na maior parte dos casos, mont a das” ( idem , p. 174); tal era tido
como mais ad e quado a um ataque de cavalaria pesada , recorrendo-se sobretudo ao
poder de choque, mais eficaz quando executado em investidas contínuas,
necessariamente compactas, coordenadas e adequadamente temporizadas, d e modo
a su rtirem o efeito esperado. No caso da Pe nínsu la Ib érica , como veremos no próxim o
capítulo, est es modelos seriam mimetizados com uma certa fidelidade, consoante as
tropas au xiliares estrangeiras (quando p resentes) f ossem inglesas ou francesas, um
fator determi nante p ar a a adoção de um modelo de combate mai oritariamente
apeado ou, pelo contrário, montado.
Insistimos, porém, que a adaptabilidade a novos modelos de combate não
implicava necessariame nte uma ad oção radical de novas formas de conduzir a guerra.
A tomada de lugares e a conquista territorial exigiam o mesmo esforço e dedicação,
com vista a alcançar os ob je tivos da maioria das empresas militares. Nesta medida, a
importância d as fortificações, d as operações de assédio e das medidas de d e fesa
territorial (como, p. ex., a tát ica da «terra queimada»), mantinha -se na ordem do dia.
55
A política de abastecimento dos castelos, a construção e reconstrução dos muros para
defesa urbana e a manutenção de contingentes em serviço d e atalaia per manente ,
estavam em p l en o vigor nos finais da Idade Média. Isso motivou algumas inovações na
arquitetura militar europeia, nomead amente n o que diz respeito aos segu i ntes
aspetos: construção d e torres (incluindo a adoção d a planta circular, como os
châtellets : M O N TEIRO, 2017b, p . 164); reforço das li nh as de t i ro (concentradas n o
cimo d os panos de muralha) e generalização do recurso a matacães (veja -se o caso d os
mâchicoulis , que constituíam como que balcões corridos a toda a volta dos torreões
( ibidem ); as barbacãs; gu arnição dos caminhos de ro nda, completa dos com guaritas
nas zonas que não dispunham d e torres; reforço dos embasamentos dos muros, para
melhor resistirem ao s trabalhos de sapa; seteira s mais adaptadas ao manejo da b esta;
fossos e valas de água co m maiores caudais; entre outros. Estas adaptaçõ es estruturais
das f ortificações serviam para melhorar o dese mpenho defensivo para o qual foram
projetadas e para se torn arem mais eficazes para suportar o assédio das armas
pirobalísticas, cada vez mais recorrentes e mais potentes.
A introdução das arma s de fogo na arte militar m edieval, a p ar tir do século XIV,
gerou uma série de inovações técnicas que, depois de u m período de certo modo
experimental, acabou por gerar a reconversão de muitos dos equipamentos e modelos
táticos em vigor. As fortificações, como acabámos de referir, tornaram - se mais
compactas e fechadas (t endo reformado significativamente a sua p lanta a part i r d os
séculos XV-XVI: baluartes com dese nho em estrela); e os e xércitos a perfeiçoaram o
domínio da pólvora e recorreram cada vez mais às armas p ir obalísticas nas operações
defensivas
25
(a partir de mu ralhas, de barbacãs, d e terraços de tiro ou mesmo de
25
E ncontramos referências a tro ns (bocas de fogo rudimentares) na segunda metade d o século XIV em
operações de defesa de fortal ezas no reino castelhano, p. ex., no decorrer da guerra civil entre D. Pedro
I e D. Enriqu e : “n om embargan do que do castello tira vom s eetas e trõos” (CDF, cap . XVII, p. 61). Para o
caso po rtuguês d á-se o exemplo da cidade de Li sboa , qu ando em 1381 no decorrer da segunda guerra
fernandina o s hab itantes avi staram uma ar mada de galés d e Ca stela cap itaneada p elo i nfante D. João,
filho de D. Pedro I e Inês de Castro , e logo “começaro m de lh e tira r aos trõ os e viratoões” ( CDF, cap.
CXXVII, p. 450). Durante os conflitos luso -castelhanos de 1383-1385, permane cem as referências a
artilharia para defesa dos mu ros urban os. O episódio do c erco a Almada em 1384 ilustra a utilização de
artilharia simultaneamente n o ataqu e e na defesa das muralhas. Valerá a pena determo -nos na
descrição de F ernão Lop es : “Os da villa semtimdo que elRei [D. Juan I ] e stava naqu ell cadaffai s
[cadafalso/pala nque], como quer que dell nom aviam combato salv o de seetas, hordenar om de lhe tirar
com huũ troõ; e elRei e mfadado, que sse partia pera comer, seemdo n a egreja, desparou ho troom e
deu no cad affais e matou dous ho m ẽ es e ferio tres; (...) porqu e dos troõs q ue os emmiigos queriam
deitar demtro, nom rreçebiam dano, por quamto todos [pedras] p assavom e hiam dar na agua, por aa z o
56
embarcações). Pouco a p ouco, as armas de fogo tornaram -se mais p e qu e nas e
portáteis, de menor calibre, d o tadas de can os mais resistentes e f i nos, o qu e lhes
conferia maior p r ecisão, menor disp ersão de tiro (almas mais lisas) e maior resistência
e cadência de fogo . Is to apenas foi possível at ravés de um aperfeiçoamento no seu
fabrico, passando a art i lh aria pesada a ser f u ndida numa única peça, ao invés d o
método segmentado (a qu e correspondia a m oldagem de tiras de metal pre sas por
meio de aros ou aduelas, à semelhança da construção de barris), passando a ser
dotada “de mun hões (ei xos a meio) e de cavilhas laterais, para poder ser montada em
carretas sobre rodas” (MONTEIRO, 2017b, p. 165).
A artilharia ligeira desenvolveu-se mais tardiamente, já na viragem para o
século XV, altura em que ap ar eceram as primeiras peças portá teis, co m o cano em
ferro forjado e uma coronha de madeira para apoiar sobre o ombro. Com uma
cadência de tiro bastante lenta, por serem peças de carregar pela boca (graças a cargas
de pólvora negra), o alcance destas primitivas a rmas era equiparável ao da s bestas
(entre 150 e 200 metros), perdendo para est as no q ue t oca ao tempo de recarga e a
uma ele va d a sensibilidade n o que respeita às condições atmosféricas: er am
impraticáveis com tempo húmido e chuvoso, uma limit ação que apenas seria
contrariada com o aparecimento das esp ingar d as «de mec h a» ou de «fec ho de
serpentina», no segundo quartel do século XV ( idem , p. 166). Tal como no caso da
artilharia pesada, as ar mas ligeiras foram aperfeiçoadas através de inovações no
processo d e f abrico e n a incorporação d e mecan ismos mais complexos n a sua
constituição, tornando-as peças mais certeiras, mais fáceis de manusear, com melhor
cadência d e tiro e com maior alcance. Se por u m lado, “ men could be killed more
readily ”, por outr o, o poder conferido p elas armas d e fo go não se limitava apenas à
ofensiva, “ the initiative has passed over to the aggressor, it was up to the defender t o
da estreitura do logar. Depois mand ou elRei levar huũ a bombarda que d eitav a huũa pedra que pesava
mais d e çimquo quimtaae s; e a p rimeira pedra que lamçou foi muito b aixa, e nom fez n ehuũ nojo; e ao
segumdo tiro que nom empeeçeo nad a, quebro u de tall guisa, que n om p ode mais ap roveitar” (CDJ, I,
cap. CXXXV, p. 2 35) . Esta “qu ebra” da b ombarda retrata a fragilidad e qu e as pri mitivas peças de artilha
tinham, tornando -as suscetíveis a e stilhaçarem com r elativa facilidad e d urante o seu manu se ament o.
Encontra mos semelhante s referências aos trons e m ou tras localidades tais como Chav es : onde “t ijnh am
huum troom pequ eno e hu ma cabrjta, e as outras armas que a tall defensom perteenc em” (CDJ, II, cap.
LXIII, p. 153); Alm eida : “ pero jouvesse sob relle set e domaa s, e lhe tiras sem com troons e beestaria e o
combatessem ” ( CDJ, II, cap. LXXIII, p. 171) ; Melgaço : “por goarda do fogo e dos troon s” (CDJ, II, cap.
CXXXV, p. 277); novam ente Lisboa: “E stomçe mandou o Mee stre a Lixboa por [pôr] trõos e por [pôr]
dous emgenhos” (C DJ, I, cap. CLXVI, p. 313) , entr e outras.
57
protect himself ” (ALLMAND, 1998, p . 98). A nova arte da guerra trouxe os
espingardeiros e os artilheiros para os campos de bat alha e, sobre tudo, para as
operações de assédio a fortalezas e para as guerras n avais. A época da supremacia d o s
cavaleiros med i evais de lança e espada, articulados com unidades de infantaria
resistente e com corpos de atiradores muni dos de armas neu rob a lísticas, tornar - se -ia,
na Idade Moderna, obsoleta, mas os finais da Idade Média são ainda, claramente, um
tempo d e convivência entre o velho e o novo mod elo. D e certo modo, a Guerra dos
Cem An os documenta esta evolução, uma vez que, após as brilhantes vi tórias in gl esas
em Crécy-1346, em Po i tiers-1356 e (ainda) em Agincourt-14 15, acabou por ser a
França a vencer a disput a, mu ito graças à artilharia pirobalística desenvolvida d uran te
as Tréguas de Tou rs (1444-1446) pelos irmãos João e Gaspar Bureau ( vid e as batalhas
de Formigny-1450 e de Castillon-1453).
Devemos ainda mencionar o d es en volvimento das marinhas de guerra como
um caso algo seme l hante. O recurso cada vez mais frequente a e mbarcações para
afirmações de força e de d omínio naval t eve certa relevância ainda no f inal do p eríod o
medieval. A part ir dos séculos XIII e XIV, as frotas não se limitavam já ao transporte de
tropas de um ponto p ara outro, pelo contrário, eram recrutados homens
especificamente para intervir em operações militares, ao serviço das n aus e das galés.
Como adverte Christopher Allmand, “ war at sea, too, was f ast becoming an essential
part of international conflict ” (ALLMAND, 1998, p. 97). A operação naval mais
frequente, tal como acontecia n as operações terrestres, p rendia -se com bloqueios das
linhas de abastecimento (neste caso pela via marítima) e o assédio a muralhas que se
encontrassem na orla costeira, ou junto a vias flu viais navegáveis. No en tanto, o
confronto n aval entre embarcações envolvia ainda o abalroamento e o combate
corpo-a-corpo, quando estas se juntavam.
A Guerra dos Cem Anos gerou mu i t a atividade náutica entre as costas de
Inglaterra e d e França, à maneira do que aconteceu na Península Ibérica durante os
conflitos luso-castelhanos do século XIV. Esta d inâmica da guerra marítima cont r ibuiu
para uma certa especialização das forças navais de reinos como Castela e Portugal ,
mas também podemos encontrar essa preocupação em Inglaterra e em Itália , onde os
genoveses se convertiam em autênticos mestres navegadores. Com a especializ ação
das operações navais, também as embarcaçõe s sofreram alguns aperfeiçoamentos
58
técnicos (acompanhados d e perto p ela rentabilização da marinha mercante e p elo
fabrico d e diferentes tipologias de embarcações); desenvolveram- se novos mod el os de
abordagem e dotou- se as emb arcações com artilharia pirobalística (recorde -se o caso
dos “berços” portugueses). Com a expan são dos reinos eu rope us além - fronteiras ,
surgiram as verdadeiras armadas de guerra, especializadas e preparadas para o
confronto marítimo e para o apoio a operações de assédio.
A par destas i novações tecnológicas, nota -se uma certa especialização do
serviço de recolha de “informação inteligente” (para ut ili z ar o te rmo consagrado pela
historiografia anglo-saxónica). Esta vertente da gu erra medieval, que J oã o Gouveia
Monteiro e Miguel Gomes Martins têm vindo a destacar n as suas obras, vai ao
encontro de uma inten s ificação das operações marciais e d e um modo d e guerrea r
mais ‘científico’, onde se exigia muito mais cuidado com o planeamento, com a
antecipação d a conduta adversária, com a otimização do elemento sur presa, com o
planeamento de ardis, em síntese, com todo um conjunto de operações que se
acreditava q ue pudess em acarret ar vantagem sob re o inimigo. Para alcançar est e
desiderato, era crucial obter informação privilegiada e, para a conseguir, era preciso
investir na espionagem. A re colha d e informação e a antecipação do movimento
adversário implicavam a organizaçã o de ‘re d es de espionag em’, com os respe tivos
intérpretes a serem d istribuídos por diferentes esferas, desd e as mais altas (as cortes
régias) até ao interior das próprias tropas; espiões , “inculcas”, olheiros, mensageiros ,
prisioneiros, informadores ocasionais (exs.: me rcadores, p er egrinos), entre outros,
todos serviam esse propósito de recolher informação sensível e confidencial, e a
muitos era recompensa d o um tal serviç o. Recorde - se q ue Philippe de Mézières, um
veterano de guerra francês falecido em 1405, aconselhava o rei Carlo s V a gastar nada
menos d o que um terço do seu or çam ento militar em operações de recolh a de
informação (MONTEIRO, 2017b, p. 164).
Claro que a existência e a organização aprimorada deste serviço também t êm
um enqu a d ramento p ol ítico. As monarquias europeias caminhavam em d i reção à
formação de exércitos especializados e permanentes, obedientes à cau sa do monarca,
contrariamente aos ví nculos vassálicos e à trad iç ão da guerra privada, intestina, inter -
senhorial. Para tal, eram con vocad os comandantes destacados pela sua competên ci a
marcial e não tanto pela re levâ ncia da sua linhagem (veja -se o cas o do célebre
59
condestável francês, Bertrand Du Guesclin , c. 1320 -138 0, originário de u ma família
bretã da pequena n obreza); precisava -se de h omens mais d iscip linados, mais
adestrados, mais experientes, mais cuidadosos n o p laneamento das ca mpanhas. Ao
mesmo tempo, era absolutamente vital – com exércitos muito mai s numerosos,
dotados d e equipament o mais sofistica do e dispendioso e com pretensões a atuar ao
longo de todo o ano e m cenários cada vez mais distantes – dispor de uma melhor
estrutura logística e de armamento , que permitisse tirar o máximo partido do imenso
potencial bélico acumulado. No outono da Idade Média entrava -se, assim, num
período em que “a justificação intelectual do monopólio d a força pelos exércitos
estatais, em defesa da res publica , conduzira a um afastamento das conven çõ es
cavaleirescas” (MONTEIRO, 2017b, p. 164).
1.3 – A arte milita r ibérica nos finais da Idade M édia
Como vimos no cap í t ulo anterior, o p adrão bélico do extremo final d a Id ade
Média europeia revelou os indícios da afirmação d e uma nova era na forma de fazer a
guerra. N ã o obstante a con tinuidade de algumas práticas seculares, a afirmação das
monarquias europeias fez- se acompanhar pelo su porte de uma máquina militar cada
vez mais exige n te, mais vinculada ao serviço do Estado e sob a tutela deste. Esta
evolução exigiu alg u mas reformas, rumo a uma realidade que só viria a ser consolidada
na modernidade, com a criação de exércitos permanentes, melhor equipados,
devidamente hierar q uiza dos e mais homogéneos na su a con s tituição. Por ou tro lado, a
generalização, durante todo o século XV, do combate com armas de f ogo romp eu com
muitas das táticas e manobras de campo anteriormente adotadas, ainda que não
tenha i mplicado um abandono total do armamento medievo. O poder de t ir o com
recurso ao arco e à besta, que se d es tacou nos confrontos do século XIV e nos in íci os
de Quatrocentos (recorde-se o esplendor da atua ção d os arqueiros ingleses na b a talha
de Agincourt, em 1415), ainda se manifestou com algu ma assiduidade, mas agora cada
vez mais ao lado do armamento p ir ob alístico, um a realidade que se pode c onstatar n as
campanhas africanas do século XV , ou nos já citados confrontos finais da Guerra dos
Cem Anos (Form ig n y-1450 e Castillon-1453). Na transição para a Idade Moderna, a
guerra t am bém se p raticava de uma for ma mais sub -reptícia e prof issio nal, não apenas
60
recorrendo a uma diplomacia elaborada e c omplexa, mas também graças ao
desenvolvimento d e um sofist ica do serviço de r ecolha de informações possibilitado
pela existência de rede s de espionagem bem organ izadas. O context o ib érico, em
todos estes aspetos, não configurou uma exceção à regra europeia.
Porém, em terras peninsulares, nem todos os preceitos milit ares eram comuns
ao resto d a Eu ropa t a rdo- medieval. Talvez um dos fatores que t e nha contribuído para
uma ce rta diferenciação dinâmica resulte do prol on gado domínio islâmico sobre vastas
regiões da Hispânia. Quando, a partir dos finais do século XI, se in flamou na Europa o
espírito das cruzadas, destinadas a recuperar o domínio cristão sobre a Terra Santa , os
reinos ibéricos estavam animados pela vontade de reaver os domínios territoriais qu e
tinham perdido no interior d a sua própria pení nsula. O clima agu errido era (quase)
permanente, tendo isto moldado “las refere ncias ideológicas que las socied ades
cristianas y musulmana s de la Edad M e dia fueron forjando en torno a la actividad
militar” ( GARCÍA FITZ, 2009b, p. 13 9). Vivia- se, assim, u m a verdadeira ‘cruza da
ocidental’, tendo os limites da fronteira entre cristãos e mu çulm anos sofri do
constantes avanços e recuos até ao ano de 1492, durante o qual ocor re u a queda do
reino de Granada, o último bastião islâmico.
Ainda assim, a estratégia milita r adotada pelos cont i ngentes cristãos não se
distanciava radicalmente d o modo europeu de fazer a guerra, verificando -se uma clara
preferência p or praticar uma guerra de desg ast e, re cor rendo maiori t ariamente a
cavalgadas e a assédios de castelos e d e muralh as urbanas. Os mod elos tácitos
muçulmanos de confronto armado é qu e se diferenciavam dos modelos cri stãos, desde
logo pela presença em larga escala de cavalaria ligeira, os ginetes , mas também pela
preferência por manobr as de envolvimento pel os f lancos e, ainda, pelo armamento
(mais ligeiro) utilizado.
A prática da “guerra guer rea da” era pouco p ropensa à ocorrência de
confrontos d ir et os. A organização de incursões em território inimigo, os fossados ,
pretendia d e bilitar os recursos e o est ado anímic o do adversário, ao mesmo tempo
que se reab as t eciam e enriqueciam as hostes atacantes gr aças aos despojos
alcançados e que se “intimidavam e minavam as forças d os adversários por um
período de tempo curto ou longo, dependendo do ta manho d a hoste que atacava, do
tipo e da quantidade dos danos causados” (BERTOLI, 2016 , p . 26). Esta prát ica era
61
incentivada tanto por cri stãos como por muçulm anos, pois, além d os d a nos infligidos e
do esbulho reunido (em gado, em prisioneiros e em metais preciosos), representava
uma operação d e menor custo e de l ogística mais red uzida, quando comparada com
outras empresas mais extensas e dispend i osas (como os cercos, ou as gra ndes batalhas
campais). Os proventos eram obtidos com relativ a celeridade e compen sa vam os riscos
e as perdas, pelo men os quando os golpes d e mão não permitiam uma reação ofen siva
pronta por parte dos lesados. A obrigação de participar nestas incursões podia ser
substituída pelo pagame nto de u ma taxa, a fossadeira , d e forma a garanti r ao monarca
a con ti nuidade desse tipo de o p erações, através do expediente d a contratação de
tropas mercenárias.
Os assédios a castelos e a muralh as urb a nas visavam sobretudo con sagr ar um
domínio territorial sobre os respetivos t ermos e/ou regiões. A tomada de f ortificaçõ es,
que n or malmente obedeciam a u ma d istrib u ição em rede, ade quada à d efesa das
fronteiras e das cidad es principais, abria caminho à substituição dos poderes
dominantes. Não será irrelevante o facto de algumas cavalgadas, ou fossados,
antecederem as operaçõ es de cerco, justamente para pro vocar o enfraquecimento dos
recursos humanos e logísticos que serviam as fortificações locais. Por outro lado, não
devemos ignorar a eficácia d efensiva da generali dad e destes bastiões (principalmente
enquanto a artilharia não se d esenvolveu o sufic iente para superar essas est r uturas),
motivo p el o qu al er a p r eferível a defesa das estru turas, em vez d o confronto campal :
“ the besieged were aware of their advantages over th e besiegers. Thi s encouraged
military com manders to take shelter in castles” (MARTINS, 2018, p. 219).
Em qualquer dos casos, tanto as cavalgadas e fossados como os cercos pod iam
acabar por desaguar numa bat alha, como aconteceu em Ourique, n o ano de 1139, ou
em Tran coso, em 1385, mesmo que uma das partes não a procurasse
deliberadamente. No entanto, ela podia ocor r er, pelo que devemos con siderar a
batalha campal como um recurso, entre os dema is, ao d is por dos comandantes
medievais, como p a rece ter acontecido em Las N avas de Tolosa (em 1212), nas
margens do Salado (em 1340 ) e, mais tarde, em Aljubarrota (no an o de 1385). Apesar
68
para a natural p r edisposição destes h omens para mudar de campo, se por acaso
alguém, do outro l a do da trincheira, lhes acenasse com um paga men to mais
generoso...
O monarca devia ga rantir o pagamento dos soldos destinados à sua guarda
pessoal e à vigilâ n cia dos castelos, justamente dois serviços p restados em regime de
permanência, reservando um monta nte ad icio nal para contratar mercenários e para
pagar aos vassalos (e mesmo a tropas con cel hias) o tempo de serviço supletivo, caso a
empresa se p rolongasse para além do prazo p revis to. No caso das ordens militares, a
concessão de castelos e de p r opriedade s garantia a sustentabilidade dos hom ens de
armas e a disp o nibilidade dos freires -cavaleiros vinculados às respetivas comendas;
essa era uma forma de retribuição, por parte da Coroa, do serviço prestado pelos
cavaleiros das ordens militares n a defesa e rep ovoamento do reino, espec ialmente em
áreas mais delicadas e conflituosas, como era o caso das regiões de fronteira. Além do
património acumulado, esses homens podiam b e neficiar d e um soldo qu a ndo a
requisição régia exigia a sua presença nos teatros de guer ra.
O serviço prestado pela s ordens militares merece uma especial atenção no que
respeita ao p rocesso da Reconquista ibérica; afinal a su a primeira vocaçã o era p restar
serviço militar em no me de uma causa de fundo religioso. As primeiras ord e ns
fundadas, n o p rim eiro quartel do século XII, p ar a servir n a Terra Santa (cavaleiros d o
Templo e do Hospital), inicialmente em op erações de p olicia mento e de
acompanhamento ou assist ência a peregrinos, converteram -se ao longo do t empo em
unidades guerreiras indi spens áveis nos confrontos armados contra o Islão, tanto no
Médio Oriente como n a Pen í n sula Ibérica. A experiência acumulada, a resposta rápida,
a disciplina, a capacidade d e sofrimento e a obediência (valores potenciados pela sua
vocação monástica) eram aspetos muito valorizados pelos monarcas ibéricos. Desde
cedo que os reis peninsulares atuaram n o s e n ti d o de atrair esses guerr eiros para a
Hispânia, fosse para empreendimentos isolados, nos quais a motivação religiosa e a
capacidade de combate d os freires -cavaleiros se mostravam determin a ntes, fosse na
tentativa para fixar estas ordens em solo i bérico. A co ncessão de v aliosos bens
patrimoniais e d e isenções diversas aponta claramente nesse sentido. De f acto, tanto
Hospitalários como Te m plários (entre outros) viriam a dominar fortalezas e territórios
extensos em todos os reinos cristãos peninsula res. O se rviço pre s t ado na d il atação
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para sul da fronteira cristã -muçulmana f oi determinante para o su cesso da
Reconquista, o que marc ou profundamente a presença destas ordens na Península
Ibérica, mais do q ue em qualquer outro rei n o europeu; também por isso se
man tiveram no terreno mesmo d epois d e expulso da Hispânia o último adversário
muçulmano. Neste con texto, chegaram até a fun dar-se ordens militares d e origem
ibérica, tais como as d e Calatrava (a primeira criada n a Península), de Alcântara ou de
Santiago, no caso castelhano
33
, ou as de Avis e de Cristo (que substituiu a extinta
ordem do Templo c. 1319), no caso português
34
.
Além d e passarem a integrar as hostes régias a partir do segund o quartel do
século XII, “they also had t he capacity to act auto n omously and maintai ned a good
number of fortresses along the b order. Within th em, we can d is t inguis h up to five
groups of combatants: brot herk nights, sergents (or sergeants), mercenaries, vassals of
the corresponding jurisdictions and ‘circumstantial’ comb atan ts” (AYALA M ARTÍ N EZ,
2018, p. 62 ). Apesar do reduzido número d e freires -cavaleiros que i ntegrava estas
instituições (em geral, apenas algumas dezenas), os domínios territoriais e as zonas de
influência qu e lhes eram at ribuídos permitiam- lhes reunir contingentes próprio s, quer
33
Em mead os do século XII sur giam em Castela a s primeiras ordens militares con sideradas h ispânicas, as
quais se distinguiam das o rientais (Templário s e Ho spitalários), por não se rem “ meros apénd ices d e
organizaciones in ternacionales cuy os centros de d ecisión se h allaban fuera de la Penín sula”; assim se
deu início às ordens “ de Cala trava, creada en 115 8 por Sancho III de Castilla e in stitucionalizad a por su
sucesor Alfon so VIII a lo largo de su reinado, y la d e San tiago, en 1170, i mpulsada po r Fernando II de
León” ( AYALA MAR TÍNEZ, 200 5, pp. 79- 80 ).
34
Antó nio de Villasboas Sampa yo faz referência, na ob ra N obiliarchia Portugue za , a o r d ens de cavalaria
precocemente extinta s e que estariam na gén ese de ordens militare s que não tivera m des envolvimento
próprio, como, p. ex., a Ordem da Aza, a Ordem d a Espada, o u a Ordem da Madre Sylva (SAMPA YO,
1676, cap. XVIII, p. 165 e 172). Dev emos ad mitir a existência de ord ens menores, mesmo que não
tenham vingad o: “ other minor orders an d brotherhoods also existed and their military sig nificance in
the wars against Islam was much greater than that of the ‘international’ ones” (AYALA MARTÍNEZ, 2018,
p. 62). Ap esar disso, não podemo s ignorar o facto de as primeiras ordens militares que a tuaram em solo
ibérico (de sde c. 1128) tere m sido as d e matriz orienta l. Már io Barroca aponta a ordem do Templo e a
do Hospital, qu e durante muitos an os fora m “as únic as ordens militare s present es em Portugal :
instituições de orige m intern acional, fund adas no Próximo Oriente, e que ala rgaram a su a actuação até
ao espaço ibérico. Pa ra encon trarmos referências a novas Ord ens é n ecessário avan çar mais de
quarenta anos, até à década de 70 do séc. XII, quan do se começa a detectar a p resença das Ord ens de
origem peninsular” ( BARROCA, 2002, p. 535 ). Co m efeito, p osteriormente àq uelas ordens orientai s deu
entrada no nosso reino a Ordem de Santiago , de origem castelhana, e surgiu a primeira o rdem de cu nho
nacional, a Milícia d e Évora, que deve a sua orige m à inic iativa de D. Afonso H enriques. “Po rtanto, e
sintetizando, a Ord em do Templo encontra-se docu mentada em Portugal a p artir de 1128, a do Hospital
sensivelmente pela mes ma al tura, a d e Santia go desde 1172 e a Milícia de Évora d esde 1175” ( idem , p.
536). Esta última viria a con verter -se na célebre Ordem d e Avis, conforme atesta José Mat toso: “Quan to
aos freires de Évora, vira m au mentados os seus domínios e confirmada a sua função def ensiva n aquela
cidade pela concessão do domínio de Avis, com a obrigação de aí fundarem um castelo . Este domínio
viria a tornar -se a sede da ordem, deixando os cavaleiros de usar o n ome da cidade onde tinham sido
fundado s” (MATTOSO, 1997b, p. 102).
70
em consequência d ireta do domínio senhorial, quer recorre ndo à con tratação
mercenária, sempre que necessário. Podiam ainda mobili zar homiziados ou grupos de
almogávares , à semelhança do que acontecia nas hostes do rei ( MARTINS, 2018, p.
221) . No entanto, in sis t i mos que a prioridade destas ordens era a defesa t erri torial e a
vigilância do esp aço fronteiriço, onde o domínio militar depend i a da tutela dos
castelos, já q ue “ocupar um t erritóri o no século XII equivalia a assumir o contr olo
militar das suas fortificações” (B ARROCA, 2003a, p. 143). É claro que a im portância das
suas operações autónomas, b em como a cresc ente influência d os seus principais
dignitários nas cortes p eninsulares (veja -se, por tod os, o caso emblemátic o de D. Pa io
Peres Correia, mest re dos Espatários em meados do século XIII) também representava
uma ameaça política, considerando até que pelo menos algumas destas ordens
respondiam perante sed es externas; isso permitia “aos Mestres e ao s comendadores -
mores deter as a lcai darias de mu i tas praças importantes, utilizando -as, nos moment os
de maior agi tação interna, como um trunfo realmente poderoso” (MO NTEIRO, 1998 , p.
80). As decisões políticas relacionadas com a cr iação e com o fomento das ordens
militares ibéricas certamente tiveram em conta esses riscos. Por exemplo, em
Portugal, o território mais meridional dos Hospitalários f icou de certo modo entalado
entre duas regiõe s controladas pelos Temp lári os, de modo a mitigar o perigo de
constituição de um senhorio militar d emasia do vasto. Por ou tro lado, aos poucos, a
nomeação dos mestres das ordens passou a ser da responsa bilidade dos próprios
monarcas, “demonstrating the tight control the monarchy had of them” (ARIAS
GUILLÉN, 2018, p. 98); como veremos adiante, os re is dos finais do século XIV e dos
inícios do século XV (co mo , p. ex., D. João I de Portugal) não se inibia m de indicar
membros da família real para tais cargos.
As mesnad as da nob r eza, apesar de não prestarem um serviço militar
permanente, forneciam grupos coerentes de guerreiros relativamente adestrados e
equipados ( “knights wit h family or vassal ties to t he main noble”: AYA LA M ARTÍNEZ,
2018, p. 63), os quais c omp unham, geralmente, o núcleo duro da cavalaria pe sada.
Estes nobres estavam vocacionados para o co mbate armado e dispunham de alg um
treino marcial (adquirido na caça, nas justas ou nos torneios), podendo servir ao lado
de tropas montadas de men or condição social, como por exemplo os cavaleiros-vilãos
dos concelhos. En tre os cavaleiros nobres, ap e nas os mais ab astados eram d otados de
71
recursos para aquisição de um equipament o militar completo e cond igno, ou
dispunham de algum tempo para uma instru ção individual sumária. Os restantes
elementos da nobreza, me smo com o auxílio futuro das solda das e das contias
atribuídas pela Coroa, não reuniam condições para se equiparem convenientemente,
formando gr up os d e cavalaria mais ligeira levemente armada e escudada. Importa
recordar que a simples condi ção d e nobre “não era sinónimo de riquez a ou mesmo de
desafogo económico, testemunham-no, por exemplo, as muitas cantigas trovadorescas
de escárn i o e maldizer que satirizavam os infanções ” (SOUSA, 20 12, p . 67). Ain da que
não fossem invariavelmente nobres, “ knig h ts were drawn from f amilies with some
means and leisure which enable th e m t o train for war – itself a hazardous business”
(FRANCE, 2009, p. 157).
Um out r o grupo com uma prestação militar relevante era o composto pelas
milícias con celhias. Em Portugal (tal como entre “as su as congéneres leo nesas,
castelhanas e aragonesas”: M ARTINS, 2011, p. 20), estas tropas assumiram um papel
muito importante durante a Recon quista . A sociedade concelhia integrava diferentes
categorias sociais e económicas, mas, para efeitos de recrutamento milit a r,
interessam-nos apenas os dois estratos principais da população urbana: os cavaleiros-
vilãos e os peões . Es ta designação, inspirada na terminolo gia bélica e q ue reflete um
ambiente de conflito militar latente , assentava no simples fact o de os pri meiros terem
capacidade para possuir montada, contrariamente aos segundos. Na origem desta
estratificação encontramos uma diferença de rendimentos e de património que
determinava os direitos e os deveres de natureza mi litar, mas socialmente devemos
ainda considerar diferenças “sobretudo de natureza política, jurídica e f iscal ,
consagrados nas cartas de foral e nos f oros municipais” (SOUSA, 2012, p. 74). Era
precisamente nestes foros, ou na legislação local , que se en co n travam estab elecidas as
obrigações dos reside ntes nos concelhos (os “vizinhos”) de prestar s erviço militar,
sempre que este era requisitado pelo monarca.
Os cavaleiros-vilãos , apesar de possu ír em montadas, eram distintos do grupo
social da nobreza e dos terratenentes que compunham as hostes feudais, ainda que
estes fossem proprietários de terrenos agrícolas no alfoz do mesmo concelho. Eram
essencialmente uma oligarquia co ncelhia que exercia cargos de administração
municipal. Inclusivamente, recusavam à no breza f eudal “o direito de habitarem no
72
concelho, a não ser qu e renunciassem a exercer nele os seu s privilégios senhoriais”
(MATTOSO, 1997b, p. 183). Apesar do seu estat uto den tro dos conce lhos não s er
contestado, nem todos s eriam abastados e, se alguns ex ibiam uma certa superioridade
social e económica, confirmada “pelo facto de p ossuírem normalmente armas de f e rro
e, inclusive, armaduras (loriga e capelo) e tendas, de terem escudeir os e dependentes”
( ibidem ), ou tros ap enas dispunh am d a f ortuna mínima exig ida, o que os convidava a
criar laços de solid arieda de entre si, de forma a conseguirem preservar o seu estatuto
social.
Abaixo d estes cavaleiros, a p eonagem que er a recr utada diretamente nos
ofícios e mesteres fornecia um importante conjunto de trop as, apesar de p ar tilharem
as mesmas limitações q ue encontramos nos peõ es das mesnadas nobres: serviço
militar n ão permanente; equip am ento frágil; armamento diversificado e nem sempre
eficaz (não raras ve z es com recurso às ferra men tas utilizadas nos seus própri os
ofícios); tre i n o marcial praticamente inexistente (salvo no caso dos b esteiros do
conto); e mentalidade guerreira p ouco vincada. Ainda assim, compun ha m o grosso das
tropas reunidas pela s hos tes régias. As milícias con celhias eram recru tadas e
comandadas pelas autoridades locais: os alcaides , os coud éis e os anadéis .
No geral, a hoste régia congregava, portanto: mesnadas d a nobreza, onde se
reuniam sobretudo as lanças da cavalaria; milícias concelhias, com os seus peões e
cavaleiros-vilãos; contingentes das ordens militar es, que juntavam os f reires- cavaleiros
aos respetivos dependentes; e grupos pontuais de mercen á rios, de voluntários e/ou de
homiziados. A isto acresce a “in es t imável acção de batedores e exploradores como o
adaíl, o almocadém e os almogávares” (MO NTEIRO, 1992, p. 169), q ue eram essenciais
para orientar o trânsito em segurança de um exército e sa tisfazer as suas necessid ades
básicas (como, p. ex., o alojamento e a alimentação).
Na linha n omi nal de comando deste conjunto encontramos, à testa da hoste, o
monarca, que contava inicialmente com o au xílio do alferes- mor , “um lugar -tenente do
rei, sobre quem recaíam competências, essencial men te, de porta -estan darte e de juiz”
(MONTEIRO, 2003b , p. 217). Este posto manteve -se nos reinos português e castelhano
até às reformas de 1382, ocorridas no qu a dro d a terceira guerra fernandina contra
Castela, que t rouxe a Portugal os exércitos do con de Edmundo de Cambridge ; nessa
altura, como veremos mais adiante, o alferes foi substituído p elo condestável ,
73
assessorado por um marech al . Tanto o alfere s -mor como, depois, o condes tável
podiam substituir o rei no comando das tropas, em caso de au sência d este. Abaixo na
hierarquia encontrava- s e o marechal , uma espécie d e vice-comandante geral, com
grande responsabilidade no domínio da justiça; abaixo dele, supõe -se que as ordens
fossem tran smi t idas sobretudo através dos capitães das mesnadas sen h oriais e dos
líderes das forças concelhias. Desta forma, a cadeia de comando respei tava o vínculo à
luz do qual cada grupo or ganizava os seu s próprios h omens, ou seja, a lideran ça d as
camadas inferiores d a hierarquia militar recaía “on th e political or social leaders of
each such group, which kept their own internal hierarchy and organization” (AYALA
MARTÍNEZ, 2018, p. 65).
Independentemente da fração que estivesse mais represen tada na hoste, a
peonagem era a força militar maioritária. Sem treino bélico conjunto, nem grande
apetência para a guerra (a t e ndência para a deserção p ar ece ter sido grande), est e
grupo compun ha os corpos d e infantaria d es tinados sob r etudo a manobras defensivas.
Em campo, era u m re curso muito util izado para absorver as cargas e as ofensivas
adversárias, fossem elas mo ntadas ou apeadas, e também eram ú teis na luta corpo -a-
corpo, logo após o contacto generalizado das tropas (a chamada “mêlée”). Referimo -
nos aqui às práticas mais recorrentes a que ass istimos du ra nte a Reconquista crist ã da
Península Ib ér ica. Para além d e algumas escaramuças q ue pudessem desencadear
autonomamente no decurso de um confronto armado (sobretudo n a fase inicial), os
peões eram muito utili zados nos assédios d e f ortalezas e muralhas urb a nas, por
exemplo nas mano bras d as máquinas de cerco ou para minar os muros e britar ou
incendiar portas e mu ralhas. Quando sitiados, a sua prioridade era a defesa do recinto,
recorrendo a arma s de arremesso (por p ro pulsão muscular ou neurobalísticas: vide
infra , 1.4.) e a outros expedientes.
Entre os grupos montados d e cavalaria pesad a e ligeira, devem os admitir a
existência de alguma p r eocupação com o adestramento individual . A exercitação do
corpo e o manejo das arma s podiam decorrer d a prát ica de alguns jogos e
divertimentos típicos (embora n ã o exclusivos) da nobreza, como “a braceria, a pela, as
canas, o p áreo, o t avo lado, a quintana, as justas, os torneios e muitos outros ”
(MONTEIRO, 1992, p. 170), sem esquecer a importância que o exercício da caça tinha
para um bom manuseamento d as armas (em especial d a lança) e para u ma eficaz
74
condução d os cavalos. A instrução teórica seria mais restrita, es tando normalmente
reservada aos cavaleiros que f re quentassem a corte, ou às ordens militares; uns e
outros podiam envolver-se na leitura (ou na audiç ão de leituras em voz al ta) de “works
with propaedeutic content: the adventures of the heroes of Antiquity (such as
Alexander or Caesar); the Arthurian legends; the De Re Militari by Vegetius (directly or
through Gil de Roma or Christine de Pizan); so me military law treaties (such as the
Arbre des Batailles by Honoré Bou ve t ); and the writings of Cas t ilian authors, such as
King Alfonso X or the Infante Don Juan Manuel ” ( idem , 2018 , p. 233).
A in s t rução marcial, pelo menos aquela que seria exigida aos comandantes, era
importante para o sucesso d e t odas as manobras milit ares, p ri ncipalmente à medi da
que s e iam intensific ando as op eraçõ es. Mesmo as cavalgadas de curto e d e médio
alcance exigiam preparaç ão e planeamento, reco rrendo -se a informações reunidas por
espiões – em Castela ap elidados de “ barruntes , es culcas , escusoneros ” (ALVIRA
CABRER, 2018, p. 66 ) – ou pelo interrogatório de prisioneiros (muitas vezes captu rados
apenas com essa f inalid ade). Em causa estava, por exemp lo, uma informação rigorosa
sobre os melhores it i n erários, a identificação das áre as mais propícias a emboscadas e
até a localização d os melhores locais para acampamento e para recolha d e forragens
para os a nimais. N o decurso d e uma in c u rsão em território inimigo, uma prevenção
vigilante era f undament al, configurando uma responsabilidade que recaía sobre os
adaís e sobre as “ a t ala yas ” e as “ esc ucha s ” ( idem , p. 68).
Estes cuid a dos visavam sobretudo evitar um contacto direto prematuro com o
adversário, pois tudo se tornaria mais difícil caso fossem apanhados de su rpresa. Como
atrás mencionámos, os risc os que os con frontos campais pressupunham implicava que
apenas se travasse uma batalha em caso de extrema necessidade, o u d e manifesta
confiança na superioridade perante o adversário (sob re este paradigma nos
debruçaremos t ambém no último cap í tulo d e ste trabalho). Este pressuposto era
transversal aos reinos europeus, ond e a p referê n cia pelas cavalgadas e pelos assédios
a fortificações superava , regra geral, a opção pelas batalhas campais. Os mod el os
estratégicos adotados pelos cristãos na Península Ibérica a partir d a segunda metade
do século XI apontam claramente para essa predileção p or “ ambushes and small-scale
fighting ”; já a bat alha “ p layed a secondary role in Christi an expansion strategies ”
(ALVIRA CABRER, 2018, p. 71).
75
No e ntanto, não p odem os excluir a ocorrência de uma batalha campal, fosse
ela delibera da ou inesperada. Nesse caso, o mo delo tático a dotado p elas hostes cristãs
consistia geralmente n uma formação em f ileir as de infantaria e em diversas linhas de
cavalaria pesada (as “a zes”). As primeiras assumiam sobretudo posições defen sivas, ao
passo que as azes de cavalaria rep r ese ntavam a principal força d e choq ue; estavam
preparadas para atacar a posição adversária avan çando em formação cerrada e
segurando as comp ri das lanças deitadas (a citada « lance couchée ») debaixo das axilas.
Esta manobra, geralmente interpretada por p equenos esquadrões de cavaleiros (os já
re feridos “conrois”) que avan çavam p róxim os uns dos outros, era sequencial, ou seja,
as linhas de a t aque sucediam-se de forma cadenciada e, tanto quant o o possível,
organizada, de maneira a varrer o adversário do campo de b a talha e a evitar o seu
reagrupamento.
Estes corpos montados tornaram-se imprescindíveis no terreno de combate ao
longo d os séculos XI a XIII, período d uran te o qual se consolidou e articulou um
conjunto de inovações técnicas p ara in creme nto da sua eficácia, tirando bom partido
“do estribo e da sela alta com suportes atrás e à frente” (MARTINS, 2011, p . 16). Est es
cavaleiros ap e nas se destinavam a executar ma n obras montadas. A sua part ici pação
em combates apeados d inamizou-se sobretudo a partir do século XIV. Até fin a is do
século XIII, Alvi ra Cabrer afirma que, para o caso castelhano, “ we have no record of
battles in which the knights fought on foot” (ALVIR A CABRER, 2018, p. 72). Este
especialista espanhol aponta especificamente para os confrontos contra as hostes
muçulmanas, as quais tinham p r eferência pelos corpos de cavalaria ligeira (os ginetes ),
cujo equipamento mu i to leve lhes permitia manobrar os cavalos mais ráp ida e
agilmente (por vezes até sem recurso a rédea e a estribo). A pouca versatilidade
demonstrada pela cavalaria pesada, que fundamentalmente executava man obras de
choque frontal, levou a que, p or vezes, os contingentes cristãos adotassem o recurso
aos ginetes, uma prática que se manteve nas hostes castelhanas ainda no período
medieval tardio.
No caso p o rtuguês, a guerra obedecia aos mesmos preceitos, tendo perdurado
ao longo de todo o processo da Reconqu is t a, que t ermin ou no reinado de D . Afonso III ,
com a tomada de Faro e das últimas bolsas de resistência mu çulmanas (Loulé , Aljezu r ,
Porches e Albufeira), em 1249- 1250. Ainda que as host es p ortug uesas, ap ós essa data
76
e até Ceu ta (1 415), tivessem p a rticipado em confrontos com o Islã o, faziam -no
geralmente em m odo de coligação (como no c aso d o rio Salado , em 1340) e já não
para defesa ou alargamento das suas fronteiras
35
. Afastada a ameaça muçulmana, a
monarquia iria concentrar- se em dois aspetos: “p or um lado, na de f esa e pro tecção
dos seus súbditos (num sentido lato que incluía também, claro está, a componente
militar), com o objectivo de garantir a paz do reino; por ou tro lado, n a jus tiça ” (SOUSA,
2012, p. 103). N o reina do de D. Dinis (r. 1279-1325) d edicou-se um especial cuid ado à
fixação d as populações, à est abiliz ação da fronteira e à d efesa interna do reino. Esta
reconversão d e objetivos t alve z justifique algumas propostas avançadas pelo rei
lavrador . Provavelm ente, o monarca preten dia d inamizar as t r opas portuguesas
conferindo-lhes uma melhor organização e eficácia, ao mesmo tempo que otimizava o
planeamento est ra tégico em caso d e conflito. Assinalaremos apenas algumas das
medidas mais relevantes, antes de avançarmos p ara os finais da Idade Média.
Com a diminuição d a ameaça ex t erna e o consequente abrandamento da
pressão sobre as regiões front e iriças, o amb iente f icou menos aguer rido. Deste modo,
a convocação régia para a guerra p asso u a ser men os regular (e menos mar cada pela
urgência), o que t eve um certo impacto n os modelos de recrutamento, tornando -os
mais flexíveis. Acresce ainda o facto de, em parte, estes modelos estarem a f icar algo
obsoletos e carecerem de atualização. O abrandamento da guerra representava ainda
uma considerável redução nas oportun i dades para obter lucros através do saque
(pilhagens, despojos e cativos), o que afetou particularmente o grupo dos mercenário s
e dos voluntários, que dependia da atividade gu er reira para subsistir. Para estes
grupos, a guerra tornou-se menos lucrativa. Por ou tro lad o, os sec t ores qu e tinham
obrigação d e re sp onder às convocatórias do rei, principalmente as milícias concelhias,
demonstravam uma certa i n cúria relativamente aos seus deveres, negligenciando
inclusive a posse de montadas e a manutenção do equipamento. Por este motivo, a
convocatória das milícias dos con cel h os “servia cada vez mais como pre texto para a
Coroa as d ispensar d e imediato do serviço militar efectivo, em tro ca de compen sação
35
As hostilidade s do reino portu guês contra o Islão manti veram -se at ivas até ao termo d a Reconqu ista
ibérica, ainda que os muçulmanos não tenham reo cup ado território em Portu gal após o s meado s do
século XIII. Contud o, ain da n o século XIV, p . ex., D. Fernando (ou Fernão Lopes p or ele) d ava
testemunho do assédio islâmico, referindo que “ el -rrei de Gra[n]ada tem tomad os navios e averes e
gentes cativas d e minha terra” (CDF, ca p. XCIII, p. 330).
77
monetária – a f ossadeira” (MARTINS, 2011, p. 20). Apesar d e esta prática ser
conveniente para um grande número d e concelhos, alguns dos p ri ncipais centros,
como Lisboa e Santarém, mantinham uma raz oável capacidade de mobilização de
tropas.
Para contrariar est a depreciação das forças concelhias, s entida no pós -
Reconquista , foram tomadas medidas para que a capacidade militar do reino não
ficasse demasiado fragilizada. Assim, entre 1299 e 1315- 1316, D. Dinis ord e nou: i) a
atualização dos val ores destinados ao recrutamento; ii) o aumento dos mecanismos
fiscalizadores; iii) a d iv isão das categorias de cavaleiro-vilão e peão em quatro
subcatego rias: “cavalaria pesad a e ligeira, e infantaria pesada e ligeir a” (MARTINS,
2011, p. 22); iv) a criação de uma nova categoria d e combatentes: os besteiros do
conto ; v) o re i est i pulou ainda o tipo de a rmam en to adequado às funções q ue eram
atribuídas aos combatentes. Quando foram implementadas estas ordenações, o
monarca p assou a r ecorrer a alardos (inspeçõe s militares) para garantir a boa condição
dos homens, dos cavalos e do equipamento bélico.
Recrutados entre os h omens casados nos mesteres dos concelhos, os besteiros
do conto formavam uma milícia d e infantaria exclusivamente composta por hom e ns
dedicados ao manu sea mento da besta e q ue “gozavam d e alguns p rivil ég ios (isenção
da jugada, por exemplo)” (SOUSA, 2012, p . 75 ), ainda q ue continuassem a pertencer à
categoria social d e origem, a dos peões. Ap esar de as forças concelhias já fornecerem
corpos de besteiros à hoste régia desde h á décadas, procurava -se agora (com D. Dinis ,
a partir de 1299) obter uma indicação quantitativa proporcional aos recursos
demográficos d e cada povoação, isto é, um conto , ju ntamente com alguma
especialização marcial por parte desta milícia.
A fixação do número exato de combatentes com best a, além de tornar o
planeamento militar mais eficaz e preciso, também servia para limitar o número de
indivíduos com direito a privilégios fiscais e judic iais. A esp eciali zação destes homens
seria garantida através de um treino regular, que decorria normalmente aos domingos
(para n ão interferir co m as at ividades oficinais) e que t i nha l ugar no castelo ou no
“ terreiro ou barr eira (um esp aço público, possivelmente amplo, localizado em cada
unidade de recrutamento)” (FERREIRA, 20 15, p. 164) . A responsabilidade que estas
tropas tinham relativam ente à arma que manejavam, a best a , obrigava todos os seus
84
da Europ a , onde as embarcações manobravam na tentativa d e abalroar o adversário,
para, de seguida, procurar fazer a abordagem; a partir daqui os soldados comb a tiam
corpo-a-corpo dentro das embarcações, de modo semelhante ao q ue faziam em terra.
A intenção d e criar uma marinha de guerra autónoma é de certa maneira
denunciada pela iniciativ a tomada por D. Dinis no sentido da “nomeação do primeiro
almirante português c on hecido, Nuno Fernando Cogominho (talvez em 1307)”
(MATTOSO, 1997b, p. 132). Est e seria destituído dez anos mais tarde e substituído pelo
genovês Manuel Pessanha, contratado em 1317 para desempenhar o cargo de
almirante-mor da frota real
42
. O novo almirante , acompanhado por vinte outro s
genoveses, experientes em matérias navais, estabeleceu -se em Lis boa e, a partir de
então, passou a navegar sempre que as condições meteoro l ógicas o permitiam,
munido d e “uma esquadra de guarda -costa g eralmente constituí da por quat ro nau s e
três galés” (A. S. MONTEIRO, 1989, p. 15). Porém, este aumento na capacidade naval
“d id not mean, however, that merchant and transport ships ceased t o be utilized. In
fact, these made up more than half of the vessels u sed for sea operations” (MARTINS,
2018, p. 215).
As iniciat ivas de D. Dinis t iveram continuidade no re i nado de D. Afon so IV (r.
1325 -1357), o que ajudou a reduzir substancialmente os conflitos armados do reino (a
grande exceção foi a guerra lu s o -castelhana de 1336-1338 ). Talvez tenho sido esse
ambiente que permitiu a D. Pedro I ocupar-se so bretudo d a justiça interna,
circunstância q ue lhe valeu o cognome de O Justiceiro . Contudo, a atividade guerr eira
na Península Ibérica não cessava, envolvendo pontualmente os contingentes
portugueses, fosse na luta contra os muçulma nos (mais u ma vez evocamos aqui a
batalha do Salado, em outubro de 1340), fosse no sup orte aos conflitos internos entre
os reinos cris tãos peninsulares, ao abrigo de relaç ões diplomáticas nem sempre fáceis
e por vezes até contraditórias.
Decorria o reinado d ’ O Justiceiro quando Castela me rgulhou numa sucess ão de
conflitos internos. Teve en tão início uma guerra civil p elo domínio da Coroa entre D .
Pedro I de Castela (r. 1350 -1369), q ue se esfor ça va p or manter o poder no quadro d e
42
Pa ra uma boa síntese panorâmica sobre a evolução da marin ha po rtuguesa na Idad e Média, veja - se ,
por tod os: Luís Migu el Du arte , “ A marinha de guerra p ortuguesa” in M T. Barata e N. S. Teixeira (dir.),
Nova H istória Militar de Portugal , vol. I, 2003a (pp . 289-346).
85
uma p olítica de centralização b astan te sangrent a , e o seu irmão bastardo En ri que de
Trastâmara, que o pretendia usu rpar. Este conflito viria a ter um grande impacto na
política ibérica, envolvendo diversos reinos peninsulares. Por outro lado, com o reino
de Gran a da isolado como um último bastião mu çulmano entre a Ser ra Nevad a e o
Mediterrâneo, o mo vim ento da Reconquista cristã qu ase estagnara. Ten do o monarca
castelhano ce ntrado as suas atenções e recursos n a resolução dos conflitos i nternos,
não dispunha dos meios econ ómicos nem logíst i cos para manter a g uerra em várias
frentes. Pelo contrário, conseguira estabelecer acordos d e tréguas com o “Rei
Vermelho” de Granada, os qu ais perduraram ao longo dos reinados seguintes (o qu e
ajuda a com preender o facto de o domínio absoluto dos cristãos sobr e a Pen í n sula
Ibérica ter sido alcançado apenas em 1492, com os Reis Ca t ólicos). Assim, D. P edro I de
Castela concentrou o seu esforço na proteção e d ef esa da zona de fronteira
43
.
A inst a bilidade política qu e se fazia sen tir em Castela abriu esp aço para o
envolvimento de outros rein os europeus, p ri ncipalmente d a queles q ue tinham
interesses políticos neste conf li t o, nomeadamente a Inglaterra e a França, que então
se digladiavam em plena Guerra dos Cem Anos . Aproveitando uma trégua na guerra
anglo-francesa, ao ab rig o de u m tratado de paz, Carlos V de França enviou para a
península co ntingentes de mercenários chefiados por Bertrand Du Gue sclin (a qu em
mais tarde ser ia a t ribuído o cargo de Condestável do reino da flor - de -l is), com a missã o
de apoiar a ação revoltosa de Enrique contra o seu meio-irmão. A hoste ré gia de D.
Pedro I era, pelo seu lado, acompanhada por tropas mercenárias inglesas comandadas
pelo primogénito do rei Edu ar do III de In gl at erra , Eduardo de Woodstock , príncipe de
Gales, mais con heci do como Príncipe Negro . O in evitável confronto em campo aberto
viria a t r avar-se n o dia 6 de abril de 1367, na região de Náje ra (em Navarra). N o final
da batalha saíram vencedores D . Pedro I e o Príncipe Negro
44
; t odavia, de pouco valeu
43
E sta medida não reflete neces sariamente um aband ono dos ideais castelh anos sobre a guerra santa ,
pelo contrário, “th e ideals derived fro m the Reconquista and the Crusade were ever present in Castile
during th e 14th and 15th centuries” (ARIAS GUILLÉN, 2018 , p. 115). Simplesmente, dura nte o s reinado s
em que Ca stela se viu obrigada a dar especial atenção aos conflitos interno s e ao e nvolvimento de
potências estrangeiras nos seus assunto s internos, deixou de dispor dos re cursos n ecessários para dar
continuid ade, em simultâneo , à g uerra santa . Mas isto funcion aria apenas como u m i ntervalo, pois o
espírito cru zadístico sobrevi ve u até ao momento em que foi p ossível reto mar a Reconq uista e,
finalmente, terminar co m sucesso e ssa empresa.
44
Segund o nos conta Fernão Lo pes, a vitória terá sido as segurada pela presta ção do s dois filhos do rei
de Inglaterra, Eduard o de Woodstock e seu irmão João de Gan te , d uque de Lencastre: “era gram duvida
nom seer el-rre i dom Pedro desbaratad o; e assi mall como o ella foi, se nom fora o grande esforço e
86
essa vitória, pois em março de 1369 o monarca legítimo foi maliciosamente atraído à
fortaleza de Montiel (Ciudad Real, no sudeste de Espanha), onde veio a se r assassinado
pela m ão do próprio D . Enrique. Tinha, assim, realmente início em Cas tela a dinastia
dos Trastâmaras, que obviamente se most r ou devedora grata da Coroa de França, a
quem dispensou um importantíssimo apoio n aval d urante as fases seguintes da Guerra
dos Cem Anos.
A batalha d e Nájera teve um particular imp ac t o no modo de guerrear ibérico.
As t ro pas envolvidas não e ram muçulmanas, p or conseguinte não partilhavam das
mesmas manobras táticas típicas dos ep isó dios da Reconquista. Por outro lado, por
estarem repletas de I ngleses e de Franc eses, também não obedeciam exatamente aos
modelos d e combate praticados pelos cristãos peninsulares. A forma como se
organizaram no terreno, t irando partido das características n aturais que este oferecia;
a maneira como dispuseram os soldados; a importânci a que deram às ar mas de t iro ; a
preferência pelo combate apeado, mesmo entre cavaleiros; ou até a cadeia de
comando, tudo isso eram, d e certo mo do, n ov idades que então se revelaram aos
combatentes castelhanos.
Em Po r t ugal, acabara de sub ir ao trono o re i D. Fernando (r. 1367-1383), q ue,
conforme explicámos n o início deste capítulo ( vid e supra : 1.1.), aproveitou a maré e
cedo se envolveu n a pol ítica castelhana, motiva do por p r etensões à Coroa vizinha, ao
abrigo dos direitos de que dispunha por via da sua ascendência materna. Da sua
vontade de expandir o territ ório português para leste resultaram – recorde-se – três
guerras com Castela (em 1369-1371, em 1372-1373 e em 1381 -1382), o q ue teve um
impacto político e econ ómico bast ante acentuado sobre o reino por tug u ês, abrindo
caminho à Crise de 1383-1385, que analisámos na prime ira parte d es t e estudo. Ora, o
envolvimento de tropas inglesas (pró Portugal) e francesas (pró Castela) n os conflitos
fernandinos introduz i u no reino l usitano as mesmas n ovi dades militares exibidas em
Nájera, em 1367. Apesar d e em Portugal não se t erem travad o v erdadeiras b atalhas
durante o reinado d ’ O Formoso , record amos que as t ropas portuguesas, sobretudo n a
terceira guerra (1381-1382), foram auxiliadas por mercenários estrangeiros, n a sua
ardideza do principe e d o d uque d ´Alancastro, qu e eram estremado s hom ẽ es d´armas, aind a o
vencimento d´ella esteve em grande aventuira” (CDF, cap. IX, p. 35). Claro que , ao ler esta passagem,
devemos t er em con ta, que uma filha d e João de Gante (D. Filipa d e L encastre ) se to rnou rainh a d e
Portugal em 138 7, ao casar co m D. João I …
87
maioria ingleses; deste contacto n asceriam reformas militares importantes, cujo
alcance se prolongou até para além da I dade Média.
No plano do re cru tamento, a partir do terceiro quar t el do século XIV o modelo
remuneratório das contias ré gias t orno u-se mais min ucios o, designadamente no que
diz respeito às “contrapartid as [militares] devidas pelas «contias» pagas pelo rei aos
seus vassalos” (MARTINS, 2011, p. 17). Com a permanente ameaça de confronto que
se fez sentir durante gr ande part e do re i nado de D. Fernando , a sistematização dos
valores outorgados tornava-se necessária com vista a um plan eamento mais rigoro so.
Por es ta altura, os contingentes da nob reza oscilavam entre as duas e as cinquenta
lanças destinadas ao se rviço ré gio, e “ p a rece claro que o rei, além das «contias»
anuais, p agava [a gora] um sold o durante as campanhas, o que constituía um est ím ulo
adicional” (MONTEIRO, 2017b, p. 169). O sist e ma das contias servia ainda como
instrumento de controlo, para evitar que os vassalos mobilizassem homens
indevidamente no universo concelhio, como parece ter acontecido demasiadas vezes;
isso levou mesmo D. Fernando a ordenar que “nẽhũu fidalgo q ue o ouvesse de servir
com certas lanças nom filhasse por seu n ẽhũu aconthiado dos v ez inhos e moradores
do logar, porque tomando taaes hom ẽ es por seus ficavom poucas gentes do con celh o
pera servir”. Para o f a zer cumprir, “mandou poer em escripto quantos mancebos
aazados e de bõos corpos ouvesse em cada v illa e lo gar, posto qu e vivessem po r
solldada” (CDF, cap. LXXXVII, p. 303).
Valerá a pena determo-nos u m pouco mais em Fern ão Lopes , no que respeita
ao recru tamento d u ran t e este reinado. Pouco dep ois de ser co roado como rei de
Portugal (em janeiro de 1367), D. Fe r nando “mandou logo per todo seu rre i n o que
soubessem parte quaaes poderiam t e er cavallos e armas e seer b eesteir os e hom ẽ es
de pee” (CDF, cap. I, p. 11); ou seja, incrementou e expandiu o sistema d os
aquantiados concelhios em cavalos e armas. De seguida, r estringiu a distribuição das
“cartas de contia” a os n obres, limitando as mesmas ao f i lho varão mais velho:
“mandou que se nom desse t all carta de contia salvo ao primeiro filho, e mais n om; e
se mo[r] ria o primeiro, ficava ao segundo ou alguum outro que lhe de pois n eçesse”
(CDJ, II, cap. LXXI, p. 168). Com o au mento d a necessidade de mobilização de tropas e
com a contratação mercenária que se verificou no decurso das guerras contra Castela ,
o pagamento de soldos tornou -se mais f requent e; est a remuneração cobria apenas o
88
tempo de serviço mi lit a r ef e tivamente cumprido, sendo indep enden te das c on tias .
Assim, a dinamização do soldo e o (quase) p erm anente estado de guerra forç aram o
rei a tomar medidas económicas gravosas; u ma das primeiras foi a desvalorização da
moeda, “por sa t isfazer aas gran des despesas dos solldos e pagas das cou sas
necessarias aa guerra” (CDF, cap. LV, p. 187).
Em Castela, para o mesmo per íodo, D . Juan I (r. 1379 -1390) procurava, em
resposta, gara ntir u ma rápida mobilização de combatentes p ar a intervir em Portugal e,
ao mesmo tempo, assegurar a d efesa d a fronteira com Granada
45
. O vínculo ao rei
ainda man tinha u ma inspiração feudal e era recompensado através de soldadas , mas
demonstrou similaridades com as c ontias p ortuguesas a partir do momento em que as
mesnadas nobre s d esignadas para o serviço militar obriga tório “ received letters of
apercibimiento , which warn ed of the size and nature of the t roops expected from eac h
one” (ARIAS GUILLÉN, 2018, p. 96 ). O que fazia agora a diferença era a relaçã o
expressa entre o valor anual das remunerações e a d isponibilidade para uma
mobilização militar permanente, em condições claramente definidas. A Coroa
castelhana “ d is p onía así de un número de soldados semiprofesionales dis eminados por
todo el reino, a los que s e podía llamar en caso de n ecesidad” ( ECHEVARRÍA ARSUAGA,
200 9, p. 112).
A resposta destes vassalos ao chamamento do re i deveria ser imediata. Em
Castela, o universo de re crut amento milit a r era mu ito mais vasto d o qu e em Po r tugal ,
e existia um aspeto que o nosso reino desconheceu quase por completo até aos
meados de Quatrocentos: exércitos senhoriais muit o poderosos, “capazes de reunir
pelos seus próprios meios, for ças de muitas centenas, ou mesm o milhares de h omens”
(MONTEIRO, 19 98, p . 97 ). Já em Portugal, as me sn adas nobres limitavam -se à ordem
das dezenas… O u seja, existia uma clara vantagem castelhana na m obilização de tropas
de elite, quando comparamos o p otencial bélico dest es dois reinos peninsulares; afinal
de contas, Caste la “he mui grande e avondada de muitas gentes e armas e do al todo
45
Apesar de se terem, como dissemos, estabelec ido sucessivos acordos com os reis granadinos, a
instabilidade p olítica e militar que se fazia sentir e m Cast ela desde o reinad o de D. Pedro I oferecia ao
reino d e Granada uma te ntadora oportu nidade para o ala rgamento das resp etivas fronteira s.
Conhecendo a dificuld ade q ue os reis trastâ maras tin ham em mobilizar tro pas p ara as diferentes
frentes, as força s muçulman as viam no conflito luso -castelhan o o momento certo par a ava nçar contra
um adversário fragilizado, o que conferia alguma confian ça nu ma eventual recuperação d e parte do
território perdido pelo Islão no Al-Andaluz.
89
que lhe f a z mester”, o que n ão acontecia com Portugal, pois no nosso r eino a realidade
era “[muito] pelo contrario” (CDF, cap. CXIV, p. 415).
Após a bat al ha de N ájera (1367), as forças mer cenárias inglesas, gascãs e
francesas que contactavam Portugal e Castela com alguma regularidade acabaram por
influenciar a or ganização d as t r opas dos reinos ibéricos. Um dos exemplo s mais claros
disso é a conversão da nome nclatura das u nidades t áticas; Fernão Lopes dá -nos conta
dessa alteração: “omde sabee que amtigamente em Portugall nom nomeavom nas
batalhas avanguarda nem reguarda nem alla dereita nem ezquerda; mas chamavom a
avanguarda deamteira e a r eguarda çaga e aas allas costaneiras. E depois que o s
imgre(se)s veh erom em tempo d el-Rey d om Fernando como ou vist es, emt om lhe
chamarom estes nomes” (C DJ, II, cap. XXX II, p. 66). Este modelo tático, distribuído por
uma vanguarda, duas alas e uma retaguarda, passou a vigorar nos campos de batalha
portugueses, apresentando aqui e ali ligeiras vari ações.
In dividualmente co n sideradas, estas un i dades pod em apresentar -se d o
seguinte mo do, e muito à maneira europeia ( em especial ingl esa): i) a vanguarda
congregava os melhores h omens d e armas, era a linha da frente de combate e, como
tal, era aqui q ue residia o principal esf o rço e risc o durante a b atalha; a partir de 1382,
era comandada pelo con destável da h oste; ii) as alas, repletas de atiradores com arco
e/ou com besta, serviam como proteção dos flancos, repelindo, por exemplo, ataques
laterais ou manobras d e envolvimento adversárias. Na sua composição, e em teoria ,
deviam somar (em conjunto) o mesmo número de homens da vanguarda: “tamto avia
daver em amballas allas como n a dereita aaz d a avamguard a” (CDJ, II, cap . XXX VIII, p.
85); também pare ce claro qu e as alas estariam normalmente alinhadas com a
vanguarda, ou entã o ligeiramente ava nçadas, para poderem t irar melh or p ar tido da
capacidade de tiro d os atiradores munidos de armas neurobalísticas (incluindo o
célebre longb o w in glês, de que falaremos m ais adiante)
46
; iii) a retagua rda , chefiada
46
Caso as alas onde se d istribuíam os atiradores (que man ejavam arma s com alca nces entre os 100 e os
300 metros, no máxi mo) estivessem mais a vançadas, então poderiam começar a disparar mais cedo. A
principal função destes cor pos era retard ar e cortar o ritmo da progre ssão do ataque inimigo,
provocando a desor ganização da formação advers ária at ravés de um tiro maciço muito inten so
(MONTEIRO, 2010, p . 173). A bater as tropas inimigas tamb ém era o o bjetivo, p or es se motivo , r ecorde-
se, concentravam mais atirad ores n a ala esquerda, principalmente arqueiros, p orque estes tinham u ma
cadência de tiro muito superior à dos b es teiros, fixan do-s e assim a linha de tiro ju nto à lateral direita
dos homen s que atacavam. Durante a investida, tanto os cavaleiros co mo os peõe s apresentavam o lado
90
pelo re i (qu a ndo presente) correspondia como que a uma segunda linha de combate,
disponível para ent rar em ação caso a vanguarda fosse rompida ou estivesse
comprometida; por esse motivo, era colo cada a uma distância prudente da linha da
frente, não exceden do os 200 a 300 metros, d e modo a poder acompanhar
visualmente o desenvolv imen to da primeira fase do combate e a não f icar imped ida de
socorrer a vanguarda e m t em po útil; iv) a c ar riagem que acompanhava as tropas
equivalia ao “trem de apoio” e era re s p onsável pelo t ra nsporte de materi ais (desde os
mantimentos até às armas e munições) e do pessoal não combatente; era disposta
numa posição afastada do combate (para os animais não se sobressal tarem com o
fragor da batalha) e estava protegida por peonagem e por atiradores.
Ao comando destes homens mantinha -se, nominalmente, o mo nar ca. No
entanto, com as guerra s fernandinas , e tal c omo anunciámos atrás, ad equou- se a
cadeia d e comando portuguesa ao modelo inglês. A pr incipal mudança terá ocorrido
em 1381-1382 (terceira guerra fernandina), com a já ci t ada substituição do alferes-mor
pelo condestável e pelo marechal , “tomando tall costume dos ingreses que entom
veherom” (CDF, cap. CL, p. 524). As funções do c on destável não se distanciavam mu ito
daquelas qu e t i nham estado anteriormente atribuídas ao alferes; er a, p o r assim dizer,
a segunda a utoridade no comando d as trop a s, ou, no dizer d e Fernão Lopes, o
“segumdo braço da deffenssam do reyno” (CDJ, II, cap. CLII, p. 318). Sobre ele recaíam
competências relacionadas sobretudo com a mobilização d e soldados, a justiça, o
alojamento e a proteção da hoste, sendo auxilia d o n as suas funções pelo marechal
47
.
De igual modo se verif ic ou em Castela , em 1382, uma reforma deste t i p o
48
, mas nest e
direito do corpo mais vulnerável, por ser dest e lad o que segura vam a arma. Já o escudo era
transportad o do lado esquerdo , garantindo u ma melhor proteção desse flan co.
47
O p rimeiro conde stável port uguês foi o conde d e Arraiol os, D. Álvaro P eres de Castro (irmão de D.
Inês de Castro), segu indo- se -lhe, desde as Cortes de Coimbra de 1385, Nu n´Álvare s Pere ira; no segundo
quartel do século XV, o cargo caiu repetidamente n as mãos da família real ( MONTEIRO, 2017b, p . 173).
O p rimeiro marechal foi Gon çalo Vasques de Azeved o, mas, durante a primei ra metade de
Quatrocentos, o título ficou na posse d a família beirã d os Cou tinhos ( ibidem ). A estas duas dignidades
militares, co mo lembra Fernão Lopes, atrib uíram-se as funções que anterior mente tinham pertencido ao
alferes : “ E sse alguem dis ser quem hu sava an te das cou sas qu e a estes cavalleiros os officios perte ence,
dizee-lhe que fazia todo o alferez -m oo r” (CDF, cap. CL, p. 524 ). Ainda assim, o cargo de al feres
sobreviveu, mas a p artir de agora co m funções meramente honoríficas.
48
Por ord em de D. Juan I, “fez el -rrei alli em Ça mora con deestabre de Cast ella dom Affon sso marque s
de Vilhena e con de de Denia , e fez mariscall da hoste F ernand´Allvarez d e Tolledo , e estes officios nunca
foram dados e m Castella atá aquell tempo” (C DF, cap. CLII, p . 530).
91
caso sob a (óbvia) influência francesa: “[the Castilians] imitated the model imposed by
the Valois dynasty in France” (ARIAS GUILLÉN, 2018, pp. 101 - 102)
49
.
Apesar d es tas mudanças, n es t e período avançado da Idade M édia portuguesa
os segmentos q ue compunham a hoste régia mantiveram -se os mesmos: a guarda
pessoal do rei; as mesn adas nobres; as f orças concelhias; os contingentes d as ordens
militares; e um cresce n te n úmero de tropas mercenárias. Quanto ao grupo dos
voluntários e dos homiziados, perdeu alguma exp ressão: por um lado, os conflitos
luso-castelhanos n ã o envolviam mot ivações religiosas, ao contrário do q ue acontecia
durante a Reconquista, on de serviram muitos voluntários externos; por outro lado, no
caso dos homiziados, a primeira urgência consistia na sua fixação em zonas mais
expostas, as fronteiras, aind a que eles pudessem ser aliciados pela Coroa a vir prestar
serviço em certas campanhas mais delicadas.
Destacaremos ainda a at enção cada vez maio r d i spensada à guarda pessoal do
rei. Em Castela eram agora “ the only per ma nent military contingent of t he Castilian
army” (ARIAS GUILLÉN, 2018, p. 97), tendo o seu número aumentado
progressivamente ao longo dos fin ais d a Idade Média, alcançando as 1.0 00 lanças em
1420. Em Portugal, logo no mês seguinte à vitória de Aljubarrota, D. João I
incrementou a sua gu ar da p esso a l e “hordeno u que amdassem em sua companha çem
beesteiros continuadamente” (CDJ, II, cap. LXII, p. 151).
Apesar de o envolvimento anglo-francês nos conflitos en tre Portugal e Castela
ter alimentado um estado de fricção permanente en tre estes reinos e ter influenciado
algumas reformas mil itare s, a condução da gu e rra n ão se t i nha alterado
significativamente. Mantinha -se uma predileção pela guerra de desgaste, envolvendo
49
A in fluência externa passou também a estar pr esente em aspetos mai s mar ginais da esfera mil itar,
como por exemplo n os gritos de guerra. Com a transposição d os id eais religiosos par a a guerra, no
contexto d aquilo a que temos vindo a chamar de guerra santa , a evocação da d ivindade foi reforçada.
As entidades divina s in tervinham a favor das causas justas e da guerra , em no me de Deus. Esta relação
manifestava-s e at ravés do culto mariano, ou das figuras beatificadas. Por essa razão, na Península
Ibérica, tornou -se tradição e ntre as hoste s cristãs ev ocar o nome de padroeiros duran te os co mbates
contra os muçulmano s, os quais evocavam por Alá . Durante a Reconquista, Santiago era, por excelência,
o mais acla mado. Em ou tras paragens, co mo entre o s cruza dos que serviam na Te rr a San ta , sobressaíam
outros cu ltos, como o de São Jorge , que ganhou popularidade d es de o século XII, principalmente em
Inglater ra , on de e m 1348 ser ia instituída a “ Cavalaria de S . Jorge ” . Podemos recon hecer esta evolução
imediatamente a seguir ao en volvimento anglo -francês na p enínsula. Na guerra civil de Castela , durante
os confronto s que en volveram os mercenários in gleses, verifica mos que as ev ocaçõe s divinas e ram
distintas: “o s da parte d´el -rrei d om Pedro , [gr itavam] Guiana Sam Jorge, e os d´el -rrei d om Henrrique,
Castella Santiago” (CDF, cap. IX , p. 34). Este conc eito s eria exportado p ara o reino português por via da
presença inglesa (MONTEIRO, 2017a, pp. 258-2 67).
92
operações de assédio a fortalezas e cavalgadas, em d etrimento da batalha campal. As
práticas da guerra guerreada , isto é, as ações d e guerrilha, “foram largamente
representadas nas f ontes q ue abordam os confli tos em que os portugueses estiveram
envolvidos entre 1367 e 1481, talv ez até mais d o q ue qualquer outra ativi dade militar”
(BERTOLI, 20 16, p . 25)
50
. A adoção d es ta estrat é gia explica o motivo pelo qual, a o
longo das três guerras fernandinas , não ocorr eram grandes confrontos em campo
aberto, ainda que, algumas vezes, as tropas tivessem estado posicionadas frente a
frente com esse objetivo (como aconteceu em julh o de 1382, na fronteira do Caia,
entre Elvas e Badajoz).
Já n os confrontos navais, encontramos algu ma n ovidade. Durante o conflito
fernandino, as frotas de guerra de ambos os reinos navegaram com b astante
frequência e tiveram u m papel ativo em operações de cerco e mesmo em combate
51
.
Os con frontos navais tornaram-se mais frequentes e p assara m a fazer parte do
planeamento marcial; era a guerra “per mar e per terra” (CDF, cap. XCII, p . 326).
Lembramos que O Formoso orden ou, em 1380, que se fundasse a Companhia das
Naus, para fomentar a marinh a mercante e para compensar todos os qu e tivessem
perdido as suas embarcações, de man eira a que os “seus donos nom caissem em
aspera p obre za” (CDF, cap. XCI, p. 319). Pa ra o efeito, f oi necessário impulsionar a
50
Tomando a s crón icas de Fern ão Lopes como exemplo de uma destas fontes menciona das por André
Bertoli, o cronista é claro q uanto a este procedimento: “E porém buscava outra s manei ras d e guerra e
não por batalh a, cá el -re i Dom Pedro [de Castela ] por muito s qu e mand ara matar, e pelos do reino q ue
sabia que eram d'elle ma l contentes e o desa mavam, não se atrevia a pôr o campo . ” (CDP, cap. XXXV, p.
142), demon strando o permanente receio que as batalhas representavam (ain da mais neste ca so em
que O Cruel n ão confia va plen amente nos seus coman dantes e r espetivos sub ordinados ). Do ou tro lad o
do conflito civil cast elhano, o rei de França acon se lhava a D. Enriq ue de Trastâmara “q ue escusasse
aquella batalha e fezesse gu erra per ou tra gui sa” ( CDF, ca p. V, p. 23). Um do s principai s motivos para
esta advertência rela ciona-se com impr evisibilidade do resultado das batalh as, pois caso in corresse p ela
via do confronto em campo aberto, apenas restava fiar “na merce de Deus que el venceria” ( ibidem ).
51
No s conflitos fernandin os, a Coroa portuguesa apostou no reforço da marinha, aumentad o a frota de
guerra e ord enando u m papel mai s interventivo a estas embarcações. E m Ca stela , foi dada a mesma
importância à marinha de guerra. Constatamos e ste incr emento em episódio s como os que ocorr eram
perto do porto de Saltes, du rante a terceira guerra fernan dina, no qual a f rota portuguesa era já
constituída p or vinte e u ma galés, uma gal eota e q uatro naus, coman dadas pe lo almira nte João Afon so
Telo. Como explicámo s mais acima ( vide 1.1. ), em julho d e 1381, esta armada enfre ntou u ma frota
castelhana qu e par tira de Sevilha ar mada com dezassete galés, comand adas pelo experiente almiran te
Fernando Sánchez de Tovar, t endo as emb arcações portugu es as sido cap turadas, à exce ção de uma gal é
que fugiu a tempo. E sta d errota constituiu um pesado revés para a s forças navais p ortuguesa. Ap esar
deste incident e, em ju lho de 1384, du rante o cerco castel hano a Lisbo a , foram enviad as da cidad e d o
Porto “cinco grand es n aus de guerra, dezassete galé s e d oze naus mais p equenas” (A. S. MONTEIRO,
1989, p. 39) p ara socorrer a cap ital, o que demonstra uma certa recuperação da frota portuguesa num
curto espaço de tempo; rec ursos, ainda assim, insuficie ntes para enfrentar d iretamente uma frota
castelhana qu e patrulhava o Tejo com quarenta n aus e treze galés.
93
construção d e estaleiros, prin ci p almente “e m territórios onde existiam árvores que
povoavam florestas, bosques e matagais nas vizinhan ças de cidades” (R. V. GOMES,
2016, p. 25). A dinamização d a marinha mercante era acompanhada pela valorização
da mar i nha de guerra, embora se re gistasse alguma promiscuidade relativamente ao
recurso a estes dois t i pos de frotas
52
. Na verdade, o rei colocav a os seu s navios de
guerra ao dispor do comércio d o reino, t endo ordenado que as suas naus “entrassem
em esta comp a nhia” (CDF, cap. XCI, p . 323); mas, ao mesmo t empo , o monarca
requisitava as embarcações dos mercadores para finalida des de natureza militar.
Figura 3 - Estale iros de con strução naval em Portu gal entr e os séculos XII e XIV
(Fonte: R. V. GOM ES, 2016, p. 27)
52
Relativamente à tip ologia da s frotas, e m 137 7 D. Fernand o beneficiou “os mercadores, moradores e
vizinhos da cidade de L isboa, q ue mandassem construir na vios com mais d e 100 tonéis, podendo , entre
outros privilégios, ficar isento s do pagamento da d ízima por cortar mad eiras das matas reais ou mesmo
da que era importada, assim como dos direitos dos primeiros transporte s. Ulterior mente, em 1380, é
instituída carta de p rivilé gio p ara os mercadores e moradores na cidade d e Lisboa que construíssem
baixéis e nave s, de menor dimensão, mas com mais de 50 to néis” (R. V. GOMES, 201 6, p. 25).
100
Também o monarca português acalentava o idea l de um exército permanente,
inteiramente controlad o p ela Coroa. Nesse sentido, talvez entre 1399 e 1402,
promulgou u ma Ordenança Certa (como lhe chama Fernão Lopes ) de 3200 lanças, que
deveriam est ar sempre a postos para servir a Coroa: 500 dessas lanças d everiam provir
dos grandes «capitães» (ou seja, d os grandes vassalos régios), 2360 da pequena
nobreza (escudeiros de uma lança apenas) e 340 das Ordens Militares, no seu conjunto
(CDJ, II, cap. CCII, pp. 45 3-454) . No entanto, D. João I lu tava ainda pela afirmação da
sua legitimidade como monarca (tinha dad o início, d e uma forma irregular e
excecional, a uma n ova dinastia), pretendendo simultaneamente afirmar a supremacia
da f igura do rei sobre tod as as forças militares d o reino. Ainda assim, nesta ép oc a
tardia, o princípio da obrigatoriedade do serviç o mili tar “esbarra[va] na escassez de
meios para o pôr em prática” (MONTEIRO, 1998, p. 27).
Considerando a debilidade económica d o reino após muitos anos de co nflito
armado contra Castela, qu ando o rei “da Boa Memória” reativou as contias e atualizo u
os seu s limites, já não voltou a instituir as cartas com valor extensível aos f il hos
primogénitos legítimos dos vassalos do rei, assim que estes nascessem. Com esta
medida, D . João I garantia o serviço milit ar por parte dos herdeiros d os fidalgos
(apenas) quando estes atin gisse m a maioridade, sem que o monarca est ivesse
obrigado ao pagamento das respetivas contias desde o seu nascimento: “e asy pos aos
fidalgos p oucoas ou muytas, segumdo que ca da huu m era. E nam qu e a ouvese o f i lho
como naçesse, salvo depois que ouvese h i dade que podesse servir; e ent a m lhe
asentavam sua contya segundo a quella q ue o pay avya, porem sempre mays pequena”
(CDJ, II, cap. CXXIX, p. 267).
No plano do re cru tamento con celhio, D. João I reforçou as medidas para que os
habitantes dos con cel hos, em função da s u a fortuna pessoal, f ossem obrigados a deter
um certo equipamento militar, que deveriam apresentar em revistas periódicas (os
alardos) e com o qual deveriam obviamente comparecer nos teatros de operações em
caso de convocação para a hoste rég ia. Trata-se, neste caso, d a consolidação do
sistema dos aquantiados concelhios (talvez cinco a dez mil, em todo o território, nesta
época: MONTEIRO, 1998, p. 44), organizados por escalões e sobre os quais recaía a
obrigatoriedade d e p ossuir e de manter armamento e/ou cavalo, de for ma
proporcional ao s respetivos rendimentos. Para maior eficiência do sistema, os coudéi s
101
que controlavam este processo passaram a s er de nomeação régia, p ermanecendo nos
seus cargos durante três a cinco anos; todos os coudéis res pondiam perante um
coudel-mor , que era um alto oficial próximo da corte régia.
Os besteiros do conto mant iver am-se abrangidos p elo sistema implementad o
no reinado de D. D inis, mas for am alvo d e uma nova regulamentação, preparada pelo
infante D. Duarte em 1421. O sistema cresceu d e tal modo que, nesta data, “ there
were approximately 5,000 crossbowmen in Portugal , organized in n early 300
recruitment units ” (MONTEIRO, 2018, p. 227). Os anadéis continuavam a desempenhar
os cargos d e chefia destas unidades, r esp ondendo perante o anadel-mor do rei.
Entretanto, em 1392, D. João I decretara a criação do grupo dos best eiros de cavalo , já
aqui mencionado e qu e tinh a a p ar ticulari dade de const i tuir u ma milícia restrita (talvez
apenas 500 homens) e de elite, uma vez que e ram equiparados a vassalos do rei e
passavam a gozar dos respetivos privilégios.
Redefinidos os sistemas de mobili zação e de remuneração do s erviço militar, a
situação terá f ica d o estabilizada em inícios de Quatrocentos, altura em q ue a hoste
régia voltou a incorporar reg u larment e no seu seio as mesnadas da nobreza e as
milícias concelhias, mas agora de uma forma mais disciplinada e proficiente. Os
mercenários garant iam uma presença relativamente assídua, sempr e que o rei
disponibilizava os res petivos soldos. Quanto às ordens mili t ares, ap esar de a
Reconquista ter terminado h á muito, não podemos minimizar a importância da sua
participação e d o seu contributo bélico: a tutela de f ortale zas (algumas delas
fronteiriças), o armamento depositado nos armazéns d os seus castelos, assim como a
sua p rover bial capacidade de mobilização rápida de contingentes dentro d os
respetivos dom í n ios, t udo isso tornava estes organismos ainda imprescindíveis (e por
isso mesmo a “Ordenação Certa”, anteriormente citada, não os esqueceu). A acredit ar
em Fern ão Lopes, o p r óprio D. João I declarava q ue “ em mynha terra ha quatro
degnydades (honrada s): saber, o mee strado de Christus e o de Santiago e o dAvis e o
Priol do Esprital, que sam asy quatro collunas que sostem a hon rra de meu reyno ” (CDJ,
II, cap . CLXXXIII, p. 395); tal era u m merecido reconhecim ento por p arte do rei
relativamente à colaboração q ue recebera por parte destas Ordens na defesa do reino
durante a sua ascensão ao trono. Daí que o monarca da “ Boa Memória ” tenh a tratado
de col ocar estas instituições o mais possível sob a tutela da Coroa, através dos seus
102
filhos: em outubro de 1418 , o infante D. Jo ão (filho d o monarca e de D. Filipa de
Lencastre) tornou-se Administrador-geral d a Ordem de Santiago; em maio d e 1420,
coube ao infante D. Hen rique assumir o mesmo cargo n a Ord e m de Crist o (que, como
vimos, substituíra a Ordem d o Templo em 1319 e que tão importante p a pel
desempenharia n a expansão ult ram arina p ort uguesa); e, em set embro de 1434, foi a
vez d e o infante D. Fernando se t ornar Administrador-geral da Ordem de Avis, por
morte do Mestre Fernão Rodrigues Sequeira.
Após um período dedicado à estabilização e organização das forças militares do
reino, D. João I preparou-se para novas d emandas marciais, d esta vez além -fronteiras
europeias. O (novo) contexto peninsular ajudou a que isso fosse possível . Assinada a
paz em 1411, progressivamente assegurada a hegemonia crist ã sobre quase toda a
Península Ibéric a e restituída alguma est a b ilidade económica e merca ntil, apesar d a s
enormes dificuldades financeiras e inerentes perturbações sociais, ou t al vez por isso
mesmo, os reinos peninsulares d irigi ram progressivamente as suas atenções para o
exterior da p e nínsula. Aragão deu o exem plo, ao entender o M e diterrâneo ocidental
como um espaço natural de afirmação dos seus interesses comerciais e políticos
(pensemos no domínio da Sicília e do reino de Náp ol es). Nesta nova fase, e no que a
Portugal diz respeito, tiveram início as c ampanhas a f ricanas, que princ ipiaram por
Ceuta
54
, em 1415. Po r ém, com essas n ovas empresas, a Idad e Média chegava pou co a
pouco ao seu t ermo e tinha agora início uma nova época e uma nova f orma de faz er a
guerra; após uma interessante fase d e convivência mútua, a pólvora gr anu la da (com
artilharia em b r onze e arma me nto portátil) e a afirmação das monarquias
centralizadas t ransformariam e suplantariam, len tamente, os velhos preceit os
militares medievais.
54
Acerca da campanha de Ceu ta e sobre o respetivo enq uadramento p olítico e diplomático, numa
perspetiva não apenas cristã, mas também muçul mana , veja-se por todos: Lu ís Migu el Duar te , “ Ceuta
1415 ”, 2015 .
103
1.4 – Armam ento tardo-medieval
As armas de guerra ut il iz adas em P or tugal nos fi n ais da Idade Média eram
bastante variadas e não devem ter dif erido substancialme nte do armamento então
disponível n a maior parte dos reinos europeus. Nesta breve apresentação, que se
justifica tendo em conta o facto d e est e estudo incidir sobre uma gra nde batalha e
pretender averiguar – por meios geofísicos e arqueo lógicos combinados – o
posicionamento inicial de um dos exércitos no campo de b a talha, poderemos começar
por re ferir, sinteticamente as f ontes de que dispomos p ara o estud o da hop l olo gi a
medieval. Para o efeito, recorreremos a um trabalho clássico de Claude Gaier, o grande
especialista belga do armamento de guerra, antigo diretor do Musée d’Armes de Liège
e, depois, Directeur Honoraire du Département «Arme s» d u Grand Curti u s (Complexe
Muséal de Liège, Belgique)
55
.
Segundo Gaier, a primeira dist i nção a ser feita é entre as «fontes arqueológicas
e artísticas» e as «fontes escritas». Entre as primeiras, devemos separar as « armas
propriamen te ditas » dos «testemunhos iconográficos». O p rimeiro segmento inclui as
peças que sobreviveram – raramente intac tas – até aos n ossos dias; trata -se, em geral,
de peças metálicas, uma vez que as armas fabric adas em mad eira, em couro ou em
tecido, por serem feitas de materiais perecíveis , resistiram muito menos à voragem
dos tempos. Assim, podemos, por exemplo, dispor de alg uns punhos ou lâminas de
espada, o u de ferros de l ança, ou de pontas de setas e virotões, ou d e algu mas cabeças
de armas de choque; do mesm o modo, é possível en co ntrar em algumas coleções
museológicas proteções met álic as de cabeça (ex.: bacinetes), ou peça s qu e f aziam
parte do arnês envergado p elos homens de armas mais bem equipados a partir do
segundo quartel do século XIV.
Quanto aos testemunhos iconográficos , são muito variados, podendo agrupar -
se em cinco categorias: a) as obras p ictóricas, como iluminuras, pinturas, desenhos,
ma deiras, gravuras, bordados ou tapeçarias (e aqui é irresistível recordar a esp lêndid a
Tapeçaria de Baye u x, produzid a c. 1070 e que evoca a vitória dos Normandos em
Hastings no ano de 1066); b) a escultura, se ja ela ornamental ou funerária (ex: jacentes
55
GAIER, Claude, “Les Arm es”, in Typolo gie d es Sources du Mo yen Âg e Occ identale , fasc. 34, Brepols -
Turnhout, Virginia, 1979, com « Mise à Jour» e m 1985.
104
de cavaleiros e/ o u de grandes personagens); c) os selos e as mo e das; d) a joalharia; e )
outras f orm as de re pres en tação iconográfica de armas de guerra. Na análise destes
testemunhos, em espec ial dos p ictóricos, alguns d esafios se podem colo ca r ao
historiador: por um lado, mu i tas das peças não são datadas, para alé m de suscitarem
problemas de fiab ili d ade e de i d enti ficação d a autoria; por outro, mesmo quando a
autoria e a data de p r odução de u m documento iconográfico se encontram bem
estabelecidos, o investig ad or precisa de se p reca ver contra os anacronismos históricos:
por exemplo, u m artis ta p odia representar, no século XVI, u m a cena de guerra
medieval alu siva ao século XIII ut ili zando modelos de armamento q ue, p a ra ele, eram
já extremamente ant ig os mas q ue, de facto, pouco tinham que ver com a centúria de
Duzentos, sendo mais próprios, por exemplo, dos séculos XIV o u XV.
Já no que toca às fontes escritas , a variedade é gran de. Claude Gaier distingue
quatro secções: i) f ontes narrativas (e aq ui as crónicas ocupam um lu gar de dest a que);
ii) f ontes literári as propriamente d i tas (pensamos, por exemp l o, n os romances de
cavalaria, ou na literatura cortesã dos f i n ais da Idade Média); iii) fontes diplomáticas ,
onde podemos incluir: li vros de receitas e despesas (de particulares ou de
coletividades q ue se empenhavam em r eforçar as su as provisões de armas) ;
inventários d e salas d e armas e de arsenais d e guerra; t ari fas de peagem ou livros d e
receitas aduaneiras (que nos iluminam sobre a indústria e o comércio das armas
medievais); testamentos (onde o val or material e até simbólico de alg u mas peças
conduz ao se u aparecimento nos legados dos donatários); ordenações,
designadamente sobre porte de a rmas, entre outras; regul amentos c orporativo s e
contratos de a prendizagem de ofícios ou mesteres ligad os ao fabrico das armas (e aqui
recorde-se que os Estados dos finais da Idade Méd ia apoiaram bastante a fixação de
armeiros e a abertura de oficinas p ara eles laborarem: M O N TEI RO, 2001b);
correspondência privada, especialmente entre figuras da n obreza cortesã, com p ode r
de com pra suficiente para adquirir, reparar ou reciclar os seus arsenais de guerra; e
documentos de tipo demográfico; iv) por fim, as f on tes didáticas , onde se in clu em
descrições de armas portáteis, recolhas de máquinas d e guerra, livros d e pirotecnia, e
tratados sobre a arte da guerra, sobre torneios e j ustas ou sobre a caça.
Portugal não será o p aís eu r opeu com uma memória mais rica d e armamento
medieval (quando comp arado, por exemplo, com a Itália , a Alemanha, a Inglaterra ou
105
mesmo a Flandres); a inda assim, muitas das tipologias de fontes que acima
identificámos estão repr ese ntadas no nosso território, p ara o período medieval. Por
exemplo, dispomos de um conjunto de, pelo menos, cerca de duas ce ntenas de armas ,
grande p a rte das quais foi exib i d a n o Museu Nacional de Arqueologia e, logo a seguir,
na Igreja d e São Tiago do Castelo de Palmela, no âmbito d a exposição «P era Guerrejar.
Armamento Medieval no Esp aço Português», organizada em 2000, sob coordenação
de Mário Jorge Barroca, João Gouveia Monteiro e Isabel Crist ina Fernandes. Tratou -s e
de uma mostra que re uniu apenas peças or iginais, em qu a ntidade expressiva (180),
oriundas d e mu seus militares e da marinha, de museus nacionais, d e câmaras e
museus municipais e regionais, de campos ar queológicos (com o, p. ex., o Campo
Arqueológico de Mértola) e pro vin dos d e escavações arqueológicas (como, p. ex.,
Silves, Mértola, Palmela, entre outros) e até d e algumas coleções particulares. Foi, até
hoje, a única grande exposição museológica de material de g uerra por tuguês (desde o
século XI até ao século XVI), in cluindo armamento defensivo e ofen sivo, máquinas de
guerra/bocas- de -fogo, adereços de montar ou de cavalgar e a d o rnos diversos
associados às práticas bélicas. O volumoso Catálogo (434 págs.) que lhe servi u de
suporte e de memória futura d á conta do trabalho desenvolvido com cada uma das
peças que foram ex p ostas e o estudo t écnico intensivo a q ue elas foram sujeitas
56
:
medidas, pesos, materi ais, proveniência e itinerário, l ocalização atual e número d e
inventário, descrição detalh a da, comentário ci en tífico e indicação de bibliogra fia.
Algumas das peças for a m restauradas (designa damente no Museu Monográfico de
Conímbriga) e m uitas tiveram as suas classificações e descrições museológicas
profundamente re vis t as e atu alizadas, mesmo quando isso representou o desfazer de
velhos mitos (foi o que su cedeu, por exemplo, com a chamada “Espada de D. Af onso
Henriques”, do Museu Nacional Soares dos Reis, mas em depósito no Museu Militar do
Porto ). Além disso, o Catálogo desta exposição inclui seis estud os prévios de
hoplologia medieval (a cargo de quatro esp eci alist as p ortugueses e um esp anh ol:
Álvaro Soler del Campo), p ara além de um vasto dossiê iconográfico, com reproduçã o
de imagens medievais peninsulares associadas às p ráticas guerreiras e que con s tituem
uma fonte de grande import â ncia. Neste particular, merecem um destaque especial as
56
BARROCA, M. J.; MON TEIRO, J. G. & FERNANDE S, I.C.F. , Pe ra Guerrejar. Armamento Me dieval no
Espaço Português , Câmara Municipal de Palmela , 2000.
106
chamadas Tapeçarias d e Pastrana (Colegiada de Past ra na, Guadalajara , possivelmente
fabricadas em Tournai, Flandres, a partir de um cart ã o da oficina de Nuno Gonçalves
produzido na segunda metade do século XV) e os Painéis de São Vicen te de Fo r a
(Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa – obra de Nuno Gonçalves, executa da cerca de
1470). Atualmente, no âmb ito d a su a dissertação de d outoramento (orientada por
Vítor Serrão), Inês Meira Araújo (que no seu Mestrado se ocupara já das Tap eçarias de
Pastrana) está a d esenv olver um estudo especializado sobre re presen tações da gu erra
na iconografia portuguesa dos finais da Idade Média e dos inícios do Renascimento
57
.
Figura 4 - Estátua d e D. Afonso Henriques, Santar ém finais do séc. XII - Mu seu do Carmo, Lisboa
Túmulo jacen te de Lopo Fernand es Pacheco (1349) Char ola da Sé de Lisboa (foto s do autor)
Mas Portugal também dispõe d e peças escultóricas importantes, como o relevo
da Sé de Évora (do século XIV, que re presenta Geraldo- Sem -Pavor a c om bater os
Mouros), de jacentes belíssimos (como o de Lopo Fernandes Pacheco, de 1349, situado
na Charola da Sé de Lisboa ), de túmulos como o de D. Duarte de M enese s (datáve l d o
terceiro quartel do século XV e patente na Igreja de São João de Alporão, em
Santarém), de arcas tumulares como a d i ta de D. Bran ca de Sousa (século XIV, Museu
de Lamego), de estátuas como a de D. Af o nso Henriques (Museu d o Carmo, Lisboa , de
finais do século XII, p r oveniente de Santarém), de estátuas -jacentes como a do célebre
57
ARAÚJO, In ês Meira, Imago in be llo. As representaç ões da guerra no Po rtugal tardo-medieval e
renascentista . Estima -se que este estudo (produzid o no âmbito do programa PIUDHi st) fiqu e concluído
durante o ano letivo de 2018 - 2019 .
107
«cavaleiro medieval» Domingos Joanes (de Mestre Pêro, 13 41, Museu Nacional
Machado d e Castro, em Coimbra , e Igreja de Oliveira do Hospital), d e belos capitéis
historiados (como o do M osteiro de Celas , em Coimbra, d e inícios do século XIV, que
representa São Tiago a c ombater os Mouros), ou d e retábulos lindíssimos (como o da
Igreja paroquial de Eira Pedrinha, Coimbra, policromático e datado por uma in scriçã o
de 1398 que mostra São Jorge equip a do como um cavaleiro a combater um dragão).
Sem pretender ser exaustivos, acrescentaríamos que existem também boas coleções
de selos no In s t ituto d e Pal eografia e Diplomática da Faculdade de Letras da
Universidade d e Coimbr a, alguns dos quais com evidente interesse do ponto de vista
da hoplologia
58
.
Também ao nível das fontes escritas, Po rtugal dispõe, em matéria d e
armamento medieval, d e um património não despiciendo: d esde as crónicas de
Quatrocentos (em especial as de Fernão Lopes , um dos grandes cronistas europeus do
seu tempo, mas também as d e Gomes Eanes de Zurara , para os cenários africanos) até
à lit e ratura didática dos chama dos «Príncipes de Avis », com destaque para o «Livro da
Montaria», de D. João I (uma obra sobre a caça ao porco montês) e par a o «Livro da
Ensinança d e Bem Cavalgar Toda a Sela», de D . Duarte (um verdadeiro tratado de
gineta)
59
. Entre as fontes diplomáticas, algumas há que merecem atenção, como certo s
testamentos já conhecidos, entre os quais o de Pedro Ferreiro, d e 1225: ali se refere a
posse de uma besta, de uma loriga, de sap a tos de ferro, de u m capelo de ferro, de um
escudo, de u ma lança, d e uma espada, de um perponte e ainda de duas best as de
corno com uma aljava repleta de setas, com isso explicitando qual seria o equipamento
militar possuído por um guerreiro português (que foi b esteiro do rei e q ue serviu o
monarca no cerco de Mont emor, em 1212) na transição do reinado de D. Afon so II
para o de D. Sancho II (BARR OCA, 2003 a, p. 132). Já a questão do p orte e da utilização
(devida ou indevida) de arma s transparece em mu itas «cartas de perdão» outo rgadas
pelos monarcas medievais, as quais f oram exaustivamente estudad as por Luís Miguel
58
COELHO, Maria Helena d a Cruz, SANTOS, M aria José Azevedo, GOMES, Saul António, MORU JÃO,
Maria do Rosário (coord.), Coleç ão esfragística da Faculdade de Le tras da Universidade de Coim bra ,
Coimbra, Reitoria da Universidad e de Coimbra, 2003.
59
D. JOÃO I, Livro da Montaria feito p or D. João I , Rei de Portugal , Academia d as Ciências d e Lisboa , ed.
de Francisco M. E steves P ereira. Coimbra , Impr ensa da Universidade, 1918; D. DU ARTE, Livro da
Ensinanç a de Bem Cavalga r Toda Sela que fez El-Rey Dom Edua rte , ed. crítica de Joseph M. Piel, Lisboa,
IN -CM, 1986.
108
Duarte no âmbito da sua dis sertação de doutoramento
60
. Por fim, o tema do fab rico,
conservação e comercialização das armas merece u alguma aten ção p or parte de Sous a
Viterbo e, mais recentemente, de João Gouveia Monteiro e de Miguel Gomes Martins,
que trabalharam com documentação alusiva à contratação e fixação de armeiros nas
principais cidades portuguesas, assim como à organização d os primeiros arsenais de
guerra portugueses (loc aliz ados em Lisboa e no Porto, ou nas fortalezas das Ordens
Militares)
61
.
As fontes escritas não ilu stram a configuração das armas, ou a forma como elas
eram manejadas (a não ser excecionalmente), mas, comp letando a informação dos
testemunhos iconográfic os, p odem dizer -nos muito acerca dos seus efei t os reais, da
frequência da sua utilização e até do seu uso social.
Apresentadas as fo ntes, e explicitada d e f orma sumária a sua p resença em
Portugal, procuraremos agora sugerir uma tipologia das armas de guerra medievais
utilizadas no pequeno reino lusitano
62
. Julgamo s ser importante – no sentido de expor
uma tipologia inteligível e minimamente raz oável – conjugar as característica s
morfológicas das diversas peças com a forma como elas eram manejadas.
Assim, devemos começar por d istinguir entre «armas coletiv as» e «armas
individuais». No primeiro caso, encontramos quer engenhos de arremesso de pedras
(ou de p r ojéteis de outro tipo, incluindo incendiários), quer armas pirobalísticas (como
os trons e as bombardas, n uma primeira fase, e os f alcões p edreiros, as roqueiras, as
60
DUARTE, Lu ís Miguel, Justiça e Criminalidade n o Portugal medievo (1459-1481) . Lisboa , F.C.G./F.C. T.,
1999.
61
VITERBO, Francisco Marq ues de Sousa, “ A armaria em Po rtugal. Notícia documentada dos fabricantes
de ar mas branca s que exerce ram a sua profis são em Port ugal ” , in Extracto da História e Memórias d a
Academia Real da s S ciencias de Lisbo a , nova série, Classe de Sciencias Mo raes, etc., t omo XI , parte II,
Lisboa, 1907; MONTEIRO, João Gouveia, A rmeiros e armazé ns nos fina is d a Idade Méd ia , Viseu ,
Palimage Edito res , 2001b (em especial pp. 43-60, com Quad ro Sinóptico onde se resume o conteúdo de
carta d e quitação o utorgada por D. Afonso V ao almoxarife do armazém d e Lisboa, Gon çalo Afonso,
sobre o material por este re cebido e entregue ente 1 de janeiro de 1438 e 1 de janeiro de 1448);
MARTINS, Migu el Gomes, A arte d a guerra em Po rtugal (1245 a 136 7) , Coimbra , Imprensa da
Un iversidade de Coimbra, 2014 (p p. 217-267).
62
A síntese que vamos apre sentar já de seguid a b aseia -se e ssencialmente nas seguintes ob ras:
BARROCA et alii , 2000 , passim ; BARROCA, 2003 a, 122 -147; MONTEIRO, 1998, p p. 531 -547; SOLE R DEL
CAMPO, Ál varo , La evoluc ión del armamento medieval en el reino castellano -leones y a l- andalus (siglos
XII-XIV) , Ma drid, Servicio de Publicaciones d el E.M.E., 199 3; MONTEIRO 2017 b (i n História Milita r de
Portugal ), pp. 52 -53, 111- 113 e 17 4-177; e AGOS TINHO, Paulo Jorge Simõ es, Ve stidos p ara matar: o
armamento de g uerra na cronístic a portugu esa de Quatrocentos , Coimbra , Imprensa da Unive rsidade de
Coimbra, 2013.
109
serpentinas e os ber ço s, numa fase já poster ior a Aljubarrota ). Os engenhos de
arremesso de pe dra s suscitam diversas d ificuldades de análise e de reconstituição, por
duas razões principais: primeiro, p orque os cro nistas (geralmente homens com uma
formação mais clerical d o que militar) se lhes referem quase sempre pelo termo
genérico de «en ge nhos», o q ue torna di fícil diferenciá -los; por outro lado, por que
convivem nesta categoria máqu i nas h erdadas da tradição m arcial roma na (como o
ónagro ou catapulta, que funcionava pelo sistema de tor ção de cordas) e máquinas d e
fabrico medieval, designadamente os t rabucos, que tanto podiam ser acionados por
tração humana (c om o repuxamento de cordas p or um grupo de homens bem
musculados) como atrav és de u m sistema de caixa de pesos (em ped r a ou gravilha)
suspensa a elevada altura e qu e e ra subitamente rebaixada, fazendo subir a
extremidade mais longa da viga, na p o nta da qual se encontrava u ma bolsa d e couro
com um grande pelouro alojado, que assim era arremessado no ar n uma trajetória
parabólica (e, neste caso, falamos de «trabucos de contrapeso», q ue podiam lançar
projéteis de 100 kgs a mais de 100 m de distância )
63
.
As armas coletiv as de fogo (chama das «trons » ou «bombardas») devem t er
surgido n a Península Ibérica muito p erto de meados d o século XIV (po ssi velmen te em
relação com o cerco do rei Afonso XI de Castela à praça muçulmana de Algeciras, em
1344). Em Portugal, sabemos que começaram a ser f abricadas em Évora no in ício da
terceira guerra f e rnandina contra Castela, ou seja, em 1381 (CDF, cap. CXXXIV, p . 473).
De acordo com os estudos de Nuno Varela Rubim, eram armas ainda bastante
incipientes, fabricadas em ferro forjado, com tubos grossos reforçados por aduelas
largas (soldadas entre si), n o interior dos q uais era colocada pólvora em p ó ;
disparavam sobretu do pelouros de pedra e podi am ser de carrega r pela boca ou de
retrocarga (graças à utilização de culatras móveis)
64
. Existe no Museu Militar de Lisboa
uma peça (referenciada com o n.º d e in ve n tário MM L, A.I) que poderá corresponder,
63
Sobre estas matéria s, deve ver-se o estud o recente de : COSTA, Bárbara Pa trícia Leite, En genhos,
armas e técn icas de cerco na Idad e Média p ortuguesa, séc s. XII -XIV , di ssertação d e Mestrado em
Arqueologia, Porto, 2014 (ori entação científica de Mário Jorge Barroca). Para a h erança clássica, veja - se
a síntese de MONTEIRO, J. G. e BRAGA, J. E, 2009 (tra dução, comentário e nota s de Vegécio , E pitoma rei
militaris , esp. no ta 244, pp. 470 -479).
64
RUBIM, Nun o José Varela, “ Sobre a p ossibilidade té cnica d o emprego d e artilharia na Bat alha de
Aljubarrota ”, in separata da Revista de Artilharia , n. os 725 -726, 1986, pp . 25 7-283; R UBIM, Nun o José
Varela, “A artilharia portuguesa nas Tapeçaria s d e Pastrana – a tomad a de Arzila em 147 1”, in separata
da Revista de Artilharia , 1987; RUBIM, Nuno José Varela, “O armamento pirobalístico”, in Pe ra
Guerrejar. Armamento medieval n o espaço portuguê s , Câmara Municipal d e Palmela, 2000, p p. 223- 243.
116
secção quadrada e ponta afiada, que podiam atingir os 25 cm de
comprimento. Contra os «arneses , por exemplo, as armas d e choqu e eram
(antes d a generalização das armas de fogo) as arma s mais eficientes e
destrutivas; devem ter sido muito utilizadas em A ljubarrota .
No que toca às ARMAS DE HASTE, convém sobretudo realçar as lanças e
uma sua variante mais longa – os “piques”. Devido ao seu s imples fabrico e
ao seu p reço, as lanças e ram armas muito v u lgar es; compunham-se de uma
haste de madeira (em g eral d e freixo) bastante longa (até 4 m), em cuja
extremidade era encabado, aproveitando uma base oca e fendida, um ferro
maciço com 10 a 30 cm de comprime nto, que apresentava m uitas vezes um
formato t ria ngular. Segundo Álvaro Soler del Campo, as n erv u ras axiais e a
capacidade de cor te dos ferros das lanças otimizavam a sua capacidade e
aumentavam a sua p e netração no corpo do adversár io
68
. No Museu Militar
de Lisboa (peça «Sem Inventário») pode apreci ar -se uma ponta de lança
que se diz ser or i unda do campo de batalha de Alju barrota ; é fabricada em
ferro e tem 46,2 cm de comprimento p or 7 cm d e largura; tal como é
descrita no C atálogo da exposição Pera Guerrejar (2000, p. 357 e 360),
apresenta uma ponta maciça, romboidal e de perfil t riangular alongado,
levemente afilada, com secção circular na base e em forma de losango na
ponta; tem u ma base oca e exibe uma pronunciada are sta central, com
cerca de 2,5 cm de esp essu ra
69
. Geralmente, para além da «haste» e d a
«ponta», as lan ças possuíam, na extremidade oposta, uma peque na
«conteira», qu e facilitava a sua fixação no solo. Do ponto de vista tático, as
lanças tinham uma utilização multifacetada: podiam ser utilizadas p a ra
manter o adversário à distância (e, neste aspeto, a sua variante mais lon ga,
o pique , que podia atingir os seis metros d e comprimento, era
especialmente útil, como os movimentos dos célebres schiltrons escoceses
68
SOLER DEL CAMPO, Ál varo , “Guerra y armamento hacia 1200 d.C.”, in Alarcos. El fiel de la balanza ,
Servicio de Publicacion es de la Junta de Comunidades de Castilla -La M ancha, 1995, p. 183.
69
BARROCA, M. J., e t alii , Pera Guerreja r. Armame nto medieval no espa ço po rtuguês . Esta peça, devido
ao seu deficiente estado de con se rvação, não chegou a ser exibida no âmb ito exposição com o mesmo
nome (a qual esteve patente no Museu Nacional de Ar q ueologia e no Ca stelo d e Pa lme la ), mas
encontra-se regi stada no respetivo Catálogo (2000, p. 357).
117
dos sécs. XIII e XIV be m documen tam), mas também e ram usadas para
estocar ou f e rir de ponta. Além disso, p odiam ser arremessadas à distância
(como a própria etimologia da p alavra «lança» sugere). Tanto eram
utilizadas pela peonagem (neste caso n ã o atingindo com primentos m uito
além dos três metros) como pela cavalaria. N esta última hipótese, a lan ça, a
partir da vi tória d e Guilherme da N o rmandia em Hastings (1066) começo u a
ser colocada muitas vez es debaixo d a axila direita («de so o braço»), sendo
encostada ao tronco com o cotovelo, dando origem à famo sa e já cita da
tática d a lance couchée («lança deitada»), que permitia otimizar a
velocidade do cavalo e o impacto d o choque (veja - se a cena ven a tória
representada na arca tumular dita de D. Branca de Sousa, do século XIV, no
Museu Regional de Lamego). No entanto, o cavaleiro t ardo -medieval
também podia manejar a lança d e outras formas, nomeadamente «de
sobre- m ãao »; n es te caso, apoiava a lança sobre o braço e, usando o
antebraço, comprimia a arma contra o corpo, o que garan tia maior
mobilidade e uma p onta ria mais certeira (veja -se outra cena de caça, agora
no t úmulo de Fernã o Sanches, bastardo de D . Dinis, f a bricado no segundo
quartel do séc. XIV e pat ente no M useu do Carmo, em Lisboa). No
segmento das «armas de haste» p oderíamos ainda incluir (além das
alabardas q ue os esquadrões da infantaria suíça torn ari am famosas p ouco
depois de Aljubarrota) as partazanas , os chuços e outras alfaias de origem
agrícola que foram mu i tas vez es adaptadas a fins marciais, sob retudo pe las
tropas apeadas mais humildes.
Armas de arremesso: neste ponto, há que distinguir e ntre as armas de
propulsão muscular e as arma s n eurobalísticas. No primeiro caso (o das
ARMAS POR PROPULSÃO MUSCULAR) é obrigatór io r eferir, em primeiro
lugar, os dardos , que eram como que lanças mais curtas e mais finas,
propícias a ser arremessadas a d istâncias mu i t o pequenas. Neste sentido, o
dardo medieval recorda inevitavelmente o pilum dos exércitos romanos
(arremessado a menos de 13 m de distância, imediatamente antes do
choque da primeira linha das legiões – os hastati – com o adversário), assim
118
como os ango nes das hostes carolíngias. Os dardos ibéricos não são armas
muito comentadas pelos h istoriadores, mas deve recordar -se que o cronista
francês Jean Froissart (a nossa prin cipal fonte acer ca dos movimentos
táticos na batalha de Aljubarrota ) afirma que o duque de Lencastre (sogro
de D. J oão I ) apreciava part icularmen te a arte ibérica de “jetter la darde”
(MONTEIRO, 1998, p. 538). Um tipo particu l ar de dardo, muito utilizado na
caça (mas não só), eram as ascumas (ou azcumas ), geralmente manejadas
na variante «de sobre -mãao». Também a azaga ia pe rtence a est a f amília de
armas de arremesso por propulsão muscular, sendo particularmente notada
nas campanhas militares travadas em Áf rica, ou por exércitos muçulman os
na Pen í nsula Ibérica. Já as fundas são uma arma bíblica (Antigo Te s t amento,
Livro I de Samuel: 17) que se manteve em utilização p ra ticamente contínua
(pense- se nos exércitos maced ónicos, cartagineses ou romanos), o que
revela toda a sua eficácia e t am bém as vantagens resultantes da
simplicidade d o respetivo fabrico, prevendo- se qu e “tais arma s nunca
tivessem d eixado de ser usadas, qu er nas artes da guerra quer em
actividades de carácter cinegét ico ou pastoril” (R . V. GOMES, 20 03, p . 157).
Eram feitas em couro, em cor da ou noutros materiais elásticos, e
arremessavam a distâ ncias da or dem dos 100 metros (ou mais, dependen do
do peso do pelouro) pequenos projéteis de pedra criteri osamente
escolhidos e preparados (as legiões ro ma nas chegavam a inscrever neles os
números d as coortes e das ce ntúrias, t ratando de recolhê -los no final de
cada b atalha vitoriosa!). No entanto, “sabe -se que a funda foi muito
divulgada, a p ar tir do século XII, em p ar ticular pelos cavaleiros turcos”
( ibidem ). Fernão Lopes (CDF, cap . LXXXVII, p. 305) explica q ue, além das
«fundas de fuste» ou «de manguela» (porventura armadas n um pau
comprido), existiam as «fundas de mão», que p odiam ser rodadas várias
vezes pelo atirador sobre a sua própria cabeça antes d e se liber tar a ponta
que t ra nsportava o projétil, ou então balanceadas para t rás e para a f re nte,
num movimento de vaivém que imprimia a velocidade suficiente ao
dispositivo até ao momento do arremesso. Os relat os das campanhas d e
Nuno Álvares Pereira entre 1383 e 1385 mo stram bem como o
119
fronteiro/condestável apreciava e sab i a tirar partido d e f undibulários bem
adestrados.
Quanto às ARMAS N EU ROBALÍSTICAS, que como veremos t iveram uma
importância excecional na batalha de Aljubarrota , é crucial falar dos arcos e
das best as. Os arcos , também muito utiliz a d os na caça (económica ou
desportiva) são uma arma que era utilizada essencialment e pela peonagem,
uma vez que o seu u s o p elos cavaleiros implicav a um adestramento muito
grande (na Antigu i dade Clássica, ficaram famosos os arqueiros montados da
Pártia, que conseguiam d is p arar para trás enqu anto galopavam e que
venceram os exércitos romanos na b a talha de Carras, em 53 a.C.). Na sua
modalidade mais simples, trata- se de uma arma fácil d e confeciona r,
geralmente em madeira d e teixo suficie ntemente ro busta p ara suportar a
tensão a que o arco propriamente dito ficava suje ito qu a ndo se retesava a
corda. M ais t arde, o chamado «arco composto» (ut ili zado, p or exemplo,
pelos Mouros n a Península Ibérica, ou pelos Turcos n as suas guerras contra
o Império Bizantino) otimizou a prestação dos arcos simples, reforçando-os
com couro de veado (na face interna) ou com tendõe s de animais (na face
externa) e tornando as sim esta arma mui to mais resistente e poderosa
(BARROCA, 2003a, p. 139). Em geral, até ao aparecimento do famoso
longbow (o «arco lon go», possivelment e de origem galesa e adotado pel os
exércitos ingleses a partir de Eduardo III: 1327-1377), o «arco» não
apresentava uma envergadura superior a 150 cm e disparava setas
compridas (c. 90 cm), oc as e leves, equipadas com uma ponta metálic a,
uma haste de madeira e c. t rês guias de p ena de ganso; dispunha d e um
alcance de c. 100 a 120 m e de uma cadência de 10 a 12 tiros por minuto.
Para evit ar a rasp agem e o ferimento da pele no momento do d isparo, o
atirador utilizava uma luva de couro na mão direita e u m braçal (metálic o,
em osso ou em couro) no punh o esquerdo (BARROCA, 2003a, 140 ).
Geralmente, o arco, com a resp e tiva corda retesada em cerca de 75 cm (no
máximo), era disparado para cima, em chuveiro ou em volley , o que
comprometia um tiro dirigido mas, por outro lado, permitia tirar part ido d a
120
força da gravidade, fazendo cair as fl echas sobre os adversários com forte
impacto e em qu a ntidade apreciável; as setas eram geralme nte
introduzidas em sacos chamados «aljavas», transportadas às costas ou a
tiracolo pelos arqueiros. Se ndo uma arma muito ap reciada pelos exércitos
muçulmanos, o arco t a mbém f oi utilizado pelas h ostes cristãs p eninsulares
e a sua utilização está documentada para Portugal no século XIV,
nomeadamente em operações de cerco de castelos ou de praças -fortes
70
.
Figura 5 - Arqueiro segurando o arco e besteiro arman do a besta com r ecurso ao estribo
in Luttrell Psalter M S 42130 f. 56 (1325 -1340)
Com o aparecimento d o longbow , o Ocidente europeu conheceu u m
período de apogeu no que à utiliz ação dos arcos d iz respeito, sempre que
estavam em camp o exércitos d e matriz inglesa (o que sucedeu em
Aljubarrota , com o ver emo s). Na verdade, o long bow tin ha uma
envergadura que podia atingir os 2,50 m e a sua corda er a tendida até à
orelha; estima-se que fosse capaz d e p erfurar o tronco de um possante
carvalho a u ma distância de 200 m, ou mais. Devido à su a robustez e
70
Na alcáçova d e Silves foram encon tradas em conjunto “s eis pontas de flecha ou de virotes de besta
foram recupe radas ju ntas, po dendo ter in tegrad o aljava ou carcaz ” (R. V. GOMES, 200 3, p . 114). Estes
exemplares foram identi ficados arqueologicamente na camada III da alcáçova a que corresponde a
primeira conqu ista cri stã da cida de e m 1189. Parte d estes podem aind a ser con sultados no catálogo
Pe ra Guerrejar ( 2000, pp. 376 -378), on de s e d estacam os d e p onta triangular, cara terís ticos dos virotes
de bestas muçulmana s deste período .
121
potência, exigia um adestramento desde crian ça , costu ma ndo dizer -se que
um bom arqueiro in glê s era capaz de arremessar a sua quinta ou se x ta
flecha quando as anteriores ainda dançavam no a r
71
!
Por fim, simbolicamente, a besta constitui como que uma versão portátil,
miniaturizada, da velha balista romana, mas possuindo apenas u m braço.
Está representada em túmulos chineses dos séculos V e IV a.C., mas,
misteriosamente, desconhece -se o seu trajeto europeu durante toda a Alta
Idade Média; está documentada n a Pe ní nsula I bérica a partir dos f inais do
séc. XI, mais exat ament e desde 1086, graças ao fólio 85v.º d o manuscrito
Beato de Burgo de Osma (SOLER DEL CAMPO, 1993, p. 66). É uma arm a
muito mais complexa e robusta d o que o arco, e de difícil recarga, o que
fazia com qu e não con s eguisse d isparar mais de dois ou , no máximo , três
projéteis por minuto; porém, tinha a grande vantagem de ser mais potente,
podendo atingir os 200 a 300 metros de alcance, sendo let al a cerca de 75
metros de distância (BARROC A, 2003 a, 142). A besta era formada por um
único «arco» de madeira (que podia t er um ref orço em corno de veado),
por uma «coronha » (t amb ém fabricada em madeira), por uma «n oz»
(pequena peça de osso, em cujo veio central era acamad o o p rojétil e que
servia igualmente p ara fixar a corda n o momento do disparo – alguns
exemplares publicados no catálogo Pe ra Guerr ejar , 2000 , pp . 382-384) e
por um «gatilho» de metal. Os pro jé teis da besta (chamados «virotes» ou
«virotões») não tinham mais do qu e 30 a 50 cm de comprimento; tal como
as setas dos arcos, possuíam uma ponta metálica (mas neste caso piramidal,
maciça e pesada, sendo por vezes embeb i da em ven eno vegetal: o h eléb oro
ou várat ro negro, em Portugal chamado por vezes de «erva besteira») e
duas g uias d e ma d eira, em pergaminho ou e m metal; os virotões eram
transportados em pequenas aljavas presas à cintura (BARR OCA, 20 03a, pp.
142 -143). Se as flechas d e um arco eram disparad as para cima, em
71
Uma das obras de referência par a o estudo do longbow con tinua a ser a produ zida pelo grande
especialista de sta arma, o britânico Robert Hardy , Longbow. A soc ial and m ilitary history , Patrick
Stephens Limited, 197 6 (com edição revista e alar gada em 1992, incluind o a primeira análise detalhad a
do equipamento para tiro co m arco d escober to no navio d e guerra Mary Rose, c. 15 10, que p ertenceu a
Henrique VIII d e Inglaterra e que foi afundad o ao largo de Portsmouth em 1 545, tendo sido descoberto
em 1965 e trazido à superfície dezass ete anos depois).
122
chuveiro, já a b esta fazia o chamado «tiro t enso e horizontal», o que
reforçava a sua ef icácia ; esta revelou- se de t al forma letal que o u so da
besta (entre cristãos) chegou a ser proibido pela Igreja, n o contexto do II
Concílio de Latrão, em 1139. Para mitigar o se u p rincipal inconveniente (a
dificuldade de recarga), n o séc. XIII ad otaram -s e d ispositivos p ara facilitar a
ação d o besteiro: pri meiro, um estribo p ar a met er o p é, que e ra
completado com um gancho à cintura, o que permitia ao atira dor, ao esticar
a perna, colocar mais f acilmente a corda em tensão n a noz; depois,
manivelas, roldanas ou alavan cas com garras, qu e funcionavam como
acessórios independentes e que permitiam retesar mais facilmente a corda
(«bestas de torno», «de polé» ou «de garrucha»).
Uma pala vra final para lembrar que só no segund o quartel do século XV (ou
seja, cerca de meio sé culo depois d a batalha de Alju barrota ) é que devem ter
começado a ser utilizadas arma s de fogo portáteis por contin ge ntes militares
portugueses: h á notícia d a presença de «espingardeiros» em Tânger, em 1437
(DUARTE, 2003b, p. 371) ; e, na carta d e quitação out o rgada ao almoxarife do armazém
régio de Lisboa, em 21 de ju l h o de 1455 (alusiva, como vimos, ao material de guerra e
de torneio movimentado entre 1438 e 14 48), há referên cia a diversas «colob retas»,
com os respetivos acessórios e cargas de pólvora (MONTEIRO, 2001, pp. 52 -54; RUBIM,
2000, pp. 226-227)
72
.
72
Para não alongar demasiado o nosso texto, sujeito a um limite de págin as rigoro so, não referimos aq ui
outras p eças d a indumentária dos guerreiros m edievais, como por exem plo as es poras (primeiro de
espeto, depois de roldana, m ais suav es para as mon tadas – con forme alguns exemplares pu blicados no
catálogo Pera Guer rejar , 2000, p p. 286- 302 ), n em anali saremos a problemática do armaz enamento e da
conservação d as armas. Sobre o primeiro aspeto, remetemos p ara M. J. BARROCA, 2003 a, 134 -135;
sobre o segund o, para J. G. MONTEIRO, 2001 b, passim .
123
Capítulo II – Aljubarrota: estado da arte
O estudo e a análise da Batalh a de Alju barrota envolvem f ontes variadas, sejam
elas narrativas, arquivís ticas ou outras, mat er ializadas em diferentes suportes. No que
respeita ao s primeiros elementos alusivos ao acontec imento de 14 de agosto de 1385,
eles foram redigidos poucos dias após a ação; re cordamos a missiva que D. Juan I
enviou às principais cidades d e Castela (a justifica r a sua derrota), assim co mo as cartas
de doação outorgadas por D. João I , em cumprimento das suas promessas. A re colha
de testemunhos, por seu lado, deu corpo a um pequeno n úmero de crónicas, parte
destas gizadas ai nda em vida de alguns dos intervenientes ou logo após a sua morte
(entre as quais a Coró n ica do Cond estabre ). Posteriormente, algu ns desses relatos
foram copiados e interpolados, sofrendo, i nevitavelmente, algumas desvi rtuações.
O tema suscitou o interesse coletivo, desde o erud i t o até ao mais popular, e
não se esgotou ao longo das décadas, ou mesm o das centú rias. Pelo co ntrário,
motivou várias reedições das fontes docum entais, ao mesmo tempo que foi
acompanhado por reinterpretações e diferentes ab or dagens temá ticas ( biográficas,
literárias, sociais, políticas, históricas, militares, e n tre outras).
Não podemos ign orar o fervor ideológico com que o tema foi abordado, quer o
acontecimento em si, q uer as principais figuras a ele associadas (rec orrentemente
manipuladas para servir o interesse político, religioso e até social), o que redundou
com frequência em representações fantasistas. Apesar das boas in tençõ es de alguns
dos seus autores, muitos desses f ervorosos relatos patrióticos e/ou religiosos, co m
exaltações ficcionadas, em nada contrib uíram para uma salutar inves tigação deste
episódio crucial da história portuguesa.
Por outro lado, temos de reconhecer o número significativo de autores que, em
resultado de investigaç ões sérias e laboriosas do tema – expressas em livro s, em
artigos ou em outros trabalhos – t e m possibilitado avanços no estudo historiográfico
de Aljubarrota .
De seg uida iremos d e dicar algu mas páginas às principais fonte s e aos mais
relevantes trabalhos historiográficos alusivos ao dossier Alju barrota. Começaremos
pelas obras b asilar es, aquelas que talvez seja m os p ri ncipais testemunhos para o
estudo do t ema – as crónicas e os respetivos autor es ; segu ir- se -ão outros
124
testemunhos, alguns deles coevos, gravados em ou tros suportes. Reservaremos ainda
um es paço para as evidências arq ueológicas e um último ap ontam en to para os
principais estudos, esp e cialmente dinamizados pelas descobertas arqueológicas que
foram tendo lugar no próprio campo de ba talha.
• 2.1 – Crónicas e outras f ontes
As crón icas são um in s t rumento imprescindível para o estudo de Aljubarrota . O
texto mais próximo da data d o acontecimento é da autoria do futuro chanceler
castelhano, Pero López de Ayala . O cronista esteve em Aljubarrota, ao serviço de D.
Juan I, tendo in clusiva men te int egrado o corpo de parlamentários que visit ou o
acampamento português um pouco antes do início do combate. Encontramos o s eu
testemunho na obra Crónicas de los Reyes de Castilla
73
onde relata os acontecimentos
do reinado d e D. Juan, d edicando bastante atenção ao s anos de 1383 -1385 e ao
conflito luso-castelhano.
O envolvimento fran cês neste conflito, ao lado de Castela , seria retrata d o numa
obra intitulada Chron iqu es , da autoria de Jean Froissart . O escritor francês descreve o
episódio em duas p assagens distintas, a p a rtir de dois testemunhos recolhidos através
de outras tantas entrevistas. O p rimeiro relato tomou f orma a partir da conversa com
o cavaleiro gascão Esp a n du Lion , em Orthez (sul de França ), no ano d e 1388; o outro,
substancialmente difere nte, é mais tardio (1390) e resultou d e u m en contro em
Midelburgo (Países Baix os) com o cavale iro português João Fernandes Pacheco (c.
1340 – c. 1420), figura de d es taque da batalha de Trancoso e também ele combatente
em Aljubarrota. A abra n gência geográfica das Chroniques e o espaço qu e es ta obra
dedica aos conflitos europeu s no co ntexto da Guerra dos Cem Anos garantiu u m a
alargada difusão internacional dos textos de Fro issart (e, por arrastamento, do
episódio de Aljubarrota).
73
E sta obra inclui as crónicas d os reinados de Pedro I, Enrique de Trastâmara (Enriqu e II de Castela) e
Juan I. Lóp ez d e Ayala ainda deu início à redaçã o da crónica do reinad o de Enrique III , mas a o bra ficou
incompleta. Para este trab alho, seguimos a edição de José Luis M ARTÍN (ed.): P ero LÓPEZ DE AYALA,
Crónicas , Barcelon a, Planeta, 1991.
125
Figura 6 - Batalha d e Aljubarro ta in Chron iques de Fro issart - BM -MS. 0865 f. 239 ( 1412- 1414)
Posteriores a Froissart, as Chro ni que du religieux de Saint-D enys , crónicas régias
de autor d esconhecido red igidas ainda durante o rein a do de Carlos V I (138 0-1422),
provavelmente p or mais d o que u m escriba daquela ordem religiosa, mencionam
sucintamente o comba te de Aljubarrota, cont e xtualizando o a poio militar que o
monarca francês prestou ao seu co ngénere castelhano
74
.
De Ingla terra, a pre se nça nos confrontos ibéric os ficou regis tada em cr ónica,
em especial a participa ção inglesa na t erceira guer ra fernandina (1381-1382) e na
campanha de 1385, que culminaria em Aljubarrota . As cró nicas redigidas p ara o
reinado de Ricard o II (r. 1377 -1399) n ão ignoram a alia nça anglo-portuguesa, ao a brigo
da qual foi autorizada ao s embaixad ores portu gueses a contratação de forças
mercenárias in glesas. Destacamos, a título de exemplo, a Crónica de Westminster
75
(1381-1394).
Natural de França, mas tendo -se d e dicado aos assuntos d e Inglaterra, Jean de
Wavrin (1398-1474) foi au tor das Anciennes et Nouvelles Chroniques d'Angleterre
76
,
74
Na versão con sultada: Chro nique du Religieux de S aint -Denys, conte nant le régne de Cha rles VI, de
1380 a 1 422 , BELLAGUET, Lo uis Françoi s (trad.), edição b ilingue, Tomo I, De L´Imprimer ie de Crapel et,
Paris, 1839, p 439 e 441.
75
A crón ica de W estminster po de ser con sultada na versão inglesa em: The We stminster Ch ronicle,
1381 – 1394 , HEC TOR, L. C. & H ARVEY, Barbara F. (ed. & t rad.), Clarend on Press, Oxford, 1982.
76
O manuscrito que compõe os volumes da Chroniques d 'Angleterre , da autoria de Jean d e Wavrin (MS
14 E IV – atualmente p arte d o acervo do Museu Britânico) foi redigido em língua francesa entre 1471 e
1483, nos Países Bai xos. A terceira p arte d a obra ab range o reinado d e Ricardo II , até ao an o de 1387,
período durante o qual decorre o conflito luso -castelhan o, com o envol vimento da Inglaterra e da
França. Deste volu me de stacamos um conjun to de iluminura s que ilustram algu ns episódios da terceira
guerra fernan dina e da Crise d e 1383 -1385. En tre estas im agens (que retratam, entre o utras, a chegada
132
Robert de Namur a ini ciativa de levar o jove m Jean Froissart para Inglaterra. D o
mesmo modo, por esta altura, o hist o riador terá absorvido a influência lit e rária d e
Jean le Bel (c. 12 90 -1370), q ue dedicou a sua Chronique ( 1361) às c amp anhas d a
Guerra dos Cem Anos , dep ois de t er acompanhado pessoalmente o c onde de
Beaumont em viag ens e aventuras pela Inglaterra e pela Escócia , já em 1365 (BARBER,
1981, p. 26). Note -se que Jean le Bel, natural de Liège , foi um dos primei ros cronistas
francófonos a escrever em francês (e já não em latim), e d efendeu com veemência as
vantagens da prosa sobre o verso (sempre demasiado d ependente d a rima) na
construção de uma narrativa histórica.
Nos seus p rimeiros anos em In gla t erra , Froissart t erá composto sobretudo
canções, baladas, vilan c et es e rondeis ao gosto da respetiva protetora, a rainha Filipa .
No entanto, desde cedo deve t er alimentado a ambição de compor uma obra h ist órica
de en verga d ura, t e ndo começado a recolher informações com essa f i nalidade.
Segundo Peter AINSWO RTH (2001, p . 10), terá ent r evistado alguns franceses que se
encontravam em Inglaterra como reféns do cumprimento do acordo de Brétigny -Calais
(1360-1361) e obtido outras informações sob re o grande duelo anglo -francês da
Guerra dos Cem Anos (1337-1453). Froissart deve também t er empreen dido algumas
viagens dentro de Inglaterra (p. ex., ao Glou ces tershire), à Escócia (onde p arece ter- se
encontrado com o rei D avid, em 1 36 5) ou a Bruxelas (onde visit ou a duquesa de
Brabante e o duque Venc eslau, em 1366-1367). Em 1368, est eve em Itália (onde terá
assistido ao casamento de Violante Visc onti com Leonel de Clarence) e terá sido no
regresso d es ta viagem que t omou conhecimento da morte d a rainha D. Filipa
82
. Esta
ocorrência triste levou Froissart a regressar ao Hainaut e a dar início à composição d a
sua vasta obra histórica, tendo começado a escrever (em prosa) a “ primeira versão ” do
Livro I d as suas Chroniques , sob o impulso de Rob ert d e N amur. Em 13 73, ter á
concluído est a tarefa seminal, que se reporta aos acon tecimentos anglo -franceses
ocorridos entre 1325 e 13 50 e q ue os estudiosos acred itam t er sido fortemente
influenciada pela Chronique de Jean le Bel (AINSWORTH, 2001, p. 11).
82
Supõ e-s e que Filipa de Hainau t, que era filha de Guilherme I (con de de Hainau t , da Holan da e da
Zelândia) e de Joana de Valois, terá morrid o de hidrop isia no castelo d e W indsor, a 15 de ago sto de
1369, contand o então 55 an os de idade.
133
Ainda em 13 7 3, F roissart recebeu do conde de Bl ois , Guy de Châtillon (se u novo
protetor), a paróquia de Est innes- au -Mont, circunstância que lhe permitiu continuar a
escrever com maio r desafogo. Graças a isso, conseguiu prolongar a sua narrativa até
1378, dando origem ao que Simé on Luce apelidou de “primeira redação revista ” d a sua
obra ( ibidem ). Entretanto, o conde de Blois encomendara -lhe já uma nova versão ,
bastante distinta, do Liv ro I, conheci da por “segunda redação” e q ue co bre também
acontecimentos ocorridos até 1377-1378 ; s egundo George DILLER (2001, pp. 64 -67), é
at é muito possível q ue esta nova versão tenha sid o concluída antes da revisão da
primeira. Cer to é q ue, como observou Peter AINSWORTH (2001, p . 12), “estas duas
primeiras redações em prosa d o primeiro Livro oferecem -nos um re la to das origens d o
grande conflito din ás tico entre os reis de França e de Inglaterra ”. A composição está
povoada de cavalgadas, de cercos e de operações de pilhagem, intercala das p o r uma
ou outra batalha campal (exs.: Crécy -1346, Poitiers-1356), onde os capitã es e homens
de armas ao serviço de Eduardo III de Inglaterra mo straram toda a sua gen ialidade,
bem acompanhados pelos temíveis arqueiros munidos d e longbow recru tados no País
de Gales e no condado de Cheshire (no Centro-Oest e de Inglaterra).
Quanto ao Livro II das Chroniques , t erá sido composto entre 1378 e 1385 e
dedica-se sobretudo à narrativa do conflito entre o conde Lu ís de Flandre s e as cidades
rebeldes de Gand e de Bruges (DILLER, 1981 , p. 151); subsidiariamente, este Livro
inclui t a mbém relatos da famosa r evolta dos “Maillotins”, em França (que deflagrou
em inícios de março d e 1382, em Paris, tendo durado alguns meses e si do brutalment e
esmagada por Carlos V I , já em 1383), e evocações da grande “re vol ta camponesa” em
Inglaterra, ocorrida em 1381 , sob a liderança de Wat Tyler, de John Ball e de Jack
Straw, que contestavam a cobran ça de mais impostos pela monarquia, com vista à
continuação da guerra em França.
Em 1388, graças ao apoio financeiro d o conde de Blois , Je an Froissart
empreendeu uma viagem até ao sul de França, ond e visi tou a célebre corte d o conde
de Fo ix (Gastão Febo), em Orthez. Foi durante esta viagem que o cronista recolheu
grande parte das informações q ue lhe p ermiti ram escrever o Livro III, dedicado aos
acontecimentos políticos e militares que tinham recentemente tido lugar na Península
Ibérica. Por volta de 13 9 0, Froissart produziria uma n ova ver são deste relato hisp â nico,
muito inspirada pela entrevista que entretanto fizera ao f i dalgo beirão João Ferna ndes
134
Pacheco, guarda-mor da corte de D. Jo ã o I , em Midelburgo (na Ze lândia, supõe-se que
na atual Holanda)
83
.
A qu e da em desgraça, em 1391 -1392, do seu pr otetor e amigo Guy d e Blois –
arruinado e doente, teve de vender o seu condad o ao irmão mais n o vo do rei de
França, Luís de Orleães – f e z com que Froissart entrasse na dependê ncia de outro s
‘grandes’, entre os qu ais Aubert da Baviera (conde d e Hainaut ) e o seu filho Guilherme.
Em 1395, o cronista deslocou- se uma última vez a Inglaterra, onde foi re cebido p or
Ricardo II, que lhe dispensou um acolhimento cordial mas pouco calo roso
(AINSWORTH, 2001, p. 15). Dececionado, Froissart regressou a Chimay, no Hainaut,
onde dispunha agora d e u ma conezia q ue lhe garantiu o conforto s uficien te par a
escrever o seu Livro IV, dedicado ao r elato d o reinado de Carlos V I de França (o re i q ue
morreu como doente men tal) e dos últimos anos do governo de Ricardo II de
Inglaterra.
Os de rradeiros trabalhos de Fro issar t , antes d e falecer em d ata posterior a
1404, consistiram numa refund ição completa do Livro I (a ch ama da “terceira
redação”), segundo um tom bastante mais amargo, influenciado pela deposição e
assassinato de Ricardo II e pela consequente subida ao t rono de Inglaterra por p ar te
do primo, Henrique IV de Lencastre, irmão da rai n ha portuguesa D. Filipa.
De uma maneira geral, e com exceção da última fase, a ob r a de Jean Froissart
revela um cro n ista muito identificado com a aristocracia d o seu tempo, fascinado pelas
façanhas guerreiras dos fidalgos, mas, ao mesm o tempo, sensível ao sofrimento das
camadas p opulares. Foi grande o esforço feito pelo cronista para aclarar episód i os
mais mist eriosos (como, por exemplo, o eventual assassinato d o herdeiro do condado
de Fo ix-Béarn pelo seu próprio pai, Gastão Febo, o que o levou a interrogar
insistentemente um companheiro de viagem no sul de França, Espan de Lion), sendo
evidente o tom f o rtemente morali zador e did á tico d a sua obra, um p o uco à man eira
do que sucederia mais tarde com a grande tratadi sta italo -francesa Cristina de Pisano.
Não podemos igualmente esq uecer que Froissart foi também autor de p oesia
lírica, de baladas várias e mesmo de um romance de tipo pré - art u riano, intitulado
Meliador . Tal como para muitos autores d o seu tempo – que assim se in s piravam em
modelos romanos bem con heci d os – , Froissart acreditava que a obra escrita tinha um
83
Esta versão foi p ublicada por Léon MIROT, em 1931 ( vide n ota supra ).
135
valor acresc ido, pois n ã o a p enas retinha a me mória d e acontecimentos relevante s
como consti tuía também uma fonte preciosa de exemplos p a ra os contemporâneos e
para as gerações vindouras. Dotado de uma f orte imaginação visual, o cronist a – que ,
apesar da sua condição clerical, estava profundamente tocado pela i deologia
cavaleiresca – mostrou-se particularmente sensível à boa formação dos con selheiro s
cortesãos, pintando um q uadro “dominado por um clima i deológico completamente
régio, aristocrático e cavaleiresco” (AINSWORTH, 2001, p. 26). No relato das
numerosas campanhas bélicas, Froissar t reconhecia a guerra como u m impor tante
fator de redistribuição da riqueza e de promoção (ou de desgraça) social e, e n quant o
temente a Deus, aceitava o papel da Fortuna na gestão dos conflitos humanos.
Podemos, obviamente, perguntar-nos até que ponto as narrativas de Froissart
são h istoricame n te fiáveis. Este é u m assunto muito d e batido entre os histor iadores
(cf. PALMER, 1981, passim ) e deve dizer-se que são muitos aqueles que desconfiam da
veracidade dos relatos do cron is t a de Valenciennes, demasiado dependente das suas
fontes orais. Froissart gostava de entrevistar testemunhas oculares dos assuntos q ue
narrava e, durante essa s conversas, tomava notas a partir das quais co mpunha mais
tarde os seus re l at os, por vezes revelando p ouca capacidade p ara reter t odos os
detalhes, o que fez com que cometesse inúmeros erros de topon ímia, de on omástica e
até d e d atação dos eventos. Por outro lado, e como notou Peter RUSSELL (1981, p. 84),
Froissart d esl umbrou -s e excessivamente com o relato das campanhas militares, tendo
desprezado a parte diplomática que lhes subjazia e que era decisiv a para o
entendimento da guerra, em es p ecial da Guerra dos Cem Anos .
No que diz respeito aos re latos de Fro issar t sobre a Pe nínsula Ibérica (on de o
cronista parece nunca ter estado, apesar de ter tent a do acompanhar o Príncipe Negro
na sua viagem a Nájera), podemos esboçar o seguinte resumo: no Livro I, temos a
campanha d e Eduardo de Gales em Navarra (1367) e a cristalização das pretensões d o
duque de Lencastre (João de Gande) à coroa de Castela ; por um erro de datação d o
cronista, este Livro deve ria ter incluído também o relato da invasão da Gasconha e do
cerco de Bayonne pela host e d e En rique II, em 1374, que todavia surgem apenas no
Livro II, a par da descrição sobre a in vasão castelhana de Navarra (em 1378 -1379) e da
mal su ce d ida expedição de Edmundo de Cambridge a Portugal , em 1 381-1382 (no
âmbito da t ercei ra guerra fernandina contra Castela). Entretanto, é no Livro III qu e
136
encontramos o grande palco d as narrativas lusitanas, com o relato d a Crise de 1383 -
1385 e da i n erente tentativa castelhana para dom i nar P ortugal, assim como da
expedição do duque d e Lencastre à Galiza (1386) e da invasão anglo- portuguesa d e
Leão, em 1387 (RUSSELL, 1981, p. 86).
Neste Livro III, o cronista apresenta d ois relatos distintos d a Crise d e 1383 -1385
e respetivas sequelas (e não tenta compará- l os, nem interpretá-los): o primeiro
resultou da sua citada viagem a Orthez , em 1388, durante a q ual pôde entrevistar
cavaleiros gascões que haviam combatido em Aljubarrota , mas onde – segundo Peter
Russell – deve ter também conhecido homens de armas que perten ciam a o exército d o
duque de Lencastre, o que lhe permitiu indicar os nomes de alguns capitães in gleses,
como por exemplo o cavaleiro Thomas Quimebery (RUSSEL L, 1981, p. 86 e nt. 3, p.
172). O segundo rela to, posterior, t erá tido origem na cit ada e ntrevis ta feita em
Midelburgo ao cavaleiro lusitano João Fernande s Pacheco , que participou na bat al ha
de Aljubarrota e que era então (desde as Cortes d e Coimbra de 1385) guarda -mor de
D. João I .
Ora, um dos assuntos que mais tem intrigado os hist oriadores q ue conhecem
os ‘relatos portugueses’ de Froissart tem ju s tamente que ver com os mot ivos da
presença de João Fernandes Pacheco (um d os heróis da batalha de Trancoso ) na
Zelândia. O assunto foi estudado pela primeira vez a fundo por Salvador Dias ARNAUT
(1947b); est e autor, depois de lembrar que o cronista recebeu em Bruges a not ícia d a
presença de Pacheco em M idelburgo, t endo de imediato p ar tido para esta cidade n a
companhia d e um português que conhecia bem o guarda-mo r (e qu e poderá,
acrescentamos nós, ter servido de intérprete), col oca três hipóteses:
i) tal com o s u gere Froissart, João Fernandes ia a caminho da Prússia, em
viagem de aventu ra, p a ra se junt ar à cruzada da Ordem Teutón ica
contra os p agãos (tanto mais que o futu r o Henrique IV de Inglaterra ,
cunhado de D. João I , viajou para a Prú ssia com um grupo de
cavaleiros, em julho de 1390)
84
;
84
Peter RUSSELL (1981, p. 173, nt. 15) não descarta esta p ossibilidade, considerando natural que Fernão
Lopes (que escreve c. 1443) tenha silenciado o envolvime nto do fidalgo beirão na cruzada pru ss iana
devido à posterior de serção dos Pacheco s para Castela (em 1397 ou 1398 ).
137
ii) João Fe rnandes terá ido a Midelburgo auxiliar o infante D. Dinis de
Castro (filho de D . Pe dro I e d e D. Inês), que ali fora preso (na
sequência de um naufrágio) após uma viag em diplomática a Inglaterra
ordenada por D. João I (hipótese colocada pelo editor Léon M i rot, em
1931); esta possibilidade é descartada por D ias Arnaut, devido à f raca
estima e consideração que o rei por tuguês tinha pelo seu meio -irmão
Dinis (ARNAUT, 1947b, p. 144);
iii) Pacheco estaria em M i d elburgo n a sequên cia d a d etenção de dois
embaixadores (o bispo de Évora , D . Jo ã o, e o prio r da alcáçova de
Santarém, D. João Afons o da Az ambuja) que t inham sido enviados à
corte pontifícia por D. João I , com a missão (mal sucedida) de obterem
a d ispensa p a pal para o casam ento do rei português (Mestre de Avis )
com D . Filipa de Lencastre , que tinha já ocorrido e m fevereir o de 1387
mas que carecia ainda de validação papal. Esta é a hipótese em que
Salvador Arnaut acredita, tendo os embaixadores sido alegadamente
soltos em Midelburgo e regressado ao reino antes dos finais de 1389.
Como é sabido, no seu “segu ndo re la to” sobre os acon tecimentos de 1383 -
1385, Froissart recorre ao expediente de colocar na boca de Lourenço Anes Fogaça (ex-
chanceler de D . Leonor Teles e c h anceler-mor e embaixador acreditado de D . João I ,
em nome de quem negociou aliás o Tratado de Win ds or ) grande parte d a ‘versão
portuguesa’ dos eventos que levaram à ascensão do Mestre de Avis ao trono;
nomeadamente as negociações decisivas que foram entabuladas pelos diplomatas de
D. Jo ão em Inglaterra e qu e se revelariam decisivas p ara o triunfo averbado em
Aljubarrota. Neste ponto, Arnaut admite que Louren ço Anes Fo gaça p os sa ter estado
com João Fernandes Pacheco em M i delburgo, dad a a natureza da missão que este
cumpria e tamb é m porque o antigo vedor d a chancelaria fernandina dominaria bem a
língua francesa (ARNAUT, 1947b, pp. 154-15 7). Já Peter Russell, porém, recusa esta
possibilidade, argument ando que, se assim fosse, Foirssart não teria c ontinuado a
referir o chanceler como u m simples “e scu deiro”; mais p r ovável, no entendimento do
historiador inglês, é que Froissart tenha conhecido em Orthez um informador bem
próximo do duque de Lencastre (ou até o próprio d uque), d eixando con tudo ( por
138
razões muito próprias) fazer crer que esse material informativo lhe tinha sido
comunicado por João Fernandes Pacheco na Zelândia; de acordo com est a tese, a
tradicional dicotomia entre os relatos de Orthez e de Bruges/Midelburgo d everá , pois,
ser mitigada, por poder existir u m sólido elo de li gação (um cavaleiro inglês da Casa de
Lencastre) entre ambos (RUSSELL, 1981, pp. 93 e ss.).
Como quer qu e seja, é importante ter presente q ue os dois relatos de Frosisart
sobre os acontecimentos p ortugueses pod em t er tido vários outros infor mad ores. Por
exemplo, quando chegou a Orthez , em 25 de novembro de 1388, o cronista viajava há
dez dias com o já citado cavaleiro do condado de Foix chamado Espan de Lion , q ue
conhecera em Pamiers. D epois, durante as pelo menos doze semanas que esteve em
Foix, deve ter entrevistado muitas out ras p esso as, na sua maior parte Gascões, mas
não só (CRESPO, 1966, pp. 25-30). Já em Midelburgo , em 1389, o cronist a terá
beneficiado sobretudo das notícias q ue lhe foram dadas por João Fernandes Pacheco ,
mas não podemos esquecer que viajou p ara lá na comp a nhia de u m português, que
também lhe poderá ter servido de informador.
O certo é q ue, apesar dos er ros, das co ntradições e d as insuficiências
(desconhecimento do teatro d e operações ibérico, for ma vaga como trata as ligações
políticas peninsulares, enorme distorção da geografia, d os nomes e dos topónimos,
dependência excessiva relativamente às f ontes orais, mist ura entre ele mentos
fidedignos e outros mais fantasistas) os relatos de Froissart sobre os eventos
peninsulares de 1383 -1387 são bastante importantes, para não dizer imp rescindíveis.
Na verdade, mau grado ter a concorrência de dois grandes cronistas ib éricos (o
contemporâneo Pero López de Ayala e o mais tardi o Fernão Lopes), algu mas das
narrativas do protegido d e Filipa de Hainaut e do conde de Blois são indispensáveis (p.
ex., a descrição da campanha d o duque d e Lencastre n a Ga liza , em 1386), enq uanto
outras ilumi nam de forma excecional a nossa visão dos acontecimentos. Est á entre
estes últimos exemp los a reconst i t uição tática da batalha t ravada a 14 de agosto d e
1385, no planalto d e São Jorge . Froissart pode t er sido bastante amador nos seus
métodos e t er tido d ificulda de em conjugar e coordenar os materiais que re col heu;
pode não ter recorrido a ferramentas e fonte s d e interpretação auxiliar dos eventos,
nem t er sujeitado as suas fontes orais a um contrainterrogatório cerrado, tanto mais
que, para ele (um mora list a mais do qu e um verdadeiro h istoriador, como escreveu
139
Pierre TUCOO-CHALA (1981, p. 131), a exatidão d os detalhes não era o mais
importante. Porém, o seu p rofundo conhecimento da arte da guerra, o seu perfeito
domínio dos hábitos bélicos franceses e ingleses, a sua larga convivência com
veteranos d a Guerra dos Cem Anos e a sua enorme ca pacidade p ara n os oferecer
descrições extremamente visuais da re ali dade c onvertem-no nu m a fonte preciosa p ara
o estudo de um com bate que ele próprio, curiosamente, acabaria por batizar de …
“batalha de Aljubarrota”
85
.
Autor desconhecido da Corónica do Condestabre
86
: Sobre esta obra, importa
logo à part i d a recordar q ue não se co nhecem exemplares manuscritos, isto é, a
redação original. D os dois exemplares impressos mais antigos que chegaram aos
nossos dias, o primeiro en contra-se nos Reservados da Biblioteca Nacional , “com a
cota 26 Azul ”, impresso em pergaminho, e um segundo exemplar, impresso em papel,
pode con s u ltar-se nos Reservados da Bi blioteca da Un ive rsid ade d e Coimbra “com a
cota R- 28 -2 ” (CALADO, 1991, p. XXVIII). A primeira edição impressa remo n ta a 1526 e
foi produzida na oficina de Germão Galharde (Ge rmain Gaillard), u m impressor francês
com atividade em Po r tugal registad a entre c. 1519-1560 (MONTEIRO, 2017a, p . 41).
Assume-se que esta sej a a primitiva edição, o que lh e valeu o epíteto de edição
princeps .
A Corón ica do Condestabre de Purtugal , segundo vem impresso no cabeçalho
da f olha de rosto desta ed ição de 1526, corresponde, como o nome indica, a uma
biografia do condestável Nuno Álvares Pereira, o que rep resen ta um f a cto literário
relevante, já que se trata d a “primeira crónica senh orial conhecida escrita em lín gua
portuguesa que chegou até n ós” (MONTEIRO, 2017a, p. 39 ). Ainda na folha de rosto, o
biografado é apresenta do como “principiador da Casa qu e agora é do Duqu e de
Bragança ”; tal como Gouveia Monteiro adverte, este indicador sugere que a ed ição de
85
“Sire, no us ne savons pres de ci p lus appareil lé lieu ne p lus pro pice, que Juberot” (Tro is ième L ivre , §
19, p. 253, AINSWOR TH, Peter F. & VARVARO, Alberto (ed.) , 2004).
86
Para a brev e síntese aqui apr esentada sobre a Crónica do Con destável recorr emos, principalmente, à
recente análise que João G ouveia Monteiro dedicou ao tema (MON TEIRO, 2017a), mas també m à
edição crítica d esta fonte narrativa da autoria de Ad elino de Al meida CALADO (1 991) e ainda à
introdução que António Machado FARIA (2011 – ed. orig. 19 72) preparou par a esta Coróni ca .
1 40
Germão Galhar d e foi promovida, e provavelmente patrocinada, pelos h erdeiros do
Condestável
87
( idem , p. 41).
Figura 7 - Gravur as policroma das da Corónica do Condestabre
Torre d o Tombo ref.: PT/TT/M SLIV/0597 - Manuscritos d a Livraria n.º 597 (16 -- )
Sobre a sua versão original, ainda que desconhecida, é possível conjeturar que
terá sido redigida entre 1431 e, n o máximo, 1443. Estas datas correspondem, por um
lado, ao ano da morte do con destável, d a qual se ocupa o penúltimo capítulo da obra
(CC, cap. LXXIX, pp . 238 -239), e, p or outro, ao ano em que Fernão Lop es comp ôs os
últimos capít ulos da Primeira Parte da Crónica de D. João I
88
, servind o-se
87
A Casa de Bragança foi cria da em 144 2, on ze an os após a morte do cond es táve l , por iniciativa do
regente D. P edro, duqu e de Coimbra , filho de D. João I e de D. Filipa de Lencastre . O título d e duque de
Bragança foi atribuído pela p rimeira vez naquela data, pelo regente, ao s eu meio -ir mão D. Afonso , já
conde de Barcelo s; este fidalgo nascera de u ma ligação a morosa do Mestre de A vis co m uma senhora
solteira ch amada Inês Pire s. D. Afon so, primeiro duqu e de Bragança, casou em 1401 com D. Beatriz
Pereira d e Alvim, filha de D. Nun o Álvare s Pereira, de quem recebeu títulos (incluind o o de conde de
Barcelos) e merc ês que estiveram na b ase do património qu e constituiu a Casa de Braga nça.
88
É o próprio cronista que identifica esta data no capítulo 163, dedicad o à chamada “sétima idad e” do
mundo, que teria começado justamente no “te mpo do Mestre”, ou seja, no ano de 1383: “ per que esta
cronica he cõpillada ha agora seseemta annos que dura” (C DJ, I, cap . CLXIII, p. 309). O somatório resulta
no ano de 1443.
141
abundantemente da biografia de Nun’Álvares Pereira para a sua redação
89
(MONTEIRO, 2017a, p. 38). Acrescent a o cronista que “em vida delle nom f oi alguũa
cousa escpr ito” (CDJ, I, cap. XXXI, p. 56); na verd ade, desconhecem -se, trabalh os
anteriores, de natureza biográfica, sobre o mais c élebre con destável português.
O t exto da Corónica do Condestabre é constituído por oitenta capítulos: o
primeiro é dedicado ao p erfil genealógico da figura principal; o último inventaria as
obras praticadas pelo condestável ao “serviço de Deu s”, ou, como refere o autor: “da s
virtudes que obrou em quanto no mu ndo viv eo” (CC, cap. LXXX, p. 240). Para os
setenta e oito ca pítulos intermédios ficou reservada a descrição d a vida e da ação
inesgotável do herói, desde o segundo capí tulo (que se debruça, brevemente, sobre a
sua infância) até a o penúltimo, qu e, como vimos , corresponde ao s eu óbito. A res p eit o
destes capítulos intermédios, João Gouveia M onteiro identifica uma sequência
narrativa organizada em três grandes blocos t e mpora is: i) do capítulo 2 ao 14, a ação
decorre ainda durante o reinado de D . Fernando ; ii) entre os capít ulos 15 e 41, são
evocados os acontecimentos que ocorreram durante a Crise de 1383-1385 , ou seja,
entre a morte d´ O Formoso (em 22 de outubro de 1383) e a eleição d o Mestre de Avis
como rei de Po rtugal (a 6 d e abril de 1385, data em que se assinala t ambém a
nomeação de N un´Álvar es como condestável do rein o); iii) do capítulo 42 ao 79 são
destacados os acontecimentos mais relevantes da vida de D. Nuno durante o reinado
de D. João I, até ao ano da morte do condestável (MONTEIRO, 2017a, p. 41).
A composição da obra é centrada, sobretudo, na carreira militar de
Nun´Álvares
90
, sendo raros os capít ulos que se ocupam d a sua vida íntima e f amiliar ,
excetuando o episódio que relata uma grave doença q ue d uran te três meses atacou o
condestável (CC, cap. L XVII, pp . 19 5-201). Ainda assim, a Corónica do Con destável
espelha d i ferentes traços d a sua p ers onalidade: o p erfil militar associado à imagem do
guerreiro; a posição de fidalgo orgulhoso d a sua condição social; e as man ifestações
89
Dos oitent a cap ítulos da Co rónica do C ondestab re , s etenta e d ois fora m aproveita dos, de forma
diversa, por Fernão Lopes na Crónica d e D. Fernando e, sobretud o, nos dois volumes da Crónica de D.
João I (MONTEIRO 2017a, p. 56). Fernão Lopes d edicou a Nun ´Álv ares capítulos in teiros ( como, p . ex., os
capítulos CXCIC e C C do vol. II da CDJ, a que correspondem o modo de v ida d o cond es tável em tempo de
guerra e em tempo de paz , respetivamente); este facto comprova a gran de admiração d o cronista -mor
pela figura de D. Nu no.
90
Recorrendo à análise an terior, sobressai o facto de mais da metade dos cap ítulos terem sido
dedicados aos quatro anos mais intensos da vida militar do herói, entre 1383 e 1386, justamente
quand o ocorreram os principa is episódios marciais – as bat alhas de Atoleiros, Aljub arrota e Valverde –
assim como a s operações de cerco das p raças que não se r enderam à fação d o Mestre de Avis .
244
O mo narca derrotado abandonou o campo de bat alha após o d erru be da
bandeira de Castela. De imediato, desceram-no de uma mula, de on de assistira ao
confronto, e colocaram-no nu m cavalo. Seguiu em direção a Santarém , que tinha voz
por Beatriz e Ju a n I d e Castela, e d aqui partiu para Lisb oa , ond e embarcou na frota q u e
fundeava no Te j o, rumando a Sevilha com os pou cos fugitivos que aí conseguiram
chegar.
Na p osição portuguesa, o impulso da per s egu iç ão seria rapidamente travado
pelo condestável. A noite cerrada, o receio de emboscadas e a incert eza quanto a u ma
eventual reorganização da hoste inimiga terão sido os principais motivos dessa
decisão. Ao invés, “fazendo -sse bem tarde, foy o Conde posto em gram cuydado de
poer guardas no arreall de n oi te” (CDJ, II, cap. XLVI, p. 110). O reforço do campo era
justificado pelo re cei o de uma nova investida castelhana. Era necessário deso bs truir a
área central do campo, que separava a vanguarda da retaguarda, e reforçar os
dispositivos defensivos, nomeadamente abrindo, onde era possível, mais algumas
trincheiras ou fossos; convinha também reajustar as posições no terreno. Porém,
apesar de todas os receios, o inimigo não mais fo i avistado em campo.
Fernão Lopes descreve a fugacidade da peleja, “ca nom durou a b atalha espaço
de mea pequena hora ataa mostrar- se de todo se er perdida” (CDJ, II, ca p. XLV, p. 10 6).
Este curto i n tervalo de t empo tem correspon dência com o testemunho de João
Fernandes Pa ch eco : “E digo -vos, meu se nhor, que em menos de meia hora estava t ud o
terminado ” (CF, liv. III, cap. 21, par. 93 , p. 89). Devemos, no entanto, considerar que a
construção narrativa de Fernão Lopes, e muito provavelmente a de Froissart , assenta
em horas canónicas, as quais não têm relação com o intervalo d e sessenta minutos das
horas mecânicas, podendo, cada u ma, alongar -se p o r du as a três horas modernas.
Apesar de o dispositivo dos combatentes castelhanos n o terreno, na segunda posição ,
se ter organizado en tr e as cin co e seis da tarde, sensivelmente, a batalha de
Aljubarrota principiara muito próximo do ocaso do sol e terminara ao cair da noite
174
.
174
Alcide de Oliv eira estimou co m pormenor o te mpo solar d o dia 14 de agosto de 1385: o ocaso do sol
às 18h44 m, o escurecer às 19h12m e a noite cerrada a p artir das 20h2 2m (OLIVE IRA, 1 979, p . 121). Com
base nestes valores, e considerando q ue a batalha principiou ap ós as 18h, s erá p ertinente admitir qu e a
mesma terminou j á com uma visibilida de muito reduzida.
245
A partir dessa n oite, “El -Rey est eve tres dias no campo segundo custume de
taaes batalhas” (CDJ, II, cap . XLVI, p. 110), para afirmar a vitória
175
. A carriagem
castelhana foi desprovida de todos os tesou r os e esbulho que abrigava. Os corp os dos
vencidos dispersos pelo campo de batal h a for am despojad os de tudo quant o
possuíam, votados ao abandono e s e m inumação
176
. Se, nas batalhas anteriores e no
cerco de Lisboa , a sangri a de homens de armas já fora significativa, “e m esta b atalh a
reçebeo Castella muy gram perda, assy de condes e mestre e grandes senhores come
de fidalgos e meaã gente e doutro comuum povoo em gran de cantijdade” (CDJ, II, cap.
XLV, p. 108).
Esta pesada derro ta ca stelhana foi o resultado d a articulação de diversas
circunstâncias. Por um lado, uma atempada planificação estratégica por parte do s
Portugueses: a) provocaram o combate; b) escolheram antecipadamente o terreno em
duas posições; c) garantiram uma boa articulação entre as diferentes unidades,
promovendo uma manobra de d iversã o para au mentar a confiança do inimigo; d)
assumiram uma postura defensiva; e) fortificaram o campo de batalha const ruindo
armadilhas para retardar e deitar por terra os cavalos e ergueram obstáculos artificiai s
para proteção das t ro pas defensoras e para re duzir a l argura do ter re no em direção ao
centro da van g u arda. Estas foram algumas das opções mais relevantes tom adas pel o
exército anglo-português, perante a necessidade urgente de enfrentar um ad v er sário
consideravelmente superior. Du r ante a peleja, o recurso intensivo ao tiro com arco e
com b esta reduziu o n úmero de inimigos que alcançaram a frente portuguesa,
conseguindo até, em alguns momentos, g er ar vantagem sobre estes; exemplar foi
também a articulação dos corpos táticos em mo mentos d ecisivos do combate,
nomeadamente a ro taçã o das alas e o avanço oportuno da retag uarda , que evitara m
que a vantagem transitasse para o inimigo.
175
Sobre este preceito, recorre mos à s palavra s de Saul Ant ónio Gomes: “N os tempos m ediev ais, era
costume o comand ante vitorioso permanecer no campo de batalh a nos três dias imed iatos ao sucess o.
Era uma prática simbólica relacionad a com as p raxes próprias que o triu nfador devia cumprir p ara ver
reconhecido esse mesmo triunfo. Não se afastou muito D. João I , pois, do campo da batalha, entre os
dias 15 e 17 de Agosto ” (GOM ES, 2014, p. 19).
176
D. João I ap enas ordenara o sepultam ento de João Afonso Telo “ e mais nom. E o s outro s jazijam p er
esse campo, e muytos d eles nuu s sem n enhum vestido, po rque os vijllaãos e gentes d a terra nom lhe
leixavom nenhuma cousa; e era muy to que as aves ne m lobos nem caães no m sse chegavom a ell es pera
os aver de com er” (CDJ, II , cap. XLVI, pp. 110- 111 ).
246
Do lado do adversário, também se verificou uma conjugação d e fatores táticos,
porém, neste caso, de forma nefasta. O infortúnio de D . Juan I começou logo pelas
divergências entre Franceses e Castelhanos e por uma descoordenação provocada, em
parte, pela pluralidade nas vozes de comando. Acresce ainda: a) a au s ência de capitães
com experiência; b) a doen ça do monarca; c) a prec ipitação da inv est ida; d) a
negligência no reconheci mento da p osição portuguesa. Nos momentos deter mi n antes
da batalha, d estacamos : a ef icácia das armadilhas; o poder de tiro dos au xiliare s
ingleses, com os seus temíveis arcos longos; o at r aso no avanço da re taguar d a
castelhana; e o seu encurralamento após romperem a vanguarda por tuguesa.
Figura 24 - I luminura sobre a Batalha de Aljubar rota e m:
Anciennes et nouvelles chroni ques d'Angleterre , de Jehan d e Wavrin (1470 -1480) MS 14 E IV f. 204
Fonte: http ://www.bl.uk/catalogu es /illuminated manuscript s/ILLUMINBig. ASP?size =big&IllID=57346
No domínio estratégico, devemos assinalar u m dos p ri ncipais trunfos da
coligação an glo-portugu esa: a Primeira Posiç ã o . Ao longo deste trabalho, iremos
explorar esta temática e tentaremos propor uma localização no terreno (nunca antes
sugerida), assim como an alisar a su a f unção estratégica em d etalhe (temática que
deixaremos para o ú ltimo capítulo). No enta nto, podemos a diantar que, aquando do
avistamento d os exércitos na p rimeira posição, num local extremamente d efensáv el e
claramente inconciliável com a utilização da c avalaria pesada, não seria de todo
expectável que o inimigo concebesse atacar. Se r ia quase certo que declinassem travar
batalha nas condições que lhes eram propostas.
247
Todavia, ainda que à partida não tivessem intenção de combater, o perfil mais
discreto d a segunda posi ção e a aparente busca forçada de u m novo cam p o de batalha
pelos Po rtug ueses criaram uma ilusão de superioridade e deram à hoste de D . Juan I
uma sensação de confiança. Esta autêntica manobra d e diversão permitira “garantir a
escolha do terreno de b a t alha de uma forma que assegurasse alguma vantagem táctica
e que, simu l taneamente, não i nibisse o a dv ersário de acei tar o combate que lhe estava
a ser proposto” (MONTEIRO, 2009, p. 104).
Realçamos este efeito i lu sório provocado p ela segunda posição portuguesa,
que, apesar d e adequada a uma nova estratégia (ref orçada pelos declives lat erais do
terreno), não parecia de todo insuperável, além de representar (para Castela ) uma
clara melhoria relativa mente à prime i ra posição , essa sim, realmente in exp ugnável.
Consequentemente, “o exército castelhano não reconheceu convenientemente o
campo de batalha e não se terá apercebido dos obstác ulos artificiais abertos no
terreno. Julgou ter obrigado o ad v ersário a refluir pa ra u ma posição de recurso (a uma
cota até in ferior à sua) e deduziu que, naquele caso con cre to, dar batalha não
constituiria um erro grosseiro, nem violari a nenhum preceito de prudência”
(MONTEIRO, 2010, p. 186). O resultado d o confronto acabaria por não cor responder
de todo às pretensões do monarca de Castela…
3.5 – Modus operandi de Nun´Álva res
Nos confrontos que t emos vind o a anunciar, ocorridos n o quadro da Crise de
1383 -1385 , a pre s en ça de Nun´Álvares Pereira foi quase uma constante. Excetuando a
batalha de Trancoso, que ficou a cargo da fidalguia regional, o sucesso de Atoleiros , o
amargo d e b oca n o Divor e o t remendo sucesso obtido em Aljubarrota pontuam um
percurso militar muito interessante e raro na Eur opa do seu tempo.
A eficácia (e fama) da sua voz de comando teria continuidade em confli tos
posteriores, fossem ele s no âmbi t o d a guerra de guerrilha ( q ue tanto apreciava), em
operações de cerco ou em b atalha campal. Neste p onto, destacamos a sua prestaçã o
na bat al ha de Valverde (Mé rida, Castela), escassos meses após Aljubarrota (em inícios
de outubro de 1385) e a sua presença, já veterano, na conquista de Ceuta, em 1415.
248
A intervenção p r eponderante de Nun’Álvares em combate, visível em todas as
contendas em que se en volve u, demonstra um génio militar com notável
conhecimento (pr á tico e teórico) d a arte d a guerra. Importa, por esse mo t ivo, dedicar
um pouco d e espaço e d e temp o a Nun´Álvares p ara melhor compreendermos o seu
sucesso em Aljubarrota. A dimensão dos conflitos em que se envolveu e de que saiu
quase sempre vitorioso (pese embora o impasse em Divor , Nun´Álvares nunca sofreu
uma derrota em combate), assim como uma d evoção religiosa exacerbada e que
terminou em clausura monástica, envolveram a sua figura numa espécie de aura mítica
– a de guerreiro e de santo. Será, por isso, prudente “reduz i r Nunalvares Pereira ás
suas qualidades de ho mem de guerra que foram notaveis e mostrar como elas se
exerceram na sua época (...) E deste mo do, reduzindo o h eroi ás proporções que lhe
são devid as, sem o considerar predestinado ou com vocação sobrenatural, conclui -se
que não inventou o quadrado de infantaria nos Atoleiros; não fez milagr e nenhum em
Aljubarrota; não teve qualquer revelação em Val verd e ” (PIMENTA, 1933, p. 15).
As f ontes narrativas que for necem dados biográficos segu ros sob re Nun’Álvares
reduzem-se praticame nte à Corónica do Condestabre , de au tor anónimo, e à Crónica
de D. João I , da autoria de Fernão Lopes
177
. Nascido, provavelmente, em Cernache do
Bonjardim, a 24 de ju nho d e 1360, era filho de Álvaro Go nçalves Pereira (c. 1314-
1380), Prior e M es tre da Ordem Militar d o Hospital em Po rtugal , e de Iria Gonçalves ,
cuvilheira d e D. Beatriz (filha do rei D. Fernando). Nuno tinha mais de trinta irmãos e
irmãs, nascidos d e mulheres d i ferentes com quem o Prior do Crato se relacionara ao
longo da sua vida. Sobre a su a educação, a Corónica do Condestabre apenas adianta
que d ecorreu nas propriedades do pai, onde aprendeu a montar e a caçar (CC, cap . III,
p. 12).
Álvaro Go nçalves Pe re ira, que era filho natural do arcebispo de Braga , D .
Gonçalo Pereira, cumpri ra serviço nas cortes de D. Afonso IV , de D. Pe d ro I e de D.
Fernando, reuni ndo u ma fortuna importante; m u i to jovem, tornou -se Prior do Hospi tal
(sucedendo a seu tio -avô, Estêvão Vasques Pimentel ); foi D. Álvaro quem, em meados
177
Não será demai s recordar q ue ap esar de se trata r de uma crónica régia, Fernão Lo pes não escond e
uma grande admiração pela figura d e Nun´Álvares, não se comedindo em palavras de exaltação, nem
em dedicar -lhe capítu los inte iros da ob ra. Inclusiva mente, segue de p erto, ou at é repr oduz, a quase
totalidad e dos capítulos da Corónica do Condestab re na sua Crónica de D. Joã o I ; são po ucos os ca sos em
que Fernão Lopes rebate a versão da Corónica do Con destabre , de que não usa apenas oito capítulos
(MONTEIRO 2017a, p. 56).
249
do séc. XIV, transferiu a sede do priorado do Hospital, de Leça do Balio p ara Flor da
Rosa, p erto do Crato. Por conseg uinte, parte d a infância e adolescência de Nun´Álvare s
seria infl uenciada p el o p ermanente contacto com elemen tos da ordem hospitalária ,
cavaleiros religioso s com experiência bélica. A su a educ ação seria, com elevado grau
de p r obabilidade, moldada ao espírito cavalei resco e devot o, característico desta
Ordem. A destreza no manejo de armas e o domínio n a montaria eram alguns d os
requisitos da aprendizagem neste meio.
A Corónica realça também o gosto do jovem Nuno Álvares pela leit ura
cavaleiresca, nomeadamente d os romances arturianos
178
: “havia gram sa bor e usava
muito d e ouvir e leer l ivros d´estórias, especial mente u sava mais leer a estória de
Galaaz, em que se continha a soma da Távola R edonda, e por que em ela achava que
per virtude de virgindade, que em ele houve e em que p erseverou Galaaz, acabara
muitos grandes e notávees feitos que outros nom p oderom acab ar. E ele desejava
muito d e o parecer em algũa gu isa e muitas vezes em si cuidava de ser virgem, se a
Deos prouvesse” (CC, cap. IIII , p. 12). Tem sido muitas vezes assi n alada, a este re s p eito
e com base nesta passagem, u ma cer t a inspir ação de Nuno na figur a lendária d o
cavaleiro Galaaz
179
. A par das leitur as cavaleirescas, a familiaridade com os trat a dos
militares (pelo menos a Epitoma rei militaris , de Flávio Vegécio Renato) e com algumas
narrativas bélicas antigas era também possível, e habitual, neste meio.
Nos capítulos da Crónica dos Carmelitas q ue frei José Pereira de Sant’Anna
reservou a Nu n´Álvares , fundador do convento lisb oeta d o Carmo (qu e viria a ser
destinado a essa Ordem Monástica), é possível encontrar uma pequena nota sob re a
instrução let rada e marcial do futuro condestável : “at é contar os treze teve na mesma
Quinta [d a Amieira em Flor da Rosa ] a boa edu ca çaõ, e doutrina, que se podia esperar
178
Esta tra nsmissão literária c onsid era “as influências d a França do No rte, que trazem con sigo o s
romances de cavalaria e a m atéria da Bretanha (...) Com o desenvolvim ento da literatura vassálica e
cortesã, na poesia e na p rosa, é possível que a clientel a preferencial da épica e do s romanc es d e
cavalaria se encontra sse particularmente nas o rdens militar es” (MATTOSO, 1 997, p. 33) .
179
Os finais da Idade M édia tro uxeram “a s versõ es p ortuguesas d os ro mances arturian os, essa espéci e
de simbiose entre as v elhas canções de gesta e a lírica trovadoresca que can tava o amor cort ês ”
(MONTEIRO, 2017a, p. 26) . A figura de Galaaz “permit e estab elecer paralelos com o No vo Testamento,
tornand o- se Galaaz o «Cristo da Cavalaria» ” ( idem , p. 28). Depreende -se que N un´Álvares , “ap esar da
sua ‘mesura’ – condição fundamental da cortesia –, era ad epto fundamenta lmente não da ‘ca valaria
cortês’, cujo paradig ma bretão fora Lancelot e e, na Pen ínsula Ibérica, A madis d e Gaula, mas, sim, da
‘cavalaria espir itual’, seguidor a das virtudes cri stãs encarnad as por Galaaz, o ‘puro d os puros’, o mel hor
dos cavaleiros do rei Artu r” (MALEVAL, 2012, p. 128 ).
250
de pay taõ ill ustre. Para receber os primeiros rudimento s mostrou sempre genio taõ
habil, que ap e nas foy encaminh ado, logo deu a conhecer affecto ás virtudes: e posto
que sem repugnancia ás letras, sua particular inclinaçaõ era para as armas” (CC, I,
Parte III, cap. II, p. 289).
Com apenas tr ez e anos Nun’Álvares ingressou na corte de D. Fernando, onde
viria a conhecer e a privar com D. João, Mestre d e Avis
180
, ligeiram ente mais velh o do
que ele. Decorriam as gu erras fernandinas e a presença de Castelhanos no reino
português era assídua. Nun´Álvares seria requisitado para operações de exploração d o
terreno, ou enviado como «inculca» (na companhia de um seu irmão) ao arra ial
castelhano. A determinação e eloquência demonstradas n as suas missõe s valeram - l h e
a atenção do monarca, e d a rainha Leo nor Teles que o tomou como seu esc udeiro log o
em 1373. Co m dezasseis anos (em 13 76), seu pai p rovidencio u -lhe matrimónio com
uma rica viúva fidalga de Entre Dou r o -e-Minho (D. Leonor d e Alvim), um procedimento
habitual que t inha em vista assegurar alguma fortun a para os filhos segundos, sem
direito à herança d es t i nada ao filho varão. Ap esar de a sua p retensão ser (a
acreditarmos nos croni stas) manter- se casto e d edicado apenas aos preceitos da
cavalaria, Nuno acedeu em casar, após ter sido pressionado nesse sen tido por
familiares e, inclusivamente, p elo pr óp rio rei. Rumou então ao norte e assu miu a
condição de f i d algo e de senhor feudal dos domínios qu e perte nciam à sua esposa. D os
três filhos que t eve, os dois p rimeiros, rapazes, viriam a sucumbir na infância, apen as
sobrevivendo Beatriz Pereira de Alvim , que mais tarde se casaria com o infante D.
Afonso
181
, filho natural do rei D. João I .
Poucos anos volvidos, Nuno recebeu a notícia d a morte de seu p ai
(provavelmente n o verão de 1380). O cargo de Prior do Hospital transi t ou então para o
seu irmão mais vel ho, Pedro Álvares, entretanto colocado ao serviço d o reino como
fronteiro na região do Alentejo. Com a intensifica ção d a terceira g uerra fernand ina e a
invasão do reino por parte de D. Juan I, o jo vem Pereira seria chamado do M inho para
180
As primeiras re ferências mi litares de Fernão Lopes sobre o Mes tre de Avis ocorre m ju stamente nesta
fase do conflito luso -castelhan o. O Mestre, com entã o dezasseis anos, respondia diretamente ao seu
irmão, D. Fernan do, sobre as op erações militares em que p articipava, a tít ulo d e exemp lo, em Torres
Novas a “ cad a dia mandava saber que fazia el -rrei, e se ju ntava alg ũ uas gente s, rrecea ndo-sse que s s e
ouvesse d´aver batalha, que nom curaria d´elle porque era moço” (CD F, cap. LXXII, pp. 253 - 25 4) .
181
Deste matri mónio e da con jugação dos b ens patrimoni ais e dos título s do ados ao s n oivos pelo
condestável e por D. João I re sultaria a Casa de Bragança , mais tarde responsável p ela g énese da quarta
e última dinastia p ortuguesa (iniciada por D. João IV em 164 0).
251
ajudar nas campanhas militares contra Castela . “Nuno Álverez , tanto que vio o recado
del rei, prouve-lhe delo e logo, sem outra t a rdança, se gu iso u do que lhe compria e se
foi a Portalegre aa frontaria, pera seu irmão, e levou consigo xx v hom ẽ s de pee,
escudados, e todos bõos hom ẽs e pera feito” (CC, cap. VIII, p. 2 0).
O conf li t o com Cas t ela adq uirira contornos q uase permanentes e a d edicação
de Nun´Álvares mostrou estar à altura das circunst â ncias. Ao longo dos meses
seguintes, envolveu-se em d iversos confrontos e missõe s, destacand o-se a def esa de
Lisboa, d e onde partiu em segredo (contrariando as ord e ns do irmão e superior
hierárquico) p ara tentar participar na grande «B atalh a Real» que parecia estar
iminente entre Elvas e Badajoz . Ensaiou a sua voz d e comando junto d e p e quenas
milícias armadas em operações de guerrilha, instigou, sempre que parecia oportuno, o
confronto e deve ter acompanhado os contingentes militares em que, entre 1381 e
1382, se integraram os auxiliares i ngleses do conde de Cambridge .
Apesar da sua j uventude (estava então no início dos seus vinte anos), a situação
conflituosa com Castela permitiu-lhe aumentar a experiência marcial, não apenas d o
ponto d e vista tático, mas t am bém estratégico. Est e era t ambém o mo mento da
reforma militar ordenada por D. Fernando e da disseminação de uma nova forma de
guerrear, inspirada nos sucessos retumbantes obtidos pelos Ingleses na Guerra dos
Cem Ano s e t ra nsmitida por mercenários estrangeiros, incluindo “três escudeiros
ingleses que eram seus capitães (...) e s ó aqueles t rês t i nham mais de cinquenta anos,
e er am todos bons h om ens de armas e experientes n a guerra” (CF, liv. III, cap. 19, p ar .
34, pp. 26-27).
Na linha da frente da difusão deste novo modelo de fazer a guerra encontrar -
se -iam Nun´Álvares e o Mestre de Avis, ambos empenhados na def esa do reino face à s
investidas de D. Juan I durante a t erceir a g uerra fernandina; será, p or esse motivo,
legítimo assumir que talvez “tenha sido em convívios d es te t i po que o jovem Nuno
Álvares ouviu pela primeira vez, da boca dos mercenários do c onde Edmundo de
Cambridge, uma descrição dos dispositivos tácticos u tili zados pelo s exércitos ingleses
em Crécy e em Poitiers , e de que certamente se recordou quando dispôs os se us
homens nos campos de batalha d e Atoleiros e Al jubarrota ” (MARTINS, 20 13 , p. 30). De
facto, no decurso do segundo trimestre de 1385, enquanto comandava operações de
cerco e tomada de praças em Entre Dou r o -e-Minho, o condestável já se f a zia
252
acompanhar p o r arqueiros ingleses, muitos dos quais viriam, provavelm ente, a pisar o
campo de batalha de Aljubarrota
182
.
Com o prematuro fale ci men to de D. Fernando e a instabilidade govern ativa
decorrente da crise sucessória, o Mestre de Avis mob ili z ou Nun´Álvares para a sua
empresa, sendo ambos ainda bastante jove ns (João nascera em 1357 e Nuno em
1360). Esta c u mplicidade, fortalecida pela anterior ligação d e ambos à corte r égia e
pelo envolvimento conjunto n a t erceira guerra fernandina, contribuiu para que o
Mestre encarregasse Nun´Álvares de op eraçõe s milit a res de muito relevo, mesmo
contrariando a vontade e opinião de al guns elementos do seu Conselho restrito, como
Álvaro Pais ou o Dr. João das Regras .
O jovem Nuno assumiu fielmente a causa do partido do Mestre de Avis e
colocou-se ao seu serviç o em Lisboa . Nessa alt ura (inícios de 1384), D . Juan
encontrava-se em Santarém para reclamar a coroa em nome de sua esp osa , Beat riz , e
para avançar sobre Lisboa, de maneira a con ter os partidários d o Mestre. Após
algumas missões ordenadas a Nun´Álvares em redor da capital, nas quais sempre
mostrou grande coragem para enfrentar o inimigo, o primeiro cargo militar relevante
atribuído a Nun’Álvares , na primavera de 1384, se ria o d e fronteiro de Entre Tejo-e-
Guadiana , ou seja, de superintendente da raia al en tejana.
No exercício das suas fu nções como fronteiro , Nun o destacou-se pela intuição
tática e pela sagacidade estratégica. Tinha agora um importante cargo d e com ando,
mas exigia a fid el idade e obediência dos seus subordinados, como sempre o fizera em
relação àqueles que respondiam às suas orden s. Por esse motivo, ensaiou um
simulacro às portas de Setúbal , como já anteriormente descrevemos, p ara t estar a
presteza e lealdade dos seus h om ens. Os preceitos militares eram c umpridos com
rigor, e em tod os os seus aquartelamentos valorizava a defesa e a vigilânci a: “a nte que
se asent asse a comer mandou p o er a tiro de b eesta, e mais em certos ou teiros, suas
atalaias, que nom podessem per a estrada p assa r nenhũa gente de que ele parte nom
soubesse, porque ele havia por costume n unca se alojar em logar, de dia, que nom
tevesse atalaias e, se e ra de noite, guardas e escuita s” (CC, cap. XXXI, pp. 87 -88).
182
Estes au xiliares ingleses pa rticiparam nas operaçõ es d e cerco que antecederam a b atalha de
Aljubarrota . Fernão Lopes assinala a presença d e arqueiros ingleses n a to mada de Po nte d e Lima : “E
move(o) apre ss a pri meiro (os) d e pee e vij nte de cavallo, ingreses frecheros” (CDJ, II , cap. XVII, p. 33).
253
Recordamos que, às portas de Estremoz, antecedend o a b a talha de Atoleiros, ordenou
que todo o arraial fosse apalancado , como med ida d e segurança contra ataques
furtivos
183
.
Em combate, tomava sempre posição n a vanguarda e ordenava a formação
respeitando o mesmo modelo: “hordenou sua batalha d avamguarda e reguarda e allas
dereita e ezquerda; sa ber, el navamguarda, que doutra pessoa nunca fiava” (C DJ, II,
cap. LIV, p. 133). Esta permanência na vanguarda servia p ropósi tos táticos de que não
abdicava, como viria a frisar perante D. João I , durante a campanha anglo- portuguesa
em Cast ela , em 1387: “respomdeo o Comde, e disse: Senhor, minha vomtade he firme
de t o do, que em q uamt o vos D eus leixar teer este p o der que vos temdes e eu amdar
em vossa companha, de nu nca leixar a avamguarda a nenhuuma pesso a , nem ajmda
em outro logar homde eu com minhas gemtes f or (…) E assy o c ost umava d e feito, qu e
nas batalhas que o Comde per sy mesmo fazia, el era sempre na avanguarda e nom a
fiava de nenhuum outro; d izemdo que nom queria teer cu i d ado q ue a avan guarda
desbaratada, ouvesse de sseer acorida da reguarda” (CDJ, II, cap. C, pp. 214- 215).
A disposição dos combatentes no campo de batalh a replicava geralmente o
modelo inglês, apeado e em posição d efensiva, distribuídos por vanguarda , retaguar da
e alas avançadas, podend o concentrar os atirador es em dif eren tes pontos da
formatura, consoante o terreno o recomendasse
184
. Apesar da constante inferioridade
numérica face às hostes castelh anas, t a nto em peões como em cavaleiros (homen s de
armas), Nun’Álvares se mp re se dispôs a combater o inimigo em campo ab erto,
recorrendo a certos requisitos que p ermitia m compen sa r est a inferioridade. A
preferência p elo confronto em campo aberto (de facto, repudiava as operações de
cerco
185
), a primazia n a escolha do t e rreno, a re de d e informadores e esp iões, o
183
Este aca utelamento torna -se uma con stante ao longo da leitura das cróni cas; p. ex. “mamdou d e
noite poer suas guard as e escuita s como avia em costum e” (CDJ, I, cap . CXLV, p. 259).
184
Recordamo s qu e, em Atol eiros, uma força i mportante d e atiradores foi colo cada at rás da retaguarda ,
para aproveitamento da inclinação frontal d o terreno, ao passo que, em Aljubarrota , os at iradores
engrossaram a s ala s de for ma a retardar o avanço d a cavalaria in imiga e o choque desta com a
vanguarda de Nun´Álvares ; neste caso, o s corpo s d e atiradores for mados por ar queiros foram,
inclusivamente, t odos concentra dos na ala esquerda, pelos motivos que anteriorm ente expusemos.
185
Nu no Álvares sempre mostro u desagrado p elas op erações d e cerco: “sua comdiço m n om era mui
theuda em comth inuar çercos, nem jazer sobrelles, por o gram periigoo qu e sse al gũas vezes segue,
dizemdo que no campo o avia dach ar, quallq uer cousa que lhe a maão vehes se; e q ue qu em ve mçesse e
ouvesse a praça, lig eiramente cob raria os logares çercados ” (CDJ, I, c ap. CLXXII, p. 323 ).
260
no m esmo planalto. Desta forma, “foi forçado a el rei e ao conde estabre mudarem
suas batalhas” (CC, cap. LI, p. 140 ), is to é , o exército anglo-português teve de inverter o
dispositivo e de dispor a formação em outro local. Tais f or am os ‘preliminares’ d a
Batalha de Aljubarrota.
Claro que a ocorrência de um combate numa “segunda posição ”,
aparentemente d e recu r so, pressupõe a existência de uma posição ant erior, ou seja,
de um primeiro local onde os conti ngentes se encararam mutuamente, mas não s e
confrontaram fisicament e. Est a primeira f ren te constituiria uma posição est ratégica e
não uma posição de combate . Pe rmanece, contudo, omissa nas font es a sua
localização p recisa, isto é, a área exacta onde começou por estar implantada a hoste
anglo-portuguesa. Apenas algumas das f o ntes esboçam, de uma forma mu ito sucinta,
a de scrição morfológica da encosta, p rinci palmente as fontes de origem castelhana.
Imaginamos que o tenham feito numa tentativa de explicar que a recusa e m combater
neste local se ficou a dever à configuração natural do terreno, t o talmente desfavorável
a uma ofensiva militar.
Na Corónica do Cond estabre nada é d ito sobre esta primeira posição . F ernão
Lopes, por seu lado, apenas descreve a vegetação e a planura do local (planalto). No
entanto, importa destacar que es te cronista confirma que a escolha do terreno e a
interceção da marcha do inimigo se deveram à iniciativa portuguesa: “ e d igamos logo
del Rey de Portugall que a pos primeiro [a batalha] e esperou a praça. O quall em
huum campo chaão cuberto de verdes hurze s, no meo da estrada por homde os
castellaãos avyam de vijr” (CDJ, II, cap. XXXVIII, p. 84).
Entre os autores não portugueses, o cronista ca stelhano Pero López de Ayala
descreve a morfologia do planalto de São Jorge da seguinte forma: “ una p laza que de
las dos p artes era llana, e de las otras dos partes avía dos valles; e allí ordenó su gente ”
(CRC, Rey Don Juan I , ano VII, cap. XIII, pp. 595 -596). Ora, esta descrição ad equa-se ao
perfil do planalto em geral, cuja crista é plana e os flancos p e rcorridos por dois vales,
não se esp eci ficando por isso as características particulares d a primeira posição ; de
resto, é quase certo que aquela citação de López d e Ayala p r etende re ferenciar
sobretudo o local onde efetivamente se feriu a batalha. Quanto ao cronista francês,
Jean Froissart, t ambém ele nada adianta relativamente à en cos ta do topo norte do
planalto.
261
Da autoria d o próprio mon arca castelhano, D. Juan I, na sua carta d ir igida à
cidade de Múrcia, p r ovém a descrição mais detalhada deste local. Justifica,
precisamente devido ao perfil do t e rreno, a busca d e um novo campo de batalha:
“E llos se pusieron aquel dia desde la mañan a en una Plaza fuerte entre dos arroyos, de
fondo cada un o diez, ó doce brazas, y quando nuestra gente aí llegó, y vieron, que no
les podían acom eter por allí, hubimos todos de rodear para venir á ellos por ot ra parte,
que nos p areció ser mas lhan o ” (CASCALLES, Discurso VIII, Reynando Don Juan el
Primeiro, cap. XII, p. 197). Reforçamos o pressuposto de que o recort e d o t erren o
inviabilizava o ataque da cavalaria franco-castelhana, e isso mesmo diz o monarca ao
referir que ‘não podiam acometer por ali’ ; con sequentemen te, seria m for ça d os a
procurar um t erreno ‘ mais plano ’. Além de configurar uma ‘praça - forte’, certamente
difícil de alcançar e mais ainda d e romper ( considerando q ue o acentuado declive
frontal quebraria o ímpeto de uma investida), a posição anglo -portuguesa era ainda
defendida nos flancos por desfiladeiros com dez a doze braças
188
(po uco mais de vinte
metros) de profundidade (voltaremos a este ponto), s egundo a apreciaçã o do monarca
trastâmara. Os contornos ravinosos dos flancos imp ediriam qualquer marcha de
progressão neste sentido e protegeriam a host e de eventuais manobras d e
flanqueamento. A evidência destas dificuldades acabou p or levar a hoste de J uan I a
procurar um terreno mais adequado a uma ofensiva eficaz.
Retomando as descrições do local, a obra de Juán Rodriguez de Cuen c a
(dispenseiro-mor da rainha D. Leonor, a prime ira esp osa de D. Juan I), enfatiza o
acentuado declive d a encosta, ao d i z er que os portugueses “ estaban puestos en un
gran recuesto ” (CUENCA , 1781, p. 80). Mais tarde, Cristóbal Lozano, na sua obra do
século XVII intitulada Los Reyes Nuevos de Toledo , reforça a inexpugn abilidade do
local, d escrevendo a p rimeira posição como uma “b uena plaça p ara pelear, y ceñianla
los costados los valles barrancosos, por donde no pod ia el enemigo h a zerles daño con
su cavalleria. En est e sitio, p ues, y con muy b ue n a orden a nça se estuvo el Po r tugues
188
A braza , ou braça, correspon de a uma medida náutica para medir p rofundidades, com origem no
termo brazo , i. e., braço. A medida equivale a d ois braço s estendidos, cerca de 1,6 metros para a b raça
castelhana, muito próxima da portugu es a e d a ingl esa, q ue media o sem elhante a 1 milha náutica, ou
seja, 1,8 metro s. N o Eluc idario , o termo corre sponde a “Bara za. Braça, medida d e dez palmos”
(VITERBO, 1865, vol. I, p. 121) . Considerando o p almo de 22 cm, uma b raça podia equivaler a 2,2 metro s,
elevando as 10 a 12 braças de D. Juan I a u m intervalo d e 22 a 26 metros. Frederico Alcide de Oliveira,
em Aljubarrota Dis secada , considera para a braça terrestr e o mesmo valor d e “2,2 m (em Po rt., 1,859
m.)” (OLIVEIR A, 1979, p. 119).
262
quedo, y rehacio, esper ando que le acometiessen: que es lo mesmo, que estàr entre
dos murallas, esperando el choq ue” (LOZANO, RNT, livro III, cap. IX, p. 288). O au tor
confirma a descrição do mon arca: por um lado a inviabilidade em ‘causar d ano com a
cavalaria ’, por outro os ‘vales b arrancosos’ equiparados a duas muralhas, d e forma a
ilustrar a fortificação natural da posição escolhida.
Apesar das descrições (quadro 2), as fontes d e que dispomos não permitem
identificar o local preciso desta posição. As referências morfológicas considerad as nas
fontes são extensíveis a uma vasta área d a encosta norte do plan al to, desde a zona de
aluvião, na base, até às cot as mais elevad as, n o topo, não apontando para uma
localização exata, ou sequer aproximada.
Recorrendo n ova mente a Fern ão Lopes, este autor contradiz a d escrição de
López de Ayala , alegando que “ally nom avya melhoria de camp o que os portugueses
tevesem escolhido, nem montes nem valles que t orvassem seus c omtrairos, como
alguuns mal escprevendo em seu s livros querem contar; ca todo era campina ig uall
sem nenhuum est orvo a amballas p artes, a quall o trilhamento d as bestas e passear
dos h omeens tornou assy rasa e tam ch a ã como pravo r esio sem n enhuuma erva”
(CDJ, II, cap. XXXVIII, p. 86). Naturalmente, o cronista português descreve o camp o de
batalha n a cumeeira, a que corresponde a segunda posição . Em outra p assagem,
reforça este aspecto d a p lanura d o terreno, insistindo em que “hi nom há valles nem
outeiros q ue lhe nojo pod essem fazer, mas todo he charneca rasa em que caberiam
dez tamanhas batalhas” (CDJ, II, cap. XXXV, p. 76); porém, como referim os, Fernão
Lopes apenas se cinge à área útil ond e decorr eu o co n fronto, a que corresponde a
crista do planalto, omitindo a existência (decisiva) d os vales q ue a ladeiam.
No entanto, o qu e n ão suscita incerteza, insistimos, prende -se com o facto de
terem existido dois momentos da b a talha, em dois locais distintos, por con seguinte ,
duas posições no terreno, ambas situadas no planalto de São Jo rg e . Ainda que não se
conheça o exato local da primeira posição , podemos afirmar com segurança que
estaria num ponto da encosta do lado norte. A segunda p osição seria dot ada de u m
monumento, a Ermida de S. Jorge, construído pouco depois da batalha, e que
salvaguardou a memória da su a localiz açã o. Infelizmente, o mesmo não se ve rificou,
como é compreensível, no horizonte da primeira posição.
263
Fonte
Primeira Posição
Segunda Posição
Pero Ayala
“é puso su batalla á dos leguas
dende en una plaza que de las
dos partes er a llana, é de las
otras dos p ar tes avia dos
valles”
“é pu sose cerca delo os en un
campo llano, é ordenó su batalla"
“tienen d e lante dos valles que
non pueden pasar para acometer
á vuestros enemigos”
Corónica do
Condestabre
-
-
Jean Froissart
-
-
Fernão Lopes
“huum campo chaão cuberto
de verdes hurzes”
“Ca hi nom h a valles n em
outeiros que lhe nojo podessem
fazer, mas todo he charneca rasa
em que caberiam dez tamanhas
batalhas;”
“todo era campina rasa”
“All y nom avya melhoria de
campo que os portugueses
tevesem escolhido, nem montes
nem valles que torvassem se us
comtrairos (...) ca todo er a
campina ig uall sem n enhuum
estorvo a amballas partes, a quall
o trilhamento das bestas e
passear dos homeens tornou
assy rasa e tam chaã como pravo
resio sem nenhuuma erva.”
Carta de D. Juan
(dirigida à cidade
de Múrcia)
“Ellos se pusieron aquel dia
desde la mañana en u na Plaza
fuerte entre dos arro y os, d e
fondo cada uno diez, ó doce
brazas, y quando nuestra
gente aí llegó, y vieron, qu e no
les podían acometer por allí,
hubimos todos d e rodear para
venir á ellos por otra parte,
que nos pareció ser mas
lhano;”
-
Sumario de los
Reyes de España
“estaban puestos en un gran
recuesto que ende estaba”
-
Tabela 2 - Descrição da pr imeira e segunda po sição nas principais fontes docu mentais
264
4.1 – Problemá ticas e objetivos
O presente trabal ho pr etende e fetuar uma análise in terpreta tiva sobre as
problemáticas em torno da Primeira Posição Portuguesa . As mais marcantes
relacionam-se com o propósito est ra tégico d o local, a sua articulação com a segunda
posição (inte ncional ou fortuita) e a sua exata implantação no terreno. A resposta a
estas questões pretende con tribui r com novos elementos para a reconstit u ição teórica
do episódio de Aljubarrota .
A historiografia mais rec ente (em especial a s obras d e João Gouveia Monteiro e
Miguel Gomes Martins) tem vindo a considerar a p rimeira posição como uma manobra
de diversão, no pressuposto de que o seu perfil inexpugnável, nitidamente visível p ara
o adversário, poderia ter din amizado a transferência da peleja p a ra u m a posição de
recurso, ou seja, teria encaminhado o opositor para um local distinto, aparentemente
mais favorável para ele, mas que já teria sido estrategicamente considerado pela h ost e
anglo-portuguesa, a quem coub e a iniciativa estratégica do combate. Por outro la do,
na perspetiva castelhana, os portugueses seriam forçados a abdicar de um a posição de
excelência e , consequentemente, a sujei t ar- se à esc olh a de u ma nova p osi ção, impost a
pela deslocação do contingente do rei trastâmara para um outro local. Esta re núnci a
forçada, juntamente com os condicionalismos da nova posição, d esprovida dos
acentuados recortes que caracterizavam a anterior, sem apresentar um declive f rontal
(pelo contrário, esta nova posição mostrav a uma ligeira inclinação descendente no
sentido sul-norte) e a desvantagem dos ele m entos naturais (sol e vento frontal), que
pelo menos num primeiro momento passaram a fustigar os portu gues es, incutiu ao
inimigo uma co nfiança renovada. Este aspeto peso u ce rtamente n a hora de decidir
combater sem que a nova posição adversária fosse convenientemente r econhecida.
Julgamos qu e est a combinação de elementos en volveria t odo um p laneamento
antecipado e cuidadoso. O objetivo f inal desta ousada estratégia seria , just amente, a
precipitação da in ves t ida fran co-castelhana sob re uma p osição de recurso
antecipadamente prevista e reforçada pelo inimig o.
Assumindo que a articulação entre estas duas posições no t erreno
correspondesse a um preceito estratégico, a primeira posi ção cumpriria uma função
arriscada; ou seja, p o deria surtir o efeito previsto, como aconteceu ao ter levado o
265
adversário a avançar para u ma segunda posição, como também pod eria ter
precipitado a peleja naque la primeira frente, ainda que essa opção fosse bastante
improvável. Podemos ainda supor que es te pri meiro avistamento das host es poderia
motivar o inimigo a furtar- se, de todo, a combater naquele d ia, o q ue seria muito
desvantajoso para as pretensões anglo-portuguesas.
Percebendo os riscos envolvidos, os estrategos portugueses d e veriam
assegurar que a primeira posição se mostrasse de t al forma imp one nte ao adversário
que a recusa de combater ali fosse imediata
189
. D e f acto, o próprio monarca
castelhano assim o diz na sua carta à cida de de Múrcia: “ hubimos todos de rodear para
venir á ellos por otra parte, q ue n os pareció ser mas lhano ” (CASCALLES, D iscurso V III ,
Reynando Don Juan el Primeiro, cap . XII, p . 197). É por esse motivo, para o decurso do
presente pro j ecto, de extrema importância determinar a localiz açã o exacta n o terreno
da primeira posição portuguesa. A través da sua leitura morfológica será possível
compreender a bre vidade da decisão do rei trastâmara, a previsibilidade da mesma ,
assim como a pertinência na articulação entre as duas posições no planalto.
Poderá parecer, numa primeira análise, q ue a determinação do local exato
desta posição é algo de somenos importância. Poderá ser legít imo assumir
simplesmente, e em te rmo s gerais, que ambos os contingentes se avis taram na
encosta norte de S. Jorge e que, perante as circunstâncias especialmente adversas
apresentadas à hoste castelhana, não co mbateram nesta posição, procurando u m
terreno de recurso para o confronto. Já pelo co ntrário, se assumirmos esta primeira
frente como parte int egrante de uma estratégia con se rtada, teremos de reconhecer
que toda a ação posterior (incluindo o co mbate decisi vo na segunda p osição )
dependeu deste posicionamento prévio!
Acresce o facto, como aprofundaremos em capítulo adiante, d e a articulação
simultânea de ambas as posições implicar uma certa gestão dos e fetivos anglo -
portugueses entre as duas frentes, mobilizando uma grande parte da host e para
encorpar a vang u arda à vista do adversário, enquanto a resta nte se d ed icava, um
pouco mais a sul, à fortificação do verdadeiro campo de batalha. Uma vez mais, a
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Fernão Lopes a vança com uma interpretação d istinta: “(… ) pemssando q ue os ca stellaãos como
ouvessem delle s vista, que logo se trabalh assem de o s cometer ” (CDJ, II, cap . XXXVIII, p. 86). No entanto,
tal impulso mo stra-se contrári o a um p laneamento estratégico p rév io, como t entaremos d emonstrar.
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averiguação do exact o l ocal onde os portugueses se disp useram na p rimeira posição
poderá ajudar a compreender melhor como foi desenhada esta eq uação.
A transposição das hipóteses teóricas para a realidade concreta do terreno,
confrontada com a actual morfologia da encosta d e S ão Jorge (adulterada mas, ainda
assim, permitindo uma leitura compatível com a época da batalha), p r essu põe uma
aproximação ao local preciso onde estacionou a hoste portuguesa. A este p rimeiro
objetivo corresponde a nossa proposta de localiza ção.
Após determinar a sua áre a de implantação, será imperativo averiguar se o
local foi dotado de dispositivos defen sivos semelhantes aos encontrados na segunda
posição, nomeadamente covas de lobo e fossos, o que config ura o objetivo seguinte
do projeto. A confirmar , eventualmente, a pre sença d esta evidência, será legítimo
concluir q ue o continge n te português p r eviu combater logo neste local, reforçando a
fisionomia, já de si extremamente f avorável , da s ua p rimeira posição . Por outro lado,
partindo do p ressuposto d e que esta posição serviu estritamente como manobra
estratégica, com vista a p r ovocar um imp ulso tático de re s p osta por parte dos
castelhanos, não seria de t odo necessár io dotar o local de grandes obstáculos
defensivos artificiais. Como referimos, a inexpugnabilidade natural d a posição, por si
só, dissuadiria o adversário de precipitar a ba talha em tais condições.
De forma a cu mprir esta etapa do projeto, optámos por rec orrer a uma fórmula
testada e com resultados com provados. O recurso a uma sondagem geofísica
completada por uma sondagem ar queológica traduz essa pretensão. Os levantamentos
arqueológicos já realizados no campo de São Jorge permitem, inclusivamente, or ientar
o reconhecimento de novas est r uturas defensivas. Po r comp aração tipoló gica e
estratigráfica, é p ossível uma aproximação segura a n ovas evidências arqueológicas.
Encontrando- se a primeira e segunda posições implementadas no eixo do mesm o
planalto, partilham da mesma realidade geológic a dos solo s, ou pelo men os de um
perfil muito semelhante, podendo apenas diferenciar -se no que diz respeito à
espessura das camadas do substrato.
Apesar d e todos os meio s de referên cia de que dispomos para a averiguação d e
um eventual disp ositiv o defensivo an á logo na primeira p osição , pre tendemos
demonstrar a inexistência e d is p ensabilidade desse requisito. Por pouco conven cional
que possa pare cer, a ausência de evidências no terreno poderá servir, neste caso, de
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comprovativo
190
. A interpretação te órica que tent amos transpor para uma
representação de ordem prática, n es t e caso arqueológica, pretende reduzir a primeira
posição à sua qualid a de, n ão m enos importante, de verdadeiro engodo estratégico.
Assumimos, d es t e modo, q ue o recurso a este primeiro reduto se deva a u m
planeamento bastante complexo.
A par d a pesquisa de evidências de estruturas e/ou obstáculos defensivos no
solo, pr ocurámos man ter um olh ar atento sobre eventu ais testemunhos, das mais
variadas t ipologias, que se pudessem relacionar com o dia da b atalha. A existência
desse marcador ajudaria também a definir o local da primeira posição .
Apresentaremos de seg u ida o leva nt amento m orf ológico com base no qual
foram organizados os trabalhos de campo. Além d as características que definem os
contornos deste verdadeiro bastião, foram considerados elementos rela cionados com
a sua geo g raf ia, t opografia, geologia e rede de eixos viários e h í d ricos. A con jugação
destas características permitiu-nos avançar com u ma proposta de identificação do
local de implantação da Primeira Posição Portuguesa .
4.2 – Morfologia
A conceção estratégica que antecipou o momento d a bat al ha teve certamente
em consideração a morfologia do planalto. A decisão, tomada de véspera, sobre o local
onde à partida d esafiaria m o adversário encontra-se claramente sugerida nas crónicas.
Recordamos n ovamente o reconhecimento que o condestável liderou no d ia 13 de
agosto e que, na madrug ada seguinte, trouxe a hoste desde Porto de Mós até um local
por ele escolhido.
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A au sência de evidências ar queológicas poderá ser con testada sob a alegação de os trabalh os de
campo não decorrerem no loc al exacto da primeira po sição , o q ue naturalmente n ão revelaria q uaisquer
evidências relac ionadas com a batalha. Po r esse motivo, dedicámos uma parte con siderável do projeto a
demonstrar a elevada probabilid ade d e o local escolhido para sondagem corresponder ao adequ ado .
Partilhamos da op inião d e que mais locai s da encosta norte do planalto de São Jorge deverão ser
futuramente sondad os para busca de testemunhos relaci onados com a batalha. Contudo, envidámos
desde logo tod os os esforços ao nosso alcanc e, teórico s e práticos, para u ma a pro ximação rigorosa à
realidade dos acon tecimentos. E chamamos ainda a atenção para dois fatores relevantes: i) só se pode
pesquisar n a parte no rte d o plan alto que não foi objeto de construção ou de o utro género d e
intervenção humana que tenha acarretado u m revolvimento profundo do solo; ii) a área ocupada pelo
exército anglo-portu guês ne sta sua p rimeira p osição e ra d ecerto b astante vasta, o que (a ter existido)
obrigaria a um sis tema de entrincheiramento defensi vo amplo, de q ue uma intervenção geofí sica e
arqueológica combinad a, ainda que circunscrita, mais facil mente daria sinal.
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Este primeiro local onde estacionou a hoste portuguesa deveria obedecer a,
pelo menos, d ois critérios fundamentais: i) d ispor d e largura suficient e para acomodar
a for m ação militar de combate (vanguarda, alas e re tag uarda), ain da que
eventualmente u m pouco minguada; ii) configurar uma posição (defensiva) adeq uad a
a combater um inimigo poderoso.
A d escrição morfológica do local p ermite evidenciar esses requisitos. Apesar da
adulteração d e que tem sido alvo, com maior incisão desde que se veri ficou a
expansão urbana em meados d o século XX (o que contribuiu para a modificação do
manto vegetal), os traços principais ma n têm-se. Nã o obstante a erosão, natural e
humana, a que esteve sujeita ao lon g o de seiscentos an os, a encosta do p lanalto de S.
Jorge ainda evidencia os acentuados declives e flancos ravinosos descritos nas fontes.
De seguida, apresentar emos uma descrição dos prin ci pais p arâme t r os da
encosta, alguns com especial interesse para u ma correlação com as oper ações
militares do dia da batalha, outros em proveito das sondagens (geofísica e
arqueológica) que pre vi mos p ar a este terre no. Para o efeito, foram considerados os
declives, os eixos viários, o manto vegetal e a geol ogia dos solos.
Figura 25 - Encosta norte d e São Jorge (Fon te: Google – fev ereiro de 2014)
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4.2.1 – Descrição geral
Segundo a actual d elim itação autárquica, a crista d o p lanalto por onde se
estende a freguesia de São Jorge integra o município d e Porto de M ós, no distrito de
Leiria. O terminus n orte d o planalto é ocupa do pela área de encosta, sobre a qual
assenta a povoação do Casal da Amieira ao longo de todo o d eclive. Esta freguesia
pertence ao município da Batalha , fronteiriço com o de Porto de Mós (nas imediações
da segunda posição). No sopé da e ncosta ergue- s e a vila da Batalha.
A extensão longitudinal do planalto at i nge sensivelmente 4 km, com u ma
orientação su doeste-nordeste n o eixo do Mosteiro de Santa Maria da Vitória , vulgo
Mosteiro da Batalha. A sua altitude d ecresce ligeiramente ao longo d e 3 km, dos 183
para os 133 metros n a cumeeira, no sentido S ão Jorge - Batalha, até atingir a zona da
encosta, onde cai abruptamente para a cota 71 a o longo do quilómetro se guinte.
Encontra-se o planalto circundado por duas ribeiras, c ujas nascentes se
localizam perto d e Chão da Feira, no limiar d a esp lanada, percorrendo os vales
transversais na direção nordeste. A ribeira d o Vale da Mata ocupa a extensão a
nascente, e a ribeira do Vale de Madeiros corre a poente. Uma distância de 750 metros
separa estes dois cursos de água, am bos confluindo para a ribeira da Calvaria, a norte.
O sopé d a encosta é banhado pela ribeira da Calvaria, cujo percurso inflete para
nascente, sendo canalizado através do subsolo d a vila da Batalha até desaguar no rio
Lena. Excetuando a vertente sul, todo o p la nalto é rodeado por cursos h ídricos que
mantêm corrente de água ao longo d o ano. Esta rede híd rica comporta ainda aflue ntes
e linhas de água, algumas das quais ativas apenas sazonalmente.
4.2.2 – Declives
Na sua gene ralidade, o planalto apresenta declives com acen t uado recorte,
excetuando a vertente sul, que p ene t ra numa planície que se estende pela mesma
altimetria. Na área central do planalto en co n tram os, à cota 158, a Ermida de São Jorge ,
um monumento qu e , como já foi referido, assina la a posição aproximada da vanguarda
portuguesa no dia da batalha.
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O itinerário p e rcorrido pelo contingente cas telhano alcançou a Jardoeira perto
do meio-dia, seguindo pela antiga estrada, cujo trajeto passava ju nto à igreja d a
mesma povoação. Deste p onto, deveriam segu ir em f rente descendo à cota da ribeira
da Calvaria para travessia d a mesma (as setas laranja na imagem anterior indicam o
percurso previsto), como referimos, 20 0 metros a oeste da atual ponte do Boitaca . No
entanto, a meio d a en c ost a, após avistarem a posição portuguesa e obedecendo à
ordem d o monarca (ou dos seus assesso res), fletiram para p oente, nas imediações do
atual cemitério da Jardoeira, alterando o itinerário previsto (as setas amarelas na
mesma imagem representam o percurso al ternativo que adotaram).
Pelo seu lado, a hoste anglo-por tugu esa estaria confinada à Est rada Real que
percorre todo o p la nalto, sendo sobre este eixo que articulou as suas duas posições no
dia da batalha, conforme refere Fernão Lo pes .
4.2.4 – Manto vegetal
A cob ertura vegetal que cobre o planalto en co ntra- se bastante adulterada, em
grande medida devido à intervenção humana na paisagem. A par dos seis séculos de
erosão geológica natural, a florestação massiva, a agricultura mecanizada e a expansão
urbana descaracterizaram a paisagem medieval.
Atualmente, o manto encontra -se coberto p or extensõe s de solo arável e
agricultado, manchas densas de floresta de pinheiro e eu calip to, algumas áreas
florestadas por árvores de menor porte (p. ex., oliveiras e árvores de fruto) e parcelas
de terreno preenchidas essencialmente por vegetação rasteira.
Alguns indicadores, ainda que fugazes, d escritos nas fontes permitem u ma
aproximação paisagística à ambiência medieva. Desprovido de malha urbana e de
áreas agricult adas e florestadas em extensão, o plan alto daria lugar a uma paisagem
pre dominantemente ocupada p or veget ação rasteira, as t ais “ verdes hurzes” descritas
por Fernão Lopes , dispersas por uma “charneca rasa” (CDJ, II, cap. XXXV, p . 76). Esta
realidade é também sugerida pelo cronista francês, Jean Froisssart: “Se sabeis aqui
perto algu m lugar onde haja sebes e arbustos, fazei - nos ir p ara essa par t e” (CF, cap.
19, par. 36, p. 32). Estas rama ge ns terão servido, sob retudo, para encob rir os
dispositivos defensivos do campo d e b atalha, nomeadamente as “ mu chas fosas
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